História do Congo: Obra posthuma do Visconde de Paiva Manso por Levy Maria Jordão - Versão HTML

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b

■f'

CONGO

COEPO DIPLOMÁTICO

i

Provisão de el-rei D. João n para se

pagarem á Congregação de S. Eloy

as despezas feitas com os negros do

Congo—5 de abril de 1408.

Nesta Provisão de 5 de abril de 1492

(que Fr. Francisco de Santa Maria

dá como existente no cartório do

convento de S. Eloy de Lisboa ')

ordenava elrei D. João II que se

pagasse ao reitor, que então era

desse convento, os gastos que até

ali houvesse feito com os negros

vindos do Congo, que nelle estavão

sendo educados.

Apesar de todas as diligencias, não

foi possível descobrir este diploma

No Archivo Nacional'.

II

Provisão de D. João n para se pagar

& mesma Congregação a despeza

feita oom a missão que enviara ao

Congo em 1400—il. de junho de

1402.

Nesta Provisão de il de junho de

1492 (que Fr. Francisco de Santa

Maria dá como existente no cartório

de S. João de Xabregas, e que,

apesar de todas as diligencias,

também não encontrámos no

Archivo Nacional) ordenava elrei D.

João n que se pagasse ao Geral a

despeza feita pela Congregação no

aviamento dos padres que enviara

em

1 O Ceo aberto na terra, Lisboa

1697, p. 269.

—2 —

missão ao Congo na armada que

para lá partira em 19 de dezembro

de 1490 sob o commando de

Gonçalo de Souza '.

III

Alvará de D. João n mandando dar

diversas pegas de vestuário a D.

Pedro, enviado do rei do Congo, e a

três negros seus—13 de julho de

1493.

Ruy gill mandamos vos que dees A

dom pedro que veio de raa-nycongo

hum capuz e pelote e calcas de pano

de pre e hum jubam de catim e

quatro camisas de mea olamda e

hum cymto de coiro e hums

borzeguys e hum barrete dobrado e

mea dúzia da taças de seda e huma

dúzia e mea de coiro e asy dares a

três negros seus senhos capuzes e

pelotes e calcas damtona e jubaaos

de fustam e senhos pares de

camisas de pano da terra e senhos

cymtos de coiro e senhos pares de

ca-patos e senhos barretes pretos

dobrados tudo feito e tirado da

costura e asentayo em voso caderno

pêra vollo depoys asynarmos. feito

em torres vedras a desoito dias de

Julho pedro lomelim ho fez anno de

mil

quatrocentos noventa e três—Rey •

• • dom Álvaro.

Vestido de pre e jubam de catym e

camysas de mea olanda a dom

pedro que veo de manicongo e aos

três negros seus vestido damtona e

fustam e^misas de pano da terra

pêra o caderno, e barretes dobrados

e mea dúzia datacas de seda e huma

e mea de coiro'.

IV

Alvará de D. João n mandando dar a

João Soares, que partia para o

Congo oom D. Pedro, diversas pegas

de vestuário —10 de dezembro de

1403.

Ruy gill mandamos vos que dees a

Joham soares que ora emvia-raos

com dom pedro a manicongo huma

capa pelote e calcas de pano

dantona e gibam de chamalote e

hum par de camisas de pano da

terra

1 O Ceo aberto na terra, Lisboa

1697, p. 269.

e asssentayo em voso caderno pêra

volo depois asynarmos. scripto em

liiboa a des dias de dezembro

pantaliam dias o fez de mil quatro

cen-

tos e noventa e três—Rey • • •

Para Ruy gill dar a Joham soares

vestido dantona *.

Alvará de D. João n mandando dar

diversas peças de vestuário a

Jacome índio e outros negros e a

dous enxertados—IO de dezembro

de 1403.

Ruy gill Mandamos vos que dees a

Jacome ymdeo e a Joham de samta

maria e a carayelinha e a Joham

gomçallues e a symam e a dom

francisco negros e a christovam e a

cabreira e a Joham de pomtevell

emxertados que martim afomço

emsyna a lleer e a escrepuer senhas

capas e pelotes e calcas de fustam e

senhos pares de camisas de pano de

linho da terra e senhos pares de

çapatos a todos E as camisas de

Jacome Imdeo sejam de bretanha E

ao dito Jacome dares hum barrete

preto dobrado tudo feito e tirado de

custura E asemtayo em voso

caderno pêra vollo despois

asynarmos feito em lixboa a des

dias de dezembro amdre pyres o fez

de mill quatro cemtos novemta e

três —

Rey • • • dom Álvaro.

Pêra Ruy gill que dé Jacome Yndeo

e a João de samtá Maria e a

caravelinha e a João gonçalves e a

symam e a dom francisco negros e a

três moços eixertados senhas capas

e pelotes e calcas de bristoll e

jubooes de fustam e carapuças e

senhos pares de camisas de pano de

linho da terra e çapatos E a Jacome

Ymdeo duas camisas de bretanha e

hum barrete preto dobrado pêra o

caderno *.

1 Arch. Nac, Corpo Chron., part. I,

maç. 2, doe. num. 104.

2 Ibid. doe. num. 105.

Alvará de D. João n mandando

apromptar diversas peças de

vestuário para dar de presente ao

rei do Congo, ao enviado D. Pedro, a

sua mulher e a outros—10 de

dezembro de 1493.

Nos EIRey mandamos a vos Ruy gil

magro Recebedor de nosso the-

souro e ao sprivam dese oficio que

dees a dom pedro de manicongo

pêra levar ao Rey de comgo dous

capuzes, hum de graam vermelha e

outro de Roxa e dous pelotes dos

ditos panos E ainda folgaríamos que

teyessem algum lavor mourisco se

se podesse fazer ou achar feitos E

mea dúzia de camisas dolanda

lavradas destas commuas e nom

mouriscas com as mangas curtas ou

como se melhor poderem aver todo

em huma arca. E asy meesmo

darees ao dito dom pedro pêra seu

vestir huma capa pelote e calcas de

londres Roxo ou pano de sua vallia

e huum gi-bam de cutim Roxo e

hum cimto de coiro boom e hum

barrete vermelho e hum punhal, e

huuns borgegyns e atacas e pêra sua

molher huum saioho faldrilha e

mantilha do dito paono e a cada

hum delles dous pares de camisas, a

saber: as delle. dolanda e as delia de

pano francês. E a dom francisco e a

joham de santa mana e a diogo vaz

senhos capas pelotes calças

damtona das coores que queserem e

giboões de cha-maalote e senhos

pares de camisas de leino da terra e

senhos cintos e barretes e senhos

pares de capa tos e senhos mantos e

cotooens e calças bragas pêra o

maar E asy ao dito dom pedro e

assentay todo em vosso caderno

pêra vollo depois asynarmos e

cumpre que dees a ysto grande

aviamento e asy mesmo day a

molher de dom pedro hum par de

beatilhas e hum par de veos. feito

em lixboa a dez dias de dezem-

bro pantliam diaz o fez de noventa e

trez—Rey • ■ • •

Pêra Ruy gil dar o vestido pêra o

Rey de comgo e pêra dom pedro e

sua mulher e os seus '.

1 Arch. Nac. Corp. Ghron., part. I,

maç. 2, doe. 103.

vn

Formula prescripta por elrei D.

Manuel para a assignatura

do rei do Congo—1600?

Este he o synal que parece a elRey

noso Senõr que elRey de raani-

coDguo deve fazer e asynar daquy

em diante *.

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vni

Carta d'elrei D. Manuel para D.

Aflbnso rei do Congo —1512 *

Muito poderoso e exeellenterei de

Manicongo. Nós dom Emanuel pela

graça de Deos Rei de Portugal e

Guiné vos enviamos muito saudar,

como aquelle que muito amamos, e

prezamos, e pêra quem queríamos

que Deos desse tanta vida, e saúde

como vos desejaes. Nos enviamos a

vos Simão da sylva fidalgo de nossa

casa pessoa de que muito

confiamos, e a quem por nos ter

muito bem, e fielmente servido

temos boa vontade, o qual

escolhemos pêra vos enviar, por o

termos conhecido por esforçado, e

de muita fidelidade, e que vos dará

de si boa conta.

i Arch. Nac. Gav. 15, maç. 1, num.

51.

E porque quando as semelhantes

pessoas, assi nos, como os outros

Príncipes, e Reis Chrisfâos

enviamos huns aos outros, he

costume levarem nossas cartas

pelas quaes sam cridos em todo o

que de nossa parte lhe mandamos

faltar áquelles, a quem os

enviamos, nos falíamos com o dito

Simão da sylva toda nossa vontade

acerca da sua ida a vos, e o que

queremos que em sua estada lá faça

em vossas cousas assi naquellas

que tocarem a paz, como a guerra,

como também na justiça, e

governança de vossos regnos e

senhorios pêra o que nos enviastes

pedir que vos enviássemos huma

pessoa. Muito vos rogamos que o

ouçaes, e lhe deis inteira fé, e

crença em todo o que de nossa parte

vos dixer e fal-lar, assi como o

faríeis se per nos vos fosse dito e

fallado, e em muito prazer o

receberemos de vos, e nos speramos

em nosso Senhor que da ida do dito

Simão da sylva vos recebais muito

prazer e contentamento, e que em

todas vossas cousas o acheis assi

bom, e verdadeiro servidor como

nos nas nossas, e em todo nosso

serviço o temos achado, porque por

isso o escolhemos pêra volo enviar,

e muito vos rogamos que pois

prouve a nosso Senhor por sua

misericórdia vos alumiar e trazer ao

conhecimento de sua sancta Fé, assi

vos praza ordenardes todas vossas

cousas, e nella o servirdes, como o

fazem os Príncipes Christãos, e

como nós o fazemos: do que mui

compridamente vos informará o

dito Simão da sylva, porque de assi

o fazerdes, receberemos nos muito

prazer e contentamento '.

IX

Manifesto ou Carta notifloatoria do

rei do Congo D. Affbnso aos

prinoipaes senhores do seu reino—

1512.

Porque neste tempo presente, e em

todos os vindouros até fim do

mundo, seja a todos sabido e

manifesto, as obras, e

amerecimentos que o todo

poderoso Deos, nosso Senhor fez

sobre nós dom AíTonso por sua

graça, Rei de Manicongo, e senhor

dos Ambudos noteGcamos, e

fazemos notório a todos os que

agora vivem, e pelos tempos adiantp

vierem, assi nossos vassallos, e

naturaes de nossos regnos e

senhorios como a todos os Reis,

Príncipes, e senhores, e gentes

nossos vizinhos, e comarcãos, que

sendo nos tempos passados estes

nossos regnos, e senhorios

descubertos pelas gentes dos

regnos, e senhorios de Portugal,

1 Por ter fallecido Simão da Silva, já

no Congo, foi a carta entregue por

Álvaro Lopes, feitor, que ia no navio

O Gaio, enviado para lhe succeder.

assi em vida delRei dom João

segundo Rei dos ditos regnos, como

agora em special em tempo do

muito alto, e muito poderoso Rei, e

Senhor dom Emanuel Rei dos ditos

regnos, e senhorios de Portugal, e

sendo por elles ambos enviados a

elRei meu padre, como per huma

divina inspira çam, e amoestamento

de esperança das cousas presentes

de acre-centamento de sua saneia

Fé catholíca nesta terra por sua

piedade pran-tada, clérigos, e

frades, e pessoas religiosas para que

lhe mostrassem o caminho de sua

salvação, e o posessem no

conhecimento de sua sancta Fé

catholica, sob que vivem os ditos

Reis, e seus naturaes, porque nisso

fezessem obra conforme a

charidade per Deos a elles

encomendada, e como fieis, e

verdadeiros catholicos comprissem

nisso seus mandados,, foi por o dito

Rei meu padre recebida a ensinança

Christã, e nella mostrou bom

começo, do qual por enveja do

diabo, inimigo da Cruz foi por seus

dias apartado, e assi desviado que

nam obrou nelle a graça de Deos.

Nos quaes tempos em que estas

cousas se começaram, e passaram

sendo nos moço de pouca idade, e

alumiado da graça do Spirito sancto,

per huma singular, e especial mercê

a nos dada de toda a santíssima

Trindade Padre, Filho, Spirito santo

três pessoas hum só Deos, que

firmemente cremos e confessamos,

fomos recebendo a doutrina

Christã, de modo que só pela

misericórdia de Deos foi em nos de

hora em hora, e de dia em dia, assi

prantada em nosso coração

confirmada, que apartado de

todolos erros e idolatrias em que

até o presente nossos antepassados

viveram fomos em verdadeiro

conhecimento, que nosso Senhor

Jesu Christo Deos, e homem

verdadeiro, descendo do Ceo a terra

tomar carne no ventre virginal da

Virgem gloriosa Maria soa madre, e

por salvação de toda a humanai

linagem, que pelo peccado de nosso

primeiro padre Adão estava sob

poder do diabo recebeo morte no

lenho da Cruz na Cidade de

Hierusalem, e foi sepultado, e

resurgio da morte á vida ao terceiro

dia, porque fosse cumprido, e

acabado o que flelle foi profetizado,

pela qual morte somos remidos, e

salvos. E sendo nos Deste

verdadeiro conhecimento, e

continuando nos ensinos dos

religiosos, e fieis Christãos, caímos

em grande avorrecimento delRei

nosso padre, e dos grandes de seus

regnos, e gentes delles, o qual com

grande desprezo, e muita miséria

nos desterrou pêra terras mui

longe, onde apartado de soa vista e

de suas graças passamos muito

tempo, não sem grande

contentamento e prazer de

padecermos pela Fé de nosso

Senhor. Mas com muito esforço,

que por sua piedade sempre nos

deu, pêra muito mais padecermos

se conviesse, com firme sperança

que assi nos ajudaria, e daria sua

graça, que não ficasse ao menos

pêra salvação de nossa alma em nós

nosso trabalho e firme Fé de vazio,

e passando

—8—

assi em nosso desterro, houvemos

recado como elRei meu padre

estava em passamento de morte, e

que outro nosso irmão se apoderava

do re-gno 9 não lhe pertencendo por

direito senão a nós, como primeiro,

e primogénito que somos, e que isto

fizera com favor de todos os

grandes, e senhores do regno e

gentes delle, que a nos tinham em

ódio, por conseguirmos a fé de

nosso Senhor Jesu Christo, o qual

como nunca deseraparou, nem

desemparará a quem o serve, e a

quem o chama nos esforçou pêra

virmos onde o dito nosso Padre

estava, e com só xxxvi homens que

nos serviam, e acompanhavam,

viemos onde o dito nosso Padre

estava, e ao tempo de nossa chegada

era já falecido. E aquelle nosso

irmão, que nossa sobcessão

individamente, e contra justiça nos

occupava, posto em armas com

numero infindo de gente, e

apoderado de todo nosso regno, e

senhorio, o qual quando assi vimos

por so salvação de nossa pessoa nos

fingimos doente: e estando assi com

os nossos, por huma divina

inspiração de nosso Senhor, nos

esforçamos, e chamamos os nossos

xxxvi homens, e com elles nos

aparelhamos, e nos fomos com elles

á praça da Cidade, onde o dito nosso

Pai faleceo, e onde gente de numero

infindo estava com o dito nosso

irmão, e alli bradámos por nosso

Senhor Jesu Christo, e começámos

a pelejar com os nossos contrários,

e dizendo os nossos xxxvi homens

inspirados da graça e ajuda de Deos,

já fogem, já fogem os nossos

contrários se pozeram em

desbarato, e foi per elles

testemunhado, que viram no ar

huma Cruz branca, e o

bemaventurado Apostolo Santiago

com muitos de cavallo armados e

vestidos de vestiduras brancas

pellejar, e matar nelles, e foi tão

grande o desbarato, e mortandade,

que foi cousa de grande maravilha.

No qual desbarato foi preso o dito

nosso irmão, e por justiça julgado

que morresse, como raorreo por se

alevantar contra nos: e finalmente

ficamos em paz pacifica de nossos

repôs, e senhorios, como hoje em

dia, pela graça de Deos somos, da

qual cousa, e do milagre por nosso

Senhor feito, enviamos notificação

ao dito Senhor Rei dom Emanuel de

Portugal, como a começo da mesma

obra e per cujo meio, per graça de

Deos fomos pêra tantos bens

alumeado, e com os recados disto

enviamos a etle dom Pedro nosso

primo, que foi hum dos xxxvi que

com nosco era, pelo qual fomos

informado, e assi pelas cartas que o

dito senhor Rei nos enviou dos

grandes louvores que foram dados

em seus re-gnos ao todo poderoso

Deos, por os bens tão manifestos do

seu grande, e infinito poder: e visto

pelo dito senhor Rei de Portugal,

como isto era obra digna de

perpetua lembrança, e de que todo

bom exemplo se podia seguir em

toda a parte, em que se soubesse

pêra maior acrecenta-mento de

nossa santa Fé catholica, e também

pêra nosso louvor anlre

outras muitas cousas que pelo dito

dom Pedro nosso primo uos enviou,

e por Simão da sylva fidalgo de sua

casa, que com elle a nós vinha fios

mandou as armas nesta carta

pintadas pêra as trazermos em

nossos scu-dos por insígnias, como

os Reis e Príncipes GhristSos

daquellas partes costumâo trazer

por sinaes de quem s5o, e donde

procedem, e pêra entre todos serem

per ellas conhecidos. As quaes

armas que assi nos enviou

significão a Cruz que no ceo foi

vista, e assi o Apostolo Sanctiago

com todos os outros Sanctos com

que por nos pelejou, e sob cuja

ajuda de Deos nosso Senhor nos

deu victoria, e assi também como

pelo dito Senhor Rei nos foram

enviadas pêra as tomarmos com a

parte das suas que nas ditas armas

meteu, as quaes o todo poderoso

Deos nosso Senhor deu pelo seu

Anjo ao primeiro Rei de Portugal

pellejando em batalha contra

muitos Reis Mouros, imigos de sua

sancta Fé que aquelle dia venceo, e

desbaratou. As quaes armas assi

pelo dito Senhor Rei de Portugal a

nós enviados com muita devação, e

com muito acatamento recebemos

de Deos nosso Senhor, e como

mercê mui em special por meo do

dito Senhor Rei de Portugal que

nolas envia, a quem muito as

tivemos, e temos em mercê, e com

obrigação de verdadeiro, e fiel

irmão em Chrislo Jesu, e mui fiel

amigo em todo o tempo lho

reconhecemos, em todo o que de

nos 9 e de nossos regnos e

senhorios mandar, e como tal se

cumprir no que se offerecer por

elle, e por suas cousas morreremos

pela infinda obrigaçam em que lhe

somos, não somente pelo bem

temporal, mas pelo spiritual, e sal

vacam de nossa alma, e de tanto

povo e gente como per seu meo he

salvo, e speramos que ainda mais

seja, no conhecimento, e conversam

da Fé de Chrislo, a que nos

aderençou, e em que nos pôs com

muito trabalho, e despeza que

nosso-Senhor per sua misericórdia

em todas suas cousas lhe

galardoara, pois por elle so, e por

seu serviço o fez. E as ditas armas

rogamos, encomendamos, e

mandamos por nossa bençam a

nossos filhos, e a todos os que de

nos descenderem que ate a fim do

mundo sempre traguam, e em todas

as guerras em que forem sejam

lembrados da significaçam delias e

do modo em que per nos forão

ganhadas, e nolas enviou o dito

Senhor Rei de Portugal, porque com

ellas confiamos na misericórdia de

Efeos que sempre lhes dará victoria,

e vencimento, e os conservará em

seu regno ate fim do mundo: assi

mesmo porque he cousa justa que

aquelles que bem e fielmente

servem a seu Rei e senhor sejam

seus serviços agalardoa-dos e

satisfeitos com honras e mercês per

que suas famas e obras nunca

sejam esquecidas. Estes sinaes

darmas são também dados aos

nobres fidalgos e cavalleiros que

bem e fielmente servem a seus Reis

e senhores, segundo que nos fez

saber o dito Senhor Rei de Portugal,

que

— 10—

antre os Reis e Príncipes Christãos

se acostuma fazer, nos enviou mais

vinte escudos darmas pêra os

darmos áquelles do conto dos trinta

e seis que na batalha com nosco

foram que demais limpo sangue e

mais nobres fossem para por elles

se perpetuar sua fama, e o louvor do

serviço que alli nos fezeram, e com

virtuosa enveja cada hum se

esforçar e encender a fiel e

lealmente seu Rei, e senhor seruir,

e com perpetua memoria se

perpetuar: a nosso Senhor Jesu

Christo pedimos, que elle que por

sua só piedade quiz por nós padecer

e morrer, se queira alem-brar e

amercear de nós, pêra sua sanctà Fé

Catholica nos conservar, e nella a

nos, e a todos nossos filhos, e a

todos nossos povos deixar acabar

como elle sabe que o desejamos '.

Carta d'armas que el-rei D. Manuel

mandou ao rei do Congro, e

publicação (Tellas por decreto

(Teste— 1512*.

D. Affonso por graça de Deus rei de

Manicongo, e de todas suas terras e

senhorios, fazemofe saber a todos

os fieis e infiéis, que sendo eu infiel

e no serviço e adoração dos ídolos,

como todolos nossos antecessores e

gentes d'estes reinos e senhorios de

toda a Ethiopia, sem em tempo

algum haver tido noticia e fé de

Nosso Senhor Jesus Christo; elle

por sua infinita piedade e

misericórdia, que nunca

desamparou áquelles que desejo

tiveram de o conhecer, quiz e

permittiu que elrei de Portugal D.

João, o segundo do nome, no anno

do nascimento de Nosso Senhor

Jesus Christo de 1487, tendo

informação alguma de em nossa

terra haver disposição para em ella

se prantar a fé de Nosso Senhor,

enviasse a elrei meu pai e a nós

pessoas, que nola ensinassem e

trabalhassem que a quizessemos

conhecer, do que a nós muyto

prouve: e conhecendo o erro e

cegueira em que até alli estávamos,

recebemos agua do santo baptismo

depois d'elrei meu pai, assi a

receberam alguns

1 Damião de Góes: Ckron. de D.

Manuel, part. III, cap. 38, diz ser

este o traslado de verbo a verbo do

manifesto ou carta notificatoria do

Rei do Congo D. Affonso. .

PrIT

* Ms. da Bibliotheca devora Cod.

fl. 103 v.°; J. H. da Cunha Rivara: O

Congo, no Panorama num. 453 da

5/ serie (tom. IV, 1840).

Differe do documento num. 9, que

extrahimos da Ckronica de D.

Manuel de Damião de Góes, part.

III, cap. 38.

senhores e fidalgos da nossa terra,

dando muytas graças a Nosso

Senhor pela grande e inestimável

mercê que d'elle recebemos em nos

tirar da sujeição e captiveiro do

diabo, e não somente nos querer

trazer pêra si, mas ainda nos querer

fazer seus filhos por adopção. E

depois elrei D. Manuel, successor

do dito rei D. João 2.° de Portugal,

enviou a nós por vezes sacerdotes

religiosos que foi grande ajuda pêra

que a fé de Nosso Senhor fosse

mais estimada e accrescentada em

nossos reinos e senhorios: o qual

acrescentamento da santa fé

catholica, trabalhando nós assi, e

procurando-o com todas nossas

forças e desejos, elrei meu pai

falleceo da vida deste mundo, e

sendo nós delle certo, partimos de

nossas terras onde estávamos, pêra

a cidade de Manicongo, onde se

havia tomar a posse do reyuo,

segundo nossos antigos costumes; e

pelo caminho ser longo, e os

christâos ainda poucos, e nós não

consentirmos infiel algum em

nossa companhia, chegamos a

nossa cidade com sós trinta e sete

pessoas, gente fidalga, e os outros

bons criados e servidores nossos,

onde estava meu irmão que á fé de

Nosso Senhor nunca se quiz

converter, e por isso todo o povo,

que quasi todo era infiel e adorava

os ídolos, o queryam fazer rey, o

qual veio contra nós com grande

poder de gente assi da cidade que

era grande como de fora. E nós

posto que comnosco não

tivéssemos mais que os ditos trinta

e sete christâos, lembrando-nos que

pêra o poder de Nosso Senhor não

havia necessidade de muytas gentes

senão do seu querer e confiando

nelle que pois nos dera

conhecimento de sua fé, também

nos daria ajuda contra aquelles que

delia eram inimigos e

despresadores de a quererem

receber sendolhes offerecido:

determinámos de os esperar e

pelejar com eles. E sendo já grão

numero de frechas sobre nós e

querendo nos mais chegar para

virmos ás azagaias e espadas,

bradámos nós e os nossos por o

bemaventurado apostolo S. Thiago,

e logo milagrosamente vimos todos

os nossos inimigos virar as costas e

fugir quanto cada um mais podia

sem sabermos a causa do seu

desbarato, o qual seguimos, e no

alcance grande numero de gente

falleceu sem algum dos nossos

nesse conto entrar. E depois de

acabada a vitoria soubemos dos que

da peleja escaparam sem desvairo

algum que a causa de sua fugida,

fora, quando chamamos o apostolo

S. Thiago, ser deles todos visto, e

uma cruz branca no meio, e grande

numero de gente a cavallo armada,

a qual lhes pozera tão grande

espanto que nam poderam mais

soffrer senão metter-se logo em

fugida. Pelo qual me pareceo cousa

mui devida alem das muytas graças

e louvores que a Nosso Senhor

demos por tão grande mercê e

misericórdia, que comnosco e com

os nossos usou e por tão claro e

evidente milagre e tanta vitoria

fazermos uma tal me-

— 12—

mona e lembrança em vossas

armas, que os reys que depois

vierem ao reyno e senhoryo de

ManicongQ se não possam em

tempo algum esquecer desta tão

grande mercê e beneficio que tão

maravilhosamente por seu rey e

reyno e gente fez. As quaes armas

são as seguintes:

O campo vermelho e o chefe do

escudo azul e nelle uma cruz de

prata florida e em cada canto do

chefe duas vieiras de ouro e um pé

de prata com um escudo dos cinco

de Portugal, que é de azul com cinco

vasantes de prata em aspa; e de

cada parte do dito escudo está um

idolo negro quebrado e a cabeça

para baixo. E sobre o vermelho

estão cinco braços armados com

senhas espadas nas mãos e com os

punhos nas mãos; e o elmo d'ouro

aberto, e em cima uma coroa de rei,

e o timbre os cinco braços com suas

maças d'ouro nas mãos.

XI

Carta do rei do Gongo D. Afibnso

para o Papa—1512 f .

Sanctissimo emChristo Padre,

Beatíssimo Senhor, senhor nosso

Júlio segundo, pela divida

Providencia Summo Pontífice.

Vosso devotíssimo filho dom

Affonso pela graça de Deos, rei de

Manicongo, e senhor dos Àmbudos,

Guiné, manda beijar vossos

beatíssimos pés com muita

devoção. Bem cremos, Beatíssimo

Padre, que tem vossa Santidade

entendido como elRei dom João de

Portugal, segundo do nome, no

começo, e logo após elle o catholico

Rei D. Emanuel seu successor, com

muita despeza, trabalhos, e

industria mandarão a estas terras

pessoas religiosas, com a doctrina

dos quais (sendo nós enganados

pelo demónio, adorando ídolos) nos

apartamos divinalmente de

tamanho erro, e tamanho

captiveiro, e de como reduzidos á Fé

de nosso Senhor, e Salvador Jesu

Christo tomando a agoa do sancto

baptismo, alimpando-nos com ella

de lepra, de que éramos cheos,

apartando-nos dos orrores

gentílicos, que até entam usáramos,

lançando de nós todalas abusões

diabólicas de satanaz, e seus

enganos, de todo nosso coração, e

vontade recebemos milagrosamente

a Fé de nosso Senhor Jesu Christo.

Pola qual razão depois de sermos

doctrinados e ensinados nella,

sabendo nós que era costume dos

Reis Christâos mandarem

obediências a vossa beatitu-de,

como a verdadeiro Vigário de Jesu

Christo, e Pastor de suas ove*

— 13—

lhas, querendo nós como be razão

nesta parte imitar em tam divino, e

sagrado costume (na companhia e

numero dos quaes o todo poderoso

e misericordioso Senhor Deos, por

sua clemência nos quiz ajuntar, e

unir pêra seguirmos a sua sancta

companhia, e catholicos costumes)

mandamos a vossa Sanctidade

nossos embaixadores, pêra lhe de

nossa parte darem a acostumada, e

devida obediência, como os outros

Reis Chris-tãos fazem. Dos quaes

embaixadores, hum he o meu mui

amado, e prezado filho dom

Henrique, o qual elRei dom

Emanuel de Portugal meu muito

amado irmão em seus regnos

mandou enviar, e instruir na

sagrada Escriptura, e costumes da

Fé Catholica, o outro he dom Pedro

de Sousa, meu muito amado primo,

aos quaes, alem de vos por elles ser

dada nossa obediência, dixemos

algumas cousas que de nossa parte

diram a vossa beatitude, as quaes

lhe pedimos mui humildemente

que ouça, e receba delles, e lhes dé

tanta fé como se por nós mesmo

fossem ditos diante de vossa

beatitude, a qual Deos por sua

misericórdia queira conservar em

seu sancto serviço.

Dada em a nossa cidade de

Manicongo, no anno do nascimento

de nosso Senhor Jesu Ghristo de

mdxu.

XII

Carta de D. Aflbnso rei do Gongo, a

elrei D. Manuel

—5 de outubro de 1514.

Muito alto e muy poderoso

pryncype Rey e Senhor.—Nos dom

affom-so por graça de deus Rey de

conguo e senhor dos ambudos etc.

«Nos encomendamos a sua alteza

como a Rey e Senhor que muy to

amamos e lhe fazemos saber como

em vida de noso padre semdo nos

crystaõ e cremdo firmemmente na

ffee de noso Senhor Jhesu Christo e

asy dom pedro meu prymo huum

fidallguo de nossa terra dise a

EIRey noso senhor como eu e dom

pedro noso primo éramos crystaõs e

que crya-mos em deus e nam nos

seus ydolos pollo quall EllRey noso

padre dise que querya mandar

trazer o dito dom pedro ao seu

tereyro pêra o mandar matar pêra

ver se deus o lyvraria daly e que a

nos tyraria a renda e deixar nos

amdar per hy como homem de

vento ate que moresemos ou nos

elle mandase matar e que em tam

elle querya ver se o noso senhor

deus nos dava outra gente poys que

nos tanto cryamos nèlle E nos

vemdo o recado como noso padre

nos queria asy mandar matar a

— 14—

meu prymo e a mym nos demos

louvor a doso senhor deus E quanto

e a carne temos muito e recebes

gramde door e amgustya e doutro

cabo quanto era a nosa allma muito

prazer receberemos por morarmos

por amor de noso senhor e nam por

nenhuum mall que a noso padre

tyvesemos feyto e asy estamdo

neste estamte moreo noso padre e

nos com a ajuda de noso senhor e

da virgem gloryosa sua madre

viemos a esta cidade a tomar posse

do reyno e toda a gente e parentes e

irmãos eram contra nos e nos nam

tynhamos outra ajuda se-nam noso

senhor e o padre Rodrygue annes e

amtonio ffernamdes que nos muyto

esforço davam estando ambos em

oraçam a noso senhor que nos dese

vencimento contra nosos ymyguos

pollo quall prove a elle pola sua

mysericordia que nos deu tall

vitorya que os vencemos e em-tam

chegou a noso. Reyno huum navio

de gonçalo Rodrigues que foy a

myna e veo por estes padres que

avia muito tempo que ca estavam e

nos emtam os mamdamos e lhe

demos pêra elles ambos e pêra

gonçalo Rodrigues myll e

quynhentos manilhas e cynquoenta

esprivos e asy escrevemos huma

carta a sua alteza a qual escreveo

huum ffran-cisco (Fernandes em

que lhe dávamos conta da grande

vytorya e ven-cymento que nos

noso senhor deu e como noso reyno

era ja de crys-taõs pêra que sua

alteza nos mandase allguns

cleryguos ou frades pêra nos

emsynarem e ajudarem acrecentar a

ffee e asy mandamos dom

amrryque noso fylho e rodriguo de

samta maria noso sobrynho pêra

sua alteza os mandar emjynar e

emtam no mesmo navio esprivemos

huma carta a fernam de mello * em

que lhe roguavomos que elle nos

mandase vysytar com allguns

cleryguos pêra que nos emsynasem

as cousas de deus e chegamdo os

ditos padres e gonçalo Rodrigues á

Ilha quamdo fernam de mello lhe

vio llevar tanta fazemda emtrou a

cobyça nelle e mandou ca huum

navio sem nenhuma cousa somente

hum cu-bertor da cama e huma

guarda porta e huma alcatyfa e hum

ceo des-paranell e huma guarafa de

vydro e asy nos mandou, em o dito

navio huum cleriguo e vinha por

capitam e piloto gonçalo peres e por

es-privam Joam godinho o quall

navyo nos recebemos muyto prazer

por que cuydavamos que vinha em

serviço de deus e elle vynha por

grande cobyça. E nos emtam

perguntamos ao dito gonçalo perez

se tinha

1 Fernam de Mello, fidalgo

cavalleiro, tinha a capitania da ilha

de S. Tho-mó de que lhe fez mercê

elrei D. Manuel em ii de dezembro

de 4499 (Arch. Nac, Liv. das Ilhas,

foi. 159 v.° e seg). Governava ainda

em 9 de desembro de 1510 como

mostra a quitação existente no

Arch. Nac. a foi. 183 v.° do mesmo

Livro.

— 15—

fervam de mello allguns navios que

nos mandasse com allgumas

bombardas e espingardas pêra

termos ajuda pêra queymarmos a

casa gram-de dos ydolos por que se

lha queymasemos sem termos

ajuda dos crys-taõs lloguo nos

tornariam a por gerra pêra nos

matar e elle emtam nos dise que

nam mas que se lhe nos

mandasemos alguma fazenda que

elle os compraria e nos mandaria

toda ajuda que havíamos mester e

nos senhor emtam quysemos amtes

mandar quanto ouvese em noso

reino e que tudo se guastase amtes

que perdermos a fé de noso senhor

e ysto porque cuidávamos que pois

nos que éramos gentio tam pouco

avya somente de nos emsynarem as

cousas de deus nos doyamos de

perder a sua fee quanto mays

fernam de mello que era crystaõ e

filho de crys-taõ e por ysto nos

parecya que se doerya da fe de noso

senhor e que com a fazenda que lhe

mandasemos comprarya allguns

navyos que muyto agynha nos

mandase pêra que nos ajudasem

acrecentar a fé de noso senhor Jesu

Christo e destroyr o serviço do

diabo e queymarmos quantos

ydollos ouvese e asy perguuntamos

ao dito gonçalo pires se os padres

Rodrigue annes e amtonio

ííernandes eram em portugal que

levavam huma carta nosa pêra sua

allteza e elle nos dise que huum

mo-rera no mar e outro na Ilha do

cabo verde de que muyto nojo

recebemos asy per sua morte como

por suallteza nam ver nosa carta

nem aver quem lhe desse conta da

grande vitoria que tynhamos

ganhado Em tam senhor

detreminamos espriver outra carta

a suallteza e mandamos com ella

huum noso ssobrinho que chamam

dom gonçalo e hum noso cryado

que chamam manoell e os

mandamos em o dyto navyo de

fernam de mello e mandamos ao

dito fernam de mello pêra nos

comprar o dito socoro que avyamos

mester oytocentas manilhas e

cincoenta esprivos pêra elle e pêra

sua molher e cyncoenta manilhas

pêra o seu filho tryta e pêra o

capitam e esprívam vynte e

chorando nos muytas lagrimas e

roguando lhe por amor de noso

senhor que fernam de mello nos

viese ajudar a ganhar a fe de noso

senhor por que nos nam éramos

mais cristãos mais que nos e dom

pedro noso primo e nosos cryados e

toda a outra gente era emcrynada

aos ydollos e nam contra nos e em

tam se partyo o dito navio por

caminho de portuguall e nos

fycamos dom pedro noso primo e

francisco fernandes com aquella

gente de sundy cris-tam que nos

ajudou a guanhar aquella batalha

esperando por recado do dito

fernam de mello e esperamos todo

huum anno sem nunca vir seu

recado em senhor detreminamos de

queymarmos todos aquelles ydollos

o mais secretamentamente que

podesemos e nom curamos mays

daguardar a ajuda de fernam de

mello porque mayor era ajuda do

ceeo que ha da terra que noso

senhor nos ajudaria e que semdo

caso

-16-

que a gente de noso reyno se

tornase a erguer contra nos e nos

mata-sem que nos receberíamos

aquella morte com pacyencya por

salivar nosas allmas em tam

começamos a queymar todollos

ydollos quando a gente ysto vyo

começaram todos a dizer que

éramos hum mao homem e foram

nos mexericar com dom Jorge

moxuebata que era a cabeça de noso

reino e que nos queymase e

destroyse e noso senhor espritou

nelle em tall maneyra que ho

emcrynou a ser crystaõ e respondeo

aos que lhe dizyam mall de nos que

elle queria saber a fee de noso

senhor Jesus Christo e que

destroymdo elle a nos que éramos

seu tyo que quem poderia ser Rey

que mays seu parente fose e desta

maneira Irmão mantivemos noso

Reyno e crystandade e em tam dahy

a pouco tempo che-guaram os

padres de Santa loya que nos sua

allteza mandava e nos tanto que

soubemes que elles chegaram a

noso Reyno mandamos aper-goar

que todos nosos fydallguos os

fossem arreceber ao camynho e

tamto que emboora cheguaram a

esta cydade nos saymos ao tereyro e

preguamos huma preguaçam a toda

a nosa gente desta maneira» ora

Irmaõs vos outros saberes que

quanto e a fe que ate quy cremos

tudo é famtasma e vento porque a

verdadeyra fifee he de noso senhor

deus cryador do ceo e da terra por

que elle fez noso padre adam e eva e

poz em parayso terreall e lhe

defemdeo que nom comessem

huum pomo que aly avia e por

emluzymento do diabo foy nosa

madre eva e comeo e quebrantou o

mandado de deus e pecou e despois

foy fazer pecar noso padre adam

pollo quall todos nos outros

fycamos com-denados e vemdo nos

que aquelles por quebrantarem

aquelle so mandamento se

perderam quanto mais nos que

temos dez mas para vos outros

saberdes quam meserycordioso

noso senhor e vemdo nosa per-

diçam ser causada por huma

molher quys que por outra fosemos

sall-vos a qual he a virgem gloryosa

nosa senhora homde enviou o seu

bento filho a tomar carne humana

no seu precyoso ventre pêra nos

aver de remyr e salvar o quall

rrecebeo morte payxam por nos

salvar e deixou doze apóstolos que

fosem perguar por todo mundo e

emsynar a sua Santa fee e que

quallquer que acrese seria salvo e

guanharya o seu reyno - ■ o qual

nos ate quy nunca tyvemos maneira

pêra o conhecer aguora ir- ii maõs

que nos elle abrio caminho pêra

nosa salvaçam follguay todos de < r

ser crystaõs e aprendei as cousas da

sua fee e tomai exempro destes que

sam seus servos os mamtem muyta

castidade e vive em muyta aus-ty ve

era (sic) e jeguns e fazem muito

samta vida e quamto he as pe- ^

dras e paos que vos outros adoraes

noso senhor nos deu as pedras pêra

^ fazer as casas e o paos pêra lenha

em tam se còmverteram e torna- "i*

ram crystaõ muyta emfyndos

omens e molheres» e acabado ysto

ajun- "143

'■'Ti

\\

■f:

'<

— 17 —

tamos todos nosos irroaõs e filhos e

sobrinhos e filhos de nossos erra-

dos em maneira que era bem

quatrocentos mancebos e moços e

lhe mandamos fazer huns muros

muito gramdes com muytos

espinhos por cyma porque nom

salltassem e fogysem e os

entreguamos aos ditos padres pêra

que os emsynassem e também asy

mandamos fazer outros muros

apeguados nelles pêra os padres

todos juntos estarem asy como

mandava a hordem com quatro

casas demtro os quaes padres nom

es-teveram juntos mais que três ou

quatro dias e Joam de Samta Marya

dezfez Uoguo a comonidade e

emtam nos pediram lycemça dons

padres pêra se yrem pêra portuguall

e que sua allteza os mandara ca

pêra servir a deus e darem bom

emxempro e que poos outros

desfaziam a ordem que elles se

queriam ir por nam verem tam

gramde mall e estes eram amtonio

de Santa cruz e diogo de Santa

maria e o padre aleixos moreo de

nojo e emtam outros padres nos

requereram que emlegese-roos a

pêro fernandes por seu mayorall e

ysto nam por elles desejarem destar

emçarados mas armaram nos este

laço pêra estarem cada hum sobre

sy e nos lhe disemos que nos nom

tynhamos poder pêra hum cleryguo

fazer framde em tam se apartaram

todos cada hum em sua casa e

tomaram certos moços que cada

huum emsynava e nos vinham

todos os dias do mundo a

emportunar e pedir dinheiro e nos

lho dávamos em maneira que

começaram todos a tratar em

comprar e vem-der e nos vemdo o

seu devasamento lhe roguamos per

amor de noso senhor Jesus Christo

que se comprasem allgumas peças

que fosem es-privos e que nom

comprasem nenhuma molher por

nam darem máo exempro nem nos

fazerem ficar em mentyra com nosa

gente do que lhe tynhamos pregado

e sem embarguo disto começaram a

emcher as casas de putas em tall

maneira que o padre pêro

ffernandes emprenhou huma

molher em sua casa e pario huum

mulato pollo qual os moços que

emsynava e tynha em sua casa lhe

fugyaam e yam no contar % a seus

pais e mais e parentes pollo todos

começaram a zombar e escarnecer

de nos dizemdo que tudo era

mentyra o que lhe nos tynhamos

ditos e que os homens brancos que

nos emguanavam ao quall nos em

tam tomamos muyto nojo e nom

sabíamos que lhe responder» e da

hy a'pouco tempo chegou ao ryo

estevam da rocha em hum navio o

qual nos disse que era moço da

camará de suallteza e que vinha por

voso mandado apremder gonçalo

rodrigues de maneira que nos

follgua-mos muyto como lhe

pregumtamos pollo mandado de

suallteza pêra prender o dito

gomçalo rodrigues e elle nos dise

que ho mandado viera a fernam de

mello pêra que se estivese na ilha o

prender e que por que fernam de

mello nam sabia parte delle e que

elle vinha em sua

— 18—

basca e que se quysesemos espriver

a sua vileza ou mandar allguum

recado que elie o levarya e nos

confiamdo delle por nos dizer que

era voso cryado mandamos com elle

a dom pedro aquelle noso contrayro

que estava com grande poderyo de

gente pêra pelejar comnosco e apa-

receo lhe no ceo huma cruz que hos

atou de tall maneyra que nam

tyveram coraçam pêra pelejar e em

tam se tornou o dito dom pedro

crystam com muita gente pollo

milagre que asy todos viram o quall

nos mandávamos a sua alteza pêra

que elle mesmo contasse o que vio

e asy mandamos dom pedro nosso

primo e dom manoell noso irmaõ e

outros nosos sobrinhos e

mandávamos huma carta a

suallteza e outra pêra a rainha dona

lyanor pollos quaes nosos parentes

mandávamos elle setecentas

manilhas e muytos esprivos e

papaguayos e bichos e guatos

dallgualea o quall estevam da

rrocha nos diáe que man-dasemos a

fazenda diante delle a quall nos

mandamos e se meteo demtro no

dito navio e elle foy despois com os

ditos nosos parentes e tanto que

chegou ao navio e vio a fazemda ja

demtro tomou as cartas que ,hyam

pêra suallteza e as botou fora na

metade do chão e asy quebrou

huum braço a hum noso sobrinho

que se chama dom pedro de crasto

que Ha estavam por que se nam

queria sayr fora do navio e se ape-

guava a elle e assy botou fora o dito

dom pedro e dom manoell e todos

nosos parentes e se foy comtodo o

que a sualteza asy mandávamos e

ysto por comselho de francisquo

ffernandes que lhe espriveo huma

carta pêra elle por huum nosso

moço descolla e por esta causa

mandamos prender ao dito

francisco ffernamdes e em tam

mandamos matar o moço descolla

por que era noso e mandamos

soltar o dito francisco ffernamdes e

outras muytas cousas que sam

lõguas de contar e em tam vemdo a

nosa gente e fydallguos estas cousas

davam muito pouco por nosos

mandados, e faziam zombarya de

nos e nos neste estante partíamos

pêra huuma mata a mandar cortar

madeira pêra fazer huns muros de

pao pêra os moços descolla estarem

demtro e em tam cheguou a noso

rey-no huum navio de fernam de

mello em que vinha por capitam

estevam Jusarte seu sobrinho e por

esprívam lopo fferreira com os

quaes vinha dom gonçalo noso

ssobfinho e noso cryado manoell e

em tam perguntamos ao dito

estevam jusarte que se nos trazia

resposta da carta que por o dito

noso sobrynho mandamos a

suallteza e elle nos dise que

quamdo o dito dom gomçalo partyo

que suallteza o mandara chamar

pêra lhe dar a resposta e que elle

nam quysera tomar e que por esta

causa a nam trazia mas que

suallteza nos esprívyo em outro

navio que vinha detraz e nos

mandava muitas cousas e clérigos

pêra o serviço de deus e nos emtam

lhe disemos que tudo o que

— 19 —

suallteza fyzese em quaso que

tardase e nos recebesemos payxam

que tudo receberíamos com

pacyencia E em tam nos o

mandamos vir a esta nosa cidade e

nos deu vinte pedaços de pano

bordalenguo que nom era pêra

vistir ratynhos os quaes pedaços

tinham todos quorenta e

cinquoenta comvodos e o dito

Estevam Jusarte tanto que chegou a

esta cidade começou loguo a

comunycar com hum christovam

daguiar sobrynho de gonçalo

Rodrigues que ca estava dantes em

noso Reyno o quall christovam

daguyar nos deu huum cobertor de

cama azull e quyze covados de pano

bordalenguo e nos dise que elle nos

dava aquyllo e que quamdo se elle

quyse (tia) ir pêra portugall que lhe

daríamos, ali-gumas peças ou

dinheiro pêra as elle comprar pollo

quall nos lhe dávamos digo demos

tanto dinheiro com que elle

comprou vinte e sente esprivos

afora outras cousas muytas que lhe

demos e o dito estevam Juzarte digo

jusarte nos dise que fernam de

mello era voso primo e que elle era

sobrinho de suallteza» e nos vemdo

isto follguamos muyto com elle

porque cuydavamos que era asy

como elle dizia e fazemos muitas

mercês e o despachamos loguo e

mandamos ao dito fernam de mello

mill manilhas e certo (tia) esprivos

e de nos ao dito estevam jusarte

vinte esprivos e trezentas manilhas

por que nos dizia que era ssobriúho

de suallteza e asy lhe demos muytos

panos oynos e certas pelles donça e

vymte potes de mell e quatro guatos

dallgalea pêra fernam de mello

porque elle nos dizia que se

mandásemos a suallteza manilhas

ou esprivos suallteza que avería

memooria em tam'manda mos com

elle a joam fernandes com quatro

certas (tia) manilhas pêra vos e

vynte esprivos pêra em portugal nos

comprar allguum vistido por nom

amdarmos vis-tido como selvaje o

quall fernam de mello tanto que o

navio chegou a ilha lhe tomou a

metade das manilhas e novem (tia)

esprivos e nos fy-caram honze e das

manilhas mandou as dar por

escravos e mahdou que desem

trymta manilhas por cada esprivo e

com tudo o dito Joam fer-namdes

tomou aquellas poucas de peças e

as levou a portugal e nos comprou o

que nos lhe mandamos e nos trazia

huma arca chea de seda preta e

venludos a quall arca o dito fernam

de mello tomou e abryo e prendeo o

dyto Joham fernandes e o mandou

caminho de portugal e nos mandou

arca vazia» Ja temos esprito a

suallteza do desarramguo de

gomçalo rodrígues e da sua ma

cabeça porem queremos lhe dar

conta dos pedreyros que nos trouve

pêra fazerem a Igreja pêra que

suallteza sayba quanto fernam de

mello folgua de desfazer o serviço

de deus porem elle lhe dará o

gualardam» suallteza saberá que

gonçalo rodrígues nos trouve oyto

oficyaes e os deixou em noso Reyno

e se foi caminho da ilha e tanto que

fernam de mello soube do seu máo

recado e como

— 20—

ca fycavam os pedreyros mandou ca

um seu navio com hum seu clery-

guo que chamam manoeel

gonçalves e outros cryados seus em

o quall navio nos mandou quatro

bacyos de chumbo e doze guarafas

de vidro e huma cynta de fio e

huum pedaço de boorcado baixo e

huma espada por outra que lhe nos

mandamos muito boa pêra lhe

mandar por uma banha e elle

guardou a e mandou nos huma de

hum seu cryado que nom valya

dous ceitis o quall cleriguo tanto

que chegou a esta cidade começou a

emburilhar os pedreiros de maneira

que todos nos pediram ly-cença

pêra se irem temdo ja cada huum

delles do dinheiro que lhe dávamos

comprado quynze vinte peças sem

nos terem nada feyto e nos quando

aquyllo vimos bem soubemos que

femam de mello os mandava ir por

nos deshonrar em tam comtudos

quisemos sofrer por amor de noso

senhor deus os quaes pedreyros se

foram e levaram quantas peças e

fazenda tynham e nom ficaram ca

mais que três e despachamos o dito

navio loguo e mandamos ao dito

fernam de mello duzentas manilhas

e setenta esprivos a fora os que

demos a seus cryados e mandamos

em o dito navio noso sobrinho pêro

aflbmso com huma carta pêra

suallteza em que lhe dávamos conta

das cousas de ca e martdamos

duzemtas manilhas pêra vos e

certos esprivos e por o dito pedro

aflbmso levar a portugall e nos

comprar la alguum vestido e ysto

porque ho dito fernam de mello nos

mandou huum seu alvará pêra que

mandase-mos em seus navios

quallquer fazemda que quysesemos

o quall navio tanto que a Ilha

chegou fernam de mello nos tomou

a metade das manilhas e esprivos

tendo nos dado o dito alvará e nom

quys deixar ir o dito pedro aflbmso

a portugall e teve o na ilha hum

anno e mandou vemder nosa

fazenda ao menos preço que pode

da quall nos comprou hum esprivo

guano que nos mandou e outro que

nos de ca mandamos nos seus

primeiros navios dizemdo que era

carpinteiros e asy nos mandou

huum covodo e meio de pano azull

todo roydo ratos e tornou nos a

mandar a carta que esprevyamos a

sua alteza e alem de nos roubar o

noso chamamos muytos nomes e

enjoreas tam desonestas que nam

sam pêra contar a suallteza o que

nos nam soffremos por outra cousa

somente por amor de noso senhor

Jesus christo por que em caso que

nos façam todo os emguanos e

deshonrras nam avemos de deixar

de servir a noso senhor e crer nelle

por que amtes nos queremos sofrer

as desonrras deste mundo e ganhar

o outro que he para sempre amtes

que viver neste em muytos prazeres

e louvaminbas e perder nosa ai Ima

e por esta causa irmaõ temos

soíTrydo tantos marteyros e tantos

vytope-rios e emportunações como

todos os dias do mundo recebemos

e pêra suallteza saber quantos

emguanos nos fazem saberá que

hos três pedrey-

—21 —

ros que ca ficaram dos lhe

roguamos que nos fazessem huma

casa em que nos metesemos com a

rainha e estevesemos sallvos de nos

porem o foguo huma noyte como

nos poderam fazer nestas de palha

os quaes a começaram e amdaram

em fazer os alyceises huum anno e

vinha cada dia e deitavam dentro

huma pedra e tornavam se pêra

suas casas em tam pedir dinheiro

por cada pedra lhe dávamos hum

lufuco dos lufu-cos quando foy ou

fazer da call mandamos muytos

fidallguos trazer pedra e Uenha

esteveram em a emfornar a pedra

outro ano empainçando os

nossofidallguos e tescalavramdos

em maneira que hos faziam fugir da

obra e em tam vinha nos dizer que

nam tynham servidores e nos

dizíamos lhe que poys lhe nos

dávamos o dinheiro para

comprarem os seus esprivos e o

mantimento pêra elles que por que

os nam levavam aly a trabalhar

diziam nos que lhe fuguyam e

emtam vynham nos com a diçam

que nam tynha vynho mandávamos

lhe dar o dinheiro em tantas

maneiras que nunca nos quyseram

fazer nada se nam a peso de

dinheiro. Em maneira que ha

cynquo annos que amdam nesta

casa e aimda monto acabada nem

acabaram daqui a dez anos pollo

quall pedimos a sua allteza que por

amor de noso senhor deus ponha

alguum rremedio nisto por que

estes enguanos e emjureas que nos

estes homens fazem sam feytos a

suallteza e nam tam somente se

contentam de nos tomar o noso

mas aimda dam tam mao exempro

nas cousas de serviço de deus que

hos nosos fidallguos se rrym dos

emguanos que nos vem fazer e nos

quando os queremos castigar dizem

nos que nam vivem com sual-teza

nem comnosco nem que nam nos

devem nada e nos emtam ouvindo

ysto natynhamos coraçom pêra lhe

dar castiguo e nos calávamos antes

com nosso mall ja aqui damos conta

a sua alteza de tanto pade-cymento

como pasamos cada dya porem tudo

seja por amor de deus agora lhe

queremos dar conta de hum Ruy do

reguo que sualteza ca nadou pêra

ensynar e darbos emxempros o

quall tanto que ca foy foy logo

fidallguo e nunca quis emsynar

nenhum moço somente pêra co-

resma nos veo pedir hum boy e nos

lho mandamos dar e elle nos dise

que morya de fome e nos em tam

lhe mandamos dar dous carneyros e

que os comese secretamente pêra

que a nosa gente o nom vise» e elle

sem embarguo desto foy e matou o

boy na metade da coresma peramte

todos nosos fydallguos e

convidanos aymda com a carne

pollo quall quando a nosa gente

aquyllo vio eses que era mancebos e

que avia pouco que eram christaõs

fugiram todos pêra suas terras e

eses velhos ficaram comnosco os

quaes diziam cousas que nam sam

pêra contar dizendo que nos que lhe

defendíamos que nam comese

carne e que hos homens brancos

que se fartavam delia e que nos que

hos emguanamos

—22—

em maneira que nos queryam

matar e nos emtam com muyta

pacyen-cya e muytas dadivas os

tornamos a pacyficar dizendo lhe

qne salvasem suas almas e que nam

olbasem ou que aquelle fazia que se

elle querya ir o ymferno que bo

deixasem ir pollo quall caso

recebemos Unto nojo que nam

podemos mais ver o ruy do rego e

lhe mandamos que se fose acbela

pêra que como viese aiguum navio

se fose nelle pois que nam em-

synava como lhe suallteza mandara

mas aymda farya tornar ao ydollos

aquelles que nos com muyta

camseyra tynhamos comvertydos

em tam se foy e estava e echelia e

neste estante cheguou simão da

syllva com dous navios' e achou a

hy o dito ruy do rego o quall lhe

dise tamta mentyra que nom tem

conto dizendo lhe que vinha

emguanado e em tam symão da

syllva foyse crer por a ma cabeça de

Ruy de reguo e por o que lhe tynba

dito nam lhe dizendo elle as

malldades e eresyas que ca tynha

feytas em maneira que symão da

syllva nam quys vir homde nos

estávamos como lhe suallteza

mandava e mandou ca o fysyco com

suas cartas ao qual nos fizemos tall

guasalhado como se fora noso

irmaõ o quall fiseco hum vigairo

que ca estava da ilha nos roguou

que deixase-mos levar a sua casa

pêra pousar com elle o qual

cleryguo lhe dise tanto mall de nos

e lhe revollveo a cabeça de maneira

que nom viese symaõ da syllva e

todo esto saberá suallteza que

mandava fernam de mello por ca

nam aver feytoria de sualteza e elle

aver as lambuçadas que havia é nos

roubar sempre» e sembargo senhor

desto o fiseco adoeceo de febre e

nam pode tornar com reposta a

symam da syllva e lhe espriveo

huma carta que se avisase que nom

viese que nos que éramos hum jam

pires e que nom merecyamos

nhenhuma cousa das que nos

suallteza mandava a quall carta elle

deu a huum noso cryado e nos veo

ter a mão e nos amostramos a todos

cryados de suallteza que na armada

vieram quamdo vimos aquella

cousas bçm soubemos que por

mandado de fernam de mello se

faziam e demos louvores a noso

senhor deus por nos chamarem

jampires por amor delle e todas

estas cousas senhor irmaõ sofremos

com muyto syso e recado chorando

muytas lagrimas e nam dávamos a

emtender nada a nosos fidalguos e

gente por que nos nam armasem

allguma trayçam em tam

mandamos hum noso primo com

huum moço fidalguo e esprivemos a

symão da syllva que por amor de

deus que viese a nos comsolar e

castygar esta gente que ca estava

por que nos nam o mandáramos

pedir a suallteza por outra cousa se

nam pêra os ter todos a direito o

quall por roguos nosos de dom

joam noso primo veo e em meo do

caminho saltaram febres com elle

tam

— 23 —

fortes que moreo do quall qos

quando soubemos a nova nos

quebraram os pes e as maõs e

recebemos tanto nojo que nunca

mays ate o dia doje tyvemos

nenhum prazer por os grandes

desarranguos e males que despois

os homens que com elle vinham

fizeram» os quaes tanto que elie

faleceo vieram todos amatacavalo a

nos pedir a capitania e os primeiros

que a nos cheguaram foy hum

manoet caõ nos dise que suallleza o

mandava a elle e symam da syllva

pêra ambos serem capitães e que se

allgum delles moresse que flcase o

outro e que pois deus levaram

symão da syllva que ho fizemos

capitam e nos lhe rres-pondemos

que deixase elle vir toda a gentes e

que quem fose mais outo (Ita) pêra

o ser o seria e day a dons dias

chegou lourenço vaz e jorge de

Hemos e pediram que lios fizemos

capitães e nos em tam vemdonos

tam emportunado delles e que