Heróis da Fé por Orlando Boyer - Versão HTML

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Heróis da Fé

Vinte homens extraordinários que incendiaram o mundo

Orlando S. Boyer

Biografias cristãs

CPAD – Casa Publicadora das Assembléias de Deus

Rio de Janeiro, RJ

15ª Edição – 1999

Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap

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Sumário

APRESENTAÇÃO

O SALVADOR ESPERA E O MUNDO CARECE

O SOLUÇO DE UM BILHÃO DE ALMAS

JERÔNIMO SAVONAROLA

MARTINHO LUTERO

JOÃO BUNYAN

JÔNATAS EDWARDS

JOÃO WESLEY

JORGE WHITEFIELD

DAVI BRAINERD

GUILHERME CAREY

CHRISTMAS EVANS

HENRIQUE MARTYN

ADONIRAM JUDSON

CARLOS FINNEY

JORGE MÜLLER

DAVI LIVINGSTONE

JOÃO PATON

HUDSON TAYLOR

CARLOS SPURGEON

PASTOR HSI

DWIGHT LYMAN MOODY

JÔNATAS GOFORTH

Apresentação

"Visitei o velho templo de Nova Inglaterra onde Jônatas

Edwards pregou o comovente sermão: ''Pecadores nas mãos de

um Deus irado". Edwards segurava o manuscrito tão perto dos

olhos, que os ouvintes não podiam ver-lhe o rosto. Porém, com a

continuação da leitura, o grande auditório ficou abalado. Um

homem correu para a frente, clamando: Sr. Edwards, tenha

compaixão! Outros se agarraram aos bancos, pensando que iam

cair no Inferno. Vi as colunas que eles abraçaram para se

firmarem, pensando que o Juízo Final havia chegado.

"O poder daquele sermão não cessa de operar no mundo

inteiro. Mas convém saber algo mais da parte da história

geralmente suprimida. Imediatamente antes desse sermão, por

três dias Edwards não se alimentara; durante três noites não

dormira. Rogara a Deus sem cessar: 'Dá-me a Nova Inglaterra!'

Ao levantar-se da oração, dirigindo-se para o púlpito, alguém

disse que tinha o semblante de quem fitara, por algum tempo, o

rosto de Deus. Antes de abrir a boca para proferir a primeira

palavra, a convicção caiu sobre o auditório."

Assim escreveu J. Wilbur Chapman acerca de Jônatas

Edwards. Esse célebre pregador, contudo, não foi o único que

lutou com Deus em oração. Ao contrário, depois de ler

cuidadosamente as biografias de alguns dos maiores vultos da

Igreja de Cristo, concluímos que nunca se pode atribuir o êxito

de qualquer deles unicamente a seus próprios talentos e força de

vontade. Certamente um biógrafo que não crê no valor da

oração, nem conhece o poder do Espírito Santo que opera nos

corações, não mencionaria a oração como sendo o verdadeiro

mistério da grandeza dos heróis da fé.

Lemos, por exemplo, dois livros, bem escritos, da vida de

Adoniram Judson. Quando estávamos quase a concluir que

houvesse alguns verdadeiros heróis da Igreja, realmente grandes

em si mesmos, encontramos outra biografia dele, escrita por um

de seus filhos, Eduardo Judson. Nessa preciosa obra descobre-se

que esse talentoso missionário passava diariamente horas a fio,

de noite e de madrugada, em íntima comunhão com Deus, em

oração.

- Qual é, então, o mistério do incrível êxito dos heróis da

fé, da Igreja de Cristo? - Esse mistério foi a profunda comunhão

com Deus que esses homens observaram.

Confessamos que a bibliografia abaixo muito nos inspirou

ao escrever este livro:

Jerônimo Savonarola: Lawson.

Martinho Lutero: Lindsay, Lima, Olson, Stwart, Canuto, Saussure,

Knight-Anglin e Frodsham.

João Bunyan: Gulliver e Lawson.

Jônatas Edwards: Allen, Hickman e Howard.

João Wesley: Beltaz, Lawson, Telford, Miller, Fitchett, Winchester,

Joy e Buyers.

Jorge Whitefield: Gledstone, Lawson e Olson.

Davi Brainerd: Smith, Harrison, Lawson e Edwards.

Guilherme Carey: Harrison, Dalton, Olson e Marshman.

Christmas Evans: Davis e Lawson.

Henrique Martyn: Harrison e Page.Adoniram Judson: Harrison e

Judson. Carlos Finney: Day, Beltz e Finney.

Também nos inspiraram obras sobre a vida de outros

homens de Deus (heróis também) que figuram neste livro:

Jorge Muller

Davi Livingstone

João Paton

Hudson Taylor

Carlos Spurgeon

Pastor Hsi

Dwight Lyman Moody

Jônatas Goforth

Não empregamos aqui a palavra "herói" no sentido pagão,

isto é, grandes vultos humanos divinizados. A Bíblia fala de

"homens ilustres em valor", "os valentes", "os fiéis", "os

vencedores" ...A vida desses homens foi que nos inspirou, com

seus sermões ardentes e empolgantes.

Muitos crentes ficam satisfeitíssimos por, apenas, escapar

da perdição! Eles ignoram "a plenitude do Evangelho de Cristo"

(Romanos 15.29). "A vida em abundância" (João 10.10) é muito

mais do que ser salvo, como se vê ao ler as biografias referidas.

Que o exemplo dos Heróis da Fé nos incite a procurar as

bênçãos sem medida, citadas em Malaquias 3.10!

O autor

O Salvador espera e o mundo

carece

"Foi quando Stanley Smith e Carlos Studd se hospedaram

em nossa casa, que iniciei o maior período de bênçãos da minha

vida. Antes eu era crente precipitado e inconstante: às vezes

ardia de entusiasmo, para depois passar dias inteiros triste e

desanimado. Percebi que esses dois jovens possuíam uma coisa

que eu não tinha: algo que lhes era uma fonte perene de

sossego, força e gozo. Nunca me esquecerei de uma manhã, no

mês de novembro, ao nascer o sol, quando a luz entrava pela

janela a dentro do quarto, onde eu meditava sobre as Escrituras

desde a madrugada. A palestra que tive, então, com os dois

moços, influenciou o resto da minha vida. - Não devia eu fazer o

que eles tinham feito?

"— Não devia eu ser, também, um vaso (apesar de ser

barro) para o uso do Mestre?"

Assim escreveu o amado e santo pregador F. B. Meyer,

sobre a mudança da sua vida que resultou em tanta glória para

Cristo, na Terra.Iniciamos a leitura das biografias de alguns dos

maiores servos de Deus. - Não devemos reler e meditar sobre a

fiel vida de Savonarola, a estupenda obra de Lutero, o zelo

incansável de Wesley, o grande avivamento de Edwards... enfim,

sobre cada história? Não devemos deixar cada herói hospedar-se

conosco, como Stanley Smith e Carlos Studd hospedaram-se na

casa de F. B. Meyer, para nos falarem e influenciarem,

transformando-nos profundamente para todo o resto da vida?

Isso é o que o Salvador espera e que o mundo carece.

O soluço de um bilhão de almas

Diz-se que Martinho Lutero tinha um amigo íntimo, cujo

nome era Miconio. Ao ver Lutero sentado dias a fio trabalhando

no serviço do Mestre, Miconio ficou penalizado e disse-lhe:

"Posso ajudar mais onde estou; permanecerei aqui orando

enquanto tu perseveras incansavelmente na luta." Miconio orou

dias seguidos por Martinho. Mas enquanto perseverava em

oração, começou a sentir o peso da própria culpa. Certa noite

sonhou com o Salvador, que lhe mostrou as mãos e os pés.

Mostrou-lhe também a fonte na qual o purificara de todo o

pecado. "Segue-me!" disse-lhe o Senhor, levando-o para um alto

monte de onde apontou para o nascente. Miconio viu uma

planície que se estendia até o longínquo horizonte. Essa vasta

planície estava coberta de ovelhas, de muitos milhares de

ovelhas brancas. Somente havia um homem, Martinho Lutero,

que se esforçava para apascentar a todas. Então o Salvador

disse a Miconio que olhasse para o poente; olhou e viu vastos

campos de trigo brancos para a ceifa. O único ceifador,que

lidava para segá-los, estava quase exausto, contudo persistia na

sua tarefa. Nessa altura, Miconio reconheceu o solitário ceifeiro,

seu bom amigo, Martinho Lutero! Ao despertar do sono, tomou

esta resolução: "Não posso ficar aqui orando enquanto Martinho

se afadiga na obra do Senhor. As ovelhas devem ser

pastoreadas; os campos têm de ser ceifados. Eis-me aqui,

Senhor; envia-me a mim!" Foi assim que Miconio saiu para

compartilhar do labor de seu fiel amigo.

Jesus nos chama para trabalhar e orar. É de joelhos que a

Igreja de Cristo avança. Foi Lionel Fletcher quem escreveu:

"Todos os grandes ganhadores de almas através dos sé-

culos foram homens e mulheres incansáveis na oração. Conheço

como homens de oração quase todos os pregadores de êxito da

geração atual, tanto como os da geração próxima passada, e sei

que, igualmente, foram homens de intensa oração.

"Certo evangelista tocou-me profundamente a alma

quando eu era ainda jovem repórter dum diário. Esse evangelista

estava hospedado em casa de um pastor presbiteriano. Bati à

porta e pedi para falar com o evangelista. O pastor, com voz

trêmula e com o rosto iluminado por estranha luz, respondeu:

"Nunca se hospedou um homem como ele em nossa casa.

Não sei quando ele dorme. Se entro no seu quarto durante a

noite para saber se precisa de alguma coisa, encontro-o orando.

Vi-o entrar no templo cedo de manhã e não voltou para as

refeições.

"Fui à igreja... Entrei furtivamente para não perturbá-lo.

Achei-o sem paletó e sem colarinho. Estava caído de bruços

diante do púlpito. Ouvi a sua voz como que agonizante e

comovente instando com Deus em favor daquela cidade de

garimpeiros, para que dirigisse almas ao Salvador. Tinha orado

toda a noite; tinha orado e jejuado o dia inteiro.

"Aproximei-me furtivamente do lugar onde ele orava

prostrado, ajoelhei-me e pus a mão sobre seu ombro. O suor

caía-lhe pelo corpo. Ele nunca me tinha visto, mas fitou-me por

um momento e então rogou: 'Ore comigo, ir-mão! Não posso

viver se esta cidade não se chegar a Deus.' Pregara ali vinte dias

sem haver conversões. Ajoelhei-me ao seu lado e oramos juntos.

Nunca ouvira alguém insistir tanto como ele. Voltei de lá

assombrado, humilhado e estremecendo.

"Aquela noite assisti ao culto no grande templo onde ele

pregou. Ninguém sabia que ele não comera durante o dia inteiro,

que não dormira durante a noite anterior. Mas, ao levantar-se

para pregar, ouvi diversos ouvintes dizerem: 'A luz do seu rosto

não é da terra!' E não era mesmo. Ele era conceituado instrutor

bíblico, mas não tinha o dom de pregar. Porém, nessa noite,

enquanto pregava, o auditório inteiro foi tomado pelo poder de

Deus. Foi a primeira grande colheita de almas que presenciei."

Há muitas testemunhas oculares do fato de Deus conti-

nuar a responder às orações como no tempo de Lutero, Edwards

e Judson. Transcrevemos aqui o seguinte comentário publicado

em certo jornal:

"A irmã Dabney é uma crente humilde que se dedica a

orar... Seu marido, pastor de uma grande igreja, foi chamado

para abrir a obra em um subúrbio habitado por pobres. No

primeiro culto não havia nenhum ouvinte: somente ele e ela

assistiram. Ficaram desenganados. Era um campo dificílimo: o

povo não era somente pobre, mas depravado também. A irmã

Dabney viu que não havia esperança a não ser clamar ao

Senhor, e resolveu dedicar-se persistentemente à oração. Fez

um voto a Deus que, se Ele atraísse os pecadores aos cultos e os

salvasse, ela se entregaria à oração e jejuaria três dias e três

noites, no templo, todas as semanas, durante um período de três

anos.

"Logo, que essa esposa de um pastor angustiado começou

a orar, sozinha, no salão de cultos, Deus começou a operar,

enviando pecadores, a ponto de o salão ficar superlotado de

ouvintes. Seu marido pediu que orasse ao Senhor e pedisse um

salão maior. Deus moveu o coração de um comerciante para

desocupar o prédio fronteiro ao salão, cedendo-o para os cultos.

Continuou a orar e a jejuar três vezes por semana, e aconteceu

que o salão maior também não comportava os auditórios. Seu

marido rogou-lhe novamente que orasse e pedisse um edifício

onde todos quantos desejassem assistir aos cultos pudessem

entrar. Ela orou e Deus lhes deu um grande templo situado na

rua principal desse subúrbio. No novo templo, também a

assistência aumentou a ponto de muitos dos ouvintes serem

obrigados a assistir às pregações de pé, na rua. Muitos foram

libertos do pecado e batizados."

Quando os crentes sentem dores em oração, é que re-

nascem almas. "Aqueles que semeiam em lágrimas, com júbilo

ceifarão."

"O soluço de um bilhão de almas na terra me soa aos

ouvidos e comove o coração; esforço-me, pelo auxílio de Deus,

para avaliar, ao menos em parte, as densas trevas, a extrema

miséria e o indescritível desespero desses mil milhões de almas

sem Cristo. Medita, irmão, sobre o amor do Mestre, amor

profundo como o mar; contempla o horripilante espetáculo do

desespero dos povos perdidos, até não poderes censurar, até

não poderes descansar, até não poderes dormir."

Sentindo as necessidades dos homens que perecem sem

Cristo, foi que Carlos Inwood escreveu o que lemos acima, e é

por essa razão que se abrasa a alma dos heróis da igreja de

Cristo através dos séculos.

Na campanha de Piemonte, Napoleão dirigiu-se aos seus

soldados com as seguintes palavras: "Ganhastes sangrentas

batalhas, sem canhões, atravessastes caudalosos rios sem

pontes, marchastes incríveis distâncias descalços, acampastes

inúmeras vezes sem coisa alguma para comer, tudo graças à

vossa audaciosa perseverança! Mas, guerreiros, é como se não

tivéssemos feito coisa alguma, pois resta ainda muito para

alcançarmos!"

Guerreiros da causa santa, nós podemos dizer o mesmo: é

como se não tivéssemos feito coisa alguma. A audaciosa

perseverança é-nos ainda indispensável; há mais almas para

salvar atualmente do que no tempo de Müller, de Livingstone, de

Paton, de Spurgeon e de Moody.

"Ai de mim, se não anunciar o Evangelho!" (1 Coríntios

9.16).

Não podemos tapar os ouvidos espirituais para não ouvir o

choro e os suspiros de mais de um bilhão de almas na terra que

não conhecem o caminho para o lar celestial.

Jerônimo Savonarola

Precursor da Grande Reforma

(1452-1498)

O povo de toda a Itália afluía, em número sempre cres-

cente, a Florença. A famosa Duomo não mais comportava as

enormes multidões. O pregador, Jerônimo Savonarola, abrasado

com o fogo do Espírito Santo e sentindo a iminência do

julgamento de Deus, trovejava contra o vício, o crime e a

corrupção desenfreada na própria igreja. O povo abandonou a

leitura das publicações torpes e mundanas, para ler os sermões

do ardente pregador: deixou os cânticos das ruas, para cantar os

hinos de Deus. Em Florença, as crianças fizeram procissões,

coletando as máscaras carnavalescas, os livros obscenos e todos

os objetos supérfluos que serviam à vaidade. Com isso formaram

em praça pública uma pirâmide de vinte metros de altura e atea-

ram-lhe fogo. Enquanto o monte ardia, o povo cantava hinos e os

sinos da cidade dobravam em sinal de vitória.

Se o ambiente político fosse o mesmo que depois veio a

ser na Alemanha, o intrépido e devoto Jerônimo Savonarola teria

sido o instrumento usado para iniciar a Grande Reforma, em vez

de Martinho Lutero. Apesar de tudo, Savonarola tornou-se um

dos ousados e fiéis arautos para conduzir o povo à fonte pura e

às verdades apostólicas registradas nas Sagradas Escrituras.

Jerônimo era o terceiro dos sete filhos da família. Nasceu

de pais cultos e mundanos, mas de grande influência. Seu avô

paterno era um famoso médico na corte do duque de Ferrara e

os pais de Jerônimo planejavam que o filho ocupasse o lugar do

avô. No colégio, era aluno esmerado. Mas os estudos da filosofia

de Platão e de Aristóteles, deixaram-lhe a alma sequiosa. Foram,

sem dúvida, os escritos de Tomaz de Aquino que mais o

influenciaram (a não ser as próprias Escrituras) a entregar

inteiramente o coração e a vida a Deus. Quando ainda menino,

tinha o costume de orar e, ao crescer, o seu ardor em orar e

jejuar aumentou. Passava horas seguidas em oração. A

decadência da igreja, cheia de toda a qualidade de vício e

pecado, o luxo e a ostentação dos ricos em contraste com a

profunda pobreza dos pobres, magoavam-lhe o coração. Passava

muito tempo sozinho, nos campos e à beira do rio Pó, em

contemplação perante Deus, ora cantando, ora chorando,

conforme os sentimentos que lhe ardiam no peito. Quando ainda

jovem, Deus começou a falar-lhe em visões. A oração era a sua

grande consolação; os degraus do altar, onde se prostrava horas

a fio, ficavam repetidamente molhados de suas lágrimas.

Houve um tempo em que Jerônimo começou a namorar

certa moça florentina. Mas quando ela mostrou ser desprezo

alguém da sua orgulhosa família Strozzi, unir-se a alguém da

família de Savonarola, Jerônimo abandonou para sempre a idéia

de casar-se. Voltou a orar com crescente ardor. Enojado do

mundo, desapontado acerca dos seus próprios anelos, sem achar

uma pessoa compassiva a quem pudesse pedir conselhos, e

cansado de presenciar injustiças e perversidades que o

cercavam, coisas que não podia remediar, resolveu abraçar a

vida monástica.

Ao apresentar-se no convento, não pediu o privilégio de se

tornar monge, mas rogou que o aceitassem para fazer os

serviços mais vis, da cozinha, da horta e do mosteiro.Na vida do

claustro, Savonarola passava ainda mais tempo em oração,

jejum e contemplação perante Deus. Sobrepujava todos os

outros monges em humildade, sinceridade e obediência, sendo

apontado para lecionar filosofia, posição que ocupou até sair do

convento.

Depois de passar sete anos no mosteiro de Bolongna, frei

(irmão) Jerônimo foi para o convento de São Marcos, em

Florença. Grande foi o seu desapontamento ao ver que o povo

florentino era tão depravado como o dos demais lugares. (Até

então ainda não reconhecia que somente a fé em Deus salva o

pecador.)

Ao completar um ano no convento de São Marcos, foi

apontado instrutor dos noviciados e, por fim, designado pregador

do mosteiro. Apesar de ter ao seu dispor uma excelente

biblioteca, Savonarola utilizava-se mais e mais da Bíblia como

seu livro de instrução.

Sentia cada vez mais o terror e a vingança do Dia do

Senhor que se aproxima e, às vezes, entregava-se a trovejar do

púlpito contra a impiedade do povo. Eram tão poucos os que

assistiam às suas pregações, que Savonarola resolveu dedicar-se

inteiramente à instrução dos noviciados. Contudo, como Moisés,

não podia escapar à chamada de Deus!

Certo dia, ao dirigir-se a uma feira, viu, repentinamente,

em visão, os céus abertos e passando perante seus olhos todas

as calamidades que sobrevirão à igreja. Então lhe pareceu ouvir

uma voz do Céu ordenando-lhe anunciar estas coisas ao povo.

Convicto de que a visão era do Senhor, começou nova-

mente a pregar com voz de trovão. Sob a nova unção do Espírito

Santo a sua condenação ao pecado era feita com tanto ímpeto,

que muitos dos ouvintes depois andavam atordoados sem falar,

nas ruas. Era coisa comum, durante seus sermões, homens e

mulheres de todas as idades e de todas as classes romperem em

veemente choro.

O ardor de Savonarola na oração aumentava dia após dia

e sua fé crescia na mesma proporção. Freqüentemente, ao orar,

caía em êxtase. Certa vez, enquanto sentado no púlpito,

sobreveio-lhe uma visão, durante a qual ficou imóvel por cinco

horas, quando o seu rosto brilhava, e os ouvintes na igreja o

contemplavam.

Em toda a parte onde Savonarola pregava, seus sermões

contra o pecado produziam profundo terror. Os homens mais

cultos começaram então a assistir às pregações em Florença; foi

necessário realizar as reuniões na Duomo, famosa catedral, onde

continuou a pregar durante oito anos. O povo se levantava à

meia-noite e esperava na rua até a hora de abrir a catedral.

O corrupto regente de Florença, Lorenzo Medici, expe-

rimentou todas as formas: a bajulação, as peitas, as ameaças, e

os rogos, para induzir Savonarola a desistir de pregar contra o

pecado, e especialmente contra a perversidade do regente. Por

fim, vendo que tudo era debalde, contratou o famoso pregador,

Frei Mariano, para pregar contra Savonarola. Frei Mariano pregou

um sermão, mas o povo não prestou atenção à sua eloqüência e

astúcia, e ele não ousou mais pregar.

Nessa altura, Savonarola profetizou que Lorenzo, o Papa e

o rei de Nápoles morreriam dentro de um ano, e assim sucedeu.

Depois da morte de Lorenzo, Carlos VIII, da França, invadiu

a Itália e a influência de Savonarola aumentou ainda mais. O

povo abandonou a literatura torpe e mundana para ler os

sermões do famoso pregador. Os ricos socorriam os pobres em

vez de oprimi-los. Foi neste tempo que o povo fez a grande

fogueira, na "piazza" de Florença e queimou grande quantidade

de artigos usados para alimentar vícios e vaidade. Não cabia

mais, na grande Duomo, o seu imenso auditório.

Contudo, o sucesso de Savonarola foi muito curto. O

pregador foi ameaçado, excomungado e, por fim, no ano de

1498, por ordem do Papa, foi queimado em praça pública. Com

as palavras: "O Senhor sofreu tanto por mim!", terminou a vida

terrestre de um dos maiores e mais dedicados mártires de todos

os tempos.

Apesar de ele continuar até a morte a sustentar muitos

dos erros da Igreja Romana, ensinava que todos os que são

realmente crentes estão na verdadeira Igreja. Alimentava

continuamente a alma com a Palavra de Deus. As margens das

páginas da sua Bíblia estão cheias de notas escritas enquanto

meditava nas Escrituras. Conhecia uma grande parte da Bíblia de

cor e podia abrir o livro instantaneamente e achar qualquer

texto. Passava noites inteiras em oração e foram-lhe dadas

revelações quando em êxtase, ou por visões. Seus livros sobre

"A Humildade", "A Oração", "O Amor", etc., continuam a exercer

grande influência sobre os homens. Destruíram o corpo desse

precursor da Grande Reforma, mas não puderam apagar as

verdades que Deus, por seu intermédio, gravou no coração do

povo.

Martinho Lutero

O grande reformador

(1483-1546)

No cárcere, sentenciado pelo Papa a ser queimado vivo,

João Huss disse: "Podem matar o ganso (na sua língua, 'huss' é

ganso), mas daqui a cem anos, Deus suscitará um cisne que não

poderão queimar".

Enquanto caía a neve, e o vento frio uivava como fera em

redor da casa, nasceu esse "cisne", em Eisleben, Alemanha. No

dia seguinte, o recém-nascido era batizado na Igreja de São

Pedro e São Paulo. Sendo o dia de São Martinho, recebeu o nome

de Martinho Lutero.

Cento e dois anos depois de João Huss expirar na fogueira,

o "cisne" afixou, na porta da Igreja em Wittenberg, as suas

noventa e cinco teses contra as indulgências, ato que gerou a

Grande Reforma. João Huss enganara-se em apenas dois anos,

na sua predição.

Para dar o valor devido à obra de Martinho Lutero, é

necessário notar algo das trevas e confusão dos tempos em que

nasceu.

Calcula-se que, pelo menos, um milhão de albigenses

foram mortos na França, a fim de cumprir a ordem do Papa, para

que esses "hereges" fossem cruelmente exterminados. Wyclif, "a

Estrela da Alva da Reforma", traduzira a Bíblia para a língua

inglesa. João Huss, discípulo de Wyclif, morrera na fogueira, na

Boêmia, suplicando ao Senhor que perdoasse aos seus

perseguidores. Jerônimo de Praga, companheiro de Huss e

também erudito, sofrera o mesmo suplício, cantando hinos, nas

chamas, até o último suspiro. João Wessália, notável pregador de

Erfurt, fora preso por ensinar que a salvação é pela graça; seu

frágil corpo fora metido entre ferros, onde morreu quatro anos

antes do nascimento de Lutero. Na Itália, quinze anos depois de

Lutero nascer, Savonarola, homem dedicado a Deus e fiel

pregador da Palavra, foi enforcado e seu corpo reduzido a cinzas,

por ordem da Igreja Romana.

Em tempos assim, nasceu Martinho Lutero. Como muitos

dos mais célebres entre os homens, era de família pobre. Dizia

ele: "Sou filho de camponeses; meu pai, meu avô e meu bisavô

eram verdadeiros camponeses". A isso acrescentava: "Há tanta

razão para vangloriarmo-nos de nossa ascendência, quanto há

para o Diabo se orgulhar da sua linhagem angélica".

Os pais de Martinho, para vestir, alimentar e educar seus

sete filhos, esforçavam-se incansavelmente. O pai trabalhava

nas minas de cobre; a mãe, além do serviço doméstico, trazia

lenha às costas, da floresta.

Os pais, não somente se interessavam pelo desenvolvi-

mento físico e intelectual dos filhos, mas também do espiritual. O

pai, quando Martinho chegou à idade de compreender, ensinou-o

a ajoelhar-se ao lado da sua cama, à noite, e rogava a Deus que

fizesse o menino lembrar-se do nome de seu Criador (Eclesiastes

12.1)..

A sua mãe era sincera e devota; ensinou seus filhos a

considerarem todos os monges como homens santos, e a

sentirem todas as transgressões dos regulamentos da igreja

como transgressões das leis de Deus. Martinho aprendeu os Dez

Mandamentos, o "Pai Nosso", a respeitar a Santa Sé na distante

e sagrada Roma, e a olhar, tremendo, para qualquer osso ou

fragmento de roupa que tivesse pertencido a algum santo. A

base da sua religião formava-se mais em que Deus é um juiz

vingativo, do que um amigo de crianças (Mateus 19.13-15).

Quando já era adulto, Lutero escreveu: "Estremecia e tornava-

me pálido ao ouvir alguém mencionar o nome de Cristo, porque

fui ensinado a considerá-lo como um juiz encolerizado. Fomos

ensinados que devíamos, nós mesmos, fazer propiciação por

nossos pecados; que não podemos fazer compensação suficiente

por nossa culpa, que é necessário recorrer aos santos nos céus,

e clamar a Maria para desviar de nós a ira de Cristo."

O pai de Martinho, satisfeitíssimo pelos trabalhos esco-

lares do filho, na vila onde morava, mandou-o, aos treze anos,

para a escola franciscana na cidade de Magdeburgo.

O moço apresentava-se freqüentemente no confessio-

nário, onde o padre lhe impunha penitências e o obrigava a

praticar boas obras, para obter a absolvição. Esforçava-se

incessantemente para adquirir o favor de Deus, pela piedade,

desejo esse que o levou mais tarde à vida de convento.

Para conseguir a sua subsistência em Magdeburgo,

Martinho era obrigado a esmolar pelas ruas, cantando canções

de porta em porta. Seus pais, achando que em Eisenach passaria

melhor, mandaram-no para estudar nessa cidade, onde

moravam parentes de sua mãe. Porém esses parentes não o

auxiliaram, e o moço continuou a mendigar o pão.

Quando estava a ponto de abandonar os estudos, j)ara

trabalhar com as mãos, certa senhora de recursos, D. Ursula

Cota, atraída por suas orações na igreja e comovida pela

humilde maneira de receber quaisquer restos de comida, na

porta, acolheu-o entre a família. Pela primeira vez Lutero sentira

fartura. Mais tarde, ele referia-se à cidade de Eisenach como a

"cidade bem amada". Quando Lutero se tornou famoso, um dos

filhos da família Cota cursava em Wittenberg, onde Lutero o

recebeu na sua casa.

Domiciliado na casa da sua extremosa mãe adotiva, D.

Ursula, Martinho desenvolveu-se rapidamente, recebendo uma

sólida educação. Seu mestre, João Trebunius, era homem culto e

de métodos esmerados. Não maltratava os alunos como os

demais mestres. Conta-se que, ao encontrar os moços da sua

escola, cumprimentava-os tirando o chapéu, porque "ninguém

sabia quais seriam dentre eles os doutores, regentes,

chanceleres e reis..." O ambiente da escola e no lar era-lhe

favorável para produzir um caráter forte e inquebrantável, tão

necessário para enfrentar os mais temíveis inimigos de Deus.

Martinho Lutero era mais sóbrio e devoto que os demais

rapazes da sua idade. Acerca deste fato, D. Ursula, na hora da

morte, disse que Deus tinha abençoado o seu lar grandemente

desde o dia em que Lutero entrara em sua casa.

Logo depois, os pais de Martinho alcançaram certa

abastança. O pai alugou um forno para fundição de cobre e

depois passou a possuir mais dois. Foi eleito vereador na sua

cidade e começou a fazer planos para educar seus filhos. Mas

Martinho nunca se envergonhou dos dias da sua provação e

miséria; antes reconhecia que fora a mão de Deus dirigindo-o e

qualificando-o para a sua grande obra.

- Como poderia alguém, depois de homem feito, encarar

fiel e destacadamente as vicissitudes da vida, se não aprendesse

por experiência enquanto era jovem?

Aos dezoito anos, Martinho ansiava estudar numa uni-

versidade. Seu pai, reconhecendo a idoneidade do filho, enviou-o

a Erfurt, o centro intelectual do país, onde cursavam mais de mil

estudantes. O moço estudou com tanto afinco que, no fim do

terceiro semestre, obteve o grau de bacharel em filosofia. Com a

idade de vinte e um anos, alcançou o segundo grau acadêmico e

o de doutor em filosofia. Os estudantes, professores e

autoridades prestaram-lhe significativa homenagem.

Havia dentro dos muros de Erfurt, cem prédios que

pertenciam à igreja, inclusive oito conventos. Havia, também

uma importante biblioteca, que pertencia à universidade, e aí

Lutero passava todo o tempo de que podia dispor. Sempre

suplicava fervorosamente a Deus que o abençoasse nos estudos.

Dizia ele: "Orar bem é a melhor parte dos estudos." Acerca dele

escreveu certo colega: "Cada manhã ele precede seus estudos

com uma visita à igreja e uma prece a Deus".Seu pai, desejoso

de que seu filho se formasse em direito e se tornasse célebre,

comprou-lhe a caríssima obra: "Corpus Juris".

Mas a alma de Lutero suspirava por Deus, acima de todas

as coisas. Vários acontecimentos influenciaram-no a entrar para

a vida monástica, passo que entristeceu profundamente seu pai

e horrorizou seus companheiros de universidade.

Primeiro, achou na biblioteca o maravilhoso Livro dos

livros, a Bíblia completa, em latim. Até aquela ocasião, supunha

que as pequenas porções escolhidas pela igreja para serem lidas

aos domingos, constituíssem o todo da Palavra de Deus. Depois

de uma longa leitura, exclamou: "Oh! se a Providência me desse

um livro como este, só para mim!" Continuando a ler as

Escrituras, o seu coração começou a perceber a luz, e a sua alma

a sentir ainda mais sede de Deus.

A essa altura, quando se bacharelou, os estudos custaram-

lhe uma doença que o levou às portas da morte. Assim, a fome

pela Palavra de Deus ficou ainda mais enraizada no coração de

Lutero. Algum tempo depois da sua doença, em viagem para

visitar a família, sofreu um golpe de espada, e duas vezes quase

morreu antes de um cirurgião conseguir pensar-lhe a ferida. Para

Lutero, a salvação da sua alma ultrapassava qualquer outro

anelo.

Certo dia, um de seus íntimos amigos na Universidade foi

assassinado. "Ah!" exclamou Lutero, horrorizado, "o que seria de

mim se eu tivesse sido chamado desta para a outra vida tão

inopinadamente!"

Mas, de todos esses acontecimentos, o que mais o abalou

em espírito, foi o que experimentou durante uma terrível

tempestade, quando voltava de visitar seus pais. Não havia

abrigo próximo. Os céus estavam em brasa, os raios rasgavam

as nuvens a cada instante. De repente um raio caiu ao seu lado.

Lutero, tomado de grande susto, e sentindo-se perto do Inferno,

prostrou-se gritando: "Sant'Ana, salva-me e tornar-me-ei

monge!"

Lutero chamava a esse incidente "A minha estrada, ca-

minho de Damasco" e não tardou em cumprir a sua promessa

feita a Sant'Ana. Convidou então os seus colegas para cearem

com ele. Depois da refeição, enquanto eles se divertiam com

palestras e música, repentinamente anunciou-lhes que dali em

diante poderiam considerá-lo como morto, pois ia entrar para o

convento. Debalde os seus companheiros procuraram dissuadi-lo

do seu plano. Na escuridão da mesma noite, o moço, antes de

completar vinte e dois anos, dirigiu-se ao convento dos

agostinianos e bateu. A porta abriu-se e Lutero entrou. O

professor admirado e festejado, a glória da universidade, aquele

que passara os dias e as noites curvado sobre os livros, tornara-

se irmão agostiniano!

O mosteiro dos agostinianos era o melhor dos claustros de

Erfurt. Seus monges eram os pregadores da cidade, estimados

por suas obras entre os pobres e oprimidos. Nunca houve um

monge naquele convento mais submisso, mais devoto, mais

piedoso, do que Martinho Lutero. Submetia-se aos serviços mais

humildes, como o de porteiro, coveiro, varredor da igreja e das

celas dos monges. Não recusava mendigar o pão cotidiano para

o convento, nas ruas de Erfurt.

Durante o ano de noviciado, antes de Lutero ser feito

monge, os seus amigos fizeram tudo para dissuadi-lo de

confirmar esse passo. Os companheiros, que convidara para

cearem com ele, quando anunciou a sua intenção de ser monge,

ficaram no portão do convento dois dias, esperando que ele

voltasse. Seu pai, vendo que seus rogos eram inúteis e que

todos os seus anelantes planos acerca do filho iam fracassar,

quase enlouqueceu.

Assim se justificou Lutero: "Fiz a promessa a Sant'Ana,

para salvar a minha alma. Entrei para o convento e aceitei esse

estado espiritual somente para servir a Deus e ser-lhe agradável

durante a eternidade."

Quão grande, porém, era a sua ilusão. Depois de procurar

crucificar a carne pelos jejuns prolongados, pelas privações mais

severas, e com vigílias sem conta, achou que, embora

encarcerado na sua cela, tinha ainda de lutar contra os maus

pensamentos. A sua alma clamava: "Dá-me santidade ou morro

por toda a eternidade; leva-me ao rio de água pura e não a estes

mananciais de águas poluídas; traze-me as águas da vida que

saem do trono de Deus!"Certo dia Lutero achou, na biblioteca do

convento, uma velha Bíblia latina, presa à mesa por uma cadeia.

Achara, enfim, um tesouro infinitamente maior que todos os

tesouros literários do convento. Ficou tão embevecido que,

durante semanas inteiras, deixou de repetir as orações diurnas

da ordem. Então, despertado pelas vozes da sua consciência,

arrependeu-se da sua negligência: era tanto o remorso, que não

podia dormir. Apressou-se a reparar o seu erro: fê-lo com tanto

anseio que não se lembrava de alimentar-se.

Então, enfraquecidíssimo por tantos jejuns e vigílias,

sentiu-se oprimido pelas apreensões até perder os sentidos e

cair por terra. Aí os outros monges o acharam, admirados

novamente de sua excepcional piedade! Lutero somente voltou a

si depois de um grupo de coristas o haver rodeado, cantando. A

suave harmonia penetrou-lhe o coração e despertou o seu

espírito. Porém ainda assim lhe faltava a paz perpétua para a

alma; ainda não havia ouvido cantar o coro celestial: "Glória a

Deus nas maiores alturas, paz na terra, boa vontade para com os

homens!"

Nessa altura, o vigário geral da ordem agostiniana,

Staupitz, visitou o convento. Era homem de grande discer-

nimento, e devoção enraizada; compreendeu logo o problema do

jovem monge; ofereceu-lhe uma Bíblia na qual Lutero leu que "o

justo viverá da fé". Por quanto tempo tinha ele anelado: "Oh! se

Deus me desse um livro destes só para mim!" - e agora o

possuía!

Na leitura da Bíblia achou grande consolação, mas a obra

não podia completar-se em um dia. Ficou mais determinado do

que nunca a alcançar paz para a sua alma, na vida monástica,

jejuando e passando noites a fio sem dormir. Gravemente

enfermo, exclamou: "Os meus pecados! Os meus pecados!"

Apesar da sua vida ter sido livre de manchas, como ele afirmava

e outros testificavam, sentia sua culpa perante Deus, até que um

velho monge lhe lembrou uma palavra do Credo: "Creio na

remissão dos pecados". Viu então que Deus não somente

perdoara os pecados de Daniel e de Simão Pedro, mas também

os seus.

Pouco tempo depois destes acontecimentos, Lutero foi

ordenado padre. A primeira missa que celebrou foi um grande

evento. O pai, irreconciliável, desde o dia em que o filho

abandonara os estudos de advocacia até aquela ocasião, assistiu

à primeira missa, vindo a cavalo de Mansfield, com uma boa

oferta para o convento, acompanhado por vinte e cinco amigos.

Depois de completar vinte e cinco anos de idade, Lutero

foi nomeado para a cadeira de filosofia em Wittenberg, para

onde se mudou para viver no convento da sua ordem. Porém a

sua alma anelava pela Palavra de Deus, e pelo conhecimento de

Cristo. No meio das ocupações do professorado, dedicou-se ao

estudo das Escrituras e no primeiro ano conquistou o grau de

baccalaureus ad bíblia. Sua alma ardia com o fogo dos céus; de

todas as partes acorriam multidões para ouvir os seus discursos,

os quais fluíam abundante e vivamente do seu coração, sobre as

maravilhosas verdades reveladas nas Escrituras. Um dos mais

afamados professores de Leipzig, conhecido como a "Luz do

Mundo", disse: "Este frade há de envergonhar todos os doutores;

há de propalar uma doutrina nova e reformar toda a igreja,

porque ele se baseia na Palavra de Cristo, Palavra à qual

ninguém no mundo pode resistir, e que ninguém pode refutar,

mesmo atacando-a com todas as armas da filosofia.

Um dos pontos iluminantes da biografia de Lutero é a sua

visita a Roma. Surgiu uma disputa renhida entre sete conventos

dos agostinianos e decidiram deixar os pontos de dissidência

para o Papa resolver. Lutero, sendo o homem mais hábil, mais

eloqüente e altamente apreciado e respeitado por todos que o

conheciam, foi escolhido para representar o seu convento em

Roma.

Fez a viagem a pé, acompanhado de outro monge. Nesse

tempo Lutero ainda continuava a dedicar-se fiel e inteiramente à

Igreja Romana. Quando, por fim, chegaram ao ponto da estrada

onde se avistava a famosa cidade, Lutero caiu em terra e

exclamou: "Saúdo-te, santa cidade!"

Os dois monges passaram um mês em Roma, visitando os

vários santuários e os lugares de peregrinação. Lutero celebrou

missa dez vezes. Lastimou, ao mesmo tempo, que seus pais

ainda não tivessem morrido a fim de poder resgatá-los do

Purgatório! Um dia, subindo a Santa Escada de joelhos,

desejando a indulgência que o chefe da igreja prometia por esse

ato, ressoaram nos seus ouvidos como voz de trovão, as

palavras de Deus: "O justo viverá da fé". Lutero ergueu-se e saiu

envergonhado.

Depois da corrupção generalizada que viu em Roma, a sua

alma aderiu à Bíblia mais que nunca. Ao chegar novamente ao

seu convento, o vigário geral insistiu em que desse os passos

necessários para obter o título de doutor, com o qual teria o

direito de pregar. Lutero, porém, reconhecendo a grande

responsabilidade perante Deus e não querendo ceder, disse:

"Não é de pouca importância que o homem fale em lugar de

Deus... Ah! Sr. Dr., fazendo isto, me tirais a vida; não resistirei

mais que três meses." O vigário geral respondeu-lhe: "Seja

assim, em nome de Deus, pois o Senhor Deus também necessita

nos céus de homens dedicados e hábeis".

O coração de Lutero, elevado à dignidade de doutor em

teologia, abrasava-se ainda mais do desejo de conhecer as

Sagradas Escrituras e foi nomeado pregador da cidade de

Wittenberg. Os livros que estudou e as margens cheias de

anotações que escreveu em letras miúdas, servem aos eruditos

atuais como exemplo de como cuidadosa e minuciosamente

estudava tudo em ordem.

Acerca da grande transformação da sua vida, nesse

tempo, ele mesmo escreve: "Desejando ardentemente

compreender as palavras de Paulo, comecei o estudo da Epístola

aos Romanos. Porém, logo no primeiro capítulo consta que a

justiça de Deus se revela no Evangelho (vv. 16,17). Eu detestava

as palavras: a justiça de Deus, porque, conforme fui ensinado, eu

a considerava como um atributo do Deus santo que o leva a

castigar os pecadores. Apesar de viver irrepreensivelmente,

como monge, a consciência perturbada me mostrava que era

pecador perante Deus. Assim odiava a um Deus justo, que

castiga os pecadores... Senti-me ferido de consciência, revoltado

intimamente, contudo voltava sempre para o mesmo versículo,

porque queria saber o que Paulo ensinava. Contudo, depois de

meditar sobre esse ponto durante muitos dias e noites, Deus, na

sua graça, me mostrou a palavra: 'O justo viverá da fé.' Vi então

que a justiça de Deus, nesta passagem, é a justiça que o homem

piedoso recebe de Deus pela fé, como dádiva."

A alma de Lutero dessa forma saiu da escravidão; ele

mesmo escreveu assim: "Então me achei recém-nascido e no

Paraíso. Todas as Escrituras tinham para mim outro aspecto;

perscrutava-as para ver tudo quanto ensinam sobre a 'justiça de

Deus'. Antes, estas palavras eram-me detestáveis; agora as

recebo com o mais intenso amor. A passagem me servia como a

porta do Paraíso."

Depois dessa experiência, pregava diariamente; em certas

ocasiões, pregava até três vezes ao dia, conforme ele mesmo

conta: "O que o pasto é para o rebanho, a casa para o homem, o

ninho para o passarinho, a penha para a cabra rnontês, o arroio

para o peixe, a Bíblia é para as almas fiéis. " A luz do Evangelho,

por fim, tomara o lugar das trevas e a alma de Lutero abrasava

por conduzir os seus ouvintes ao Cordeiro de Deus, que tira todo

o pecado.

Lutero levou o povo a considerar a verdadeira religião, não

como uma mera profissão, ou sistema de doutrinas, mas como

vida em Deus. A oração não era mais um exercício sem sentido,

mas o contato do coração com Deus que cuida de nós com um

amor indizível. Nos seus sermões, Deus revelou o seu próprio

coração a milhares de ouvintes, por meio do coração de Lutero.

Convidado a pregar durante uma convenção dos

agostinianos, não deu uma mensagem doutrinai de sabedoria

humana, como se esperava, mas fez um discurso ardente contra

a língua maldizente dos monges. Os agostinianos, levados pela

mensagem, elegeram-no diretor sobre onze conventos!

Lutero não somente pregava a virtude, mas praticava-a,

amando verdadeiramente o próximo. Nesse tempo, a peste

vinda do Oriente, visitou Wittenberg. Calcula-se que a quarta

parte do povo da Europa, inclusive a metade da população

alemã, foi ceifada pela morte. Quando professores e estudantes

fugiram da cidade, instaram que Lutero fugisse também, porém

ele respondeu: - "Para onde hei de fugir? O meu lugar é aqui: o

dever não me permite ausentar-me do meu posto até que

Aquele que me mandou para aqui me chame. Não que eu deixe

de temer a morte, mas espero que o Senhor me dê ânimo".

Assim ele ministrava à alma e ao corpo do próximo durante um

tempo de aflição e de angústia.

A fama do jovem monge espalhou-se ate longe. Entre-

tanto, sem o reconhecer, enquanto trabalhava incansavelmente

para a igreja, já havia deixado o rumo liberal que ela seguia em

doutrina e prática.

Em outubro de 1517, Lutero afixou à porta da Igreja do

Castelo em Wittenberg, as suas 95 teses, o teor das quais é que

Cristo requer o arrependimento e a tristeza pelo pecado e não a

penitência. Lutero afixou as teses ou proposições para um

debate público, na porta da igreja, como era costume nesse

tempo. Mas as teses, escritas em latim, foram logo traduzidas

em alemão, holandês e espanhol. Antes de decorrido um mês,

para surpresa de Lutero, já estavam na Itália, fazendo

estremecer os alicerces do velho edifício de Roma. Foi desse ato

de afixar as 95 teses da Igreja de Wittenberg, que nasceu a

Reforma, isto é, que tomou forma o grande movimento de almas

que em todo o mundo ansiavam voltar para a fonte pura, a

Palavra de Deus. Contudo Lutero não atacara a Igreja Romana,

mas antes, pensou fazer a defesa do Papa contra os vendedores

de indulgências.

Em agosto de 1518, Lutero foi chamado a Roma para

responder a uma denúncia de heresia. Contudo, o eleitor

Frederico não consentiu que fosse levado para fora do país;

assim Lutero foi intimado a apresentar-se em Augsburgo. "Eles

te queimarão vivo", insistiram seus amigos. Lutero, porém,

respondeu resolutamente: "Se Deus sustenta a causa, ela será

sustentada".

A ordem do núncio do Papa em Augsburgo foi: "Retrate-se

ou não voltará daqui". Contudo Lutero conseguiu fugir, passando

por uma pequena cancela no muro da cidade, na escuridão da

noite. Ao chegar de novo em Wittenberg, um ano depois de

afixar as teses, era o homem mais popular em toda a Alemanha.

Não havia jornais nesse tempo, mas fluíam da pena de Lutero

respostas a todos os seus críticos para serem publicadas em

folhetos. O que escreveu dessa forma, hoje seriam cem volumes.

O célebre Erasmo, da Holanda, assim escreveu a Lutero:

"Seus livros estão despertando todo o país... Os mais eminentes

da Inglaterra gostam de seus escritos..."

Quando a bula de excomunhão, enviada pelo Papa,

chegou em Wittenberg, Lutero respondeu com um tratado

dirigido ao Papa Leão X, exortando-o, no nome do Senhor, a que

se arrependesse. A bula do Papa foi queimada fora do muro da

cidade de Wittenberg, perante grande ajuntamento do povo.

Assim escreveu Lutero ao vigário geral: "No momento de

queimar a bula, estava tremendo e orando, mas agora estou

satisfeito de ter praticado este ato enérgico". Lutero não esperou

até que o Papa o excomungasse, mas deu logo o pulo da Igreja

Romana para a Igreja do Deus vivo.

Porém, o imperador Carlos V, que ia convocar sua primeira

Dieta na cidade de Worms, queria que Lutero comparecesse para

responder, pessoalmente, aos seus acusadores. Os amigos de

Lutero insistiam em que recusasse ir. -Não fora João Huss

entregue a Roma para ser queimado, apesar da garantia de vida

da parte do imperador?! Mas em resposta a todos que se

esforçavam por dissuadi-lo de comparecer perante seus terríveis

inimigos, Lutero, fiel à chamada de Deus, respondeu: "Ainda que

haja em Worms, tantos demônios quantas sejam as telhas nos

telhados, confiando em Deus, eu aí entrarei". Depois de dar

ordens acerca do trabalho, no caso de ele não voltar, partiu.

Na sua viagem para Worms, o povo afluía em massa para

ver o grande homem que teve coragem de desafiar a autoridade

do Papa. Em Mora, pregou ao ar livre, porque as igrejas não mais

comportavam as multidões que queriam ouvir seus sermões. Ao

avistar as torres das igrejas de Worms, levantou-se na carroça

em que viajava e cantou o seu hino, o mais famoso da Reforma:

"Ein Feste Berg", isto é: ''Castelo forte é nosso Deus". Ao entrar,

por fim, na cidade, estava acompanhado de uma multidão de

povo muito maior do que a que fora ao encontro de Carlos V. No

dia seguinte foi levado perante o imperador, ao lado do qual se

achavam o delegado do Papa, seis eleitores do império, vinte e

cinco duques, oito margraves, trinta cardeais e bispos, sete

embaixadores, os deputados de dez cidades e grande número de

príncipes, condes e barões.

É fácil imaginar que o reformador era um homem de

grande coragem e de físico forte para enfrentar tantas feras que

ansiavam despedaçar-lhe o corpo. A verdade é que passara uma

grande parte da vida afastado dos homens e, mais ainda,

achava-se fraco da viagem, na qual foi necessário que um

médico o atendesse. Entretanto mostrou-se corajoso, não na sua

própria força, mas no poder de Deus.

Sabendo que tinha de comparecer perante uma das mais

imponentes assembléias de autoridades religiosas e civis de

todos os tempos, Lutero passou a noite anterior de vigília.

Prostrado com o rosto em terra, lutou com Deus, chorando e

suplicando. Um dos seus amigos ouviu-o orar assim: "Oh! Deus

todo-poderoso! a carne é fraca, o Diabo é forte! Ah! Deus, meu

Deus, que perto de mim estejas contra a razão e a sabedoria do

mundo! Fá-lo, pois somente tu o podes fazer. Não é a minha

causa, mas sim a tua. - Que tenho eu com os grandes da terra? É

a tua causa, Senhor, a tua justa e eterna causa. Salva-me, oh!

Deus fiel! Somente em ti confio, oh! Deus! meu Deus... vem,

estou pronto a dar, como um cordeiro, a minha vida. O mundo

não conseguirá prender a minha consciência, ainda que esteja

cheio de demônios, e, se o meu corpo tem de ser destruído, a

minha alma te pertence, e estará contigo eternamente..."

Conta-se que, no dia seguinte, na ocasião de Lutero

transpor a porta para comparecer perante a Dieta, o veterano

general Freudsburgo, colocou a mão no ombro do Reformador e

disse-lhe: "Pequeno monge, vais a um encontro diferente, que eu

ou qualquer outro capitão jamais experimentamos, mesmo nas

nossas conquistas mais ensangüentadas. Contudo, se a causa é

justa, e sabes que o é, avança no nome de Deus, e não temas

nada! Deus não te abandonará" - O grande general não sabia

que Martinho Lutero vencera a batalha em oração e que entrava

somente para declarar-lhes que a havia vencido de maiores

inimigos.

Quando o núncio do papa exigiu de Lutero, perante a

augusta assembléia, que se retratasse, ele respondeu: "Se não

me refutardes pelo testemunho das Escrituras ou por

argumentos - desde que não creio somente nos papas e nos

concílios, por ser evidente que já muitas vezes se enganaram e

se contradisseram uns aos outros - a minha consciência tem de

ficar submissa à Palavra de Deus. Não posso retratar-me, nem

me retratarei de qualquer coisa, pois não é justo nem seguro

agir contra a consciência. Deus me ajude! Amém."

De volta ao seu aposento, Lutero levantou as mãos ao Céu

e exclamou com o rosto todo iluminado: "Está cumprido! Está

cumprido! Se eu tivesse mil cabeças, preferiria que todas fossem

decepadas antes de me retratar".

A cidade de Worms, ao receber as notícias da ousada

resposta de Lutero ao núncio do papa, alvoroçou-se. As palavras

do reformador foram publicadas e espalhadas entre o povo que

afluiu para honrá-lo.

Apesar de os papistas não conseguirem influenciar o

imperador a violar o salvo-conduto, para que pudessem queimar

numa fogueira o assim chamado herege, Lutero teve de

enfrentar outro grave problema. O edito de excomunhão entraria

imediatamente em vigor; Lutero por causa da excomunhão, era

criminoso e, ao findar o prazo do seu salvo-conduto, devia ser

entregue ao imperador; todos os seus livros deviam ser

apreendidos e queimados; o ato de ajudá-lo em qualquer

maneira era crime capital.

Mas para Deus é fácil cuidar dos seus filhos. Lutero, re-

gressando a Wittenberg, foi repentinamente rodeado num

bosque por um bando de cavaleiros mascarados que, depois de

despedirem as pessoas que o acompanhavam, conduziram-no,

alta noite, ao castelo de Wartburgo, perto de Eisenach. Isto foi

um estratagema do príncipe de Saxônia para salvar Lutero dos

inimigos que planejavam assassiná-lo antes de chegar a casa.

No castelo, Lutero passou muitos meses disfarçado; tomou

o nome de cavaleiro Jorge e o mundo o considerava morto. Fiéis

servos de Deus oravam dia e noite pelo reformador. As palavras

do pintor Alberto Durer, exprimem o sentimento do povo: - "Oh!

Deus! se Lutero fosse morto, quem agora nos exporia o

Evangelho?"

Contudo, no seu retiro, livre dos inimigos, foi-lhe con-

cedida a liberdade de escrever, e o mundo logo soube, pela

grande quantidade de literatura, que essa obra saía da sua pena

e que, de fato, Lutero vivia. O reformador conhecia bem o

hebraico e o grego e em três meses tinha vertido todo o Novo

Testamento para o alemão - em poucos meses mais a obra

estava impressa e nas mãos do povo. Cem mil exemplares foram

vendidos, em quarenta anos, além das cinqüenta e duas edições

impressas em outras cidades. Era circulação imensa para aquele

tempo, mas Lutero não aceitou um centavo de direitos.

A maior obra de toda a sua vida, sem dúvida, fora a de dar

ao povo alemão a Bíblia na sua própria língua - depois de voltar

a Wittenberg. Já havia outras traduções, mas escritas em uma

forma de alemão latinizado que o povo não compreendia. A

língua alemã desse tempo era um agregado de dialetos, mas

Lutero, ao traduzir a Bíblia, deu ao povo a língua que serviu

depois a homens como Goethe e Schiler para escreverem as

suas obras. O seu êxito em traduzir as Sagradas Escrituras para

o uso dos mais humildes, verifica-se no fato de que, depois de

quatro séculos, a sua tradução permanece como a principal.

Outra coisa que contribuiu para o êxito da tradução de

Lutero, é que ele era erudito em hebraico e grego e traduziu

direto das línguas originais. Contudo, o valor da sua obra não se

baseia tão-somente sobre seus indiscutíveis dotes literários. O

que lhe deu realidade é que ele conhecia a Bíblia, como ninguém

podia conhecê-la, sem primeiro sentir a angústia eterna e achar

nas Escrituras a verdadeira e profunda consolação. Lutero

conhecia intimamente e amava sinceramente o autor do Livro. O

resultado foi que o seu coração abrasou-se com o fogo e poder

do Espírito Santo. Foi esse o segredo de ele traduzir tudo para o

alemão em tão pouco tempo.

Como todo mundo sabe, a fortaleza de Lutero e da Re-

forma foi a Bíblia. Escreveu de Wartburgo para o seu povo em

Wittenberg: "Jamais em todo o mundo se escreveu um livro mais

fácil de compreender do que a Bíblia. Comparada aos outros

livros, é como o sol em contraste com todas as demais luzes.

Não vos deixeis levar a abandoná-la sob qualquer pretexto da

parte deles. Se vos afastardes dela por um momento, tudo

estará perdido; podem levar-vos para onde quer que desejem.

Se permanecerdes com as Escrituras, sereis vitoriosos."

Depois de abandonar o hábito de monge, Lutero resolveu

deixar por completo a vida monástica, casando-se com Catarina

von Bora, freira que também saíra do claustro, por ver que tal

vida é contra a vontade de Deus. O vulto de Lutero sentado ao

lume, com a esposa e seis filhos que amava ternamente, inspira

os homens mais que o grande herói ao apresentar-se perante o

legado em Augsburgo.

Nos cultos domésticos, a família rodeava um harmônio,

com o qual louvavam a Deus juntos; o reformador lia o Livro que

traduzira para o povo e depois louvavam a Deus e oravam até

sentirem a presença divina entre eles.

Havia entre Lutero e sua esposa profundo amor de um

para com o outro. São de Lutero estas palavras: "Sou rico, Deus

me deu a minha freira e três filhos; não me importo das dívidas:

Catarina paga tudo." Catarina von Bora era estimada por todos.

Alguns, de fato, censuravam-na porque era demasiado

econômica; mas que teria acontecido a Martinho Lutero e à

família se ela tivesse feito como ele? Dizia-se que ele,

aproveitando-se da doença dela, cedeu o seu prato de comida a

certo estudante que estava com fome. Não aceitava um kreuzer

dos seus alunos e recusava vender seus escritos, deixando todo

o lucro para os tipógrafos.

Nas suas meditações sobre as Escrituras, muitas vezes se

esquecia das refeições. Ao escrever o comentário sobre o Salmo

23, passou três dias no quarto comendo somente pão e sal.

Quando a esposa chamou um serralheiro e quebraram a

fechadura, acharam-no escrevendo, mergulhado em

pensamentos e esquecido de tudo em redor.

É difícil concebermos a magnitude das coisas que deve-

mos atualmente a Martinho Lutero. O grande passo que deu para

que o povo ficasse livre para servir a Deus, como Ele mesmo

ensina, está além da nossa compreensão. Era grande músico e

escreveu alguns dos hinos mais espirituais cantados atualmente.

Compilou o primeiro hinário e inaugurou o costume de todos os

assistentes aos cultos cantarem juntos. Insistiu em que não

somente os do sexo masculino, mas também os do feminino

fossem instruídos, tornando-se, assim, o pai das escolas

públicas. Antes dele, o sermão nos cultos era de pouca

importância. Mas Lutero fez do sermão a parte principal do culto.

Ele mesmo serviu de exemplo para acentuar esse costume: era

pregador de grande porte. Considerava-se como sendo nada; a

mensagem saía-lhe do íntimo do coração: o povo sentia a

presença de Deus. Em Zwiekau pregou a um auditório de 25 mil

pessoas na praça pública. Calcula-se que escreveu 180 volumes

na língua materna e quase um número igual no latim. Apesar de

sofrer de várias doenças, sempre se esforçava dizendo: "Se eu

morrer na cama será uma vergonha para o papa."

Os homens geralmente querem atribuir o grande êxito de

Lutero à sua extraordinária inteligência e aos seus destacados

dons. O fato é que Lutero também tinha o costume de orar horas

a fio. Dizia que se não passasse duas horas de manhã orando,

recearia que Satanás ganhasse a vitória sobre ele durante o dia.

Certo biógrafo seu escreveu: "O tempo que ele passa em oração,

produz o tempo para tudo que faz. O tempo que passa com a

Palavra vivificante enche o coração até transbordar em sermões,

correspondência e ensinamentos".

A sua esposa disse que as orações de Lutero "eram", às

vezes, como os pedidos insistentes do seu filhinho Hanschen,

confiando na bondade de seu pai; outras vezes, eram como a

luta de um gigante na angústia do combate".

Encontra-se o seguinte na História da Igreja Cristã, por

Souer, Vol. 3, pág. 406: "Martinho Lutero profetizava,

evangelizava, falava línguas e interpretava; revestido de todos

os dons do Espírito".

Nos seus sessenta e dois anos pregou seu último sermão

sobre o texto: "Ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e

as revelaste aos pequeninos". No mesmo dia escreveu para a

sua querida Catarina: "Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e Ele

te susterá. Amém". Isso foi na última carta que escreveu. Vivia

sempre esperando que o papa conseguisse executar a repetida

ameaça de queimá-lo vivo. Contudo não era essa a vontade de

Deus: Cristo o chamou enquanto sofria dum ataque do coração,

em Eisleben, cidade onde nascera.São estas as últimas palavras

de Lutero: "Vou render o espírito". Então louvou a Deus em alta

voz: "Oh! meu Pai celeste! meu Deus, Pai de nosso Senhor Jesus

Cristo, em quem creio e a quem preguei e confessei, amei e

louvei! Oh! meu querido Senhor Jesus Cristo, encomendo-te a mi-

nha pobre alma. Oh! meu Pai celeste! em breve tenho de deixar

este corpo, mas sei que ficarei eternamente contigo e que

ninguém me pode arrebatar das tuas mãos". Então, depois de

recitar João 3.16 três vezes, repetiu as palavras: "Pai, em tuas

mãos entrego o meu espírito, pois tu me resgataste, Deus fiel".

Assim fechou os olhos e adormeceu.