História por Heródoto - Versão HTML

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História

Heródoto (484 A.C. - 425 A.C.)

Traduzido do grego por

Pierre Henri Larcher (1726–1812)

Fontes digitais desta edição

Digitalização do livro em papel

Volumes XXIII e XXIV

Clássicos Jackson

W. M. Jackson Inc.,Rio, 1950

Versão para o português de

J. Brito Broca

Les Deux Terres

2terres.hautesavoie.net

site consacré à l'ÉGYPTOLOGIE

com o texto integral de Larcher: Hérodote Histoire tome I et II, Charpentier, Paris, 1850.

L'Antiquité Grecque et Latine

de Philippe Remacle, François-Dominique Fournier, J. P. Murcia e Thierry Vebr

[Texte Numérisé et mis en page para François-Dominique Fournier]

remacle.org

Perseus Digital Library - Tufts University

www.perseus.tufts.edu

Los Nueve Libros de la Historia

Tradução do Pe. Bartolomé Pou, S. J. (1727-1802)

Ed. eBooksBrasil - Agosto 2006

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eBooksBrasil

Trechos colocados entre [ ] correpondem a trechos ininteligíveis na fonte digitalizada completados com a tradução em espanhol

Capa

Léonidas aux Thermopyles

Jacques-Louis David (1748-1825)

Musée du Louvre, Paris

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eBooksBrasil

USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL

© 2006 — Heródoto

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1RWD (GLWRULDO

Começo com uma advertência, dirigida principalmente

aos estudandes de História: esta edição não passa de um

aperitivo. O verdadeiro repasto está na edição francesa, integral,

que pode ser encontrada na web. Lá, sim, estão todas as notas

da edição original de Larcher, não incluídas nem aqui, nem na

edição digitalizada, base desta — naquela, com certeza, por

economia de papel; nesta, por preguiça mesmo.

Para me redimir um pouco deste pecado capital, cá

foram inclusos a Nota do Editor de 1842, a “A Vida de

Heródoto” e o “Plano da História de Heródoto” com que Lacher

iniciava sua tradução.

Algumas discrepâncias entre a edição de Lacher e a

versão para o português da fonte digitalizada foram dirimidas

com a consulta ao texto original da tradução de Lacher “en

ligne” e com o original, original mesmo, disponível em Perseus.

Bons tempos em que, no antigo Clássico, em colégios

selecionados (no Culto à Ciência em Campinas, p.ex.) se podia

ter umas tinturas de grego! Mas agora, os que virão, terão

Filosofia e Ciências Sociais. Pelo que vale...

Sobre a importância de se beber nas fontes, remeto o

eventual leitor à discussão, sobre as traduções, travada na

Conferência de Levi Carneiro, em 1938, que pode ser

encontrada nas estantes virtuais: “O Problema do Livro

Nacional - Levi Carneiro”.

Este livro, como outros recém colocados na web, faz

parte de uma fornada de eBooks feitos para gáudio próprio,

como parte de merecidas releituras. Vai-se lendo, estudando,

consultando... e formatando. Rende! Mas é provável que

tenham passados muitos gatos; perdoem-lhes os miados.

3

Mas por que deixar no meu HD e não libertá-los, para

que sigam em frente, servindo a outros? É essa a idéia básica da

web e, agora, do Scribd. É por isso que estão sendo colocados

antes no Scribd. À frente, talvez, em outros formatos no

eBooksBrasil.

Boa leitura!

Teotonio Simões

eBooksBrasil

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HISTÓRIA

HERÓDOTO

(484 A.C. - 425 A.C.)

Traduzido do grego por

Pierre Henri Larcher

(1726 D.C. - 1812 D.C.)

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1RWD GR (GLWRU

Mais de meio século escoou desde a publicação do

Heródoto de Larcher, e durante este meio século o sucesso

desta obra não cessou de crescer. É hoje um livro clássico, e os

próprios sábios lhe deram o justo lugar, assinalando-o como o

monumento durável de um grande trabalho que absorveu a vida

inteira de seu autor.

Quando Larcher publicou esta tradução, creu necessário

juntar-lhe um grande número de notas tiradas das fontes as mais

sábias, e úteis seja para o estabelecimento do texto, seja para a

inteligência dos fatos. Estas notas encheram quatro volumes de

sua primeira edição, e seis de sua segunda. Era muito, era

demais, sem dúvida; e entretanto Larcher preparava uma

terceira edição, que vimos, à qual juntara um bom número de

novas notas.

Acusaram-no com razão deste luxo desenfreado de

erudição; e Volney, sábio notável, e ademais homem de gosto,

expressou o desejo que uma mão amiga se encarregasse de

desbastar este cipoal da ciência, sob o qual a árvore vigorosa de

Heródoto ficava como que embalsamada. O objetivo seria

eclarar e não sufocar o historiador.

É este trabalho que oferecemos hoje ao público;

tentámos realizar o voto de Volney, de suprimir a erudição

inútil, acolher os esclarecimentos indispensáveis, e reunir em

um muito pequeno número de notas, emprestadas de outros

comentadores, tudo o que pudesse facilitar o estudo do pai da

história, ou, como o chamava o douto Sainte-Croix, do grande

rival de Homero.

L. AIMÉ-MARTIN.

26 de maio de 1842

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SRU /DUFKHU

Heródoto, nascido em Halicarnasso no ano

de 4230 do período juliano, 484 anos antes

de nossa era, era Dório de extração, ilustre

de nascimento. Teve por pai Lixas e por

mãe Drio, que tinham um lugar de destaque

entre seus concidadãos. Paniasis, poeta

célebre, ao qual alguns escritores adjudicam

o primeiro posto após Homero, embora

outros o coloquem após Hesíodo e

Antímaco, era seu tio por parte de pai ou de

mãe; nada há de certo a respeito.

Paniasis nasceu, se déssemos crédito a Suidas, na 78a.

olimpíada, isto é, no ano 4247 do período juliano, 407 anos

antes da era vulgar. Não posso compartilhar esta opinião,

porque se seguiria que Heródoto, seu sobrinho, seria 17 anos

mais velho do que ele. Não ignoro que há tios mais jovens que

seus sobrinhos: tenho exemplos.

Também insisto menos nesta razão do que sobre o

tempo em que faleceu Paniasis, embora não possa ser fixada de

maneira certa. Mas sabemos que Ligdamis, tirano de

Halicarnasso, foi derrubado no anos 4257 do período juliano,

457 anos antes de nossa era. Ter-se-ia pois que fazer morrer este

poeta no mais tardar em 4.256 do período juliano, 458 anos

antes da era vulgar.

Se a asserção de Suidas fosse verdadeira, Paniasis teria

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no máximo 9 anos quando faleceu. Como, com esta idade,

poderia ter feito sombra ao tirano? como poderia ter composto

estas obras que lhe deram tão grande reputação? Prefiro, por

esta razão, colocar seu nascimento na 68a. olimpíada. Teria pois

50 anos quando Ligdamis o mandou matar, e teria tido tempo

para compor este grande número de obras que o imortalizaram.

Ademais, o próprio Suidas admite que há autores que o fazem

mais velho. Paniasis era conhecido pelo Heracleiade e pelo

Iônicos. O Heracleiade era um poema heróico em honra a

Hércules; nele o poeta celebrava as conquistas deste herói, em

catorze livros contendo nove mil versos.

Diversos escritores o mencionam com distinção. Isaac

Tzetzès em seus Prolegômenos sobre a Cassanda de Licofron,

Proclus em seu Chrestomatia, Suidas na palavra Paniasis,

Pausanias, que até lhe cita dois versos, e o escoliasta de

Píndaro, que menciona um do terceiro livro. Quintiliano, bom

juiz nestas questões, nos diz que ele não igualava em eloqüência

nem Hesíodo nem Antimaco, mas que ultrapassava o primeiro

pela riqueza de seu tema, e o segundo pela disposição que lhe

dera. Denis de Halicarnado, que não se destacava menos na

crítica do que na história, nos traz também o mesmo juízo.

Atenho-me a estas autoridades, às quais poderia juntar as de

diversos outros autores, tais como Apolodoro, santo Clemente

de Alexandria, Ateneu, etc.

O mesmo Paniasis tinha escrito em versos pentâmetros

um poema sobre Codrus, Neleu e a colônia iônia, que se

chamava Os Iônicos. Este curioso poema, do qual nunca seria

demais lamentar a perda, porque entrava em uma infinidade de

detalhes históricos sobre esta colônia, compreendia sete mil

versos. Só nos restou deste poeta dois pequenos pedaços de

versos com um fragmento, em que Paniasis celebra o vinho e os

prazeres da mesa tomados com moderação. Stobeu e Ateneu os

conservaram para nós. Podemos encontrá-los em diversas

coletâneas, e muito mais corretamente na dos poetas gnômicos,

8

publicada em 1784 em Strasburgo por Brunck, crítico cheio de

gosto e de sagacidade. Há ainda cinco versos deste poeta que se

podem ler em Étienne de Bizâncio, na palavra TremÛlh.

Suspeito que são do Heracleida. Brunck não julgou apropriado

lhes dar um lugar em sua coletânea.

Nestes belos séculos da Grécia, tomava-se um cuidado

particular na educação da juventude, formando-lhes o coração,

cultivando-lhes o espírito. É de se presumir que a educação de

Heródoto não tenha sido negligenciada, embora ignoremos

quais foram seus mestres. Não podemos sequer duvidar, quando

o vemos empreender em uma idade pouco avançada longas e

penosas viagens, para aperfeiçoar seus conhecimentos e para

adquirir novos.

A descrição da Ásia por Decideu, a história de Lídia, de

Xantus, as da Pérsia de Helanicos de Lesbos e Charon de

Lampsaco, gozavam então a mais alta reputação. Estas obras

agradáveis, interessantes, foram sem dúvida devoradas por

Heródoto nesta idade em que se é ávido por conhecimentos, e

lhe inspiraram o vívido desejo de percorrer os países cujas

descrições o haviam encantado. Não era contudo uma vaga

curiosidade que o levava a viajar; ele se propunha uma

finalidade mais nobre, a de escrever história. O sucesso dos

historiadores que o haviam precedido não o amedrontou; pelo

contrário, serviu para inflamá-lo; e embora Helanico de Lesbos

e Charon de Lampsaco tivessem tratado em parte do mesmo

assunto, longe de ser desencorajado, ele ousou lutar contra eles,

e não se esforçou em vão em superá-los. Ele se propunha

escrever, não a história da Pérsia, mas somente a da guerra que

os Gregos tiveram que sustentar contra os Persas. Este assunto,

simples na aparência, lhe forneceu a ocasião de fazer entrar no

mesmo quadro a história da maioria dos povos com que os

Gregos tinham relações íntimas, ou que lhes importava

conhecer. Sentia que, para executar este plano, deveria recolher

materiais, e adquirir um exato conhecimento dos países dos

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quais se propunha fazer a descrição. Foi com isto em vista que

empreendeu suas viagens, que percorreu a Grécia inteira, o

Épiro, a Macedônia, a Trácia; e, segundo seu próprio

testemunho, não se pode duvidar que tenha passado da Trácia

aos Citas, para além de Íster e do Boristeno. Por toda parte,

observou com olhar curioso os sítios, as distâncias dos lugares,

as produções dos países, os usos, os costumes, a religião dos

povos; fuçou em seus arquivos e em suas inscrições os fatos

importantes, a seqüência dos reis, as genealogias dos

personagens ilustres; e por toda parte ligou-se aos homens mais

instruídos, e dedicou-se a consultá-los em todas as ocasiões.

Talvez tenha se contentado nesta primeira viagem em visitar a

Grécia, e que, em seguida rumou para o Egito, passando daí

para a Ásia na Cólcida, à Cítia, à Trácia, à Macedônia,

retornando a Grécia pelo Épiro. Seja como for, o Egito, que

mesmo hoje em dia ainda desperta o espanto e a admiração dos

viajantes inteligentes, não poderia deixar de entrar no plano de

Heródoto. Hecateu já havia viajado para ali antes dele e, por

todas as aparências, tinha feito uma descrição do Egito. Porfírio

pretende que este historiador tenha se apropriado, do Viagem da

Ásia deste escritor, da descrição da fênix e do hipopótamo, com

a caça do crocodilo, e que apenas fez algumas mudanças; mas o

testemunho de Porfírio é mais que suspeito, pois Calímaco

atribui esta Viagem da Ásia a um escritor obscuro. Acrescento,

com Walckenaër, que se o historiador tivesse sido culpado deste

plágio, Plutarco, que compôs um tratado contra ele, não teria

deixado de denunciá-lo. Não temos nenhum escritor, seja

antigo, seja moderno, que tenha dado deste país uma descrição

tão exata e também curiosa. Ele nos faz conhecer sua geografia

com uma exatidão que nem sempre tiveram geógrafos de

profissão, as produções do país, os costumes, os usos e a

religião de seus habitantes, e a história dos últimos príncipes

antes da conquista dos Persas, com particuliaridades

interessantes sobre esta conquista, que teriam sido para sempre

perdidas que ele não as tivesse transmitido à posteridade.

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Se crêssemos que nosso autor nada mais fez que

recolher rumores populares, erraríamos grosseiramente. Não

saberíamos imaginar os cuidados e as penas que tomou para se

instruir, e para não apresentar a seus leitores nada além do

certo. Suas conferências com os padres do Egito, a

familiaridade que desfrutou entre eles, as precauções que tomou

para que não lhe impusessem nada, são garantias seguras do que

ele afirma. Um viajante menos circunspecto teria se contentado

com o testemunho dos sacerdotes estabelecidos em Mênfis. Mas

este testemunho, respeitável sem dúvida, não lhe pareceu

suficiente. Foi a Heliópolis, e daí para Tebas, a fim de

assegurar-se, por conta própria, da veracidade do que lhe

haviam dito os sacerdotes de Mênfis. Consultou os colégios de

sacerdotes estabelecidos nestas duas grandes cidades, que eram

os depositários de todos os conhecimentos; e só depois de

achá-los perfeitamente conformes com os sacerdotes de Mênfis

acreditou-se autorizado a dar os resultados de seus encontros.

A viagem que Heródoto fez a Tiro nos oferece outro

exemplo não menos patente da exatidão de suas pesquisas.

Soubera no Egito que Hércules era um dos doze deuses

nascidos dos oito mais antigos, e que estes doze deuses tinham

reinado no Egito 17.000 anos antes do reino de Amasis. Tal

assertiva seria bem capaz de confundir todas as idéias de um

Grego que não conhecesse outro Hércules que o de sua nação,

cujo nascimento não datava senão do ano 1.384 antes de nossa

era, como o provei em meu Essai de chronologie, capítulo XIII.

Como esta assertiva estava abalizada pelos livros sagrados e

pelo testemunho unânime dos sacerdotes, ele não podia ou não

ousava contestá-la. Entretanto, como queria conseguir a

propósito uma certeza maior, se fosse possível, foi a Tiro para

ver aí um templo de Hércules que se dizia ser muito antigo.

Contaram-lhe nesta cidade que este templo fora erigido há

2.300 anos. Viu também em Tiro um templo de Hércules

sobrenomeado Tasiano. A curiosidade o levou a Thasos, onde

encontrou um templo deste deus, construído pelos Fenícios que,

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correndo os mares sob o pretexto de procurar Europa, fundaram

uma colônia nesta ilha, cinco gerações antes do nascimento do

filho de Alcmene. Ficou então convencido que o Hércules

egípcio erá muito diferente do filho de Anfitrião; e ficou tão

persuadido que o primeiro era um deus e o outro um herói, que

diz lhe parecerem agir sabiamente os Gregos que ofereciam a

um Hércules, que chamavam de Olímpico, sacrifícios como a

um imortal, e que faziam ao outro oferendas como a um herói.

Suas excursões na Líbia e na Cirenaica precedem a

viagem a Tiro. A descrição exata da Líbia, desde as fronteiras

do Egito até o promontório Soloeis, hoje cabo Spartel,

conforma-se em tudo ao que nos dizem os viajantes mais

estimados, e o doutor Shaw em particular, não permitindo

dúvida de que tenha visto este país por si mesmo. Somos ainda

tentados a crer que tenha estado em Cartago; seus encontros

com um grande número de cartaginenses autorizam esta

opinião. Ele voltou sem dúvida pela mesma rota ao Egito, e daí

enfim passou a Tiro, como já disse.

Após alguma estada nesta soberba cidade, visitou a

Palestina, onde viu as colônias que Sesostris aí tinha feito

edificar; e sobre estas colônias salientou o emblema que

caracterizava a lassidão de seus habitantes. Daí foi à Babilônia,

que era então a cidade mais magnífica e a mais opulenta que

existia no mundo. Sei que muitas pessoas esclarecidas, e des

Vignoles entre outras, duvidam que Heródoto tenha viajado à

Assíria. Não posso responder melhor a este respeitável sábio

que me servindo dos próprios termos de um outro sábio que não

o é menos do que aquele, isto é, o presidente Boudhier. Eis

como ele se exprime: “Embora as passagens de Heródoto que

fizeram muitos crerem que ele tenha realmente estado na

Babilônia não sejam muito claras, é quase impossível duvidar

que ele não a tenha visto, se nos dermos ao trabalho de

examinar a descrição exata que faz nestas passagens de todas as

singularidades desta grande cidade e de seus habitantes. Só

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mesmo um testemunho ocular poderia falar com tanta precisão

sobretudo em um tempo em que nenhum outro grego havia

escrito a respeito. E mais, atente-se à maneira pela qual fala de

uma estátua de ouro maciço de Júpiter Belus, que estava na

Babilônia, e que tinha doze côvados de altura. Ao se dizer que

ele não a viu, porque o rei Xerxes a havia feito transportar, não

é insinuar tacitamente que ele teria visto todas as outras coisas

que disse ter visto nesta grande cidade? É forçoso também

reconhecer por diversas outras passagens de sua obra, que ele

tinha conferenciado nestes lugares com Babilônios e Persas

sobre o que dizia respeito a sua religião e sua história. Além do

mais, não é admissível que um homem que tinha percorrido

tantos países diferentes para se instruir de tudo o que pudesse

lhes concernir, tivesse negligenciado de ir ver uma cidade que

passava por ser então a mais bela do mundo, e onde poderia

recolher as memórias mais seguras para a história que preparava

da alta Ásia, sobretudo tendo estado tão perto dela.“

A Cólcida foi o último país da Ásia que percorreu.

Queria assegurar-se pessoalmente se os Cólcidos eram de

origem egípcia, como lhe tinham dito no Egito, e se eram

descendentes de uma parte do exército de Sesostris que tinha se

estabelecido neste país. Da Cólcida passou pelos Citas e os

Getos, daí à Trácia, da Trácia à Macedônia; e enfim voltou à

Grécia pelo Épiro. Se não tivesse conhecido tão bem todos estes

diferentes países, como poderia ter dado uma descrição exata,

falar com clareza da expedição de Dario entre os Citas, e da de

Xerxes à Grécia?

De volta à sua pátria, aí não se demorou. Ligdamis, filho

de Pisindelis, e neto de Artemisa, que tinha se distinguido na

jornada de Salamina, era o tirano. E havia mandado matar

Paniasis, tio de nosso historiador. Heródoto, não crendo sua

vida em segurança sob um governo suspeitoso e cruel, buscou

asilo em Samos. Foi neste doce retiro que colocou em ordem o

material que tinha trazido, que fez o plano de sua historia e

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compôs os primeiros livros. A tranqüilidade e os desvelos de

que desfrutava não extinguiram contudo nele o gosto da

liberdade. Este gosto, inato por assim dizer nos Gregos, unido

ao poderoso desejo de vingança, inspirou-lhe o desejo de

combater Ligdamis. Com isso em vista ligou-se aos

descontentes, e sobretudo com os amigos da liberdade. Quando

sentiu a hora azada, reapareceu de súbito em Halicarnasso; e,

colocando-se à frente dos conjurados, bateu o tirano. Esta ação

generosa não teve outra recompensa que a mais negra

ingratidão. Era preciso estabelecer uma forma de governo que

conservasse a igualdade de todos os cidadãos, este direito

precioso que todos os homens trazem de nascença. Mas isso não

era possível em uma cidade dividida em facções, onde os

cidadãos imaginavam ter, por seu nascimento e por suas

riquezas, o privilégio de governar, e excluir de honras a classe

média, ou mesmo de vexá-la. A aristocracia, a pior espécie de

todos os governos, era seu ídolo favorito. Não fora o amor pela

liberdade que os havia armado contra o tirano, mas o desejo de

se atribuir sua autoridade e de reinar com o mesmo despotismo.

A classe média e o povo, que tinham tido pouca coisa a

reclamar do tirano, acreditaram ter perdido com a troca, vendo o

governo nas mãos de um pequeno número de cidadãos dos

quais era preciso absorver a avidez, temer os caprichos e

mesmo as suspeitas. Heródoto tornou-se odioso a uns e a outros:

a uns porque o viam como o autor de uma revolução que se

mostrara desvantajosa para eles; a outros porque o viam como

um ardente defensor da democracia.

Espremido entre as duas facções que partilhavam o

Estado, disse um eterno adeus à sua pátria, e partiu para Grécia.

Celebrava-se então a 81a. olimpíada. Heródoto se apresentou

aos jogos olimpicos: querendo se imortalizar, e ao mesmo

tempo fazer sentir aos seus cidadãos quem era o homem que

tinham forçado a se expatriar, leu nesta assembléia, a mais

ilustre da nação, a mais esclarecida de houve, o começo de sua

História ou, talvez, os trechos mais apropriados para inflar o

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orgulho de um povo que tinha tantos motivos para se crer

superior aos demais. Tucídides, que não tinha então senão

quinze anos, mas no qual já despontava o brilho de seu belo

gênio, que foi um dos mais brilhantes ornamentos do século de

Péricles, não pôde conter as lágrimas à leitura desta História.

Heródoto, que o percebeu, disse ao pai do jovem: Olurus, vosso

filho queima de desejo por conhecimentos.

Detenho-me um momento para provar foi na 81a.

olimpíado que Heródoto leu uma parte de sua Historia à Grécia

reunida. É certo que Heródoto, tendo abandonado Halicarnasso

e desejando fazer seu nome, foi a Olímpia, e que leu uma parte

de sua História, que foi de tal modo apreciada, que se deu aos

nove livros que a compunham o nome de Musas. Luciano o diz

da maneira mais clara e mais formal. De outro lado, Marcelino

nos informa que Tucídides verteu lágrimas ao ouvir esta leitura,

e que Heródoto, testemunha da sensibilidade deste rapaz,

endereçou a seu pai as palavras que mencionei. Tucídides

nasceu no primeiro ano da 77a. olimpíada, na primavera, e por

conseqüência no ano 4.243 do período juliano, 471 antes da

nossa era. Tinha pois quinze anos e alguns meses quando

assistiu a esta leitura. Poderia já ser sensível às delícias do

estilo: mas esta sensibilidade não era menos surpreendente em

uma idade tão tenra, e fazia conceber grandes esperanças. Se

supusermos que este acontecimento pertence à olimpíada

precedente, torna-se ainda mais maravilhoso, para não dizer

inacreditável. Se, ao contrário, recuarmos à 82a. olimpíada,

Tucídides tendo então 19 anos e alguns meses, sua sensibilidade

não teria tido nada de surpreendente, e não se teria feito notar. É

preciso pois constar, com Dodwell, que este historiador tinha

então quinze anos. O padre Corsini, clérigo regular de Escolas

pias, é também deste parecer em seus Fastes Attiques, e cita,

para prová-lo, Luciano no tratado sur la Manière d’écrire

l’histoire, embora não fosse questionado nesta obra. Este sábio,

contudo, não tinha sobre o fato idéias bem definidas, uma vez

que, na página 213 do mesmo trabalho, recua esta leitura ao

15

primeiro ano da 84a. olimpíada, quer dizer doze anos, o que me

faz crer que ele confunde aí a leitura feita nos jogos olímpicos

com a que fez o mesmo historiador nas Panatenéias, embora

esta festa preceda a 84a. olimpíada em mais de 15 dias.

Voltemos ao nosso assunto. Encorajado pelos aplausos

que recebera, Heródoto emprega os doze anos seguintes a

continuar sua História e em aperfeiçoá-la. Foi então que viajou

por toda a Grécia, que até então só tinha percorrido, que

examina com a mais escrupulosa atenção os arquivos de seus

diferentes povos, e que se assegura dos principais trechos de sua

história, bem como as genealogias das mais ilustres casas da

Grécia, não apenas percorrendo seus arquivos, mas lendo suas

inscrições. Porque nestes tempos antigos transmitia-se à

posteridade os acontecimentos mais interessantes, como os mais

remarcáveis, por meio de inscrições gravadas sobre

monumentos duráveis, ou sobre tripés que eram conservados

com o maior zelo nos templos. Estas inscrições continham os

nomes dos que tinham tomado parte nestes acontecimentos,

com os de seus pais e de suas tribos; de modo que vários

séculos após era impossivel se equivocar, malgrado a identidade

dos nomes que se notavam às vezes nestes monumentos.

Em uma destas excursões foi a Corinto, onde recitou, se

dermos fé a Dion Crisóstomo, a descrição da batalha de

Salamina, com as circunstâncias honoráveis para os Coríntios, e

sobretudo para Adimanto que os comandava. “Mas, continua o

sofista no discurso que endereça aos Coríntios, Heródoto tendo

vos pedido uma recompensa, e não a tendo obtido, porque

vossos ancestrais desdenhavam colocar preço na glória, mudou

as circunstâncias desta batalha, e as conta de maneira que vos é

desfavorável.” Um fato de tal natureza, se fosse provado,

revelaria uma alma vil; e, longe de procurar justificar Heródoto,

contentando-me em admirar o escritor, abandonaria o homem

ao justo desprezo que mereceria. Mas a resposta me parece

muito fácil. 1.º Se não tivesse tido duas opiniões muito

16

constantes sobre a conduta que os Coríntios tiveram na jornada

de Salamina, Heródoto não teria se exposto narrando-as, com o

risco de ser desmentido pela maior parte da Grécia, de que

procurava captar a benevolência, e que era então aliada e amiga

dos Coríntios; 2.º Dion Crisóstomo viveu mais de cinco séculos

depois desta batalha, enquanto que nosso historiador nascera

quatro anos antes que ela se desse. O primeiro não poderia

conhecer as particuliaridades senão pela história e pelos

monumentos, enquanto que o outro estava instruído não só

pelos monumentos, mas também pelo testemunho de uma

infinidade de pessoais que ali estiveram. 3.º A autoridade destes

monumentos não é tão grande nesta ocasião quanto é na maioria

das outras; porque o próprio Heródoto conta que muitos povos,

ao se mostrar a sepultura em Plateia, vergonhosos de não terem

ido a combate, tinham erigido cenotáfios com terra amontoada,

a fim de se fazerem honrar na posteridade. Os Coríntios podem

ter feito o mesmo após a jornada de Salamina. 4.º Os versos que

Simonides fez em honra aos Coríntios e Adimanto, seu general,

não parecerão jamais uma prova conclusiva aos que

conhecerem a cupidez deste poeta, e a que ponto prostituía sua

pena à melhor oferta. 5.º Se o fato relatado por Dion Crisóstomo

tivesse sido verdadeiro, Plutarco, que não deixou escapar

ocasião alguma para mostrar sua animosidade contra Heródoto,

não teria deixado de fazer a respeito as mais cruéis críticas,

porque confessadamente o detestava, porque este historiador

tinha dito verdades sobre seus compatriotas que não lhes eram

vantajosas. Ele pretende, é verdade, que os Coríntios

comportaram-se valentemente na jornada de Salamina e que

Heródoto suprimiu seus elogios por malignidade. Entretanto,

longe de as suprimir, ele relatou o que os Gregos contavam de

mais ufanosos para este povo; mas, como fazia profissão de

imparcialidade, não acreditou dever passar em silêncio o que

diziam também os Atenienses. Aqui seria o lugar para refutar o

que diz Plutarco para provar que os Coríntios se cobriram de

glória nesta batalha; mas como isso me levaria muito longe, e

que provavelmente muitos poucos leitores teriam interesse nesta

17

discussão, creio dever deixá-la de lado inclusive porque esta

digressão já está um pouco longa.

Doze anos após ter lido uma parte de sua História nos

jogos olímpicos, Heródoto leu outra em Atenas, na festa das

Panatenéias, que se celebravam em 28 de hecatombaeon, isto é

em 10 de agosto. A leitura aconteceu no ano 4.270 do período

juliano, 444 anos antes de nossa era, e no primeiro ano da 84a.

olimpíada. Os Atenienses não se limitaram a elogios estéreis:

fizeram-lhe presente de 10 talentos, por um decreto proposto

por Aninto e ratificado pelo povo em assembléia, como o atesta

Diilo, historiador muito estimado. É sem dúvida desta

recompensa que é preciso entender o que disse Eusébio, no

lugar que citei, que Heródoto foi honrado pelos Atenienses.

Parece que esta acolhida teria devido fixá-lo em Atenas.

Entretanto ele se juntou à colônia que os Atenienses enviaram a

Thurium no começo da olimpíada seguinte. O gosto que tinha

pelas viagens foi superior, talvez, ao reconhecimento que

deveria aos Atenienses; mas talvez também não cresse ele que

abandonasse Atenas ao acompanhar um tão número de

Atenienses, entre os quais havia muitos distinguidos. Lísias,

então com somente 15 anos, que se tornaria depois um grande

orador, estava entre os colonos. Heródoto tinha então quarenta

anos; porque havia nascido no ano 484 antes de nossa era, e no

primeiro ano da 74a. olimpíada. O autor anônimo da Vida de

Tucídides coloca também este historiador no número dos

colonos. Mas como é o único escritor que o menciona, é

permitido duvidar-se.

Ele fixa seu domicílio em Thurium; ou, se daí saiu, foi

só para fazer algumas excursões pela grande Grécia, quero dizer

nesta parte da Itália que estava povoada por colônias gregas, e

que foi assim nomeada, não porque fosse mais considerável que

o resto da Grécia, mas porque Pitágoras e os pitagóricos lhe

deram uma grande celebridade. Há muita aparência que ele

18

passou o resto de seus dias nesta cidade, e parece certo que foi

por esta razão que se lhe dá às vezes o sobrenome de Heródoto

de Thurium. Strabrão o diz positivamente. Eis como se exprime

este sábio geógrafo ao falar da cidade de Halicarnasso: “O

historiador Heródoto era desta cidade. Chamaram-no depois

Thurien, porque estava entre os que foram enviados em colônia

a Thurium.” O imperador Juliano não o chama de outra forma

no fragmento de uma carta que Suidas nos conservou: Se o

Turiano parece a qualquer um digno de fé, etc. A coisa foi

mesmo levada tão longe, que Heródoto tendo começado sua

História com estas palavras: Publicando suas pesquisas, Heródo

de Halicarnasso, etc.; Aristóteles, que cita este começo, mudou

esta expressão pela de Herodoto de Thurium. Este sábio não é o

único a fazê-lo; porque Plutarco obsera que muitas pessoas

haviam feito a mesma mudança.

O lazer que gozou nesta cidade lhe permitiu retocar sua

História, e fazer algumas adições consideráveis. É assim que é

preciso entender esta passagem de Plínio: Urbis nostrae

trecentesimo anno.... auctor ille (Herodotus) Historiam condidit

Thuriis in Italia; porque é certo que ele havia lido uma parte de

sua História em Atenas antes de partir para Thurium, e que

doze anos antes havia lido outra nos jogos olímpicos. Esta

passagem de Plínio induziu em erro o sábio des Vignoles. Não

vou me dar o trabalho de refutá-lo, o presidente Bouhier já o fez

com sucesso no capítulo primeiro de seu Recherches et

Dissertations sur Hérodote.

Não se pode duvidar que ele tenha acrescido muitas

coisas durante sua estadia em Thurium, pois relata fatos que são

posteriores à sua viagem à grande Grécia. Alguns sábios

notaram antes de mim, e sobretudo Bouhier e Wesseling. Entre

eles: 1.º a invasão que os Lacedemônios fizeram na Ática no

primeiro ano da guerra do Peloponeso, invasão na qual este país

foi devastado, exceto Deceléia, que pouparam por

reconhecimento a uma boa ação dos Decélienses; 2.º a sorte

19

funesta dos embaixadores que os Lacedemônios enviaram à

Ásia no segundo ano da guerra do Peloponeso, e no ano 430

antes de nossa era; 3.º a defecção dos Medas sob Darius Nothus,

que este príncipe colocou pouco depois novamente sob jugo.

Este acontecimento, que Heródoto conta, e que é certamente da

93a. olimpíada, do 24.º ano da guerra do Peloponeso, e de 408

antes de nossa era, prova que Heródoto teria acrescido este fato

em uma idade bem avançada. Ele tinha então 77 anos.

O presidente Bouhier colocou também após a viagem de

Heródoto à grande Grécia a retirada de Amirtéia para a ilha de

Elbo, de que fala Heródoto. Este sábio, enganado por Syncelle,

supunha que este príncipe ter-se-ia refugiado nesta ilha no 14.º

ano da guerra do Peloponeso, e no ano 417 de nossa era.

Dodwell e Wesseling tinham bem visto que a revolta de

Amirtéia tendo começado no segundo ano da 79a. olimpíada, o

fim desta revolta foi no segundo ano da olimpíada seguinte, e

por conseqüëncia anterior em 14 anos à partida de nosso

historiador para a grande Grécia. Não relatarei aqui as provas,

já o tendo feito de maneira bem ampla em meu Essay sur la

Chronologie.

Foi também nestas viagens que aprendeu diversas

peculiaridades sobre as cidades de Rhégium, de Géla, de

Zancle, e sobre seus tiranos; particuliaridades que transmitiu à

posteridade.

Acabamos de ver que nosso historiador tinha 77 anos

quando acrescentou à sua História a revolta dos Medas.

Ignora-se até que idade levou sua carreira, e em que país a

terminou. É verossímil que morreu em Thurium; e temos, para

apoiar esta pressuposição, o testemunho positivo de Suidas, que

nos conta também que foi enterrado na praça pública desta

cidade. O que pode nos fazer duvidar, é que o mesmo escritor

acrescenta que alguns autore o fazem morrer em Pella na

Macedônia. Mas como ignoramos até mesmo o nome destes

20

autores, não sabemos que têm qualquer autoridade, e qual o

grau de confiança que merecem.

Marcelino escreveu, em Vie da Thucydide, que se ve,

entre os monumentos de Cimon em Coelé, perto das portas

Mélitides, o túmulo de Heródoto. Poder-se-ia concluir desta

passagem que Heródoto morreu em Atenas, e é esse o

sentimento do presidente Bouhier. Quem nos garante porém que

fosse um verdadeiro túmero e não um cenotáfio? Se foi erigido

ao nosso historiador um monumento no lugar destinado à

sepultura da casa de Cimon, é porque partindo para Thurium

obteve em Atenas o direito de cidade, e que foi provavelmente

adotado por alguém desta casa, uma das mais ilustres desta

cidade: porque sem esta adoção não lhe teriam erigido um

monumento neste lugar, onde não era permitido inumar

ninguém que não fosse da família de Miltíades. É o que muito

bem provou Dodwell.

Resta entretanto ainda alguma incerteza: a inscrição

relatada por Étienne de Byzance a faria desaparecer, se fosse

assegurado que tivesse sido encontrada em Thurium; porque o

primeiro verso desta inscrição atesta que as cinzas de nosso

historiador repousariam sob esta tumba. Creio que não posso

melhor terminar sua Vida que por este epitáfio, que relata

Étienne de Byzance: “Esta terra encobre em seu seio Heródoto,

filho de Lixas, Dório de origem, e o mais ilustre dos

historiadores iônios. Ele se retirou para Thurium, que via como

uma segunda pátria, a fim de se colocar a coberto das mordidas

de Momus.”

21

3/$12 '$ +,67Ï5,$ '( +(5Ï'272

Heródoto não se propunha, como o diz ele mesmo no

começo de sua História, senão celebrar os feitos dos Gregos e

dos Persas, e desenvolver os motivos que haviam levado estes

povos a se fazerem a guerra. Entre as causas desta guerra, as

havia distantes e próximas. As distantes eram os raptos

recíprocos e algumas mulheres da Europa e da Ásia, que, tendo

dado azo à guerra de Tróia, haviam ulcerado os corações dos

Asiáticos contra os Gregos. As causas próximas eram os

socorros que os Atenienses haviam dado aos Iônios em sua

revolta, a invasão da Iônia e o incêndio de Sardes pelos

Atenienses. Os Persas, irritados com estas hostilidades,

resolveram praticar uma vingança fragorosa. Os Persas até

então eram pouco conhecidos dos Gregos. Era pois necessário

fazê-los conhecer esta nação, contra a qual haviam lutado com

tanta glória. Para chegar a este fim, Heródoto tomou este povo

em sua origem, e nos fez ver por que meios havia sacudido o

jugo dos Medas; e, como isso não teria dado aos leitores idéias

bem claras e bem nítidas, foi preciso lhes apresentar um

vislumbre rápido da história dos Medas. Esta história estava, ela

mesma, tão ligada com a dos Assírios, dos quais os Medas

tinham sido súditos, que foi preciso instruir os leitores da

maneira pela qual romperam o jugo, e dar-lhes igualmente uma

súmula da história da Assíria. Estas três histórias não são pois

senão aperitivos. Não se pode desvendar uma sem tirar da

obscuridade as duas outras; e se se suprime todas as três, não se

terá senão um conhecimento muito imperfeito das dificuldades

que os Gregos tiveram de suplantar.

Ciro, tendo subjugado a Média, marcha de conquista em

conquista. Esse poderio formidável dá inquietude a Creso. Ele a

22

quer reprimir, e ao fazê-lo atrai sobre si as armas de Ciro; foi

batido, e seu país conquistado. É ocasião para dar a conhecer os

Lídios. Heródoto não a deixa escapar, dando ao menos um

esboço destes príncipes que tinham submetido a maioria dos

Gregos estabelecidos na Ásia. Contudo, como não perdia jamais

de vista o plano de sua História, não diz senão duas palavras

sobre a origem do reino da Lídia, de seus progressos e de sua

destruição. Ciro, após esta conquista, deixa a seus generais o

cuidado de submeter os Gregos asiáticos; marcha em pessoa

contra os Babilônios e os povos de sua dependência, e os

subjuga. Heródoto só se detém alguns instantes sobre os objetos

os mais importantes e os mais interessantes. Assim não fala nem

dos Báctrios nem dos Sácios, que Ciro havia subjugado. Se se

estende sobre os Masságetas, é porque a guerra que lhes fez

Ciro lhe foi muito funesta, e porque pereceu em um combate

que lhes deu.

Cambises, seu filho, sucedeu-o. Confiante em seu

poderio, marchou contra o Egito. Este pais era então o mais

célebre que havia no mundo; e os Gregos começavam a viajar

para lá, mais por interesse comercial do que por curiosidade e

pelo desejo de se instruir, embora estes dois últimos motivos

também existissem. Era pois de última importância dar-lhes

conhecimento deste país singular, de suas produções, costumes

e religião de seus habitantes, com uma relação sucinto de seus

reis. Heródoto dedica a isso seu segundo livro. Submetido o

Egito, Cambisses marcha contra os falsos Esmérdis, que haviam

se revoltado contra ele; perece por um acidente. Pouco tempo

após sua morte, descobre-se a trapaça do mago Esmérdis; ele

foi massacrado, e elegem por rei Dario. Este príncipe volta a

subjugar os Babilônios que se haviam revoltado, e, como era

muito ambicioso, quer sujeitar os Citas. Estes povos só eram

conhecidos por seus vizinhos, e pelos Gregos estabelecidos nas

cidades limítrofes à Cítia. Os Citas eram então para os Gregos

objeto de curiosidade tanto mais espicaçante à medida em que

já havia na Trácia e nas bordas do Ponto Euxino, quer na

23

Europa como na Ásia, colônias gregas. Se nosso historiador não

se estendeu sobre estas povos com a mesma complacência que

sobre os Egípcios, ao menos o faz com extensão suficiente para

dar aos Gregos uma idéia da forma de seu governo e de seus

costumes, com uma descrição sucinta de seu país. Esta

descrição é tão exata, que se encontra confirmada na maioria de

seus pontos pelos relatos daqueles entre os modernos que

viajaram pela Bulgaria, Moldávia, Bessarábia, Czernigow,

Ucrânia, Criméia e os Cossacos do Don. Dario viu-se obrigado

a voltar vergonhosamento aos seus Estados. Os Iônios, que não

sabiam nem ser livres nem ser escravos, se revoltaram.

Levantam-se contando com o socorro dos Atenienses

que, entretanto, não só o deram medíocres. Com estes socorros,

apossaram-se de Sardes e a incendiaram. Dario, compreendendo

a parte que os Atenisenses tinham tido na tomada e no incêndio

desta cidade, jura vingar-se. Começa por colocar novamente sob

jugo os Iônios. Submetidos os Iônios, envia contra os

Atenienses um exército formidável. Os Persas foram batidos em

Maratona. Com esta notícia, Dario, furioso, fez preparativos

ainda mais consideráveis. Nestes entretantos, tendo o Egito se

sublevado, era necessário reduzi-lo. A revolta do Egito apenas

suspendeu a vingança de Dario. Logo que este país foi

submetido, retomou o desejo de castigar os Atenienses; mas sua

morte, que sobreveio logo depois, suspendeu sua execução.

Xerxes, seu filho e sucessor, que não era nem menos ambicioso

nem menos vingativo que seu pai, bão contente de castigar os

Atenienses, queria também subjugar o resto da Grécia. Resoluto

a marchar em pessoa contra os Gregos, levantou o exército mais

numeroso e mais formidável de que se ouviu falar. Equipou

uma frota considerável, e durante diversos anos não se ocupou

senão em fazer transportar para as cidades fronteiriças da

Grécia os trigo e os víveres necessários à subsistência desta

multidão inumerável de homens. Sofreu logo uma derrota nas

Termópilas. Tendo sua frota a seguir sido batida em Salamina,

voltou vergonhosamente à Àsia; mas, tendo deixado Mardônio

24

na Grécia com a elite de suas tropas, este general, vencido na

Plateia, pereceu na ação com a maioria de seu exercito. No

mesmo dia da batalha de Plateia, livrou-se em Mícale, na Cária,

um sangrante combate. Os Gregos tiveram aí uma vitória

significativa.

É aqui que Heródoto termina sua História. Vê-se, por

esta curta exposição, que há em todas as partes desta bela obra

uma ligação íntima; que não se pode destrinçar nenhuma sem

tirar a obscuridade de outras; que nosso historiador caminha

com rapidez, e se pára às vezes pelo caminho, é só para

administrar (ménager) a atenção de seus leitores, e para

instrui-los agradavelmente de tudo o que lhe é importante saber.

LARCHER

25

/DUFKHU

Pierre Henri Larcher (1726–1812), francês, foi um

arqueólogo e erudito do século XVIII, nascido em Dijon. Após

ter freqüentado um colégio de jesuítas na juventude, seus pais o

destinavam a uma carreira na magistratura, mas ele se orientou

para as línguas e os escritores da antiguidade.

Apesar de anônima, sua tradução de Callirhoe, de

Chariton, em 1763, assinalou-o como um exclente erudito

grego. Seu ataque à Filosofia da história, que Voltaire

escrevera sob o pseudônimo de Abbé Bazin, suscitou

considerável interesse à época. Seu arqueológico e mitológico

Memoire sur Venus, de 1775, foi comparada a trabalhos

similares de Heyne e Winckelmann.

Traduzido um certo número de obras antigas de autores

gregos, tais como Eurípides e Xenofonte. Pela qualidade de

seus trabalhos e o renome que adquirira nos estudos clássicoas,

foi incorporado à Académie des Inscriptions et belles lettres.

Após a fundação da Universidade Imperial, foi indicado

como professor de literatura Grega (1809) tendo Boissonade

como seu assistente.

Seu trabalho mais memorável foi a tradução de

Heródoto (1786), que levou 15 anos para completar e na qual

trabalhou até o fim de seus dias, acrescentando-lhe notas e

comparando-a com outras traduções.

26

Ë1',&( '2

92/80(

LIVRO I — CLIO

OS PERSAS — OS MEDOS — BABILÔNIA — CRESO — CANDOLO E GIGÉS

— SEMÍRAMIS — TÓMIRIS

LIVRO II - EUTERPE

EGITO — ÍSIS — O ORÁCULO DE DODONA — SESÓSTRIS — RAMPSINITO

— HELIÓPOLIS — ELEFANTINA — O NILO — EMBALSAMAMENTOS —

SEPULTURAS — OS DOZE REIS — PSAMÉTICO — VEGOS — PSÁMIS —

ÁPRIES — AMÁSIS

LIVRO III - TÁLIA

EGITO — A PÉRSIA — CAMBISES — MÊNFIS — O BOI ÁPIS — A ETIÓPIA

— POLÍCRATES — AMÁSIS — O FALSO ESMÉRDIS — DARIO — O CERCO

DE BABILÔNIA — ZÓPIRO

LIVRO IV - MELPÔMENE

A CÍTIA — HÉRCULES — OS GRIFÃOS — OS HIPERBÓREOS —

DESCRIÇÃO DA TERRA — O POVO DE CÍLAX — COSTUMES DOS CITAS —

ANACÁRSIS — A EXPEDIÇÃO DE DARIO — O PONTO EUXINO — AS

AMAZONAS — OS TRÁCIOS — OS GETAS — A LÍBIA — O CULTO DO SOL

Ë1',&( '2

92/80(

LIVRO V - TERPSÍCORE

CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DE DARIO — ATENAS E ESPARTA — OS

PISISTRÁTIDAS — CLEÓMENES — AS ESTÁTUAS DE EGINA — ORIGEM DA

INIMIZADE ENTRE OS ATENIENSES E OS EGINETAS — CÍPSELO, TIRANO DE

CORINTO — HÍPIAS — TOMADA DE SARDES PELOS IÔNIOS E PELOS

ATENIENSES — DARIO LANÇA UMA FLECHA CONTRA O CÉU, PEDINDO AOS

DEUSES QUE O VINGUEM DOS ATENIENSES — TODAS AS CIDADES DO

HELESPONTO, DA IÔNIA E DA EÓLIA SUBMETIDAS PELOS PERSAS, ETC.

LIVRO VI - ÉRATO

DARIO APODERA-SE DE MILETO — O POETA FRINICO — DARIO MANDA

PEDIR TERRA E ÁGUA AOS POVOS DA GRÉCIA — PRERROGATIVAS DOS

REIS DE ESPARTA — TOMADA DE ERÉTRIA PELOS PERSAS — CLEÓMENES

— SUA MORTE — OS PERSAS ATACAM ATENAS — A BATALHA DE

MARATONA — MILCÍADES — OS ESPARTANOS SÓ CHEGAM DEPOIS DA

27

VITÓRIA — MILCÍADES DIANTE DE PAROS — O MALOGRO DE SUA

EXPEDIÇÃO — CONDENADO A UMA MULTA — OS PELASGOS — LEMNOS

LIVRO VII - POLÍMNIA

A MORTE DE DARIO — XERXES SUCEDE-O NO TRONO — SUBMETE O

EGITO — QUER VINGAR-SE DOS GREGOS E FAZER DA TERRA UM SÓ

IMPÉRIO — REÚNE UM CONSELHO — RESOLVIDA A GUERRA CONTRA A

GRÉCIA — MANDA PERFURAR O MONTE ATOS — PÍTIO — UMA PONTE

LANÇADA SOBRE O MAR — O EXÉRCITO DESFILA DIANTE DE XERXES

DURANTE SETE DIAS E SETE NOITES SEM INTERVALO — ENUMERAÇÃO À

MANEIRA DE HOMERO — PASSANDO EM REVISTA A FROTA — XERXES

CONSULTA DEMARATO — O ARAUTO DE ESPARTA DIANTE DE XERXES —

TEMÍSTOCLES — EMBAIXADA A GÉLON — AS TERMÓPILAS — LEÔNIDAS

— DIENECES — INSCRIÇÃO NAS TERMÓPILAS

LIVRO VIII - URÂNIA

TEMÍSTOCLES — COMBATE NAVAL PERTO DE ARTEMÍSIO — OS GREGOS

SE RETIRAM — OS PERSAS ATINGIDOS POR UM RAIO PERTO DO TEMPLO DE

DELFOS — A BATALHA NAVAL DE SALAMINA — XERXES ASSISTE À

BATALHA — ARISTIDES NA FROTA — A CORAGEM DE ARTEMISA —

DISCURSO DE MARDÔNIO A XERXES — DESASTRE DOS PERSAS —

TEMÍSTOCLES DETÉM-SE NA PERSEGUIÇÃO AO INIMIGO — XERXES GANHA

O HELESPONTO E RETIRA-SE PARA A ÁSIA — MARDÔNIO PERMANECE À

FRENTE DE TREZENTOS MIL HOMENS — ATENAS E ESPARTA REPELEM AS

PROPOSTAS DE PAZ

LIVRO IX - CALÍOPE

MARDÔNIO APODERA-SE DE ATENAS PELA SEGUNDA VEZ — OS

ATENIENSES ENVIAM EMBAIXADORES A ESPARTA — LÍCIDAS É

TORTURADO — MORTE DE MASÍSTIO, GENERAL PERSA — TISÂMENO

TORNA-SE CIDADÃO DE ESPARTA — BATALHA DE PLATEIA — MORTE DE

MARDÔNIO — SAQUE DO ACAMPAMENTO — OS GREGOS MARCHAM

CONTRA TEBAS PARA VINGAR-SE DA TRAIÇÃO DOS SEUS HABITANTES —

BATALHA NAVAL DE MÍCALE, GANHA NO MESMO DIA DA BATALHA DE

PLATEIA — CERCO DE SESTO — FUGA DOS PERSAS — ARTAÍCTES

CONDENADO À MORTE

Notas

28

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LIVRO I