História do Brasil por Afrânio Peixoto - Versão HTML

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História do Brasil

Afrânio Peixoto (1876-1947)

Fonte digital

Digitalização da 2ª edição em papel

Biblioteca do Espírito Moderno - Série 3.ª - História e Biografia

Cia. Editora Nacional - 1944

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© 2008 Afrânio Peixoto

USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL

HISTÓRIA

DO

BRASIL

Suceda o que suceder, o Brasil será

sempre uma herança de Portugal.

ROBERT SOUTHEY — “História do Brasil”.

Londres, 1819, v. 3.º, c. XLIV, págs. 697.

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Afrânio Peixoto (Júlio A. P.), médico legista, político,

professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário,

nasceu em Lençóis, nas Lavras Diamantinas, BA, em 14 de

dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de

janeiro de 1947. Eleito em 7 de maio de 1910 para a Cadeira n.

7, na sucessão de Euclides da Cunha, foi recebido em 14 de

agosto de 1911, pelo acadêmico Araripe Júnior.

Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e

Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante e homem de

boa cultura, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao

longo de sua vida de autodidata. Criado no interior da Bahia,

cujos cenários constituem a situação de muitos dos seus

romances, sua formação intelectual se fez em Salvador, onde se

diplomou em Medicina, em 1897, como aluno laureado. Sua

tese inaugural, Epilepsia e crime, despertou grande interesse nos

meios científicos do país e do exterior. Em 1902, a chamado de

Juliano Moreira, mudou-se para o Rio, onde foi inspetor de

Saúde Pública (1902) e Diretor do Hospital Nacional de

Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de

Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro

(1907) e assumiu os cargos de professor extraordinário da

Faculdade de Medicina (1911); diretor da Escola Normal do

Rio de Janeiro (1915); diretor da Instrução Pública do Distrito

Federal (1916); deputado federal pela Bahia (1924-1930);

professor de História da Educação do Instituto de Educação do

Rio de Janeiro (1932). No magistério, chegou a reitor da

Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de

relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país,

aposentou-se.

A sua estréia na literatura se deu dentro da atmosfera do

simbolismo, com a publicação, em 1900, de Rosa mística,

curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso

em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor

renegou essa obra, anotando, no exemplar existente na

Biblioteca da Academia, a observação: “incorrigível. Só o

fogo.” Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa,

com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no

campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de

arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à

Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto

de Faria, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao

casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Em 1906, submeteu-se

às provas do concurso em que ganharia as cadeiras de Medicina

Legal e Higiene. Quando da morte de Euclides da Cunha

(1909), foi Afrânio Peixoto quem examinou o corpo do escritor

assassinado e assinou o laudo respectivo.

Ao vir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser

médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a

publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica

avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi

levado em decorrência de sua eleição para a Academia

Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se

achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior. Começou

a escrever o romance A esfinge, o que fez em três meses. O

Egito inspirou-lhe o título e a trama novelesca, o eterno conflito

entre o homem e a mulher que se querem, transposto para o

ambiente requintado da sociedade carioca, com o então

tradicional veraneio em Petrópolis, as conversas do

mundanismo, versando sobre política, negócios da Bolsa,

assuntos literários e artísticos, viagens ao exterior. Em certo

momento, no capítulo “O Barro Branco”, conduz o personagem

principal, Paulo, a uma cidade do interior, em visita a familiares

ali residentes. Demonstra-nos Afrânio, nessa páginas, os

aspectos da força telúrica com que impregnou a sua obra

novelesca. O romance, publicado em 1911, obteve um sucesso

incomum e colocou seu autor em posto de destaque na galeria

dos ficcionistas brasileiros. Na trilogia de romances

regionalistas Maria Bonita (1914) Fruta do mato (1920) e

Bugrinha (1922), que foi violentamente criticada pelos

modernistas, é importante a análise psicológica das personagens

femininas.

Dotado de personalidade fascinante, irradiante,

animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso

conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra

inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio

popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio

Peixoto.

Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu

à Comissão de Redação da Revista (1911-1920); à Comissão de

Bibliografia (1918) e à Comissão de Lexicografia (1920 e

1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923,

promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a

doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon,

construído para a Exposição da França no Centenário da

Independência do Brasil. Ainda em 1923, deu início às

publicações da Academia, numa coleção que, em sua

homenagem, desde 1931, tem o nome de Coleção Afrânio

Peixoto.

Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu

intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de

obras que publicou em dois versos: “Estudou e escreveu, nada

mais lhe aconteceu.”

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico

Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia

Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri

e de outras instituições.

Principais obras: Rosa mística, drama (1900); Lufada

sinistra, novela (1900); A esfinge, romance (1911); Maria

Bonita, romance (1914); Minha terra e minha gente, história

(1915); Poeira da estrada, crítica (1918); Trovas brasileiras

(1919); José Bonifácio, o velho e o moço, biografia (1920);

Fruta do mato, romance (1920); Castro Alves, o poeta e o

poema (1922); Bugrinha, romance (1922); Dicionário dos

Lusíadas, filologia (1924); Camões e o Brasil, crítica (1926);

Arte poética, ensaio (1925); As razões do coração, romance

(1925); Uma mulher como as outras, romance (1928); História

da literatura brasileira (1931); Panorama da literatura brasileira

(1940); Pepitas, ensaio (1942); Obras completas (1942); Obras

literárias, ed. Jackson, 25 vols. (1944); Romances completos

(1962). Além dessas, publicou obras de outros autores e

numerosos livros de medicina, história, discursos, prefácios.

Fonte: ABL

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Prefácio

I — ANTECEDENTES

Cavilização mediterrânea

As especiarias

As navegações

Comércio

II — REVELAÇÃO

A segunda armada: o Brasil

A data

O descobrimento

O nome

A terra

A gente

Ainda Cabral

Precursores de Cabral

III — PRIMEIRO SÉCULO

Homens e fazendas

Brasil, sem proveito

Capitanias

Governo Geral

O “Brasil Esquecido”

IV — PRIMEIRO SÉCULO (II)

Os primeiros governadores

Os Franceses

Entradas e bandeiras; cativeiros, resgates, descimentos

Fim de Nóbrega, Mem de Sá, D. Pedro Leitão

A situação de Portugal

V — SEGUNDO SÉCULO

Os Franceses no Maranhão

Os Holandeses no Brasil

A restauração de Portugal e a de Pernambuco

Entradas e bandeiras. Escravidão vermelha

Escravidão negra

Monopólio e rebeldia

Remate

VI — TERCEIRO SÉCULO

Emboabas

Mascates

Os Franceses no Rio de Janeiro

“Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas”

As minas gerais

Limites com Espanha

Jesuítas

Pombal

Sintomas de rebeldia

VII — QUARTO SÉCULO

A Família Real e a Corte acolhem-se no Brasil, tornado

metrópole do Reino Unido. Desenvolvimento correlato. Torna

D. João VI a Portugal. D. Pedro e a Independência. Abdicação

de D. Pedro I

VIII — QUARTO (II) E QUINTO SÉCULOS

A Regência

D. Pedro II

Guerra com o Paraguai

Abolição dos escravos

A República

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A história não é um arquivo, ou relicário de memórias

evocadas: seria de pouco préstimo. Ao contrário. A história é

uma criação contínua da vida. Além do documento, que

aparece todos os dias, alterando o juízo, esse juízo, com o

mesmo documento, muda com as gerações, dada a

sensibilidade diferente das gerações sucessivas... A evocação

deve ser animada para ser ressurreição. Daí o dito razoável de

historiador contemporâneo, Jacques Bainville: de vinte em

vinte anos devia-se reescrever a história.

A do Brasil ainda não foi escrita: mas há ensaios. Meio

milhão de documentos, no Arquivo Colonial, em Lisboa, estão à

espera dos pesquisadores. O grande ensaio de Varnhagen e

seus colaboradores, (só porque pesquisou alguns documentos)

de tão bom, já é como missal, de que as notas de Capistrano e

Garcia são como iluminuras. Afonso de Taunay, último

bandeirante, não tornou ainda, rematando a História Geral das

Bandeiras. Só agora aparecem os primeiros tomos das

revelações econômicas de Simonsen. Pedro Calmon ensaia um

sentido da civilização no Brasil. Está começando a História da

Companhia de Jesus no Brasil do Dr. Serafim Leite, S. J., sem a

qual, dissera Capistrano, não se poderia escrever a própria

história do Brasil. Fora longo citar todos os ensaios, volumosos

alguns, de grande mérito. Esse é mais um ensaio...

Exíguo, limitado, como ensaio confessado, que é:

apenas o Brasil vem de Portugal, que está no mundo: coméço

do comêço, como deve ser. Por vezes raio pela moral e pela

sociologia: não inovo, se, para os clássicos, as datas e fatos

faziam apenas documentos, para ser acreditada a história de

“mestra da vida”. Isto é velho, mas é renovado, pela opinião de

Benedetto Croce, quando diz que toda história é história

contemporânea. A humanidade não é tão original, que não se

repita.

Mas o ensaio tem razão de existir. Duas vezes, na vida,

obrigaram-me à promissória: a Academia Brasileira,

fazendo-me seu, obrigou-me a escritor; a Academia Portuguesa

da História, elegendo-me, inesperada e surpreendentemente,

obriga-me a cumprir comigo, e é disto culpada. Justificado,

entretanto, o ensaio... Na hora de um duplo centenário, o da

fundação e o da restauração da nacionalidade, o que um

brasileiro patriota, de melhor, pode oferecer, à Pátria da sua

Pátria, é a história mútua, essa história da América

Portuguesa, história do Brasil...

( 1940)

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CIVILIZAÇÃO MEDITERRÂNEA. — AS ESPECIARIAS. —

PORTUGAL. — AS NAVEGAÇÕES. — COMÉRCIO. — AS ÍNDIAS.

— O BRASIL.

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A comunicação entre homens é a causa primeira da

civilização: nestes contactos, a convivência multiplica ações e

reações psicológicas, que se tornam experiências e colaborações

inovadoras e afinam o homem em sentimento, inteligência,

vontade, como fazem iniciativas, empresas, progresso social.

O maior incentivo da comunicação é o interesse, todos

os interesses, dos mais imediatos e prementes, aos mais

transcendentes e espirituais. O gozo comum das utilidades,

depois a fruição pessoal delas, a troca entre posses, finalmente o

tráfico — trabalho, indústria, comércio, já civilizado ou

intercâmbio. Montesquieu pôde, pois, dizer: “A história do

comércio é a história da comunicação dos povos”.

Antes de um domínio, de qualquer maneira social, os

Gregos disseminados pela bacia do Mediterrâneo, entre si

comunicantes, criaram mais do que a Grécia, — Creta,

Micenas, Argos, Esparta, Tebas, Atenas... efêmeras expressões

políticas — fatos apenas mais impressionantes — criaram o

Helenismo, disperso por todo o Mediterrâneo, fazendo ao

mundo de então, e ainda ao de hoje, uma incomparável

irradiação de poder, indústria, espírito e moral, que

conquistaram a terra. E, do Mediterrâneo, essa cultura

transbordou e penetrou em continentes longínquos: antes de

Alexandre chegar às Índias, traficantes gregos tinham chegado à

China. Antes de os Cruzados nórdicos virem civilizar-se no

Mediterrâneo, ao contacto do Império Cristão do Oriente, já

Fenícios, Cartagineses, Gregos, Romanos tinham devassado o

Mar do Norte, até a última Tule. O périplo de Hamon é meio

circuito da África. Ofir ou Sofira, na Bíblia, é Sofala, na Índia.

A comunicação fora acendendo pequenos focos de cultura,

dispensando o prestígio político, tardio e ineficiente para tanto.

A Europa conheceu o Oriente, que lhe veio, penosamente, pelas

caravanas, da Índia ao Mediterrâneo.

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Conheceu a Europa, assim, as especiarias dos trópicos.

Esse supérfluo tornou-se necessário. O clima ajudara a religião

a vestir os homens e, demais, a evitar os banhos — Michelet

pôde dizer, da Idade-Média: nem um banho, em mil anos! — E,

no corpo não lavado e na roupa não mudada — a roupa branca

interna, a camisa, começa a aparecer só depois de 1330 — as

excreções fazem repugnância, incomodidade, repulsão. Os

perfumes tropicais, sândalo, mirra, benjoim, incenso, misturas,

essências, cânfora, tinturas, foram um alívio e um deleite. Com

as essências e os perfumes, o suntuário que agrada à vista,

tapetes, sedas, cetins, telas, damascos, jóias, porcelanas, mil

objetos exóticos invadiram a Europa e tudo era “especiaria”.

Mas, as dominantes, eram as do gosto. A Europa não

aprendera ainda a sucessão sazonal das colheitas, nem tinha

como guardar alimento, da estação calmosa para a estação fria.

Por faltar forragem aos bovídeos, durante o inverno, eram

abatidos, os mais deles, em Novembro, aos primeiros frios, em

todo o Norte, e salgada a carne para o consumo dos meses

seguintes. Não havia a batata, que é americana, nem os legumes

já eram do hábito da mesa, nem a estação os permitiria. O

regime alimentar era, pois, severo e ingrato: trigo e carne

salgada. O tempero, as especiarias tropicais, pimenta, cravo,

canela, gengibre, noz moscada... foram bênçãos do céu... festa

do apetite e alegria do gosto. Dado o hábito, tal suntuário

transforma-se na mais exigente necessidade. O parco mel de

abelhas teve o sucedâneo milagroso do açúcar, a princípio nas

boticas, de tão precioso, depois nas mercearias. O chá, o café, o

cacau, como fora o álcool, viriam a ser delícias desse gosto,

tanto e tão severamente tratado durante séculos.

Por isso, o comércio de especiarias do Oriente, das

Índias, pelos desertos da Arábia e da Síria até o Mediterrâneo,

ou por via de cabotagem, pelo Golfo Pérsico, Mar Vermelho,

até o Istmo de Suez, para o mesmo Mediterrâneo, com escalas

medrosas, comércio em que viriam a primar Gênova e Veneza,

destribuidoras das especiarias ao resto da Europa, por

Nurembergue, Lião, Bruges... aos portos, e ao interior da

Europa medieval, esse comércio, digo, era questão tão vital à

humanidade, como é hoje o senhorio dos mares pelo interesse

insular da Inglaterra, que ora permite ao mundo

intercomunicar-se. Antes, o enriquecimento que esse tráfico

trouxera às cidades italianas, provocara o surto de cultura que é

das causas do Renascimento, por isso mesmo ajudando o

estímulo à competição.

Quando os Turcos tomaram Constantinopla (1453),

quando suas armadas dominaram o Mediterrâneo, quando

Veneza se pôs em guerra contra a Turquia, já seria a

necessidade: o comércio no Mediterrâneo entrou em decadência

e a Europa insistiu noutro caminho, outros caminhos

empreendera para conseguir as especiarias que foram o

incentivo das Navegações e da Revelação. “E, se mais mundo

houvera, lá chegara”. ( Lus., VII, 14).

Haviam as Cruzadas ensinado aos Nórdicos o caminho

marítimo, até o fundo do Mediterrâneo: depois dos périplos

piedosos, vieram os lucrativos tráficos marítimos. As conquistas

religiosas haviam aproximado o Oriente de entrepostos, Rodes,

Chipre, Beirute, Grécia, Egito, antes de Pisa, Gênova,

finalmente Veneza, dominante, onde todo o norte da Europa

tinha armazéns, feitores e representações. Comprava-se e

vendia-se e a mercadoria caminhava via terrestre ou marítima.

Além dos produtos exóticos, as indústrias regionais: vidros,

rendas, drogas farmacêuticas, e com isso o tráfico de escravos,

negros, muçulmanos, dálmatas. A moeda de ouro e prata, o

primeiro banco, que datava de 1141, uma frota de 3 a 4.000

navios, governo de plutocratas servindo ao lucro individual e

coletivo, tinham feito, de Veneza, a cidade cosmopolita,

monopolizadora do comércio das especiarias. Isto despertaria

emulação, incentivo e concorrência: os Turcos no Mediterrâneo

iriam ajudá-las.

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Além do Mediterrâneo, nas terras mais ocidentais da

Europa, estava Portugal. Desprendido de Leão, o pequeno

condado por Afonso VI doado a sua filha e genro, Dona Teresa

e Dom Henrique, iria afirmar-se autônomo sob o filho deles,

Dom Afonso Henriques, o primeiro rei, que já em 1137 bate

Afonso VII na batalha de Cerneja: está Portugal independente e

há-de crescer para o Sul... de Guimarães a Leiria, a Lisboa. Os

Cruzados, de passagem (1147), ajudam-no a tomar Lisboa ao

Infiel, como ajudaram Dom Sancho I a tomar Silves, a outra

capital árabe do sul (1189).

Costas a Espanha, a elevada meseta pára aí, e Portugal já

desce vertentes, por onde correm o Minho, o Vouga, o Douro, o

Tejo, o Guadiana, até o mar. Essa descida da serra, através de

degraus e socalcos, que produzem pão e vinho e azeite, e fazem

a Monarquia agrária dos reis Afonsinos, irá dar, ao apelo do

Atlântico, em face, provocando pescadores, ensinando a

cabotagem, com a experiência e a aventura, a navegação do alto

mar. Essa navegação de cabotagem, as colônias fenícias,

cartaginesas, helenas — Lisboa pretende vir de Ulisses e Viana

de Diómedes... — romanas, tiveram experiência, à vista, do

longo curso dos mares do Norte e do Sul, nesses Cruzados. Já

no fim do século XII traficantes portugueses são denunciados

em Marselha e Mompilher [=Montpellier-NE]. Em 1194

naufraga no Mar do Norte, nas costas da Holanda, um barco

português, carregado de mercadoria. Em 1213 João-sem-terra já

autoriza mercadores portugueses a levarem a mercância a seus

domínios. A escritura de concórdia de 1238, de Sancho II, o

decreto aos habitantes do norte ( Toti populo a minio usque ad

daurium) de Afonso III, em 1253, o foral de Gaia em 1255, o de

Viana em 1258, demonstraram que no inter-século XII e XIII

havia tráfico useiro de comércio, com França, Flandres,

Holanda e Inglaterra. Em 1293 negociantes de Lisboa fundam

em Flandres uma bolsa de comércio para auxílio ao tráfico com

os países setentrionais. Já Dom Fernando, em 1380, protege a

marinha mercante, de naus de mais de cem toneladas, isentas de

direitos sobre madeira, ferro e qualquer importação, e até de

impostos “em fintas e talhas nem em sisas” e para proteger os

armadores e marítimos fundara a Companhia das Naus (1). Em

1383 têm negociantes portugueses casa própria em Bruges,

onde se reuniam, antes de trasladada a Antuérpia.

Se o comércio pacífico olhou o norte, o do sul exigiu a

conquista. Quando Afonso III põe fora do Algarve os últimos

Mouros (1249), surge a sugestão de África, do outro Algarve

africano — “Alharb” é o poente ou ocidente, donde também,

para os Portugueses, como para os Mouros, “Algarves d’aquém

e d’além mar”, como um todo indivisível. — Este “Algarve

d’além mar em África” é um apelo.

Dom Deniz [=Dom Diniz=Dom Dinis NT] ajuda a

fundar, definitivamente, em Coimbra, o “estudo geral” ou

Universidade, começado em 1290: é um farol espiritual, de

endereço atlântico, no limite ocidental da Europa: símbolo

dessa missão espiritual que ia caber a Portugal, de primeira mão

— derramar a cultura mediterrânea no mundo, pelas

Navegações.

No mesmo sentido importará marinheiros genoveses

para pilotos e mestres de marinha militar: o Almirante Micer

Manuel Peçagno, de Gênova, sucede, em 1317, ao

almirante-mor lusitano e terá sempre com ele “vynte homens de

Genua sabedores de mar”. (Daí esses Dória, Spinola,

Cavalcanti... que passam a ser nomes nossos). É a experiência

do Mediterrâneo, invocada e transplantada. O pontífice Bento

XII, na bula Gaudemus, testifica que ele formava “dentro de

pouco tempo marinheiros tão ousados e dextros como

dificilmente se poderiam encontrar noutra parte”. Os pinhais

para conter as dunas, que fizera plantar em Leiria, irão servir de

sementeira às naus, assim previstas por Dom Deniz. Como quer

que seja, já em 1336, sob Afonso IV, os Portugueses

redescobrem as Canárias.

Se a dinastia agrária dos Afonsinos já cede aos apelos

marítimos, a de Aviz far-se-á ao mar e, daí, além do tráfico, as

conquistas. Com Dom João I, satisfazendo as ambições

belicosas da nobreza e de luxo da burguesia, Portugal vai a

África e toma Ceuta (1415): era Infiel a bater, mas o Infiel não

interessa em Espanha, declinando Portugal do auxílio invocado

para o expelir de Granada: Ceuta, tomada, impede a Espanha de

a tomar, e Ceuta é, em Marrocos, centro de caravanas, celeiro

de cereais e base militar para proteger a navegação contra os

ninhos de piratas marroquinos. Dom Henrique, armado

cavaleiro na mesquita muçulmana feita templo cristão, vê, ouve,

pondera, para resolver. O norte de África era sonho, até o Egito,

até o lendário Preste João das Índias, suposto cristão e portanto

aliado natural contra o Infiel e seu comércio, que dominavam o

Mediterrâneo... As especiarias pelo norte de África seriam

possibilidade. Chegou-se e entrar em conversações. De 1402 a

1425 viriam seis embaixadas à Europa e cinco outras no sentido

contrário, foram à Etiópia: a de 52 foi mesmo endereçada a

Dom Henrique(2). Em 87 Dom João II dará o último arranco,

mandando Pero de Covilhã e Afonso de Paiva em busca do

Preste. A boa política exige realidades imediatas.

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Mas Ceuta foi decepção: posto isolado em meio hostil e,

ao demais, agora trocada por Túnis, pelas caravanas que vêm do

Soldão com especiarias, era entretanto, como disse Dom Pedro,

um dos “inclitos infantes”: “sumidouro de gente, de armas e de

dinheiro”. O outro caminho, o das navegações, daria mais

resultados. Dom Henrique, com as rendas do seu mestrado de

Cristo, ia dar-se a elas, herdado o impulso do Pai. Ao

Mediterrâneo chegara a galé, com o remo, lenta mas segura na

manobra, pois o objetivo principal era a guerra. O Atlântico ia à

caravela, desde 1440, de trinta metros de comprido, alta para

fender as ondas, arqueação para gente, mantimentos e carga, a

seis milhas ou dez quilômetros à hora, graças ao vento nas

velas. “Os Portugueses inventaram o duplo aparelho: velas

quadradas para o vento de popa, velas latinas para o

barlavento”(3): com isto, o invento português foi este — a

navegação ao largo: Colombo, que a fizera, foi aluno, e até

genro, de navegante português. Depois, outros aprenderam.

Estabelecendo-se entre Sagres e S. Vicente, onde

recebia os navegantes e pilotos e conversava com astrônomos e

cosmógrafos, preparando seus planos de contornar a África,

estavam aí simbolizados os dois endereços das Navegações: o

continente negro a costear antes das Índias, o outro para o

desconhecido, que será a América. E a realidade vai-se

substituindo à vontade, que foi sonho. Porto-Santo e Madeira

conhecidas e ocupadas em 14-23-25, os Açores em 1432, o

Cabo Bojador é transposto em 34. No ano seguinte atinge-se a

ponta da Galé, a 22º12’ lat. N. Em 41 Antão Gonçalves vai até

aí, ao Rio de Oiro, já para carregar azeite e peles de

lobo-marinho e tomar informações “das Índias e terra de Preste

Joham e seer podesse” (Zurara, Crônica... da Guiné, ed. 1854,

cap. XVI, p. 94). Começara a chegar ao reino mercância

africana: peles, malagueta (a concorrente da pimenta

indiana)(5), marfim, ouro em pó, principalmente escravos.

Lançarote de Lagos traz o primeiro carregamento deles, 235

peças, das quais 46, ou o quinto, a vintena, para o Infante. Até

48, quando acaba a Crônica de Zurara, são 927 negros e 125

para o Infante. Os negros invadem Portugal e passam a

Espanha, negociados por traficantes, nobres, príncipes, até por

el-Rei D. Afonso V. Clenardo virá a dizer em 1535: “Os

escravos pululam por toda parte: estou em crer que em Lisboa

são mais que os portugueses de condição livre”. (Cf. Gonçalves

Cerejeira, Clenardo, Coimbra, 1918, t. II, p. 14-5, do apêndice).

Não é novidade, pois já dissera Garcia de Rezende na

Miscelânea: “Vemos no reino meter tantos cativos, crescer e

irem-se os naturais, que se assim for, serão mais eles que nós, a

meu ver”.

Mas, em 43, alcançava-se a Senegâmbia, passava-se o

Senegal, chegava-se à terra dos Guinéus, atingindo o Cabo

Verde, a 14º,4’ lat. N. Em 44 era organizada a Companhia de

Lagos para exploração comercial da costa, arrendado o

monopólio: ainda hoje a tradição mostra, aí, o mercado dos

escravos: a Casa de Guiné foi em Lagos. Em 47 dobra-se o

Cabo dos Mastros. Em 60 exploram-se as ilhas de Cabo Verde.

Quando morre o Infante de Sagres, nesse ano de 1460,

do Cabo Não ao Cabo Mesurado, 1.700 milhas geográficas do

périplo africano estavam reveladas. O Infante não era um

místico, como o romantismo quis fazer dele: era um estadista,

um político, com o trato das realidades: fomentou a cultura do

campo nas terras do seu Mestrado de Cristo; desenvolveu e

criou indústrias novas, a pesca, o coral, a tinturaria, a saboaria,

a moagem; traficou com peles, malagueta, escravos. (Cf. Jaime

Cortesão, História de Portugal, ed. Damião Peres, Barcelos,

1931, t. III, p. 363). Mandou vir a cana do açúcar da Sicília para

a Madeira, onde fez plantar canaviais, fundou um lagar ou

engenho, importou artífices e técnicos, deu privilégio de fabrico

(1452), reservando o terço da produção para o seu erário: o

primeiro doce foi para presente a príncipes e nobres. Depois

chegou-se a prover Lisboa de umas 120.000 arrobas por ano,

para o reino e o restante para Flandres, a Provença, Sul de

França, Veneza. Também fez vir de Chipre a vide doce e seca,

que dá o vinho quente e generoso: dois séculos mais, o vinho

Madeira terá universal renome e substituirá, na pauta, o açúcar,

emigrante para a América. Açúcar, vinho generoso, malagueta,

peles, ouro, escravos eram, antes das Índias, o suprimento

africano das especiarias: o Atlântico já substituindo o

Mediterrâneo.

Depois de Dom Henrique as navegações passam à

Coroa, intensificadas por Dom João II, escoado o interregno de

Afonso V, cujas proezas em África — Alcácer-Ceguer, Tânger,

Arzila — são defensivas contra os ninhos de pirataria

marroquina. D. João II, vivendo ainda seu pai, explora, por sua

conta, — como o pai explorara escravos, a vender para

Espanha, — o comércio e a pesca na Guiné, proibida a

concorrência. Em 81 dará o apoio militar a esse comércio com o

Castelo de S. Jorge da Mina, fortaleza que era, a um tempo,

também armazém ou depósito de mercadoria, a trocar, vender e

comprar. El-Rei teve até navios a frete. “O dono da nação era

agora comerciante, como tinha sido em outros tempos

lavrador”(6).

Mas as navegações continuaram. Em 71 é a Costa de

Malagueta, a Mina do Oiro, no Rio do Lago, chegam do além

do Cabo das Palmas, feito de João de Santarém e Pedro

Escobar. Em 82 chega-se ao Zaire, onde já se chanta padrão de

pedra; em 84, pelo mesmo Diogo Cão, ultrapassa-se o Equador,

que, em 85, fica atrás, no Cabo Negro alcançado. O arranco

definitivo foi, porém, a expedição de Bartolomeu Dias, para

vingar, em 88, o Cabo que chamou Tormentoso, porque o

dobrou em meio de tempestade, e, só de retorno, teve a noção

do triunfo. Atingira e passara a meta. Dom João II mudou tal

nome em cabo de Boa Esperança,(7) “pela que ele prometia —

diz o cronista João de Barros — deste descobrimento da Índia,

tão esperada e por tantos anos requerida”. Acabada a África, a

caminho para a Índia!

Tanta era a obsessão desse caminho, que não se quis ver

mais. Cristóvão Colombo, que habitara a Madeira, casado com

portuguesa, filha do navegador Bartolomeu Perestrelo,

concebera a idéia de chegar à Índia pelo Ocidente. Andou na

Corte de Dom João II “ladrando” o seu requerimento, diz o

cronista João de Barros, “vaidade” disse, dele e seu plano, um

conselheiro d’el-Rei, o bispo Dom Diogo Ortiz. Foi-se a

Castela, onde esteve anos, combatido e motejado, até que a

piedade de Isabel a Católica lhe deu as jóias empenhadas, para

três caravelas. Em 1492 chegava à América, e lá tornaria outras

vezes, sem dissuadir-se que não havia, por aí, caminho para as

Índias. Não importa: é a América, não se sabe o quê, mas

alguma coisa grande será. Será mesmo pretexto para um ajuste

de contas, dos irmãos contrários, Portugal e Espanha. Um papa

espanhol, Alexandre VI (Bórgia), aproveita o momento para

dividir o mundo, pólo a pólo, em duas bandas, entre Espanha e

Portugal: a Bula Inter Coetera é de 4 de Maio de 1493. O

Tratado de Tordesilhas, em que as duas partes limitam estas

suas posses, assim doadas, é de 1494.

Portugal prosseguiria na sua direção, não mais com Dom

João II, que escolhera Vasco da Gama para a empresa dos

Lusíadas, porque morre, mas recolherá Dom Manuel a glória de

chegar às Índias, em 1497. O Infiel pode dominar o

Mediterrâneo: as especiarias têm outro caminho, finalmente,

para chegar à Europa. O monopólio era de Veneza: passa a

Lisboa(8). A pimenta comprada na Índia a três cruzados o

quintal, chegará no Egito a oitenta, e muito mais em Veneza,

pois vai escasseando tanto, que as expedições tornam vazias,

sem um fardo... Depois de Vasco da Gama custará menos de

trinta cruzados, em Lisboa, e haverá a que se queira...

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Essa pimenta, rainha das especiarias, não é apenas um

tempero, mas um símbolo: são as Navegações, as Índias,

Portugal que abandona a Europa atrás dela(9), e encontra o

mundo em caminho... É o que diz o Soldado Prático Português,

de um competente contemporâneo, Diogo do Couto: “o

descobrimento da Índia todo foi fundado sobre a pimenta” (Cap.

XXIII, p. 97), “a cousa da Índia em que mais se põe os olhos”

(Cap. XVIII, p. 77). Por isso o pio Gaspar Corrêa diz dela, com

propriedade, “lume dos olhos de Portugal” ( Lendas da Índia, t.

II, L. II, Cap. I, p. 7) e o que é mais, atribui o pensamento a

el-Rei e a Afonso de Albuquerque. Todo o reino, do rei ao

menor súdito, sonha com a pimenta ou a riqueza. Único ou

“todo” será exagero: negá-lo, seria esconder a evidência.

A “Casa da Guiné” fora em Lagos; a “Casa da Guiné e

da Mina” já era em Lisboa; a “Casa da Índia” vai suceder às

precursoras, e é principalmente a pimenta sucedendo aos

escravos, ao ouro, às peles, à malagueta, à pimenta africana. A

Casa da Índia não era apenas um entreposto, um armazém, era

um ministério, vários ministérios. A princípio nobres e

comerciantes e a tripulação dos navios eram sócios, depois o

Estado, na regra, chamou tudo a si. Os feitores ou feitorias no

Oriente compravam a especiaria, com dinheiro e mercadoria

que iam do reino, armazenavam-na e, nas armadas,

despachavam a mercância, em fardos do peso de quatro

quintais, além das “quintaladas” da tripulação. Em Lisboa

descarregava na Casa da Índia, armazém, alfândega e bolsa que

negociava por conta própria e dos sócios da empresa, o Estado

ou el-Rei, os mercadores, os donos das quintaladas. Vendia pelo

preço que fixava, fixando a quantidade, para não desvalorizar o

produto. As praças de Flandres e Holanda, Alemanha ou Itália

tinham seus agentes, de grandes firmas, Fuggers, Welser,

Hoschstetter, Affaitati, Gualterotti, Frescobaldi... que possuíam

o privilégio da distribuição. À Casa da Índia convergia tudo;

dela é que tudo saía. O movimento por isso era tal que, diz

Damião de Góes, houve ocasiões em que as partes tiveram de

volver nos dias seguintes, por não haver possibilidade de contar

dinheiro a pagar: fato inaudito — não receber, por falta de

tempo... O dinheiro, intermediário universal, foi português: se a

Guiné daria o nome dos “guinéus” pelo seu ouro, o cruzado

português foi, como a libra ou o dólar de hoje em dia, moeda

comum. A bolsa de Desdêmona, no Othelo de Shakespeare,

estava cheia de cruzados: my purse full of cruzadoes (Othelo,

III, 4).

O rei era o primeiro negociante(10). Os fidalgos imitam

o soberano. Os da Casa de Bragança foram dos mais diligentes

e ambiciosos. “A Corte era verdadeiramente uma grande casa

de negócio”(11). Não havia desdouro nisso, bem pelo contrário.

Não foi só pela honra, que o comando das armadas e das naus

era dado a homens nobres, que desconheciam a navegação.

Quando um rei quer pôr cobro a isso, atendendo aos desastres

que esses imperitos trazem à marinha, os fidalgos protestam e

dá-lhes razão o Conselho Ultramarino(12).

E não comandam apenas armadas e naus: são armadores

de navios de comércio e transportes. Na armada que descobre o

Brasil, comandada pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral,

“marinheiro de primeira viagem”, dois dos treze navios são de

nobres comerciantes, um do Conde de Porto Alegre, aio de

el-Rei, o outro de Dom Álvaro, filho do segundo duque de

Bragança, sócio do mercador Bartolomeu Marchioni(13). Na

armada de Tristão da Cunha, uma das naus era propriedade do

Capitão-mor(14). Nas contas da Casa da Índia figura a nobreza

e não se exclui nem o ilustríssimo Afonso de Albuquerque que,

só na frota de 1509, tem mercadoria de mais de um milhão de

reais. Um comandante de armada, Dom Luiz de Almeida,

compra o posto ao Conde da Torre por cinco mil cruzados, e a

Lopo Soares, nomeado Governador da Índia, propõe Dom

Manuel desistir do posto por vinte mil cruzados, ou quatro mil

contos de hoje, que o ambicioso recusou: não seria só pela

honra.

O paço do rei, da família real, da corte, era junto à casa

de negócio: “como qualquer morador da escola antiga, Dom

Manuel estabeleceu a residência no local do seu comércio”(15).

Onde hoje, no Terreiro do Paço, em Lisboa, à direita, olhando o

rio, estão vários ministérios, estavam os Paços da Ribeira e

seguia-se-lhes a Casa da Índia.

A tanto chega “o gosto da cobiça”, verberada pelo Épico

( Lusíadas, X, 145), como antes Garcia de Rezende, na

Miscelânea, fizera a esse “muito negociar”, que, em 1538,

quando Dom João III pensa em mandar, à Índia, uma armada de

quarenta naus para se opor à dos Turcos, em preparativos para

expelirem os Portugueses de seus domínios orientais, muitos

fidalgos que usufruiam comendas se furtaram e aos filhos.

“Alegavam que o descobrimento se fizera para fins de trato e

comércio e não, como as conquistas de África, de guerrear os

infiéis”(16). À insistência do soberano apelam para a Mesa da

Consciência que lhes deu razão(17). Aliás a política dos homens

e dos Estados sempre foi feita de realidades: a interpretação, à

posteriori, é que é tendenciosa, falsificando, com as idéias, os

fatos. Na época ninguém cuidou em dissimular isto, de que não

há vergonha. Dom Manuel, dando conta aos reis de Espanha da

viagem do Gama, diz: “da dita especearya e pedrarya nam

trouxeram logo tanta soma, como poderam, por nam levarem

pera ello aquella mercadorya, nem tanta, como convynha”.

( Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo,

Lisboa, 1892, p. 96). As expedições seguintes levarão mais

dinheiro e trarão mercadoria que farte. Vasco da Gama e Pedro

Álvares levavam intuitos pacíficos e muita recomendação para

isso(18). Foram interesses opostos, de Venezianos, de

traficantes orientais na frente deles, que deram ocasião às

insídias, represálias, desatinos, de parte a parte, que se

descrevem nos Lusíadas e nas Crônicas. Isto é que dá lugar a

que os Portugueses, com os Dom Francisco de Almeida, Duarte

Pacheco Pereira, principalmente Afonso de Albuquerque...

fundem, sobre a violência e a força militar, o Império português

do Oriente, consoante o que disse o Épico: “Quem não quer

comércio busca a guerra”. ( Lus., VIII, XCII). Entenda-se, não o

querem com os Portugueses, porque o têm tratado com os

Venezianos: ainda hoje é a competição do interesse que decide,

por fim, a guerreira; o imperialismo militar é o nome

“patriótico” da irredutível economia... A mercadoria indiana —

canela, pimenta, cravo, gengibre, noz moscada, sândalo,

benjoim, cânfora, perfumes, porcelanas, pedrarias, sedas — ia a

Meca, ao Cairo e daí ao Mediterrâneo. Foi isto que os

Portugueses impediram, pelo prestígio da força, baldados os

meios pacíficos.

A fé e a ciência(19) andaram e serviram ao propósito

das Navegações, mas o fito delas foi a Índia. Dom Manuel,

rematando cronistas e historiadores, resume: “entençom e

desejo... de se aver de descobrir e achar a Ymdya” ( Alguns

documentos. .. da Torre do Tombo, p. 127-8). Por quê? Por

suprir o Mediterrâneo, então vedado, ou difícil, e, por isso,

caríssimo. Para quê? Para obter as especiarias, mais

vantajosamente, por outro caminho(20). O privilégio muda de

posse: eram Venezianos, são agora Portugueses; era Veneza o

empório do Oriente, passa a ser Lisboa... É o que diz esse

mesmo Dom Manuel, intérprete fidedigno de Portugal, no título

pomposo que vem a tomar: “Senhor da Conquista, Navegação e

Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”(21). E ninguém

toma títulos senão os que enobrecem: “titulos muyto famosos”,

disse Castanheda ( Dp. cit. 1. I, Cap. XXIX, p. 71); “tam

honroso quãto ho he ha mesma conquista”, disse Damião de

Góes ( Op. cit., p. I, fl. 45).

As conseqüências morais ou ideais da ação de Portugal

no Oriente não são por isso menos consideráveis: atacando os

Infiéis no Oriente chama para as Índias as possibilidades

muçulmanas, que já não podem investir contra a Europa e

mesmo se enfraquecem no Mediterrâneo. Já em 1571, com a

batalha de Lepanto, eles entram, esses Turcos, em decadência,

nesse Mediterrâneo(22). Apesar do monopólio, as navegações e

o comércio do Oriente não interessaram só a Portugal, senão a

toda a Europa(23), que mais se enriqueceu do que nós, ao

menos a Flandres, a Inglaterra, a Holanda, a quem dávamos

ouro e nos forneciam as manufaturas a traficar com a pimenta.

Portugal pelas especiarias foi à Índia, e, com as

navegações, conheceu mundos novos, estimulando e dando

benefícios ao mundo antigo. O Brasil foi achado, no meio do

caminho...

5(,6 '( 32578*$/

( Desde o começo das conquistas e navegações):

Dom João I (1385-1423).

Dom Duarte (1423-1438): irmão, o Infante Dom Henrique (1415-1460).

Regência do Infante D. Pedro (1440-1446).

Dom Afonso V (1446-1481).

Dom João II (1481-1495).

Dom Manuel (1495-1521).

*

1415 — Dom João I toma Ceuta.

1423 — Bartolomeu Perestrelo vai a Porto-Santo.

1425 — João Gonçalves Zargo e Tristão Vaz Teixeira vão à Madeira.

1427 — Achamento dos Açores, pelo piloto Diogo de Sunis (?) ou Gonçalo Velho

Cabral.

1429 — Gil Eanes vai ao Cabo Bojador.

1432 — Gonçalo Velho Cabral vai aos Açores (Santa Maria).

1434 — Gil Eanes dobra o Cabo Bojador e vai até o Rio do Ouro.

1435 — Afonso Gonçalves Baldaia vai até a Ponta da Galé.

1439 — Sete ilhas dos Açores já conhecidas.

1449 — Dom Henrique manda lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores.

1440 — Antão Gonçalves e Nuno Tristão no Porto do Cavalheiro, Nuno Tristão

vai até o Cabo Branco.

1443 — Nuno Tristão passa o Cabo Branco e vai à ilha de Gete.

1444 — Denis Dias descobre o Cabo Verde.

1445 — Nuno Tristão chega a Senegâmbia.

1447 — Nuno Tristão e Álvaro Fernandes vão até o Rio Tabete.

1449 — Já descobertas nove ilhas do Arquipélago dos Açores.

1453 — Todo o arquipélago dos Açores é reconhecido.

1455 — Aloísio Cadamosto vai até à costa de Gâmbia, na caravela de Vicente

Dias.

1457 — Cadamosto e Antônio de Noli vão até o Cabo Roxo na Guiné e

descobrem cinco das ilhas de Cabo Verde (1460).

1460 — 61 — Pedro de Sintra atinge a Serra Leoa e vai até o Cabo Mesurado.

1461 — 2 — Diogo Afonso descobre as outras ilhas do Arquipélago de Cabo

Verde.

1471 — João de Santarém e Pedro Escobar descobrem toda a Costa da Malagueta,

a Mina de Ouro, chegando além do Cabo dos Palmas, no Rio do Lago.

1469 — 71 — Descobrimento das ilhas do golfo da Guiné: Formosa, Fernando

Pó, Corisco, Ano Bom, São Tomé e Príncipe e da Costa do Gabão.

1481 — Diogo de Azambuja levanta a fortaleza de São Jorge da Mina.

1484 — 5 — Diogo Cão vai até às bocas do Congo e ao Cabo Negro.

1486 — João Afonso descobre o reino de Benim.

1488 — Bartolomeu Dias dobra o Cabo de Boa Esperança.

1497 — Vasco da Gama vai até às Índias.

1500 — Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil.

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A SEGUNDA ARMADA: O BRASIL. — A DATA. — O

DESCOBRIMENTO. — O NOME. — A TERRA. — A GENTE. —

AINDA CABRAL. — PRECURSORES DE CABRAL.