Hipnotizando Maria por Richard Bach - Versão HTML

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RICHARD BACH

Autor dos best-sellers

Fernão Capelo Gaivota e Ilusões

HIPNOTIZANDO MARIA

Tradução:

Ana Carolina Mesquita | Candombá

INTEGRARE

EDITORA

2009

Escaneado, Formatado e Revisado Por:

CARTA DO EDITOR

No ano 2000, tive o prazer de conhecer Richard Bach, durante a Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, na Argentina. Naquela ocasião, tive também o privilégio de acompanhar o autor durante sua concorrida sessão de autógrafos e, posteriormente, em um bate-papo com mais de mil pessoas que pacientemente o aguardavam para saber mais sobre sua obra e sua pessoa.

Por cerca de duas horas, Richard hipnotizou a todos com suas palavras e com seu jeito humilde e sereno. Na parte final desse encontro, depois de já termos ouvido o autor falar sobre sua visão de mundo, sua experiência criativa e sua trajetória de vida, uma última pergunta chamou a atenção da platéia, que aguardava silenciosa a resposta. Uma jovem de cerca de 30 anos de idade perguntou:

"Richard, li todos os seus livros, tenho-os em minha cabeceira e de tempos em tempos recorro a eles, pois se tornaram amigos de primeira hora em minha vida. Nunca entendi, entretanto, como podem esses livros me dizer tanta coisa...

Richard, para quem você escreveu este livro?"

Emocionado, Richard Bach respondeu:

"Escrevi este livro para você".

Esse episódio ilustra com toda a propriedade o potencial da obra de Richard Bach. Quero crer que muitos daqueles que agora lêem este texto já possuíram ou ainda possuem relação igual à que foi narrada acima. Quero crer, ainda, que muitos novos leitores foram, de alguma forma, atraídos para este livro e agora se unem à massa de mais de 100 milhões de leitores em todo o mundo do autor.

A exemplo de Fernão Capelo Gaivota e Ilusões, nesta obra Richard Bach retorna às histórias simples que testam nossa imaginação e convidam o leitor a exercitar novas vivências. Com a perspectiva privilegiada de quem já atravessou vôos nada tranqüilos, Richard Bach nos brinda com uma história que possui o que chamo de "capacidade inspiradora", fonte de qualquer transformação no mundo.

Para quem foi escrito este livro? — Boa pergunta.

Este livro foi escrito para você!

MAURÍCIO MACHADO

Publisher

CAPÍTULO UM

Jamie Forbes pilotava aviões. De tudo o que fizera, era só o que importava desde que abandonara a faculdade, tempos atrás, e tirara o brevê. Se a coisa tinha asas, ele a amava.

Pilotou caças na Força Aérea. Não ligava muito para a política, para as obrigações adicionais nem para a estranha escassez de horas de vôo. Decidiu sair antes do tempo, quando isso lhe foi oferecido.

As companhias aéreas não quiseram saber dele. Certa vez fez uma entrevista e acabou eliminado pelas perguntas no exame para piloto.

1. Se tivesse de escolher, você seria uma árvore ou uma pedra?

2. Qual cor é melhor, vermelho ou azul?

Essas ele não respondeu, porque não tinham nada a ver com pilotar.

3. Os detalhes importam?

— Claro que não — disse ele. — O que importa é aterrissar com segurança, sempre. Quem liga se você engraxa os sapatos ou não?

Resposta errada, descobriu, depois que o examinador o encarou e respondeu:

— Nós ligamos.

Mas há muito que fazer na aviação, fora pilotar caças e aviões comerciais.

Há os vôos fretados, os vôos corporativos e o negócio dos vôos panorâmicos; há a pulverização de plantações, os shows de acrobacias aéreas, o monitoramento de dutos e as fotografias aéreas; há o transporte de aeronaves a fazer; há os banners aéreos para puxar, os planadores para puxar, os paraquedistas para levar lá nas alturas e depois soltá-los no céu; há as corridas aéreas, os vôos com equipes de televisão, os vôos para reportagens sobre as condições de trânsito, os vôos policiais, os testes de avião, pilotar aviões de carga e mambembar velhos biplanos por campos de feno. E o ensino, lógico; há sempre gente nova chegando com o mesmo objetivo de voar por sua conta... sempre existe a instrução de vôo.

Ele fizera tudo aquilo ao longo da vida. Nos últimos anos se tornara instrutor de vôo, e dos bons, segundo o provérbio de que os melhores instrutores se conhecem só pela cor do cabelo.

Não que ele fosse um cara da velha guarda, saiba você, nem que não tivesse mais nada para aprender. Só tinha reunido naquelas décadas sua cota de horas de vôo, que agora chegavam a doze mil. Não era um tempo nem enorme, nem pequeno. O suficiente para Jamie Forbes aprender a humildade.

Por dentro, porém, ele continuava sendo aquele garoto louco para pilotar qualquer coisa em que pudesse pôr as patinhas.

Era assim que as coisas continuariam a ser, sem interessar a ninguém, não fosse o que aconteceu em setembro passado. O que ocorreu então pode não importar para algumas pessoas; para outras, mudará sua vida da mesma forma como mudou a minha.

CAPÍTULO DOIS

NA ÉPOCA, ele achou que tinha sido coincidência. Jamie Forbes pilotava seu Beech T-34 do estado de Washington até a Flórida, transformando o inverno em verão em seu trabalho de treinamento de pilotos ao embicar o nariz para sudeste durante dezesseis horas de vôo, quatro de cada vez.

O T-34, se é que você não conhece, foi a primeira aeronave que a Força Aérea confiou a um cadete, anos atrás: um avião monomotor de asa baixa, com dois assentos, um atrás do outro, propulsão a hélice e potência de 225 cavalos. A cabine é igual à de um caça, por isso a transição de piloto em treinamento para piloto de caça seria fácil para os novos alunos.

Ele jamais teria imaginado então, enquanto marchava e estudava, memorizava checklists, o código Morse e as regras da aerodinâmica, que anos depois seria dono de um daqueles aviões e ficaria consideravelmente convencido como os civis ficam quando põem as mãos em uma máquina militar supérflua.

Seu T-34 de hoje, por exemplo, tinha motor Continental de 300 cavalos, hélice de três pás, painel de instrumentos com equipamento de navegação que nem sequer tinha sido inventado na época em que aquele avião era novidade, camuflagem azul-celeste e insígnias restauradas da Força Aérea. Era uma aeronave bem projetada e uma maquininha ótima de pilotar.

Voou sozinho, de Seattle, pela manhã, até Twin Falis, em Idaho. Partiu de Twin Falis ao meio-dia e passou por Ogden e Rock Springs rumo a North Platte, em Nebraska.

Aconteceu a uma hora de North Platte, vinte minutos ao norte de Cheyenne.

— Acho que ele morreu!

Era a voz de uma mulher pelo rádio.

— Alguém aí está me ouvindo? Acho que meu marido morreu!

A transmissão dela estava a 122,8 megaciclos, a freqüência Unicom dos aeroportos pequenos; sua voz era alta e clara: não devia estar muito longe dali.

Ninguém respondeu.

— Você consegue fazer isso, senhor Forbes. — Soava calma e paciente aquela voz inesquecível, com um toque sulino.

— Senhor Dexter? — disse ele em voz alta, atônito. Era seu instrutor de vôo de quarenta anos atrás, uma voz que ele jamais iria esquecer. Ele lançou um olhar rápido para o espelho, checando o assento de trás. Estava vazio, é claro.

Não havia outro som a não ser o do motor barulhento e suave que seguia em frente.

— Alguém me ajude, ele morreu!

Ele apertou o botão do microfone.

— Pode ser, senhora — disse Jamie Forbes —, mas também pode ser que não. A senhora consegue pilotar esse avião sem ele.

Não, nunca aprendi! Juan está caído perto da porta, ele não está se mexendo!

É melhor nós pousarmos logo, então — disse ele, escolhendo o "nós"

porque já estava pensando no que ela diria em seguida.

— Não sei pilotar um avião!

— Certo — disse ele —, então nós dois vamos pousar esse avião juntos.

É um acontecimento muito raro um passageiro assumir o controle quando o piloto está incapacitado. Sorte de todos eles que era um bonito dia para voar.

— Sabe como funcionam os controles, senhora? — perguntou ele. — Com os quais a senhora movimenta o manche e estabiliza as asas?

— Sim.

Aquilo tornou tudo mais fácil.

— Só mantenha as asas estabilizadas, por ora.

Ele lhe perguntou quando e de onde eles haviam decolado e para onde estavam indo, virou para leste e, bingo, um minuto depois viu um Cessna 182

abaixo a dez horas, um pouco mais à frente da asa esquerda do T-34.

— Vamos virar só um pouco para a direita — disse ele. — Estamos vendo a senhora.

Se o avião não se virasse, ele não a veria de jeito ne¬nhum, mas fez uma aposta e ganhou. As asas se inclinaram.

Ele mergulhou na curva feita por ela e saiu ao seu lado, deslizando em uma formação a cinqüenta pés de distância.

— Se olhar para a sua direita... — disse ele.

Ela olhou, e ele acenou para ela.

— Tudo vai ficar bem agora — continuou ele. — Vamos fazer vocês chegarem ao aeroporto e em terra firme.

— Não sei pilotar!

Quando ela disse aquilo, as asas se inclinaram mais na direção dele.

Ele se inclinou com ela, dois aviões fazendo uma curva juntos.

— Isso não será nenhum problema, senhora — disse ele. — Sou instrutor.

— Graças a Deus — disse ela, fazendo o avião se inclinar ainda mais.

— Melhor virar esse manche para a esquerda — falou ele. — Não muito, é só virar um pouco com firmeza e suavidade para a esquerda. Isso estabilizará o vôo de vocês.

Ela olhou para a frente, virou o manche e as asas do Cessna se estabilizaram.

— É isso aí — disse ele. — Tem certeza de que nunca pilotou antes?

A voz dela veio mais calma:

— Já vi Juan pilotando.

— Bom, a senhora prestou mesmo atenção.

Ele descobriu que ela sabia onde ficava o acelerador de mão e os pedais do leme, e conseguiu fazer com que virasse o avião para a esquerda até seguir na direção do aeroporto de Cheyenne.

— Qual é seu nome, senhora?

— Estou com medo — disse ela. — Não vou conseguir!

— Está brincando comigo. A senhora já está pilotando esse avião há cinco minutos e está se saindo muito bem. É só relaxar, ficar tranqüila, fingir que é a comandante de uma companhia aérea.

— Fingir que sou o quê?

Ela tinha ouvido, mas não pôde acreditar no que aque¬la pessoa dizia.

— Esqueça tudo, menos que a senhora é a comandante de uma companhia aérea, a primeira mulher comandante que essa empresa já contratou, e que pilota há anos e anos. Está completamente à vontade nesse avião, feliz da vida. Pousar um Cessnazinho em um dia lindo como este? Brincadeira de criança!

Esse homem está doido, pensou ela, mas ele é instrutor.

— Brincadeira de criança — repetiu ela.

— Isso mesmo. De qual brincadeira de criança a senhora gostava mais?

Ela o olhou pela janela direita do Cessna, com um sorriso confuso e perturbado; estou prestes a morrer e ele vem me perguntar de brincadeira de criança? Pensou. De todos os resgatadores possíveis, tinha de topar com um maluco?

— Pular corda?

Ele sorriu de volta. Ótimo. Ela sabe que sou pirado, então agora precisa ser a sã da história — e isso significa manter a calma.

— Brincadeira de pular corda.

— Meu nome é Maria. — Como se ela soubesse que aquilo poderia fazê-lo voltar ao normal.

O aeroporto de Cheyenne despontou, uma faixa no horizonte. A quinze milhas de distância, sete minutos de vôo. Em vez de escolher um dos aeroportos menores mais próximos, ele decidira pousar em Cheyenne por ter pistas compridas e ambulância.

— Por que não tenta empurrar esse acelerador de mão, Maria? A senhora vai escutar o motor; o barulho dele vai ficar mais alto, como já sabe, e o avião começará a subir, bem devagar. Empurre-o todo, agora, e vamos praticar uma subidinha aqui.

Ele queria lembrá-la da subida, é claro, para o caso de ela voar baixo demais na aproximação para o pouso. Queria que ela soubesse que estava segura nos céus e que empurrar o acelerador de mão seria a maneira de voltar a subir, quando ela quisesse.

— A senhora está indo bem, comandante — disse ele. — É uma pilota inata.

Então ele fez com que ela puxasse o acelerador de mão, e os dois desceram juntos até a altitude de tráfego.

A mulher ao seu lado olhou-o de seu avião.

Dois aviões quase se tocando no ar... e entretanto não havia nada que ele pudesse fazer para pilotar o avião por ela. A única coisa que tinha eram palavras.

— Estamos quase lá — disse-lhe. — Maria, a senhora está pilotando super bem. Só vire na minha direção de leve, por uns dez segundos mais ou menos, depois volte a estabilizar as asas.

Ela apertou o botão do microfone, mas não disse nada. O avião se inclinou para a direita.

— Está indo bem. Vou falar com a torre de comando em outro rádio. Não se preocupe, ficarei na escuta com a senhora neste aqui, também. Pode falar comigo na hora em que quiser, certo?

Ela fez que sim.

Ele ligou o rádio número 2 na freqüência de Cheyenne e chamou a torre.

— Alô, Cheyenne, aqui é o Cessna 2461 Echo.

O número da aeronave estava pintado na lateral do avião dela. Ele não precisava fornecer o seu próprio número.

— Seis Um Echo, prossiga.

— Seis Um Echo é um vôo com duas pessoas que está em aproximação para pouso oito milhas a norte.

— Positivo, Seis Um Echo. Autorização para aterrissa¬gem à esquerda na Pista Nove.

— Positivo — respondeu ele. — E o Seis Um Echo é um Cessna 182, piloto incapacitado. A passageira está pilotando o avião; estou voando ao seu lado, ajudando.

Houve um silêncio.

— Repita, Seis Um Echo. O piloto está o quê?

— O piloto está inconsciente. A passageira está pilotan¬do a aeronave.

— Positivo. Pouso liberado em qualquer pista. Está declarando uma emergência?

— Negativo. Vamos usar a Pista Nove. Ela está indo bem, mas não custa deixar de prontidão uma ambulância para o piloto e um caminhão de bombeiros.

Deixe os veículos atrás da pista de pouso, certo? Não queremos que ela se distraia com equipamentos seguindo ao seu lado durante a aterrissagem.

— Positivo, vamos manter os equipamentos atrás da aeronave. Atenção: todas as aeronaves na área de Cheyenne saiam, por favor, da área de tráfego do aeroporto, temos uma emergência.

— Ela está em Unicom, Torre, dois-dois-oito. Vou conti¬nuar falando com ela nessa freqüência, mas escutando a sua.

— Positivo, Seis Um Eco. Boa sorte.

— Não é necessário. Ela está indo bem.

Ele voltou a sintonizar o rádio de novo em Unicom.

— O aeroporto está aí à sua esquerda, Maria — disse ele. — Vamos fazer uma curva grande e suave para alinhar com a pista. Bem suave, sem pressa. Isso é fácil para você.

Eles executaram um enorme padrão de pouso, com pequenas curvas vagarosas; o instrutor falava com ela o tempo todo.

— Bem, aqui, a senhora pode puxar o acelerador de mão, levar o manete abaixo da linha do horizonte, como fizemos antes, em uma descida bem fácil. O

avião adora isso.

Ela assentiu. Se esse homem está tagarelando que os aviões adoram coisas, então provavelmente isso que estamos fazendo não é tão perigoso assim.

— Se não gostar dessa aproximação — disse ele —, podemos voltar a subir e fazer aproximações o dia todo, se quiser. Só que essa aqui está me parecendo ótima. A senhora está indo muito bem.

Ele não lhe perguntou quanto combustível ainda tinha.

As duas aeronaves foram suavemente para a esquerda, rumo à aproximação final; a pista corria bem à frente, concreto largo com sete quilômetros de comprimento.

— O que vamos fazer é tocar o chão de um jeito bem suave; vamos colocar uma roda de cada lado dessa linha branca comprida que está no meio da pista.

Ótimo, comandante. Acelere só um pouco mais, empurre o acelerador de mão para a frente mais ou menos um centímetro...

Ela estava calma e reagindo bem agora.

— Traga esse acelerador para trás só um pouquinho. Por falar nisso, a senhora é uma piloto fantástica. É suave nos controles...

Ele se afastou alguns metros da asa dela enquanto os aviões desciam na direção do solo.

— Segure aí; voe direto para baixo em direção a essa linha do meio...

pronto, muito bem. Relaxe, relaxe... mexa os dedos dos pés. A senhora está voando como um piloto veterano. Agora traga o acelerador um centímetro para trás... Leve o manche também para trás, uns oito centímetros. Ele vai parecer meio pesado, mas é assim mesmo que tem de parecer. Está lindo, a senhora fará um pouso fantástico.

As rodas estavam a um metro e meio da pista... um metro.

— Mantenha o nariz do avião para cima, como está agora, e vá levando esse acelerador todo para trás, todo para trás.

As rodas tocaram a pista, uma fumaça azul de borracha saiu dos pneus.

— Perfeito — disse ele —, pouso perfeito. Agora pode soltar o manche, a senhora não precisará dele no solo. Manobre o avião com os pedais e deixe que ele siga até parar, aí mesmo na pista. Uma ambulância estará ao seu lado daqui a pouco.

Ele puxou seu próprio acelerador de mão e o T-34 passou de rasante pelo avião dela, subindo.

— Ótimo pouso — disse ele. — A senhora é uma pilota e tanto.

Ela não respondeu.

Ele viu por sobre o ombro a ambulância correr pela pista atrás dela. O

veículo desacelerou quando o avião desacelerou, depois parou, com as portas abertas. O caminhão de bombeiros, vermelho e quadrado, veio rodando atrás, desnecessário.

Enquanto a torre de controle tinha o suficiente para se ocupar, ele não disse mais nada. Em menos de um minuto seu avião estava fora de vista, rumo a North Platte.

CAPÍTULO TRÊS

NA MANHÃ SEGUINTE, a matéria de jornal estava pregada no quadro de avisos do aeroporto Lee Bird de North Platte: "Piloto desacordado, esposa pousa avião".

Jamie Forbes franziu o cenho ao ler aquilo. "Esposa" significava "não piloto". Ainda vai levar um tempo, pensou, até os caras entenderem que há um monte de pilotos mulheres por aí, e o número aumenta a cada dia que passa.

Depois da manchete, entretanto, o repórter até que contou a história direito. Quando seu marido desmaiou em pleno vôo, Maria Ochoa, 63, achou que ele havia morrido; ficou assustada, ligou pedindo ajuda etc.

Então ele leu o seguinte: "Eu nunca conseguiria ter pousado sozinha, mas o homem do outro avião disse que eu conseguiria. Juro por Deus que ele me hipnotizou, lá mesmo no ar. 'Finja que a senhora é a comandante de uma companhia aérea.' Eu fingi, porque não sabia pilotar. Quando despertei, o avião estava pousado em segurança!"

A matéria dizia que o marido sofrera um derrame e que se recuperaria.

A brincadeira de se fazer passar por comandante de companhia aérea funciona bem com os alunos, pensou ele, sempre funcionou.

Porém, Jamie esbarrou no que ela havia dito.

Teria hipnotizado a mulher? Ele andou até a lanchonete do aeroporto para tomar o café da manhã, pensando em hipnotismo e lembrando de trinta anos atrás como se tivesse sido ontem.

CAPÍTULO QUATRO

ELE HAVIA ESCOLHIDO um lugar na frente, corredor A, à espera de que Blacksmyth, o Grande, o chamasse quando pedisse voluntários da platéia.

Quase no fim da apresentação, pareceu divertido subir ao palco, embora ele duvidasse que pudesse ser hipnotizado e que fosse escolhido. Duas outras pessoas, um homem e uma mulher, juntaram-se a ele ali.

Blacksmyth, o hipnotizador, bastante distinto de gravata branca e smoking, mas simpático no tom de voz e no comportamento, pediu para os três ficarem em fila — e foi o que fizeram, de frente para a platéia. Jamie Forbes estava na ponta mais próxima do centro do palco.

O apresentador se posicionou atrás dos voluntários e tocou o ombro da mulher, tirando-lhe suavemente o equilíbrio. Ela deu um passo para trás a fim de recuperá-lo.

Ele fez o mesmo com o próximo da fila, e o homem também deu um passo para trás.

Forbes resolveu que faria diferente. Quando a mão do hipnotizador lhe tocou o ombro, ele se inclinou com a pressão, confiante em que o show do homem não seria lá grande coisa se deixasse o participante cair no palco.

Blacksmyth o amparou na hora, agradeceu aos outros voluntários e os dispensou sob uma salva de palmas.

As coisas já tinham ido longe demais.

— Desculpe — sussurrou Jamie enquanto o som diminuía de intensidade

—, mas não posso ser hipnotizado.

— Ah — respondeu o hipnotizador, com suavidade. — Então o que está fazendo neste planeta?

O hipnotizador fez uma pausa, sem dizer nada, e começou a sorrir para Jamie Forbes. Um murmúrio de risos se ergueu da platéia: o que aconteceria com esse pobre participante?

Nesse mesmo instante, o tal participante sentiu pena do apresentador, pensou duas vezes antes de descer do palco e decidiu ir em frente com aquele jogo. Ele advertira o sujeito, mas não havia motivo para constrangê-lo na frente de mil espectadores pagantes.

— Qual é seu nome, senhor? — perguntou o hipnotizador, alto o bastante para que todos ouvissem.

— Jamie.

— Jamie, já nos conhecemos? — quis saber o outro. — Já nos vimos antes desta noite?

— Não, senhor, não nos vimos.

— Correto. Agora, Jamie — continuou ele —, eu e você vamos fazer um pequeno passeio em nossa mente. Está vendo esses sete degraus à nossa frente?

Vamos descê-los juntos. Juntos, desceremos os degraus; para baixo, para baixo, para o fundo, para o fundo...

Jamie Forbes de início não notou os degraus. Deviam ser de plástico ou de pau-de-balsa, pintados de forma a parecer de pedra, e ele os desceu com o hipnotizador, um a um. Ficou imaginando como a platéia poderia acompanhar o espetáculo se o voluntário ia parar quase debaixo do palco, mas concluiu que isso era problema de Blacksmyth. Ele devia ter montado algum esquema com espelhos.

Ao pé dos degraus havia uma porta pesada de madeira. Blacksmyth pediu que ele a atravessasse, e, depois que ele o fez, fechou a porta atrás de Jamie. Sua voz passava claramente pelas paredes, descrevendo para a platéia o que Jamie estava vendo: um quarto de pedra vazio, sem portas nem janelas, porém com bastante luz.

O quarto não era quadrado, mas sim redondo, e, quando ele se virou para ver onde havia entrado, a porta tinha sumido. Estava escondida, provavelmente, camuflada com a pedra.

Apenas parece pedra, lembrou ele a si mesmo. E tecido pintado para imitar quadrados irregulares de granito, um forte medieval.

— Olhe ao redor, Jamie, e diga o que vê — disse Blacksmyth, lá de fora.

Ele escolheu não dizer o que sabia, que era tudo de tecido.

— Parece um quarto de pedra dentro da torre de um castelo. Sem janelas.

Sem portas — falou ele.

— Tem certeza de que é pedra? — veio a voz do hipnotizador.

Não me pressione, pensou ele. Não conte comigo para mentir por você.

— Parece pedra. Não tenho certeza.

— Descubra.

É a sua reputação, senhor Blacksmyth, pensou ele. Andou até a parede, tocou-a. Parecia áspera e dura. Empurrou-a suavemente.

— Ao toque, parece pedra.

— Quero que tenha certeza, Jamie. Coloque as mãos na pedra e empurre o mais forte que puder. Quanto mais forte empurrar, mais sólida se tornará.

Que coisa estranha de dizer. Empurrar o mais forte que eu puder é forte mesmo, pensou, e vai ter bloco de madeira por todo lado neste palco. Ele empurrou de leve, no início, depois com mais força, e em seguida com mais força ainda. Era sólido, lá isso era. Isso aqui talvez seja mais um espetáculo de mágica do que de truques da mente, pensou. Como Blacksmyth construiu um quarto de pedra embaixo do palco, e como o transporta de teatro em teatro?

Ele procurou a porta camuflada, mas só havia pedra em toda parte.

Pressionou a parede, chutou-a aqui e ali, andou pelo quarto, que não passava de três metros de diâmetro, pressionou o granito e chutou-o com força o bastante para amassá-lo, caso realmente fosse de pau-de-balsa ou plástico.

Era assustador, mas não muito, porque ele sabia que Blacksmyth teria de libertá-lo em breve.

— Jamie, existe uma saída — disse o apresentador. — Pode nos dizer qual é?

Eu poderia escalar isso aqui, pensou, se os espaços entre as pedras fossem maiores. Ao olhar para cima, viu um teto feito do mesmo material, blocos sólidos.

Em um dos trechos da parede, notou um lugar chamuscado escurecido, como se lá tivesse havido uma tocha para iluminar o local. Agora a tocha e seu prendedor não estavam mais ali.

— Não dá para escalar — disse ele.

— Você diz que não consegue escalar a parede — falou Blacksmyth, com voz alta e teatral. — Jamie, já tentou?

Ele achou que aquilo era uma dica de que podia haver apoios escondidos.

Não. Ele pisou na borda da primeira fileira de pedras e seu sapato escorregou na mesma hora.

— Não tem jeito de escalar isto aqui — disse ele.

— Você consegue abrir um túnel embaixo da parede, Jamie?

Aquela idéia pareceu boba, já que o chão era do mesmo material da parede e do teto. Ele se ajoelhou e arranhou a superfície, mas era tão inflexível quanto o resto do quarto.

— E a porta? Tente a porta.

— A porta sumiu — respondeu ele, sentindo-se ridículo. Como a porta poderia ter sumido? Ele sabia que aquilo fazia parte do truque, mas o fato é que a porta não existia mais.

Jamie Forbes cruzou o quarto até o ponto onde havia entrado e atirou o ombro contra o que parecia pedra, mas poderia ser compensado de madeira pintado. Ao tentar aquilo, só conseguiu machucar o ombro. Como pode esse lugar inteiro ser de pedra?

— Existe uma saída — disse mais uma vez Blacksmyth. — Pode nos dizer qual é?

Jamie Forbes estava cansado e frustrado. Seja lá o que estivesse acontecendo, o truque já estava ficando velho. Nenhuma porta, janela, nenhuma chave, corda, arame ou polia, nenhuma ferramenta, nenhuma outra combinação conhecida para tocar essas pedras. Se existia uma saída, alguma senha secreta que precisasse ser gritada, ele não fazia a menor idéia.

— Desiste?

Antes de responder, ele recuou até um dos lados do quarto, correu três passos e deu um chute voador até o outro lado. Acabou no chão, claro, e a parede sem nenhuma marca.

— Certo — respondeu ele, tornando a se levantar. — Desisto.

— Aqui vai a resposta — disse a voz de Blacksmyth, cheia de teatralidade.

— Jamie, atravesse a parede!

Esse homem enlouqueceu, pensou, pirou no meio da apresentação.

— Não posso fazer isso — respondeu, meio emburrado. — Eu não atravesso paredes.

— Jamie, vou lhe contar a verdade. Não estou brincando. A parede está na sua mente. Você pode atravessá-la, se acreditar que pode.

Com o braço esticado, Jamie apoiou a mão na pedra.

— Muito bem — disse ele —, vou tentar.

— Certo, Jamie. Vou lhe contar tudo agora mesmo; vou entregar o truque inteiro. Você não se lembra, mas foi hipnotizado. Não existem paredes ao seu redor. Você está em um palco no Hotel Lafayette, em Long Beach, na Califórnia, e é a única pessoa aqui que acredita estar presa.

A pedra nem sequer vacilou.

— Por que vocês estão fazendo isso comigo? — perguntou. — É por diversão?

— Sim, Jamie — respondeu Blacksmyth com suavidade. — Estamos fazendo isso por diversão. Você se ofereceu como voluntário e pelo resto da vida nunca esquecerá o que está acontecendo hoje.

— Ajude-me, por favor — pediu ele, sem nenhum traço de orgulho ou raiva.

— Vou ajudar você a se ajudar — respondeu Blacksmyth.

— Não precisamos jamais ser prisioneiros de nossas crenças. Quando eu contar até três, atravessarei a pedra em um dos lados do quarto. Vou pegá-lo pela mão e atravessaremos a parede juntos no outro lado. E você estará livre.

O que se diz diante de uma coisa dessas? Jamie optou pelo silêncio.

— Um — veio a voz do hipnotizador. — Dois... — Pausa longa. — Três.

Na mesma hora, foi como Blacksmyth dissera. Em um instante, Jamie viu um trecho desfocado na pedra, como se ela fosse de uma água seca que não molha; no instante seguinte, Blacksmyth, em seu smoking impecável, atravessou a parede do cárcere e ofereceu-lhe a mão.

Inundado de alívio, Jamie aceitou a mão daquele homem.

— Achei que não...

O hipnotizador não diminuiu o passo nem respondeu, dirigiu-se até a pedra do outro lado do quarto e arrastou consigo seu voluntário.

Deve ter soado como um grito, embora não fosse essa a intenção. De Jamie Forbes saiu um berro de assombro assustado e desnorteado.

O corpo de Blacksmyth sumiu na pedra. Por um instante, Jamie segurou com força um braço sem corpo, cujo punho e mão se moviam para a frente, arrastando-o diretamente para a parede.

O som seguinte que ele soltou, qualquer que fosse, deve ter sido abafado pela parede, e no instante a seguir ouviu um clique como o de estalar de dedos e viu-se de volta ao palco, segurando a mão de Blacksmyth e piscando ante os refletores, envolvido em aplausos fascinados.

As pessoas que ele pôde ver, nas primeiras fileiras diante da escuridão atrás dos refletores, levantavam-se para aplaudir de pé o hipnotizador, e, estranhamente, para aplaudi-lo também.

O ato fora o grand finale de Blacksmyth. Ele deixou seu voluntário ser inundado de aplausos, desapareceu nas coxias e voltou duas vezes antes de o som da multidão se transformar em tagarelice suave, murmúrio de muitas vozes e o som de gente apanhando seus programas, casacos e bolsas enquanto as luzes do teatro se acendiam.

Jamie Forbes desceu, cambaleante, os degraus até a platéia, onde algumas pessoas sorriram para ele e lhe agradeceram a coragem de haver se oferecido.

— Foi real, parecia real para você, a pedra e tudo o mais?

— É claro que foi real!

Elas riram, depois deram sorrisos intrigados e explicaram:

— Você estava no palco, no centro. No palco vazio! Blacksmyth estava à esquerda, falando com você. Você fez tudo parecer tão real! O salto do fim e o chute; foi impressionante! Você acreditou de verdade... não foi?

Mais do que acreditou. Ele sentiu.

No caminho de volta para o apartamento, Forbes remoeu vezes sem conta o que aconteceu naquela noite.

Era pedra sólida como qualquer rocha, dura como qualquer aço que ele já tocara. Crença? Ele teria morrido de fome naquele quarto, aprisionado ali pela...

pela o quê? Mais do que crença. Pela convicção absoluta e inquestionável.

A partir da mais simples das sugestões — "Vamos dar um pequeno passeio em nossa mente...".

O que eu estava pensando, "não posso ser hipnotizado?" Caí na conversa mole e me convenci de que estava em uma prisão. Como esse tipo de coisa pode acontecer?

Anos mais tarde, ele descobriu que não teria morrido ali, caso houvesse sido deixado sozinho. Ele acabaria adormecendo e, quando acordasse, estaria livre das crenças de aprisionamento que haviam lhe parecido tão reais algumas horas antes.

CAPÍTULO CINCO

NA NOITE SEGUINTE, a placa no saguão continuava a mesma: BLACKSMYTH

O GRANDE

SURPREENDENTES PODERES DA MENTE!

No palco esta noite!

Nesta última noite da apresentação, Jamie Forbes escolheu um lugar no meio da platéia, corredor S, a trinta metros de distância do palco. Nada de se oferecer como voluntário dessa vez, pensou. Hoje vamos apenas assistir. O que esse homem fez comigo? Como ele fez isso?

Todos os atos foram divertidos, é claro, mas ele deixou de lado a diversão para assistir ao que acontecia: algumas palavras em tom baixo e a primeira voluntária se perdeu em um transe.

Bastou um olhar para as cartas embaralhadas e ela se lembrou da seqüência de cinqüenta e duas cartas de baralho, sem errar, à medida que elas eram retiradas do maço.

— Seu braço é duro e sólido como uma barra de ferro — ordenou o hipnotizador para outro voluntário, relativamente baixo, e nenhum homem da platéia foi forte o bastante para dobrar aquele braço.

— Você consegue enxergar claramente o espírito do marido falecido da senhora Dora Chapman — disse ele a uma adolescente, sugestionando-a —, que agora está de pé na sua frente. Pode nos descrever o senhor Chapman?

— Sim, senhor — respondeu ela, sem piscar. — Ele é alto, magro, de olhos castanhos, cabelos pretos penteados para trás, bigodinho. Sorri como se estivesse super feliz. Está usando o que parecem ser roupas de montaria, formais e...

arrojadas, acho que é isso, uma gravata-borboleta preta...

Depois daquela descrição, a foto dele foi exibida em uma tela para a audiência; era um homem com roupas diferentes, mas igual ao que ela descrevera. Uma tipóia sustentava-lhe o braço, torcido ou quebrado não muito antes de a foto ser tirada, mas era o mesmo homem, sem dúvida. De algum modo, ela conseguira vê-lo, a menos que estivesse mentindo e houvesse recebido uma dica, o que Jamie Forbes duvidava.

A coisa prosseguiu assim, com Blacksmyth cumprindo o que prometera à platéia: poderes surpreendentes vinham à tona em pessoas tão comuns quanto o próprio Jamie o fora na noite anterior.

Seria essa platéia, perguntou-se ele, composta de voluntários de outras apresentações tentando entender o que acontecera com eles na semana passada?

Foi só o que ele pôde fazer para evitar reviver seu próprio transe, até vir o último ato do espetáculo. Lá estavam os três voluntários no palco. O primeiro deu um passo para trás quando o hipnotizador pressionou suavemente seu ombro, a segunda começou a cair e foi amparada na mesma hora, o terceiro resistiu ao toque. O primeiro e o terceiro foram dispensados com agradecimentos e aplausos, cortesia de certa maneira importante para o apresentador.

Jamie se esforçou para captar as palavras de Blacksmyth ditas em voz suave para a voluntária remanescente, tentou ler seus lábios. Tudo o que conseguiu entender foi a palavra "viagem". O hipnotizador disse a ela algo diferente do que dissera a Jamie na noite anterior, demorando mais alguns segundos com ela.

— E qual é seu nome, senhora? — perguntou ele para todos ouvirem.

— Lonnie — respondeu ela, com voz firme.

— Correto! — disse ele. Depois de esperar a risada diminuir, ele ergueu a voz e prosseguiu: — Agora, Lonnie, você e eu nos conhecemos, já nos vimos alguma vez antes desta noite?

— Não.

— Isso é verdade — afirmou ele. — Lonnie, poderia, por gentileza, dar um passo para cá?

Jamie Forbes não viu nada que apontasse uma seta — "hipnotizador" —

para o homem no palco; nenhum rótulo na mulher dizendo "já em transe". Eram apenas duas pessoas caminhando juntas devagar, um momento cotidiano.

Eles foram da beira do palco para o centro. Ele sabia o que ela estava vendo: paredes, pedra, a cela de prisão. Po¬rém, não havia nada ao seu redor.

Nada. Ar. Palco. Platéia. Nem sequer a cortina mais transparente, nenhum espelho, nenhum truque de luz. Contudo, o rosto dela se nublou, como deve ter acontecido com o seu. O que acontecera com a porta? Para onde tinha ido Blacksmyth?

Ele nem havia se perguntado "De onde vem essa luz?", assim como ela tampouco. Ficou pensando se ela também teria visto a marca chamuscada da tocha na pedra.

Observou-a esticar o braço para a parede invisível, tocá-la. Empurrá-la, ir para a esquerda e tornar a empurrá-la.

Talvez ela estivesse imaginando um tipo diferente de pedra, pensou, mas a que ela criara era tão dura, tão sólida quanto a dele.

— Olá... — disse ela. — Alguém aí consegue me escutar?

A platéia deu risinhos. Lógico que podemos escutar você. Estamos bem aqui!

Jamie Forbes não sorriu. Mais ou menos a essa altura, ele ficara meio amedrontado.

Amedrontado por quê? Do que tivera medo?

De ficar preso, é isso. Trancado na pedra. Sem portas, sem janelas; teto de pedra, chão de pedra... um inseto em uma xícara de chá, sem saída.

Fora tudo um engano, pensou ele, assistindo. Blacksmyth lhe dissera para descer os degraus, murmurara alguma coisa. Ao pé dos degraus estava a porta.

Cada minuto tão real quanto fora ontem. Hoje ele viu tudo de outra maneira: o palco, um palco vazio com aquela pobre mulher murada pela própria mente.

A platéia sorriu, fascinada, porém isso era tudo o que Jamie podia fazer para se manter sentado em seu lugar, para se impedir de disparar pelo corredor até o palco e resgatá-la, salvá-la...

De quê, Jamie, pensou, salvá-la de quê? Como se desipnotiza uma pessoa mergulhada tão profundamente na crença de que paredes maciças que você não pode ver estão pressionando-a, prendendo-a, num lugar sem comida nem água, onde o próprio ar está acabando?

Quem poderia ter chegado até ele, contado que aquelas paredes eram uma fantasia e feito ele acreditar?

Eu não teria visto resgatador nenhum, pensou. Só quando ele estivesse perto o bastante.

Perto o bastante... e então o quê? Eu veria alguém vindo até mim, saindo da pedra sólida..., mas será que subitamente acreditaria nessa pessoa? Ela diria:

"Está tudo na sua cabeça", e eu responderia: "Ah, claro, obrigado", e minhas paredes desapareceriam?

— Olá! — disse Lonnie. — Senhor Blacksmyth? O senhor quis me deixar aqui mesmo? Senhor Blacksmyth, pode me ouvir? Senhor Blacksmyth!

Jamie olhou para o hipnotizador. Como ele consegue agüentar isso, os gritos dela? Porque daqui a um minuto ela vai começar a gritar.

Lonnie se atirou contra a pedra curvada da sua mente, bateu nela com tanta força que dali a pouco seus punhos sangrariam.

Chega, Blacksmyth, pensou. Agora já chega.

Um rastro de sussurros se espalhou pelo auditório, os sorrisos haviam desaparecido, a platéia começava a ficar incomodada.

Timing perfeito. O hipnotizador andou até ficar a não mais que um metro e meio de distância da sua voluntária, todos os olhares do teatro sobre ele.

— Lonnie, existe uma saída — disse. — Pode nos dizer qual é?

O rosto dela estava angustiado agora.

— Não — respondeu ela, sem esperanças.

Pelo amor de Deus, Lonnie, pensou Jamie Forbes, ande para a frente e dê um soco nesse cara!

Somente anos depois ele saberia que Blacksmyth era para ela o que os hipnotizadores chamam de alucinação negativa: ela não conseguia vê-lo, bloqueada como estava pela alucinação positiva da pedra que ela enxergava ali tão perto, aprisionando-a.

Naquele momento, Jamie Forbes pensou que nada no mundo poderia acordá-la a não ser o estalar dos dedos de Blacksmyth, não importando se ela estivesse morrendo de fome ou de sede. Não era verdade, mas foi o que ele achou, ali assistindo.

— Você já tentou todas as saídas possíveis? — perguntou Blacksmyth.

Ela fez que sim, com a cabeça baixa e ambas as mãos empurrando a pedra de suas crenças.

— Desiste?

Ela assentiu, digna de pena, exausta.

— Aqui vai a resposta — veio a voz dele, cheia de teatralidade. — Lonnie, atravesse a parede!

Ela não fez nada. Já estava empurrando a pedra, apoiada em uma postura que parecia impossível de sustentar, empurrando o ar vazio.

Como ela poderia atravessar alguma coisa, como seu corpo poderia ir aonde suas mãos não podiam?

— Lonnie, vou lhe contar a verdade. Não estou brincando. A parede está na sua mente. Você pode atravessá-la, se acreditar que pode.

Quantas vezes Blacksmyth já dissera aquelas palavras? O que isso faria ao coração dele, contar a verdade a alguém incapaz de acreditar?

— Vou lhe contar tudo, Lonnie, agora mesmo. — Ele se virou e falou para a platéia. — Você foi hipnotizada. Não existem paredes ao seu redor. Você está em um palco no Hotel Lafayette, em Long Beach, na Califórnia, e é a única pessoa aqui que acredita estar presa.

— Por favor, não me machuque — pediu ela.

— Não vou machucá-la, prometo. Vou ajudar você a se ajudar — respondeu ele. — Não precisamos jamais ser prisioneiros de nossas crenças. Podemos nos lembrar de quem somos. Quando eu contar até três, atravessarei a pedra em um dos lados do quarto, pegarei você pela mão e atravessaremos a parede juntos no outro lado. E você estará livre.

Lonnie deu uma risada breve e desesperançada. Apenas me deixe sair.

— Um — disse Blacksmyth. — Dois... Três.

O hipnotizador fez o que qualquer pessoa na platéia poderia ter feito: deu quatro passos e ficou ao lado dela.

Lonnie engasgou e deu um grito de congelar o sangue ao vê-lo.

Blacksmyth ofereceu-lhe a mão, mas ela atirou os braços ao seu redor, agarrando-se a seu salvador.

— Vamos juntos agora — disse ele, e pegou-a pelo pulso. — Vamos atravessar juntos a...

— NÃO! — gritou ela. — NÃO! NÃO!

— Vamos usar a porta — disse ele, calma e inabalavelmente.

Isso já havia acontecido antes, Jamie soube na hora. Lonnie tinha ido tão longe que o hipnotizador passou para o plano B: sugerir a porta.

O que seria o plano C? Perguntou-se. Seria o estalar dos dedos, despertá-la agora no mundo do palco, da platéia; ela se oferecera como voluntária...

Ela se sacudiu, com desespero aliviado, agarrou a maçaneta invisível de uma porta invisível, correu alguns passos e parou, ofegante, virando-se para o hipnotizador. Ele estendeu o braço para tomar-lhe a mão e dessa vez Lonnie a aceitou. Ele ergueu a outra mão até sua própria face, sorriu olhando-a nos olhos e estalou os dedos.

Foi como se ele houvesse lhe dado um tapa na cara. Ela deu um salto para trás, de olhos arregalados.

No segundo seguinte, veio uma onda de choque feita de palmas que quebrou a tensão insuportável do teatro; algumas pessoas já estavam de pé, atônitas com o que acontecera diante de seus olhos.

Blacksmyth fez uma reverência e, como ela ainda estava segurando sua mão, fez uma reverência também, espantada.

O urro de maravilhamento espantado preencheu o teatro.

Em meio a tudo aquilo, Lonnie enxugou as lágrimas, e, mesmo do corredor S, Jamie Forbes leu sua agonia: O que você fez comigo?

Blacksmyth respondeu algumas palavras que apenas ela conseguiu escutar e gesticulou um "obrigado" com os lábios ante os aplausos, com a expressão: Não subestimem a força de suas crenças!

Jamie Forbes ficou perdido dias a fio naquela estranha demonstração, virando-a na mente para cá e para lá até ela se dissolver sem resposta, desaparecer diante de sua obsessão eterna por voar.

Ele enterrou aquele mistério por muito tempo, até bem depois da primeira luz de um dia em North Platte, Nebraska.

CAPÍTULO SEIS

OITO E MEIA DA MANHÃ, o café do aeroporto estava cheio. Ele encontrou um lugar, abriu o cardápio.

— Tudo bem se eu me sentar à sua mesa?

Jamie Forbes ergueu o olhar para ela, uma dessas pessoas de que você gosta no minuto em que bate o olho.

— Sente aí — disse ele.

Ela colocou uma mochila ao seu lado.

— É aqui que se aprende a pilotar?

— Não — respondeu ele, apontando para o céu pela janela. — Você aprende a pilotar lá em cima.

Ela olhou e assentiu.

— Sempre disse que um dia iria aprender. Aprender a pilotar. Prometi a mim mesma, mas não transformei a promessa em realidade.

— Nunca é tarde — disse ele.

— Ah... — fez ela, com um sorriso melancólico. — Acho que para mim é. —

Ela estendeu a mão. — Dee Hallock.

— Jamie Forbes.

Os dois olharam para o cardápio. Algo leve, só um lanchinho, pensou ele.

Suco de laranja e torrada seriam uma opção saudável.

— Você está em viagem — comentou ele.

— Sim. Pegando carona. — Ela colocou o cardápio de lado e, quando a garçonete chegou, pediu: — Chá e torrada, por favor. De hortelã e com pão integral.

— Sim, senhora — disse a garçonete, memorizando o pedido fácil, e depois se voltou para ele.

— Chocolate quente e torrada de centeio. Carona?

— Você vai pilotar hoje — comentou a garçonete. — Não devia fazer um pedido tão leve, nesta manhã.

— Leve é bom — disse ele.

Ela sorriu e saiu para servir outra mesa, com os pedidos dos dois na cabeça.

— Você está pegando carona em carros ou aviões? — Quis saber ele.

— Não tinha pensado em aviões — respondeu Dee. — É possível fazer isso?

— Pedir não dói. Mas é melhor tomar cuidado.

— Por quê?

— Aqui é região de montanha. Alguns aviões não voam tão bem quanto outros, bem alto, com passageiros.

Quarenta e poucos anos, pensou ele. Executiva. Por que está pegando carona?

— Respondendo à sua pergunta — disse ela —, estou testando uma hipótese.

Cabelos castanho-escuros, olhos castanhos, aquela beleza magnética que a curiosidade e a inteligência trazem ao rosto de uma mulher.

— Minha pergunta?

— Por que ela está pegando carona?

Ele piscou.

— Tem razão. Eu estava pensando em algo desse tipo. Qual é sua hipótese?

— Não existem coincidências.

Interessante, pensou ele.

— Que tipo de coincidências não existem?

— Sou uma exploradora das oportunidades iguais — respondeu ela. — Não importa de que tipo. Você e eu, por exemplo; não me surpreenderia se nós dois tivéssemos um amigo importante em comum. Não me surpreenderia se houvesse um motivo pelo qual estamos nos encontrando. Nem um pouco.

Ela o olhou como se soubesse que havia mesmo.

— É claro que não temos como saber — disse ele.

Ela sorriu:

— A não ser por coincidência.

— Que é algo que não existe.

— É o que estou descobrindo.

Busca bacana, pensou ele.

— E está descobrindo mais coincidências por quilômetro nas estradas do que no seu escritório?

Ela assentiu.

— Não acha isso perigoso, pegar carona? Uma mulher atraente pedindo para ser apanhada por qualquer um na estrada?

Risada de isso-é-impossível.

— Eu não atraio o perigo.

Aposto que não, pensou ele. Tem tanta confiança assim em você mesma ou é apenas ingênua?

— A sua hipótese está se confirmando?

— Ainda não estou pronta para chamá-la de lei, mas acho que, pelo menos, logo mais será minha teoria.

Ela havia sorrido ao comentar sobre atrair o perigo; ele ainda não entendera aquilo.

— Eu sou uma coincidência? — perguntou ele.

— Jamie é uma coincidência? — disse ela, como se estivesse falando com alguém que ele não pudesse ver. — Claro que não. Vou lhe contar depois.

— Acho que você é uma coincidência — disse ele. — E não tem nada de errado nisso. Eu lhe desejo sorte em sua viagem.

— Não houve nenhuma palavra nesta mesa que significasse algo para você?

— quis saber ela. — Nada que o tenha transformado até agora?

— "Até agora" é o termo operativo — disse ele. — Diga algo capaz de me chocar, moça, algo desconhecido para mim, que possa mudar minha vida, e concordarei que você não é uma coincidência.

Ela pensou a respeito, com um sorrisinho.

— Vou lhe dizer uma coisa — falou. — Sou hipnotizadora.

CAPÍTULO SETE

DE VEZ EM QUANDO, alguma palavra conseguia aturdir Jamie Forbes, e dava para ouvir quando isso acontecia, como o ruído branco no rádio do avião quando não há ninguém transmitindo: de repente, o volume sobe e a mente é tomada por uma onda de estática.

Era como se o pensamento engatasse uma terceira e batesse de frente contra algo sem explicação. Ele contava sem perceber... em sete segundos, a audição voltava ao normal.

Como essa pessoa estranha escolheu a minha mesa para se sentar, justamente quando eu me perguntava se tinha mesmo hipnotizado Maria Ochoa no ar e relembrava o dia em que isso aconteceu comigo? — O café está lotado, foi por isso. Como ela sabe o que estou pensando? Será que lê mentes? Será que só parece humana, mas na verdade não é? Por que o Inexplicável está acontecendo comigo aqui em North Platte, em Nebraska — será que um extraterrestre me raptou? Como ela poderia adivinhar que minha vida está se transformando, se nunca a vi antes?

Acaso. Coincidência. O mais provável é que ela não seja de Marte.

Houve um longo silêncio. Ele olhou para o céu através da janela e depois para os olhos dela.

— O que leva você a pensar que eu acho que seu emprego vai mudar minha vida?

A garçonete chegou com o chá, o suco e as torradas.

— Mais alguma coisa?

Ele fez que não.

— Não, obrigada — disse a hipnotizadora.

Quando ficaram sozinhos com suas torradas, ele formulou de novo a pergunta para ela com o olhar: por que achou que eu me importaria?

— Achei que isso o interessaria — respondeu ela. — Estou me desprendendo. Estou confiando na imaginação em vez de menosprezá-la a todo instante dizendo que é besteira. E, dito e feito, você está interessado.

— Estou — disse ele. — Posso lhe dizer por quê?

— Por favor.

Ele lhe contou o que acontecera no dia anterior, resumindo a história para ela. Naquela manhã, quando Maria disse ao repórter que o piloto a fizera acreditar ser a comandante de uma companhia aérea por meio da hipnose, ele se perguntara se tinha mesmo feito aquilo.

Ela olhou para ele, com ar calmo e profissional.

— Você a fez acreditar que era muito mais que a comandante de uma companhia aérea.

— Ah! O que é hipnose?

Quando Jamie Forbes queria aprender algo, não estava nem aí se alguém iria achá-lo burro.

— Hipnose — disse ela, como se não fosse burrice perguntar — é uma sugestão aceita.

Ele esperou. Ela deu de ombros.

— Só isso?

Ela fez que sim.

— É meio vago demais, não?

— Não. Conte sua história de novo, o que você lembra; eu o interromperei toda vez que tiver hipnotizado a pessoa.

Ele olhou para o relógio acima do balcão, art déco com pás de hélices cromadas, marcando nove horas e três minutos.

— Preciso ir.

— Tenha um bom vôo — disse ela. — Isso é importante.

Ele piscou ao ouvir a mensagem dúbia. Talvez ela tenha razão. O clima está melhorando a leste, uma frente está se movendo. É cedo, posso esperar melhorar um pouco mais.

— Está bem — disse ele —, vou contar o que aconteceu.

Ele contou de novo o que acontecera no dia anterior, tudo o que lembrava, sabendo que ela o interromperia quando chegasse à parte da comandante de companhia aérea.

— Primeiro, ela disse: "Alguém me ajude, ele morreu!". E eu disse: "Pode ser, senhora, mas também pode ser que não".

— Pare — interrompeu a hipnotizadora. — Você sugeriu que ela podia estar errada, que o marido talvez estivesse vivo. Foi um pensamento novo para ela; ela o aceitou e isso lhe deu esperança e, mais que isso, uma razão para viver.

Ele não havia pensado nisso.

— Eu lhe disse que ela conseguiria pilotar o avião sem ele.

— Espere — disse Dee Hallock. — Você sugeriu que ela conseguiria pilotar o avião. Outra opção nova.

— Eu falei: "É melhor nós pousarmos". Disse "nós" porque sabia o que ela diria em seguida...

— Espere. Você não apenas a estava hipnotizando, mas sabia que estava fazendo isso.

— Ela disse: "Não sei pilotar um avião". E eu respondi: "Certo, então eu e você vamos pousar esse avião juntos".

— Pare. Você estava negando a sugestão dela de não conseguir pilotar, mas seu tom de voz, sua confiança, afirmavam o contrário. Negação e afirmação: sugestões que conduzem a uma demonstração.

E assim foi, com a mulher interrompendo-o em quase todas as frases.

Forbes havia sugerido que ela tinha noções de aviação, disse ela; deu-lhe afirmações e confirmações, usou dicas não verbais, sugeriu que ela aceitasse a autoridade dele como instrutor, garantiu que ela podia confiar nele para pousar em segurança, confirmou sugestões com humor... A lista dela continuou, com comentários sobre todas as frases das quais ele se lembrava.

Ele assentiu, convencido. Agora, essa parceira de café da manhã o levara a aceitar a sugestão de que ele havia guiado a mente de Maria. Hipnose seria tão fácil assim?

— Vou falar com a torre de comando em outro rádio. Não se preocupe, ficarei na escuta com a senhora neste aqui, também. Pode falar comigo na hora em que quiser, certo?

— Pare — interrompeu ela, mais uma vez. — O que você lhe disse então?

— Que ela não precisava fazer nada. Que o Sr. Autoridade estava vigiando todo e qualquer movimento dela, ainda que estivesse conversando com outra pessoa.

— Exatamente.

— Eu disse à torre: "Negativo, mas não custa deixar uma ambulância e um caminhão de bombeiros de prontidão. Mantenha os veículos atrás do avião quando ela estiver aterrissando, certo? Não queremos que ela se distraia com equipamentos seguindo ao seu lado durante a aterrissagem".

— Pare. O que você estava fazendo agora?

Ele sorriu:

— Estava hipnotizando o operador da torre de comando.

Ela assentiu, solene.

— Sim. Você sugeriu que estava no controle e que ele devia aceitar isso.

— Lá está a pista à nossa frente, Maria. Vamos fazer uma curva grande e suave para nos alinharmos com ela. Bem suave, sem pressa. Isso é fácil para você.

— Aí está — disse ela. — Você estava sugerindo um futuro pronto, bem-sucedido.

— Estava mesmo, não estava?

— O que você acha? — perguntou Dee Hallock. — Ao me contar a história, quantas sugestões você fez, duas dúzias, três dúzias? Quantas não mencionou?

Meus clientes ficam em um estado moderado de transe após uma única frase. —

Ela levantou a xícara, mas não bebeu. — Sugestão-Afirmação-Confirmação, sempre girando, como as espirais que apareciam nos filmes antigos para mostrar quando al¬guém estava... hip-no-ti-za-do...

— Não sou só eu, é isso que você quer dizer? Que qualquer um pode nos hipnotizar? Que todo mundo é capaz de fazer isso?

— Não só que todo mundo é capaz, meu senhor, mas que todo mundo o faz, todos os dias. Você faz, eu faço, o dia todo, a noite toda.

Ele notou, pelo olhar dela, que ela desconfiava que ele não estava acreditando.

Ela se inclinou para a frente, séria.

— Jamie, toda vez que pensamos ou dizemos: eu sou..., eu sinto..., eu quero..., eu penso..., eu sei..., você parece..., você pode..., você é..., você não pode..., você deve..., eu deveria..., eu farei..., isto é..., isto não é..., toda vez que usamos um julgamento de valor, como bom, mau, melhor, ruim, muito bom, lindo, inútil, formidável, certo, errado, terrível, encantador, magnífico, perda de tempo... — O olhar dela expressava a amplitude da questão. — E assim por diante... cada declaração que fazemos já não é uma declaração, é uma sugestão, e cada sugestão que aceitamos nos empurra mais para o fundo. Toda sugestão intensifica a si mesma.

— Se digo a mim mesmo que estou me sentindo ótimo quando estou péssimo — falou ele —, o "ótimo" se intensifica?

— Sim. Se dizemos a nós mesmos que nos sentimos ótimos quando estamos nos sentindo péssimos, o mau estado desaparece gradualmente a cada sugestão. Se dizemos que nos sentimos péssimos quando estamos nos sentindo mal, pioramos a cada palavra. As sugestões intensificam.

Ela parou, levantou as sobrancelhas por um segundo. Parecia surpresa com sua própria intensidade.

— Isso é interessante — comentou ele, enfatizando as palavras, o que o levou a um transe de saber que o que ela disse era muito mais que interessante.

Se o que ela dissera fosse um quarto verdadeiro, um décimo verdadeiro...

— A hipnose não é nenhum mistério, Jamie. É só isso: repetição, repetição e repetição. Sugestões de todos os lados, provenientes de nós mesmos, de todos os outros seres humanos que encontramos: pense isso, faça isso, seja isso.

Sugestões vindas das pedras: elas são sólidas, têm substância, mesmo quando sabemos que toda e qualquer matéria não passa de energia, padrões de ligações que percebemos como substância. Coisas sólidas não existem, mesmo que pareça o contrário.

Como se ela estivesse determinada a não se aprofundar demais novamente, segurou a xícara, em silêncio.

Sugestão, afirmação, pensou ele. A moça estava certa. De todas as sugestões que já ouvimos, vimos ou tocamos, nossa verdade é o conjunto daquelas que aceitamos. Não são nossos desejos que se tornam realidade, nem nossos sonhos; são as sugestões que aceitamos.

— Foi o que você fez com Maria — disse ela, por fim. — Colocou-a em um transe tão profundo que não foi ela quem aterrissou o avião, foi você. Sua mente tomou o corpo dela emprestado o tempo suficiente para você lhe salvar a vida.

Ela abaixou a xícara com cuidado, como se soubesse que o chá nunca deve ser inclinado.

— Diga-me uma coisa...

E ela se calou.

— O quê? — perguntou ele, após um tempo.

— Passou pela sua cabeça, ontem, que talvez ela não conseguisse aterrissar aquele avião em segurança?

O piloto ficou em silêncio. Impensável. A hipótese de Maria não conseguir aterrissar seu avião era tão improvável quanto a de ele não conseguir aterrissar o dele.

— Quando aceitamos nossas próprias sugestões — disse sua estranha companheira —, isso se chama auto-hipnose.

CAPÍTULO OITO

Por TER PASSADO tantos anos sendo transparente, Jamie Forbes praticava o contrário, a ponto de a essa altura aquilo já haver se tornado quase um hábito.

Essa Dee Harmon, pensou, a caronista em busca das coincidências, mal sabe quanto me fez refletir.

Ele olhou para o relógio e colocou duas notas de dez dólares na mesa do café.

— Tenho de ir — disse. — Se a conta der mais que vinte dólares, você vai ter de inteirar.

— Obrigada — respondeu ela. — Farei isso. Para onde você vai?

— Estarei no Arkansas ao meio-dia, provavelmente. À sudeste daqui.

Ela continuou na mesa quando ele se levantou.

— Foi um prazer conhecê-lo, Jamie Forbes — disse.

Preciso ir, pensou ele, saindo do local. Não preciso coisa nenhuma. Podia ficar aqui e conversar com essa pessoa o dia todo, aprender tudo o que ela sabe, podia ficar algumas horas, pelo menos.

Tudo bem, então: eu quero ir.

Uma sugestão que aceito, que tenho vontade de aceitar: sinto-me feliz partindo, dirigindo-me até o avião, embarcando de novo na cabine tão familiar e me afastando daquela enxurrada de idéias malucas que se tornaram mais malucas ainda porque podem ser verdade.

Cinto de segurança e cinturão do ombro afivelados, capacete, fios do rádio conectados, luvas vestidas. Que prazerosa, às vezes, é a rotina com um objetivo: Mistura - RICA

Alavanca da hélice - ELEVAÇÃO TOTAL

Magnetos - AMBOS

Bateria - LIGADA

Bomba de reforço - LIGADA, dois-três-quatro-cinco, DESLIGADA Área da hélice - DESIMPEDIDA

Chave de partida - PARTIDA

A hélice girou as três pás vagarosamente, em frente ao pára-brisa, depois desapareceu assim que o motor deu partida, a fumaça azul se enroscou por um segundo e desapareceu com o jato de ar.

Pressão do óleo - VERIFICADA

Alternador - LIGADO

Ele nunca perdera o fascínio por voar. Nunca se entediara. Cada partida do motor era uma nova aventura que guiava o espírito de uma máquina maravilhosa de volta à vida; cada decolagem unia o seu espírito ao do avião para realizarem o que jamais havia sido feito na história: distanciar-se do chão e voar.

Distanciou-se, também, do chá com torradas com Dee Holland; nem pensou nisso durante a decolagem.

Estamos voando.

Rodas recolhidas.

A velocidade de vôo e o ritmo de elevação estão bons. Pressão do óleo e temperatura, pressão de admissão e revoluções do motor e fluxo de combustível e horas remanescentes, cabeça de cilindro e temperatura dos gases de escape no verde, nível de combustível bom; verificar se no céu não há outras aeronaves, observar a Terra passando suavemente abaixo.

Depois que se dominam as técnicas básicas de pilotagem aérea, há bastante espaço para duplas personalidades na cabine. Uma das mentes pilota o avião, a outra soluciona mistérios por puro divertimento.

Minutos depois, a sete mil e quinhentos pés rumo um-quatro-zero graus em direção ao Arkansas, uma das mentes de Jamie Forbes dedicou-se a refletir por que, se não por mera coincidência, ele havia conhecido a senhora Harrelson nessa manhã, em sua missão de provar o que ela tinha tanta certeza de ser verdade.

Nem todo evento precisa ser rotulado como coincidência ou destino, pensou ele. O que importa é o que acontece depois — se fazemos algo com nossas pequenas cenas cotidianas ou se as deixamos escoar coração abaixo e desaguar no Mar dos Encontros Esquecidos.

Será que ele havia mesmo hipnotizado Maria para que ela aterrissasse em segurança? Será que havia se auto-hipnotizado para poder ajudá-la? Será que a hipnose é tão comum a ponto de a realizarmos a cada minuto, todos os dias, conosco e com os outros, sem perceber?

A hipnose não pretende esclarecer nosso papel aqui, pensou ele, mas com certeza discorre sobre como viemos parar neste lugar e como continuamos colaborando.

E se a caronista estivesse certa na sua versão de Maria ter aterrissado em transe... e se fosse verdade?

Se a hipnose não passa de sugestões aceitas, a maior parte do mundo que percebemos à nossa volta deve ser composta de imagens pintadas com nossos próprios pincéis.

— Olá, controle de tráfego aéreo de Pratt, Swift 2304 Bravo entrando quarenta e cinco à esquerda a favor do vento na Pista Três Cinco Pratt.

Sinal fraco no rádio, o avião estava a milhas de distância.

Que sugestões? Pela primeira vez na vida, no silêncio barulhento da cabine, ele abriu os olhos para enxergar.

Voltou no tempo; reviu situações em que estava sozinho e com outras pessoas, casamento e negócios, os anos no Exército, o ensino médio, o ensino infantil, a vida em casa quando criança, a vida como bebê. Como nos tornamos parte de uma cultura, de uma forma de vida, senão aceitando suas sugestões como nossas próprias verdades?

Milhares, milhões de sugestões, um mar de sugestões; aceitas, idolatradas, sensatas e irracionais, rejeitadas, ignoradas... todas escoando invisíveis por mim, por todos os seres humanos, todos os animais, todas as formas vivas na Terra: precisar comer e dormir, sentir calor e frio, dor e prazer, precisar ter pulsação, inalar ar, aprender todas as leis físicas e obedecer, aceitar sugestões de que esta é a única vida que existe, existiu ou existirá. Dee Hartridge só abordou o assunto por alto.

Qualquer declaração, pensou ele, com a qual pos¬samos concordar ou discordar, em qualquer nível... é uma sugestão.

Esse pensamento o fez piscar, o avião totalmente esquecido. Qualquer declaração? Isso seria quase toda palavra que ele já viu, falou, ouviu, pensou e sonhou, dia e noite continuamente, durante mais de meio século, sem contar as sugestões não verbais, numa estimativa conservadora de dez mil vezes mais.

A cada instante em que notamos uma parede, reafirmamos algo-sólido-não-posso-atravessar-isso. Em quantos nanoinstantes durante o dia nossos sentidos incluem paredes? Portas? Chãos? Tetos? Janelas? Durante quantos milésimos de segundos aceitamos limites-limites-limites, sem nos darmos conta do que estamos fazendo?

Quantos microinstantes em um dia, perguntou-se ele: um trilhão? E toda essa quantidade de sugestões diárias só no quesito arquitetura, sem falar em algo simultaneamente abundante, sugestões sobre os próprios limites — digamos percepção, biologia, fisiologia, química, aeronáutica, hidrodinâmica, física a laser... por favor, insira aqui a lista de todas as disciplinas concebidas pela humanidade.

É por isso que as crianças permanecem indefesas por tanto tempo, mesmo aprendendo mais rápido que um raio a cada segundo. Elas precisam aceitar uma base, uma massa crítica de sugestões, precisam se aclimatar espiritualmente aos nossos costumes de espaço e tempo.

A infância é um treinamento básico para a mortalidade. É um dique de sugestões que explode com tanta selvageria sobre os pobrezinhos que eles levam anos para nadar até águas mais calmas, discutir idéias por conta própria. É de impressionar que a primeira palavra que pronunciam não seja "socorro!".

Provavelmente é, aquele choro.

Uma hora e dez minutos após a decolagem, instrumentos todos no verde, velocidade absoluta cento e cinqüenta nós no vento de proa, céu limpo, ar calmo, tempo estimado de chegada a Arkansas mais uma hora.

Em meio a tudo isso, nós, mortais, devemos aprender a ter medo, pensou ele. Se vamos participar do jogo sendo mortais, o perigo é necessário e a destruição precisa ser uma possibilidade.

Temos de participar, temos de mergulhar fundo, fundo, mais fundo no oceano de sugestões de que somos mortais, limitados, vulneráveis e cegos a tudo, menos à tempestade que assola nossos sentidos; temos de transformar mentiras em crenças inabaláveis, sem questionar, e, ao fazermos isso, evitar a morte pelo máximo de tempo possível e, enquanto nos esquivamos da morte, descobrir por que fomos mandados para cá, para começo de conversa, e por que cargas-d’água chamamos esse jogo de divertimento.

Ah, todas as respostas verdadeiras estão escondidas. O jogo é encontrá-las por conta própria em meio às nuvens de respostas falsas que os outros jogadores dizem que servem para eles, mas que, por algum motivo, parecem não servir para nós.

Não ria, criança. Os mortais acham esse jogo fascinante, e você também achará, quando aceitar a crença de que é um deles.

Quando cadete de aviação, Jamie Forbes freqüentou aulas sobre o mal-estar causado pela altitude, algo que acontece quando se voa alto. Será que existe consciência causada pela altitude? Perguntou-se ele agora; será que por termos voado determinada quantidade de anos compreendemos certas coisas das quais nunca teríamos conhecimento em terra firme?

Se você não obedecer às regras, não pode jogar.

A Primeira Regra do Espaço-Tempo da Vida é óbvia: Você deve acreditar no espaço-tempo.

Após somente alguns bilhões de sugestões sobre os limites das quatro dimensões, ou seja, por volta dos dois anos de idade, a confirmação chega rápido.

Ficamos perdidos no transe sou-um-bebê-humano-indefeso, quando na verdade somos jogadores.

E os que mudam de idéia, que decidem ignorar a tempestade de areia de sugestões deste planeta? Os que dizem:

"Eu sou espírito! Não sou limitado pelas crenças deste mundo alucinado e não fingirei que sou"?

O que acontece com eles é: "Coitado, natimorto. O pobrezinho viveu menos de uma hora, que pena. Doente não estava, mas não sobreviveu. Quem disse que a vida é justa?".

Os que colaboram, que consentem em ser hipnotizados, pensou Jamie Forbes à velocidade de cruzeiro de sete mil e quinhentos pés, somos nós. Sou eu.

Velocidade absoluta reduzida a cento e trinta e cinco. Ele reprogramou o GPS e mudou o destino do Arkansas para Ponca City, em Oklahoma. Nunca estive lá, pensou; logo estarei.

CAPÍTULO NOVE

ONDE FICAM os livros sobre aviação? O sebo perto do aeroporto em Ponca City parecia promissor porque, pelo jeito, estava mofando no mesmo local havia uns oitenta anos.

— O que temos sobre aviação você encontrará onde está escrito "Viagem", à esquerda. Fica no fim do corredor, do lado direito — respondeu o funcionário.

— Obrigado.

O que tinham não era muita coisa, descobriu o piloto; nada sobre sua paixão atual, a história do hidroavião. Havia três livros bons, contudo, lado a lado: o raro volume duplo de Brimm e Bogess, Aircraft and Engine Maintenance, com preço bastante abaixo do normal, três dólares cada um, quando valiam quarenta, e Slide Rule, de Nevil Shute, sobre a vida do autor como engenheiro aeronáutico.

A prateleira ficava no nível do olho, e, quando ele puxou os três livros juntos, eles deixaram um buraco bem grande. Normalmente isso lhe teria passado despercebido; porém, como ele não estava com pressa, notou outro livro escondido nas sombras, que ficara preso atrás dos outros. Torcendo para que fosse Seaplanes of the Twenties, ele o puxou.

Mas não teve sorte. Nem sequer era sobre aviação: Enciclopédia dos Artistas de Palco, de Winston.

Mesmo assim, cativado pelo título, ele o abriu em Long Beach, Califórnia, Hotel Lafayette, e procurou o único artista que conhecera pessoalmente: SAMUEL BLACK, VULGO BLACKSMYTH, O GRANDE

Hipnotizador americano (1948-1988).

Dizem que Black não tinha concorrentes à altura durante a década de 1970.

"E se acreditássemos estar acorrentados por algo que não existe?", perguntou ele a um repórter da revista Variety. "E se o mundo à nossa volta for um espelho perfeito daquilo em que acreditamos?"

Black deixou os palcos em 1987, no auge da fama.

Registros do seu diário pessoal mostram que estava explorando o que denominava "dimensões diferentes" e que teria realizado "[...] algumas descobertas muito interessantes. Decidi deixar meu corpo e regressar para ele enquanto gozo de perfeita saúde" (Los Angeles Times, 22 de junho, 1987).

Black foi encontrado morto sem causa aparente em 12 de novembro do mesmo ano, deixando viúva a esposa, Gwendolyn (1951), hipnoterapeuta.

Jamie Forbes depositou os três livros sobre aviação no balcão da livraria, sentindo-se culpado pelo preço dos volumes de Brimm e Bogess, e entregou a enciclopédia ao funcionário, que ele suspeitava ser o dono do estabelecimento.

— Este estava na seção de aviação. É sobre artistas de palco.

— Obrigado. Desculpe, eu o colocarei na seção certa.

— O homem pôs o livro de lado. — Estes dois custam três dólares cada um, e o livro de Nevil Shute, quatro dólares. Tudo bem para o senhor?

Como se ele estivesse disposto a vendê-los por menos!

— Tudo bem. Ele é um ótimo escritor.

— The Rainbow and the Rose, Round the Bend, Trustee from the Toolroom

— disse o funcionário, sorrindo por compartilharem o mesmo bom gosto. — Ele escreveu vinte e três livros, sabe? Ficou famoso por On the Beach, mas não acho que essa seja sua melhor obra.

Era o dono, com certeza.

— Sabe, o livro de Brimm e Bogess está barato demais — disse Jamie. —

Estou levando vantagem sobre você, com esse preço.

O homem abanou a mão, fazendo pouco caso do comentário.

— Foi esse o preço que coloquei. Cobrarei mais da próxima vez.

Conversaram um pouco sobre Nevil Shute Norway, o escritor que parecia ter ganhado vida e estar com eles na livraria, cujas histórias apagaram a distância entre dois homens que ele não teve ocasião de conhecer antes de morrer.

Jamie partiu meia hora depois com o livro de Brimm e Bogess, Slide Rule e mais duas obras de Nevil Shute, brochuras que precisavam ser relidas. Decidiu passar a noite em Ponca City.

Será que é trapaça, pensou, pagar o preço pedido pela livraria?

Não, decidiu, não é.

CAPÍTULO DEZ

NAQUELA NOITE, ainda contente por ter encontrado velhos amigos em velhas páginas, Jamie Forbes desceu para jantar no restaurante do motel.

— Bem-vindo a Ponca City — disse a garçonete, com um sorriso que lhe garantiu uma bela gorjeta antes mesmo de anotar o pedido. Ela lhe passou o cardápio e sussurrou-lhe um segredo: — Temos ótimas saladas.

Ele agradeceu e passou os olhos pela lista depois que ela se retirou. As saladas pareciam mesmo boas.

— Chocolate quente e torrada, suponho.

Ele olhou para cima, surpreso, e encontrou um sorriso diferente.

— Srta. Hammond!

— Hallock — corrigiu ela. — Dee Hallock. Sr. Forbes, está me seguindo?

Impossível. Ele estava a seiscentos e quarenta e três quilômetros do café da manhã em North Platte, e não no Arkansas, para onde disse que iria — ela não tinha como saber, ele não tinha como saber...

— Você pegou carona. Para Ponca City.

— Num caminhão. Dezoito rodas. Uma carga de mil trezentos e sessenta quilos de torrões de grama vindos de North Platte para virar, da noite para o dia, um gramado em Ponca City. Estão entre as pessoas mais carinhosas e corteses do mundo. Sabia que existe um Código dos Caminhoneiros?

— Ora, vamos, srta. Hallock, isso não é possível! Você não pode estar aqui!

Ela riu.

— Muito bem, não estou aqui. Posso jantar com você ou é melhor eu...

desaparecer?

— Claro — disse ele, meio que levantando da cadeira. — Desculpe. Por favor, jante comigo. Como você...?

— Sr. Forbes, nem me venha com esse papo de "como você...". É

coincidência. Não vai se atrever a me dizer outra coisa, vai?

O que se diz nessas horas, "essas coisas acontecem"? Gaguejamos fragmentos de palavras, balbuciamos frases quebradas — "isso não é possível, isso não pode estar acontecendo..." — quando está claramente acontecendo, não importa se é possível ou impossível?

Ele decidiu ficar calado, mas sua mente tropeçou, dando sacudidelas, uma jaula de pássaro vazia lançada de um trem em alta velocidade.

Não havia nada a fazer a não ser fingir que esse era o mesmo mundo de sempre, embora estivesse na cara que não era.

— Ela disse que as saladas são boas.

Dee riu.

O que ela estava pensando, a exploradora de coincidências?

— As coisas acontecem por um motivo — disse ela. — Disso eu sei. As coisas acontecem por um motivo.

Eles pediram saladas, uma massa qualquer, ele não estava nem aí, e ficaram sentados em silêncio. As coisas acontecem por qual motivo?

— Não pude deixar de refletir sobre o que você disse — contou ele. — Que as sugestões nos hipnotizam.

— Se nós as aceitarmos — emendou ela.

— Com dois dias de idade, não temos muita escolha. Depois, é tarde demais.

Ela balançou a cabeça.

— Não. Sempre temos escolha. Aceitamos porque queremos aceitar. Nunca é tarde demais para recusar uma sugestão. Não percebe, Jamie? Não tem mistério: sugestão, afirmação, confirmação. É só isso, repetido sem parar.

Sugestões de todos os lados transformadas em consciência pela nossa mente.

Então, ele decidiu, no meio de todo aquele papo de hipnose, dizer-lhe algo sobre o qual não tinha certeza nenhuma.

— Lembra que disse que talvez tivéssemos um amigo em comum? —

perguntou.

Ela desviou os olhos do cardápio e fez que sim.

— Nós temos mesmo.

Ela sorriu, em expectativa.

— Ah, é?

— Sam Black.

Nenhuma surpresa, nenhum choque. O sorriso ficou carinhoso.

— Você conhece Sam...