Helvécio Ratton: O Cinema Além das Montanhas por Pablo Villaça - Versão HTML

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Helvécio Ratton

1

O Cinema além das Montanhas

Governador

Geraldo Alckmin

Secretário Chefe da Casa Civil

Arnaldo Madeira

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretora Financeira e

Administrativa

Nodette Mameri Peano

Chefe de Gabinete

Emerson Bento Pereira

Núcleo de Projetos

Institucionais

Vera Lucia Wey

2

Fundação Padre Anchieta

Presidente

Marcos Mendonça

Projetos Especiais

Adélia Lombardi

Diretor de Programação

Rita Okamura

Coleção Aplauso Cinema Brasil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Projeto Gráfico

e Editoração

Carlos Cirne

Assistente Operacional

Andressa Veronesi

Revisão Ortográfica

Heleusa Angélica Teixeira

Tratamento de Imagens

José Carlos da Silva

Helvécio Ratton

O Cinema além das Montanhas

3

por Pablo Villaça

São Paulo – 2005

©

2005

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação elaborado pela Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Villaça, Pablo

Helvécio Ratton : o cinema além das montanhas / Pablo Villaça. – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : Cultura – Fundação Padre Anchieta, 2005.

440p.: il. – (Coleção aplauso. Série cinema Brasil / coordenador geral Rubens Ewald Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (Obra completa) (Imprensa Oficial) ISBN 85-7060-370-3 (Imprensa Oficial)

1. Cinema – Produtores e diretores 2. Cineastas – Brasil 3. Cinema – Brasil

– História 4. Ratton, Helvécio – Biografia I. Ewald Filho, Rubens II. Título. III.

Série.

CDD 791. 430 981

4

Índices para catálogo sistemático:

1. Cineastas brasileiros : Biografia 791.430 981

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

Direitos reservados e protegidos pela lei 6910/98

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Apresentação

“O que lembro, tenho.”

Guimarães Rosa

A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa

Oficial, tem como atributo principal reabilitar e

resgatar a memória da cultura nacional, biogra-

fando atores, atrizes e diretores que compõem

a cena brasileira nas áreas do cinema, do teatro

e da televisão.

5

Essa importante historiografia cênica e audio-

visual brasileiras vem sendo reconstituída de

maneira singular. O coordenador de nossa cole-

ção, o crítico Rubens Ewald Filho, selecionou,

criteriosamente, um conjunto de jornalistas

especializados para realizar esse trabalho de

aproximação junto a nossos biografados. Em

entrevistas e encontros sucessivos foi-se estrei-

tando o contato com todos. Preciosos arquivos

de documentos e imagens foram abertos e, na

maioria dos casos, deu-se a conhecer o universo

que compõem seus cotidianos.

A decisão em trazer o relato de cada um para a

primeira pessoa permitiu manter o aspecto de

tradição oral dos fatos, fazendo com que a

memória e toda a sua conotação idiossincrásica

aflorasse de maneira coloquial, como se o

biografado estivesse falando diretamente ao

leitor.

Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator

importante na Coleção, pois os resultados obti-

dos ultrapassam simples registros biográficos,

revelando ao leitor facetas que caracterizam

6

também o artista e seu ofício. Tantas vezes o

biógrafo e o biografado foram tomados desse

envolvimento, cúmplices dessa simbiose, que

essas condições dotaram os livros de novos

instrumentos. Assim, ambos se colocaram em

sendas onde a reflexão se estendeu sobre a

formação intelectual e ideológica do artista e,

supostamente, continuada naquilo que caracte-

rizava o meio, o ambiente e a história brasileira

naquele contexto e momento. Muitos discutiram

o importante papel que tiveram os livros e a

leitura em sua vida. Deixaram transparecer a

firmeza do pensamento crítico, denunciaram

preconceitos seculares que atrasaram e conti-

nuam atrasando o nosso país, mostraram o que

representou a formação de cada biografado e

sua atuação em ofícios de linguagens diferen-

ciadas como o teatro, o cinema e a televisão – e

o que cada um desses veículos lhes exigiu ou

lhes deu. Foram analisadas as distintas lingua-

gens desses ofícios.

Cada obra extrapola, portanto, os simples relatos

biográficos, explorando o universo íntimo e psi-

7

cológico do artista, revelando sua autodeter-

minação e quase nunca a casualidade em ter se

tornado artista, seus princípios, a formação de

sua personalidade, a persona e a complexidade

de seus personagens.

São livros que irão atrair o grande público, mas

que – certamente – interessarão igualmente aos

nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi

discutido o intrincado processo de criação que

envolve as linguagens do teatro e do cinema.

Foram desenvolvidos temas como a construção

dos personagens interpretados, bem como a

análise, a história, a importância e a atualidade

de alguns dos personagens vividos pelos biogra-

fados. Foram examinados o relacionamento dos

artistas com seus pares e diretores, os processos

e as possibilidades de correção de erros no

exercício do teatro e do cinema, a diferenciação

fundamental desses dois veículos e a expressão

de suas linguagens.

A amplitude desses recursos de recuperação da

memória por meio dos títulos da Coleção

8

Aplauso, aliada à possibilidade de discussão de

instrumentos profissionais, fez com que a

Imprensa Oficial passasse a distribuir em todas

as bibliotecas importantes do país, bem como

em bibliotecas especializadas, esses livros, de

gratificante aceitação.

Gostaria de ressaltar seu adequado projeto

gráfico, em formato de bolso, documentado

com iconografia farta e registro cronológico

completo para cada biografado, em cada setor

de sua atuação.

A Coleção Aplauso, que tende a ultrapassar os

cem títulos, se afirma progressivamente, e espe-

ra contemplar o público de língua portuguesa

com o espectro mais completo possível dos

artistas, atores e diretores, que escreveram a rica e diversificada história do cinema, do teatro e

da televisão em nosso país, mesmo sujeitos a

percalços de naturezas várias, mas com seus

protagonistas sempre reagindo com criati-

vidade, mesmo nos anos mais obscuros pelos

quais passamos.

9

Além dos perfis biográficos, que são a marca da

Coleção Aplauso, ela inclui ainda outras séries :

Projetos Especiais, com formatos e características

distintos, em que já foram publicadas excep-

cionais pesquisas iconográficas, que se origi-

naram de teses universitárias ou de arquivos

documentais pré-existentes que sugeriram sua

edição em outro formato.

Temos a série constituída de roteiros cinemato-

gráficos, denominada Cinema Brasil, que publicou

o roteiro histórico de O Caçador de Diamantes,

de Vittorio Capellaro, de 1933, considerado o

primeiro roteiro completo escrito no Brasil com

a intenção de ser efetivamente filmado. Parale-

lamente, roteiros mais recentes, como o clássico

O Caso dos Irmãos Naves, de Luís Sérgio Person,

Dois Córregos, de Carlos Reichenbach, Narrado-

res de Javé, de Eliane Caffé, e Como Fazer um

Filme de Amor, de José Roberto Torero, que

deverão se tornar bibliografia básica obrigatória

para as escolas de cinema, ao mesmo tempo em

que documentam essa importante produção da

cinematografia nacional.

10

Gostaria de destacar a obra Gloria in Excelsior,

da série TV Brasil, sobre a ascensão, o apogeu e

a queda da TV Excelsior, que inovou os proce-

dimentos e formas de se fazer televisão no Brasil.

Muitos leitores se surpreenderão ao descobrirem

que vários diretores, autores e atores, que na

década de 70 promoveram o crescimento da TV

Globo, foram forjados nos estúdios da TV

Excelsior, que sucumbiu juntamente com o Gru-

po Simonsen, perseguido pelo regime militar.

Se algum fator de sucesso da Coleção Aplauso

merece ser mais destacado do que outros, é o

interesse do leitor brasileiro em conhecer o

percurso cultural de seu país.

De nossa parte coube reunir um bom time de

jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa

documental e iconográfica, contar com a boa

vontade, o entusiasmo e a generosidade de

nossos artistas, diretores e roteiristas. Depois,

apenas, com igual entusiasmo, colocar à dispo-

sição todas essas informações, atraentes e aces-

11

síveis, em um projeto bem cuidado. Também a

nós sensibilizaram as questões sobre nossa

cultura que a Coleção Aplauso suscita e apre-

senta – os sortilégios que envolvem palco, cena,

coxias, set de filmagens, cenários, câmeras – e,

com referência a esses seres especiais que ali

transitam e se transmutam, é deles que todo esse

material de vida e reflexão poderá ser extraído

e disseminado como interesse que magnetizará

o leitor.

A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter

criado a Coleção Aplauso, pois tem consciência

de que nossa história cultural não pode ser negli-

genciada, e é a partir dela que se forja e se

constrói a identidade brasileira.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente da

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

12

13

Para Ioná e Luca,

que me fazem acordar todos os dias com um

sorriso.

Para minha mãe e meus irmãos,

exemplos de dignidade e companheirismo

irrestritos.

Pablo Villaça

14

Introdução

Meu primeiro encontro com Helvécio Ratton não

foi dos melhores. Era uma manhã fria de setem-

bro de 2002 e o cineasta estava realizando uma

sessão fechada para a crítica de Belo Horizonte.

No passado, eu havia conversado uma ou duas

vezes por telefone com Helvécio, a fim de obter

algumas informações sobre Uma Onda no Ar para

uma matéria que estava preparando para o site

do qual sou editor, Cinema em Cena, mas até então

não nos conhecíamos pessoalmente.

Cheguei ao Cinema Jardim pouco antes da sessão

e percorri o saguão sem prestar muita atenção

15

nas pessoas que ali se encontravam. Eu saíra de

casa com pressa e precisava urgentemente comer

algo antes do início do filme. Foi quando senti

uma batida no ombro e, ao virar-me para ver do

que se tratava, dei de cara com um sujeito enor-

me, de porte ameaçador. Era um cantor e com-

positor renomado em Minas Gerais, e que fize-

ra uma pequena participação no longa:

– Você é o crítico de cinema que apresenta aque-

le programa na televisão?

– Sou – respondi, acreditando egocentricamente

que um elogio viria a seguir.

– Pois você passou do lado do Helvécio Ratton e

nem se dignou a cumprimentá-lo? Você devia

saber que sua profissão só existe em função de

realizadores como ele. Onde está seu respeito?

Você tem que aprender a ser mais humilde, ra-

paz, caso contrário não irá pra frente. Por que

você o ignorou?

Olhei confuso para a direção apontada e, de fato,

lá estava Helvécio, conversando com algumas

outras pessoas. Voltei a encarar meu interlocutor,

sentindo o rosto queimar de vergonha e raiva. Por

que ele estava agindo de forma tão bruta? Ah, se

ele fosse uns 30 centímetros menor... Sem saber o

16

que responder, gaguejei:

– É... é que eu sou tímido.

Hein? Que diabos de resposta era aquela? Eu

sou tímido? Será que eu tinha voltado à adoles-

cência? Por que simplesmente não respondi que

não tinha visto Helvécio? Ou, ainda melhor, por

que não mandei aquele sujeito catar coquinho?

Afastei-me embaraçado – e reconheço que parte

de mim culpou o próprio Helvécio Ratton pelo

incidente.

Corta para 18 meses depois. Estou conversando

com Rubens Ewald Filho pelo telefone, ouvindo

uma breve explicação sobre a Coleção Aplauso,

um projeto que seria lançado pela Imprensa Ofi-

cial de São Paulo. Finalmente, quando Rubens

perguntou se havia algum diretor em particular

sobre o qual eu me interessaria em escrever, fui

surpreendido por minha própria resposta:

– Helvécio Ratton!

Durante os dez minutos seguintes, expliquei por

que considerava Helvécio o candidato ideal para

uma biografia: sua militância política durante a

Ditadura; sua postura ideológica admirável; e, é

claro, sua carreira invejável, que incluía uma

filmografia heterogênea, abarcando documen-

17

tários, romances de época e comédias voltadas

para o público infantil.

Foi somente depois que desliguei o telefone, já

com a aprovação de Rubens para procurar o

cineasta, que me dei conta de que Helvécio pro-

vavelmente se recusaria a conversar comigo –

afinal, além do confronto com o tal músico, eu

escrevera uma crítica apenas moderadamente

favorável a Uma Onda no Ar, recomendando o

filme, mas citando alguns elementos que haviam

me incomodado durante a projeção (uma opi-

nião que não apenas publiquei no site, como

também manifestei em meu programa). Aliás,

agora que eu estava pensando calmamente so-

bre o assunto, eu tinha certeza de que ele riria

ao ouvir minha proposta e desligaria o telefone

na minha cara.

É claro que eu estava enganado. Desde o primei-

ro momento, Helvécio foi extremamente simpá-

tico, concordando imediatamente em participar

do projeto. Na realidade, como descobri depois,

ele nem ficara sabendo sobre o incidente na ses-

são de seu último filme.

Ainda assim, eu fazia questão de cumprimentá-

lo efusivamente todas as vezes que nos encontrá-

18

vamos. E se seu “guarda-costas” estivesse escon-

dido em algum lugar por ali?

A Quimera Filmes, produtora da qual Helvécio é

sócio ao lado de sua esposa Simone, fica em uma

aconchegante casa situada em uma rua tranqüila

do Bairro Serra. Do bem cuidado jardim à cadeira

de balanço presente na recepção da empresa, a

Quimera é um agradável lugar de trabalho – e é

fácil perceber que há um forte clima de camara-

dagem entre todos os integrantes da equipe.

Ao longo dos meses seguintes, Helvécio e eu nos

encontramos diversas vezes, o que se traduziu em

horas e horas de entrevista. Falamos sobre os mais

diversos assuntos. Como cada filme representa um

aprendizado para o cineasta, concluí que o mesmo

deveria se aplicar a este livro, que, como a própria filmografia de Ratton, procura despertar o interesse do espectador/leitor para temas tão distintos (e

fascinantes) como o sistema manicomial brasilei-

ro, a poesia maldita de Bernardo Guimarães, a

arquitetura de Gaudí, a história política da América Latina durante os anos 1960 e 70 e, é claro, cinema. Aliás, através das experiências de Helvécio, o

leitor conhecerá detalhes fascinantes sobre uma

profissão que está sempre buscando um meio-

termo entre as ambições artísticas e suas exigências financeiras. Afinal, como diz o próprio biografa-19

do, “orçamento é linguagem”.

Reconheço que, a princípio, a idéia de escrever o

texto na primeira pessoa (um padrão da Coleção)

me desanimou: senti que, inevitavelmente, perde-

ria a liberdade de enriquecer o livro com dados e

reflexões adicionais que complementariam a histó-

ria e as argumentações do diretor.

Enganei-me novamente. Helvécio é um contador

de histórias nato, e suas narrativas raramente

precisam de complementos. Sua capacidade de

comunicação é tamanha que, à medida que ia

redigindo o texto, eu conseguia me colocar em

seu lugar como se tivesse testemunhado todos

aqueles acontecimentos. De certa forma, é como

se Helvécio tivesse se convertido em um perso-

nagem para mim. Ou eu é que me tornara um

mero personagem em sua narrativa?

Em certo momento deste livro, Helvécio explica

que, durante muito tempo, rejeitou sua “minei-

ridade”, lutando contra suas próprias raízes.

Porém, basta dar uma rápida olhada em sua sala

na Quimera Filmes para perceber que o tradicio-

nal conceito de “família”, algo peculiar entre

os mineiros, manifesta-se em todos os detalhes

do escritório, da janela voltada para o belo jar-

dim (Você precisa ver quando a pitangueira fica

20

carregada!) ao armário recheado de fotos anti-

gas. E é impossível evitar um sorriso ao notar,

pregado entre os cronogramas de produção de

O Casamento da Iara, um desenho feito por

Clara, a filha caçula do cineasta, no qual vemos

um homem calvo identificado singelamente em

uma escrita infantil: “Papai”.

O fato é que até mesmo a equipe de Ratton se

comporta como uma grande família. Não há

como ele negar suas raízes: seus filmes podem

ser universais, mas Helvécio é mineiro com “M”

maiúsculo.

Pablo Villaça

21

Para Simone Magalhães Matos,

minha cúmplice.

Helvécio Ratton

22

Prólogo

O exílio estava chegando ao fim. Depois de

quase quatro anos longe do Brasil e de conhecer

o terror patrocinado pelas ditaduras militares

de dois países, eu estava retornando à minha

pátria. Era noite de 27 de dezembro de 1973 e,

quando o avião passou a sobrevoar o céu do

Rio de Janeiro, a bela composição de Tom Jobim

pôde ser ouvida através dos alto-falantes da

cabine de passageiros:

“Minha alma canta

Vejo o Rio de Janeiro

23

Estou morrendo de saudades

Rio, seu mar

Praia sem fim

Rio, você foi feito pra mim...”

Olhei pela janela e, emocionado, vi a Baía de

Guanabara toda iluminada. Em pouco tempo

pousaríamos e eu poderia abraçar meu pai, que

me esperava no aeroporto com o documento

que comprovava a prescrição de minha pena.

Ainda assim, ao lado da emoção que eu sentia,

havia uma tensão inequívoca, que nem mesmo

o papel oficial conseguido por meu pai ou a ines-

perada carta que se encontrava em minha mala

conseguia apaziguar. Eu procurava afastar o re-

ceio da mente, mas ele voltava ainda mais forte.

Infelizmente, logo eu teria motivos reais para

ficar preocupado.

Segundos depois que o avião havia tocado a pista,

percebi que havia algo errado: em vez de taxiar

em direção ao portão de desembarque, o piloto

levou o aparelho para um canto distante da pista,

bem distante do prédio do (então) Galeão. Talvez

pela tensão ou por estar desacostumado com o

calor do Brasil depois de tanto tempo no Chile,

comecei a suar profusamente.

24

– Isso é comigo, Márcia – disse para minha

esposa, que viajava ao meu lado.

– Não, Helvécio, deve ser um problema com o

avião – ela tentou me tranqüilizar.

Porém, à medida que o tempo ia passando, os

demais passageiros começaram a ficar inquietos e

a questionar as aeromoças sobre o motivo da de-

mora no desembarque. Mesmo assim, não houve

qualquer tipo de explicação por parte do coman-

dante. Finalmente, cerca de 30 minutos depois da

aterrissagem, nos preparamos para descer e procu-

rei ficar no meio do bolo de pessoas que saíam do

avião, numa tentativa inútil de passar desaperce-

bido de quem quer que fosse.

Não adiantou. Eu mal havia caminhado cinco

metros quando dois homens se aproximaram de

mim rapidamente, sem um segundo qualquer

de hesitação. Um deles abriu a capanga que car-

regava na cintura e, com expressão inconfundível

de ameaça, exibiu seu revólver e disse simples-

mente:

– Não faça besteira nenhuma.

Olhei para o grupo de passageiros e percebi que,

apesar dos olhares intrigados, todos se afastavam

rapidamente, temendo algum tipo de confusão.

25

Imediatamente, percebi por que o avião parara

tão longe do terminal: os dois agentes do DOI-

CODI não queriam que ninguém percebesse que

eu fora preso – principalmente meu pai, que

certamente protestaria e criaria uma confusão

indesejável.

Enquanto íamos, Márcia e eu, sendo conduzi-

dos pelos dois homens em direção a um Opala

estacionado a algumas dezenas de metros, come-

cei a avaliar minhas opções. Senti que precisava,

de alguma forma, alertar meu pai sobre minha

chegada e, para isso, cheguei a considerar um

plano arriscado: correr em direção ao portão de

desembarque e saltar em seu imenso painel de

vidro com os pés, o que certamente criaria uma

bagunça grande o bastante para chamar a

atenção da minha família. Comuniquei, aos

sussurros, minhas intenções a Márcia, que ime-

diatamente tratou de me dissuadir, dizendo que

poderia ser pior, que eles poderiam atirar em

mim.

Assim que entramos no carro, minha cabeça foi

coberta com um capuz negro e fui colocado no

chão do veículo. No entanto, a presença de

Márcia parecia confundir um pouco meus dois

captores, que não haviam previsto que eu pode-

26

ria estar acompanhado. Depois de uma breve dis-

cussão com a base através do rádio-comunicador,

eles decidiram levá-la também e, como não ti-

nham outro capuz, usaram minha jaqueta para

cobrir sua cabeça.

Os agentes deram a partida no carro e senti que

nos movimentávamos. Minha mente começou a

funcionar freneticamente, já tentando costurar

o depoimento que daria durante o interrogató-

rio que certamente viria a seguir.

Enquanto eu ensaiava meus diálogos no chão

do Opala, meu pai ainda me aguardava no sa-

guão do aeroporto, confiante como sempre de

que o instrumento legal que carregava em seu

bolso garantiria a liberdade do filho.

27

index-29_1.png

28

O pai de Helvécio, em foto de formatura, 1933

Parte I

As Circunstâncias

Capítulo I

A Primeira Infância

Meu pai sempre acreditou na lei. Não podia ser

diferente: como juiz de direito, ele prezava a or-

dem acima de tudo e, em sua visão, até aquele

momento a justiça não apenas jamais o havia desa-

pontado, como ainda lhe dera meios de criar seus

filhos em condições melhores do que aquelas nas

quais ele próprio crescera ao lado de seus 16 ir-

29

mãos e irmãs. Aos 16 anos, decidido a se tornar

advogado, ele se mudou para Belo Horizonte,

onde passou a morar sozinho, enquanto alguns

de seus irmãos optaram pelo Rio de Janeiro. Acos-

tumado a se virar da melhor maneira possível, meu

pai abriu uma engraxataria, com a qual passou a

bancar a faculdade.

Foi em Belo Horizonte que ele conheceu minha

mãe, que ainda morava com meu avô, um per-

nambucano que, depois de sofrer perseguições

políticas em sua terra durante a década de 30,

decidira se mudar para Minas Gerais – uma deci-

são curiosa, já que ele sempre dizia que quem

nascia no mar não podia viver na montanha (o

que o levava a fazer diversas viagens ao Rio, para

matar as saudades do oceano). Figura fundamen-

tal na vida de minha mãe, ele a criara pratica-

mente sozinho, já que muito cedo perdera a

esposa. Quando mamãe tinha 12 anos de idade,

seu irmão mais velho, na época com 17 anos,

contraiu tuberculose. Incapacitado pela doença,

ele freqüentemente pedia que o colocassem ao

lado da janela, para que pudesse observar os

colegas que voltavam da escola, até que final-

mente sucumbiu depois de algum tempo. Arrasa-

da pela morte precoce deste meu tio, minha avó

morreu de desgosto pouco depois, e, a partir de

30

então, minha mãe passou a se sentir responsável

por seu pai e por seus dois irmãos, o que certa-

mente a levou a amadurecer muito rapidamente.

Mas jamais deixei de notar uma profunda melan-

colia que tomava conta de seus olhos quando

ela cantava as músicas de sua juventude.

Nasci em Divinópolis, em 14 de maio de 1949. A

esta altura, meus pais já tinham quatro outros

filhos – o mais velho deles com 12 anos de idade.

Como meu pai já era juiz de direito, sendo cons-

tantemente transferido de um lugar para outro,

saímos de Divinópolis quando eu tinha apenas 2

anos, e mais tarde descobri que a maior parte

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31

A mãe de Helvécio, em foto da década de 30

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32

das lembranças que eu julgava ter da cidade

eram, na verdade, memórias dos meus irmãos e

dos meus pais que eu assimilara através de casos

narrados ao longo do tempo. Mesmo assim,

guardo duas lembranças que, creio eu, são de

fato minhas: uma diz respeito a uma ocasião em

que estava andando de velocípede na calçada e,

de repente, me vi dentro de um buraco, numa

imagem infantil meio louca. Aparentemente,

havia caído em um bueiro aberto. (Será que isto

é uma fantasia?, me pergunto agora). A outra é

ainda mais assustadora: toda cidade do interior

tem sua cota de “malucos”, de indivíduos que

despertam um medo irracional na garotada.

33

Certo dia, um desses tipos se aproximou de nos-

sa casa e a Dinha, a cozinheira (que também era

minha madrinha), brincou:

– Ô fulano, leva esse menino aí! E ele imediata-

mente me agarrou e me colocou nas costas, o

que me despertou um pavor imenso.

É curioso que as duas principais recordações de

minha infância em Divinópolis digam respeito a

experiências assustadoras, mas é assim que a

mente das crianças funciona. Obviamente, a coi-

sa funcionou de forma diferente em Peçanha,

para onde meu pai foi transferido em seguida e

onde moramos durante os quatro anos seguintes.

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34

É desta época, por exemplo, que vem minha pri-

meira lembrança relativa à Sétima Arte: os car-

tazes que ficavam expostos ao longo da semana

em um cinema local, e que divulgavam o filme

que seria exibido na sessão dominical que eu

sempre freqüentava.

Aliás, Peçanha foi uma cidade muito interessante

para se viver a primeira infância, já que possuía

vários lugares fascinantes e misteriosos que eram

fartamente explorados pelas crianças: lugares

como a Mãe D’Água, onde nadávamos e perto da

qual residia uma índia com quem sempre mexía-

mos, Sá Tiburça (e que, ao responder, nos levava a

sair em disparada dali). Mas é claro que ela não

estava sozinha na reação que provocava na

molecada; havia também a Maria Abana-Rabo,

uma “doida mansa” que provocávamos apenas

para vê-la nos ameaçando com pedras.

Eventualmente, ela acabou realmente atirando

uma pedra em alguém e foi detida pelo delegado

da cidade, o que provocou grande comoção entre

nós, garotos – e foi meu pai quem resolveu a situa-

ção. Depois de descobrir que ela possivelmente

apanhara na cadeia, ele se irritou com o incidente

e, alegando que ela não tinha condições de avaliar

o que fazia, ordenou que a libertassem. Dessa for-

35

ma, a prisão e libertação da Maria Abana-Rabo,

que era parte do imaginário infantil, ficaram

marcadas em minha memória.

A participação de meu pai naquele caso não foi

algo atípico. Numa cidade do interior, a figura do

juiz é muito forte, a pura encarnação da auto-

ridade, e não era raro que as pessoas levassem seus

problemas até nossa casa, como se ele fosse uma

espécie de Rei Salomão pronto para solucionar

todos os conflitos com sua sabedoria milenar. No

entanto, é claro que nem todos que buscavam seu

auxílio traziam questões simples. Certa vez, um

caminhão parou na nossa porta e seus ocupantes

desceram desesperados a fim de procurar meu pai.

Enquanto eles se encontravam dentro de casa,

meus irmãos subiram na boléia e levantaram a lona

que a cobria, sem imaginar a terrível surpresa que

os esperava: um cadáver sem a cabeça. Ao mesmo

tempo em que meus irmãos saíam correndo apa-

vorados dali, meu pai era informado sobre o bi-

zarro suicídio do rapaz que escolhera uma forma

absurda de morrer, colocando a cabeça na linha

do trem. Era este o cotidiano de papai: tratar de

questões que iam do prosaico ao chocante. E ele

desempenhava seu trabalho com prazer.

Isso não quer dizer que ele não encontrasse tem-

36

po para os filhos. Sua relação comigo, em parti-

cular, era muito gostosa, considerando-se que

ele já era um pouco mais velho quando nasci.

Sempre presente em minha vida, ele me pegava

no colo assim que chegava do fórum e conver-

sávamos durante um bom tempo. E, apesar de

sua postura severa de magistrado, só me bateu

uma única vez, em uma ocasião em que saí pen-

durando nos varais do quintal. Eu pendurava em

um, arrebentava; pendurava em outro, arreben-

tava. Aí ele, finalmente, perdeu a paciência e

me deu uns tabefes.

Minha mãe, por sua vez, era a típica mulher minei-

ra da época (nascera em Ubá) – incrivelmente amo-

rosa, ela se dedicava integralmente aos filhos e ao

marido. Ao mesmo tempo, era uma mãe rígida,

daquelas que, numa festa de aniversário, não per-

mitia que os filhos fossem os primeiros a pegar os

docinhos que eram servidos (e era terrível quando

alguém insistia, já que uma eventual desobediên-

cia seria castigada com um rápido beliscão). Para

uma criança, poucas coisas são piores do que ver

um doce se afastar a salvo. Mas isso fazia parte de

sua criação e o fato é que ela sempre foi uma mãe

maravilhosa, preocupada com o português que

falávamos e escrevíamos, tinha uma paciência

imensa para nos ensinar e corrigir, além de incenti-

var ao máximo a leitura. Não foi à toa que aprendi

37

a ler tão cedo, bem antes de entrar para a escola.

Eu adorava conhecer novas histórias. Como tinha

irmãos mais velhos, nossa biblioteca possuía uma

grande quantidade de livros infantis: Cazuza, de

Viriato Correia; Os Desastres de Sofia, da Condessa

de Ségur; várias edições diferentes dos trabalhos

de Monteiro Lobato; e assim por diante. E essa bi-

bliografia sempre esteve à minha disposição, o que

me levava a perseguir minha mãe para que ela lesse

as histórias para mim. E foi justamente o hábito de

ouvir muitas histórias que começou a me preparar

para uma leitura rápida e precoce. Durante um tem-

po, cheguei mesmo a transformar a biblioteca em

meu quarto, já que esta era a única opção de dormir

sozinho, posto que, em uma casa cheia como a

nossa, os irmãos não tinham alternativa a não ser

dividir os quartos uns com os outros.

Mas é claro que eu não deixava de brincar. Como

só comecei a freqüentar a escola aos 7 anos, quan-

do já morávamos em Belo Horizonte, eu não tinha

responsabilidade alguma durante meus primeiros

anos de vida, e passava o dia fazendo molecagem

na rua ou no quintal de casa, que era imenso e

estava sempre cheio de crianças. Tudo era muito

diferente do que ocorre hoje, quando crianças de

dois anos de idade já estudam e têm horários,

38

obrigações. Em contrapartida, éramos bem mais

ingênuos. Lembro-me, por exemplo, que só desco-

bri a existência do sexo feminino aos 4 anos, quan-

do minha irmã nasceu. Ao vê-la pelada enquanto

minha mãe a banhava, notei que ela não tinha

pinto. Que ser era aquele? Acabei concluindo que

o pinto nasceria mais tarde. Porém, algum tempo

depois acompanhei minha mãe em um batizado

e observei que o bebê, muito mais novo que minha

irmã, já tinha algo entre as pernas – e só então

percebi que definitivamente havia algo de dife-

rente com ela.

Em 1956, meu pai finalmente recebeu sua última

transferência – Belo Horizonte. Como tínhamos

muitos parentes na capital (especialmente de mi-

nha mãe), já estávamos acostumados a visitá-la na

época do Natal – e eu sempre ficava fascinado com

as dimensões de tudo que via, desde a enorme

quantidade de brinquedos nas Lojas Americanas

até os luminosos espalhados por todos os lados

durante o mês de dezembro. Em Peçanha, as crian-

ças namoravam a vitrine da única loja de brinque-

dos da cidade, e a luzinha vermelha que piscava

na porta do estabelecimento era sua grande atra-

ção. Assim, toda vez que retornávamos das férias,

eu encantava meus amigos com as histórias das

maravilhas que vira na capital e, de certa forma,

percebia que meus horizontes haviam se expan-

39

dido com relação aos deles. Além disso, perto da

casa na qual costumávamos nos hospedar quan-

do íamos a Belo Horizonte, que ficava na descida

da Av. Álvares Cabral, ocorriam sessões do Cine

Grátis, o que me encantava imensamente. A mu-

dança não representou, portanto, trauma algum.

Embora lamentasse a perda dos amigos que fica-

vam para trás, eu não podia ignorar um elemento

importantíssimo que aumentava minha vontade

de morar em BH: eu sabia que nas Lojas America-

nas havia milhares de soldadinhos de chumbo.

Crescer em Belo Horizonte no final da década

de 50 e início da de 60 era algo que ainda permi-

tia grande liberdade. É claro que não tínhamos

a mesma tranqüilidade de Peçanha, pois mamãe

se preocupava com nossa segurança. Já havia

algum grau de violência na capital e, além disso,

os carros e ônibus sempre foram um pesadelo

para qualquer pai cujos filhos curtiam brincadei-

ras de rua, como andar de carrinhos-de-rolimã e

jogar bente-altas (diversões que, quatro décadas

depois, eu retrataria em O Menino Maluquinho).

Até mesmo andar de bicicleta era diferente;

quando caíamos, em Peçanha, a queda era ame-

nizada pelo chão de terra ou pela grama, en-

quanto, em BH, éramos recebidos pela aspereza

do asfalto e dos paralelepípedos ou pelas peri-

40

gosas quinas dos passeios. E obviamente havia

muito mais gente pelas ruas; no interior, “multi-

dão” é uma referência muito diferente.

De modo geral, contudo, não tive problemas de

adaptação. Afinal, éramos uma família grande e

isto gera a sensação de que todo seu universo foi

transportado junto com você, o que representa

uma situação aconchegante. Além disso, em Peça-

nha éramos “de fora”, “a família do juiz” que fora

transplantada para lá. E não se pode esquecer que

minha mãe passara toda sua infância em Belo

Horizonte, e seus dois irmãos, que ainda moravam

ali, sempre tiveram um carinho muito grande com

ela e conosco. Mas a transferência de meu pai

para a capital não representou uma simples

mudança nos cenários das brincadeiras. Eu ago-

ra teria que entrar para a escola e enfrentar o

choque da disciplina acadêmica.

Comecei a estudar no Colégio Barão do Rio Bran-

co. Minha mãe sempre contava, orgulhosa, que

eu inicialmente tivera minha matrícula rejeitada

por não ter 7 anos completos (que eu só faria

em maio) e que, por esta razão, seria transferido

para o ano seguinte, o que atrasaria minha for-

mação. Determinada a evitar que isto aconteces-

se, ela procurou a diretora do colégio e a conven-

ceu a permitir que eu fizesse um exame. Apesar

41

de concordar, a diretora preparou minha mãe

para a decepção que esta certamente teria, já

que eu não tinha preparação alguma, nunca fre-

qüentara a escola, estava vindo do interior, e

assim por diante. Passei no exame e, assim, pude

entrar no meio daquela meninada danada, com

seus horários, uniformes e tudo o mais que repre-

senta a escolarização.

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42

Aos 12 anos, no Colégio Militar

Capítulo II

Mergulhando na Política

Em 1961, decidi me matricular no Colégio Militar.

Admirador de meu tio (irmão de papai), que era

general, eu sentia atração pela farda e, aos 12

anos de idade, decidi que seria um bom momen-

to para começar a vesti-la. O colégio tinha ótimos

professores e eu já sabia que a disciplina seria

rígida, mas não imaginava que fosse tanto: fui

surpreendido pela realidade que encontrei, a

mentalidade absurdamente conservadora da-

queles militares e a chatice de ser obrigado a

raspar a cabeça toda semana.

43

O que já era ruim tornou-se insuportável depois

do Golpe de 64. Enquanto o mundo vivia um

período fértil de riqueza e liberdade culturais,

eu me encontrava encarcerado em uma institui-

ção que procurava controlar nossas idéias e

ideais, chegando mesmo a censurar vários arti-

gos que seriam publicados no jornalzinho edita-

do pelos alunos.

Nas ruas, os jovens exibiam um comportamento

cada vez mais ousado e diferente, cantando músi-

cas dos Beatles e dos Rolling Stones, ao passo que

eu e meus colegas nos colocávamos de pé todas

as manhãs para ouvir o toque de cornetas, seguido

por um sermão que dizia respeito a alguma “ques-

tão nacional”. Com o passar do tempo, aconteceu

o inevitável – comecei a me sentir sufocado e dis-

se para meu pai que queria sair do colégio. Isto

deu origem à nossa primeira briga, que ele ven-

ceu ao argumentar que, se eu estudasse ali por

mais dois anos, estaria livre do serviço militar. De qualquer maneira, o colégio é ótimo, finalizou com

segurança.

Havia todo um clima de segredo na escola, com

boatos correndo de um lado para o outro – algo

que sempre ocorrera, como na ocasião em que

se disse que, durante a parada de 7 de Setembro,

44

na qual éramos obrigados a desfilar, levaríamos

fuzis carregados com balas de verdade (o que

gerou grande empolgação entre os mais jovens).

Por outro lado, coisas estranhas certamente ocor-

riam: generais importantes passavam por lá e

vários professores (militares e civis) sumiam de

repente, sendo demitidos sem qualquer aviso

prévio. Lembro-me particularmente de um pro-

fessor de Geografia, um major, que sempre colo-

cava questões políticas em suas aulas e que

acabou sendo expulso do exército em função de

suas “idéias progressistas”.

Assim que os dois anos que eu combinara com

meu pai ficaram para trás, larguei com alegria

meu uniforme e fiz o vestibular para o Colégio

Universitário, uma experiência belíssima da

UFMG que fora organizada pelo professor Aluí-

sio Pimenta. Ali, os alunos cursavam o último ano

do colegial praticamente dentro da universidade

(literalmente, já que ficava situado no câmpus)

e aquele foi o melhor período acadêmico de

minha vida. Tínhamos extrema liberdade; era

uma escola muito criativa que nos estimulava

constantemente e onde passávamos o dia intei-

ro. O entrecruzamento das disciplinas era fantás-

tico. De manhã, por exemplo, estudávamos o

Romantismo na classe de Português e, à tarde,

íamos para um estúdio ouvir o Romantismo na

45

música, conhecê-lo na pintura, e assim por dian-

te. Era um sistema avançadíssimo para a época

e que formou uma geração muito inquieta; dali

saíram vários artistas. E foi, como não poderia

deixar de ser, um núcleo de agitação política

entre os estudantes.

Tive um amadurecimento político muito preco-

ce, justamente por ser tão mais jovem que meus

irmãos, que traziam para casa as experiências

que viviam na universidade. E, talvez como um

gesto inconsciente de desafio a papai (um juiz)

e ao nosso tio (um general), logo passamos a

evidenciar uma clara tendência à esquerda – o

que dava origem a brigas horrorosas na hora do

almoço. Meu pai, sempre um legalista, dizia que

devíamos respeitar a “ordem estabelecida”, o

presidente em exercício, e não aceitava nossas

argumentações de que aquela “ordem” era ile-

gítima, fruto de um golpe que feria nossos direi-

tos e a Constituição. Estas discussões constantes

sempre acabavam com um sinal inconfundível

de minha mãe para que calássemos a boca. E,

como em nossa casa ela era a “ordem estabele-

cida”, nos calávamos imediatamente. Ali não

havia espaço para golpes.

Com o tempo, meu pai ficou politicamente isolado

46

em seu próprio lar, e, para seu desespero, eu e

meus irmãos estávamos sempre estudando teorias

socialistas. Pouco depois, tornei-me militante de

uma organização de esquerda, uma dissidência da

POLOP (Política Operária), que era forte em Belo

Horizonte. Na época, estas organizações ofereciam

formação teórica aos militantes, e estudávamos e

discutíamos uma bibliografia marxista clássica, que

ia desde O Capital a outros importantes títulos do

marxismo-leninismo. Eu lia sistematicamente, bus-

cando dominar a filosofia e a dialética por trás de

tudo aquilo.

Entrei naquela dissidência não porque apoiava

seu afastamento da POLOP (àquela altura, eu

sequer tinha condições de julgar o mérito da

questão), mas porque pessoas próximas a mim a

apoiavam. Logo fiz amizade com um companhei-

ro de célula, Fernando Pimentel, sem sequer

imaginar que, mais de 30 anos depois, ele viria a

se tornar prefeito de Belo Horizonte pelo Partido

dos Trabalhadores. Tínhamos, então, 17 anos e

atuávamos todos no movimento estudantil. Pou-

co depois, passei no vestibular e tornei-me um

dos militantes responsáveis pela Organização

dentro da Faculdade de Economia da UFMG.

À medida que a Ditadura ia se tornando mais vio-

lenta em seus métodos de repressão, fomos che-

gando à conclusão de que a luta armada era a

47

única via para combatê-la e, no processo, nossa

organização mudou de nome e passou a ser conhe-

cida como COLINA (Comando de Libertação Nacio-

nal), tornando-se bastante presente entre os estu-

dantes, que basicamente se viam divididos entre

vários grupos de esquerda. Havia uma divisão entre

os grupos católicos (cujo maior representante era

a AP, Ação Popular) e os marxistas. Estes últimos

incluíam inúmeros subgrupos, que iam desde o

Partidão até suas dissidências.

Em Belo Horizonte, a maior dessas dissidências

era a Corrente Revolucionária de Minas Gerais

(ou, simplesmente, Corrente), que também cami-

nhou para a luta armada e posteriormente se

ligou aos guerrilheiros da ALN (Ação Libertadora

Nacional) de Carlos Marighella. Enquanto isso,

a COLINA juntou-se a outras facções, formando,

mais tarde, a VAR-Palmares (Vanguarda Arma-

da Revolucionária-Palmares), que, por sua vez,

se tornaria a VPR (Vanguarda Popular Revolucio-

nária), que chegou a ser dirigida por Carlos

Lamarca. Todas estas siglas significavam, entre

outras coisas, que o movimento estava fragmen-

tado em várias correntes ideológicas, o que, ao

mesmo tempo em que nos enfraquecia, dificul-

tava o trabalho de repressão para os militares.

48

No final de 68, início de 69, uma destas organi-

zações realizou uma série de ações armadas em

Belo Horizonte e Sabará, chegando a executar

um assalto conjunto, simultâneo, em dois ban-

cos, numa ação audaciosa e brilhantemente pla-

nejada. Esta organização era a COLINA, o grupo

do qual eu fazia parte. Meu setor era o Movi-

mento Estudantil. A organização se dividia clara-

mente entre o componente político, que militava

entre os estudantes e operários, e o componente

militar, formado pelos companheiros ligados às

ações armadas. Estes últimos tinham outros tipos

de células, formação e contatos – algo necessário

para aumentar sua segurança.

No final da década de 60, a COLINA colocou em

prática uma série de manobras que atraíram a

repressão. Em pouco tempo, os militares chega-

ram a um aparelho que funcionava no bairro

São Geraldo, invadindo-o durante a noite. Encur-

ralados, nossos companheiros reagiram à bala e

acabaram matando um policial, sendo presos em

seguida. Nos meses seguintes, passariam por um

verdadeiro martírio, chegando a serem levados

para o Rio e usados em aulas de tortura – algo

que Elio Gaspari relata em sua coleção de livros

sobre o período da Ditadura.

Com a queda deste aparelho, alguns militantes

acabaram falando sob tortura e, com isso, meu

49

nome e codinome (Clemente) caíram nas mãos

dos militares. À medida que novas prisões iam

sendo efetuadas e que pessoas mais próximas a

mim começaram a cair, percebi que algo estava

sendo revelado e o cerco estava se fechando. Por

precaução, saí de casa e passei a morar em um

de nossos aparelhos. Naquela época, ainda con-

seguíamos filtrar muitas informações das prisões

– e foi desta maneira que um companheiro pôde

me avisar para fugir, pois eu estava prestes a ser

capturado.

Larguei a faculdade e fugi para o Rio de Janeiro,

já na clandestinidade. Sem querer expor meus

pais ou aumentar a preocupação que já sentiam,

procurei revelar o mínimo possível. Por meio de

carta, menti para mamãe, dizendo que estava

saindo do Brasil e indo para um lugar seguro, e

que manteria contato de tempos em tempos. Por

mais que desejasse conversar com minha famí-

lia, eu não podia me arriscar, pois a repressão

estava avançando rapidamente em seus méto-

dos de controle e busca de informações.

Um ano e meio se passaria até que eu pudesse

finalmente contatar meus pais, ainda em circuns-

tâncias desesperadoras.

50

Capítulo III

Clandestino

À medida que companheiros espalhados por

todo o Brasil eram obrigados a mergulhar na

clandestinidade, suas organizações de origem

passaram a se preocupar com uma questão

logística: o que fazer com tantos militantes perse-

guidos pela ditadura, e que, em sua maioria, iam

se esconder no Rio de Janeiro? Os famosos

“deslocados” do Rio formavam um grupo nume-

roso cuja atividade principal era, acreditem ou

não, ir ao cinema ou visitar as bibliotecas.

Vivendo em quartos alugados em pensões, éra-

51

mos forçados a passar todo o dia fora de casa,

para evitar desconfianças que poderiam facil-

mente levar-nos à prisão. Assim, antes que al-

guém pudesse perguntar: “O que um cara dessa

idade fica fazendo o dia inteiro no quarto?”,

mentíamos descaradamente, alegando que tra-

balhávamos ou estudávamos – e, como parte da

farsa, saíamos logo pela manhã e retornávamos

somente à noite.

Ora, o que fazer durante todas aquelas horas?

Na maioria das vezes, eu ia ao cinema, algo que

adorava. Durante o período em que estudei no

Colégio Universitário, ajudei a organizar e a criar

as programações de um cineclube, e freqüente-

mente participava de sessões no Centro de Estu-

dos Cinematográficos (CEC). Assim, como mili-

tante clandestino, simplesmente retomei o hábi-

to e chegava a entrar no cinema ao meio-dia e

sair apenas às 8 horas da noite.

Desenvolvi uma relação de absoluta paixão com

o cinema e assistia a todos os filmes que estavam

em cartaz, muitos deles três vezes seguidas. Eu

chegava a sair tonto da sala de exibição. Logo

fiquei fascinado com as produções do Cinema

Novo que, de certa forma, pareciam uma espécie

de rascunho dos filmes americanos em função de

sua precariedade técnica e suas diferenças narra-

52

tivas e temáticas, bem mais próximas de mim. Os

longas de Hollywood eram perfeitinhos, bem-aca-

bados, e isto me distanciava, eu não percebia a

possibilidade de fazer algo como aquilo. Ainda

assim, eu sequer tinha como pensar na possibili-

dade de algum dia vir a me dedicar ao cinema, já

que minhas preocupações eram mais imediatas e

graves. De todo modo, já sonhava muito com

aqueles filmes brasileiros que me impressionavam

enquanto linguagem e forma de expressão.

Além do tempo gasto em frente à tela grande, eu

também realizava uma série de tarefas pela cidade

e, em determinado instante, fui enviado para

Magé, no interior do Estado, onde funcionava uma

base de pescadores ligados à organização. Aquelas

semanas foram um verdadeiro suplício para mim,

mas não por motivos políticos. O problema é que

eles comiam abóbora praticamente o dia inteiro,

e eu sempre detestei abóbora. Esta foi, aliás, uma

das grandes provas de minha dedicação à causa:

comer peixe com abóbora. Minha estada em Magé

chegou ao fim quando alguns companheiros

foram presos em um local próximo dali e recebi

ordens de voltar à capital.

Nós vivíamos de altos e baixos, e tínhamos, em

nossas mentes, um certo modelo de como as

coisas deveriam funcionar. Era fundamental que

montássemos um foco guerrilheiro no campo a

53

fim de realizar ações estratégicas nas cidades,

como a expropriação de bancos com o objetivo

de financiar a organização e preparar novos

quadros. Ao contrário do que o Partidão advo-

gava, nós acreditávamos que os combates pode-

riam levar à conscientização da população, que

perceberia a importância da causa revolucioná-

ria. E, quando encaixávamos a realidade neste

nosso esquema teórico, acabávamos achando

que a coisa toda estava avançando, num proces-

so contínuo de auto-ilusão.

Creio que sempre tivemos um certo sentimento

de onipotência, acreditando que um grupo

pequeno, mas formado por pessoas inteligentes,

bem preparadas e extremamente corajosas, po-

deria vencer um exército. Não é à toa que o lema

da organização era “Ousar Lutar, Ousar Vencer”.

E é claro que realizamos várias ações bem-

sucedidas que acabavam por humilhar os milita-

res – que voltavam com força redobrada para nos

liquidar.

Uma dessas ações foi realmente fantástica. Em 18

de julho de 1969, a VAR-Palmares conseguiu execu-

tar um roubo que se tornou famoso ao invadir a

residência de uma amante de Adhemar de Barros,

ex-governador de São Paulo, e levar 2,8 milhões

54

de dólares que se encontravam em um cofre. Dias

depois, recebi a incumbência de transportar parte

deste dinheiro para Brasília, a fim de distribuí-lo

entre aparelhos ligados ao grupo.

Como o controle era enorme nas estradas, optei

por viajar sempre de ônibus. Ainda assim, volta

e meia a polícia nos parava e entrava pedindo

os documentos de todos os passageiros, chegan-

do a prender aqueles que considerava suspeitos.

Portando documentos falsos, eu levava uma

malinha pequena, entupida de dólares, e a colo-

cava no porta-volumes situado sobre um dos

bancos na parte dianteira do veículo, bem distan-

te do meu próprio assento. Dessa forma, eu

poderia vigiá-la, mas, caso a polícia a localizasse

(o que nunca aconteceu), não iria poder associá-

la a mim.

Depois de algum tempo, a organização me man-

dou para Goiás, uma região estratégica para nossos

propósitos. Sempre acreditamos que qualquer foco

guerrilheiro no Brasil, para ser bem-sucedido, deve-

ria ser situado por aquelas bandas, caminhando

em direção ao sul do Pará, onde mais tarde houve

a guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB.

Aquela era uma região perigosa, de conflitos

sociais violentos pela posse da terra. Eu deveria

montar uma base de apoio em Goiânia e, conse-

qüentemente, fui obrigado a circular muito por

55

Brasília a fim de estabelecer contatos com os com-

panheiros que lá operavam.

Ser militante clandestino em Brasília é uma coisa

pavorosa. Numa cidade normal, com esquinas,

lojas, bancas de revistas, é fácil circular a pé – o que não ocorre ali. Com isso, à solidão natural

do militante somava-se a solidão que a capital

do país provocava, o que era terrível.

Em Brasília, vivi uma história de amor que me

marcou muito: apaixonei-me por uma compa-

nheira de organização, que havia se separado

há pouco tempo de outro militante. Tentar man-

ter um relacionamento em um contexto maluco

como o daquele período era algo difícil e eu me

sentia terrivelmente só. Os poucos casos que ti-

nha eram marcados por mentiras, já que eu não

podia revelar nem mesmo meu nome para mi-

nhas companheiras. Já aquele novo romance era

diferente, pois ela sabia um pouco mais sobre

mim, sobre minhas ideologias. Logo decidimos

viver juntos em um dos aparelhos que a VAR-

Palmares mantinha em Brasília – algo que desa-

gradou ao seu ex-marido, que não escondia o

desejo de reatar o casamento. E foi então que

ele foi preso pelos militares e, sob tortura, aca-

bou entregando o nome de sua ex-mulher.

56

Na ocasião, eu tinha viajado para o Rio por al-

guns dias e, na volta, deveria me reunir com ele,

a fim de lhe entregar uma quantia em dinheiro

enviada pela organização. O encontro seria num

domingo de manhã, às 11 horas, perto do Hotel

Nacional. Como cheguei no sábado à noite, deci-

di ligar para um padre holandês, um de nossos

contatos com a Igreja Católica (e que acabou

sendo expulso do Brasil tempos depois). Assim

que ouviu minha voz, ele disse, com seu sota-

que carregado:

– Graças a Deus que você ligou! E me colocou a

par da queda do sujeito, acrescentando que ele

estava entregando várias pessoas.

Apesar do incrível golpe de sorte (um de vários)

que evitou minha prisão, minha relação com a

ex-esposa deste companheiro se tornou compli-

cada. Sabendo que ele estava sendo torturado,

ela passou a se sentir culpada por viver comigo.

E o que é pior: a repressão sabia do nosso

envolvimento e usava isto para atormentar o

prisioneiro: “Sua mulher está com o Clemente!”,

diziam, entre risos.

Decidimos nos separar, mas aquela perda adicio-

nal consumiu o resto das forças que eu tinha para

continuar lutando. Depois de ter escapado por

pouco em duas ou três ocasiões, eu sabia que,

caso fosse capturado, seria terrivelmente tortu-

57

rado e provavelmente morto.

Eu a vi pela última vez em um bar, onde nos

despedimos. Eu sofria profundamente por causa

da separação, mas, racionalmente, sabia que, se