História do Brasil por Afrânio Peixoto - Versão HTML

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Partira Vasco da Gama a 8 de Julho de 1497, com três

naus, São Gabriel, São Rafael, Bérrio e uma barcaça de

mantimentos: depois de mil trabalhos e doenças, tornou,

destroçado, em começo de Setembro de 1499, apenas com dois

navios e um terço da gente. “Avedo dous annos & dous meses q

dali partira (de Lisboa), com cento & corenta & oyto homes, de

que não tornarão mais que cincoenta & cinco & ainda forão

muytos para os immensos trabalhos que passarão, de bravas

tormetas & terríveis doenças... (Castanheda, História da Índia,

1. I, Cap. XXIX). “Os Lusíadas” foram 148, dos quais

morreram de escorbuto e outras misérias 93... Mas o “feito

nunca feito” ( Lus., VIII, 71) estava realizado, e conhecido, e

percorrido, o caminho das Índias. Era, agora, aproveitá-lo.

Foi o que imediatamente empreendeu Dom Manuel.

Apresta-se logo a segunda armada, para a qual Vasco da Gama

indica um capitão, outro fidalgo como ele(1). É Pedro Álvares

Cabral, de Belmonte ( pedraluarjz de guouuea, diz a “Carta da

Capitanya Moor e poderes”(2), que recebe instruções de el-Rei

e conselhos do Gama. São dez naus e três navios pequenos, “mil

e quinhentos homens”, diz Castanheda ( op. cit., 1. I, cap. XXX,

p. 72) comandados por Pedralvares, a Capitânia; por Sancho de

Tovar, soto-capitão ou imediato; por Pedro de Ataíde; por Nuno

Leitão da Cunha; por Nicolau Coelho, que fora companheiro de

Vasco da Gama; por Simão de Miranda; por Vasco de Ataíde;

por Bartolomeu Dias, que dobrara o Cabo de Boa-Esperança;

por seu irmão Pero Dias, também da empresa d’“Os Lusíadas”;

por Luiz Pires; por Aires Gomes da Silva; por Simão de Pina e

por Gaspar de Lemos.

Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho serão a experiência;

mas há um passageiro de categoria, Duarte Pacheco Pereira, que

virá Camões a chamar “o Aquiles Lusitano”, autor do

Esmeraldus de Situ Orbis, que negociara o Tratado de

Tordesilhas, privava com el-Rei, conselheiro, cosmógrafo,

marinheiro e, ao demais, herói: viaja na nau. S. Pedro, do

comando de Pedro de Ataíde(3).

O comércio colabora: duas naus são de fidalgos, o

Conde de Porto Alegre, aio de el-Rei e Dom Álvaro de

Bragança, este associado ao banqueiro Bartolomeu Marchioni,

florentino que reside em Lisboa, privado da Corte e com

grandes serviços ao Estado: deles é a nau Anunciada(4), do

comando de Nuno Leitão da Cunha, a primeira das que tornam

a Lisboa.

São princípios de Março de 1500. “... a partida de

Belém... foi segunda feira IX de Março” (Carta de Pero Vaz, in

“Alguns documentos da Torre do Tombo”, cit. p. 108). A 14

“amtre as Canareas, mais perto da Gram Canarea”; a 22

“ouvemos vista das ilhas de Cabo Verde”; a 23 “se perdeo da

frota Vaasco d’Atayde com a sua naao, sem hy aver tempo

forte, nem contrairo pera poder seer; fez o capitam suas

deligençias para o achar a huuas e a outras partes, e non

pareceo mais”. (Id.) “...e assy seguimos nosso caminho por este

mar de lomgo ataa terça feira d oitavas de pascoa que foram

XXI d Abril, que topamos alguuns sygnaaes de tera... os quaaes

heram muita camtidade d ervas compridas... e aa quarta feira

seguinte pola manhãa topamos aves... e neeste dia, a oras de

bespera, ouvemos vista de tera, saber: primeiramente d huum

grande monte muy alto e redondo, e doutras terras mais baixas,

ao sul dele, e de terra chãa, com grandes arvoredos, ao qual

monte alto o capitam pos nome o monte Pascoal e aa tera de

Vera Cruz” (Id.).

É a certidão de nascimento, lavrada pelo escrivão que ia

para Calecut, Pero Vaz de Caminha, em carta a el-Rei, um dos

raros documentos que nos restam da empresa: o Brasil foi

descoberto a 22 de Abril de 1500, numa quarta-feira...

$ '$7$

Sem tento, há por aí outras datas. Era vigente o

Calendário Juliano. A reforma Gregoriana, de 1582, não

retroage os cômputos cronológicos: se retroagisse, mais nove

dias, seria a 1.º de Maio. A “invenção da Vera Cruz”, celebrada

pela Igreja, é a 3 de Maio. Foi Gaspar Corrêa que confundiu as

duas datas: “O capitão pôs o nome de Santa Cruz a esta nova

terra, porque a ella chegarão a tres de mayo, dia de Santa Cruz”.

( Lendas da Índia, t. I, p. 152).

Ora Cabral pusera à terra o nome de “Vera Cruz”, que

D. Manuel mudara em “Santa Cruz”: Santa Helena achara essa

cruz a 3 de Maio. Pareceu certo. Em 1823 sugerira Lara

Ordonhes a Gonçalves Gomide, deputados à Constituinte

Brasileira, e o último por carta a José Bonifácio, o dia 3 de

Maio para a abertura da assembléia, “por ser o do

descobrimento do Brasil”, o que foi aceito. Dissolvida a

Constituinte, a Constituição outorgada por D. Pedro I marcou

esse dia para a abertura das Câmaras, durante todo o Império, o

que continuou na República. (Cf. Miguel de Lemos, in Jornal

do Comércio, do Rio, de 27 de Maio de 1899 e Boletim do

Apostolado Positivista do Brasil, n.º 13, de 6 de junho de 99).

Vem daí. Mas Gaspar Corrêa não tinha documento, e

servira-se de ilação. O documento apareceu, em 1817, quando

Aires do Casal publicou, na sua Corografia Brasílica, a Carta

de Pero Vaz de Caminha a el-Rei D. Manuel, e que está na

Torre do Tombo. Ora o documento diz, precisamente, 22 de

Abril de 1500. Os ensaios de conciliação com a reforma

gregoriana do calendário, que ocorreu em 1582, não procedem:

1.º, porque Gaspar Corrêa que faleceu entre 1561 e 1583,

escrevendo antes, desconhecia a reforma: a sua data é “juliana”;

2.º, porque não retroagiu o cômputo gregoriano para nenhuma

data da história universal, antes de 1582; 3.º, porque a reforma

gregoriana não recorreu, suprimiu apenas alguns dias do mês de

Outubro, seguindo a quinta-feira 4 de outubro, sexta-feira 15 de

outubro... para acertar o erro então existente, de dez dias, em

1582; 4.º, porque 22 de abril, mais nove dias, que era a

diferença em 1500, dá 1.º de Maio e não 3...; 5.º, porque

contando a diferença no fim do século XVI, ou dez dias, dá

ainda assim 2 de Maio, e não 3...; 6.º, porque contando a

diferença na época de José Bonifácio, começo do século XIX,

seriam doze dias, ou 4 de maio e não 3...; 7.º, porque pela

“conta de chegar”, de Varnhagen ( História Geral, 2.ª ed.,

1877), esse descobrimento, (não com a vista, o achado da terra a

22 de Abril, porém a 23, com o “primeiro trato” dos índios) não

parece sério e seria então, quando fosse, o descobrimento dos

“brasileiros”(5) e não do Brasil; 8.º finalmente porque não se

atentou que, além da data precisa “terça-feira d oitavas de

pascoa que foram XXI dias d Abril que topamos alguns sygnaes

de terra... hos quaes eram muita camtidade de ervas

compridas”... “aa quarta feira seguinte pola manhãa topamos

aves... e neste dia, a ora de bespora, ouvemos vista de tera”...

Portanto, o Brasil foi descoberto a 22 de Abril,

quarta-feira, à tarde. Três de Maio foi “domingo” e o Brasil foi

descoberto uma “quarta-feira”... Este elemento de identificação,

sobre o qual nunca se insistiu devidamente, parece-me

irretorquível: aa quarta feira, portanto a 22 de abril...

E tanto, que na Relação do Piloto anônimo (outro raro

documento da viagem de Cabral, publicado em italiano nos

Paesi nuovamente retrouati, de Francesco Montalboddo, 1507,

e reproduzido em Ramusio, Delle Navigatione e Viaggi,

Veneza, 1554, t. I, f. 132) se lê: “alli XXIII di aprile che fu il

mercoredi nella ottava di Pascha hobbe la detta armata vista de

una terra di che hebbe grandissimo piacere”. (São os mesmos

termos de Cretico, no liv. VI dos Paesi nuovamente retrouati,

Vincentia, 1507, com pequenas variantes, o que leva os

redatores da Racolta Colombiana, parte III, vol. I, p. 83-4, a

escreverem que podem tranqüilamente atribuir a tradução

italiana do “Piloto Anônimo” ao Cretico, que fez, de parte da

relação, carta sua à Senhoria de Veneza...) No texto citado é a

mesma data, 24 de Abril in la octava di Passione. Pode-se

dizer: “Piloto-anônimo” ou Cretico “errados”, pois que esse dia

24 de Abril de 1500 foi sexta-feira... e o dia da semana corrige a

data do mês, menos fácil de reter de memória. (A correção

gregoriana respeitou esta decorrência da semana: se 4 de

outubro antecede a 15 de outubro, — supressos os dias do mês,

de 5 a 14, — a semana é respeitada e, a quinta-feira, 4, segue-se

sexta-feira, 15 de outubro de 1582. Não se recorreu:

suprimiram-se 10 dias, no mês; não se tocou na semana). O

Brasil foi descoberto uma quarta-feira (concordância de Pero

Vaz e do Piloto-Anônimo-Cretico), portanto, a 22 de Abril...

2 '(6&2%5,0(172

Foi descoberto... O Tratado de Tordesilhas, concluído a

7 de junho, assinado a 2 de julho de 1494 em Arevalo, dizia que

todos os descobrimentos portugueses ao oriente de uma “raya

ou linea derecha de polo a polo... a tresientas & setenta leguas

de las yslas del Cabo Verde”, ou que, desde essa data, viriam a

descobrir os Portugueses, seriam deles; para o ocidente seriam

dos Castelhanos. A linha limitante ou divisória das duas bandas

do mundo seria riscada por “pilotos, como astrólogos y

marineros & qualesquer otras personas que convengan”, dentro

de dez meses. Isto é ao tempo de Dom João II; Dom Manuel

pede à Santa Sé confirmação do Tratado, o que Júlio II concede,

a 24 de janeiro de 1506. A pedido dos reis de Espanha, um

pontífice espanhol, Alexandre VI (Bórgia), sem audiência de

Portugal, dividira o mundo pelo meio e dera aos Portugueses

um hemisfério limitado até 100 léguas de Cabo Verde. D. João

II não reclamou do Papa, negociou com Espanha: a linha seria a

250 léguas, se os Espanhóis descobrissem novas terras ao

ocidente até 20 de julho de 1494, de 370 se isso não tivesse

ocorrido até esta data. A linha do Pontífice caía no mar,

deixando a Índia, pela África, aos Portugueses; a concessão a

Colombo, até onze dias da assinatura do tratado, dar-nos-ia um

terço, ainda assim, do Brasil; a linha definitiva deu-nos o Brasil

quase todo, da embocadura do Amazonas, ao limite sul de S.

Paulo.

A 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do

arquipélago de Cabo Verde... acabava o hemisfério português

pelo ocidente... Dom João II insistente, tenaz ( el Hombre, como

lhe chamava Isabel a Católica) e os seus diplomatas e técnicos

previram o Brasil, aí incluído: a Espanha e a Igreja

concediam-lhe a África e as Índias, supondo que o

contentavam; não, ele queria mais, e exigiu também o Brasil...

Duarte Pacheco Pereira, o grande piloto, escritor,

cosmógrafo e herói que veio com Cabral ao Brasil, e fora dos

negociantes de Tordesilhas, dirigindo-se a el-Rei D. Manuel

escreveu, em 1506, no Esmeraldo: “Por tanto bemaventurado

Principe temos sabido & visto como no terceiro anno de vosso

Reynado do hano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa

& oito donde nos vossa alteza mandou descobrir ha parte

oucidental passando alem ha grandeza do mar ociano honde he

achada & navegada huma tam grande terra firme com muitas e

grandes Ilhas ajacentes a ella que se estende a setenta grados

de Ladeza da linha equinocial contra ho polo artico.”

(Esmeraldus de Situ Orbis, cit. 1. I, cap. II, p. 7). “É achada e

navegada”, traduzem os comentadores: achou-se e navegou-se o

Brasil. Mas, em 1498, Dom Manuel mandara Duarte Pacheco

achar esse Brasil suspeitado em Tordesilhas, em 1494, pelos

Portugueses, um deles esse Duarte Pacheco que, em 1500, vem,

com Cabral, a isso...(6)

O depoimento de Pero Vaz, do Mestre João, físico e

cirurgião, que vinha na Armada, e do Piloto Anônimo, sobre o

descobrimento, em 1500, não revela surpresa e imprevisto... O

Piloto refere “o grandíssimo prazer” do achamento. Achar o que

se procura faz isto. O imprevisto não; esse, surpreende(7).

Nesses documentos, os únicos de testemunhas, não há

tempestades, ao menos a invocada para o desvio da rota. Vasco

da Gama passara também ao ocidente de Cabo Verde,

empegado no mar, para evitar as calmarias africanas e dobrar de

largo o Cabo de Boa Esperança, como fez Cabral, mas não

aportou ao Brasil... Mestre Joham, o físico da armada, diz a

el-Rei D. Manuel:

“Quando, senor, al sityo desta tierra, mande Vossa

Alteza traer un napa-mundi que tiene Pero Vaaz Bisagudo(8), e

por ay podrra ver Vosa Alteza el sityo desta tierra”, “en pero,

aquel napa-mundi non certyfica esta tierra ser habytada, o no.

Es napamundi antiguo” ... Já o Brasil estava em “napamundi

antiguo”: ao menos sabia-o um dos descobridores...

Fundado nestes dois documentos, de Duarte Pacheco e

de Mestre Joham, ambos testemunhas presenciais do achado de

1500, diz o americanista Henri Vignaud: “não poderá haver

dúvida alguma que não é Cabral o primeiro descobridor

português do Brasil”. ( Americ Vespuce — ses voyages... Paris,

1911, p. 143-5). Depois disso, continuar-se-á a falar da

“tempestade”, “das calmarias”, do “acaso”(9), como fizeram, da

quarta-feira, 22 de abril, 3 de maio, que foi domingo...

Ignorância ou teima: ou as duas.

A 22 de abril, à tardinha, houveram vista da terra, o

monte Pascoal, o arvoredo. A 23 navegaram contra a terra e

surgiram na foz de um rio. Viram homens nus, com arcos e

flechas. A 24 navegaram ao longo da costa, buscando abrigo,

aguada e lenha. Acharam um porto, abrigado por arrecifes e aí

ancoraram. A 26, domingo, o franciscano Fr. Henrique Soares,

de Coimbra, ajudado por outros religiosos, celebrou, num ilhéu,

a primeira missa(10). Na sexta-feira, 1.º de Maio, erigiram em

terra firme uma grande cruz de madeira, feita por dois

carpinteiros de bordo, com as armas e divisas de Dom Manuel,

sendo rezada então a segunda missa. Para o reino, a dar notícia

do achado, seguiu o navio de Gaspar de Lemos. Com as araras e

papagaios, arcos, flechas, penas, amostras da terra e da gente,

pretende Castanheda fora um índio: “& mandou-lhe hu home

daquela terra” (op. cit., 1. I, c. XXXI, p. 72). A armada agora de

onze navios, partiu a 2 de Maio, sábado, rumo de África, para

passar o Cabo de Boa Esperança pelo largo, segundo

recomendava a experiência de Bartolomeu Dias e de Vasco da

Gama.

2 120(

Disse Pero Vaz: “ao qual monte alto o capitam pos

nome o monte Pascoal e aa tera a tera de Vera Cruz” (11) (op.

cit.).

Dom Manuel, escrevendo aos Reis de Espanha, diz: “mi

capitan com trece naos partio de Lisboa a nueve de Marzo dei

año pasado. Em las octavas de la pascoa siguiente llegó á una

tierra que nuevamente descubrió, á la qual puso nombre de

Santa Cruz”. (Hist. da Colonização Portuguesa do Brasil, vol.

II, p. 155-164).

No regimento dado a João da Nova, capitão da terceira

armada, logo depois da de Cabral, vem o nome de Ilha da Cruz

(Varnhagen, História Geral, 4.ª ed., t. I, p. 78; António Baião,

“O Comércio do Pau-Brasil”, Hist. da Colonização Port. cit., t.

II, p. 321).

Portanto, oficialmente, Vera Cruz, Santa Cruz, Cruz...

Houve mais: Terra dos Papagaios, pelas grandes e belas araras,

que impressionavam, e Pedrálvares enviara ao reino por Gaspar

de Lemos, nome que vem em alguns mapas antigos. Cretico

(Giovanni Matteo), agente em Lisboa da Senhoria de Veneza,

escrevendo dali em 22 de Julho de 1501, diz, narrando a viagem

de Cabral: “ha discoberto una terra nova, chiamano la terra

deli Papagá, per esserli papagá longi une brazo e piú, de vari

colori, de li qual ne hanno visto doy”. ( Paesi novamente

retrouati, t. VI, Cap. CXXV, Vicentia, 1507). Também aí vem

carta de Pietro Pasqualigo (Cap. CXXVI), de 18 de outubro de

1501, em que diz: “com la terra dei Papagá noviter trovate per

le navi di questo re che andarono in Calicut”.

Logo, porém, começou o Brasil. Escreveu João de

Barros: “Per o qual nome Sancta Cruz foi aquella terra

nomeada os primeiros annos: & a cruz arvorada algus durou

naquelle lugar. Porem como o demonio per o sinal da cruz

perdeo o dominio que tinha sobre nós, mediante a paixão de

Christo Jesu consumada nella: tanto que daquella terra

começou de vir o pao vermelho chamado brasil, trabalhou que

este nome ficasse na bocca do povo, & q se perdesse o de

Sancta Cruz: Como que importava mais o nome de hum pao

que tinge panos: que daquelle pao que deu tintura a todolos

sacramentos perque somos salvos... ” ( Décadas, I, 1. V, cap. II).

Recentemente, disse Duarte Leite: “Em 1503 já se

empregava o termo Brasil, porque o diz João Empoli numa

carta transcrita em Ramusio”. ( Hist. da Colonização

Portuguesa, vol. I, p. 198). Capistrano de Abreu dissera:

“Empoli, em 1504, chamava-a Vera Cruz ou Brasil” (Ramusio,

Navig., I, p. 145). Desde este ano o nome Brasil apareceu em

documentos portugueses e alemães e cada vez se generalizava

mais. (Wieser, Magalhães-Strasse und Austral Continent,

Innsbruck, 1881, ps. 93-94; Materiais e Achegas, I, nota).

“Empoli”, não é exato. Duarte Leite e Capistrano foram

induzidos em erro por Ramusio que, na narrativa de Empoli,

introduziu um aposto comprometedor, em 1550-4: depois de

“terra della Vera Croce”, esclareceu: “over de Bresil cosi

nominata”. O texto autêntico, reproduzido na Racolta

Colombiana, parte III, vol. II, Roma, 1893, p. 180, que faz fé,

diz apenas “Vera Crocie è si nomata”. Portanto Giovanni da

Empoli, feitor de Bartolo Marchioni, numa nau de Portugal, não

chama, em documento de 16 de Setembro de 1504, (o 1503, de

Duarte Leite,(12) vem do começo dele: “la partita nostra fu di

Lisbona a di 6 d’Aprile 1503...”), a Vera Cruz, Brasil. Aliás,

atente-se nisto: Ramusio escreve duas vezes “Bresil”, e como,

adiante, o documento fala em verzino, não parece admitir

identidade de nome entre a terra e a madeira...

Capistrano cita Wieser, que diz, de fato: “Acho o nome

Brasil já desde 1504 repetidamente em uso” (p. 93). A saber:

Beschreibung der Meerfahrt von Lissabon nach Calacut, vom J.

1504 (Descrição da Navegação de Lisboa a Calacut, do a.

1504): “chama terra nova de Prisilli”; Empoli, no fim de 1504,

e cita Ramusio, Venetia, 1563, etc; um “diário de bordo” de

1505-6, diz: “aos 6 dias de mayo foron leste hoeste com a terra

de Brazil 200 leguas e dhy se foron ao Sul ata 40 grados” (Pbl.

por Schmeller em seu artigo: “Ueber Valentin Fernandez

Alemã,(13) etc.” — Abhandlungen der I cl. d. k., bayrischen

Akademie d. W. Bd. IV Abtheilung, p. 41 f.; finalmente, a

“Gazeta Alemã”, Newen Zeytung aufs Presillg Landt, da qual

Varnhagen, op. cit.. p. 98, dissera, citando outrem, que deviam

ser informações “de 1507”, e que, na “História Geral”, ainda é

mais decisivo e antecipado: “Julgamos de tal importância

alguns períodos dessa relação ou gazeta (que supomos haver

sido escrita em Lisboa por um estrangeiro e publicada pela

primeira vez em 1506”... (Varnhagen, op. cit., II, 4.ª ed., p.

98-9). Ora, o mss. da “Gazeta” foi achado, posteriormente, por

Konrad Haebler, em 1895, no Arquivo dos Príncipes Fuegger,

em Augsburgo, e traz a data de 1514... (cf. Clemente

Brandenburger — A nova gazeta da Terra do Brasil, São Paulo

— Rio, 1922). Portanto, Empoli, em 1504, e a Gazeta, em 1506,

afastados...

Chamei a atenção para o modo de Ramusio, ainda em

1550-63, escrever na sua interpolação “Bresil”, distinguindo

este nome da terra, do nome da madeira, escrito adiante, em

italiano, “verzinio”. É que, aqui, tem cabida a hipótese que

aquele nome é de origem francesa... Os nomes lusitanos

Vera-Cruz, Santa Cruz, não seriam mudados pela piedade

portuguesa: foram os piratas franceses, desde antes de 1504,

(quando vieram, ao dizer de Anchieta, pela primeira vez) que

designaram a terra pela riqueza conhecida, “terre du brésil”,

depois daí “le Brésil”, como ainda hoje. Nós tivemos, pela

divulgação e aceitação do nome, de traduzi-lo: “Brasil”.

Como quer que seja já em 1510 está em Gil Vicente, no

Auto da Fama, “terra do Brasil”: mas será mesmo o Auto de

1510?(14) De 1511, talvez: “Llyuro da naao bertoa que vay

para a terra do brasyll... que partiu deste porto de Lixª a 22 de

fevº de 511” é o título de um documento publicado por

Varnhagen. A nau partiu em 11, mas o livro teria sido escrito

nessa data? Tudo leva a crer, mas não é certo.

Certa é a carta de Afonso de Albuquerque, de 1 de Abril

de 1512, da Índia, a el-Rei D. Manuel, “a qual (carta de um

piloto) tinha ho cabo de Bôoa Esperança, Portugal e a terra do

Brasyll...” ( Alguns documentos... do Tombo, cit., p. 261). Por

certo é também de 1512 o mapa de Jerônimo Marini — Orbis

Typus Universalis Tabula Hieronimi Marini fecit Venetia

MDXII — cujo original possui o nosso Ministério do Exterior,

na Biblioteca do Itamarati, onde se lê pela primeira vez, em

planta: “Brasil”. Um ano depois, e é interessantíssimo, é o

próprio Dom Manuel que mudara Vera Cruz em Santa Cruz,

segundo disse aos reis de Castela Fernando e Isabel e agora a

um deles o diz, em 13 de Setembro de 1513: “na teerra... que he

pegada com a nossa teerra do Brasyl” (Carta a el-Rei D.

Fernando, de Castela, in Alguns documentos, p. 292).

Mas é sempre “terra do Brasil”, como se dissesse, por

abreviação, “terra do (pau) brasil”: o documento escrito em que

primeiro aparece Brasil só, como no mapa de Marini é o de

Dom Rodrigo de Acuña, de 15 de Junho de 27, ao bispo de

Osma, dando conta da perda da armada que mandara Carlos V

às Molucas e pedindo interceda junto de D. João III para lhe

obter a liberdade, preso que está na feitoria de Pernambuco (nos

baixios de D. Rodrigo, onde naufragara, e naufraga, mais tarde,

o primeiro Bispo, comido pelos índios). Diz ele: “nos convino

arrybar al Brrasil”; (nesta carta há ainda “tyerra dei Brrasil” e

“nao cargada de brrazil” ( Alguns documentos... do Tombo, cit.

p. 488-9).

O nome Brasil vem de longe. Disse Humboldt, vem de

Samatra, e levou quatro mil anos para nos chegar... É o nome de

uma madeira tintorial, a Cesalpina ecchinata, especiaria trazida

do Oriente à Europa, nome variamente escrito — braxile,

bresillum, brisilium, bersi, verzi, verzino, como recentemente,

há cinco séculos, o chamavam os Venezianos. Já dele falam o

geógrafo árabe Abuzeid El Hacen (IX século), Endrisi e

Chrestien de Troyes no século XII: este escreve mesmo Braisil,

que dá, em francês, a pronúncia do nome atual nesse idioma.

Teria vindo à Europa depois dos primeiros Cruzados, por volta

de 1140. Tirava-se, do toro, a casca e o líber, e apenas o cerne

vermelho servia para tingir panos e fazer tinta, para iluminar

manuscritos, dando tons róseos às miniaturas. A madeira, dura e

corada, também aproveitava à marcenaria.

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A geografia apoderar-se-ia do nome, e terras do Brasil

houve, antes da nossa: Krestchmer encontrou em mapas

medievais as seguintes variantes: Brazi, Bracier, Brasil,

Brasiel, Brazil, Brazile, Braziele, Braziel, Bracil, Braçil,

Braçill, Bersill, Braxil, Braxili, Braxiel, Braxyili, Brisilge... (15).

É uma ou mais ilhas do Ocidente, no grupo dos Açores, ou na

altura da Bretanha, ou não longe da Irlanda. Ainda hoje há uma

pedra Brazil Rock, na Irlanda, e um monte Brasil, junto à cidade

de Angra, na Ilha Terceira, dos Açores. Num mapa de 1351 já

aparece esta “ínsula do Brazil”, nesse Açores. Em 1480

partiram de Bristol navios à procura da Ilha Brasil. Em 1497

Ayala, legado de Espanha junto à Corte de Inglaterra, dizia que

de sete anos àquela parte partiam de Bristol, anualmente, navios

à mesma pesquisa. Lá está, no mapa de Toscanelli, (1474) ao

norte e oriente, a ilha Brasil... Até 1875 o Almirantado inglês

manteve nas suas cartas essa “Brasil Rock”(16).

Diz a erudição que os Árabes chamavam ao pau

bakkam, que traduziram em latim brasilium, procurando a

analogia da raiz semítica bakkham (ardente) com a ariana

bradsch, em português brasa, italiano brace, francês braise.

Como se deu tal nome à geografia, é controvertido: Brasil,

indicaria fenômenos vulcânicos notados no arquipélago

açoreano; ou aí se teria encontrado senão o verdadeiro brasil,

pelo menos algum sucedâneo, talvez a urzela. Contudo

Capistrano de Abreu, reparando que nas formas gráficas e

geográficas de Kretschmer não se vêem formas congêneres do

verzi ou verzino, diz poder-se concluir que o Brasil, ilha

ocidental, nada tem com o produto oriental. Conclui que natural

é proceda o nome do celta, e há quem o decomponha braza,

grande, i: em todo o caso Brasil, ilha, aparece sempre no

Atlântico e sempre a W de terras primitivamente habitadas por

Celtas. Os índios chamavam à planta arabutan ou ibirapitanga.

Os Portugueses conheciam o brasil: a 19 de outubro de

1470 Afonso V proibia aos traficantes da Guiné comerciarem

que as tintas do brasil, protegendo talvez o produto das ilhas.

Quando se começou o tráfico com os selvagens de Santa Cruz, a

primeira matéria de exploração foi o brasil. No Esmeraldo,

escrito em 1505, escreveu Duarte Pacheco da terra: “é achado

nela muito e fino brasil com outras muitas cousas” — (cap. 2,

do I livro). Terre du brésil lhe chamaram os piratas franceses, e,

depois, o menor esforço daria le Brésil, como ainda hoje. Esse

menor esforço foi a causa da troca, que tanto indignou João de

Barros: os políticos e sacerdotes, que batizam e dão nomes, não

advertem que eles prevalecem na ordem da simplicidade. Em

alguns anos apenas, a Terra de Vera Cruz já era pois, o

Brasil....(17). E era — o que mais admira, na expressão do

próprio Dom Manuel: “na teerra... que he pegado com a nossa

teerra do Brasyl”. Piedosamente diríamos: nome mudado na

crisma...

A palavra teve, no começo, várias acepções, que foi

perdendo: Pau-brasil: “Cá ha assuquer e algodão, brasil e

ambre e resgates” ( Cartas avulsas de Jesuítas, Rio, 1931, Carta

XLVII). “Pera ali carregarem de brasil”. (Id. Carta XXVII). A

terra: “Todo o Brasil, que assim se pode dizer” (Id. Carta LVI).

“Nestas partes do Brasil” (Id. Carta LXIII). A gente: “Para

estudantes — brasil fazem-no muito bem”. (Id. Carta LIV). “Os

que tangiam eram meninos brasis” (Id. Carta LV). A língua:

“Espera em pouco tempo falar tão bem brasil, como agora

italiano; às vezes lhe falava homem português e ele respondia

brasil”. (Id. Carta XLVIII).

“Brasileiro” foi, a princípio, o traficante ou o ocupado

em tirar o brasil, como de baleia “baleeiro” (Varnhagen). A

desinência “eiro” é profissional: ferreiro, carpinteiro. Aqui, de

profissional, passou a patronímico: os mineiros que trabalhavam

nas minas gerais ficaram depois, os filhos de Minas Gerais.

Contudo tentou-se “brasiliense”, “brasílico”, brasiliano“, sem

êxito, até agora. Brasileiro ficou o filho do Brasil: que importa

tal dignificação, se brasil ficou também dignificado em Brasil?

$ 7(55$

A 21 de Abril viram os Navegadores sinais de terra:

ervas compridas a que os mareantes chamam botelho, e asy

outras a que tambem chamam rabo d asnos; e aa quarta feira

seguinte pela manhãa topamos aves, a que chamam fura

buchos; e neeste dia, a ora de bespera, ouvemos vista de tera,

saber: primeiramente d’huum grande monte muy alto e

redondo, e d outras terras mais baixas, ao sul d ele e de terra

chãa, com gramdes arvoredos, ao qual monte alto o capitam

pos nome o monte Pascoal, e aa tera a tera da Vera Cruz”.

Lançado o prumo, ao sol posto, obra de seis léguas de

terra, deram fundo, ancoragem limpa, diz a carta de Pero Vaz,

que vamos citando. Aí passaram a noite; na manhã seguinte,

quinta-feira, aproaram à terra, até meia légua de distância,

“omde lançamos ancoras em direito da boca de huum rio.”

Num bote foi Nicolau Coelho à terra “pera veer aquelle rio”,

ao que acudiram selvagens, que tinham já visto de longe. Troca

de afabilidades entre bárbaros e civilizados, o ruído do mar

obstando a que se entendessem. À noite, chuva e vento,

decidindo na sexta-feira seguinte levantar ferro e fazer vela;

“fomos de longo da costa, com os botees e esquifes amarados

per popa, contra o norte pera veer se achavamos alguña

abrigada & bom pouso, onde jouvesemos pera tomar agoa e

lenha”. Os navios pequenos iam mais chegados a terra, para a

procura de um pouso seguro e “acharam os ditos navios

pequenos huum arrecife com huum porto dentro muito boo e

muito seguro, con huua muy larga entrada e meteram-se dentro

e amaynaram.” Estavam numa baía e nela acharam “huum

ilheeo grande que na baya está, que de baixa mar fica muy

vazio, pero he de todas partes, cercado dagoa”. Nesse ilhéu, a

26 de abril, domingo de pascoela, foi dita a primeira missa, sem

índios portanto, apenas para a tripulação.

A carta de Pero Vaz é datada, no fim, “deste Porto

Seguro da vosa ilha de Vera Cruz oje sexta feira primeiro dia

de mayo de 1500”, véspera de partida da armada para a Índia.

Ora, tem-se levantado discussão acerca disto, porque o Porto

Seguro de hoje, não corresponde ao de Caminha... A

identificação tem sido contraditória. O rio de Nicolau Coelho é

hoje “rio do Frade”. A enseada ao norte a dez léguas, é de Santa

Cruz, hoje dita Baía Cabrália. Identifica-a o ilhéu, em que foi

dita a primeira missa, hoje chamado Coroa Vermelha.

Pretendeu Varnhagen que fosse isso no atual Porto

Seguro, mais atrás, ao sul, onde há arrecife protetor e não ilhéu,

o que fez dizer a Capistrano de Abreu: “Porto Seguro atual não

corresponde à descrição de Caminha, por mais que se queira

fazer de um recife um ilhéu”. João Ribeiro — malícia de

historiadores — atribui a opinião de Varnhagen à vaidade de

seu título de Visconde de Porto Seguro, (poder-se-ia replicar

que o título veio do nome do historiador, traduzido do velho

alemão originário: Wahr... Haagen.. . porto verdadeiro ou bom,

ou porto seguro) para tirar ao ilhéu da Coroa Vermelha, na baía

de Santa Cruz, a glória de ponto de desembarque de Cabral.

Além da tradição, vinda com Gandavo, Gabriel Soares,

Anchieta, Cardim... há a descrição de Caminha, com a dos

geógrafos acordes, Aires do Casal, Almirante Mouchez,

Beaurepaire-Rohan, Salvador Pires. Mas haverá causa

“decidida”? A confusão parece ter sido devida a que o nome de

“Porto Seguro” (dado à atual Santa Cruz) foi posto também à

povoação e igreja sede da capitania, o Porto Seguro, que

prevaleceu; o nome de Santa Cruz, reservado à terra depois do

Brasil, só mais tarde seria apenas o da região, baía, ilhéu, dez

léguas ao norte, onde fundearam os navegantes: um nome

mudou de lugar e o outro, genérico, localizou-se. (Cf. Carlos

Malheiro Dias — A Semana de Vera Cruz in Hist. da Colon.

Port., cit. t. II, págs. 75-154).

A terra produziu boa impressão aos navegantes: “a terra

em sy he de muito boos aares asy frios e tenperados coma os d

antre Douro e Minho, porque neste tempo d agora asy os

achavamos como os de la; agoas sam muitas imfimdas; em tal

maneira he graciosa que querendo a aproveitar, darseá nela

tudo per bem das agoas que tem”. (Caminha, “Carta”, in fine).

Este primeiro louvor na boca e na pena dos visitantes, e até dos

habitantes, jamais cessou, até agora. O patriotismo brasileiro é

sempre da terra: a gente ainda não conta. Culmina em Vespúcio,

que chegou a escrever: “se o paraíso terreal existe em alguma

parte da terra, não dever ser longe dali”. Podia ser improviso

de momento. Os Jesuítas, que aqui padeceram seu apostolado,

não são diferentes. É boa e sã, fértil de tudo, de boas águas e

bons ares, para Nóbrega ( Cartas, 89). Anchieta concorda: “O

clima é geralmente muito temperado, de bons e delicados ares e

mui sadios, aonde os homens vivem muito, até oitenta, noventa

e mais anos e a terra está cheia de velhos. Não tem frios nem

calores grandes, os céus são mui puros, maxime à noite”.

(Cartas, p. 424). Em São Paulo há uns “Campos Elíseos”: foi

Simão de Vasconcelos que lhes deu tal nome: “Estes campos

(de Piratininga) merecem nome de Elísios ou bem

afortunados...” (Crôn. I, I, n. 149).

Chegaram até à comparação. “Saúde não há mais no

mundo, ares frescos, terra alegre, não se viu outra; os

mantimentos eu os tenho por melhores, ao menos para mim que

os de lá (Portugal) e de verdade que nenhuma lembrança tenho

delles, pera os desejar. Si tem em Portugal gallinhas, cá as ha

muitas e mui baratas; si tem carneiros, cá ha tantos animais

que caçam nos mattos, e de tão boa carne, que me rio muito de

Portugal em essa parte. Si tem vinho, ha tantas águas que a

olhos vistos me acho melhor com ellas que com os vinhos de lá;

si tem pão, cá o tive eu por vezes e fresco, e comia antes do

mantimento da terra que delle, e está claro ser mais sã a

farinha da terra que o pão de lá; pois as fructas, coma quem

quizer as de lá, das quaes cá temos muitas, que eu com as de cá

me quero. E alem disto ha cá cousas em tanta abundancia, que,

alem de se darem em todo o anno, dão-se tão facilmente e sem

as plantarem que não ha pobre que não seja farto com mui

pouco trabalho. Pois se fallarem nas recreações, comparando

as de cá com as de lá, não se podem comparar e estas deixo eu

pera os que cá quizerem vir a experimentar. Finalmente,

quanto ao de dentro e de fóra, não se pode viver sinão no Brasil

quem quizer viver no paraiso terreal: ao menos sou desta

opinião. E quem não me quiser acreditar, venha experimentar.

Dir-me-a que vida pode ter um homem, dormindo em uma rede,

pendurado no ar como rédea de uvas? Digo que é isto cá tão

grande cousa que, tendo eu cama de colxões, e

aconselhando-me o médico que dormisse na rêde, e a achei tal

que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nella

não dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho.

Outro terá outros pareceres; mas a experiência me constrange

a ser desta opinião”. E por isso o repete Rui Pereira ( Cartas

Avulsas de Jesuítas, p. 263-4): “se houvesse paraíso na terra eu

diria que agora o havia no Brasil” (id. p. 263). São todos

assim, estrangeiros e nacionais; não quero citar se não daqueles

e da primeira hora. E a gente?

$ *(17(

No dia 23 avistaram os navegantes sete ou oito homens,

depois mais dezoito ou vinte. Nos dias seguintes muitos, que

vieram às naus.

“A feiçam deles he seerem pardos, maneira d

avermelhados, de boos rostros e boos narizes bem feitos;

amdam nuus, sem nenhuNJ a cobertura; nem estimam nenhuma

coussa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e estam açerqua d

isso com tanta inocência como teem em mostrar o rostro;

traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles

senhos osos d oso bramcos de compridam de huNJ a maão

travessa e de grossura de huum fuso d algodam, e agudo na

ponta coma furador”. “Amdavam hy outrros quartejados de

cores, saber, d eles ameetade da sua própria cor, e ameetade de

timtura negra maneira de zulada, e outros quartejados d

escaques. Aly amdavam antr’eles tres ou quatro moças bem

moças e bem jentis, com cabelos muito pretos compridos pelas

espadoas, e suas vergonhas tam altas e tam çaradinhas, e tam

limpas das cabeleiras, que de as nos muito bem olharmos nom

tinhamos nenhuNJ a vergonha...” “Amdava (um) todo per

louçaynha, cheo de penas pegadas pelo corpo, que parecia

aseetadado coma Sam Sebastiam; outros traziam carapuças de

penas amarelas, e outros de vermelhas, e outros de verdes; e

huNJ a daquellas moças era toda timta de fundo a cima daquela

tintura, a qual certo era também feita e tam arredomda, e sua

vergonha que ela nom tinha, tam graciosa, que a muitas

molheres de nossa terra veendo lhe taaes feições fezera

vergonha, por nom terem a sua com eela. NenhuNJ d eles nom

era fanado, mas todos asy coma nos”...

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A impressão era, ou foi, simpática: inocência,

curiosidade, boa índole. As mulheres, pela privação deles, e

pela nudez delas, “bem moças e bem gentis”, diz Pero Vaz,

“mui fermosas, que nam ham nenhuNJa inveja às da rua Nova de

Lixbôa” virá a dizer Pero Lopes, alguns anos mais tarde.

( Diário da Navegação, ed. de Eugênio de Castro, Rio, 1927, p.

154). Também elas se agradaram dos Europeus: o romance

exótico da colonização vai começar. “Iracema”(18) será um

símbolo. Vão nascer os mamalucos, os maiores inimigos da raça

primitiva...

Os descobridores não podiam saber mais. Porém, os que

vieram depois, sobretudo os Jesuítas, grandes amigos deles, que

conviveram com eles, para os educarem, e aproveitarem, na

civilização, têm depoimentos cruéis. Diz Nóbrega ( Cartas do

Brasil, p. 73, 90, 91): “É gente que nenhum conhecimento tem

de Deus”. “Gente tão inculta... regendo-se todos por

inclinações e apetites sensuais, que está sempre inclinada ao

mal, sem conselho, nem prudência. Têm muitas mulheres e isto

pelo tempo em que se contentam com elas e com as dos seus, o

que não é condenado entre eles. Fazem guerra, uma tribo a

outra, a 10, 15 e 20 léguas, de modo que estão todos entre si

divididos. Se acontece aprisionarem um contrário na guerra,

conservam-no por algum tempo, dão-lhe por mulheres suas

filhas, para que o sirvam e guardem, depois do que o matam,

com grande festa e ajuntamento dos amigos e dos que moram

por ali perto e se deles ficam filhos, os comem, ainda que sejam

seus sobrinhos e irmãos, declarando às vezes as próprias mães

que só os pais e não a mãe, têm parte neles. ” (As mães não são

mais do que uns sacos, em respeito aos pais, em que se criam as

crianças... virá a testificar Anchieta — “Informações” p. 452,

— nas Cartas, etc). “É esta a cousa mais abominável que existe

entre eles. Se matam a um na guerra o fazem em pedaços e

depois de moqueados os comem com a mesma solenidade; e

tudo isto fazem com um ódio cordial que têm um ao outro e

nestas duas coisas, isto é, terem muitas mulheres e matarem os

inimigos consiste toda sua honra.” “Não se guerreiam por

avareza porque não possuem mais de seu do que lhes dão a

pesca, a caça e o fruto que a terra dá a todos, mas somente por

ódio e vingança sendo tão sujeitos a ira que se acaso se

encontram em caminho logo vão ao pau, a pedra ou à dentada

e assim comem diversos animais, como pulgas e outros como

este, tudo para se vingarem do mal que lhes causam”...

E por aí além. Outros depoimentos não faltam e não

apenas de Jesuítas. Gabriel Soares fala dos Aimorés: “Não

vivem estes bárbaros em aldeias, nem casas como o outro

gentio, nem há quem lh’as visse nem saiba nem desse com elas

pelos matos, até hoje; andam sempre de uma para outra pelos

campos e matos, dormem no chão sobre folhas; e se lhes chove

arrumam-se ao pé de uma árvore, onde engenham as folhas por

cima, quanto os cobre, assentando-se de cócoras; e não se lhes

achou outro rastro de gazalhada. Não costumam estes alarves

fazer roças nem plantar mantimentos... Vivem de frutos

silvestres e caça, de saltear toda a sorte de gentio... comem

carne humana por mantimento não por vingança como os

outros... ( Tratado, 47-8).

Outro Jesuíta, António Blásquez, depõe de suas casas,

dos que as têm: “São suas casas escuras, fedorentas e

afumadas, em meio das quais estão uns cântaros como meias

tinas, que figuram as caldeiras do inferno. Em um mesmo

tempo estão rindo uns e outros chorando, tão de vagar que se

lhes passa uma noite em isto sem lhe ir ninguém à mão. Suas

camas são umas redes podres com a ourina, porque são tão

preguiçosos que, ao que demanda a natureza, se não querem

levantar. E dado caso que isto bastara para imaginar em o

inferno”... (Cartas Avulsas, 173). Outro padre, ainda, visita

aldeia já meio civilizada, cujos moradores tinham tornado da

guerra, trazendo despojos dos vencidos: “vi que daquela carne

(humana) cozinhavam em um grande caldeirão e ao tempo que

cheguei atiravam fora uma porção de braços, pés e cabeças de

gente, que era cousa medonha de ver-se e seis ou sete mulheres,

que com trabalho se teriam em pé, dançavam ao redor,

espevitando o fogo, que pareciam demônios no Inferno”.

(Azpilcueta Navarro, in Cartas Avulsas, p. 52).

E não só Jesuítas, de moral estrita, repito: todos os

contemporâneos: “Sam muy deshonestos e dados a

sensualidade e assim se entregam aos vícios como se nelles não

houvera razão de homens” (Gandavo, História da província

Santa Cruz, ed. do Anuário do Brasil, 1924, p. 124). Gabriel

Soares depõe: “São muito afeiçoados ao pecado nefando, entre

os quais se não tem por afronta e o que serve de macho se tem

por valente e conta esta bestialidade por proeza e nas suas

aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos

os querem, como mulheres públicas” (Op. cit., p. 289).

Todos, todos os depoimentos: para finalizar a do

boníssimo Anchieta: “todos eles se alimentam de carne humana

e andam nus”, ( Cartas, p. 45); “copiosíssima libação de vinhos,

que fabricam de raízes” (id.); “as mulheres andam nuas e não

sabem se negar a ninguém mas até elas mesmas cometem e

importunam os homens, jogando-se com eles nas redes porque

têm por honra dormir com os Cristãos” (p. 68); “não se pode

nem se deve prometer deles cousa que haja de durar (p. 150);

os ensinados... tornam-se aos costumes de seus pais“ (p. 179).

Rui Pereira conta nas Cartas Avulsas, p. 265, o retorno à

barbárie de toda uma aldeia ” se foram fugindo todos pelo

sartão...

Portanto, sem dúvida, dos últimos povos da terra, na

escala sociológica. Nômades quase, sem agricultura, nem

criação, sem propriedade, nem governo, nem religião, pequena

mentalidade sem progresso. La Condamine iria a dizer deles

que envelhecem sem deixar de ser crianças — antropófagos,

sensuais, intemperantes, perdidos pelas florestas... tais foram os

selvagens do Brasil.

Entretanto, por uma contradição bem humana, a

imaginação dos viajantes e a das viagens, por antítese à Europa,

arranjou — e com selvagens do Brasil — a lenda do “bom

selvagem” e a da “idade de ouro”... Montaigne conta que viu

Tabajaras, levados a Ruão e até entrevistou um, que lhe fez a

crítica da monarquia dinástica e da sociedade capitalista...

Ronsard, informado pelo “douto Villegaignon”, a quem se

refere, diz deles, os índios do Brasil: “Ils vivent maintenant en

leur âge doré... Vivez joyeusement je voudrais vivre ainsi”.

Este “bom selvagem” falsificado no século XVI (1560)

dará com o romantismo nascente no fim do século XVIII e

começo do XIX, a volta à natureza, à primitividade, portanto,

desfazendo o “Contrato Social”, para obter a “igualdade” de

Rousseau, a Revolução Francesa e o romantismo literário de

Chateaubriand, — exótico com Atala e os Natchez,

“revolução literária das letras”.(19)

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Tal falsificação produziu aqui o romantismo literário de

José de Alencar: o “Guarani” é um gentleman abnegado; a

“Iracema” é um divino amor de mulher; os “Timbiras”, de

Gonçalves Dias, são cavalheiros andantes, “senhores em

cortesia”... E produziu a falsificação patriótica do selvagem

Brasileiro, oposto, como símbolo, ao “maroto”, o Português

colonizador, e o negro Africano, cuja servilidade ajudou a fazer

o Brasil. A mestiçagem destas duas raças está e estará, por

muito tempo ainda fazendo a independência do Brasil, com a

glorificação do “bom selvagem”, a falsificar e engrandecer,

esquecendo os Europeus, e escondendo os Africanos, exaltados

os Americanos, que entretanto destruíram, e se destruíram... O

que eles foram porém, esses aborígenes, dizem-no os cronistas

contemporâneos, todos os Jesuítas, os Gabriel Soares, Gandavo,

Hans Staden... que os trataram. Dizem-no os nossos

contemporâneos que os estudaram objetivamente, os Couto de

Magalhães, Rondon, Roquette Pinto, Salesianos e Beneditinos

da neo-catequese: depois de os exterminarmos, vem-nos, não a

penitência,

a

falsificação

romântica

pretendidamente

patriótica...

$,1'$ &$%5$/

Prosseguindo a viagem, deixando o Brasil, a 2 de Maio,

as 11 restantes embarcações — a de Luís Pires perdera-se antes