História da insesatez humana por Izrael Rotenberg - Versão HTML

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Caro(a) leitor(a),

A aquisição deste e-book - que conta a história da equivoca-

da e decadente civilização em que vivemos como resultado do

predomínio, entre a grande maioria dos dirigentes, do cultivo

da hipocrisia e da má-fé, levando a todos a prática de um modo

de vida fútil e egoísta – demonstra que eu e você temos algo

muito importante em comum: absolutamente não somos

indiferentes à forma equivocada em que a maioria vive e

pensa, quando raramente pensa.

Assim como meu espírito, tenho certeza de que o seu es-

pírito também continua inquieto e perplexo diante desse de-

cadente humanismo, e pugnam pela construção de um novo

humanismo mais representativo dos verdadeiros seres humanos, pensantes, altruístas e generosos para com os demais.

Assim, tenho o prazer de convidá-lo a juntar-se aos que se

inquietam pela existência humana em nossa Terra, pelo futuro

de nossos filhos e netos.

Abraços,

Izrael Rotenberg

HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

IZRAEL ROTENBERG

2ª EDIÇÃO

Copyright © 2010 by Izrael Rotenberg

Primeira impressão, em brochura: 2000

EDITADO PELO AUTOR

Rua do México, 148 – Grupo 601

CEP 20031-142 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Tel.: (55) (21) 2544-4242

http://www.rotenberg.com.br

Título Original: HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

2ª Edição, Revista, 2011

Capa: Rodrigo Rocha Freire

Diagramação: Simone Oliveira da Silva

FICHA CATALOGRÁFICA

Biblioteca Nacional – Escritório de Direitos Autorais

Nº Registro: 219.896 Livro 892 Folha 114

ISBN 978-85-910938-0-9

Rotenberg, Izrael, 1926 –

Índices para catálogo sistemático:

1. Materialismo - História da Civilização - Equívocos. 2. Política – Sociologia.

3. Maquiavelismo - Corrupção – Causas. 4. Infelicidade – Causas.

5. Insensibilidade Humana – Indiferença.

II – Título Inclui bibliografia

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito do autor.

Dedico este livro à Eugênia,

minha dedicada e paciente

esposa – com muito amor.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .........................................................................7

PRIMEIRA PARTE ..................................................................11

A INSENSATEZ HUMANA ................................................ 11

Capítulo 1 – O Egoísmo Humano .................................... 12

Capítulo 2 – Crime de Lesa-Humanidade: a Destruição

da Biblioteca de Alexandria ............................ 15

Capítulo 3 – Preconceitos e Fanatismo .............................. 21

SEGUNDA PARTE ...................................................................27

GUERRAS: O ASPECTO MAIOR DA INSENSATEZ HUMANA .. 27

Capítulo 1 – História das Guerras .................................... 28

Capítulo 2 – Causas das Guerras ..................................... 39

Capítulo 3 – Consequências das Guerras ........................... 55

TERCEIRA PARTE ..................................................................61

DECADÊNCIA ACENTUADA DA CIVILIZAÇÃO ................... 61

Capítulo 1 – O Maquiavelismo na Antiguidade .................... 62

Capítulo 2 – O maquiavelismo no Cristianismo ................... 67

Capítulo 3 – O Maquiavelismo na Idade Média .................... 83

Capítulo 4 – Maquiavel e seus Célebres Axiomas .................101

QUARTA PARTE ................................................................... 109

CAUSAS DA INSENSATEZ HUMANA

ATRAVÉS DA HISTÓRIA .................................................109

Capítulo 1 – Ambição: Causa ou Efeito? ...........................110

Capítulo 2 – A Raiz do Fanatismo ...................................125

Capítulo 3 – As Duas Naturezas Humana:

A Biológica e a Espiritual .............................144

EPÍLOGO .............................................................................. 169

BIBLIOGRAFIA .................................................................... 185

INTRODUÇÃO

Caro leitor, se você se comove com algum tópico abaixo pon-tualizado, se você algum dia se perguntou por que isso acontece ainda hoje, se você sente inquietudes - do latim inquietudine: inquietação; ou inquietatione: falta de sossego -, então você apre-ciará este trabalho. Espero que assim seja e que dele extraia algum elemento capaz de enriquecer a sua vida e, por extensão,

tornar melhor a humanidade. Os temas aqui abordados são de

tal magnitude que merecem ser a sua reflexão, qualquer que

seja a sua formação acadêmica.

A história da humanidade é a história de guerras, de desen-

tendimentos entre seres e nações; tão evidente é essa afirma-

tiva que é aceita como um axioma pela nossa cultura e nossa

civilização, tanto que as guerras acontecem e poucos são os

seres que delas se preocupam e, muito menos, procuram suas

causas, mas todos sofremos seus devastadores efeitos. A grande

inquietude que surge do fundo de cada ser é: p or que o homem continua tão bárbaro?

A história da humanidade é, pois, a história da estupidez ou

insensatez humana. A propósito, o grande pintor e pensador

renascentista Leonardo da Vinci (1452-1519), que tinha gran-

de desdém pela maluquice da humanidade, já naquela época

dizia “que pensas, Homem, de tua própria espécie? Não te envergonhas de tua estupidez? ”1

A estupidez humana acontece em todos os momentos da

1

THOMAS, Henry. História da Raça Humana através da Bibliografia, Rio de Janeiro, Editora Globo, 2ª Edição, 1959, p. 187.

HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

história humana, passados e presentes, e as ciências ditas “hu-

manas” não se preocupam em buscar suas causas, já que todos

somos educados para “apagar incêndios”, “correr atrás dos efei-

tos, dos prejuízos”. Entretanto, por ignorância e inconsciência, somos ineficientes “bombeiros”. A pergunta que cabe é: p or que essa estupidez?

A história da humanidade é também a história do fanatis-

mo religioso e as consequentes barbaridades que o ser humano

vem sofrendo, inimagináveis em uma mente sã, espécime rara.

Como merecem serem examinadas suas causas!

A propósito, chama-me a atenção a lucidez de raciocínio, co-

ragem e honestidade do bispo brasileiro Dom Helder Câmara:

“Pergunto-me como é possível haver pessoas acreditando que somente os católicos podem encontrar a salvação... É ridículo! Só se ima-ginarmos o Espírito Santo lá das alturas a procurar católicos, ou cristãos de um modo geral, para dar-lhes - e apenas a eles - o sopro divino...”.

“É evidente que tal discriminação não pode ocorrer! Em qualquer parte do mundo, onde quer que haja uma criatura humana que

tenha fome e sede de amar, de auxiliar ao próximo, de superar o ego-

ísmo, que seja capaz de sair de si mesma para atender aos problemas alheios, que ouça o que lhe recomenda a consciência, que se esforce para praticar o bem, não resta a menor dúvida de que o Espírito de Deus estará com ela. Gosto muito de ouvir as palavras do Senhor quando diz ‘... virão muitos do oriente e do ocidente...’ Na casa de nosso Pai encontraremos budistas e judeus, muçulmanos e protestantes, bem como católicos!...” 2

Devido às guerras e sofrimentos humanos, a história da hu-

manidade confunde-se também com a história da insensibili-

2

CÂMARA, Dom Hélder. Evangelho com Dom Hélder. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1987, p. 53

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INTRODUÇÃO

dade humana, a maior responsável pela estagnação da cultura

espiritual do ser humano. Felizmente, hoje os cientistas estão

descobrindo a importância da sensibilidade no desenvolvimen-

to intelectual e humano do ser, sem o qual efetivamente asse-

melha-se ao animal, com perdão deste.

Como investigador da História da Civilização, crescente

foi a minha indignação quanto ao comportamento dos que,

com raras exceções, usufruíram ou, melhor dito, usurparam

o poder. Mas também aprendi a ser otimista. Concluí que

parte da culpa cabe a mim, como integrante dessa sofrida

humanidade, e aprendi que muito posso fazer para reverter

a História.

Os intelectuais devem sentir-se desconcertados com o

espetáculo da vida, devem sentir-se num mundo que apa-

rentemente não lhes pertence, como se fossem peixes fora

d’água. Devem buscar compreender o por quê da bruta-

lidade da vida e procurar fazer algo, assumir a enorme

responsabilidade que compete a cada um perante a hu-

manidade, buscando a sabedoria onde quer que se encon-

tre, para fazer desta terra um oásis de paz e prosperidade,

onde não haja lugar para as misérias humanas, materiais,

morais e espirituais.

Este trabalho tem por finalidade chamar a atenção do leitor

para alguns aspectos que já foram isoladamente mencionados

por um ou outro autor. Certamente, precisarei que a paciência

do leitor seja mais forte que qualquer preconceito que possa haver em sua mente. A propósito, cabe um grande e conhecidíssi-

mo pensamento de Voltaire, manifestado em uma de suas cartas:

“’Posso não concordar com nenhuma das vossas palavras, mas defenderei até a morte o vosso direito de enunciá-las.’ Essas palavras são 9/189

HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

provavelmente a maior contribuição de Voltaire e do século XVIII à civilização do gênero humano.” 3

Não estou à procura de um bode expiatório, mas julgo

como verdadeiros culpados os historiadores que – com bri-

lhantes exceções -, informam e interpretam os acontecimentos

de acordo com suas conveniências pessoais, ludibriando a fé de

seus leitores.

Julgo também culpados os filósofos e cientistas que, podendo,

não usam suas privilegiadas mentes em busca das causas da per-

sistência dessa Era da Ambição Material que, desde os primórdios da civilização até hoje, persiste em nossa sociedade, apesar dos enormes sofrimentos que acarreta à humanidade, e causa principal da insensatez e insensibilidade dos seres humanos.

Por fim, reforço que me julgo também culpado por esse esta-

do de coisas, porque muito mais do que fiz poderia ter feito para ajudar a humanidade a romper o círculo vicioso em que vive.

Em certa ocasião, F. Scott Fitzgerald externou que um autor

deve escrever para a juventude da sua própria geração, para os

críticos da próxima e para os estudiosos de todo o sempre.

Parodiando Fitzgerard, penso que, ao escrever aos intelec-

tuais contemporâneos, automaticamente escrevo para a juven-

tude da minha geração e, se for mais bem compreendido pela

próxima geração, estarei também para os críticos e para os es-

tudiosos de todo o sempre. Esta é a intenção deste livro.

3

THOMAS, Henry. História da Raça Humana através da Bibliografia, Rio de Janeiro, Editora Globo, 2ª Edição, 1959, p. 241.

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PRIMEIRA PARTE

A INSENSATEZ HUMANA

HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

CAPÍTULO 1

O EGOÍSMO HUMANO

Os políticos que desfraldam a bandeira da fome, da mi-

séria, das desigualdades sociais e outras mais, mas não há

unanimidade, no mundo inteiro, em torno de um projeto

político comum contra essa situação extremamente explo-

siva que vive a humanidade. O governo faz discursos con-

tra a miséria, as forças políticas que lhe dão sustentação o

aplaudem, já que são discursos ricos em diagnósticos e solu-

ções, arejados e convincentes; mas como são decepcionan-

tes as aplicações! Egoístas, cada qual se vira para o seu lado, as promessas são esquecidas tão logo são pronunciadas, e a

miséria continua.

Neles há algo na imensa proporção dos políticos que os do-

mina: a ambição, uma ambição infinita pelo poder.

Como cada um cuida de si, as dificuldades continuam. Fa-

zem me lembrar Fausto, obra imortal de Goethe, o maior poeta alemão de todos os tempos e um dos maiores vultos da literatura universal:

“Que lá fora haja guerra e nunca exista paz,

“Contanto que em meu lar tudo esteja tranquilo!” 4

Esse egoísmo vem de longe. Os hebreus há milênios cele-

bram o Pessach ( páscha, em grego, e pascha, em latim; em he-braico significa ultrapassar, passar por cima): Deus teria passa-4 GOETHE, Johann Wolfgang Von. PAUSTO, Biblioteca Universal, São Paulo, Editora Três, p. 57.

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PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 1 - O EGOÍSMO HUMANO

do por cima, isto é, protegido as casas dos israelitas que viviam no Egito, enquanto as demais seriam castigadas.

Evidentemente, Goethe sabia perfeitamente que quem as-

sim pensa está com seu juízo inteiramente fora da realidade

– é esse, precisamente, o equívoco dos responsáveis por esse

estado de decadência humana em que vive a humanidade. Sen-

sível a essa decadência, Goethe aponta para a responsabilidade

do homem perante seu semelhante, destacando que Deus não

lhe permite viver tranquilamente como que em uma redoma

sabendo que tudo que tem, tudo que sabe, deve ser para uso-

-fruto de toda a humanidade, única forma de ficar bem com a

sua consciência e ser feliz.

A propósito desta nossa decadente civilização, Shakespea-

re tem ditos extremamente populares, muito usados jocosamente: “Há algo de podre no reino da Dinamarca.” e “O mundo está fora dos eixos.”5 Esta também foi a preocupação de Dostoievski, quando diz que pela boca de um ‘demônio’: “eu não tenho o poder de me criar. Tenho o de me destruí”’6.

Fácil, portanto, é o diagnóstico: a insensatez humana tem

sua causa na ambição e no egoísmo, já feitos carne pela cultura do material, que conseguiu desviar inteiramente o ser humano de seu rumo. Há, portanto, solução para essa problemática

humana. Já que a falta de sensatez decorre da falta de senso

ou razão, um dia a razão predominará na mente de todos os

responsáveis pela Terra, a razão do amor e respeito mútuo, dos

direitos e, sobretudo, dos deveres, da liberdade e da justiça.

5

SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta, Macbeth, Hamlet, príncipe da Dinamarca, Otelo, o mouro de Veneza, São Paulo, Editora Abril S.A., 1978, p. 227.

6

THOMAS, Henry. História da Raça Humana através da Bibliografia, Rio de Janeiro, Editora Globo, 2ª Edição, 1959, p. 187.

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HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

Será, então, o triunfo do juízo sobre a violência e a falta de

razão, como uma necessidade imperiosa da conservação e me-

lhoramento da raça humana. Para isso, Deus dotou o ser huma-

no de um conjunto de recursos mentais e sensíveis, e de uma

consciência que constantemente o espicaça a cumprir com seu

dever como “rei da criação” em potencial.

Mas, dotou-o, também, do livre-arbítrio que lhe faculta a

escolha a qualquer momento do caminho que deve trilhar. De

acordo com a escolha que faça, torna-se livre ou permanece

submergido na escravidão já milenar de seu milenar egoísmo.

Usando um pseudo livre-arbítrio – por lhe faltar os conheci-

mentos necessários para sua verdadeira utilização -, em vez de

aprender a se criar, aprendeu a destruir a si mesmo e a todo o

criado.

Tenho plena convicção de que, chegando o homem ao fundo

do poço - mercê à sua ambição e egoísmo, e à comodidade em

permanecer escravo da ignorância -, as Leis Universais, que re-

presentam a Vontade do Criador de todas as coisas, hão de pre-

valecer e recolocá-lo no leito do qual jamais deveria ter saído.

Infelizmente, porém, a custa de grandes sacrifícios humanos.

Sejamos, pois, otimistas e responsáveis.

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PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 2 - CRIME DE LESA-HUMANIDADE

CAPÍTULO 2

CRIME DE LESA-HUMANIDADE:

A DESTRUIÇÃO DA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Dissemos que a insensatez humana é milenar. Citamos aqui

um exemplo que, por repetidas vezes, afetou um mesmo patri-

mônio da humanidade.

A primeira importante biblioteca, segundo registro dos

historiadores, foi organizada em Mênfis, capital do Império

Antigo egípcio (2755-2255 a.C.), pelo rei Osymandias, em

2.000 a.C., com um rico acervo de manuscritos em samari-

tano. Sua importância na vida cultural do Egito de então era

de tal ordem que se lia, na entrada da biblioteca: Remédios da alma. Na época helenista, principalmente, as bibliotecas tiveram grande desenvolvimento. As mais célebres foram

as de Pérgamo, 7, fundada por Eumenes II (197-159 a.C.) e

Attalo II (159-138), que chegou a ter 200.000 volumes, e

a grande e famosa de Alexandria, fundada por Ptolomeu I

Sóter (367-283 a.C.), rei do Egito (305-285 a.C.), por reu-

nir a maior coleção de livros do mundo antigo. Por volta do

ano 250 a.C., Alexandria converteu-se em um dos maiores

mercados de livros do mundo e as primeiras publicações e

vendas ocorreram nessa grande biblioteca.

Os eruditos encarregados da biblioteca eram considerados

os homens mais capazes de Alexandria na época. Zenódoto

de Éfeso, poeta e gramático, foi seu primeiro diretor e o po-

7

Cidade antiga situada próximo à costa ocidental da Ásia Menor, em Mísia (agora Turquia).

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HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

eta Calímaco (310 ou 305 – 240 ou 235 a.C.), também poeta

e gramático, fez o primeiro catálogo geral dos livros. Seus

bibliotecários mais notáveis foram Aristófanes de Bizâncio (c.

257-180 a.C.), editor e gramático de Bizâncio, e Aristarco da

Samotrácia (c. 217-145 a.C.). Sob o reinado de Ptolomeu II,

a biblioteca principal do Museu de Alexandria possuia entre

quinhentos mil e setecentos mil volumes e o seu anexo, que

se localizava no Templo de Serápis continha aproximadamen-

te 43.000 volumes.

A Biblioteca de Alexandria era frequentada por todos aque-

les, incluindo nobres, ricos, pobres e plebeus, que quisessem

adquirir cultura e conhecimento por meio da leitura. A impor-

tância desta biblioteca é literalmente proporcional ao seu tamanho, uma vez que muitas das obras guardadas ali eram copiadas e distribuídas por todas as bibliotecas do mundo civilizado, como, por exemplo, a tradução grega dos livros dos hebreus.

As primeiras obras literárias foram comercializadas, provavel-

mente, na Grécia, graças aos discípulos de Platão, que vendiam

ou alugavam cópias de seus discursos, o que denota a importância dessa biblioteca. Os primeiros comerciantes de livros atenien-ses confeccionavam os livros em rolos, porém, posteriormente,

os fabricantes de livros empregaram copistas. O fato de o lugar funcionar também como uma espécie de editora, multiplican-do o número de livros e os distribuindo, teve uma contribuição

fundamental para a disseminação da cultura e a preservação de

obras raras no mundo de hoje, razão pela qual boa parte de suas coleções literárias foi conservada, apesar dos vários e sérios ataques sofridos no decorrer de sua existência.

A biblioteca de Alexandria foi destruída pelo fogo em qua-

tro principais ocasiões: em 48 d.C., durante a guerra de Júlio

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PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 2 - CRIME DE LESA-HUMANIDADE

César contra Pompeu, o Grande, na qual um incêndio destruiu

boa parte de suas obras e de sua estrutura; em 272, por ordem

de Aureliano (214-275), imperador romano (270-275); em

391, quando o imperador Teodósio I (346?-395), imperador

romano do Oriente (379-395) e do Ocidente (394-395), de-

fensor do cristianismo dogmático, perseguindo o arianismo e

o paganismo romano, arrasou-a, juntamente com outros edifí-

cios pagãos, apesar dos esforços empregados por alguns bispos,

como o de Alexandria, que procuravam demover os cristãos

dos seus propósitos selvagens, dizendo-lhes que as bibliotecas

não encerravam só obras pagãs. Estavam com razão. Por esse motivo, a Biblioteca de Alexandria sobreviveu e foi forte o sufi-

ciente para nos reservar algumas de suas melhores obras que,

só assim, puderam ser conhecidas pela humanidade moderna.

Assim é que, na Europa medieval eram frequentes os vende-

dores ambulantes de livros, embora durante a alta Idade Mé-

dia, sua produção fosse, geralmente, monopólio dos scriptoria, ou salas de escritura dos mosteiros. Na baixa Idade Média, o

desenvolvimento das universidades estimulou o uso dos livros.

As publicações e vendas tiveram início, em 1440, com a in-

venção da imprensa. Os primeiros impressores eram também

os editores das obras que produziam. Assim, felizmente para a

humanidade, nos mosteiros também se professava o culto dos

livros, razão porque muitos deles salvaram-se da fogueira. Evi-

dentemente, não foi por milagre.

Mas tarde, em diversas épocas históricas, as bibliotecas das

civilizações antigas foram atacadas e destruídas por cristãos e bárbaros, ficando muitas delas reduzidas a cinzas. Enquanto o

Ocidente da Europa mergulhava nas trevas da barbárie, as bibliotecas não podiam deixar de refletir esse lamentável estado social, melhor dizendo, essa incomensurável insensatez humana.

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HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

Como ilustração, citemos Leonardo da Vinci: pintor, es-

cultor, arquiteto, engenheiro, músico, anatomista, inventor,

desenhista teatral e, fundamentalmente, filósofo, deixou ao

morrer cerca de cinco mil páginas manuscritas inéditas. E

continuam inéditas! Onde estarão? Existirão ainda? Por que

foi subtraída à humanidade a prerrogativa de delas se bene-

ficiar?

Evidentemente, estamos falando de um desvio extrema-

mente sério realizado pelo HOMEM no decorrer de seus er-

ros seculares, atravessando toda a sua história. Seria como que uma lei da história que a própria riqueza material que gera a

civilização anuncia a sua decadência?

Com relação às suas sucessivas destruições a que a Bibliote-

ca de Alexandria teve que passar, a humanidade tem o direito

de considerá-los verdadeiros crimes lesa-humanidade.

Para que o leitor possa vislumbrar o valor histórico do acer-

vo dessa biblioteca, penso ser pertinente o que nos traz o his-

toriador Will Durant:

“Em 2.000 a.C., os babilônios já tinham uma cuidadosa fixação dos movimentos do planeta Vênus; haviam determinado a posição de várias estrelas e iam aos poucos levantando o mapa do céu. A conquista kassita interrompeu por mil anos esse desenvolvimento. Depois, no reino de Nabucodonosor, os estudos astronômicos foram retomados; os sacerdotes-cientista traçaram as órbi tas do sol e da lua, notaram suas conjunções e eclipses, calcularam o curso dos planetas e fizeram a primeira distinção entre planetas e estrelas. Também determinaram as datas dos solstícios do inverno e do verão, dos equinócios da primavera e do outono, e dividiram a eclítica8 nos doze sinais do Zodíaco. Como haviam dividido o círculo em 360 graus, também dividiram o grau em 60 minutos e o minuto em 60 segundos. Mediam o tempo com a clepsidra ou o 8

A marcha da Terra em redor do Sol.

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PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 2 - CRIME DE LESA-HUMANIDADE

relógio de água, ou por meio do relógio de sol - e parece que estes instrumentos foram invenções suas.”

“Foi mais da Babilônia do que do Egito que os gregos le-

varam para suas cidades-estados, e daí para Roma, os funda-

mentos das matemáticas, da astronomia, da medicina, da gra-

mática, da arqueologia, da história e da filosofia. Os nomes

gregos dos metais e das constelações, dos pesos e medidas, dos

instrumentos de música e de muitas drogas não passam de tra-

duções, às vezes meras transliterações, de nomes babilônicos.

Enquanto a arquitetura grega derivava suas formas da do Egito

e de Creta, a arquitetura babilônica, com o ziggurat, dava ao

Islã a torre das mesquitas, dava aos medievais os campanários

e a nós americanos nos deu o “setback” da nossa atual arquite-

tura - o recuo progressivo dos andares. A magnífica coleção de

leis do século XVIII a.C., denominada Código de Hamurabi,

tornaram-se para todos os povos antigos um legado compará-

vel ao de Roma ao mundo moderno.”9

Como foi possível a Antiguidade alcançar esse grau de de-

senvolvimento?

Desde cedo, o ser humano se preocupou em organizar seus

diferentes escritos em bibliotecas para estudo, leitura e con-

sulta, sendo elas, em consequência, anteriores à descoberta da

imprensa, no século XV, quando, então, os livros ficaram mais

acessíveis, mais baratos e mais duráveis, permitindo o aumento

do hábito da leitura.

Na qualidade de depósitos de informação escrita, as biblio-

tecas surgiram com a própria escrita, no Oriente Médio, entre

3.000 e 2.000 a.C. e, no final do século 1 a.C., já se encontram 9

DURANT, Will. História da Civilização, 1ª Parte, Nossa Herança Oriental, Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1944, pp. 266-272.

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HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

bibliotecas particulares entre alguns romanos, com obras gre-

gas e latinas, dando origem ao comércio de copistas, ao apare-

cimento de livrarias e ao estabelecimento de bibliotecas públi-

cas, que surgiram em Roma, próximo ao século II da nossa era.

Com um preito de gratidão, não me permito de deixar de citar

a figura do seu mais influente editor: Aldo Manuzio (c.1449-

1515), que permitiu a Europa tomar conhecimento da poesia e

da filosofia grega, imprimindo-as. Muito erudito, merece que

seja destacada a academia que fundou e que teve, entre seus

membros, Erasmo de Rotterdam.

A ênfase que os historiadores dão à importância dos medío-

cres vencedores, sem dúvida é uma das razões da persistência

da insensatez humana, explicada pela propensão que a huma-

nidade apresenta de rapidamente esquecer seus benfeitores. A

essa grande e grave ingratidão, que se soma aos demais defeitos e deficiências, podem-se juntar aos historiadores os filósofos e eruditos de todas as épocas, já que, com raras exceções, regra

geral colocam em primeiro lugar seus interesses egoístas e, por último, os dos seres humanos que povoam a Terra.

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PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 3 - PRECONCEITOS E FANATISMO

CAPÍTULO 3

PRECONCEITOS E FANATISMO

Em outubro de 1995, a Oitava Jornada da Associação AIDS,

realizada em Marselha, teve que enfrentar um sério preconcei-

to, já que “para os muçulmanos, a Aids é um castigo de Deus e,

como tal, os que lutam contra ela lutam contra Deus”, como

denunciou Mehdi Yussef, professor de medicina em Argel, Ar-

gélia, apesar do medo de ser morto por fanáticos. Uma frase

simples, mas de um significado altamente transcendente: des-

cobre - no sentido de levantar o véu - quanta ignorância pe-

rambula pelo mundo no que se refere às doenças que podem se

transformar em epidemias; mas mostra também quanto Deus

é desconhecido, ignorância que O faz ser temido, em vez de

amado, e constantemente desrespeitado.

Infinita é a quantidade de exemplos de insensatez que dia-

riamente assistimos na mídia escrita e falada.

Já em sua época, Anaxágoras (500 – 428 a.C.) entendia que

todos os corpos celestes eram feitos da mesma matéria que

compunha a Terra, concluindo que houvesse vida em outros

planetas. Explicou, também, que o Sol não era um deus, mas

uma massa incandescente maior do que a Terra até então co-

nhecida, e que a Lua não possuia luz própria, mas que a tirava

da Terra.

Natural da Ásia Menor, já maduro, mudou-se para Atenas;

acusado de ateísmo pelos pagãos que ali viviam, teve que dei-

xar a cidade, apesar de não existir Inquisição na época.

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HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

Isso nada mais demonstra que as verdades aceitas como dog-

mas são, por definição, as que mais necessitam de revisão! Essa é a grande diferença entre o sábio, que julga que todos seus

conceitos devem ser sempre revistos, e o ignorante, que se jul-

ga dono e senhor da verdade, a ponto de, com a consciência

tranquila, matar os que, segundo a Bíblia, são seus irmãos que

tanto dizem defenderem. Não é por quererem. É por não sa-

berem, por ignorância mesmo!

O ignorante apresenta as mesmas características dos fanáti-

cos, e vice-versa. Julgam-se donos da verdade e, em consequ-

ência, crentes em si mesmo, que esconde uma profunda falta

de confiança em si mesmo: buscam a aprovação nos olhos dos

espectadores, e chamam a isso de certeza. Precisam ambos,

então, pertencer a um grupamento dirigido por um líder, em

que inconscientemente se identificam pela ignorância. Ambos,

tanto o ignorante quanto o fanático, são em essência covardes.

Enquanto um valente aceita a responsabilidade de seus atos,

quaisquer que sejam, o homem, produto da nossa cultura, ten-

de a nunca assumir seus erros, mas assume qualquer vitória,

mesmo que seja dos outros; com algumas exceções, é um ga-

nhador ou um perdedor, e pode transformar-se em persegui-

dor ou vítima.

É evidente que esta velha cultura em que vivemos não en-

sina ao homem a compreender, amar e respeitar o Autor da

Criação. Em consequência dessa ignorância, os fanáticos agem

como animais, por instinto; neles, dão-se as mãos a ferocidade

com a covardia e, em consequência, a insensatez neles é uma

constante.

Vale acrescentar que a arrogância e a pseudovalentia do fa-

nático e preconceituoso esconde uma psicologia negativista,

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PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 3 - PRECONCEITOS E FANATISMO

arbitrária e destrutiva, derivada de uma suposição de que todas as decisões derivam de uma colocação arbitrária do Criador,

diante das quais só resta a obediência.

A construção moral-teológica da cultura vigente, princi-

palmente ocidental, vincula Deus à predestinação, à eleição e

ao Juízo-Final; e, ao homem, o arrependimento, danação ou

salvação. Essa filosofia de vida, de uma só penada, afasta do

homem a necessidade do uso consciente de seu livre-arbítrio

e da responsabilidade de suas atitudes perante a humanidade.

Como corolário, o fanático o que mais teme é a liberdade, não

do próximo, mas dele próprio. Infelizmente, falta-lhe consci-

ência disso.

Quanto a Deus, não tem as deficiências e os defeitos hu-

manos, nada tem a ver com o antropomorfismo que o vulgo,

os clérigos e os doutores supõem, nem com o que as religiões

reveladas, instituídas ou com o que as variadas formas de su-

perstição costumam imaginar. Mais ainda: o fanático de fato

não crê em Deus, crê fundamentalmente em si mesmo, tanto

que o que mais teme é ser-lhe demonstrado que tem um con-

ceito equivocado de Deus. Dentro dessa redoma em que seus

pensamentos o colocam viver, não consegue perceber quanto

agride a Deus. Exemplo? De acordo com o cálculo de Voltaire,

nada menos de dez milhões de hereges foram queimados vivos

“por instigação da Igreja”.10

O extremismo constitui uma tendência típica da mente,

tanto que é mais fácil agitar um povo do que o pacificar. Quan-

do não cultivada, a mente é extremista e preconceituosa, em

razão de sua preguiça mental em examinar todos os ângulos

10 THOMAS, Henry. História da Raça Humana através da Bibliografia, Rio de Janeiro, Editora Globo, 2ª Edição, 1959, p. 147.

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HISTÓRIA DA INSENSATEZ HUMANA

de um problema. Como não poderiam ser de outro modo, as

consequências do abandono desse cultivo são os catastróficos

processos de evolução da humanidade.

Ocorrem-me uns provérbios populares, aplicáveis, tam-

bém, à mente: o uso constante de um conceito deixa a mente torta, quer dizer, indispõe o ser a pesquisar outros ângulos de uma

questão. Surge, daí, um preconceito, isto é, um conceito pre-

viamente concebido sem uma análise profunda.

A razão do preconceito advém, em última instância, da pre-

guiça de pensar; o resultado torna-se, como dissemos, cala-

mitoso para o ser, pois sua mente fica indefesa, à mercê dos

pensamentos que perambulam em seu redor. Todos os movi-

mentos de massas ocorridas na história o demonstram. Todos

os Stalins, Hitleres, sindicatos e igrejas sabem disso: para eles, basta tocarem uma corneta para os chamar, e todos atendem,

já que o ato de pensar por si mesmo requer um esforço que as

massas não estão dispostas a exercitar.

É a anulação completa do homem racional. Todos os serem

humanos são diferentes – e há uma razão transcendente para

que Deus os tenha assim concebido -, mas vivem como reba-

nhos jamais se perguntando quem são, de onde vêm, que fazem

na Terra e outras inquietudes existenciais, salvas as exceções

que confirmam a regra.

Enquanto essas inquietudes não forem despertadas, o ho-

mem continuará a viver rotineiramente, sem capacidade para

romper o círculo de sua existência individual: seus hábitos e

tradições, tão artificiais que se diferenciam em cada região em que o ser vive.

Considera “normal” esse artificialismo cheio de hipocrisia e

ambições materiais, predominantemente egoísta, quando é tão

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importante para a existência o questionamento dos hábitos ar-

raigados, estar sempre os reformulando. Este exercício torna o

ser mais consciente da vida, é quando passa realmente a viver.

Em consequência, por ser mais cômodo, mais fácil, os seres

se aferram ao milagroso, ao sobrenatural e são cegos à lingua-

gem da natureza que sistematicamente nos orienta sobre a pri-

mordial função do ser humano. Essa linguagem é a expressão

das leis universais ou da Vontade de Deus. Desconhecendo-a,

evidentemente desconhece-se Deus a ponto de duvidar de sua

existência ou, não O entendendo, sente-se por Ele abandona-

do. Por desconhecer a sua perfeição - a de Deus, claro -, muitos creem que Deus faz do homem uma marionete. Tal a ignorância sobre a razão de sua Obra!

As pessoas são quase tão desligadas das coisas fundamentais

que as cercam quanto os animais, razão porque a ciência as