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História das Orgias por Burgo Partridge - Versão HTML

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HISTÓRIA DAS ORGIAS

Edições Século XXI, Lda.

Apartado 41022

1506-001 Lisboa Codex

Reservados todos os direitos

de acordo com a legislação em vigor

© Burgo Partridge A History ofOrgies © Edições Século XXI (2003)

Colecção Percursos/História

Tradução de Leonel Cândido Silva Phêbo

Revisão gráfica de Alice Araújo

Capa de Paulo Bacelar

Imagem da capa: La Mort de Babylone, de Rochegrosse

Fotocomposição, paginação e montagem:

Ramo de Ouro, Lda.

ISBN: 972-8293-25-9

Depósito legal n.° 195599/03

Impressão: Papelmunde - SMG, Lda.

Acabamento: Inforsete - V. N. de Famalicão

Burgo Partridge

HISTÓRIA DAS ORGIAS

Tradução de

Leonel Cândido Silva Phébo

PREFÁCIO

A orgia é a válvula de escape de uma pressão como a do vapor de água; é a expulsão de histeria

acumulada pela abstinência e a autocontenção e, assim sendo, tende igualmente a partilhar dessa

natureza de fenómeno histeróide ou catártico.

Toda a forma de autocontenção acarreta as suas tensões peculiares. O Homem encontra-se na

constrangedora contingência de trazer em si mesmo, em simultâneo, as inclinações do indivíduo

civilizado e as do mero animal, as quais há que procurar conciliar, normalmente em detrimento

das últimas. Mas essa pressão, progressivamente crescente, não pode ele aguentá-la

perpetuamente; de modo que se valerá, para todos os tipos de tensão, de uma válvula de escape -

que é a orgia. Muitas das orgias, no entanto, não são tidas geralmente como tal. As guerras, por

exemplo, num certo sentido, são uma forma de orgia, extremada e desagradável; e, catalogáveis

muito lá para o fim da escala de valores da espécie, deparamos com as discussões em reuniões

sociais ou cocktails, as partidas de mau gosto, pregadas por caixeiros-viajantes grosseiros, as

pequenas escapadelas de maridos ocasionalmente infiéis - em suma, uma longa lista.

Neste livro só se incluem as orgias de carácter ou origem sexual, e isto por dois motivos

concomitantes, a saber: o superior interesse que representam para toda a gente e as dificuldades

que obstam ao reconhecimento e definição, propriamente como orgias, de algumas delas de outra

natureza.

A orgia serve ao propósito útil de não somente prover ao alívio de tensões causadas por

abstinências (necessárias, estas, ou não), mas também de reanimar por contraste o apetite para as

monótonas temperanças que representam parte inevitável da vida quotidiana. Daí ter sido utilizada

por certascomunidades sociais tão marcadamente diferentes entre si como por

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exemplo, os povos da Grécia Antiga e (essa, de má vontade) a Igreja cristã medieval.

Existe ainda, todavia, mais uma espécie de orgia: a individual. Essa não é, na verdade,

essencialmente organizada, nem tolerada pelo Estado ou pela sociedade, visto que surge da

equação gratuitamente estabelecida pelo indivíduo, face à sociedade ou ao Estado com o

sentimento de reclusão e cerceamento que o aflige. Essa imputação é muitas vezes justificada,

sendo, por outro lado, algumas vezes errónea ou inexactamente concebida por si.

Estas últimas são as mais interessantes e menos banais: o rebelde é aí uma figura mais perplexiva

do que conformista e, neste particular campo de estudo, foi ele o que nos mereceu atenção mais

acurada. Caso algum desses tipos tenha recebido um tratamento desproporcionadamente extenso

da nossa parte, esperamos que sejam compreendidos os nossos motivos de autor.

Ambas as espécies de orgia, a do conformista e a do rebelde, podem ser reduzidas a um só e mesmo

princípio - o do escape a uma qualquer tensão intolerável. Uma delas poderá bem lograr êxito,

desde que incida sobre a verdadeira raiz do mal consumptivo; e, se não a acompanharem mui

aflitivos sentimentos de culpa e auto-repulsa, é provável até que continue a funcionar sem maiores

sobressaltos.

A outra espécie - a do rebelde - pode também ser satisfatória, se é que a equação imputadora da

opressão à responsabilidade do meio social se prova legítima; mas, mesmo assim, o orgiasta

expõe-se a permanecer um solitário e, tudo somado, um indivíduo nada feliz - pois ter-se-á

provavelmente excedido na sua peculiar forma de reacção, que o terá arrastado até a um grau de

licença que não lhe será propriamente inata.

Os dois primeiros capítulos versam sobre os orgiastas da espécie conformista (Grécia e Roma),

mas foi uma ou outra dessas duas diferenciadíssimas modalidades que os subsequentes ”rebeldes ”

tenderam a escolher como norma, motivo pelo qual importa muito que se tenham presentes à

lembrança as naturezas latina e helénica, e então estará aberto o caminho a uma tentativa de

apreciação ética do assunto.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

OS GREGOS

Aos que pensam que as grandes realizações e o êxito na vida dependem de subtileza mental e

destreza verbal e que a inteligência é incompatível com a ingenuidade, a esses o estudo da

maneira de viver e do pensamento dos Gregos provocará uma reveladora surpresa.

Como nação, os helenos realizaram maravilhas de arte, de pensamento e de teorização política

tais que não encontraram rivais que os superassem, se é que jamais foram ao menos igualados,

por mais de uma dúzia de séculos. Não obstante, no que diz respeito à vida prática de cada dia,

os Gregos baseavam o seu comportamento e os seus ideais num hedonismo

extraordinariamente ”simplório” e sensualístico. Diferiam da maioria dos povos modernos ao

serem imunes a essa moléstia que a tanta gente aflige hoje em dia, a fixação num alvo ou

objectivo na vida, excluídos todos os demais, e a busca semiobsessiva desse absorvente

objectivo, acompanhada da subestimação de quaisquer outras alternativas possíveis.

Os Gregos eram idealistas e entusiastas por tudo o que interessava à sua vida, consideravam a

juventude como um bem especialmente precioso e as alegrias dessa fase como a suprema

felicidade. A beleza e o amor eram, acima de tudo, votados aos prazeres da existência, que eles

almejavam, e o ideal proclamado pelos seus bardos. A saúde merecia-lhes apreço, porquanto

sem ela não se alcançaria facilmente a felicidade, e esta era a única finalidade da vida. Saborear

prazenteiramente a vida em geral era uma prerrogativa digna de se batalhar por ela, segundo

julgava Sólon. Por toda a parte, nos seus escritos e na vida particular de cada cidadão, os

esforços dos Gregos denotavam anseios idealísticos; e não pelo dinheiro nem tão-somente pela

sede de prestígio, nem ainda por alguma esdrúxula situação na existência humana. A cultura

helénica é, por inteiro, um hino em louvor do prazer, cuja

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natureza era uma intensa e requintada sensualidade. Em todos os níveis intelectuais, o povo

discernia a essencial parte que o materialismo voluptuoso representava nas coisas humanas. Só

depois de velho é que Sófocles emitiu a conhecida observação de que a velhice merece ser

louvada, porque nos liberta da sujeição à sensualidade. A atitude do grego perante o desejo era

muito diversa.

O poeta Simónides pergunta: ”Seria deleitosa a vida dos mortais sem a existência da felicidade

dos sentidos? Não é, porventura, a vida dos bem-aventurados deuses bem pouco de invejar-se

sem isso?”

Os deuses gregos, que talvez reflictam a natureza dos seus fiéis helénicos mais flagrantemente

do que ocorrerá com os de qualquer outra mitologia e civilização, são, igualmente, sujeitos à

contingência dos desejos e dos prazeres da carne.

No oitavo canto da Odisseia há uma cena particularmente significativa, na qual Afrodite se

abandona a ilícitos gozos de amor nos braços de Ares, o deus-Sol. O marido, Heféstion, o deus-

coxo, conclama todos os outros deuses para que venham testemunhar o adultério daquelas duas

divindades; e, no entanto, ao contemplar aquele espectáculo, disse a Hermes o divino Apoio,

filho de Zeus: ”Ó Hermes, filho de Zeus e seu mensageiro, ó tu que és o dispensador das

benesses, em verdade gostarias, mesmo que te retivessem, muito embora, enleantes peias,

gostarias de te reclinar em tépido tálamo ao lado da áurea Afrodite?” Ao que interpôs o

mensageiro Argeifonte: ”Saberás tu, divino arqueiro Apoio, que, quanto a mim, quem mo dera,

que tal me caísse por sorte... pois, então, ainda que me atassem peias três vezes mais enleantes,

vós todos, ó deuses, e todas vós, deusas, também haveríeis de ver e estarrecer, ai!, que outra

coisa não faria eu senão deitar-me ali também, ao lado da deusa Afrodite, a dos cabelos de

oiro!” - e como de tal maneira discorresse o astuto mensageiro, farto gargalhar rebentou dos

divertidos deuses imortais. Como se vê, nem uma palavra de repulsa moral, mas apenas uma

gargalhada e aprazimento contém o comentário das olímpicas personagens sobre esse episódio,

em tomo de semelhante motejo à fidelidade conjugal, devido à própria deusa do Amor. É que

as convenções que regiam o comportamento sexual, tais como vigoravam então, tinham força

de lei apenas civil: o conceito de ”pecado” daí aduzido só apareceria mais tarde, com a

civilização cristã.

Megaclides, o historiador, censura os poetas por salientarem, em demasia, os trabalhos e as

provações de Hércules, o herói nacional grego, quando este andou sobre a Terra a conviver com

a Humanidade. Frisa ele quanto se comprazia o semideus, e intensamente, nos gozos sensuais,

o vasto número

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de mulheres que desposou e o incontável de filhos que engendrou. Quanto gostava ele de comer

e de se banhar, que até, em toda a Grécia, era de uso um leito especialmente macio que se

conhecia, qual denominação industrial, pelo nome de Hércules. Megaclides ataca os poetas,

pois, não pelo mero facto de negligentemente omitirem um importante aspecto da vida de

Hércules, porém, sim, porque com esse descuido lhe estariam a lançar um sacrílego insulto.

Sem embargo, gente muito equilibrada eram os Gregos, para se entregarem a uma vida de

perpétuos festins e destemperas. Sabiam reconhecer na castidade o valor de aperitivo essencial

para a impudicícia e, também, que as delícias eróticas, por muito sedutoras que fossem, nem

por isso haveriam de ser ininterruptas. Mesmo assim, olhavam a sensualidade como assunto

muito sério e, como tal, versavam-na os seus escritores.

Ateneu de Náuclia, no duodécimo capítulo do seu Delpnosofistas, discorre sobre a noção de

prazer de um modo teórico, daí enveredando por um desdobrar de exemplos arrebanhados

dentre diversos povos, a começar pelos Persas, mostrando-nos como era que cada povo sabia

encher a existência com folguedos e libertinagens, a cuja exposição fazia seguir um rol de

homens afamados pela vida lasciva que levavam.

Segundo Heraclides, o rei dos Persas possuía um serralho de trezentas mulheres, as quais

”dormiam o dia todo, a fim de permanecerem despertas à noite; mas, ao serão, cantam e tangem

harpas, continuamente, enquanto as lâmpadas não se consomem; e então, o rei frui delas os

seus prazeres, como suas concubinas que são”. As ditas mulheres costumavam, aliás,

acompanhar o soberano às expedições cinegéticas1.

Os Lídios, no dizer de Xanto, costumavam castrar não somente rapazinhos, mas também

meninas, para empregá-los na qualidade de eunucos, nos palácios dos poderosos senhores de

então.

Os habitantes de Síbaris introduziram o costume dos banhos quentes e foram, também, o

primeiro povo que fez uso de vasos nocturnos em banquetes.

Na cidade de Tarento, na Baixa Itália, afirma-o Clearco, o povo local, após haver ”conquistado

a força e o poder... progrediu tanto em hábitos de luxo, que chegou ao ponto de fazer amaciar

toda a pele do corpo, assim inaugurando a prática da depilação, que passou a todos os outros

povos. Todos os homens vestiam um manto transparente, rematado por uma fímbria

Expedições de caça (N. do E.).

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purpurina... louçanias que hoje em dia são um requinte e apanágio das modas femininas. Mais

tarde, porém, cegos pela paixão do luxo até ao desmando, arrasaram a cidade de Carbânia, dos

lafígios, fizeram reunir no templo daquela cidade os meninos, as meninas e as mulheres na

plenitude da vida e ali montaram um espectáculo, expondo nus aqueles desgraçados para a

lúbrica contemplação de quem quisesse, durante o dia; e quem bem o quisesse podia também

saltar sobre as pobres criaturas como o fariam lobos esfaimados sobre um rebanho e então

fartar a sua luxúria nos belos corpos das vítimas ali encurraladas e à sua mercê”. Pelos vistos,

no entanto, os deuses desaprovaram essa particular forma de sensualidade, pois os devassos

vieram a ser fulminados pelos fogos do céu.

É forçoso, neste ponto, concordar que, antes de se aventurar alguém num amplo panegírico do

viver dos Gregos, se impõe ter em conta o tratado de Heraclides Pônticos, discípulo de Platão e

filósofo por mérito próprio. No seu ensaio Sobre o Prazer, afirma que a vida requintada é

prerrogativa das classes governantes, relegando-se aos escravos e aos pobres, como o quinhão

que lhes cabia, a árdua lida e o tédio. Todo aquele que sabe apreciar a sensualidade e o luxo é

imbuído de carácter superior ao do que não partilha da sua percepção. Os Atenienses fizeram-se

um povo heróico precisamente em virtude, e não a despeito, da vida sibarítica que se

permitiam. O ponto de vista exposto na primeira parte do referido tratado é desagradável, sem

dúvida, e, se bem que muito dubitável a extensão em que se projectou e traduziu em

comportamento autêntico na prática, não é lícito esquecer que os escravos e os pobres eram

algumas vezes excluídos, tanto mentalmente quanto efectivamente, da própria espécie humana.

É possível que os Gregos tenham, quem sabe, encarado um poucochinho de mais o prazer como

manifestação religiosa, daí sustentando que tudo aquilo que tivesse ou pudesse ter tido,

comportado ou causado prazer, seria, sob quaisquer circunstâncias, um bem. Afinal de contas, o

hedonismo dos Gregos não foi certamente o hedonismo de J. S. Mill.

Voltemos à lista de Ateneu de Náuclia. Os habitantes de Colofónia jamais haviam

contemplado, segundo ele, o crepúsculo ou a alvorada, em toda a sua vida, visto que, ao dealbar

do dia ainda estavam eles bêbados e, ao vir o ocaso, já o estavam outra vez.

Sardanápalo, o último rei assírio, redigiu para si mesmo o seguinte epitáfio: ”Fui rei e,

enquanto me foi dado contemplar a luz do Sol, comi, bebi e rendi culto às alegrias do amor,

sabedor de quanto é transitória a vida do homem e sujeita a tanta variação e infortúnio e que

outros colherão a messe dos bens que deixo depois de mim. Por esse motivo, pois, não deixei

passar

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dia que fosse sem guardar fidelidade a esse modo de vida.” A sua filosofia era a do autor do

Edesiastes, ainda que algo diversa a conclusão para que se encaminhou.

Aristóbulo descreve-nos um monumento a Sardanápalo que admirou em Anquiale. A mão

direita da estátua descreve-a ele como em acção de estalar os dedos. A inscrição, que nos

transmite, rezava o seguinte: ”Sardanápalo, filho de Anacindaraxes, construiu em apenas um

dia Anquiale e Tarso. Comei, bebei e folgai, pois o mais que resta não vale tanto.”

O orador Lísias narra-nos a seguinte anedota acerca de Alcibíades e Axíoco: ”[eles] fizeram-se

à vela, juntos, em demanda do Helesponto e desposaram, os dois ao mesmo tempo, em Abido,

uma mesma mulher, Medontis de Abido, e com ela coabitaram. Tempos depois, nasceu-lhes

uma filha, cuja paternidade ambos declararam não poder esclarecer. Mas, ao tomar-se a mesma

casadoira, os dois coabitaram com ela também; pois, sempre que possuía Alcibíades, era

alegando gozar o amor da filha de Axíoco, enquanto que, por seu turno, este último dizia

possuir a filha daquele.”

Clearco refere, acerca de Dionísio, o Moço, tirano da Sicília, o seguinte caso:

”Quando Dionísio alcançou a sua cidade natal, Locris fez atulhar de rosas e tomilho bravo a

casa mais bonita da cidade, após o que mandou vir as moças de Locris, uma de cada vez,

despojando-as, e a si próprio, de todas as vestes e, nus os dois, rolavam sobre o leito, ali

praticando todo o género de obscenidades imaginável. Pouco depois, ao terem os ultrajados

maridos e pais em seu poder a própria esposa e a prole do tirano, forçaram esses reféns a

cometer indecências à vista de todo o mundo e abandonaram-se a toda a espécie concebível de

devassidão. Após terem satisfeito naquelas vítimas a sua concupiscência, meteram-lhes agulhas

sob as unhas e, por fim, deram-Ihes morte.”

Estrabão refere também essa mesma história, acrescentando ainda o pormenor de que, após

preparada a câmara, soltavam-lhe para dentro alguns pombos com as asas aparadas, os quais as

raparigas, nuas como estavam, eram forçadas a perseguir e pegar, algumas inclusive obrigadas

a calçar sandálias desemparelhadas, sendo uma de salto baixo e a outra de salto alto.

Demétrio de Falero, que foi por muitos anos governador de Atenas, era dado como gozador de

secretas orgias com mulheres e nocturnos ”casos” com rapazes; tinha um considerável zelo pela

sua aparência pessoal, havendo inclusive tingido os cabelos com um absurdo matiz alourado e

pintado o rosto, à faceira.

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A tese de que o prazer era o verdadeiro objecto da existência era apoiada por toda uma escola

filosófica, a de Aristipo, o qual, através de toda a sua vida, demonstrou a fé que depositava na

sua própria filosofia, e teve como amante Lais, uma notável hetera.

A maior parte dos homens arrolados na lista de Ateneu de Náuclia merecem antes comiseração.

Pertencem à categoria dos rebeldes e as suas orgias representam uma tentativa no sentido de

escaparem a algo mais poderoso e mais inexorável do que os meros travões das convenções.

Eles foram nada mais do que casos individuais, nunca figuras representativas da raça,

porquanto os Gregos, nunca o esqueçamos, atingiram uma forma de atitude perante os assuntos

sexuais jamais igualada, desde então, na sua realística sanidade. Hedonistas, sim, sê-lo-iam;

mas suficientemente sensatos para saberem que o prazer, de natureza unicamente sensual, cedo

esmaece, se não alternar com períodos de repouso e abstinência.

Poderíamos fornecer muitos outros exemplos, e fá-lo-emos, de extremos de luxúria e

devassidão no mundo helénico. Em primeiro lugar, há que considerar de forma ligeira o

conceito grego de matrimónio e a sua atitude face às mulheres em geral. Tendo apreciado a

”mulher-mãe”, está-se capacitado para a comparar com a ”mulher-rameira” e então passar-se-á

à atitude grega perante as hetairas, a religião, os festivais eróticos, os jogos, as orgias do género

”social” e a assombrosa ubiquidade da homossexualidade.

A natureza do matrimónio grego e a posição ocupada pelas mulheres no mundo helénico são

factos excessivamente difíceis de configurar sob forma de imagens compreensíveis, a esta

distância no tempo; e se tentarmos fazê-lo com base nos modernos padrões iremos deparar em

seguida com uma densa massa de material indiscutivelmente contraditório que nos lançará a

mente em plena confusão.

Logo de início, vemos a variadíssima condição das mulheres em diferentes partes da Grécia. A

impressão geral que se recebe é que as mulheres, lá, passavam a vida numa semi-reclusão e

sujeição; mas, ao passo que algumas delas viviam trancadas a sete chaves, no ginaekonitis, o

gineceu, sob a guarda de um feroz molosso, já na Lídia era coisa tida como corrente e aceite

que as raparigas solteiras comprassem para si mesmas os seus vestidos e amealhassem um dote

à custa de prostituição.

Sem embargo deste último exemplo, pouca dúvida existe de que, no que tange à liberdade

física, pessoal, as mulheres gregas nos pareceriam, ao nosso moderno sentir, intoleravelmente

limitadas. Entendiam os Gregos que o lugar das mulheres era no lar e que a sua função, como

animal que era, consistia em desempenhar os misteres de dona-de-casa e mãe. Não tinha que se

imiscuir

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na vida literária, nem tão-pouco lhe era lícito andar pela rua desacompanhada. Isto, no entanto,

e por incrível que nos pareça, não se deve necessariamente interpretar como indicativo de se

encararem então as mulheres como seres inferiores, mas apenas criaturas diferentes,

comportando função diferente da dos homens na vida, diferente mas, de modo algum, inferior à

deles. Se era tolerado aos maridos o adultério, mais do que se o consentia às esposas, isso

devia-se a que os Gregos viam legitimidade nos instintos polígamos dos homens em contraste

com os, pelo menos teoricamente, mais monogâmicos que atribuíam às mulheres. Aventuras

sexuais extramatrimoniais eram toleradas a estas, contanto que não fossem elas de nascimento

livre, isto é, não escravas, nem fossem casadas com outro homem. Devassidão de mulher-mãe

ou esposa era outra coisa. No meio de tudo isto, vislumbrar-se-á, sorrateira, uma estranha

semelhança com os modos de ver a vida da recente época vitoriana; lá estava uma análoga

espécie de repartição separando as cortesãs das mulheres ditas ”de respeito” - a tal divisão mãe-

rameira. A diferença entre as duas sociedades reside no facto de o ponto de vista vitoriano se

projectar no preceito de que a actividade sexual era coisa que não se podia impor contra a

vontade ou satisfatoriamente gozar com a boa vontade de uma pessoa pertencente à mesma

classe social. Já os Gregos não pensavam assim. O matrimónio, entre eles, e a despeito da

evidente sujeição das mulheres, era uma instituição social mais civilizada e satisfatória do que o

vitoriano. Podia-se obter o divórcio sob alegação de mútua incompatibilidade, situação essa que

se pode comparar, e com vantagem, com a actual fórmula legal. Acima de tudo, existia entre

marido e mulher genuína afeição, cooperação no desempenho das diversas incumbências da

vida em comum e um estado de mútua admiração pelas realizações respectivas. Consta, na

literatura, farta messe de testemunhos da afirmação supra. E quem achar que, por viver reclusa

no âmbito restrito do lar, a mulher grega era uma escrava e que os homens tratavam as suas

esposas como tal, que leia, então, a narrativa da despedida entre Heitor e Andrómaca, na Ilíada

de Homero.

Que a infidelidade conjugal ocorresse no homem e, menos frequentemente, na mulher, isso era

coisa sancionada do ponto de vista hedonístico da vida, entre os Gregos, e menos capaz de

fazer periclitar a solidez do matrimónio por essa razão mesma - ainda que o facto se nos

apresente deplorável perante a nossa moderna moralidade. Os Gregos compreenderam, já

então, o que quase ninguém mais parece ter percebido durante todos os dois mil anos hoje

transcorridos: uma passageira vertigem de concupiscência por A nem por isso é incompatível

com um amor mais permanente por B, tanto que jocosas

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representações dos ardis empregados por esposas gregas para enganarem os seus maridos

aparecem nas comédias de então. E pressentiram também os helenos o que escapou aos nossos

vitorianos, a saber, que restrições impostas às mulheres casadas, convenientes ou não, que

fossem, eram o mesmo que impor-lhes um constrangedor estado de tensão, que melhor seria

deixá-las aliviar de tempos em tempos. Na realidade e no plano emocional, poderão as esposas

gregas ter sofrido ciúmes e revolta, ao saberem das aventuras dos seus cônjuges com as heteras.

Nem teriam sido humanas, se assim não fosse. No plano racional, no entanto, o princípio era

largamente aceite como válido e, ainda que cheirando a cinismo, prudente.

As damas que proviam aquela alternativa ao conúbio matrimonial não eram consideradas meras

válvulas de segurança, conquanto fossem precisamente isso mesmo, sem dúvida nenhuma. com

aquela simplicidade manifesta dos Gregos em todas as questões referentes ao sexo, essas

raparigas eram tratadas muito mais como sacerdotisas do culto hedonístico. A diferença entre a

condição das heteras na Grécia Antiga e as prostitutas da civilização moderna patenteia-se, de

modo vívido e surpreendente, em dois exemplos a ver: os habitantes de Téspias, cidade que a

famosa hetera Frine havia presenteado com uma magnífica estátua do deus Eros, retribuíram-

lhe a fineza encomendando a Praxíteles que esculpisse uma estátua dourada à imagem dela.

Pronta a obra, foi erigida na praça pública, entre as estátuas do rei Arquidamo e a de Filipo, o

que a ninguém escandalizou, em absoluto. Sobre a lápide tumular de Calírroe de Bizâncio lê-se

a seguinte inscrição: ”Fui meretriz na cidade de Bizâncio e servi a todo o mundo o amor que

vendia. Sou Calírroe, a experiente em todas as artes da volúpia. Dilacerado pelas fúrias do

amor, Tomás pôs este epitáfio sobre a minha tumba, assim revelando a paixão que lhe habitava

na alma; o seu coração desfez-se, tão derretido como a cera.”

As heteras, que eram tidas como superiores às simples prostitutas de bordel, e cujos preços

reflectiam tão elevado conceito, eram admiradas pela posse de qualidades intelectuais, não

menos que as físicas, muito embora possa tomar-se objecto de irónicas dúvidas o precisar-se até

que ponto uma das duas prendas sobrelevaria a outra, numa avaliação objectiva total.

Tais personagens eram frequentemente convocadas a concorrer com os seus préstimos em

prestígio do culto de Afrodite. Em Corinto, cidade constantemente mencionada na literatura

grega como famosa pela libidinagem dos seus habitantes (”do desenfreio e licenciosidade da

vida nesta metrópole, do antigo empório tão rico e tão bem aquinhoado pela natureza, seria

difícil lavrar-se um relato a que alguém pudesse acoimar de exagerado”, diz-nos

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Licht). Ou, conforme conta o valioso Ateneu: ”Tem prevalecido a usança segundo a qual a

cidade, sempre que oferece preces a Afrodite em imponente procissão, carreia para esta o maior

número possível de heteras, as quais também dirigem preces à deusa e se apresentam na

cerimónia do sacrifício e respectiva festividade.” A prostituição litúrgica, nos templos,

verificava-se em muitas localidades, destacando-se entre elas Corinto, Chipre e Abido. Nesses

templos era costume trazer ao vencedor dos Jogos Olímpicos, algumas vezes, um presente

constituído de raparigas.

Acerca do templo de Afrodite Pornea, em Corinto, escreveu Estrabão: ”O templo de Afrodite

era tão sumptuoso e rico, que podia manter um milhar de heteras que eram dedicadas à deusa e

visitadas tanto por homens como por mulheres. Por causa destas raparigas, afluíam até lá

multidões de forasteiros, do que resultou o enriquecimento da cidade.” (O facto de Afrodite, ao

mesmo tempo que era a deusa do amor, poder aparecer como ”Afrodite-prostituta”, denota a

ausência de ilusões do mundo helénico em relação à natureza humana).

Luciano apresenta-nos um relato sobre o templo de Biblos: ”Em Biblos vi também o grande

templo de Afrodite e conheci as orgias que são coisa corrente ali. Os habitantes da cidade têm a

crença de que a morte de Adónis sob os colmilhos de um javali se deu ali no seu país e, em

memória do facto, batem no peito e carpem, todos os anos, sendo que, por ocasião dessas

comemorações fúnebres, dão-se grandes sinais de pesar através de todo o país. Ao terminarem

com os murros no peito e as lamentações, passam então a efectuar as exéquias de Adónis e, no

dia seguinte, fazem de conta que ele despertou novamente para a vida, põem-no no seu céu e

raspam as próprias cabeças à maneira dos egípcios em sinal de luto pela morte do boi Ápis.

Mas toda a mulher que recuse deixar que lhe cortem os cabelos padece o seguinte castigo: num

dia marcado, é ela obrigada a prostituir-se publicamente, e a ela só permitem concorrer os

forasteiros, e a renda daí auferida é então entregue ao templo da Afrodite.”

Essa ideia, da actividade sexual encarada como coisa que pudesse aplicar-se à guisa de meio

punitivo, é estranha a todo o resto da vida grega. O conceito segundo o qual o instinto sexual é

um maravilhoso dom da natureza ou dos deuses, levando o indivíduo até ao contacto místico

com a divindade, benesse que é forçoso aproveitar-se e pela qual se deve mostrar a devida

gratidão mediante oferendas à deusa, bordeja perigosamente, diga-se mesmo paradoxalmente, a

atitude contrária, pela qual o referido instinto se toma uma força que exige apaziguamento e

sacrifício.

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Estado de coisas muito semelhante deparar-se-nos-ia entre os babilónios, em ligação com o

culto de Milita, a equivalente babilónica de Afrodite. Por lei vigente entre esse povo, toda a

mulher devia, uma vez na vida, dirigir-se ao templo de Milita e aí prostituir-se ao primeiro

forasteiro que se lhe apresentasse. Na versão de Heródoto: ”Muitas mulheres, orgulhosas das

suas grandes riquezas e querendo conservar-se acima da gente vulgar, viajam em viatura

cerrada e coberta, acompanhadas por uma porção de servas, dirigindo-se ao templo... uma vez

ali sentada, uma mulher não poderá retomar a casa enquanto um dos forasteiros não lhe tiver

atirado no regaço uma moeda de ouro e tenha tido relações com ela na parte externa do templo;

ele, porém, ao atirar-lhe a peça de dinheiro, deverá acompanhar o gesto com a frase

sacramental: ’Eu te reclamo em nome de Milita.’”

As heteras mantiveram amizade com grandes homens de todo o género: soldados, filósofos,

artistas. Quando Alexandre, o Grande, derrotou Dário, marchou sobre a Babilónia, tomou a

cidade de Susa e entrou depois em Persépolis, a antiga capital; aí foi celebrado um espectáculo

em que uma horda de heteras desempenhou importante mas desastrosa parte. Regidas e

incitadas por Tais, a qual já tinha conseguido uma ligação com o próprio Alexandre, sem

embargo dos rumores correntes sobre contrariantes interesses por parte desse grande

conquistador. Foi ela quem lhe sugeriu que deitasse fogo ao palácio persa, quem se pôs à frente

dos incendiários bêbados, com acompanhamento de cânticos, tanger de flautas e danças

bacanais e, ainda, atirou pessoalmente o primeiro archote aceso.

O emprego de heteras profissionais nas festas religiosas já foi aqui referido. As afrodísias,

embora não oficialmente reconhecidas, nem por isso eram menos apreciadas e eram celebradas

por todo o território grego. Constituíam, muito simplesmente, festas em honra de Afrodite, das

quais raramente se ausentavam prostitutas e heteras. Uma dessas festas particularmente

conhecidas pelas heteras eram as afrodísias de Egina, onde Frine se comportava da maneira

descrita por Ateneu: ”Mas era Frine realmente a mais bela, com os seus velados encantos de

onde resultava não ser fácil conseguir-se vê-la nua, pois ela trazia em volta do corpo uma

roupagem muito justa às suas formas e jamais fazia uso dos banhos públicos. Mas na festa da

Eleusínia e da Poseidónia, à vista de todos os helenos, ela costumava despir o mantéu, soltar a

cabeleira e entrar nas águas do mar, tanto que Apeles fez dela o modelo da sua Afrodite

Anadiómena, a que surge do mar.”

As numerosas prostitutas de Corinto comemoravam as afrodísias à sua maneira particular,

lasciva e turbulenta. A cerimónia, conhecida pelo nome de ”pannychis ” (palavra que depois as

heteras adoptaram como a carinhosa

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e favorita designação delas mesmas), prolongava-se pela noite dentro. Muito embora se

tratasse, teoricamente, de festividade, não passavam os respectivos ritos de pouco mais que um

simples bacanal lúbrico e uma infrene bebedeira. As ”potrancas de Afrodite”, ”quase nuas sob

as suas roupagens de tenuíssimo tecido... vendiam os seus favores por tuta e meia, para que

todos pudessem permitir-se gozá-los”.

O festival de Afrodite Ansósia, celebrado na Tessália, participava da mesma natureza, excepto

quanto à circunstância de ser totalmente de carácter homossexual (entre mulheres, aliás). Não

abundam pormenores,” mas sabe-se que aí tinha maior relevo o uso da flagelação erótica.

Outros festivais de carácter inequivocamente erótico e mais ou menos de âmbito nacional

foram as dionisíacas, aparentadas de muito perto com as ”liberalia”, a idolatria romana de

Líber, deus dos pomares e das bagas (quod vide), e com as Lenea, a festa dos lagares e da

vindima. Esse festival destacava-se pela celebração de um grande banquete, largamente

subsidiado pelo Estado, e de um cortejo dançante que percorria a cidade e a que se comparecia

em trajos de fantasias - representando-se ninfas, bacantes, sátiros, etc. -, tudo acompanhado de

desbragadas troças e piadas de toda a espécie, no fundo e antes de tudo, de sentido erótico. Em

Março e Abril comemoravam-se as festas do Elaphebolion (mês correspondente, no calendário

ático), ou seja, as Dionisíacas da Cidade. Coros cantavam ditirambos em honra de Dionisos,

davam-se bailados desempenhados por mancebos formosos e ao entardecer toda a gente se

postava pelas ruas, deitada em leitos e a beber desmedidamente. Uma representação fálica,

senão mesmo diversas imagens de phalli, era imprescindível entre os ornamentos da folgança.

Em certas partes da Grécia, especialmente em Citera e no Parnasso, bem como nas ilhas,

realizava-se uma ”dionísia” exclusiva, na qual só tomavam parte mulheres feitas e raparigas. À

noite, ataviadas de fantasias de Baco, incluindo a pele de bode, cabeleira alvoroçada e as mãos

brandindo instrumentos musicais, elas galgavam o pico de um monte próximo e, estimuladas

pela actividade anormal, excitadas pelo vinho que, em geral, raramente ou nunca provavam nas

suas vidas, fora dali, celebravam lá em cima bailados e sacrifícios que rapidamente assumiam a

categoria de orgias.

Pausânias, verdadeiro ”Baedeker” para as coisas da Grécia Antiga, diz, a propósito da

referência de Homero aos ”locais de bailados do Panopeus”, que semelhante referência o

deixara muito intrigado, até ao dia em que lhe explicaram o tópico ”as mulheres às quais os

atenienses denominam de thyiadas”, bacantes, sacerdotisas de Dionisos. ”Essas thyiadas são

umas mulheres da Ática que, juntamente com as da Délfica, se dirigem todos os

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anos ao monte Parnasso, onde realizam orgias em honra de Dionisos. Essas mulheres têm por

hábito fazer as suas danças em várias localidades à beira da estrada que vai para Atenas, um de

tais pontos sendo o Panopeus.” A certa altura, falando da gruta coriciana (da ninfa Corícia, mãe

de Apolo), declara ele: ”Os píncaros elevam-se acima das nuvens e, neles, as thyiadas

entregam-se a desvarios em honra de Dionisos e Apolo.”

É preciso aqui especificar a natureza dessas celebrações dionisíacas, pois elas eram distintas,

sob um importante aspecto, do género de festa da fertilidade que todos conhecem. O grego,

uma vez empolgado por alguma força que o compelisse a agir de maneira diversa daquela que

normalmente adoptaria, justificava os seus impulsos, naturalmente com suficiência, dizendo-se

”possesso dos deuses”.

Contrariamente ao que ocorria com os Romanos, nos Gregos esse sentimento incutia atitudes

de admiração, que não de obediência, mas fazia, também, com que se desse valor a tudo aquilo

que conduzisse à consecução de um estado de ”teolépsia” - comunhão íntima com a divindade.

Isso explica aquilo que à mente moderna parece difícil de entender, como seja, o como e o

porquê de os Gregos encararem o amor às libações alcoólicas, às danças e ao coito com um

sentimento de reverente temor religioso.

A finalidade do culto era, pois, propiciar um acto que os Gregos tinham em conta de

religiosamente nobilitante, muito embora, nos nossos dias, um psicólogo configurasse tal

atitude ética sob terminologia bem diversa, e que um superficial exame objectivo das acções

verificadas naqueles festivais nos deixasse, como resíduo, a impressão de uma orgia de

lubricidade.

Sem embargo, aquelas festas eram também aproveitadas como oportunidades e recursos hábeis

ao relaxamento de tensões sexuais, asserto válido, por igual, para o culto da fertilidade, ainda

que este último possa ter sido considerado uma forma de encantamento, de invocação dos

deuses, para se obter deles, por associação de ideias, feliz êxito nas colheitas agrícolas.

Pelo Outono, celebravam-se os afamados Mistérios de Elêusis, misteriosos efectivamente. A

cerimónia durava nove dias, sendo a sua exacta natureza coisa difícil de se estabelecer. A ideia

que estava na sua base tinha a ver com o evanescimento e subsequente revitalização do grão.

De mistura com isso, iam vagas noções ou anseios de humana imortalidade.

Os primeiros dias dessa festa eram passados em procissões ao mar e banhos e demais

purificações, de ordem ritual, nem sempre verificados sob normas de decoro e pudor. Ao sexto

dia, saía de Atenas com destino a Elêusis uma procissão. Os que a acompanhavam - e

contavam-se, por certo, por milhares - iam coroados de mirto e hera, e levavam nas mãos

archotes e espigas

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de milho. Uma vez atingida Elêusis, que ficava a nove milhas - uns quinze quilómetros de

distância, o restante do prazo adjudicado às celebrações era preenchido com actividade

esotérica, ruidosa e transbordante de jovialidade, sendo, não obstante, atribuída a Titínios a

brutal afirmação de que o incesto também se incluía entre os demais pontos salientes dos ritos.

A maior parte das cerimónias que comportavam cópula cerimonial e outros actos orgíacos

comportavam, igualmente, um período de abstinência.

Nas thesmophoria de Demétrio, na Ática, por exemplo, uma das únicas verdadeiramente

nacionais e cujo conhecimento chegou até aos nossos dias em parte através das

Thesmophoriazusae de Aristófanes: ”Todas as mulheres que desejassem participar da festa

eram obrigadas a abster-se de relações sexuais durante os nove dias precedentes. A solércia dos

sacerdotes impunha essa condição como um dever de piedade, um acto de religião, cuja

verdadeira razão, entretanto, era, claro está, fazer com que as mulheres, acicatadas por longa

privação, pudessem partilhar das orgias eróticas com menos contenções. Para se fortalecerem

nessa castidade preparatória que se lhes exigia e que provavelmente achavam bastante árdua de

manter, as damas punham sobre os seus leitos ervas e folhagens refrescantes, entre estas

especialmente o Casto-Cordeiro, ouAgnus Castus (”que toma improdutiva”, segundo uma

logomaquia grega) e outras plantas do género. De acordo com Pócio, porém, por esse tempo as

mulheres comiam alho a fim de afugentar os homens, apavorados com o fedorento odor do

hálito delas.

Era, no entanto, no culto e homenagens a Afrodite que se efectuavam as mais sumptuosas,

empolgantes e dissolutas celebrações. Pois foi ela, Afrodite, quem trouxe aos Gregos e aos seus

mesmos deuses as alegrias do amor. Na mente grega entreteciam-se inseparavelmente e

interdependentemente o amor e a beleza. Ali, sim, mais do que em quaisquer outras

oportunidades, havia causa para júbilos e gratidões: para singela, porém entusiástica, expressão

das emoções. E Afrodite é também a deusa da Primavera; a das flores; especialmente da rosa e

do mirto, com que se engrinalda e envolve todo o corpo, ao atravessar as florestas. Os animais

silvestres acompanham-na, afagam-na. A Primavera, portanto, era a estação em que se

realizavam, em maior número, as festas afrodísias.

Em Chipre, ilha repleta de flores, coberta de frutos e embalsamada pela fragrância duma

imensidão de botões a desabrocharem, todos esses encantos galardoados pela própria Afrodite,

ali, em Pafos, o local onde a deusa nascera, à beira-mar, era onde tinha início a mais famosa e

grandiosa das cerimónias do seu culto. Banhava-se carinhosamente no mar a imagem sagrada,

cobria-se de

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flores, tudo isto a cargo de raparigas que, em seguida, se banhavam também, como preparação

para as subsequentes orgias de amor, nos frescos regatos que corriam sob bosques de mirto

sagrado, através de vales escondidos sob espesso tapete de amendoeiras em botão. Os deuses

dos Gregos representavam a própria expressão do sentir no corpo e alma dos seus fiéis helenos,

como que magnificentes modelos de tudo aquilo que estes eram em verdade ou quereriam para

si mesmos. Diversamente dos Romanos, que se valiam das suas divindades como de bodes

expiatórios, aos quais pudessem atribuir a manifestação de forças que não desejavam

reconhecer como naturais, sendo o seu culto assente num espírito de união, não de obediência.

(Diz-nos Seleuco, todavia, que não constituía costume ancestral a complacência nas libações e

em outros excessos dos sentidos, excepto por ocasião de alguma festividade sagrada.) As

estátuas de Afrodite representam sempre uma mulher que encarna nas suas formas todos os

padrões concebíveis e reconhecidos da beleza feminina em cada pormenor. Parece que os

Gregos nutriram sempre particular estima pelo traseiro humano e assim é que, com aquela

deliciosa simplicidade que jamais se encontraria alhures, eles erigiam estátuas, erguiam templos

a Afrodite Calipígia, a diva de lindas nádegas, à qual rendiam o seu culto idolátrico com aquela

graça e aquele indisfarçado entusiasmo que caracterizavam a raça. E isto, se aceitarmos a

opinião de Ateneus, decorria das seguintes circunstâncias:

”Um lavrador tinha duas lindas filhas que, certa vez, se puseram a disputar, chegando a

desafiarem-se no meio da estrada para decidirem qual das duas possuía nádegas mais bonitas.

Um dia passou por ali um mancebo cujo pai era um rico ancião e logo as duas litigantes

expuseram à vista e veredicto do moço o seu ’pomo de discórdia’, ao que, tendo

suficientemente contemplado as prendas, ele deu o seu parecer em favor da mais velha das duas

irmãs; e o facto é que se apaixonou por esta, a tal ponto que, ao tomar à sua casa na cidade,

meteu-se na cama, adoentado, contando ao irmão mais novo o episódio. De modo que esse

irmão se dirigiu também ao campo para contemplar as protuberâncias traseiras das duas irmãs

rivais, ficando também, por seu turno, amoroso, porém da outra irmã, previamente vencida. Eis

que o pai dos rapazes lhes pediu, então, que pelo menos saíssem em busca de matrimónio mais

respeitável, mas, não conseguindo demovê-los, trouxe as duas jovens daquela herdade para os

dois filhos, mediante o consentimento do velho lavrador e uniu-as em matrimónio aos rapazes.

Por isso, as duas raparigas ficaram sendo conhecidas na cidade como ’as belas nádegas’, canta

o satírico Cércidas de Megalópolis em seus versos jâmbicos. É sua a troça ’havia em Siracusa

uma parelha de irmãs de formosas nádegas’. Pois

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foram essas mesmo que, chegando a possuir uma grande fortuna, fundaram o templo de

Afrodite sob a invocação de ’Afrodite das Formosas Nádegas’, segundo o confirma, também,

Arquelau.”

Pode ver-se no Museu Nacional de Nápoles uma estátua dessa Afrodite Calipígia. Erótica, não

há dúvida, porém despida de qualquer traço de grosseria de todo não atribuível ao romantismo

e à reverência que tendem a tolher-nos a apreciação de peças dos museus, essa estátua oferece-

nos um momentâneo e parcial, mas também esclarecedor, olhar sobre a atitude helénica perante

o sexo e a vida.

Os jogos atléticos dos Gregos eram uma forma de expressão da delícia com que o povo

cultivava o corpo humano e suas capacidades. Para a gente da nossa época, habituada ao uso de

roupas, é muito difícil entender os motivos que os Gregos teriam para justificar a nudez

naqueles prélios, ou ainda mensurar o grau de erotismo presente na sua atitude diante deles.

Que um certo sentimento de vergonha, isto sim, lhes advinha antes do facto de envergar

roupagens e não da circunstância contrária, e que eles admitiam quaisquer peças de vestuário,

quando muito, por exigências climatéricas ou de higiene - eis uma noção hoje em dia tão

difundida que se tomou um lugar-comum. Entendiam os Gregos que agasalhar as partes íntimas

tão-somente, quando o resto do corpo se deixava ao vento, desembaraçado de panos, dava a

impressão de um certo desprezo ou vergonha dos genitália quando, na realidade, a opinião que

eles nutriam a respeito destes era precisamente oposta a isso, pois os genitais somente lhes

inspiravam gratidão e respeito aos numes imortais, como o instrumento, deles granjeado, para

sublimes prazeres e para o milagre da procriação.

O erotismo, no entanto, se é que aí constava, era só conscientemente ausente daqueles

entretenimentos, imperceptivelmente mesclando-se-lhe a admiração de uma espécie de função

física, misturada com uma outra de diferente tipo.

Em Mégara, realizavam-se na Primavera os jogos ”Diocleicos”, em honra do herói nacional

Díocles; por essas ocasiões, procedia-se aí a um concurso de beijos de formosos meninos,

pleito que assim nos descreve Teócrito: ”Em volta do túmulo dele (Díocles), assim que chega a

Primavera, as crianças competem num prélio de beijos e o menino que souber pousar lábios

sobre lábios com mais doçura, de lá regressa à genitora carregado de grinaldas.”

Em Esparta, onde o comportamento e a maneira de ver a vida diferiam acentuadamente dos do

resto da Grécia, a ”Gymnopaedia”, ou dança dos meninos nus, dava-se anualmente à guisa de

preito e comemoração de guerreiros

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espartanos tombados em Tirce. As homenagens constavam de danças e demonstrações de

ginástica efectuadas por meninos completamente desnudos. Essa festividade, longe de ser

considerada então sob certa luz de folgança descuidada, era antes tratada sob tais extremos de

veneração que até se lhe atribuía preferência sobre tudo o mais.

Ao chegar à sua cidade natal, ao regressar dos Jogos Olímpicos, o respectivo vencedor era

submetido a um tratamento de honrarias e festejos em profusão. Coroado de louros e enfeitado

de flores, transpunha os portais dos muros; entoavam-lhe cânticos, erigiam na agora, no centro

da cidade, estátuas à sua imagem. E daí por diante passava a ser tratado, para sempre, como

cidadão ilustre. O seu triunfo era tão magnífico quanto o de um general romano e a superior

competência dos Gregos em matéria de fausto é assunto que sobrepaira a quaisquer dúvidas,

para os que saibam julgar sem preconceitos.

Danças por motivo de várias festividades religiosas exclusivamente locais pululavam um pouco

por todo lado na Grécia Antiga. Já aquela modalidade de baile que hoje conhecemos nos nossos

tempos, como forma de sociabilidade, essa era, naturalmente, ainda desconhecida ali. Para a

Hélade de antanho, a dança era um meio de representação por arte mímica de ideias e emoções

do íntimo (e, como vimos, estímulo à consecução de um estado de catarse anímica). As eróticas

- refiro-me àquelas que não se ligavam necessariamente à religião - eram de uso geral. Entre

estas ficaram famosas a célebre ”Sicinnis” e a ”Cordax”. Segundo o moderno modo de julgar,

ambas seriam consideradas claramente e acima de tudo obscenas, já que comportavam

movimentos e posições significativos, bem como a supressão de todas as peças de vestuário. Os

sátiros, nos dramas satíricos, eram apresentados por bailarinos a desenvolverem um bailado que

uma tremelicante melodia de flautas acompanhava, e bem assim à peça toda.

A dança entre os convidados masculinos e as servas ”porta-taças” do anfitrião constituíam um

procedimento usual nos banquetes. Nesses casos aplaudir-se-ia, até, a lascívia pura e simples,

enquanto a falta de elegância e autodomínio eram condenados e desprezados pelos comensais.

Cleistenes, senhor de Sicião, tinha uma filha, Agarista, cuja beleza era tão notável que os

pretendentes à sua mão enchiam-lhe a casa durante mais de um ano, até que um dia ele se valeu

de uma oportunidade para meticulosamente pôr à prova os candidatos. No fim das

investigações, Hipocleides parecia ser o mais recomendável de todos e, assim, no dia em que se

encerraram as provas, houve um banquete em que os cortejadores da jovem exibiram os seus

dotes sociais e mesmo musicais. Hipocleides, que se desregrara

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um tanto nas libações, executou uma sugestiva dança ao som das flautas, chegando por fim a

exceder-se tanto em desatinos, que acabou por se plantar sobre a mesa de cabeça para baixo, e

as pernas a agitarem-se no ar. A isso, o quase sogro, que afinal já perdera a serenidade e a

paciência, disse ao moço que este acabara de também perder a noiva. Respondeu-lhe,

incontrito, o alucinado bailarino: ”Ora, Hipocleides não se importa!...” e, às gargalhadas,

abandonou a sala do festim.

Compostura e seriedade eram, aos olhos dos Gregos, as conquistas pessoais mais importantes.

Os porta-taças dos banquetes eram, quase que invariavelmente, meninos. A maneira de oferecer

a taça era considerada uma grande arte - da qual, segundo Xenofonte, os que mais entendiam

eram os Persas. Conta-nos Luciano, a respeito, uma historieta interessante:

”Eu notara que um formoso escravo jovem, que fora colocado no serviço de apresentação de

taças, se postara atrás de Cleodemo, a sorrir; e fiquei curioso por saber a razão disso. Pus-me,

então, a observá-lo cerradamente, de modo que, quando o belo Ganimedes se abeirou

novamente para recolher a taça vazia das mãos de Cleodemo, descobri que este último lhe

roçava o dedo e, ao fazê-lo, pareceu-me que junto com a taça lhe depositava na mão tocada um

par de dracmas. Ao sentir o dedo tocado, novamente sorriu o rapaz, mas eu quero crer que nem

percebeu a presença das moedas. Em consequência disto, as duas dracmas rolaram para o

pavimento com o característico ruído, diante do que tanto o filósofo como o efebo coraram

fortemente!”

Cleodemo pretendeu, então, negar que tivesse algo a ver com aquele dinheiro, o moço imitou-

lhe a atitude, mas o dono da casa, à vista do incidente, achou melhor mandar retirar dali o servo

suspeito. A vergonha, para Cleodemo, está em duas circunstâncias: a sua incapacidade para o

autodomínio emotivo, sendo ele, no entanto, um filósofo, isto é, um sábio; e o ter-se permitido

algo, mínimo que fosse, de entendimento com um escravo.

Conquanto as mulheres provavelmente jamais fossem utilizadas como servidoras de taças, não

há dúvida de que estavam presentes raparigas, fossem como escravas ou como heteras, as quais,

por brincadeira, chegado o ponto em que a embriaguez imperava, podiam ser induzidas a vazar

o vinho dos picheis. Essa função, todavia, como encargo permanente, permanecia privilégio e

responsabilidade de escravos adolescentes.

Às dançarinas e aos tangedores de flauta cabiam finalidades múltiplas, porquanto, além de

satisfazerem, até certa medida ou modalidade, os apetites sexuais dos convivas, competia-lhes

até mesmo atender às funções de entretenimento apontadas pelas suas designações

especificamente profissionais.

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A gente de Colofónia (à qual já nos referimos), no dizer de Filarco, ”promulgou uma lei, que

ainda hoje vigora, estabelecendo que as flautistas e as harpistas, bem como outras artistas

públicas, ganhem salários a contar da manhãzinha cedo até ao meio-dia e desta hora até o

acender das lâmpadas...” E Teopompo afirma, acerca dos Tessálios, que ”passam a vida,

alguns, perpetuamente em companhia de dançarinas e tocadoras de flauta, ao passo que outros

consomem o dia inteiro a jogar, a beber e entregando-se, em suma, a análogas formas de

dissipação...”

Os Cárdios, talvez para variar, ”haviam exercitado os seus cavalos a dançar ao som de gaitas,

nas suas festas báquicas, de maneira que, erguendo-se no ar sobre as pernas traseiras e, como

quem diz, gesticulando com as dianteiras, as alimárias dançavam efectivamente, acostumadas

como estavam às melodias das gaitas”. Este curioso costume acabou por ser a sua desgraça,

pois os seus inimigos procuraram e compraram uma daquelas raparigas flautistas da Cárdia,

que ensinou a um grande número de músicos as melopeias a que os animais se habituaram a

acompanhar dançando, por forma que, ao desenrolar-se a batalha, a cavalaria cárdia se viu

subitamente dispersa pela intervenção da fatal música.

O receio de que a luxúria viesse a derrubar a força e a segurança militares parece ter sido o

argumento de maior peso em seu desfavor, e com certa dose de razão. Polícrates, tirano de

Samos, foi destronado em consequência da sua permanente preocupação com os prazeres - ou,

consoante Clearco -, ”Polícrates, tirano de Samos, arruinou-se por causa do seu dissipado viver,

posto que até se dava à emulação com os lídios em práticas efeminadas”. Levado por isto,

construiu na cidade o famoso ”bairro” de Samos, destinado a rivalizar com o parque existente

em Sardis e a que denominou de ”Doce Amplexo”: e, para competir com os floreios (isto é,

produtos e coisas afins ao prazer) da Lídia, entreteceu aquelas grinaldas sâmias largamente

gabadas. De tais inovações resultou que fosse o ”quarteirão sâmita” um jardim alcatifado de

mulheres profissionais do gozo, além de que dali saiu literalmente a empanturrar toda a Hélade

um extenso cardápio de todas as espécies de comidas que espicaçavam a sensualidade e a

incontinência. Aliás, as ditas floradas sâmitas consistem também nos vários encantos de

homens e mulheres. Mas enquanto a cidade em peso se achava imersa em descuidadas festas

públicas e avinhadas orgias, chegam os Persas, que a atacam e dela se apoderam. Os

Lacedemónios, mais prudentes, viviam atentos às condições físicas dos seus guerreiros,

fazendo o exército desfilar em parada uma vez por semana, estando os soldados completamente

nus,

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para detectar princípios de obesidade e outros indícios de relaxamento pessoal nos seus

homens. Também uma vez por semana se procedia, entre eles, à inspecção geral das camas,

para se ter a certeza de que não haveria quaisquer amaciamentos de colchões que amolecessem

a tropa, minando-lhe o moral.

As generalizações de Ateneus, tanto quanto as fontes de informação em que bebera, uma vez

que abrangem nações inteiras, tomam-se menos valiosas do que os retratos que traça de simples

indivíduos. Alguns destes esboços pessoais já aqui os reproduzimos, tais como os referentes a

Dionísio da Sicília e a Sardanápalo. Mas deste último consta ainda mais um episódio que nos

relata Ctésias. É o caso de Árbaces, um seu súbdito provindo da Média, que desejou encontrar-

se com o soberano; e, através de uma trama de intrigas, conseguiu ser recebido. ”Ao ser

admitido à presença, viu o rei de cara empastada de alvaiade, coberto de jóias como uma

mulher, e a enrolar lã púrpura em companhia das suas concubinas, entre as quais se achava

sentado de joelhos para cima, sobrancelhas pintadas de negro, vestido de mulher e barbeado

bem escanhoado, a face esfregada com pedra-pomes (ele era ainda mais branco do que o leite e