História da Literatura Brasileira por José Veríssimo Dias de Matos - Versão HTML

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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

José Veríssimo

À memória cada vez mais amada e mais saudosa de meus pais José Veríssimo de

Matos

e

Ana Flora Dias de Matos consagro este livro, remate da minha vida literária, que lhes

deve o seu estímulo inicial.

José Veríssimo Dias de Matos

Rio (Engenho Novo),

11 de julho de 1915

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Índice Geral

INTRODUÇÃO

PERÍODO COLONIAL

Capítulo

I A PRIMITIVA SOCIEDADE COLONIAL

Capítulo II PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS

Os

Versejadores

Os

prosistas

I Portugueses

II Brasileiros

Capítulo

III O GRUPO BAIANO

Capítulo

IV GREGÓRIO DE MATOS

Capítulo

V ASPECTOS LITERÁRIOS DO SÉCULO XVIII

Capítulo VI

A

PLÊIADE

MINEIRA

I Os

Líricos

II Os Épicos

Capítulo VII OS PREDECESSORES DO ROMANTISMO

I Os Poetas

II Prosadores

Capítulo VIII O ROMANTISMO E A PRIMEIRA GERAÇÃO

ROMÂNTICA

Capítulo IX MAGALHÃES E O ROMANTISMO

Capítulo X OS PRÓCERES DO ROMANTISMO

I Porto Alegre

II Teixeira e Sousa

III Pereira da Silva

IV Varnhagen

V Norberto

VI Macedo

Capítulo XI

GONÇALVES DIAS E O GRUPO MARANHENSE

Capítulo XII A SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA. OS

PROSADORES

Capítulo XIII A SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA. OS

POETAS

I Álvares de Azevedo

II Laurindo Rabelo

III Junqueira Freire

IV Casimiro de Abreu

V Poetas Menores

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Capítulo XIV OS ÚLTIMOS ROMÂNTICOS

I Prosadores

II Poetas

Capítulo XV O MODERNISMO

Capítulo XVI O NATURALISMO E O PARNASIANISMO

Capítulo XVII O TEATRO E A LITERATURA DRAMÁTICA

Capítulo XVIII PUBLICISTAS, ORADORES, CRÍTICOS

Capítulo XIX MACHADO DE ASSIS

Índice

Onomástico

5

Introdução

A LITERATURA QUE SE escreve no Brasil é já a expressão de um pensamento e sentimento que se não confundem

mais com o português, e em forma que, apesar da comunidade da língua, não é mais inteiramente portuguesa. É isto

absolutamente certo desde o Romantismo, que foi a nossa emancipação literária, seguindo-se naturalmente à nossa

independência política. Mas o sentimento que o promoveu e princi- palmente o distinguiu, o espírito nativista

primeiro e o nacionalista depois, esse se veio formando desde as nossas primeiras manifestações literárias, sem que a vassalagem ao pensamento e ao espírito português lograsse jamais abafá-lo. É exatamente essa persistência no tempo e no espaço de tal sentimento, manifestado literariamente, que dá à nossa literatura a unidade e lhe justifica a

autonomia.

A nossa literatura colonial manteve aqui tão viva quanto lhe era possível a tradição literária portuguesa.

Submissa a esta e repetindo-lhe as manifestações, embora sem nenhuma excelência e antes inferiormente, animou-a

todavia desde o princípio o nativo sentimento de apego à terra e afeto às suas cousas. Ainda sem propósito acabaria este sentimento por determinar manifestações literárias que em estilo diverso do da metrópole viessem a exprimir um gênio nacional que paulatinamente se diferençava.

Necessariamente nasceu e desenvolveu-se a literatura no Brasil como rebento da portuguesa e seu reflexo.

Nenhuma outra apreciável influência espiritual experimentou no período da sua formação, que é o colonial. Também

do próprio meio em que se ia daquela formando lhe não proveio então qualquer influxo mental que pudesse

contribuir para distingui-la. E como assim foi até quase acabar o século XVIII, não apresenta períodos claros e

definidos da sua evolução nesse lapso. As reações que daquele meio porventura sofreu foram apenas de ordem física, a impressão da terra em seus filhos; de ordem fisiológica, os naturais efeitos dos cruzamentos que aqui produziram novos tipos étnicos; e de ordem política e social, resultantes das lutas com os holandeses e outros forasteiros, das expedições conquistadoras do sertão, dos descobrimentos das minas e conseqüente dilatação do país e aumento da

sua riqueza e importância. Estas reações não bastaram para de qualquer modo infirmar a influência espiritual

portuguesa e minguar-lhe os efeitos. Criaram, porém, o sentimento por onde a literatura aqui se viria a diferençar da portuguesa. As divisões até hoje feitas no desenvolvimento da nossa literatura não parece correspondam à realidade dos fatos. Mostra-o a sua mesma variação e diversidade nos diferentes historiadores da nossa literatura, e até mesmo no principal deles, incoerente consigo mesmo. Após acurado estudo desses fatos tenho por impossível e vão assentá-

los em divisões perfeitamente exatas ou dispô-los em bem distintas categorias. Fazê-lo com êxito importaria o

mesmo que descobrir outros tantos aspectos diversos e característicos em uma literatura sem autonomia, atividade e riqueza bastantes para se nela passarem as alterações de inspiração, de estesia ou de estilo que discriminam e

assentam os períodos literários; uma literatura que em trezentos anos da sua existência apagada e mesquinha não

experimentou outras reações espirituais que as da Metrópole, servilmente seguida. Assim sendo, é evidente que os

únicos períodos literários aqui verificáveis seriam os mesmos ali averiguados. Quando começava aqui a literatura, lá havia terminado, ou estava terminando, o quinhentismo, a melhor época da portuguesa. Principiava então lá o

seiscentismo, prematura e rápida degradação daquele brilhante momento, cuja brevidade era aliás consoante com a

da época de esplendor nacional, revendo tudo o que de ocasional e fortuito houvera nos escassos cem anos da dupla glória portuguesa. Mas, como acertadamente nota um novo crítico, “o seiscentismo não terminou em 1699, no último

dia do ano, perdurou até a segunda metade do século XVIII e a Arcádia e suas imitações não encerram o século

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XVIII; a Arcádia de Antônio Dinis só se fundou em 1756. No segundo quartel ainda Antônio José satirizava o

gongorismo, que era uma atualidade”.1

O que, portanto, havia no Brasil era o seiscentismo, a escola gongórica ou espanhola, aqui amesquinhada pela

imitação, e por ser, na poesia e na prosa, a balbuciante expressão de uma sociedade embrionária, sem feição nem

caráter, inculta e grossa. Que o era, o mais perfuntório exame, a leitura ainda por alto dos versejadores e prosistas dessa época o mostrará irrecusavelmente. Não há descobrir-lhe diferença que os releve na inspiração, composição,

forma ou estilo das obras. Sob o aspecto literário são todos genuinamente portugueses, por via de regra inferiores aos reinóis. A única exceção apresentada, a de Gregório de Matos, é impertinente. Da sua obra a só porção distinta, e estimável por outras qualidades que as propriamente literárias, é a satírica ou antes burlesca. A inspiração e feitio desta não destoa, porém, quando se tem presumido da musa gaiata portuguesa do tempo, ilustrada ou deslustrada por D. Tomás de Noronha, Cristóvão de Morais, Serrão de Castro, João Sucarelo, Diogo Camacho e quejandos, todos

mais ou menos discípulos e imitadores, como o nosso patrício, do espanhol Quevedo, mas todos a ele inferiores.

Como aos comuns motivos de satirizar de seus êmulos portugueses juntasse Gregório de Matos o estímulo do seu

descontentamento de colonial gorado nas suas ambições e malogrado na sua vaidade, é talvez o seu estro satírico

mais rico e, para nós, muito mais interessante que o daqueles. Não é, porém, nem mais original, nem mais subido. A singularidade, mesmo a superioridade de Gregório de Matos, ainda quando bem assente, não bastaria aliás para

desabonar o conceito de que o seu exemplo não prejudica a regra geral da nossa evolução literária no período

colonial. Um só escritor, uma só obra, salvo proeminência excepcional e de efeitos averiguados, não anula um fato literário como o verificado. A parte séria das composições de Gregório de Matos é genuinamente do pior

seiscentismo, como pela língua, estilo e outras feições o é também a sua porção satírica. De resto o seu caso ficou único e isolado, incapaz, portanto, de alterar como quer que fosse a continuidade do nosso desenvolvimento literário.

E os fatos provam que em nada o alterou. Simultânea e posteriormente continuou aquele como se vinha fazendo.

Somente para o fim do século XVIII é que entramos a sentir nos poetas brasileiros algo que os começa a

distinguir. E só nos poetas. Distinção, porém, ainda muito escassa e limitada e também parcial. Por um ou outro

poema em que se revê a influência americana, há dezenas de outros em tudo e por tudo portugueses. Os mesmos

poetas do princípio do século XIX, sucessores imediatos dos mineiros e predecessores próximos dos românticos, são ainda e sobretudo seiscentistas, apenas levemente atenuados pelo arcadismo. Esta procrastinação do seiscentismo

aqui, como o gongorismo que lhe era consubstancial, e é acaso congênito à gente ibérica, além do motivo geral da

mais lenta evolução mental das colônias, poderia talvez explicá-lo o ter aqui vivido, se exibido e influído o mais poderoso engenho português dessa época, o Padre Antônio Vieira. A sua singular individualidade, exaltando-lhe os

insignes dotes literários, supera a desprezível feição literária do período e a ampara e defende se não legitima. A corroborar-lhe a má influência, continuada pelos pregadores seus discípulos, vieram as academias literárias, focos e escolas do mais desbragado gongorismo. Somente com os primeiros românticos, entre 1836 e 1846, a poesia

brasileira, retomando a trilha logo apagada da Plêiade Mineira entra já a cantar com inspiração feita dum consciente espírito nacional. Atuando na expressão principiava essa inspiração a diferençá-la da portuguesa. Desde então

somente é possível descobrir traços diferenciais nas letras brasileiras. Não serão já propriamente essenciais ou

formais, deixam-se, porém, perceber nos estímulos de sua inspiração, motivos da sua composição e principalmente

no seu propósito.

As duas únicas divisões que legitimamente se podem fazer no desenvolvimento da literatura brasileira, são, pois,

as mesmas da nossa história como povo: período colonial e período nacional. Entre os dois pode marcar-se um

momento, um estádio de transição, ocupado pelos poetas da Plêiade Mineira (1769-1795) e, se quiserem, os que os

seguiram até os primeiros românticos. Considerada, porém, em conjunto a obra desses mesmos não se diversifica por tal modo da poética portuguesa contemporânea, que force a invenção de uma categoria distinta para os pôr nela. No primeiro período, o colonial, toda a divisão que não seja apenas didática ou meramente cronológica, isto é, toda a divisão sistemática, parece-me arbitrária. Nenhum fato literário autoriza, por exemplo, a descobrir nela mais que algum levíssimo indício de “desenvolvimento autonômico”, insuficiente em todo caso para assentar uma divisão

metódica. Ao contrário, ela é em todo esse período inteira e estritamente conjunta à portuguesa. Nas condições de 7

evolução da sociedade que aqui se formava, seria milagre que assim não fosse. De desenvolvimento e portanto de

formação, pois que desenvolvimento implica formação e vice-versa, é todo o período colonial da nossa literatura,

porém, apenas de desenvolvimento em quantidade e extensão, e não de atributos que a diferençassem.

Certo é que na segunda metade do século XVII e princípio do XVIII, poetas brasileiros (não foram aliás mais de

três), ocasionalmente, sem intenção nem insistência mostraram-se impressionados pela sua terra, cantaram-lhe as

excelências naturais com exagero de apreço e entusiasmo em que é lícito perceber o abrolhar do sentimento nacional, começado a gerar-se com os sucessos da guerra holandesa. Fizeram-no aliás pouco e mediocremente. Em vez de

seguir e cavar esse veio que se lhes deparava, perseveraram na poética portuguesa sua contemporânea. Seria

desarrazoado, seria forçar os fatos a acomodarem-se às nossas prevenções, enxergar mostras de sentimento literário autonômico nessas singularíssimas exceções. Nem por isso são elas desinteressantes. Testemunham a influência dos

aludidos sucessos no espírito dos brasileiros, onde criaram ou ativaram o sentimento nativista. Importam-nos ainda como as primeiras manifestações do impulso de louvar a terra, impulso que se tornaria logo um sestro literário nosso.

A quase dois séculos de distância o verificaria Casimiro de Abreu, nos seus sentidos e conhecidos versos:

Todos cantam sua terra

Também vou cantar a minha

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha.

Toma outra feição que a puramente portuguesa a nossa literatura no segundo período, o nacional.

Independente e constituído, desenvolvendo-se menos adstrito à exclusiva influência da Metrópole e ao seu

absorvente predomínio, entra o país a experimentar o influxo de outras e melhores culturas, sofre novos contatos e reações, que são outros tantos estímulos da sua inteligência e capacidade literária. O maior de todos, porém, não será externo, mas o mesmo sentimento nacional afinal consciente: o desvanecimento da sua independência, da sua

maioridade de povo, das suas possibilidades de crescimento com as suas promissoras esperanças de futuro. Por isso a literatura imediatamente posterior à Independência é ostensivamente, intencionalmente nacionalista e patriótica. O

germe nativista de que a Prosopopéia, de Bento Teixeira, ao expirar do século XVI, é já o primeiro indício, e a Ilha de Maré, de Botelho de Oliveira, no final do século XVII, um mais visível sinal, germe desenvolvido, podemos dizer nutrido, do calor bairrista de Rocha Pita, e relevado nos poetas do fim do século XVIII, completa com a primeira

geração romântica a sua evolução. E resulta da índole claramente nacionalista, mais ainda, patriótica, da literatura de após a Independência.

Este fato determinara-o a mesma reação literária inaugurada na Europa com o Romantismo, que em suma era

sobretudo, e esta é a sua mais exata definição, uma revolta contra o que se continuava a chamar de classicismo.

Tanto mais fácil foi à nova escola encontrar aqui simpatias, entusiasmos e sequazes, quanto sendo um princípio de independência e liberdade lisonjeava o nosso ardor de ambas no momento. Teve de fato alvoroçado acolhimento,

como era próprio de gente nova, em pleno fervor da sua mocidade emancipada, irreflexiva e malquerente de quanto

lhe recordava a sua servidão política e mental. Cumpre, todavia, não exagerar essa malevolência, que por honra dos corifeus desse nosso movimento literário nunca se desmandou nas suas reivindicações de autonomia literária, antes guardou nelas uma compostura de bom gosto.

O Romantismo europeu não só influiu os poetas e escritores de todo o gênero, se não os políticos, os oradores,

ainda sacros, de que é frisante exemplo Monte Alverne, o maior deles, e os publicistas. Como na Europa, foi também aqui mais que uma escola literária, uma forma de pensamento geral.

Principalmente assinalaram o nosso Romantismo: a simpatia com o índio, a intenção de o reabilitar do juízo dos

conquistadores e dos nossos mesmos patrícios coloniais, o errado pressuposto dele ser o nosso antepassado histórico, o amor da natureza e da história do país, encarados ambos com sentimentos e intenções estreitamente nativistas, o conceito sentimentalista da vida, o propósito manifesto de fazer uma literatura nacional e até uma cultura brasileira.

Inspirado no preconceito dos méritos do índio revelou-se este propósito em recomendações do ensino da língua tupi, 8

em parvoinhas propostas de sua substituição ao português na adoção de apelidos indígenas ou na troca dos

portugueses por estes e no encarecimento de quanto era indígena.2

Com estas feições apenas ligeiramente modificadas por novos influxos recebidos de fora ou aqui mesmo

nascidos, durou o nosso Romantismo, iniciado pela terceira década do século XIX, até o meado do decênio de 1870.

As últimas obras de vulto que ainda a ele, com a sua inspiração indianista, se vinculam, são o Evangelho nas Selvas, de Fagundes Varela, e as Americanas, de Machado de Assis, ambas em 1875.

Pelo fim do Romantismo, esgotado como acabam todas as escolas literárias, tanto por enfraquecimento e

exaustão dos seus motivos, como pela natural usura, entram a influir a mente brasileira outras correntes de

pensamentos, outros critérios e até outras modas estéticas européias de além Pireneus oriundas das novas correntes espirituais, o positivismo em geral ou o novo espírito científico, o evolucionismo inglês, o materialismo de Haeckel, Moleschott, Büchner, o comtismo, a crítica de Strauss, Renan ou Taine, o socialismo integral de Proudhon, o

socialismo literário de Hugo, de Quinet, de Michelet. Outras tendências e feições, criadas por estas novas formas de pensamento, se substituem ao ceticismo, ao desalento, ao satanismo, tudo também literário ou apenas sentimental de Byron, Musset e outros que tanto haviam influenciado a nossa segunda geração romântica. Verifica-se que nenhuma

das correntes do pensamento europeu que aturaram no brasileiro levou menos de vinte anos a se fazer aqui sentir. E

esta é a regra ainda depois que as nossas comunicações com a Europa se tornaram mais fáceis e mais freqüentes.

Destas várias influências contraditórias, e até disparatadas, que todas, porém, simultaneamente atuaram o nosso

pensamento, não saiu, nem podia sair, um composto único e ainda menos coerente, como até certo ponto fora no

período romântico o espiritualismo cristão ou o puro sentimentalismo dos nossos românticos, sem exceção. Sob o

aspecto literário o que delas resultou foi o rompimento, mais ou menos intencional, mais ou menos estrepitoso, mais ou menos peremptório, com o Romantismo. De tal rotura se não gerou, entretanto, um movimento com bastante

ressalto, caráter ou homogeneidade que possamos defini-lo com um apelido idôneo. O que se lhe tem dado, como as

divisões e subdivisões nele feitas, afigura-se-me inconseqüente com os fatos literários bem apreciados. Não ignoro, e menos contesto, a importância e valia das classificações para compendiar a explicação dos fatos literários. Mas não basta não ignorá-lo ou praticá-las a torto e a direito para podermos alardear filosofia de história literária. Aquele valor e importância só a têm as classificações perfeitas em que quase nada ou mesmo nada fica ao arbítrio do crítico, mas tudo obedece lógica e naturalmente a um justo critério bem estabelecido. Sem isso, que é dificílimo em todas as literaturas e é positivamente impossível em a nossa, tais classificações tanto podem inculcar uma digna tendência filosófica, como uma supina presunção.

O que principalmente distinguiu e afeiçoou este nosso movimento espiritual ou mais propriamente literário

posterior ao Romantismo foi o pensamento científico e filosófico triunfante por meados do século XIX —

caracterizado pelo preconceito da infalibilidade da ciência e por uma exagerada opinião da sua importância. Esse

pensamento, aqui como em toda a parte, recebeu a denominação pouco precisa, mas em suma bastante significativa,

de pensamento moderno. Aqui produziu ele maior e mais raciocinado desapego às crenças tradicionais religiosas ou

políticas, gerou o acatolicismo ou o agnosticismo em grande número de espíritos e o republicanismo ainda em maior número. Não chegou, porém, a criar manifestação literária alguma bastante considerável e homogênea, e

suficientemente distinta, para a podermos nomear com exatidão segundo os seus particulares caracteres literários.

Para sair da dificuldade sem, por iludi-la, cair no erro de dar a esta fase da nossa literatura algum apelido

desapropositado, parece que o meio mais seguro é lhe verificar a inspiração ou idéia geral e motriz, e consoante ela denominá-la. Era esta declaradamente seguir em arte como em filosofia, e ainda em política, as idéias modernas, o racionalismo científico, o positivismo filosófico, o transformismo e o evolucionismo como um critério geral do

pensamento, o liberalismo político, que levava de um lado ao republicanismo, de outro, com duvidosa coerência, ao socialismo. O “pensamento moderno”, e a sua competente apologia, foram aqui um tema literário repetido até o

fastio e sob esta denominação ou a ainda mais vaga de “idéia nova” se reuniam desencontrados conceitos,

sentimentos e aspirações. Dava-lhes, todavia, unidade bastante para ao menos exteriormente os caracterizar. Não

sendo possível descobrir-lhes com toda a certeza o acento predominante, a feição literária essencial e por evitar a impertinência e vaidade das tentativas já feitas para grupar em categorias definidas autores e obras desta última fase 9

da nossa evolução literária, parece mais prudente crismá-la segundo o seu principal estímulo mental — a sua

superstição das idéias modernas — e chamar-lhe de modernismo.3 Efetivamente é a influência cosmopolita e

onímoda dessas idéias e dominante em a nossa literatura nessa fase e, salvo exceções individuais pouco relevantes, não mais o nacionalismo romântico. Torna-se a poesia — e a poesia foi sempre em cópia e qualidade a porção mais

considerável da nossa literatura — menos subjetiva, menos ingênua e sentimentalista, e a diminuição destas suas

qualidades acaso, sob o aspecto da emoção, amesquinhou o nosso lirismo. Ao invés ganhou ele em dons verbais de

expressão e em virtudes de forma e métrica. A mesma forma aperfeiçoou-se com qualidades de composição e

temperança. Nota-se mais o aparecimento em toda a nossa literatura de requisitos de que carecia, e que faltaram

sempre à antiga literatura portuguesa, o gosto, o interesse, a capacidade das idéias gerais, preocupações mais

largamente humanas e sociais, em vez de pura sentimentalidade e do estreito nacionalismo romântico. Alguns dos

principais representantes desta última fase da nossa evolução literária são, sem prejuízo do seu brasileirismo de raiz, cosmopolitas ou universais. Tais são Castro Alves, Tobias Barreto, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Eduardo

Prado.

Antes da República, ou por espírito de oposição ao império católico, ou por influência desse pensamento

moderno, eram os intelectuais brasileiros quase todos livres-pensadores, ou pelo menos espíritos de um larguíssimo liberalismo, que roçava pelo livre-pensamento. Este liberalismo foi, aliás, a feição conspícua do espírito brasileiro e da vida pública brasileira durante todo o reinado de D. Pedro II. Com a República, que não podia falhar à índole

ditatorial e despótica do republicanismo latino e aos efeitos da sua educação pelo jacobinismo francês, atenuou-se essa feição e minguou na política, como na inteligência nacional, aquele espírito liberal.

Uma escola literária não morre de todo porque outra a substitui, como uma religião não desaparece inteiramente

porque outra a suplanta. Também não acontece que um movimento ou manifestação coletiva de ordem intelectual,

uma época literária ou artística, seja sempre conforme com o seu princípio e conserve inteira a sua fisionomia e

caráter. É, pois, óbvio que aqui, como sucedeu na Europa, ficaram germes ou antes restos do Romantismo, como

neste haviam ficado do classicismo. Misturados com o “cientificismo” do momento ou influídos por ele, esses

remanescente do Romantismo confundiram-se na corrente geral daquele originada, produzindo com outros estímulos

e impulsos supervenientes algumas feições diversas na fisionomia literária desta fase. Nenhuma, porém, tão distinta que force a discriminação.

A dificuldade geralmente verificada desta discriminação sobe de ponto aqui, onde por inópia da tradição

intelectual o nosso pensamento, de si mofino e incerto obedece servil e canhestramente a todos os ventos que nele vêm soprar, e não assume jamais modalidade formal e distinta. Sob o aspecto filosófico o que é possível notar no

pensamento brasileiro, quanto é lícito deste falar, é, mais talvez que a sua pobreza, a sua informidade. Esta é também a mais saliente feição da nossa literatura dos anos de 70 para cá. Disfarça-as a ambas, ou as atenua, o íntimo

sentimento comum do nosso lirismo, ainda em a nossa prosa manifesto, a sensibilidade fácil, a carência, não obstante o seu ar de melancolia, de profundeza e seriedade, a sensualidade levada até a lascívia, o gosto da retórica e do reluzente. Acrescentem-se como característicos mentais a petulância intelectual substituindo o estudo e a meditação pela improvisação e invencionice, a leviandade em aceitar inspirações desencontradas e a facilidade de entusiasmos irrefletidos por novidades estéticas, filosóficas ou literárias. À falta de outras qualidades, estas emprestam ao nosso pensamento e à sua expressão literária a forma de que, por míngua de melhores virtudes, se reveste. Aquelas revelam mais sentimentalismo que raciocínio, mais impulsos emotivos que consciência esclarecida ou alumiado

entendimento, revendo também as deficiências da nossa cultura. Mas por ora, e a despeito da mencionada reação do

espírito científico e do pensamento moderno dele inspirado, somos assim, e a nossa literatura, que é a melhor

expressão de nós mesmos, claramente mostra que somos assim.

Literatura é arte literária. Somente o escrito com o propósito ou a intuição dessa arte, isto é, com os artifícios de invenção e de composição que a constituem é, a meu ver, literatura. Assim pensando, quiçá erradamente, pois não

me presumo de infalível, sistematicamente excluo da história da literatura brasileira quanto a esta luz se não deva considerar literatura. Esta é neste livro sinônimo de boas ou belas letras, conforme a vernácula noção clássica. Nem 10

se me dá da pseudonovidade germânica que no vocábulo literatura compreende tudo o que se escreve num país,

poesia lírica e economia política, romance e direito público, teatro e artigos de jornal e até o que se não escreve, discursos parlamentares, cantigas e histórias populares, enfim autores e obras de todo o gênero.4

Não se me impõe o conceito com tal grau de certeza que eu me não atreva a opor-lhe a minha heresia, quero

dizer a minha humilde opinião. Com o mais recente e um dos mais justamente apreciados historiadores da literatura francesa, o Sr. G. Lanson, estou que “a literatura destina-se a nos causar um prazer intelectual, conjunto ao exercício de nossas faculdades intelectuais, e do qual lucrem estas mais forças, ductilidade e riqueza. É assim a literatura um instrumento de cultura interior; tal o seu verdadeiro ofício. Possui a superior excelência de habituar-nos a tomar gosto pelas idéias. Faz com que encontremos num emprego o nosso pensamento, simultaneamente um prazer, um

repouso, uma renovação. Descansa das tarefas profissionais e sobreleva o espírito aos conhecimentos, aos interesses, aos preconceitos de ofício; ela “humaniza” os especialistas. Mais do que nunca precisam hoje os espíritos de têmpera filosófica; os estudos técnicos de filosofia, porém, nem a todos são acessíveis. É a literatura, no mais nobre sentido do termo, uma vulgarização da filosofia: mediante ela são as nossas sociedades atravessadas por todas as grandes

correntes filosóficas determinantes do progresso ou ao menos das mudanças sociais; é ela quem mantém nas almas,

sem isso deprimidas pela necessidade de viver e afogadas nas preocupações materiais, a ânsia das altas questões que dominam a vida e lhe dão um sentido ou um alvo. Para muitos dos nossos contemporâneos sumiu-se-lhes a religião,

anda longe a ciência; da literatura somente lhes advém os estímulos que os arrancam ao egoísmo estreito ou ao

mister embrutecedor”.5 Não se poderia definir com mais cabal justeza, nem com mais elegante simplicidade, a

literatura e sua importância.

Muitos dos escritores brasileiros, tanto do período colonial como do nacional, conquanto sem qualificações

propriamente literárias, tiveram todavia uma influência qualquer em a nossa cultura, a fomentaram ou de algum

modo a revelam. Bem mereceram, pois, da nossa literatura. Erro fora não os admitisse sequer como subsidiários, a

história dessa literatura. É também principalmente como tais que merecem consideradas obras, aliás por outros

títulos notáveis, como a de Gabriel Soares ou os Diálogos das Grandezas do Brasil. Os portugueses que no Brasil escreveram, embora do Brasil e de cousas brasileiras, não pertencem à nossa literatura nacional, e só abusivamente pode a história destas ocupar-se deles. O mesmo sucede com outros estrangeiros que aqui fizeram literatura como o hispano-americano Santiago Nunes Ribeiro, o espanhol Pascoal, ou os franceses Emile Adet e Louis Bourgain.

Aqueles pelo caráter e estilo de suas letras eram, como os mesmos brasileiros natos, portugueses, e como o eram

igualmente de nascimento e forçosamente de sentimento — que este se não naturaliza — como quaisquer outros

estrangeiros, não cabem nesta história. No seu primeiro período ela é a dos escritores portugueses nascidos no Brasil, no segundo dos autores brasileiros de nascimento e atividade literária. Os portugueses que para cá vieram fazer

literatura após a Independência, Castilhos, Zaluares, Novais e outros, nem pela nacionalidade ou sentimento, nem

pela língua ou estilo, não pertencem à nossa literatura, onde legitimamente não se lhes abre lugar. São por todas as suas feições portugueses. Assim, os brasileiros que, alheando-se inteiramente do Brasil, em Portugal exerceram toda a sua atividade literária, como o infeliz e engenhoso Antônio José e o preclaro Alexandre de Gusmão, também não

cabem nela. Tudo autoriza a crer que Antônio José e Alexandre de Gusmão não teriam sido literariamente o que

foram se houvessem ficado no Brasil. Foi, pois, Portugal, a sua pátria literária, como o Brasil foi a pátria literária de Gonzaga.

Não existe literatura de que apenas há notícia nos repertórios bibliográficos ou quejandos livros de erudição e

consulta. Uma literatura, e às modernas de após a imprensa me refiro, só existe pelas obras que vivem, pelo livro lido, de valor efetivo e permanente e não momentâneo e contingente. A literatura brasileira (como aliás sua mãe, a portuguesa) é uma literatura de livros na máxima parte mortos, e sobretudo de nomes, nomes em penca,

insignificantes, sem alguma relação positiva com as obras. Estas, raríssimas são, até entre os letrados, os que ainda as versam. Não pode haver maior argumento da sua desvalia.

Por um mau patriotismo, sentimento funesto a toda a história, que necessariamente vicia, e também por vaidade

de erudição, presumiram os nossos historiadores literários avultar e valorizar o seu assunto, ou o seu próprio

conhecimento dele, com fartos róis de autores e obras, acompanhados de elogios desmarcados e impertinentes

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qualificativos. Não obstante o pregão patriótico, tais nomes e obras continuaram desconhecidos eles e elas não lidas.

Não quero cair no mesmo engano de supor que a crítica ou a história literária têm faculdades para dar vida e mérito ao que de si não tem. Igualmente não desejo continuar a fazer da história da nossa literatura um cemitério, enchendo-a de autores de todo mortos, alguns ao nascer. No período colonial haverá esta forçosamente de ocupar-se de sujeitos e obras de escasso ou até nenhum valor literário, como são quase todas as dessa época. Não sendo, porém, esse o

único da obra literária, nem o ponto de vista estético e só de que podemos fazer a história literária, cumpre do ponto de vista histórico, o mais legítimo no caso, apreciar autores e livros que, ainda àquela luz medíocres, têm qualquer importância como iniciadores, precursores, inspiradores ou até simples indículos de movimentos ou momentos

literários. É justamente naquele período de formação, o mais insignificante sob o aspecto estético, mas não o menos importante do ponto de vista histórico, que mais numerosos se nos depararão obras e indivíduos de todo mofinos.

Temos, porém, de contar com eles, pois nessa formação atuaram sequer com o seu exemplo e ajudaram a manter a

tradição literária da raça. No segundo período da constituição da literatura a que, sem maior impropriedade, já

podemos chamar de nacional, cumpre-nos ser ainda mais escassos em admitir tipos de insuficiente representação

literária. Cabe excluir-lhe da história, que deve ser a da literatura viva, indivíduos e obras que virtudes de ideação ou de expressão não assinalaram bastante para poderem continuar estimados além do seu tempo. Obras que apenas o

acompanharam, sem nele influírem ou se distinguirem, ou que nem ao menos lhe representam dignamente o espírito

e capacidade, ou ainda que não sejam a expressão de uma conspícua personalidade, apenas terão lugar à margem da

literatura e da sua história. Parece um critério, não infalível mas seguro, de escolha, a mesma escolha feita pela opinião mais esclarecida dos contemporâneos, confirmada pelo juízo da posteridade. Raríssimo é que esta seleção,

mesmo no Brasil, onde é lícito ter por menos alumiada a opinião pública, não seja ao cabo justa, e só os que lhe

resistem são dignos da história literária. Não pode esta, a pretexto de opiniões pessoais de quem a escreve,

desatender à seleção natural que o senso comum opera nas literaturas. Cumpre-lhe antes acatá-la se não tem

argumentos incontestáveis a opor-lhe. Em que pese à nossa pretensão de letrados, são os eleitos daquela opinião os que cabem na história da literatura, que não queira invadir o domínio da bibliografia nem merecer o reproche de

simplesmente impressionista.

A história da literatura brasileira é, no meu conceito, a história do que da nossa atividade literária sobrevive na nossa memória coletiva de nação. Como não cabem nela os nomes que não lograram viver além do seu tempo

também não cabem nomes que por mais ilustres que regionalmente sejam não conseguiram, ultrapassando as raias

das suas províncias, fazerem-se nacionais. Este conceito presidiu à redação desta história, embora com a largueza que as condições peculiares à nossa evolução literária impunham. Ainda nela entram muitos nomes que podiam sem

inconveniente ser omitidos, pois de fato bem pouco ou quase nada representam. Porém uma seleção mais rigorosa é

trabalho para o futuro.

Os elementos biográficos, necessários à melhor compreensão do autor e da sua época literária, como outros

dados cronológicos, são da maior importância para bem situar nestas obras e autores e indicar-lhes a ação e reação. A história literária deve, porém, antes ser a história daquelas do que destes. Obras e não livros, movimentos e

manifestações literárias sérias e conseqüentes, e não modas e rodas literárias, eiva das literaturas contemporâneas, são, a meu ver, o imediato objeto da história da literatura. Um livro pode constituir uma obra,6 vinte podem não fazê-

la. São obras e não livros, escritores e não meros autores que fazem e ilustram uma literatura. Em a nossa deparam-se-nos a cada passo sujeitos que sem vocação nem engenho literário, embora não de todo sem entendimento ou estro, produziram, geralmente em moços, um livro, um ou mais poemas ou outra pequena e não repetida obra literária.

Outros até a repetem em maior número de volumes. Mais que a vocação que não tinham, moveu-os a vaidade, a

presunção da notoriedade que a autoria dá ou quejando passageiro estímulo. No reinado de D. Pedro II, monarca

amador de letras e caroável aos letrados, por lhe armar à benevolência e patrocínio, foi comum fingirem-se muitos de amantes daquelas e as praticarem, mesmo assiduamente, mais porventura do que lhes pedia a vocação ou consentia o

talento. Alguma vez foi esse labor sincero, se bem que efeito de uma inspiração circunstancial e momentânea, que se não repetindo descobre-lhe a insuficiência. Tais autores esporádicos, amadores sem engenho nem capacidade

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literária, e tais obras casuais, produtos de uma inspiração fortuita ou interesseira, não pertencem à literatura e menos à sua história.

Seja qual for o nosso parecer sobre o valor da obra literária, isolada ou em relação com o seu meio e tempo,

prevalece a noção do senso comum que em todo caso ela precisa de virtudes de pensamento e de expressão com que

logre a estima e agrado geral. A que não as tiver é obra de nascença morta. As qualidades de expressão, porém, não são apenas atributos de forma sob o aspecto gramatical ou estilístico, senão virtudes mais singulares e subidas de íntima conexão entre o pensamento e o seu enunciado. Não é escritor senão o que tem alguma cousa interessante do

domínio das idéias a exprimir e sabe exprimi-la por escrito, de modo a lhe aumentar o interesse, a torná-lo

permanente e a dar aos leitores o prazer intelectual que a obra literária deve produzir.

Confesso haver hesitado na exposição da marcha da nossa literatura, se pelos gêneros literários, poesia épica,

lírica ou dramática, história, romance, eloqüência e que tais, consagrados pela retórica e pelo uso, ou se apenas cronologicamente, conforme a seqüência natural dos fatos literários. Ative-me afinal a este último alvitre menos por julgá-lo em absoluto o melhor que por se me antolhar o mais consentâneo com a evolução de uma literatura, como a

nossa, em que os fatos literários, mormente no período de sua formação, não são tais e tantos que lhes permitam a exposição e estudo conforme determinadas categorias. Nesse período e ainda no seguinte aqueles diferentes gêneros não apresentam bastante matéria à história, sem perigo desta derramar-se ociosamente. Ao contrário expor esses

fatos na ordem e segundo as circunstâncias em que eles se passam, as condições que os determinam e condicionam e

as feições características que afetam, parece fará mais inteligível a nossa evolução literária com a vantagem de

guardar maior respeito ao princípio da última unidade da literatura. Nesta, como na arte e na ciência, é conspícua a função do fator individual. Um escritor não pode ser bem entendido na sua obra e ação senão visto em conjunto, e

não repartido conforme os gêneros diversos em que provou o engenho.

Refugi também à praxe das citações mais ou menos extensas dos autores tratados, limitando-as a raros exemplos,

quando absolutamente indispensáveis à justificação de algum conceito. É possível, e até provável, que mais de um

deste livro se encontre e ajuste, com os de outrem. Apesar da diversidade proverbial dos gostos e da variedade das determinantes das nossas opiniões, não é infinita a capacidade de variação em assuntos dos quais o gosto individual não é mais o único juiz. Forçosamente hão de algumas vezes as nossas opiniões coincidir com alheias. O importante é que as minhas eu as tenha feito com estudo próprio e direto dos fatos e monumentos literários e isso protesto ter sempre feito. Muito presumido e tolo seria o escritor, máxime o historiador literário, que supusesse não dizer senão cousa de todo originais e inéditas ou poder evitar os infalíveis encontros de opiniões:

Il faut être ignorant comme un maître d’école

Pour se flatter de dire une seule parole

Que personne ici-bas n’ait pu dire avant vous.

Por motivos óbvios de discrição literária não se quisera este livro ocupar senão de mortos. Esta norma, porém,

era quase impossível segui-la na última fase da nossa literatura, vivendo ainda, como felizmente vivem, alguns dos principais representantes dos movimentos literários nela ocorridos; calar-lhes os nomes seria deixar suspensa a

história desses movimentos. Ainda assim apenas ocasionalmente, por amor de completar ou esclarecer a exposição,

se dirá de vivos.

Tal o espírito em que após mais de vinte e cinco anos de estudo da nossa literatura empreendo escrever-lhe a

história. Não me anima, em toda a sinceridade o digo, a presunção de encher nenhuma lacuna nem de prevalecer

contra o que do assunto há escrito, certamente com maior cabedal de saber e mais talento. Não há matéria que

dispense novos estudos. Existe sempre, em qualquer uma, lugar para outros labores. Não desconheço o que devo aos

meus beneméritos predecessores desde Varnhagen até o Sr. Sílvio Romero.

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Pela cópia, valia e influência de sua obra de investigação da nossa história literária, é aquele o verdadeiro

fundador da história da nossa literatura. Depois dele esta, em que pese à ingrata presunção em contrário, não fez mais que repeti-lo, ampliando-o. Cronologicamente, não o ignoro, o precederam, Cunha Barbosa, Norberto Silva,

Gonçalves de Magalhães, Pereira da Silva, Bouterwek, Sismonde de Sismondi e Ferdinand Denis.* Nenhum, porém,

fez investigações originais ou estudos acurados e alguns apenas se ocuparam da nossa literatura ocasional e

episodicamente. E todos, repito, até o advento de Varnhagen, a fizeram superficialmente, apenas repetindo parcas

noções hauridas em noticiadores portugueses, divagando retoricamente a respeito, sem nenhum ou com escasso

conhecimento pessoal da obra literária aqui feita. Decididamente o primeiro que o teve cabal foi Varnhagen.

Prestante e estimável como recolta de documentos da poesia brasileira, que sem ele se teriam talvez perdido, tem

somenos mérito como informação histórica o Parnaso Brasileiro, do Cônego Januário da Cunha Barbosa. Pereira da Silva nenhuma confiança e pouca estima merece como historiador literário. Nunca investigou seriamente coisa

alguma e está cheio de erros de fato e de apreciação já no seu tempo indesculpáveis. Magalhães apenas mostrou a sua ignorância do assunto, que não estudou, limitando-se a uma amplificação retórica. Depois de Varnhagen é Norberto

Silva o mais operoso, o mais seguro dos primitivos estudiosos da nossa literatura, cuja história projetou escrever. As suas numerosas contribuições para ela, infelizmente na maior parte avulsas e dispersas em prefácios, revistas e

jornais, são geralmente relevantes. Aproveitando inteligentemente o trabalho destes e de outras fontes de informação e as notícias e esclarecimentos pessoais de Magalhães e Porto Alegre, o austríaco Fernando Wolf publicou (Berlim, 1863) a sua ainda hoje muito estimável Histoire de la Littérature Brésilienne, a primeira narrativa sistemática e exposição completa, até aquela data, da nossa atividade literária, compreendendo o Romantismo. Trouxe-a até os

nossos dias o Sr. Dr. Sílvio Romero numa obra que quaisquer que sejam os seus defeitos não é menos um distinto

testemunho da nossa cultura literária no último quartel do século passado. A História da Literatura Brasileira do Sr.

Dr. Sílvio Romero é sobretudo valiosa por ser o primeiro quadro completo não só da nossa literatura mas de quase

todo o nosso trabalho intelectual e cultura geral, pelas idéias gerais e vistas filosóficas que na história da nossa literatura introduziu, e também pela influência excitante e estimulante que exerceu em a nossa atividade literária de 1880 para cá.

Com diverso conceito do que é literatura, e sem fazer praça de filosofia ou estética sistemática, aponta esta

apenas a fornecer aos que porventura se interessem pelo assunto uma noção tão exata e tão clara quanto em meu

poder estiver, do nosso progresso literário, correlacionado com a nossa evolução nacional. E foi feita, repito-o

desenganadamente, no estudo direto das fontes, que neste caso são as mesmas obras literárias, todas por mim lidas e estudadas, como aliás rigorosamente me cumpria.

Rio, 4 de dezembro de 1912.

José Veríssimo

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PERÍODO COLONIAL

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Capítulo I

A PRIMITIVA SOCIEDADE COLONIAL

O INÍCIO DA COLONIZAÇÃO do Brasil pelos portugueses coincidiu com a mais brilhante época da história deste

povo e particularmente com o mais notável período da sua atividade mental. É o século chamado áureo da sua língua e literatura, o século dos seus máximos prosadores e poetas, com Camões à frente.

Essa curta renascença geral e florescimento literário de Portugal não passou, porém, nem podia passar, à sua

grande colônia americana. Se aquela interessava à massa da nação, que lhe assistia às manifestações e experimentava os efeitos, esta apenas tocava o círculo estreito que ali, como então em toda a Europa, advertia em poetas e literatos.

Roda de fidalgo, de cortesãos, de eclesiásticos, dos quais, justamente os mais cultos, raríssimos se iam a conquistas e empresas ultramarinas. O grosso dos que se nelas metiam eram da multidão ignara que constituía a maioria da nação, o “vulgo vil sem nome” de que, com o seu desdém de fidalgo e letrado, fala o Camões, chefiados por barões apenas

menos incultos do que eles. Nem o empenho que os cá trazia lhes consentia outras preocupações que as puramente

materiais de a todo o transe assenhorearem a terra, lhe dominarem o gentio e aproveitarem a riqueza, exagerada pela sua mesma cobiça.

Não é, pois, de estranhar que em nenhum dos primeiros cronistas e noticiadores do Brasil, no primeiro e ainda no

segundo século da colonização, mesmo quando já havia manifestações literárias, se não encontre a menor referência ou alusão a qualquer forma de atividade mental aqui, a existência de um livro, de um estudioso ou cousa que o valha.

O padre Antônio Vieira, homem de letras como era, em toda a sua obra, abundante de notícias, referências e

informes do Brasil do século XVII, apenas uma vez, acidental e vagamente lhe alude à literatura. Foi quando,

escrevendo ao mordomo-mor do Reino, contou, jogando de vocábulo, que na Bahia, “sobre se tirarem as capas aos

homens (por decisão de um novo governador) têm dito mil lindezas os poetas, sendo maior a novidade deste ano

(1682) nestes engenhos do que nos de açúcar.”1

Entretanto no tempo de Vieira, a maior parte do século XVII, já no Brasil havia manifestações literárias no

medíocre poema de Bento Teixeira (1601) e nos poemas e prosas ainda então inéditas mas que circulariam em cópias

ou seriam conhecidas de ouvido, de seu próprio irmão Bernardo Vieira Ravasco, do padre Antônio de Sá, pregador,

de Eusébio de Matos e de seu irmão Gergório de Matos, o famoso satírico, de Botelho de Oliveira, sem falar nos que incógnitos escreviam relações, notícias e crônicas da terra, um Gabriel Soares (1587), um Frei Vicente do Salvador, cuja obra é de 1627, o ignorado autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil e outros de que há notícia.

Não trouxeram, pois, os portugueses para o Brasil algo do movimento literário que ia àquela data em sua pátria.

Mas evidentemente trouxeram a capacidade literária já ali desde o século XIII pelo menos revelada pela sua gente e que naquele em que aqui se começaram a estabelecer atingia ao seu apogeu. As suas primeiras preocupações de

ordem espiritual, que possamos verificar, produziram-se quase meio século após o descobrimento com a chegada dos

primeiros jesuítas em 1549, e sob a influência destes. As escolas de ler, escrever e contar, gramática latina, casos de consciência, doutrina cristã e mais tarde retórica e filosofia escolástica, logo abertas por esses padres nos seus

“colégios”, imediatamente à sua chegada fundados, foram a fonte donde promanou, no primeiro século, toda a

cultura brasileira e com ela os primeiros alentos da literatura.

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A terra achada “por tanta maneira graciosa” pelos seus descobridores, e que aos primeiros que a descreveram se

deparou magnifica, só muito mais tarde entrou a influir no ânimo dos seus filhos os incitamentos das suas

excelências. E isso de leve e de passagem, embora com repetições que fariam dessa impressão uma sensação

duradoura e característica em a nossa poesia.

A gente que a habitava, broncos selvagens sem sombra de literatura, e cujos mitos e lendas passaram de todo

despercebidos aos primeiros colonizadores e a seus imediatos descendentes, não podia de modo algum influir na

primitiva emoção poética brasileira. Só com o tempo e muito lentamente, pelo influxo de sua índole, do seu

temperamento, da sua idiossincrasia na gente resultante dos seus primeiros cruzamentos com os europeus, viria ela a atuar no sentimento brasileiro. Mas ainda por forma que ninguém pode, sem petulância ou inconsciência, gabar-se de discriminar e explicar. É da mesma natureza indireta, reflexa, imponderável, a influência que possa haver tido e que certamente teve no mesmo sentimento o elemento africano, que desde o primeiro século se caldeou com os

portugueses e o índio para a constituição do nosso povo. Ainda que o gentio selvagem, com quem entraram os

conquistadores em contato, tivesse uma poesia de forma métrica, o que é mais que duvidoso, não se descobre meio

de demonstrar não só que ela houvesse em tempo algum influído na inspiração dos nossos primeiros poetas, ou como

poderia ter influído. Absolutamente se não descobriu até hoje, mau grado as asseverações fantasistas e gratuitas em contrário, não diremos um testemunho, mas uma simples presunção que autorize a contar quer o índio, quer o negro, como fatores da nossa literatura. Apenas o teriam sido mui indiretamente como fatores da variedade étnica que é o brasileiro. Mas ainda assim a determinação com que cada um deles entrou para a formação da psique brasileira, e

portanto das suas emoções em forma literária, é impossível, se não nos queremos pagar de vagas palavras e conceitos especiosos. Há bons fundamentos para supor que os primeiros versejadores e prosistas brasileiros eram brancos

estremes, e até de boa procedência portuguesa. É, portanto, o português, com a sua civilização, com a sua cultura, com a sua língua e literatura já feita, e até com o seu sangue, o único fator certo, positivo e apreciável nas origens da nossa literatura. E o foi enquanto se não realizou o mestiçamento do país pelo cruzamento fisiológico e psicológico dos diversos elementos étnicos que aqui concorreram, do qual resultou o tipo brasileiro diferenciado por várias

feições físicas e morais do seu principal genitor, o português. Forçosamente lenta em fazer-se, e ainda mais em atuar espiritualmente, não podia esta mestiçagem haver influído na mente brasileira senão superficial, indefinida e

morosamente. Em todo caso as duas raças inferiores apenas influíram pela via indireta da mestiçagem e não com

quaisquer manifestações claras de ordem emotiva, como sem nenhum fundamento se lhes atribuiu.

A sociedade que aqui existiu no primeiro século da conquista e da colonização (1500-1600) e a que desta se foi

desenvolvendo pela sua multiplicação, logo aumentada pelo cruzamento com aquelas raças, era em suma a mesma de

Portugal nesse tempo, apenas com o amesquinhamento imposto pelo meio físico em que se encontrava. A todos os

respeitos nela predominava o português. Índios e negros eram apenas o instrumento indispensável ao seu propósito

de assenhorear e explorar a terra e à necessidade de sua preparação. Salvo exceções diminutas, esse português

pertencia às classes inferiores do Reino, e quando acontecia não lhes pertencer pela categoria social, era-o de fato pelas condições morais e econômicas. Soldados de aventura, fidalgos pobres e desqualificados, assoldadados de

donatários, capitães-mores e conquistadores, tratantes ávidos de novas mercancias, clérigos de nenhuma virtude,

gente suspeita à polícia da Metrópole, além de homiziados, de degradados, eram, em sua maioria, os componentes da sociedade portuguesa, para aqui transplantada. Os seus costumes dissolutos, a sua indisciplina moral e mau

comportamento social são o tema de acerbas queixas não só dos jesuítas, que acaso no seu rigor de moralistas

austeros lhes exageravam os defeitos, mas das autoridades régias dos cronistas e mais noticiadores. Justamente ao tempo da constituição das capitanias gerais a sociedade portuguesa tinha descido ao último grau de desmoralização e relaxamento de costumes.2 Um dos mais perspicazes observadores da primitiva sociedade colonial brasileira, o autor incógnito dos Diálogos das Grandezas do Brasil, explicando em 1618 por que apesar da abundância da terra era tanta a carestia das cousas de maior necessidade, atribui a culpa à negligência e pouca indústria dos moradores que todos não pensavam senão em voltar ao Reino sem cuidarem do adiantamento e futuro da mesma terra. “O Estado do

Brasil todo em geral, escreve ele no seu estilo ingenuamente vernáculo, se forma de cinco condições de gente a

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saber: marítima, que trata de suas navegações e vem aos portos das capitanias deste Estado com suas naus e

caravelas carregadas de fazendas que trazem por seu frete, aonde descarregam e adubam as suas naus e as tornam a

carregar, fazendo outra vez viagem com carga de açúcares, pau do Brasil e algodão para o Reino, e de gente desta

condição se acha, em qualquer tempo do ano, muita pelos portos das capitanias. A segunda condição de gente são os mercadores, que trazem do Reino as suas mercadorias a vender a esta terra, e comutar por açúcares, do que tiram

muito proveito; e daqui nasce haver muita gente dessa qualidade nela com as suas lojas de mercadorias abertas, e

tendo correspondência com outros mercadores do Reino que lhas mandam. Como o intento destes é fazerem-se

somente ricos pela mercancia, não tratam do aumento da terra, antes pretendem de a esfolarem tudo quanto podem.

A terceira condição de gente são oficiais mecânicos de que há muitos no Brasil de todas as artes, os quais procuram exercitar, fazendo seu proveito nelas, sem se lembrarem de nenhum modo do bem comum. A quarta condição de

gente é de homens que servem a outros por soldada que lhe dão, ocupando-se em encaixotamento de açúcar,

feitorizar canaviais de engenho e criarem gados, com nome de vaqueiros, servirem de carreiros e acompanharem

seus amos, e de semelhante gente há muita por todo este Estado, que não tem nenhum cuidado do bem geral. A

quinta condição é daqueles que tratam da lavoura e estes tais se dividem ainda em duas espécies: uma a dos que são mais ricos, têm engenhos com o título de senhores deles, nomes que lhes cede Sua Majestade e suas cartas e

provisões, e os demais têm partidos de canas; a outra, cujas forças não abrangem a tanto, se ocupam em lavrar

mantimentos, legumes, e todos, assim uns como os outros, fazem as suas lavouras e granjearias com escravos da

Guiné......; e como o de que vivem é somente do que granjeiam com os tais escravos, não lhes sofre o ânimo ocupar a nenhum deles em cousa que não seja tocante a lavoura, que professam de maneira que têm por tempo perdido o que

gastam em plantar uma árvore que lhes haja de dar fruto em dois ou três anos, por lhes parecer que é muita demora; porque se ajunta a isto o cuidar cada um deles que logo em breve tempo se hão de embarcar para o Reino, e não basta a desenganá-los desta opinião mil dificuldades que a olhos vistos lhe impedem podê-la fazer; por maneira que este pressuposto que têm todos em geral de se haverem de ir para o Reino com a cobiça de fazerem mais quatro pães de

açúcar, quatro covas de mantimentos, não há homem em todo este Estado que procure nem se disponha a plantar

árvores frutíferas nem fazer as benfeitorias das plantas que se fazem em Portugal e pelo conseguinte se não dispõem a fazerem criações de gado e outras, e se algum o faz é em muita pequena quantidade e tão pouca que a gasta toda

consigo mesmo e com a sua família. E daí resulta a carestia e falta destas coisas...”3

É o depoimento de uma testemunha de vista, inteligente, bem intencionada e insuspeita por sua nacionalidade,

sobre os elementos de que se ia formando a vida econômica da nova sociedade portuguesa na América, e a primeira

delegação do desapego à terra pelos seus mesmos povoadores, daquilo que um historiador nosso chamou

transoceanismo (Capistrano de Abreu). Ainda mesmo para a apreciação do presente, não perderam todo o interesse

estas suas observações, cuja exatidão aliás outros documentos contemporâneos confirmam.

Assim escreve no começo do século XVII o nosso historiador Frei Vicente do Salvador: “E deste modo se hão os

povoadores, os quais, por mais arraizados que na terra estejam e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a

Portugal, e se as fazendas e bem que possuem souberam falar também lhes houveram de ensinar a dizer como os

papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é Papagaio Real, para Portugal, porque tudo querem para lá. E

isto não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra não como

senhores mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída.”4

Não numera o autor do Diálogos nem os oficiais públicos da governança, nem a clerezia, nem os homens

d’armas da conquista e defesa da colônia. Eram a gente parasita sempre suspirosa por tornar à terra, sem nenhum

ânimo de ficada aqui. Oficiais e mecânicos e ainda somenos indivíduos, mal aqui chegados tornavam-se de uma

filáucia que deu na vista a mais de um observador. A escravidão exonerando-os de trabalhar e habituando-os a viver como no Reino viam viverem os fidalgos, insuflavam-se das fumaças destes. Brandônio, no terceiro Diálogo, observava ao seu interlocutor Alviano que a gente do Brasil era mais afidalgada do que ele imaginava, e aos seus

escravos incumbia todo o trabalho. Com estes informes devemos crer não andam muito longe da verdade os

noticiadores da corrupção que logo eivou a primitiva sociedade colonial brasileira.

20

O seu primeiro estabelecimento foi, com a única exceção de São Paulo, todo no litoral, à beira-mar. As suas vilas e cidades primitivas, desde São Vicente e Olinda até a do Salvador, enquanto não entraram a construir casas de

adobe à moda de Portugal, não se diferenciariam notavelmente das aldeias indígenas aqui encontradas, construídas

de paus toscos ou folhagens. E como ali continuariam a viver desconfortavelmente, incomodamente, sordidamente,

faltos de móveis, de alfaias e de asseio, segundo viviam os mesmos fidalgos e burgueses no Reino.5

As mulheres brancas eram raras, as donas e senhoras raríssimas. As famílias existentes na maior parte teriam

vindo constituídas de Portugal e muito poucas seriam. As formadas aqui, por motivo de escassez de mulheres

brancas, seriam ainda menos. As demais resultavam de uniões irregulares dos colonos com as suas negras, conforme

principiaram os portugueses a chamar às índias, ou do seu casamento com estas, como começou a acontecer por

influência dos jesuítas, e mais tarde foi acoroçoado pelo rei. As numerosas filhas ilegítimas ou legitimadas do

Caramuru casaram com fidalgos e soldados da conquista e seriam mamelucas ainda escuras, do primeiro sangue, e

umas broncas caboclas. Ao contrário do que passou na América inglesa, excetuando algum eclesiástico ou alto

funcionário, quase não veio para o Brasil nenhum reinol instruído, e ainda incluindo estes pode dizer-se que no

primeiro século da colonização não houve aqui algum representante da boa cultura européia dessa gloriosa era.

O mais antigo assento da primeira sociedade brasileira, que não desmereça o nome de civilizada, foi a capitania

de Pernambuco de Duarte Coelho. Este fidalgo da primeira nobreza portuguesa e ilustrado por bizarros feitos

militares na Índia desde 1534 se estabeleceu na sua capitania com a sua mulher, da casa dos Albuquerques, um

cunhado, outros fidalgos e cavaleiros de suas relações ou parentescos, e muitos colonos, os melhores talvez dos que nesses tempos vieram ao Brasil. A sua colônia foi a mais bem ordenada e a mais em governada de todas e a que mais prosperou. Mas mesmo aí não faltam testemunhos da descompostura dos costumes coloniais. Jerônimo de

Albuquerque, cunhado do austero donatário, quando casou de ordem da rainha escandalizada com a sua

libertinagem, fêz-se acompanhar de onze filhos naturais que tivera, uns da filha do tuxaua Arco Verde, outros de suas mancebas índias.6 A ordem e polícia material criada pela forte e esclarecida vontade de Duarte Coelho parece ter aí correspondido ao princípio da maior homogeneidade social, nos elementos mais coerentes da colonização e no maior

número e melhor qualidade dos primeiros colonos. Também as da terra favoreciam-lhe o aproveitamento, facilitando

ainda, com o seu adiantamento e a obra do seu donatário, pela maior proximidade do Reino e mais freqüentes e

rápidas comunicações com ele. Duarte Coelho não parece ter sido um fidalgo sem letras, e as apreciaria porque elas, com João de Barros, o tinham celebrado e a parentes seus por suas façanhas na Índia. Dois dos seus descendentes e sucessores na capitania-mor de Pernambuco foram homens de letras. Não admira, pois, que desta sociedade onde já

havia sociabilidade e luxo, saísse a mais antiga obra literária brasileira, a Prosopopéia, de Bento Teixeira, em 1601.

A fundação do governo-geral da Bahia e conseqüente centralização da vida colonial da cidade do Salvador,

expressamente fundada para esse efeito, criou na segunda metade do século XVI, quando justamente começava a

definhar a prosperidade de Pernambuco, a segunda sociedade menos grosseira que houve no Brasil. Não era tão

escolhida como a de Duarte Coelho a colônia trazida por Tomé de Sousa. Era, porém, mais numerosa e compunha-se

de mais variados e a certos respeitos mais prestáveis elementos de colonização, oficiais e mestres de ofícios,

mecânicos, técnicos, artesãos, além dos agricultores e obreiros comuns. Trouxe mais o governador-geral a primeira leva daqueles padres que iam ser o principal instrumento da civilização do país, como ela somente se podia fazer

aqui — os jesuítas. A cidade cresceu em número e importância de prédios e aumentou em população. Os jesuítas

fundaram colégio e outros religiosos conventos distribuindo todos instrução aos meninos portugueses e indígenas.

Ao redor da cidade fizeram-se engenhos. Todo o Recôncavo se foi povoando, contribuindo para o aumento de

Salvador, que se fazia uma pequena corte tão disparatada nos seus vários aspectos, costumes e vestuários, quanto o eram os elementos que a formavam: fidalgos, cavaleiros, funcionários, mecânicos, soldados, índios, negros, bem

trajados uns, maltrapilhos outros, seminus aqueles. Gibões de veludo e seda bordados de ouro e enfeites de penas à guisa de roupa. Muitos frades, padres em demasia.

Por divertimentos comuns, ou jogos ilícitos ou festas de igreja, e extraordinariamente touradas, cavalhadas,

canas. Soltura de costumes, viver desregrado, hábitos de ociosidade. Enfim a vida das sociedades coloniais

incipientes, compostas de elementos disparatados, e dispostos a desforrarem-se da disciplina e constrangimento das 21

metrópoles por uma vida à manga lassa. Procuravam conter-lhe os ímpetos e desmandos, aliás com pouca eficácia, o

governador e seus auxiliares e os padres, principalmente, a acreditá-los, os jesuítas, que aliás constantemente ralham contra esta sociedade. O decorrer dos tempos lhe não modificou consideravelmente a constituição política e moral.

Ela permaneceu essencialmente a mesma na sua feição étnica, na sua constituição fisiológica, como na sua formação psicológica, isto é, permaneceu portuguesa, ao menos até as guerras holandesas, na primeira metade do século XVII.

Por isso é que durante todo o período colonial, salvo algumas raras, mofinas e intermitentes manifestações de

nativismo, a literatura aqui é inteiramente portuguesa, de inspiração, de sentimento e de estilo. Não faz senão imitar inferiormente, sem variedade nem talento, a da mãe pátria. E milagre seria se assim não fosse.

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Capítulo II

PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS

OS VERSEJADORES

AS LITERATURAS COMEÇAM sempre por um livro, que freqüentemente não tem outro mérito que o da

prioridade. Literatura oral, como foi primeiramente a nossa, é apenas uma acepção particular, larga demais e abusiva desse vocábulo. Não importa que esse livro seja uma obra-prima ou sequer estimável; basta que tenha a intenção, o feitio e o caráter da obra literária. E que se lhe possa descobrir, ou mesmo emprestar, uma representação da

sociedade ou da vida que o produziu. Mas o só fato de ser o ponto de partida de uma literatura lhe marca na história dela um lugar irrecusável.

Qual foi o brasileiro que, quando ainda mal se esboçava aqui uma sociedade, escreveu e publicou uma obra

literária?

Há várias e incertas notícias de uma crônica escrita em Pernambuco talvez antes do século de 600. Seria

porventura o primeiro escrito feito no Brasil. Sobre se não saber nada a seu respeito, nem do seu autor, sequer se era brasileiro, é duvidoso tivesse essa obra alguma importância para a história da nossa literatura. Mas

independentemente da sua existência e qualificação literária “foi Pernambuco o lugar em que abrolhou a flor literária em nossa pátria”.7

“Para este resultado — explana o insigne sabedor que o verificou — concorreu mais de um fator. Pernambuco

desenvolveu-se regularmente; Duarte Coelho desde o desembarque e empossamento da terra domou os índios, que

nunca mais fizeram-lhe frente com bom êxito; os colonos viram logo remunerados os seus labores; o solo era fértil; a vida fácil; a sociabilidade e o luxo consideráveis; a população branca em geral de origem comum (Viana)

apresentando menos elementos disparatados, mais depressa tendia à unificação; o sentimento característico do nosso século XVI — o desprezo e desgosto pela terra brasileira, o transoceanismo... ali primeiro arrefeceu. Acrescente-se a facilidade e freqüência de viagens à Europa, a conseqüente abundância de comodidades, cuja ausência algures

tornava o país detestado e detestável; o natural versar de livros históricos, como o de João de Barros, em que fulgiam os nomes de Albuquerque e Duarte Coelho, a tendência literária dos capitães-mores de terra... que escreveram

livros.”8

Em 1601 saía em Lisboa, da imprensa de Antônio Alvarez, um opúsculo de dezoito páginas, in-4º, trazendo no

alto da primeira do texto este título: Prosopopéia Dirigida a Jorge Dalbuquerque Coelho, Capitão, e Governador de Pernambuco, Nova Lusitana, etc. O nome do autor Bento Teyxeyra vinha, assim escrito, embaixo do Prólogo, no qual fazia ao seu herói o oferecimento da obra.

É um poema de noventa e quatro oitavas, em verso endecassílabo, sem divisão de cantos, nem numeração de

estrofes, cheio de reminiscências, imitações, arremedos e paródias dos Lusíadas. Não tem propriamente ação, e a prosopopéia donde tira o nome está numa fala de Proteu, profetizando post facto, os feitos e a fortuna,

exageradamente idealizados, dos Albuquerques, particularmente de Jorge, o terceiro donatário de Pernambuco, ao

qual é consagrado.

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Não tem mérito algum de inspiração, poesia ou forma. Afora a sua importância cronológica de primeira

produção literária publicada de um brasileiro, pouquíssimo valor tem. No meio da própria ruim literatura poética

portuguesa do tempo — aliás, a só atender à data em que possivelmente foi este poema escrito, a melhor época dessa literatura — não se elevaria este acima da multidão de maus poetas iguais.

O poeta ou era de si medíocre, ou bem novo e inexperiente quando o escreveu. Confessa aliás no seu Prólogo, já

gongórico antes do gongorismo (tanto o vício é da nossa raça) que eram as suas “primeiras primícias”. Não se sabe se veio a dar fruto mais sazonado. Nos seus setecentos e cinqüenta e dois versos apenas haverá algum notável, pela idéia ou pela forma. São na maioria prosaicos, como banais são os seus conceitos. A língua não tem a distinção ou relevo, e o estilo traz já todos os defeitos que maculam o pior estilo poético do tempo, e seriam os distintivos da má poesia portuguesa do século seguinte, o vazio ou o afetado da idéia e a penúria do sentimento poético, cujo realce se procurava com efeitos mitológicos e reminiscências clássicas, impróprios e incongruentes, sem sombra do gênio com que Camões, com sucesso único, restaurara esses recursos na poesia do seu tempo.

Conforme a regra clássica, começa o poema pela invocação. É de justiça reparar que começa com uma novidade,

a invocação é desta vez dirigida ao Deus dos cristãos. Além do Deus, invoca a Jorge de Albuquerque “o sublime

Jorge em que se esmalta a estirpe de Albuquerque excelente” com versos diretamente imitados do Lusíadas. A memória fresca do poema de Camões está por todo o poema do nosso patrício, em que não há só reminiscências,

influências mas versos imitados, parodiados, alguns quase integralmente transcritos, e ainda alusões à grande epopéia portuguesa. Nada porém comparável ao gênio criador com que Camões soube imitar e superar os seus modelos.

Depois da invocação preceitual segue-se no poema de Bento Teixeira, como também era de regra, a “narração”

expressamente designada do livro.

A ação do poema é falada ou narrada. Proteu a diz de sobre o recife de Pernambuco. Seis estrofes o descrevem,

de um modo insípido, pura e secamente topográfico:

Para a parte do sul onde a pequena

Ursa, se vê de guardas rodeada,

Onde o Céu luminoso mais serena,

Tem sua influição, e temperada.

Junto da nova Lusitânia ordena,

A natureza, mãe, bem atentada,

Um porto tam quieto e tam seguro,

Que pera as curvas naus serve de muro.

E assim por diante sem nada que lhe eleve o tom até à poesia.

Dali, por ordem de Netuno, profetiza Proteu, num largo canto em louvor dos Albuquerques e nomeadamente de

Jorge, a quem se endereça esta prosopopéia. Vê Proteu

A opulenta Olinda florescente

Chegar ao cume do supremo estado

Será de fera e belicosa gente

O seu largo distrito povoado

Por nome terá, Nova Lusitânia,

Das leis isenta da fatal insônia.

Esta Lusitânia será governada por Duarte Pacheco “o grão Duarte” que o poeta, pela voz de Proteu, compara a

Enéias, a Públio Cipião, a Nestor e a Fábio. E tudo o que até então tinha passado com os Pachecos e Albuquerques, já celebrados por Camões, ocorre a Proteu que o profetiza posteriormente desmedindo-se no louvor e encarecimento.

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Acaba o poema pouco originalmente, com as despedidas do poeta, repetindo a promessa de voltar com um novo

canto,

Por tal modo que cause ao mundo espanto.

Jorge de Albuquerque Coelho, o motivo senão o herói deste poema, era filho de Duarte Coelho, primeiro

donatário de Pernambuco, onde Jorge nasceu, em Olinda, em 1539. O enfático padre Loreto Couto9, falando dele

como de sujeito verdadeiramente extraordinário, assevera que “ainda que Pernambuco não tivera produzido outro

filho bastaria este para a sua imortal glória”. E mais, que “foi este insigne pernambucano um daqueles espíritos raros para cuja produção tarda séculos inteiros a natureza, pois à sua rara virtude e insigne valor, acrescentou uma erudição rara e conhecimento das letras humanas”.

Uma e outro não teriam sido adquiridos no Brasil. Se são exatas, como parece, as notícias de Jaboatão,10 Jorge

Albuquerque criou-se em Portugal, onde aos 14 anos se achava. Com 20 voltou a Pernambuco, donde tornou ao

Reino, em 1555, aos 26 anos, após a sua brilhante campanha contra os índios da capitania. Nesta viagem para

Portugal sofreu o naufrágio célebre da nau Santo Antônio que o levava, cuja relação, escrita pelo piloto Afonso Luís e reformada por Antônio de Castro, foi atribuída a Bento Teixeira.11 Em Portugal “foi de todos aplaudido de

cortesão, generoso, discreto, liberal, afável e modesto”.12 Em suma, se havemos de crer os seus panegiristas mais próximos dele e os que os copiaram, teria sido um portento de gentilezas guerreiras e de virtudes civis.

Poemas como a Prosopopéia do nosso patrício, que este herói motivou, em tudo medíocre, endereçados a

potentados e magnates, armando-lhes à benevolência e proteção, eram freqüentíssimos e superabundavam na

bibliografia da época.

Em todos os tempos poetas e literatos foram inclinadíssimos à bajulação dos poderosos. Casando-se geralmente

pouco o seu gênio com o árduo de uma existência de trabalho e esforço próprio, e amando sobretudo os lazeres da

vida ociosa, propícios às suas invenções e imaginações, para o haverem sacrificam de boa mente à vaidade dos

grandes dos quais sem mais fadiga que a de contá-los e louvá-los, esperam lucrar tais ócios, muito seus queridos.

Igualmente caroáveis da grandeza, pompa e luxo desses magnates, com os quais facilmente se embevecem, à

satisfação desse gosto imolam brios e melindres. Em Portugal tais poetas e literatos faziam até parte da

domesticidade da corte ou das grandes casas fidalgas e ricas, que os aposentavam e pensionavam, em troca dos

poemas e escrituras com que infalivelmente celebravam a família em cada um dos seus sucessos domésticos,

nascimentos, casamentos, mortes, façanhas guerreiras, vantagens sociais obtidas, aniversários. Como havia destes

poetas efetivos, privados, caseiros, os havia também ocasionais, mas não menos prontos ao louvor hiperbólico, à

lisonja enfática, à bajulação rasteira, em câmbio da proteção solicitada ou em paga de alguma graça obtida. Na

sociedade de então o homem de letras, ainda sem público que o pudesse manter, e até forçado e apenas muito

limitadamente exercer a sua atividade, quase só dos principais pelo poderio e riqueza, que acaso lhes estimassem as prendas sem os estimar a eles, podia viver. Freqüentemente eram estes que lhe mandavam imprimir as obras, que

sem tais patronos dificilmente achariam editores. Tais costumes, explicáveis e porventura desculpáveis pelas

condições do tempo, passaram naturalmente do Reino à sua colônia da América, onde os vice-reis, governadores e

capitães-generais e mores faziam de reis pequenos, e os fazendeiros, senhores de engenho e outros magnates locais substituíram e arremedavam os grãos-senhores da Metrópole. Tanto passaram que desde as suas primeiras

manifestações, a poesia, e depois toda a espécie de literatura, inspirou-se grandemente aqui daqueles motivos, e foi consideravelmente áulica. Aulicismo, arcadismo, gongorismo foram sempre aliás traços característicos das letras

portuguesas.

Quer em Portugal, quer no Brasil duraram estes costumes até o século XVIII. Não sei aliás se é possível dizer

estejam de todo extintos. Mais certo será tenham antes variado e se transformado do que desaparecido