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História da Sexualidade III - O Cuidado de Si por Michel Foucault - Versão HTML

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MICHEL FOUCAULT

HISTÓRIA DA

SEXUALIDADE III

O CUIDADO DE SI

Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque

Revisão técnica de José Augusto Guilhon Albuquerque

Edições Graal - 5a Reimpressão

BIBLIOTECA DE FILOSOFIA E HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS Vol. n.° 17

MICHEL FOUCAULT

Coordenadores:

J. A. Guilhon de Albuquerque e Roberto Machado

Composição: Linoart Ltda.

Traduzido do original francês:

Histoire de la Sexualité 3: LE SOUCI DE SOI

© Editions Gallimard 1984

Direitos adquiridos para a língua portuguesa por: EDIÇÕES GRAAL LTDA.

Rua Hermenegildo de Barros, 31-A - Glória - Rio - RJ. CEP 2024 - Tel.: 252-8582 Atendemos pelo Reembolso

Postal.

l.a edição: 1985

Capa: Fernanda Gomes Henrique Tarmapolsky

Revisão tipográfica: Humberto Figueiredo Pinto Produção Gráfica: Orlando Fernandes

Impresso no Brasil/Printed in Brasil.

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Focault, Michel, 1926-1984.

F86h

História da sexualidade, 3 : o cuidado de si / Michel Focault ;

; tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque

; revisão técnica de José Augusto Guilhon Albuquerque.

— Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.

(Biblioteca de Filosofia e história das ciências ; v. n. 16).

Tradução de: Histoire de la sexualité Bibliografia

1. Sexualidade — História 2. Sexualidade — Teoria I. Albuquerque, Maria Thereza da Costa II. Título III.

Título: O Cuidado de si.

85-0158

CDD — 301.4179 301.41701

SUMÁRIO

I - SONHAR COM OS PRÓPRIOS PRAZERES ...............................................................5

1 - O MÉTODO DE ARTEMIDORO .............................................................................5

2- A ANÁLISE ..............................................................................................................16

3 - O SONHO E O ATO ................................................................................................22

II - A CULTURA DE SI ....................................................................................................31

III - EU E OS OUTROS ....................................................................................................56

1 - O PAPEL MATRIMONIAL ....................................................................................56

2 - O JOGO POLÍTICO .................................................................................................64

IV - O CORPO...................................................................................................................76

1 - GALENO..................................................................................................................80

2 - SERIAM ELES BONS, SERIAM MAUS?..............................................................85

3 - O REGIME DOS PRAZERES .................................................................................94

4 - O TRABALHO DA ALMA ...................................................................................101

V - A MULHER ..............................................................................................................111

1 - O VÍNCULO CONJUGAL ....................................................................................113

2- A QUESTÃO DO MONOPÓLIO ...........................................................................124

3 - OS PRAZERES DO CASAMENTO......................................................................133

VI - OS RAPAZES ..........................................................................................................142

1 - PLUTARCO ...........................................................................................................145

2 - LUCIANO ..............................................................................................................159

3 - UMA NOVA ERÓTICA ........................................................................................172

CONCLUSÃO .................................................................................................................176

ÍNDICE DOS TEXTOS CITADOS.................................................................................180

AUTORES ANTIGOS.................................................................................................180

AUTORES MODERNOS............................................................................................184

I - SONHAR COM OS PRÓPRIOS PRAZERES

1. COMEÇAREI pela análise de um texto bastante singular. Trata-se de uma

obra de "prática" e de vida cotidiana; não é um texto de reflexão ou de

prescrição moral. Trata-se do único texto, dentre os que permaneceram dessa

época, que apresenta uma exposição um tanto sistemática das diferentes formas

possíveis de atos sexuais; ele não estabelece, em geral, de maneira direta e

explícita, julgamentos morais a respeito desses atos; mas mostra esquemas de

apreciação geralmente aceitos. E pode-se constatar que esses esquemas são

bem próximos dos princípios gerais que já organizavam, na época clássica, a

experiência moral dos aphrodisia. O livro de Artemidoro constitui, portanto, uma

referência. Ele é testemunho de uma perenidade. E atesta uma forma corrente

de pensar. Por isso, permitirá medir o que, na mesma época, o trabalho da

reflexão filosófica ou médica sobre os prazeres e sobre a conduta sexual pôde

ter de singular e de parcialmente novo.

1 - O MÉTODO DE ARTEMIDORO

A Chave dos sonhos de Artemidoro é o único texto que nos resta, em sua

íntegra, de uma literatura que foi abundante na Antigüidade: a da onirocricia. O

próprio Artemidoro, que escreve no século II d.C, cita várias obras (algumas já

antigas) que estavam em uso na sua época: as de Nicóstrato de Éfeso1 e de

Paníasis de Halicarnasso2; a de Apolodoro de Telmessos3; as de Febo de

Antióquia4, de Dênis de Heliópolis5, do naturalista Alexandre de Mindos6; ele

menciona com elogio Aristandro de Telmessos7; e também se refere aos três

1 ARTÉMIDORE, La clef des songes (trad. A.-J. Festugière), I, 2.

2 Ibid., I, 2; I, 64; II, 35.

3 Ibid., I, 79.

4 Ibid., I, 2; II, 9; IV, 48; IV, 66.

5 Ibid., II, 66.

6 Ibid., I, 67; II, 9; II, 66.

7 Ibid., I, 31; IV, 23, IV, 24.

livros do tratado de Gemino de Tiro, aos cinco livros de Demétrio de Falero e aos

vinte e dois livros de Artemão de Mileto8.

Ao dedicar sua obra a um certo Cassius Maximus — talvez Máximo de

Tiro, ou seu pai9, que o teria conjurado a "não deixar que sua ciência caísse no

esquecimento" — Artemidoro afirma que não teve "nenhuma outra atividade" a

não ser a de ocupar-se "sem interrupção, noite e dia", com a interpretação dos

sonhos10. Afirmação enfática bem habitual nessa espécie de apresentação?

Talvez. De todo modo Artemidoro fez outra coisa do que compilar os mais

célebres exemplos dos presságios oníricos confirmados pela realidade. Ele

empreendeu a redação de uma obra de método, e isto em dois sentidos: deveria

ser um manual utilizável na prática cotidiana; e também um tratado de alcance

teórico sobre a validade dos procedimentos interpretativos.

Não se deve esquecer que a análise dos sonhos fazia parte das técnicas de

existência. Já que as imagens do sono eram consideradas, pelo menos algumas

dessas imagens, como signos de realidade ou mensagens do futuro, decifrá-las

tinha um grande valor: uma vida racional não podia poupar-se dessa tarefa. Isto

constituía uma bem antiga tradição popular; e também um hábito aceito nos

meios cultivados. Embora fosse necessário dirigir-se aos inúmeros profissionais

das imagens da noite, também era bom poder interpretar por si próprio os

signos. São inúmeros os testemunhos da importância atribuída à análise dos

sonhos como prática de vida, não somente indispensável nas grandes

circunstâncias como no decurso cotidiano das coisas. É porque os deuses, no

sonho, dão conselhos, opiniões e às vezes ordens expressas. Entretanto, mesmo

quando o sonho nada mais faz do que anunciar um acontecimento sem nada

prescrever, mesmo quando se supõe que o encadeamento do futuro é

inevitável, é bom conhecer antecipadamente o que deve acontecer para poder

preparar-se: "A divindade, diz Aquiles Tácio em As aventuras de Leucipeu e

Clitofonte, se apraz freqüentemente em revelar em sonho o futuro aos homens

— não para que assim eles evitem a infelicidade, pois ninguém pode ser mais

forte do que o Destino, mas para que suportem mais facilmente seu sofrimento.

Já que o que surge bruscamente, e ao mesmo tempo sem que se espere,

desorganiza o espírito sob a brutalidade do golpe e o submerge; ao passo que

aquilo que foi esperado antes de ser sofrido pode, por meio da habituação

gradual, atenuar a dor"11. Mais tarde, Sinésio traduzirá um ponto de vista bem

8 Ibid., I, 2; II, 44.

9 Cf„ A.-J. FESTUGIÈRE, Introduction à tradução francesa, p. 9; e C. A. BEHR, Aelius Arisíides and the Sacied

Tales, p. 181 sq.

10 ARTÉMIDORE, Clef des songes, II, conclusão.

11 ACHILLE TATIUS, Leucippé et Clitophon, I, 3.

tradicional quando lembrar que nossos sonhos constituem um oráculo que

"mora conosco", que nos acompanha "em nossas viagens, na guerra, nas

funções públicas, nos trabalhos agrícolas, nos empreendimentos comerciais"; é

preciso considerar o sonho como "um profeta sempre pronto, um conselheiro

incansável e silencioso"; devemos todos, portanto, aplicar-nos em interpretar

nossos sonhos quem quer que sejamos, "homens e mulheres, jovens e velhos,

ricos e pobres, cidadãos privados e magistrados, habitantes da cidade e do

campo, artesãos e oradores", sem privilégio "de sexo, de idade, nem de fortuna

e de profissão"12, É com esse espírito que Artemidoro escreve A Chave dos

sonhos.

O essencial para ele é indicar, detalhadamente, ao leitor uma maneira de

proceder: como fazer para decompor um sonho em elementos e estabelecer o

seu sentido diagnóstico? Como proceder também para interpretar o todo a

partir desses elementos e ter em conta esse todo na decifração de cada uma das

partes? É significativa a comparação que faz Artemidoro com a técnica

divinatória dos sacrificadores: também eles, "de todos os signos tomados um a

um, sabem a que cada um se relaciona"; no entanto, eles "lhes dão explicações

segundo o todo tanto quanto segundo as partes".13 Trata-se, portanto, de um

tratado para interpretar. Quase que inteiramente centrado, não nas maravilhas

proféticas dos sonhos, mas na techne que permite fazê-los falar corretamente, a

obra se dirige a várias categorias de leitores. Artemidoro quer propor um

instrumento aos técnicos da análise e aos profissionais; é a esperança que ele faz

luzir aos olhos de seu filho, destinatário do 4.° e 5.° livros: se "conservar a obra

sobre sua mesa" e a guardar para si, tornar-se-á "um intérprete dos sonhos

melhor do que todos os outros"14. Quer igualmente ajudar àqueles que,

decepcionados com os métodos errôneos que teriam experimentado, seriam

tentados a se afastar dessa prática tão preciosa: contra esses erros, o livro será

como que uma medicação salutar — therapeia soteriodes15. Mas Artemidoro

pensa também no "qualquer um" dentre os leitores que necessitam de uma

instrução rudimentar16. De todo modo é como manual de vida que ele quis

apresentá-lo, como instrumento utilizável no decorrer da existência e de suas

circunstâncias: quis impor às suas análises "a mesma ordem e a mesma

seqüência que as da própria vida".

12 SYNÉSIOS, Sur les songes, trad. Druon, 15-16.

13 ARTÉMIDORE, Clef des songes, I, 12 e III, conclusão.

14 Ibid., IV, prefácio.

15 Ibid., dedicatória.

16 Ibid., III, conclusão.

Esse caráter de "manual para a vida cotidiana" é muito sensível quando se

compara o texto de Artemidoro com os Discursos de Aristides — valetudinário

ansioso que passou anos à escuta do deus que lhe enviava sonhos, ao longo das

peripécias extraordinárias de sua doença e dos inúmeros tratamentos que fazia.

Nota-se que em Artemidoro quase não há lugar para o extraordinário de

natureza religiosa; diferentemente de muitos outros textos desse gênero, a obra

de Artemidoro não depende de práticas de terapia cultuai, mesmo se ele evoca,

numa fórmula tradicional, o Apoio de Daldis, "o deus de sua pátria", que o

encorajou e que, ao vir à beira de seu leito, "deu-lhe quase que uma ordem para

escrever esse livro"17. Aliás ele toma cuidado em marcar a diferença entre seu

trabalho e o dos onirócritos como Gemino de Tiro, Demétrio de Falero e

Artemão de Mileto, que consignaram prescrições e curas dadas por Serápis18. O

sonhador tipo ao qual Artemidoro se dirige não é um devoto inquieto que se

preocupa com injunções dadas do alto. É um indivíduo "comum": na maior parte

do tempo um homem (os sonhos das mulheres são indicados de forma

adjacente, como variantes possíveis onde o sexo do sujeito vem modificar o

sentido do sonho); um homem que tem uma família, bens e freqüentemente um

trabalho (mantém um comércio, tem uma loja); freqüentemente tem serviçais e

escravos (mas o caso de não tê-los é enfocado). E seus cuidados principais dizem

respeito, além de sua saúde, à vida e à morte de seus próximos, ao sucesso de

seus empreendimentos, seu enriquecimento, seu empobrecimento, o

casamento de seus filhos e os encargos a serem eventualmente exercidos na

cidade. Em suma, uma clientela média. O texto de Artemidoro é revelador de um

modo de existência e de um tipo de preocupações próprias às pessoas comuns.

Mas a obra contém também uma articulação teórica que Artemidoro

evoca na dedicatória a Cássius: ele quer refutar os adversários da oniromancia;

quer convencer os céticos que não crêem em todas essas formas de adivinhação

pelas quais se tenta decifrar os signos anunciadores do futuro. Artemidoro

procura estabelecer suas certezas não tanto através de uma exposição nua dos

resultados, mas sim por meio de um procedimento refletido de inquérito e

através de uma discussão de método.

Não pretende dispensar textos anteriores; cuidou de lê-los; mas não para

recopiá-los como se faz freqüentemente; o que o atrai no "já dito" é a

experiência em sua amplitude e variedade mais do que a autoridade

estabelecida. E essa experiência ele foi buscá-la, não em alguns grandes autores

mas, lá onde ela se forma. Artemidoro se orgulha — ele o diz na dedicatória a

17 Ibid., II, conclusão.

18 Ibid., II, 44.

Cássius Maximus e o repete em seguida — da amplitude de seu inquérito. Não

somente colecionou inúmeras obras como também percorreu pacientemente as

lojas dos leitores de sonhos e dos dizedores do futuro nas encruzilhadas do

mundo mediterrâneo. "Para mim, não somente não existe livro de onirocricia

que não tenha adquirido, realizando para isso grande pesquisa, como ainda,

apesar dos adivinhadores da praça pública serem fortemente desacreditados,

eles, que são chamados de charlatães, impostores e bufões pelas pessoas de ar

grave e que franzem a testa, desprezando esse descrédito mantive comércio

com eles durante um grande número de anos, suportando escutar velhos sonhos

e suas realizações na Grécia, nas cidades, nas panegirias, e na Ásia, e na Itália, e

nas mais importantes e mais povoadas ilhas: de fato, não havia outra forma para

ficar bem exercitado nessa disciplina"19. Entretanto, de tudo o que relata,

Artemidoro não quer transmiti-lo tal qual, mas submetê-lo a "experiência"

(peira) que é para ele o "cânon" e o "testemunho" de tudo o que diz20. E com

isso é preciso entender que ele controlará as informações às quais se refere por

meio de aproximações com outras fontes, por meio de um confronto com sua

própria prática e do trabalho do raciocínio e da demonstração: assim, nada será

dito "no ar", nem por "simples conjectura". Reconhece-se os procedimentos de

inquérito, as noções — como as de historia, as de peira —, as formas de controle

e de "verificação" que caracterizavam nessa época, sob a influência mais ou

menos direta do pensamento cético, as coletas do saber efetuadas na ordem da

história natural ou da medicina21. O texto de Artemidoro oferece a vantagem

considerável de apresentar uma reflexão elaborada sobre uma vasta

documentação tradicional.

Não se trata, num tal documento, de ir buscar as formulações de uma

moral austera ou o surgimento de novas exigências em matéria de conduta,

sexual; ele oferece antes de mais nada indicações sobre modos de apreciação

corrente e atitudes geralmente aceitas. A reflexão filosófica não está,

certamente, ausente desse texto e nele se encontram referências bastante claras

a problemas e debates contemporâneos; mas elas dizem respeito aos

procedimentos de decifração e ao método de análise, e não aos julgamentos de

valor e aos conteúdos morais. O material de que tratam as interpretações, os

cenários oníricos a que se referem, como presságio, as situações e os

acontecimentos que anunciam, pertencem a uma paisagem comum e

19 Ibid., dedicatória.

20 Ibid,, II, conclusão.

21 R. J. White, em sua introdução à edição inglesa de Artemidoro, sublinha vários traços da influência empirista e

cética sobre Artemidoro. Entretanto, A, H. M. KESSELS ("Ancient Systems of Dream Classification", Mnemo-

suné, 1969, p. 391) afirma que Artemidoro nada mais era do que um prático que somente interpretava o sonho

que cotidianamente tratava.

tradicional. Pode-se, portanto, pedir a esse texto de Artemidoro para dar

testemunho sobre uma tradição moral bastante difundida e sem dúvida bastante

ancorada na Antigüidade. Mas é preciso ainda ter em mente que, apesar do

texto ser abundante em detalhes e apresentar com relação aos sonhos um

quadro de diferentes atos e relações sexuais possíveis, de uma forma mais

sistemática do que qualquer outra obra da mesma época, ele não é de modo

algum um tratado de moral que teria como objetivo principal formular

julgamentos sobre esses atos e essas relações. É somente de modo indireto que

se pode ver, através da decifração dos sonhos, as apreciações que são feitas

sobre os cenários e os atos que neles são representados. Os princípios de uma

moral não são propostos por eles mesmos; pode-se somente reconhecê-los

através dos próprios desenvolvimentos da análise: ao interpretar as

interpretações. O que implica deter-nos por um momento nos procedimentos de

decifração que Artemidoro emprega, de modo a poder em seguida decifrar a

moral que está subjacente às análises dos sonhos sexuais.

1. Artemidoro distingue duas formas de visões noturnas. Existem os

sonhos* — enupnia; eles traduzem os afetos atuais do sujeito, aqueles que

"acompanham a alma em sua trajetória": se está enamorado, deseja-se a

presença do objeto amado, sonha-se que ele está lá; se está privado de

alimento, experimenta-se a necessidade de comer, sonha-se que se está

alimentando; ou ainda "aquele que está demasiado cheio de comida sonha que

vomita ou que sufoca"22; aquele que tem medo de seus inimigos sonha que estes

estão à sua volta. Essa forma de sonho tem um valor diagnóstico simples: ela se

estabelece na atualidade (do presente para o presente); ela manifesta para o

sujeito que dorme o seu próprio estado; traduz o que, na ordem do corpo, é

falta ou excesso, e o que, na ordem da alma, é medo ou desejo.

Diferentes são os sonhos** oneiroi. Sua natureza e função, Artemidoro as

descobre facilmente nas três "etimologias" que propõe. O oneiros é o que to

oneirei, "o que diz o ser"; ele diz o que já é, no encadeamento do tempo, e se

produzirá como acontecimento num futuro mais ou menos próximo. Ele também

é o que age sobre a alma e que a excita — oreinei; o sonho modifica a alma,

amolda-a e a modela; coloca-a em disposições e provoca nela movimentos que

correspondem ao que lhe é mostrado. Reconhece-se, finalmente, nessa palavra

* N. do T.: em francês, rêve, que o Autor empregará diferentemente de songe.

22 ARTÉMIDORE, Clef des songes, I, 1.

** N. do T.: em francês, songe.

oneiros o nome do mendigo de ítaca, Iros, que levava as mensagens que lhe

eram confiadas23. Enupnion e oneiros se opõem, portanto, termo a termo. O

primeiro fala do indivíduo, o segundo dos acontecimentos do mundo; um deriva

dos estados do corpo e da alma, o outro antecipa o desenrolar da cadeia do

tempo; um manifesta o jogo do demais ou do demasiado pouco na ordem dos

apetites e das aversões; o outro assinala à alma e ao mesmo tempo amolda-a.

Por um lado, os sonhos do desejo dizem o real da alma em seu estado atual; por

outro, os sonhos do ser dizem o futuro do acontecimento na ordem do mundo.

Uma segunda clivagem introduz, em cada uma das duas categorias de

"visão noturna", uma outra forma de distinção: o que se mostra claramente, de

forma transparente, sem requerer decifração nem interpretação, e o que não se

dá a não ser de modo figurado e em imagens que dizem outra coisa do que sua

aparência primeira. Nos sonhos de estado, o desejo pode ser manifestado pela

presença facilmente reconhecível de seu objeto (vê-se em sonho a mulher que

se deseja); mas pode sê-lo também por uma outra imagem tendo um parentesco

mais ou menos longínquo com o objeto em questão. Diferença análoga nos

sonhos de acontecimento: alguns dentre eles designam diretamente, eles

próprios o mostrando, o que já existe sobre o modo de futuro: vê-se em sonho

afundar o navio no qual logo em seguida se irá naufragar; vê-se a si próprio

atingido pela arma com a qual se será ferido amanhã — tais são os sonhos ditos

"teoremáticos". Mas em outros casos, a relação da imagem com o

acontecimento é indireta: a imagem do navio que se desfaz sobre as rochas pode

significar não um naufrágio, nem mesmo uma desgraça, mas para o escravo que

tem esse sonho, sua próxima libertação; trata-se aí dos sonhos "alegóricos".

Ora, o jogo entre essas duas distinções coloca para o intérprete um

problema prático. Seja uma visão dada no sono: como reconhecer se se teve aí

um sonho de estado ou um sonho de acontecimento? Como determinar se a

imagem anuncia diretamente o que ela mostra ou se é preciso supor que ela é a

tradução de algo diferente? Ao evocar essa dificuldade nas primeiras páginas do

livro IV (escrito após os três primeiros), Artemidoro ressalta a importância

primordial que há em interrogar-se sobre o sujeito sonhador. É certo, explica ele,

que os sonhos de estado não poderiam se produzir nas almas "virtuosas"; estas,

com efeito, souberam dominar seus movimentos irracionais, portanto, suas

paixões — desejo ou medo: elas também sabem manter seus corpos no

equilíbrio entre a falta e o excesso; para elas, conseqüentemente, não há

perturbações, portanto não existem esses "sonhos" (enupnia) que devem ser

sempre compreendidos como manifestações de afetos. Aliás, é um tema bem

23 Ibid., I, 1. Cf. Odyssée, XVIII, 7.

freqüente nos moralistas o de que a virtude se marca pelo desaparecimento dos

sonhos que traduzem no sono os apetites ou os movimentos involuntários da

alma e do corpo. "Os sonhos do dormidor, dizia Sêneca, são tão tumultuados

como a sua jornada"24. Plutarco apoiava-se em Zenão para lembrar que é sinal

de progresso não mais sonhar que se tem prazer em ações desonestas. E

evocava esses sujeitos que possuem força suficiente quando estão acordados

para combater suas paixões e resistir-lhes, mas que, durante a noite,

"libertando-se das opiniões e das leis", não experimentam mais vergonha:

desperta-se neles, então, o que têm de imoral e de licencioso25.

Para Artemidoro, em todo caso, quando os sonhos de estado se produzem

eles podem tomar duas formas: na maior parte das pessoas, o desejo ou a

aversão se manifestam diretamente e sem se esconder; mas eles só se

manifestam por meio de signos naqueles que sabem interpretar seus próprios

sonhos; é porque suas almas lhes "pregam peças de modo mais artificioso".

Assim um homem sem experiência em matéria de onirocricia verá em sonho a

mulher que deseja ou a morte tão desejada de seu senhor. A alma desconfiada

ou hábil do perito recusará, de certa forma, manifestar-lhe o estado de desejo

no qual ele se encontra; recorrerá à artimanha e em conseqüência, em vez de

ver simplesmente a mulher que deseja, o sonhador verá a imagem de alguma

coisa que a designa: "um cavalo, um espelho, um navio, o mar, a fêmea de um

animal selvagem, uma roupa feminina". Artemidoro cita esse pintor de Corinto,

sem dúvida alma versada, que via em sonho o desabamento do teto de sua casa

e sua própria decapitação; poder-se-ia imaginar que havia ali o signo de um

acontecimento futuro; ora, tratava-se de um sonho de estado: o homem

desejava a morte de seu mestre — o qual, observa Artemidoro de passagem,

ainda está vivo26.

Quanto aos sonhos de acontecimentos, como distinguir aqueles que são

transparentes e "teoremáticos" daqueles que anunciam por via de alegoria um

acontecimento diferente daquilo que mostram? Se se deixar de lado as imagens

extraordinárias que, evidentemente, pedem uma interpretação, as que

anunciam claramente um acontecimento são logo sancionadas pela realidade: o

acontecimento lhes segue sem demora; o sonho teoremático abre-se sobre

aquilo que anuncia, não deixando à interpretação margem possível nem tempo

indispensável. Os sonhos alegóricos são, portanto, facilmente reconhecíveis pelo

fato de não serem seguidos de realização direta: é então que convém apreendê-

los para interpretá-los. Acrescentemos ainda que as almas virtuosas — as que

24 SÉNÈQUE, Lettres à Lucilius, 56, 6.

25 PLUTARQUE, Quomodo quis suos in virtute sentia! profectus, 12.

26 ARTÉMIDORE, Clef des songes, IV, prefácio.

não têm sonhos de estado mas somente sonhos de acontecimentos —

freqüentemente só conhecem as claras visões dos sonhos teoremáticos.

Artemidoro não precisa explicar esse privilégio: fazia parte da tradição admitir

que os deuses falavam diretamente às almas puras. Lembremo-nos de Platão na

República: "Quando ele apaziguou essas duas partes da alma [a do apetite e a da

cólera] e estimulou a terceira onde reside a sabedoria e que, enfim, ele se

entrega ao repouso, é nessas condições, tu o sabes, que melhor a alma atinge a

verdade"27, E no romance de Chariton de Afrodísias, no momento em que

Calírroe encontra enfim o termo de suas provações, e em que o seu longo

combate para conservar a virtude será recompensado, ela tem um sonho

"teoremático" que antecipa o fim do romance, e constitui, por parte da deusa

que a protege, presságio e promessa ao mesmo tempo: "Ela se vê ainda virgem

em Siracusa entrando no templo de Afrodite, .depois, no caminho de volta,

percebendo Chaireas e, em seguida, no dia do casamento, a cidade inteira

decorada com guirlandas e ela própria acompanhada de seu pai e de sua mãe

até à casa de seu noivo"28.

Construímos o seguinte quadro das relações estabelecidas por Artemidoro

entre os tipos de sonhos, suas maneiras de significar e os modos de ser do

sujeito:

Nas almas

Os sonhos de estado

Os sonhos de acontecimentos

virtuosas

Diretos

Por signos

Teoremáticos

Alegóricos

Nunca

Com a maior

freqüência

Nas almas

Peritas

Coma maior

Com a maior

comuns

freqüência

freqüência

Não peritas

Com a maior

freqüência

É a última divisória do quadro — a dos sonhos alegóricos de

acontecimentos, como os que se produzem nas almas comuns — que define o

campo de trabalho do onirocrítico. Aí a interpretação é possível já que não há

transparência da visão, mas utilização de uma imagem para dizer uma outra; aí a

interpretação é útil já que ela permite preparar-se para um acontecimento que

não é imediato.

27 PLATON, Republique, IX, 572 a-b.

28 CHARITON D'APHRODISIAS. Les Aventures de Chaeréas et de Callirhoé, V, 5.

2. A decifração da alegoria onírica se faz por meio da analogia. Artemidoro

insiste sobre isso várias vezes: a arte do onirocrítico repousa sobre a lei da

semelhança; ela opera por meio da "aproximação entre o semelhante e o

semelhante"29.

Artemidoro faz funcionar essa analogia em dois planos. Primeiro trata-se

da analogia de natureza entre a imagem do sonho e os elementos do futuro que

ela anuncia. Para detectar essa semelhança Artemidoro se serve de diferentes

meios: identidade qualitativa (sonhar com um mal-estar poderá significar o "mau

estado" futuro da saúde ou da fortuna; sonhar com lama significa que o corpo

será repleto de substâncias nocivas); identidade das palavras (o carneiro significa

o comando por causa do jogo entre krios-kreiori)30; parentesco simbólico (sonhar

com um leão é signo de vitória para o atleta; sonhar com tempestades é signo de

infortúnio); existência de uma crença, de um dito popular, de um tema

mitológico (o urso designa uma mulher por causa de Calisto, a Arcade)31;

pertinência também a uma mesma categoria da existência: é desse modo que o

casamento e a morte podem significar um ao outro no sonho, posto que os dois

são considerados como um telos, um fim (objetivo ou termo) para a vida32;

semelhança de práticas ("esposar uma virgem para um doente significa morte

porque todas as cerimônias que acompanham o casamento também

acompanham os funerais")33.

Existe também a analogia de valor, E aí está um ponto capital na medida

em que o onirocrítico tem por função determinar se os acontecimentos que

ocorrerão são favoráveis ou não. O campo do significado do sonho é na sua

totalidade marcado, no texto de Artemidoro, pela divisão, de modo binário,

entre o bom e o mau, o fasto e o nefasto, o feliz e o infeliz. Portanto, a questão é

a seguinte: de que maneira o ato que está representado no sonho pode

anunciar, com seu valor próprio, o acontecimento que se produzirá? O princípio

geral é simples. Um sonho contém um prognóstico favorável se o ato que ele

representa é ele mesmo bom. Mas como medir esse valor? Artemidoro propõe

seis critérios. O ato representado é conforme à natureza? É conforme à lei? É

conforme aos costumes? É conforme à techne — isto é, às regras e práticas que

possibilitam uma ação atingir seus objetivos? É ele conforme ao tempo (o que

quer dizer: será ele realizado no momento e nas circunstâncias que convém)? E

finalmente, quanto ao seu nome (tem ele um nome que em si mesmo é de bom

29 ARTÉMIDORE, op. cit., II, 25.

30 Ibid,, II, 12. Cf. a nota de A.-J. Festugière, p. 112.

31 Ibid., II, 12.

32 Ibid., II, 49 e 65.

33 Ibid., II, 65.

augúrio)? "É um princípio geral o de que todas as visões de sonho conformes à

natureza, à lei, aos costumes, à arte, ao nome ou ao tempo são de bom augúrio,

e o de que todas as visões contrárias são funestas e sem proveito"34. É claro que

Artemidoro acrescenta logo que esse princípio não é universal e que comporta

exceções. Pode haver uma espécie de inversão de valor. Certos sonhos que são

"bons por dentro" podem ser "maus por fora": o ato imaginado no sonho é

favorável (assim, sonhar que se está ceando com um deus, é em si mesmo

positivo), mas o acontecimento pressagiado é negativo (pois, se o deus é Cronos

acorrentado por seus filhos, a imagem significa que se irá para a prisão)35. Outros

sonhos são, ao contrário, "maus por dentro" e "bons por fora": um escravo

sonha que está na guerra; isso anuncia sua libertação porque um soldado não

pode ser escravo. Há, portanto, em torno dos signos e significados positivos ou

negativos, toda uma margem de variações possíveis. Não se trata de uma

incerteza que não poderia ser superada, mas de um campo complexo que

demanda que se leve em conta todos os aspectos da imagem sonhada assim

como a situação do sonhador.

Esse desvio um tanto longo, antes de abordar a análise dos sonhos sexuais

tal como Artemidoro a pratica, foi necessário para apreender o mecanismo das

interpretações; e para determinar de que maneira as apreciações morais dos

atos sexuais surgem na maneia dos sonhos que as representam. Seria

imprudente, com efeito, utilizar esse texto como um documento direto sobre o

valor dos atos sexuais e de sua legitimidade. Artemidoro não diz se é bom ou

não, moral ou imoral, cometer tal ato, mas se é bom ou mau, vantajoso ou

temível sonhar que se comete esse ato. Os princípios que se pode resgatar não

se dirigem, portanto, aos próprios atos mas ao autor, ou melhor, ao ator sexual

na medida em que cie representa, no cenário onírico, o autor do sonho e que ele

pressagia com isso o bem ou o mal que vai lhe acontecer. As duas grandes regras

da onirocricia — ou seja, que o sonho "diz o ser" e que o diz sob a forma da

analogia — funcionam aqui da seguinte maneira: o sonho diz o acontecimento, a

fortuna ou o infortúnio, a prosperidade ou a infelicidade que irão caracterizar no

real o modo de ser do sujeito, e o diz através de uma relação de analogia com o

modo de ser — bom ou mau, favorável ou desfavorável — do sujeito enquanto

ator no cenário sexual do sonho. Não devemos procurar nesse texto um código

daquilo que convém ou não fazer, mas sim o revelador dé uma ética do sujeito

que ainda existia correntemente na época de Artemidoro.

34 Ibid., IV, 2.

35 Ibid., I, 5.

2- A ANÁLISE

Artemidoro dedica quatro capítulos aos sonhos sexuais36 — aos quais é

preciso acrescentar muitas notações dispersas. Ele organiza sua análise em torno

da distinção entre três tipos de atos: aqueles que são conformes à lei (kata

nomon), aqueles que lhe são contrários (para nomon) e os que são contrários à

natureza (para phusirí). Divisão que está longe de ser clara: nenhum desses

termos é definido; não se sabe como as categorias indicadas se articulam, ou se

é preciso compreender o "antinatural" como uma subdivisão do "contra a lei";

certos atos aparecem em duas rubricas ao mesmo tempo. Não devemos supor

uma classificação rigorosa que repartiria cada ato sexual possível no campo do

legal ou do ilegal ou do antinatural. No entanto, se seguirmos esses

reagrupamentos em seus detalhes, eles deixam transparecer uma certa

inteligibilidade.

1. Consideremos inicialmente os atos "conformes à lei". Para o nosso olhar

retrospectivo esse capítulo parece misturar coisas bem diferentes: o adultério e

o casamento, a freqüentação de prostitutas, o recurso aos escravos da casa, a

masturbação de um serviçal. Deixemos por instante de lado a significação que

convém dar a essa noção de conformidade à lei. Na verdade, uma passagem

desse capítulo esclarece muito bem o desenrolar da análise. Artemidoro coloca,

em regra geral, que as mulheres são, nos sonhos, "as imagens das atividades que

devem caber ao sonhador. Portanto, qualquer que seja a mulher e qualquer que

seja a condição em que ela se encontre, é nessa condição que sua atividade

colocará o sonhador"37. É preciso compreender que o que determina para

Artemidoro o sentido prognóstico do sonho e, portanto, de uma certa maneira,

o valor moral do ato sonhado, é a condição do ou da parceira e não a própria

forma do ato. É preciso entender essa condição no sentido amplo: trata-se do

status social do "outro"; é o fato dele ser ou não casado, livre ou escravo; é o

fato dele ser jovem ou velho, rico ou pobre; é a sua profissão, é o lugar onde é

encontrado; é a posição que ele ocupa em relação com o sonhador (esposa,

amante, escravo, jovem protegido, etc). A partir daí pode-se compreender, sob a

sua desordem aparente, a maneira pela qual o texto se desenrola: ele segue a

ordem dos parceiros possíveis segundo seu status, seu vínculo com o sonhador,

o lugar onde este os encontra.

36 Cap. 77-80 da 1.ª parte.

37 Ibid., I, 78.

As três primeiras personagens evocadas pelo texto reproduzem a série

tradicional das três categorias de mulheres às quais pode-se ter acesso: a

esposa, a amante, a prostituta. Sonhar com ter uma relação com a própria

mulher é um signo favorável porque a esposa está em relação de analogia

natural com o ofício e a profissão; assim como nestes, exerce-se sobre ela uma

atividade reconhecida e legítima; dela, tira-se proveito assim como de uma

ocupação próspera; o prazer que se tem com o seu comércio anuncia o prazer

que se terá com os benefícios do ofício. Nenhuma diferença entre a mulher e a

amante. O caso das prostitutas' é diferente. A análise proposta por Artemidoro é

bem curiosa: a mulher em si mesma, enquanto objeto do qual se obtém prazer,

tem um valor positivo; e estas — que o vocabulário familiar chama às vezes de

"trabalhadoras" — estão aí para proporcionar esses prazeres e elas "se dão sem

nada recusar". Entretanto, existe "alguma vergonha" em freqüentar esse tipo de

mulheres — vergonha e também gastos; o que, sem dúvida, retira um pouco de

valor ao acontecimento anunciado pelo sonho que as representa. Mas é

sobretudo o lugar de prostituição que introduz um valor negativo: e por duas

razões, uma é de ordem lingüística: embora o bordel seja designado por um

termo que significa ateliê ou oficina (ergasterion) — o que implica significações

favoráveis — ele também é chamado de cemitério, "lugar para todo mundo",

"lugar comum". A outra refere-se a pontos que são freqüentemente evocados

também na ética sexual dos filósofos e dos médicos: o dispêndio em vão do

esperma, seu desperdício sem o benefício da descendência que a própria mulher

pode assegurar. Dupla razão pela qual, no sonho, ir com prostitutas pode

prognosticar a morte,

Como complemento da trilogia clássica, mulher-amante-prostituta,

Artemidoro evoca as mulheres de encontro. Nesse caso o sonho vale para o

futuro o que "vale" socialmente a mulher que ele representa: ela é rica, está

bem vestida, provida de jóias, ela consente? O sonho anuncia algo de vantajoso.

Se ela é velha, feia, pobre, se não se oferece por si mesma, o sonho é

desfavorável.

A casa oferece uma outra categoria de parceiros sexuais, os serviçais e os

escravos. Estamos na ordem da posse direta: não é por analogia que os escravos

remetem à riqueza; eles são parte integrante dessa riqueza. É evidente,

portanto, que o prazer que se tem em sonho com esse tipo de personagem

indica que se "obterá prazer com essas posses e que assim elas se tornarão

maiores e mais magníficas". Exerce-se um direito; tem-se proveito com os

próprios bens. Portanto sonhos favoráveis que realizam um status e uma

legitimidade. Pouco importa, é claro, o sexo do parceiro, moça ou rapaz, o

essencial é que se trate de um escravo. Em troca, Artemidoro ressalta uma

distinção importante: a que concerne à posição do sonhador no ato sexual; ele é

ativo ou passivo? Colocar-se "de baixo" do próprio serviçal, inverter, no sonho, a

hierarquia social é de mau augúrio; trata-se de um sinal de que se sofrerá, por

parte desse inferior, um dano ou então que se receberá seu desprezo. E

confirmando que não se trata aí de uma falta antinatural, mas de um golpe

contra as hierarquias sociais e de uma ameaça contra as relações justas de

forças, Artemidoro nota de passagem o valor igualmente negativo dos sonhos

onde o sonhador é possuído por um inimigo, ou por seu próprio irmão mais

velho ou mais novo (a igualdade é rompida).

Vem em seguida o grupo das relações. É favorável o sonho no qual se tem

relação com uma mulher conhecida, se não for casada e se for rica; pois uma

mulher que se oferece entrega não somente seu corpo mas as coisas "relativas

ao seu corpo", aquelas que ela traz com ele (roupas, jóias e, de modo geral,

todos os bens materiais que ela possui). Ao contrário, o sonho é desfavorável

quando se trata de uma mulher casada; pois ela está sob o poder de seu marido;

a lei interdita que se tenha acesso a ela e pune os adultérios; e o sonhador,

nesse caso, deve esperar, no futuro, castigos da mesma ordem. Sonha-se que se

tem relação com um homem? Se o sonhador é uma mulher (e esta é uma das

raras passagens do texto onde o sonho das mulheres é levado em conta), o

sonho é favorável em todos os casos já que é conforme aos papéis naturais e

sociais da mulher. Em troca, se se trata de um homem que sonha ser possuído

por outro, o elemento de discriminação que permite distinguir o valor favorável

ou desfavorável do sonho depende do status relativo dos dois parceiros: o sonho

é bom se o sujeito for possuído por outro mais velho e mais rico do que ele (e

isso anuncia presentes); é mau se o parceiro ativo é mais jovem e mais pobre —

ou mesmo simplesmente mais pobre: signo de gastos, com efeito.

Um último conjunto de sonhos conformes à lei refere-se à masturbação.

Esses sonhos estão estreitamente associados ao tema da escravidão: porque se

trata de um serviço que se presta a si próprio (as mãos são como serviçais que

obedecem ao que o membro-mestre demanda), e porque a expressão que quer

dizer "amarrar ao tronco", para significar chibatar o escravo, quer dizer

igualmente entrar em ereção. Um escravo que tinha sonhado que masturbava

seu mestre foi, na realidade, condenado por ele a receber chicotadas. Vê-se aí a

extrema amplitude daquilo que é "conforme à lei": tanto comporta os atos

conjugais, as relações com uma amante, como a relação, ativa e passiva, com um

outro homem, ou ainda, a masturbação.

2. Em troca, o campo que Artemidoro considera "contrário à lei" é

essencialmente constituído pelo incesto38. E além disso o incesto é

compreendido no sentido bem restrito das relações entre pais e filhos. Em

relação ao incesto entre irmãos e irmãs, ele é assimilado à relação pai-filha se se

produz entre um irmão e sua irmã; em troca, entre dois irmãos, Artemidoro

parece hesitar em colocá-lo na ordem do kata nomon ou na ordem do para

nomon. Em todo caso, ele fala dele nas duas rubricas.

Quando um pai sonha que tem relações com sua filha ou seu filho, a

significação é praticamente sempre desfavorável. Quer por razões físicas

imediatas: se a criança é muito pequena — com menos de cinco ou dez anos —,

o dano físico, consecutivo a tal ato, deixa entrever sua morte ou doença. Se a

criança é maior, o sonho é ainda mau porque instaura relações impossíveis ou

funestas. Gozar com seu filho, "despender" nele seu sêmen, é um ato inútil:

dispêndio vão do qual não se poderia ter nenhum benefício e que anuncia,

conseqüentemente, uma grande perda de dinheiro. Unir-se a ele quando

tornou-se mais velho é forçosamente de mau augúrio posto que o pai e o filho

não podem coexistir sem conflito numa casa em que ambos querem comandar.

Esse sonho é bom num único caso: quando o pai empreende uma viagem com

seu filho e que, portanto, tem algo em comum a executar com ele; mas se o pai,

em tais sonhos, está na posição de passividade (quer seja o sonhador filho ou

pai), as significações são funestas; a ordem das hierarquias, os pólos da

dominação e da atividade ficam invertidos. A "posse" sexual do pai pelo filho

anuncia hostilidade e conflito39. Sonhar que se tem relações com a própria filha

não é melhor para o pai. Esse "dispêndio" no corpo de uma filha que um dia vai

se casar, levando assim para um outro o sêmen do pai, pressagia uma grande

perda de dinheiro. Ou então, essa relação, se a filha já é casada, indica que ela

deixará o marido, que voltará para casa, que será preciso prover às suas

necessidades; o sonho só é favorável no caso em que, sendo o pai pobre, a filha

pode voltar rica e, portanto, capaz de prover às necessidades de seu pai40.

De uma maneira que pode parecer estranha, o incesto com a mãe (visto

sempre por Artemidoro como incesto filho-mãe e nunca mãe-filha)

freqüentemente é portador de presságios favoráveis. Deveríamos concluir disso,

segundo o princípio de Artemidoro sobre a correlação entre valor prognóstico e

valor moral, que o incesto mãe-filho não é considerado como algo

38 Ibid., I, 78 e 79.

39 Notar entretanto que, numa interpretação dada no livro IV, 4, penetrar no próprio filho com uma sensação de

prazer é signo de que ele viverá; com uma sensação de sofrimento, que ele morrerá. Artemidoro observa que,

nesse caso, é o detalhe do prazer que determina o sentido.

40 Clef des songes, I, 78.

fundamentalmente condenável? Ou seria preciso ver aí uma das exceções

previstas por Artemidoro ao princípio geral que ele enuncia? Não há dúvida que

Artemidoro considera o incesto mãe-filho como moralmente condenável. Mas é

de se notar que ele lhe confere valores prognósticos freqüentemente favoráveis,

ao fazer da mãe uma espécie de modelo, e como que matriz, de um grande

número de relações sociais e de formas de atividade. A mãe é o ofício; unir-se a

ela significa, portanto, sucesso e prosperidade na própria profissão. A mãe é a

pátria: aquele que sonha com uma relação com ela pode prever que retornará,

se for exilado, ou que encontrará o sucesso em sua vida política. A mãe é ainda a

terra fecunda de onde se veio: se no momento do sonho se sofre um processo,

isso significa que se obterá a posse litigiosa; se o sujeito é cultivador significa que

terá uma grande colheita. Entretanto, perigo para os doentes: enfurnar-se nessa

mãe-terra quer dizer que se vai morrer.

3. Os atos "antinaturais" levam em Artemidoro a dois desenvolvimentos

sucessivos: um diz respeito ao que se afasta da posição fixada pela natureza (e

esse desenvolvimento vem em anexo à interpretação dos sonhos de incesto); o

outro diz respeito às relações nas quais é o parceiro que, por sua própria

"natureza", define o caráter antinatural do ato41.

Artemidoro coloca em princípio que a natureza fixou uma forma de ato

sexual bem definido para cada espécie: uma única posição natural da qual os

animais não se afastam: "Uns acasalam com as fêmeas por detrás, como o

cavalo, o asno, a cabra, o boi, o veado e o resto dos quadrúpedes. Outros unem

inicialmente suas bocas como as víboras, a pomba e as doninhas; as fêmeas dos

peixes recolhem o esperma lançado pelo macho". Do mesmo modo os humanos

receberam da natureza uma forma bem precisa de conjunção: o face a face,

ficando o homem estendido sobre a mulher. Dessa maneira o comércio sexual é

um ato de posse plena: na medida em que ela "obedece" e que "consente",

então se é mestre "de todo o corpo da companheira". Todas as outras posições

são "invenções da desmedida, da intemperança e dos excessos naturais aos

quais a embriaguez conduz". Há sempre nessas relações não naturais o presságio

de relações sociais defeituosas (más relações, hostilidade), ou o anúncio de um

mau momento do ponto de vista econômico (fica-se embaraçado,

"constrangido").

Dentre essas "variantes" do ato sexual, Artemidoro confere uma sina

particular ao erotismo oral. Sua reprovação — e essa é uma atitude

41 Ibid., 1, 79-80.

freqüentemente atestada na Antigüidade42 — é violenta: "ato horrível", "falta de

moral" cuja representação em sonho só tem valor positivo na medida em que

remete à atividade profissional do sonhador (se ele for orador, tocador de flauta

ou professor de retórica), evacuação de sêmen em vão, essa prática anuncia em

sonho um dispêndio inútil. Uso não conforme à natureza e que impede em

seguida o beijo ou as refeições feitas em comum, ele pressagia a ruptura, as

hostilidades e, às vezes, a morte.

Mas existem outras maneiras de se colocar fora da natureza nas relações

sexuais: pela própria natureza dos parceiros. Artemidoro enumera cinco

possibilidades: relações com os deuses, com os animais, com os cadáveres,

relações consigo mesmo ou, enfim, relações entre duas mulheres. A presença

dessas duas últimas categorias dentre os atos que escapam à natureza é mais

enigmática do que a das outras. A relação consigo mesmo não deve ser

compreendida como masturbação; uma menção é feita em relação a esta dentre

os atos "conformes à lei". O que está em questão na relação fora da natureza

consigo mesmo é a penetração do sexo no próprio corpo, o beijo dado no

próprio sexo, a absorção do sexo na boca. O primeiro tipo de sonho anuncia

pobreza, indigência e sofrimento; o segundo promete a vinda de filhos se ainda

não se tem, ou o seu retorno se estão ausentes; o último significa que os filhos

irão morrer, que se ficará privado de mulheres e de amantes (pois não se

necessita de mulheres quando se pode usar a si próprio), ou que se ficará

reduzido a uma extrema pobreza.

Quanto às relações entre mulheres, poder-se-ia perguntar por que elas

aparecem na categoria dos atos "fora da natureza" ao passo que as relações

entre homens se distribuem nas outras rubricas (e essencialmente naquela dos

atos conformes à lei). A razão disso está, sem dúvida, relacionada à forma de

relação que Artemidoro privilegia, a da penetração: por meio de um artifício

qualquer, uma mulher usurpa o papel do homem, toma abusivamente sua

posição e possui a outra mulher. Entre dois homens, o ato viril por excelência, a

penetração, não é em si mesmo uma transgressão da natureza (mesmo se ele

pode ser considerado como vergonhoso, inconveniente, para um dos dois se

submeter a ele). Em troca, entre duas mulheres um tal ato que se efetua a

despeito daquilo que elas são, e com recurso a subterfúgios, é tão fora da

natureza como a relação entre Um humano com um deus ou com um animal.

Sonhar com esses atos significa que se terá atividades vãs, que se irá separar-se

do marido, ou que se ficará viúva. A relação entre as duas pode também

significar a comunicação ou o conhecimento dos "segredos" femininos.

42 P. Veyne, "L'homosexualité à Rome", in L´Histoire, janeiro 1981, p. 78.

3 - O SONHO E O ATO

Dois traços devem ser anotados porque eles marcam toda a análise do

sonho sexual de Artemidoro. Em primeiro lugar, o sonhador está sempre

presente em seu próprio sonho; as imagens sexuais que Artemidoro decifra

nunca constituem uma pura e simples fantasmagoria, da qual o sonhador seria o

espectador, e que se desenrolaria diante dele, mas independente dele. Ele

sempre toma parte como ator principal; o que ele vê é ele próprio em sua

atividade sexual: existe uma exata superposição entre o sujeito que sonha com