História do demoníaco Pacheco por Jan Potocki - Versão HTML

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JAN POTOCKI

História do demoníaco Pacheco

("Histoire du démoniaque Pascheco", 1805)

O macabro, o espectral, o enfeitiçado, o vampiresco, o erótico, o perverso: todos os

ingredientes (manifestos ou ocultos) do romantismo visionário são exibidos nesse

livro extraordinário que é o Manuscrit trouvé à Saragosse, publicado em francês pelo

conde polonês Jan Potocki (1761-1815). Tão misterioso em sua origem e sua sorte

como em seu conteúdo, o livro esteve sumido por mais de um século (de resto, era

muito escandaloso para poder circular impunemente) e só em 1958 foi republicado

tal como na edição original, graças a Roger Callois, grande connaisseur do

fantástico de todos os tempos e países.

Prelúdio ideal ao século de Hoffmann e de Poe, Potocki não podia faltar na abertura

da nossa antologia; mas, como se trata de um livro cujos contos se inserem uns nos

outros, mais ou menos como nas Mil e uma noites, formando um romance plural em

que é difícil desligar uma história da outra, fomos obrigados a abrir logo de início

uma exceção à regra que o restante da nossa antologia pretende respeitar. Ou seja,

damos aqui um capítulo isolado do livro, ao passo que a nossa regra será fornecer

narrativas completas e autônomas.

O relato se inicia logo após o início do romance (Segunda jornada). Alphonse van

Worden, oficial da armada napoleônica, está na Espanha; vê um patíbulo com dois

enforcados (os dois irmãos De Zoto), depois encontra duas belíssimas irmãs árabes

que lhe narram a sua história, impregnada de um perturbador erotismo. Alphonse faz

amor com as duas irmãs, mas à noite tem estranhas visões e, ao alvorecer,

encontra-se abraçado aos cadáveres dos dois enforcados.

Esse tema do amplexo com duas irmãs (às vezes até com a mãe das jovens) se

repete no livro várias vezes, no relato de muitas personagens, e aquele que se

acreditava um amante afortunado sempre se encontra de manhã sob o patíbulo,

entre cadáveres e abutres. Um encantamento ligado à constelação de Gêmeos é a

chave do romance.

Nos primórdios do novo gênero literário, Potocki sabe exatamente aonde ir: o

fantástico

é a exploração da zona obscura em que se misturam as pulsões mais

desenfreadas do desejo e os terrores da culpa; é a evocação de fantasmas que

mudam de forma como nos sonhos; ambiguidade e perversão.

Finalmente, acordei para valer; o sol queimava minhas pálpebras — eu as abria

com dificuldade. Vi o céu. Vi que estava ao relento. Mas o sono ainda pesava em

meus olhos. Não dormia mais, mas ainda não estava desperto. Imagens de suplícios

sucederam-se umas às outras. Fiquei apavorado. Levantei-me sobressaltado e me

sentei.

Onde encontrarei as palavras para expressar o horror que então me invadiu? Eu

estava deitado ao pé da forca de Los Hermanos. Os cadáveres dos dois irmãos De

Zoto não estavam enforcados, e sim deitados ao meu lado. Aparentemente eu tinha

passado a noite com eles. Descansava em cima de pedaços de cordas, rodas

apodrecidas, restos de carcaças humanas, e nacos horrorosos e fétidos que delas

se soltavam.

Ainda pensei que não estivesse bem acordado e que estivesse tendo um sonho

ruim.

Fechei os olhos e busquei em minha memória onde eu tinha estado na véspera...

Então senti garras se enfiando em meus flancos. Vi que um abutre havia se

empoleirado em mim e devorava um de meus companheiros de quarto. A dor que

me causava a impressão de suas garras me acordou de vez. Vi que minhas roupas

estavam perto de mim, e me apressei em vesti-las. Quando me aprontei, quis sair do

recinto da forca, mas encontrei a porta fechada com pregos e tentei quebrá-la, em

vão. Portanto, tive de subir naquelas tristes muralhas. Consegui e, apoiando-me

numa das pilastras do patíbulo, comecei a examinar as terras dos arredores.

Reconheci facilmente onde estava. De fato, estava na entrada do vale de Los

Hermanos, e perto das margens do Guadalquivir.

Como eu continuasse a observar, vi perto do rio dois viajantes, um preparando o

almoço e o outro segurando a brida de dois cavalos. Fiquei tão encantado ao ver

aqueles homens que meu primeiro gesto foi gritar “Agour, agour!", o que quer dizer,

em espanhol, "Bom dia" ou "Salve".

Ao verem as cortesias que lhes eram feitas do alto do patíbulo, os dois viajantes por

um instante pareceram indecisos, mas de repente montaram em seus cavalos,

saíram a todo o galope e pegaram a estrada de Los Alcornoques. Gritei para que

parassem, mas foi inútil; quanto mais gritava, mais esporeavam as cavalgaduras.

Quando os perdi de vista, pensei em sair do meu posto. Pulei para o chão e me

machuquei um pouco.

Mancando bastante, cheguei às margens do Guadalquivir, e lá encontrei o almoço

que os dois viajantes tinham abandonado; nada podia vir mais a calhar, pois me

sentia exausto. Havia chocolate, ainda cozinhando, e sponhao embebido em vinho

de Alicante, pão e ovos. Comecei a recuperar minhas forças, e depois fiquei

refletindo sobre o que havia me acontecido durante a noite. As lembranças eram

muito confusas, mas o que me lembrava bem era de ter dado minha palavra de

honra de guardar tudo aquilo em segredo, e estava firmemente decidido a mantê-la.

Acertado esse ponto, só me restava ver o que, por ora, eu devia fazer, ou seja, que

caminho pegar, e pareceu-me que as leis da honra me obrigavam mais que nunca a

passar pela Sierra Morena.

Talvez alguém fique surpreso de me ver tão ocupado com minha glória e tão pouco

com os acontecimentos da véspera; mas esse modo de pensar era outro efeito da

educação que eu havia recebido. É o que se verá na continuação deste meu relato.

Por ora, volto à minha viagem.

Estava curiosíssimo em saber o que os diabos haviam feito de meu cavalo, que eu

deixara em Venta Quemada; e, aliás, como era o meu caminho, resolvi passar por

lá. Tive de percorrer a pé todo o vale de Los Hermanos e o de Venta, o que não

deixou de me cansar e de me fazer desejar muito encontrar meu cavalo. De fato, o

encontrei; estava na mesma estrebaria onde o deixara, e parecia pimpão, bemcuidado

e escovado havia pouco. Eu não sabia quem podia ter tido esse cuidado,

mas, depois de ter visto tantas coisas extraordinárias, essa não me deteve por muito

tempo. Teria retomado imediatamente o caminho se não fosse a curiosidade de

percorrer, mais uma vez, o interior da hospedaria. Encontrei o quarto onde havia

dormido, mas por mais que procurasse foi impossível encontrar aquele onde eu tinha

visto as belas africanas. Assim, cansei-me de procurar por mais tempo, montei no

cavalo e segui meu caminho.

Quando acordei ao pé da forca de Los Hermanos, o sol já estava no meio de seu

curso. Eu tinha levado mais de duas horas para chegar a Venta. Tanto assim que,

depois de mais umas duas léguas, tive de pensar num abrigo, mas, não vendo

nenhum, continuei a andar. Finalmente, avistei ao longe uma capela gótica, com

uma cabana que parecia a morada de um ermitão. Tudo isso ficava afastado da

estrada principal, mas eu começava a sentir fome e não hesitei em fazer esse desvio

para conseguir comida. Ao chegar, amarrei o cavalo numa árvore. Depois bati na

porta da ermida e vi sair um religioso com aspecto venerável.

Beijou-me com uma ternura paternal, e depois me disse:

"Entre, meu filho; ande logo. Não passe a noite ao relento, tema o tentador. O

Senhor tirou Sua mão de sobre nós."

Agradeci ao ermitão a bondade que me demonstrava, e disse-lhe que precisava

urgentemente comer.

Ele me respondeu:

"Ó, meu filho, pense em sua alma! Passe na capela. Prosterne-se diante da Cruz.

Pensarei nas necessidades de seu corpo. Mas você fará uma refeição frugal, tal

como se pode esperar de um ermitão."

Passei na capela, rezei de verdade, pois não era um livre-pensador, e, aliás,

ignorava que houvesse algum: mais uma vez, tudo isso era efeito de minha

educação.

O ermitão foi me buscar depois de quinze minutos e me conduziu à cabana, onde

encontrei um lugar posto para mim, bastante limpo. Havia excelentes azeitonas,

cardos conservados no vinagre, cebolas doces num molho e bolachas em vez de

pão.

Havia também uma garrafinha de vinho. O ermitão me disse que nunca tomava

vinho, mas que o guardava em casa para o sacrifício da missa. Por isso, não bebi

mais vinho que o ermitão, mas o resto do jantar me deu muito prazer. Enquanto o

elogiava, vi entrar na cabana uma figura mais apavorante do que tudo que tinha visto

até então. Era um homem que parecia moço, mas de uma magreza horrorosa.

Seus cabelos estavam eriçados, um de seus olhos estava vazado, e dali saía

sangue. Sua língua, pendurada para fora da boca, deixava escorrer uma baba

espumosa.

Tinha sobre o corpo um terno preto bem-cortado, mas eram as únicas

peças, pois estava sem meias e sem camisa.

A personagem horrenda não disse nada a ninguém e foi se acocorar num canto,

onde ficou tão imóvel como uma estátua, seu único olho fixando um crucifixo que

segurava na mão. Quando acabei de jantar, perguntei ao ermitão quem era aquele

homem. O ermitão me respondeu:

"Meu filho, esse homem é um possesso que eu exorcizo, e a terrível história dele

prova perfeitamente bem o poder fatal que o anjo das trevas usurpa nestas

maravilhosas paragens; o relato pode ser útil à sua salvação, e vou ordenar a ele

que o faça."

Então, virando-se para o lado do possesso, disse-lhe:

"Pacheco, Pacheco, em nome de seu redentor, ordeno-lhe que conte sua história."

Pacheco soltou um uivo horrível e começou nos seguintes termos.

HISTÓRIA DO DEMONÍACO PACHECO

"Nasci em Córdoba, meu pai vivia ali numa situação mais que confortável. Minha

mãe morreu há três anos. No início, meu pai parecia sentir muito sua falta, mas,

alguns meses depois, tendo a oportunidade de fazer uma viagem a Sevilha,

apaixonou-se por uma jovem viúva, chamada Camille de Tormes. Essa pessoa não

gozava de excelente reputação, e vários amigos de meu pai procuraram afastá-lo

desse relacionamento; mas, apesar das providências que tomaram, o casamento se

realizou, dois anos depois da morte de minha mãe. As bodas foram em Sevilha, e,

alguns dias depois, meu pai voltou para Córdoba, com Camille, sua nova esposa, e

uma irmã de Camille, que se chamava Inésille.

"Minha nova madrasta correspondeu perfeitamente à má opinião que se tinha dela, e

começou, na casa de meu pai, a querer me inspirar amor. Não conseguiu. Todavia,

fiquei apaixonado, mas foi por sua irmã Inésille. Em pouco tempo minha paixão era

tão forte que fui me jogar aos pés de meu pai e lhe pedir a mão de sua cunhada.

"Meu pai me levantou bondosamente, depois me disse: 'Meu filho, proíbo-o de

pensar nesse casamento, e proíbo por três razões. Primeira: seria contra a natureza

que você se tornasse, de certa forma, o cunhado de seu pai. Segundo: os santos

cânones da Igreja não aprovam casamentos desse gênero. Terceiro: não quero que

você despose Inésille'.

"Tendo me dado suas três razões, meu pai virou as costas e foi embora. Retirei-me

para meu quarto, onde me entreguei ao desespero. Minha madrasta, a quem meu

pai logo informou o que tinha acontecido, foi me procurar e disse que eu estava

errado em me afligir; que, se não podia me tornar o marido de Inésille, podia ser seu

cortesão, isto é, seu amante, e que ela iria arranjar as coisas; mas ao mesmo tempo

declarou-me o amor que tinha por mim e invocou o sacrifício que fazia cedendo-me

à sua irmã. Escancarei meus ouvidos diante dessas palavras que afagavam minha

paixão, mas Inésille era tão modesta que achei impossível que algum dia

correspondesse ao meu amor.

"Naquela época, meu pai resolveu fazer uma viagem a Madri, com a intenção de

disputar o posto de corregedor de Córdoba, e levou consigo a mulher e a cunhada.

Sua ausência devia ser só de dois meses, mas esse tempo me pareceu muito longo,

porque eu estava afastado de Inésille.

"Quando os dois meses praticamente tinham se passado, recebi uma carta de meu

pai, em que me ordenava ir ao seu encontro e esperá-lo em Venta Quemada, na

entrada de Sierra Morena. Algumas semanas antes não teria sido fácil tomar a

decisão de passar pela Sierra Morena, mas, justamente, acabavam de enforcar os

dois irmãos De Zoto. O bando deles estava dispersado, e os caminhos,

supostamente, eram bastante seguros.

"Portanto, parti de Córdoba por volta das dez horas da manhã, e fui pernoitar em

Andujar, com um dos mais tagarelas hospedeiros que existem na Andaluzia. Na

estalagem encomendei um jantar abundante, do qual comi uma parte e guardei a

outra para a viagem.

"No dia seguinte jantei em Los Alcornoques, com aquilo que tinha reservado na

véspera, e cheguei na mesma noite a Venta Quemada. Não encontrei meu pai, mas,

como na carta ele mandava aguardá-lo, decidi ficar, com muito prazer, mais ainda

porque estava numa hospedaria espaçosa e confortável. O hospedeiro que a

mantinha era, na época, um certo González de Múrcia, homem muito bom, embora

tagarela, que não deixou de me prometer um jantar digno de um grande de

Espanha. Enquanto ele se ocupava em prepará-lo, fui passear à beira do

Guadalquivir, e, quando voltei à hospedaria, encontrei um jantar que, de fato, não

era nada mau.

"Depois de comer, pedi a González que fizesse a minha cama. Então vi que ele ficou

perturbado, disse-me umas frases que não tinham muito sentido. Finalmente me

confessou que a hospedaria estava possuída por assombrações, que ele e sua

família passavam todas as noites numa fazendola, à beira do rio, e acrescentou que,

se eu quisesse dormir lá também, arrumaria uma cama para mim perto dele.

"Achei essa proposta muito imprópria; disse-lhe que ele tinha mesmo é que ir dormir

onde quisesse e que devia enviar meus homens para perto de mim. González me

obedeceu e retirou-se balançando a cabeça e levantando os ombros.

"Meus criados chegaram logo em seguida; também tinham ouvido falar de

assombrações e quiseram me convencer a passar a noite na fazenda. Recebi seus

conselhos um pouco brutalmente e mandei-os fazer minha cama no próprio quarto

onde eu tinha jantado. Obedeceram-me, embora relutantes, e, quando a cama

estava arrumada, me conjuraram de novo, com lágrimas nos olhos, para que eu

fosse pernoitar na fazenda. Seriamente impacientado com suas admoestações, me

permiti certas demonstrações que os fizeram correr, e, como eu não tinha o costume

de contar com meus criados para me despir, foi fácil dispensá-los ao ir me deitar. No

entanto, tinham sido mais atenciosos do que eu merecia por tê-los tratado com maus

modos. Deixaram perto de minha cama uma vela acesa, outra de reserva, duas

pistolas e alguns livros cuja leitura podia me manter acordado, mas a verdade é que

eu tinha perdido o sono.

"Passei umas duas horas, ora lendo, ora me virando na cama. Finalmente ouvi as

badaladas de um sino ou de um relógio batendo meia-noite. Espantei-me, porque

não tinha ouvido bater as outras horas. Logo a porta se abriu, e vi entrar minha

madrasta: estava com um penhoar e levava um castiçal na mão. Aproximou-se de

mim, andando nas pontas dos pés e com o dedo na boca, como para me impor

silêncio. Depois colocou o castiçal na mesa-de-cabeceira, sentou-se em minha

cama, pegou uma de minhas mãos e me falou nos seguintes termos: 'Meu querido

Pacheco, chegou o momento em que posso lhe dar os prazeres que prometi. Há

uma hora arribamos a esta taverna. Seu pai foi dormir na fazenda, mas, como soube

onde você estava, consegui a permissão de pernoitar aqui com minha irmã Inésille.

Ela o aguarda e se dispõe a nada lhe recusar; mas é preciso que você esteja

informado das condições que impus para a sua felicidade. Você ama Inésille, e eu o

amo. Não convém que, de nós três, dois sejam felizes à custa do terceiro. Exijo que

uma só cama nos sirva esta noite. Venha'.

"Minha madrasta não me deu tempo de responder; pegou-me pela mão e me levou,

de corredor em corredor, até chegarmos a uma porta, quando então se pôs a olhar

pelo buraco da fechadura.

"Depois de ter olhado bastante, disse-me: 'Corre tudo bem, veja você mesmo'.

"Tomei seu lugar na fechadura e, de fato, vi a encantadora Inésille em sua cama;

mas como estava distante da modéstia que sempre enxerguei nela! A expressão de

seus olhos, a respiração agitada, sua tez corada, sua atitude, tudo provava que

esperava um amante.

"Camille me deixou olhar bem, e disse-me: 'Meu querido Pacheco, fique nesta porta;

quando estiver na hora, virei avisá-lo'.

"Quando entrou, pus novamente meu olho no buraco da fechadura e vi mil coisas

que é difícil contar. Primeiro Camille se despiu, com certa insinuação, e, depois,

pondo-se na cama da irmã, disse-lhe: 'Minha pobre Inésille, é verdade mesmo que

você quer ter um amante? Pobre criança, não sabe o mal que ele lhe fará. Primeiro,

vai sufocá-la, pisoteá-la, e depois esmagá-la, dilacerá-la'.

"Quando Camille imaginou que sua aluna estava devidamente doutrinada, foi abrir a

porta, conduziu-me ao leito de sua irmã e deitou-se conosco.

"Que lhes direi daquela noite fatal? Esgotei suas delícias e seus crimes. Por muito

tempo lutei contra o sono e a natureza para prolongar ainda mais meus prazeres

infernais. Finalmente adormeci e acordei no dia seguinte ao pé da forca dos irmãos

De Zoto e deitado entre os infames cadáveres deles."

O ermitão interrompeu aqui o demoníaco e disse-me:

"E então, meu filho, o que lhe parece? Você não ficaria um tanto espavorido ao se

ver deitado entre dois enforcados?"

Respondi:

"Padre, o senhor me ofende. Um fidalgo jamais deve ter medo, e menos ainda

quando tem a honra de ser capitão dos Guardas Valões."

"Mas, meu filho", continuou o ermitão, "já ouviu falar que uma aventura dessas tenha acontecido com alguém?"

Hesitei um instante, depois do que respondi:

"Padre, se essa aventura aconteceu com o senhor Pacheco, pode ter acontecido

com outros; julgarei melhor ainda se fizer a gentileza de mandá-lo continuar sua

história."

O ermitão virou-se para o possuído e disse:

"Pacheco, Pacheco! Em nome de seu redentor, ordeno-lhe que continue sua

história."

Pacheco deu um uivo terrível e prosseguiu nos seguintes termos.

"Eu estava semimorto quando saí da forca. Arrastava-me sem saber para onde.

Finalmente, encontrei viajantes que tiveram pena de mim e me levaram de volta a

Venta Quemada. Ali encontrei o estalajadeiro e meus homens, muito pesarosos

comigo. Perguntei se meu pai havia dormido na fazenda. Responderam-me que

ninguém tinha ido lá.

"Não aguentei mais ficar muito tempo em Venta, e peguei de novo o caminho de

Andujar. Só cheguei depois do pôr-do-sol. A estalagem estava cheia, arrumaram-me

uma cama na cozinha e ali me deitei, mas não consegui dormir, pois era incapaz de

afastar de meu espírito os horrores da noite anterior.

"Eu tinha deixado uma vela acesa em cima da fornalha da cozinha. De repente ela

se apagou, e senti instantaneamente como que um arrepio mortal, que gelou minhas

veias.

"Puxaram minha coberta, depois ouvi uma vozinha dizendo: 'Sou Camille, sua

madrasta, estou com frio, meu coraçãozinho, abra um lugar para mim debaixo da

sua coberta'.

"Depois outra voz disse: 'E eu sou Inésille. Deixe-me entrar na sua cama. Estou com

frio, estou com frio'.

"Depois senti a mão gelada de alguém pegando debaixo do meu queixo. Enchi-me

de coragem para dizer bem alto: 'Satanás, retire-se!'.

"Então as vozinhas me disseram: 'Por que nos expulsa? Você não é nosso

maridinho? Estamos com frio. Vamos fazer um foguinho'.

"De fato, logo em seguida vi chamas na lareira da cozinha, que ficou mais clara. E

avistei, não mais Inésille e Camille, mas os dois irmãos De Zoto, enforcados na

chaminé.

"Essa visão me deixou fora de mim. Saí da cama. Pulei pela janela e comecei a

correr pelo campo. A certa altura cheguei a me felicitar por ter escapado de tantos

horrores, mas me virei e vi que estava sendo seguido pelos dois enforcados.

Continuei a correr, e vi que os enforcados tinham ficado para trás. Mas minha alegria

não durou muito. As detestáveis criaturas começaram a dar cambalhotas e num

instante estavam na minha frente. Corri de novo; finalmente minhas forças me

abandonaram.

"Então senti que um dos enforcados agarrava meu tornozelo esquerdo. Quis me

safar, mas o outro enforcado barrou meu caminho. Apresentou-se diante de mim,

fazendo uns olhares horrorosos e mostrando uma língua vermelha como ferro que

sai do fogo. Pedi clemência. Em vão. Com uma das mãos ele me pegou pela

garganta e com a outra arrancou o olho que está me faltando. No lugar do olho,

enfiou sua língua escaldante. Lambeu todo o meu cérebro e me fez rugir de dor.

"Então o outro enforcado, que tinha agarrado minha perna esquerda, também quis

dar seu espetáculo. Primeiro começou fazendo cócegas na planta do meu pé, que

ele segurava. Depois o monstro arrancou a pele desse pé, separou todos os nervos,

deixou-os expostos e quis tocar com eles como se tocasse com um instrumento de

música; como eu não fazia um som que lhe agradasse, enfiou seu esporão na minha

panturrilha, beliscou os tendões e começou a enroscá-los, como se faz para afinar

uma harpa. Finalmente começou a tocar com a minha perna, na qual tinha modelado

um saltério. Ouvi seu riso diabólico. Enquanto a dor me arrancava mugidos

pavorosos, os berros do inferno lhes faziam coro. Mas quando chegaram aos meus

ouvidos os rangidos daqueles danados, achei que cada uma de minhas fibras estava

sendo triturada entre seus dentes. Afinal, perdi os sentidos.

"No dia seguinte, os pastores me acharam no campo e me trouxeram para esta

ermida. Aqui confessei meus pecados, e encontrei ao pé da cruz algum alívio para

meus males."

Nesse momento o demoníaco soltou um grito medonho e se calou.

Então o ermitão tomou a palavra e disse:

"Jovem, você está vendo o poder de Satanás, reze e chore. Mas é tarde. Temos de

nos separar. Não lhe proponho dormir na minha cela porque durante a noite

Pacheco dá uns gritos que poderiam incomodá-lo. Vá dormir na capela. Ali estará

sob a proteção da Cruz, que derrota os demôios."

Respondi ao ermitão que me deitaria onde ele quisesse. Levamos para a capela

uma pequena cama de armar. Deitei-me, e o ermitão me desejou boa-noite.

Quando fiquei sozinho, o relato de Pacheco voltou à minha mente. Encontrei muitas

similaridades com minhas próprias aventuras, e ainda refletia nisso quando ouvi

bater meia-noite. Não sabia se era o ermitão que batia, ou se mais uma vez eu teria

de lidar com assombrações. Então ouvi alguém arranhando minha porta. Fui até lá e

perguntei:

"Quem está aí?"

Uma vozinha me respondeu: 'Estamos com frio, abra, são suas mulherzinhas'.

"Sei, sei, malditos enforcados", respondi, "voltem para o seu patíbulo e me deixem dormir."

Então a vozinha me disse:

"Você está zombando de nós porque está numa capela, mas venha um pouco aqui

fora."

"Já estou indo", logo respondi.

Fui pegar minha espada e quis sair, mas achei que a porta estava fechada. Disse

isso às assombrações, que nada responderam. Fui me deitar e dormi até

amanhecer.

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