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Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil por Mary Del Priore - Versão HTML

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narizes e cuspidelas. Escapa-nos, sobremaneira, o apelo sedutor que os tais “escarrinhos”

poderiam ter naquele tempo, mas sabe-se que até hoje, no interior do país, o namoro à janela

das moças não desapareceu de todo.

Documentos remanescentes das Visitas da Inquisição, preocupadas com as moralidades de

nossos ancestrais, revelam, por exemplo, a existência de “palavras de requebros e amores” e

de “beijos e abraços”, sugerindo prelúdios eróticos e carícias entre amantes. Atos sexuais

incluíam toques e afagos, implicando a erotização das mãos e da boca. “Chupar a língua”,

“enfiar a língua na boca”, segundo os mesmos documentos, não era incomum. Os processos

revelam que alguns sedutores iam direto ao ponto: “pegar nos peitos” e “apalpar as partes

pudentes” era queixa constante de mulheres seduzidas.

Processos de sodomia masculina revelam, por exemplo, amantes que “andavam ombro a

ombro”, abraçavam-se, trocavam presentes e penteavam-se os cabelos mutuamente à vista de

vizinhos, desafiando a Inquisição, sua grande inimiga. Arroubos não foram incomuns; beijos

roubados e furtivas bolinações eram práticas usuais regadas a propostas lascivas e palavras

amatórias. Alguns tocamentos podiam ser tímidos, escondendo confessados desejos. Rostos e

mãos levemente roçados por dedos ávidos ou mãos apertando outras. Fazer cócegas na palma

da mão e pôr a mão sobre o coração para dizer o querer bem era parte da gramática amorosa.

Em algumas ocasiões, eram os pés que agiam ligeiros a alisarem outros. Alguns afagos eram

apenas esboçados, anunciando a vontade de outros mais ousados, enquanto se elogiava a

formosura da mulher.

A poesia burlesca e satírica vingava-se da repressão. Nela, os órgãos genitais “falavam”.

Em Bocage, o pênis afirmava categórico: “Juro só foder senhoras”. Na poesia, o universo

vocabular também contemplava o corpo e o sexo, sem pudor. “Alcatreira” queria dizer

bunduda. “Arreitar” era excitar, dar tesão. “Bimba”, pênis pequeno. “Crica”, vagina. “Cu”,

bunda. “Pachocho”, genitália feminina. “Pívia”, masturbação. “Trombicar”, foder. “Vir-se”,

gozar. “Sesso”, ânus.

E é o próprio poeta que informa sobre os encontros:

“Tal fogo em mim senti, que de improviso

Sem nada lhe dizer me fui despindo

Te ficar nu em pelo, e o membro feito

[...]

Nise cheia de susto e casto pejo

Junto a mim sentou-se sem resolver-se

Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando

Quanto cobria seu airoso corpo

Era feito de neve: os ombros altos

O colo branco, o cu roliço e branco

A barriga espaçosa, o cono estreito

O pentelho mui denso, escuro e liso

Coxas piramidais, pernas roliças

O pé pequeno... oh céus! Como és formosa.”

Mas isso era poesia... Pois, enquanto literatos davam vazão aos sentimentos eróticos, a

catequese se impunha a toda a sociedade colonial. A agenda era uma só: civilizar, educando

nos princípios cristãos. No casamento, todo o cuidado era pouco. Normas regiam as práticas

dos casados. Até para ter relações sexuais, as pessoas não se despiam. As mulheres

levantavam as saias ou as camisas e os homens, abaixavam as calças e ceroulas. Mesmo nos

processos de sedução e defloramento que guardam nossos arquivos, vê-se que os amantes não

tiravam a roupa durante o ato. Um exemplo, em Paraty, Rio de Janeiro, no início do século XIX:

“ele testemunha presenciara e vira a ofendida e o Réu estarem no mato juntos e unidos um por

cima do outro a fazerem movimento com o corpo, e que ele testemunha vendo este ato, voltou

sem dar a perceber a ninguém”.

Nem uma palavra sobre despir-se. As práticas amorosas, contudo, eram rigidamente

controladas. Toda a atividade sexual extraconjugal e com outro fim que não a procriação era

condenada. Manobras contraceptivas ou abortivas não eram admitidas. A noção de debitum

conjugal, uma dívida ou dever que os esposos tinham que pagar, quando sexualmente

requisitados, torna-se lei. Associava-se o prazer exclusivamente à ejaculação, e por isso era

“permitido” aos maridos prolongarem o coito com carícias, recorrendo até à masturbação da

parceira, a fim de que ela “emitisse a semente”, justificando a finalidade do ato sexual.

Ao ser definido como uma conduta racional e regulada em oposição ao comércio dito

apaixonado dos amantes, o comércio conjugal só era permitido em tempos e locais oportunos.

Consideravam-se impróprios os dias de jejum e festas religiosas, o tempo da menstruação, a

quarentena após o parto, os períodos de gravidez e amamentação. Sobre o papel da mulher

durante o coito, fazia-se eco aos conselhos de Aristóteles: que nenhuma mulher, mas nenhuma

mesmo, desejasse o lugar de amante de seu marido. Isso queria dizer que a esposa não devia

demonstrar nenhum conhecimento sobre sexo. Somente casta e pura ela seria desejada. Sua

ingenuidade seria prova de sua honradez.

O SEXO PROIBIDO

As regras da Igreja Católica pareciam esconder-se sob a cama dos casados, controlando

tudo. Proibiam-se ao casal as práticas consideradas “contra a natureza”. Além das relações

“fora do vaso natural”, consideravam-se pecados graves “quaisquer tocamentos torpes” que

levassem à ejaculação. Assim, perseguiam-se os “preparativos” ou preliminares ao ato sexual.

A prática, bastante difundida, aparece em tratados de confissão encarregados de simular o

diálogo entre o pecador e o padre: “pequei em fazendo com algumas pessoas na cama, pondo-

lhes as mãos por lugares desonestos e ela a mim, cuidando e falando em más coisas”, diria o

primeiro. “Já pagar seus pecados com penitências!”, diria o segundo.

O sexo admitido era restrito exclusivamente à procriação. Donde a determinação de

posições “certas” durante as relações sexuais. Era proibido evitar filhos, gozando fora do

“vaso”. Era obrigatório usar o “vaso natural” e não o traseiro. Era proibido à mulher colocar-

se por cima do homem, contrariando as leis da natureza. Afinal, só os homens comandavam.

Ou colocar-se de costas, comparando-se às feras e animalizando um ato que deveria ser

sagrado. Certas posições, vistas como “sujas e feias”, constituíam pecado venial, fazendo com

que “os que usam de tal mereçam grande repreensão, por serem piores do que brutos animais,

que no tal ato guardam seu modo natural”, dizia a Igreja. Controlado o prazer, o sexo no

casamento virava débito conjugal e obrigação recíproca entre os cônjuges. Negá-lo era pecado,

a não ser que a solicitação fosse feita nos já mencionados dias proibidos, ou se a mulher

estivesse muito doente. Dor de cabeça não valia. O que se procura é cercear a sexualidade,

reduzindo ao mínimo as situações de prazer.

Essa vigilância extrapola o leito conjugal, espalhando-se por toda a sociedade.

Condenavam-se, também, “as cantigas lascivas”, “os bailes desonestos”, “os versos torpes”,

“as cartas amatórias”, a alcovitice, “as bebedices”, os “galanteios”. Essas expressões resgatam

o burburinho da vida social com seus encontros, festas, enfim, a sexualidade do cotidiano, que

a Igreja precisava regulamentar, controlar desde o namoro até as relações conjugais. Um gesto

miúdo de afeto, como o beijo, era controlado por sua “deleitação natural e sensitiva”, sendo

considerado “pecado grave porque é tão indecente e perigoso”. Além de evitar beijos – os

temidos “ósculos” –, devia-se estar em guarda contra as sutilezas das menores expressões de

interesse sexual que não conduzissem ao que era chamado de “coito ordenado para a geração”.

Tudo indica que, ao final do século XVIII, alguns casais já tivessem incorporado as ideias da

Igreja. E, sobre o assunto, não foram poucos os depoimentos. Em 1731, por exemplo, certa

Inácia Maria Botelho, paulista, parecia sensível ao discurso da Igreja sobre a importância da

castidade, pois se negava a pagar o débito conjugal ao marido. Alegando ter feito votos quando

morava com sua mãe e inspirada no exemplo das freiras recolhidas em Santa Teresa, se viu

estimulada por essa virtude. Sobre o seu dever conjugal, contava o marido, Antônio Francisco

de Oliveira, ao juiz eclesiástico que, na primeira noite em que se acharam na cama, lhe rogara

a esposa que “a deixasse casta daquela execução por uns dias”, pois tinha feito votos de

castidade.

Casos de desajustes conjugais devido à pouca idade da esposa não foram raros e revelam

os riscos por que passavam as mulheres que concebiam ainda adolescentes. Há casos de

meninas que, casadas aos doze anos, manifestavam repugnância em consumar o matrimônio.

Num deles, o marido, em respeito às lágrimas e queixumes, resolvera deixar passar o tempo

para não a violentar. Escolástica Garcia, outra jovem casada aos nove anos, declarava em seu

processo de divórcio que nunca houvera “cópula ou ajuntamento algum” entre ela e seu

marido, pelos maus-tratos e sevícias com que sempre tivera que conviver. E esclarecia ao juiz

episcopal que “ela, autora do processo de divórcio em questão, casou contra sua vontade, e só

por temor de seus parentes”. Confessou também que, sendo tão “tenra [...] não estava em

tempo de casar e ter coabitação com varão por ser de muito menor idade”.

Os casos de casamentos contraídos por interesse, ou na infância, somados a outros em que

idiossincrasias da mulher ou do marido revelam o mau estado do matrimônio, comprovam que

as relações sexuais dentro do sacramento eram breves, desprovidas de calor ou refinamento.

Cada vez mais se evidencia o elo entre sexualidade conjugal e mecanismos puros e simples de

reprodução. Maria Jacinta Vieira, por exemplo, bem ilustra a valorização da sexualidade sem

desejo. Ela se recusava a copular com seu marido “como animal”. Bem longe já se estava dos

excessos eróticos cometidos quando das primeiras visitas do Santo Ofício à colônia. Na Bahia

do século XVI, Inês Posadas não parecia então muito preocupada em ter sido denunciada pelo

fato de seu amante, durante o coito, retirar o membro de sua vagina para sujar-lhe a boca. O

comportamento de Maria Jacinta ilustrava um consenso do Antigo Regime, verbalizado por

Montaigne. A esposa devia ignorar as febres perversas do jogo erótico.

E como funcionava o matrimônio? Os casados desenvolviam, de maneira geral, tarefas

específicas. Cada qual tinha um papel a desempenhar diante do outro. Os maridos deviam se

mostrar dominadores, voluntariosos no exercício da vontade patriarcal, insensíveis e egoístas.

As mulheres, por sua vez, apresentavam-se como fiéis, submissas, recolhidas. Sua tarefa mais

importante era a procriação. É provável que os homens tratassem suas mulheres como

máquinas de fazer filhos, submetidas às relações sexuais mecânicas e despidas de expressões

de afeto. Basta pensar na facilidade com que eram infectadas por doenças venéreas, nos

múltiplos partos, na vida arriscada de reprodutoras. A obediência da esposa era lei.

“VAMOS DEITAR”

Acrescente-se à rudeza atribuída aos homens o tradicional racismo que campeou por toda a

parte. Estudos comprovam que os gestos diretos e a linguagem chula eram destinados às

negras escravas e forras ou mulatas; enquanto as brancas reservavam-se galanteios e palavras

amorosas. Os convites diretos para a fornicação são feitos predominantemente às negras e

pardas, fossem elas escravas ou forras. Afinal, a misoginia racista da sociedade colonial

classificava as mulheres não brancas como fáceis, alvos naturais de investidas sexuais, com

quem se podia ir direto ao assunto sem causar melindres. Gilberto Freyre chamou a atenção

para o papel sexual desempenhado por essas mulheres, reproduzindo o ditado popular:

“Branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar”.

Degradadas e desejadas ao mesmo tempo, as negras seriam o mesmo que prostitutas, no

imaginário de nossos colonos: mulheres “aptas à fornicação”, em troca de algum pagamento.

E na falta de mulheres brancas, fossem para casar ou fornicar, caberia mesmo às mulheres de

cor o papel de meretrizes de ofício ou amantes solteiras, em toda a história da colonização.

Nos séculos seguintes, à degradação das índias como objetos sexuais dos lusos somou-se a das

mulatas, das africanas, das ladinas e das caboclas – todas inferiorizadas por sua condição

feminina, racial e servil no imaginário colonial. Mais desonradas que as “solteiras do Reino”,

nome que se dava às prostitutas portuguesas, pois aquelas mulheres, além de “putas”, eram

negras.

Mas nem por isso ficaram as cabrochas do trópico sem a homenagem do poeta. No século

XVII, Gregório de Matos dedicou vários de seus poemas a certas mulatas da Bahia, em geral

prostitutas: “Córdula da minha vida, mulatinha de minha alma”, folgava o Boca do Inferno. O

poeta louva o corpo e os encantos da mulata, que, como a índia do século XVI, torna-se objeto

sexual dos portugueses. Mas o mesmo poeta não ousa brincar com a honra das brancas às

quais só descrevia em tom cortês, ao passo que às negras d’África ou às ladinas refere-se com

especial desprezo: “anca de vaca”, “peito derribado”, “horrível odre”, “vaso atroz”, “puta

canalha”. À fornicação e aos pecados sexuais nos trópicos não faltaram pontadas de racismo e

desprezo à mulher de origem africana.

Não há dúvidas, por outro lado, que os afro-descendentes tivessem fórmulas para seus

rituais de sedução. A receita certa era extraída de falares africanos. Um manuscrito mineiro do

século XVIII reconstitui um diálogo de abordagem sexual e negociação amorosa, em língua

mina-jeje:

“– UHÁMIHIMELAMHI. Vamos deitar-nos.

NHIMÁDOMHÃ. Eu não vou lá.

GUIDÁSUCAM. Tu tens amigos (machos)?

HUMDÁSUCAM. Eu tenho amigo (macho).

NHIMÁCÓHINHÍNUM. Eu ainda não sei dos seus negócios.

NHITIMCAM. Eu tenho hímen.

SÓHÁ MÁDÉNAUHE. Dê cá que eu to tirarei.

GUIGÉROUME. Tu me queres?

GUITIM A SITÓH. Vosmicê tem sua amiga (mulher).

GUI HINHÓGAMPÈ GUÀSUHÉ. Tu és mais formosa do que ela (minha mulher).”

Uma série de palavras de origem banto e iorubá com sentido erótico engordou nosso

vocabulário: xodó, que quer dizer, em banto, namorado, amante, paixão; nozdo, amor e desejo;

naborodô, fazer amor; caxuxa, termo afetuoso para mulher jovem; enxodozado, apaixonado;

indumba, adultério; kukungola, jovem solteira que perdeu a virgindade; dengue, candongo e

kandonga, bem-querer, benzinho, amor; binga, homem chifrudo; huhádumi, venha me

comer/foder.

A RECUSA DO PRAZER

Os séculos ditos “modernos” do Renascimento não foram tão modernos assim. Um fosso

era então cavado: de um lado, os sentimentos, e do outro, a sexualidade. Mulheres jovens da

elite eram vendidas, como qualquer animal, nos mercados matrimoniais. Excluía-se o amor

dessas transações. Proibiam-se as relações sexuais antes do casamento. Instituíram-se

camisolas de dormir para ambos os sexos. O ascetismo tornava-se o valor supremo.

Idolatrava-se a pureza feminina na figura da Virgem Maria. Para as igrejas cristãs, toda

relação sexual que não tivesse por finalidade a procriação confundia-se com prostituição. Em

toda a Europa, as autoridades religiosas tinham sucesso ao transformar o ato sexual e qualquer

atrativo feminino em tentação diabólica. Na Itália, condenava-se à morte os homens que se

aventurassem a beijar uma mulher casada. Na Inglaterra, decapitavam-se as adúlteras. E em

Portugal, sodomitas eram queimados em praça pública.

A concepção do sexo como pecado, característica do cristianismo, implicava a proibição

de tudo o que desse prazer. Desde as carícias que faziam parte dos preparativos do encontro

sexual até singelos galanteios. Na verdade, os casamentos contratados pelas famílias, em que

pouco contava a existência ou não de atração entre os noivos, submetidos a constante

vigilância, deixavam pouco espaço para as práticas galantes, que precisaram se adaptar às

proibições. Mensagens e gestos amorosos esgueiravam-se pelas frinchas das janelas ou

sobrevoavam o abanar dos leques.

Tanto controle transformava as cerimônias religiosas (uma das únicas ocasiões em que os

jovens podiam encontrar-se sem despertar suspeitas e repressões dos pais ou confessores) em

palco privilegiado para o namoro. Não foram poucos os amores que começaram num dia de

festa do padroeiro ou de procissão, havendo até os que esperavam a Quinta-feira Santa e o

momento em que se apagavam as velas, dentro da Igreja, em respeito à Paixão de Cristo, para

aproximar-se um do outro. E, no escurinho, choviam beliscões, pisadelas e gestos eróticos.

As igrejas paroquiais foram convertidas, nesse tempo, em espaço para namoricos,

marcação de encontros proibidos e traições conjugais. Não foram poucas as ordens dadas por

bispos setecentistas exigindo a separação de homens e mulheres no interior das capelas. O

clero temia os encontros e suas consequências. Compreende-se, assim, o porquê de uma carta

pastoral como a de dom Alexandre Marques, de 1732, proibindo a entrada nas igrejas de

“pessoas casadas que estiverem ausentes de seus consortes”. Nas igrejas, brotavam romances

sem limites. Não por acaso, um manual português de 1681, escrito por dom Cristóvão de

Aguirre, continha as seguintes perguntas: “a cópula tida entre os casais na Igreja tem especial

malícia de sacrilégio? Ainda que se faça ocultamente?”. Lugar de culto, lugar público, a igreja

seria, então, também um lugar de sedução e de prazer. Onde, vez por outra, Deus dava licença

ao Diabo...

No Brasil, as missas do século XVIII eram animadas por toda sorte de risos, acenos e olhares

furtivos, transformando as igrejas, para desgosto dos bispos, em concorridos templos de

perdição. Mal iluminadas, suas arcadas e colunas e os múltiplos altares laterais ofereciam

recantos, resguardados da curiosidade alheia, onde se podia até mesmo tentar gestos ousados:

do beijo ao intercurso sexual. A costumeira reclusão das donzelas de família e a permanente

vigilância a que estavam expostos todos os seus passos tornavam missas, procissões, ladainhas

e novenas ocasiões sedutoras, para as quais contribuíam os moleques de recado e as

alcoviteiras, ajudando a tramar encontros. Abrigo de amantes, a igreja logrou converter-se, em

certas circunstâncias, num dos raros espaços privados de conversações amorosas e jogos

eróticos, nos quais se envolviam nada menos do que os próprios confessores. E tais jogos eram

perpetrados até mesmo no refúgio dos confessionários.

O DIABO NO CONFESSIONÁRIO

Tal foi o sucedido com Marciana Evangelha, moça solteira de 29 anos que, no Maranhão,

denunciara o jesuíta José Cardoso ao comissário do Santo Ofício em outubro de 1753. Ela o

acusara de pedir-lhe “seu sêmen”, de dizer que “a desejava ver nua” e ainda de lhe pegar “nos

peitos no confessionário”. Sobre as relações do padre e a moça, sabia-se, por exemplo – e é o

comissário quem anota –, que “o trazia doido e fora de si e que por ela perdia muitas vezes o

sono da noite, o que nunca lhe sucedera com outra mulher alguma”, e que “por amor dela

havia de sair fora da religião”. Seduzida por declarações ardentes e promessas, a moça

atrapalhava-se nos depoimentos. Tanto que, passados mais dois dias, voltou novamente à

presença do comissário para declarar que o padre lhe garantira que, “se consentisse com ele

lhe daria remédio para que ficando corrupta parecesse virgem e que para não conceber lhe

daria também remédio”.

Românticos não eram raros. E havia alguns como o padre Francisco Xavier Tavares, capaz

de uma súplica cavalheiresca a Maria Joaquina da Assunção, mulher casada: “se queria ter

com ele uns amores e se consentia que ele fosse a sua casa”. Outros confessores chegavam a

requintes galantes, ofertando flores às suas escolhidas em pleno confessionário ou fazendo

como o padre Custódio Bernardo Fernandes, que, no Recolhimento das Macaúbas, em Minas

Gerais, dissera a Catarina Vitória de Jesus que lhe queria bem. Mais, perguntando se ela era

sua, meteu na boca um raminho, pedindo a ela que o puxasse com seus dentes.

Mas existia, também, o avesso da história. O confessionário era tido como espaço ideal

para abordagem de mulheres diabolicamente sedutoras. Na Bahia, ao receber “um escrito”

amoroso da parda Violante Maria, o pároco João Ferreira Ribeiro mandou-lhe um recado “por

um mulato seu confidente” para que fosse à igreja de Santo Antônio e, acabada a missa, se

encontrasse com ele no confessionário. Marcaram então um encontro no caminho que ia para o

lago e “lá entraram ambos no mato e teve ele acesso carnal a ela”. Fora dela que partira a

iniciativa da conquista.

Essas atitudes parecem surpreendentes, sobretudo por virem de indivíduos que deveriam

atuar como agentes da Reforma Católica dos costumes. Chocante? Não. As pesquisas têm

demonstrado que as ideias reformadoras de católicos e protestantes só lentamente se

traduziram em efetivas mudanças de comportamento por parte da população cristã. O processo

variou em seu ritmo conforme as regiões atingidas, mesmo se considerarmos apenas o

continente europeu. A exportação da Reforma Católica para o além-mar multiplicou as

dificuldades normalmente impostas a uma tarefa dessa natureza. Basta lembrar as grandes

distâncias, a falta de clérigos, a precária estrutura paroquial em um imenso território de

ocupação populacional dispersa, as peculiaridades culturais de uma sociedade híbrida na qual

se despejavam continuamente, através do degredo, elementos desviantes da metrópole, os

vícios inerentes à escravidão e ao desmedido poder local concedido aos senhores. Isso tudo

atrasou a efetivação da Reforma – entendida como projeto da aculturação – na colônia. Isso

tudo retardou a possibilidade de os padres serem homens acima de qualquer suspeita. Como

tantos, eram feitos de carne e osso. Mais carne, até.

VIRANDO PÁGINAS

Na América portuguesa, entre os séculos XVI e XVIII, as intimidades foram construindo-se na

precariedade e na falta de higiene. Que o diga o poeta Gregório de Matos, que nos seus versos

nunca esquece o “fedor de Norte a Sul” das mulheres: “bacalhau para a boca e mau bafo para o

vaso”. Ou “horrível odre a feder a cousa podre”. As relações despidas de erotismo eram

comuns. “Fornicar” era um verbo muito conjugado, enquanto “caíam saias e calções”. Há

poucos registros de uma sensualidade mais elaborada, como vemos na pintura europeia do

mesmo período. E a despeito da descoberta de afrodisíacos, tampouco há registros de seu uso

ou de sua valorização. O corpo da mulher era diabolizado. Seu útero, visto como um mal. Suas

secreções e seus pelos, usados em feitiços. Seu prazer, ignorado pela medicina, por muitos

homens e até por muitas mulheres. Para as que quisessem as bênçãos do sacramento do

matrimônio, a virgindade era obrigatória. A tradição, dotes, heranças e bens assim obrigavam.

Adultério feminino? Passível de ser punido com a morte. Afinal, os homens sentiam-se

obrigados a lavar sua honra em sangue. O poder masculino dentro do casamento era total.

Traições masculinas? Consideradas normais. A bigamia de homens e mulheres era punida com

degredo para a África. Muitos preferiam viver segundo os “usos da terra”: em ligações

consensuais. E nelas tanto havia estabilidade quanto mudança de parceiros, em razão de

abandono ou morte de um dos membros do casal. As concubinas, e elas eram muitas, eram

chamadas de “teúdas e manteúdas”. E crianças de diferentes pais conviviam sob o mesmo teto.

A perseguição da Igreja Católica às formas de prazer sexual dentro do casamento se

enraizou com lentidão, mas de forma definitiva. No confessionário, nas missas dominicais e

festas religiosas, pecava-se, é fato. Mas absorviam-se, também, os mandamentos das leis de

um Deus severo e casto. A vigilância sobre os corpos e a sexualidade conjugal incentivou a

dupla moral dos homens. Em casa, faziam filhos. Era o “trique-trique”, como dizia Gregório

de Matos:

“O casado de enfadado

por não ter a quem lhe aplique

anda já tão desleixado

que inda depois de deitado

não faz senão trique-trique.”

Mas, na rua, eles se divertiam. O sexo masculino ganhava vários nomes: “o Fodedor”, “o

Frade”, “o Estoque”. E o mesmo poeta definia o que acontecia nos então chamados “jogos de

amor”:

“O Amor é finalmente

Um embaraço de pernas

Uma união de barrigas

Um breve temor de artérias.

Uma confusão de bocas

Uma batalha de veias,

Um rebuliço de ancas

Quem diz outra coisa, é besta.”

2.

Um século hipócrita

AMANTES: O EXEMPLO QUE VEIO DE CIMA

No céu do século XIX brilhou uma estrela. A do adultério. A história de amantes prolonga,

sem dúvida, um movimento que existia há séculos. A diferença é que a simples relação de

dominação – como a que houve entre senhor e escravas durante o período colonial – deu lugar

a uma relação venal, que o cinismo do século tingiu com as cores da respeitabilidade. Por

vezes, até apimentou com sentimentos. E o exemplo vinha de cima.

O período abriu-se com a chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1801. Entre os

membros da família real, Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon y Bourbon já vinha mal

falada por viver na Quinta do Ramalhão, palácio distante do marido, d. João. À boca pequena

murmurava-se sobre a rainha com o comandante das tropas navais britânicas, Sydney Smith. A

ele, ela ofereceu de presente uma espada e um anel de brilhantes. Temperamental e senhora de

um projeto político pessoal – queria ser regente de Espanha –, a rainha teve, sim, seus amores.

Todos encobertos pela capa da etiqueta e por cartas trocadas com o marido, nas quais, apesar

de não viverem juntos, ele era chamado de “meu amor”.

A nora, recém-chegada de uma das mais sofisticadas cortes europeias, a Áustria, não

deixou de escrever aos familiares, chocada com o comportamento de Carlota Joaquina: “Sua

conduta é vergonhosa, e desgraçadamente já se percebem as consequências tristes nas suas

filhas mais novas, que têm uma educação péssima e sabem aos dez anos tanto como as outras

que são casadas”.

Os casos amorosos da rainha eram conhecidos e o mais rumoroso deles resultou no

assassinato a facadas – a mando da própria Carlota – da mulher de um funcionário do Banco

do Brasil, sua rival. Enquanto isso, comentava-se a solidão de d. João VI, atenuada – dizem

biógrafos – graças aos cuidados de seu valete de quarto.

Já o filho d. Pedro não escondia de ninguém seus casos. Tampouco se importava em ser

discreto com a própria esposa, a princesa Leopoldina Carolina, com quem casou em 1817.

Segundo biógrafos, “seu apetite sexual” era insaciável. Ele não conhecia limites nem diante da

família nem diante do marido da mulher desejada. Não importava a condição social:

mucamas, estrangeiras, criadas ou damas da corte. Delavat, o cônsul espanhol no Rio, em 1826,

acusava-o de ser “variável em suas conexões com o belo sexo”. E não hesitava em manter

relações com várias mulheres de uma mesma família, como fez com a dançarina Noemi

Thierry e sua irmã. Com poucos meses de casado, já estava enamorado de Noemi. Costumava

visitar a moça na companhia da própria esposa, na casa de seu camareiro, d. Pedro Cauper.

Enquanto as filhas de Cauper entretinham d. Leopoldina, d. Pedro escapava para algum canto

com Noemi. Quando a esposa compreendeu a situação e queixou-se ao sogro, esse despachou

Cauper e a família para Portugal. Noemi, grávida de seis meses, foi removida junto com o

marido, um oficial, para Pernambuco.

O mesmo Delavat dizia sobre d. Pedro que tinha ele “um objeto distinto para cada semana,

nenhuma conseguia fixar sua inclinação”. Nenhuma até ir a São Paulo, em setembro de 1822,

quando proclamou a Independência. Lá encontrou Domitila de Castro Canto e Mello. Tinha d.

Pedro 24 anos e Domitila, 25. Belíssima? Não exatamente. Certo pendor para a gordura, três

partos, cicatrizes, um rosto fino e comprido, aceso pelo olhar moreno. Domitila, mãe de três

filhos e acusada de adultério, tomara uma facada do marido, certa manhã em que voltava, às

escondidas, para casa. O fato era conhecido na cidade de São Paulo e manchava o nome da

família.

Entre os dias 29 e 30 de agosto de 1822, tinha início uma aventura romanesca que marcaria a

vida de d. Pedro. Esse affair extravasou a alcova e refletiu-se, mais tarde, na vida política e

familiar do príncipe, bem como na imagem que dele se fazia dentro e fora do país.

Passado um ano, a data do primeiro encontro foi registrada pelo punho do próprio d. Pedro:

“o dia 29 deste mês em que começaram nossas desgraças e desgostos em consequência de nos

ajuntarmos pela primeira vez, então tão contentes, hoje, tão saudosos”. E em outra missiva

fala do dia 30 como aquele em que “comecei a ter amizade com você”. Logo após tornar-se

imperador, d. Pedro deixa de lado a discrição, transformando “Titília” numa “teúda e

manteúda” que é apresentada à corte e instalada em casa, atual Museu do Primeiro Reinado, ao

lado do Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

Em novembro de 1822, d. Pedro felicitava Domitila por “estar pejada” e anuncia-se

“disposto a sacrifícios” para honrar os compromissos de pai. Mas a criança nasceu morta. Em

1824, vem ao mundo Isabel Maria de Alcântara Brasileira, apelidada “Belinha”. Em 12 de

outubro de 1825, d. Pedro, já imperador, contempla a amante com o título de viscondessa, no

mesmo ano em que nasce mais um filho do casal, Pedro de Alcântara Brasileiro. Em 1826, no

dia do imperial aniversário, ela tornou-se a marquesa de Santos. Aconteceu então um fato

documentado: tendo os diretores do Teatro da Constituição recusado a entrada da marquesa

numa das representações, sob pretexto de que sua conduta não era digna da boa sociedade,

baixou-se ordem para que fossem fechadas as portas do teatro e presos aqueles diretores. O

imperador era um amante zeloso!

Amante, sim, e quanta paixão! Suas cartas não deixam mentir. São recheadas de suspiros e

voluptuosidade: “Meu amor, meu tudo”, “meu amor, minha Titília”, “meu benzinho... vou aos

seus pés”, “aceite o coração deste que é seu verdadeiro, fiel, constante, desvelado e agradecido

amigo e amante”, rabiscava. E mais incisivo: “Forte gosto foi o de ontem à noite que tivemos.

Ainda me parece que estou na obra. Que prazer!! Que consolação!!!”. E terminava “com votos

de amor do coração deste seu amante constante e verdadeiro que se derrete de gosto quando...

com mecê”. Ou mandava “um beijo para a minha coisa”; “abraços e beijos e fo...”. E depois,

mortificado de ciúmes e suspeitas, perguntava, “será possível que estimes mais a alguém do

que a mim?”. E assinava-se “seu Imperador”, “seu fogo foguinho”, “o Demonão”, quando não

acrescia eroticamente, como se vê em carta no Museu Imperial, o desenho do real pênis

ejaculando em louvor da amante. Tudo cheirando – como disse um biógrafo – a lençóis

molhados e em desalinho.

O IMPERADOR LIBERTINO

O amor adúltero desenvolvia-se na frente de todos e dividia a Corte. Os irmãos Andrada,

em particular José Bonifácio, reprovavam a atitude do jovem imperador, que consideravam

comprometedora da imagem do novo império no exterior. Ainda como viscondessa, Domitila

foi elevada a dama camarista de dona Leopoldina e acompanhou o casal numa viagem de dois

meses à Bahia. O secretário da imperatriz escreveu, em fevereiro de 1826, ao chanceler

austríaco Klemens Wenzel von Metternich para reprovar a “fatal publicidade da ligação” com

a marquesa de Santos, debitando-a à “resignação e introspecção” da princesa austríaca.

A possibilidade de d. Pedro I casar-se com a “Pompadour tropical” após a viuvez

horrorizou a aristocracia europeia. Multiplicavam-se as murmurações contra a Castro, que

reunia em São Cristóvão uma família bastante característica desses tempos: filhos legítimos e

ilegítimos, seus sete irmãos, sobrinhos e cunhadas, o tio materno Manuel Alves, a tia-avó dona

Flávia e as primas Santana Lopes. O barão de Maréchall anotava em relatório enviado à

Áustria: “A família aflui de todos os cantos; uma avó, uma irmã e uns primos acabam de

chegar”.

A morte de dona Leopoldina, no final de 1826, aos 29 anos, obriga d. Pedro a tomar certos

cuidados, pois não faltaram manifestações acusando Domitila de ter envenenado a imperatriz.

A própria Leopoldina se queixara, em carta ao pai, que o marido a maltratava “na presença

daquela que é causa de todas as minhas desgraças”. Insultos, ameaças, proibições de entrar no

palácio e mesmo uma tentativa de linchamento revelam a reação dos moradores do Rio à

presença da concubina.

E m 1827, já gozando de todas as prerrogativas de marquesa, Domitila recebe ainda a

condecoração da Real Ordem de Santa Isabel de Portugal, além de conseguir títulos de nobreza

para o restante da família. Tanto agrado deixou marcas e aguçou desafetos, dando munição aos

que se batiam pelo fim das honrarias. Os receios de um casamento da amante com o imperador

se espalhavam. Metternich não escondia seu horror: “É inconcebível que o imperador pense

em se casar com a senhora de Santos, pois seu marido é vivo”. Perigo havia, mas, quando se

alastraram notícias da busca de uma noiva para o imperador viúvo, as cartas de amor que

Domitila recebia mudaram de tom. Agora, d. Pedro falava em “gratidão e afeto particular” e

chamava-a de “minha amiga”. Grávida pela quarta vez do imperador, percebe suas intenções

quando ele pede que se distancie da corte, com a promessa de uma pensão generosa. A

“concubina e sua comitiva” – relatava Maréchall aos superiores austríacos – seriam afastadas

antes da chegada da nova esposa. A 13 de agosto de 1827, nascia, no Rio de Janeiro, Maria

Isabel de Alcântara Brasileira, a quarta filha do casal de amantes.

Assinado

em 1829, o contrato de casamento com a princesa alemã Amélia de

Leuchtemberg, segunda esposa de d. Pedro, pôs um fim ao caso.

Nessa época, ser libertino não significava apenas seduzir todas. Mas, sobretudo, não se

deixar seduzir. E a lista de amantes do imperador é considerável, embora incompleta:

Mariquita Cauper, filha do camareiro Pedro Cauper; Ana Rita, mulher de Plácido de Abreu;

Joaquina ou Ludovina Avilez, esposa do general Jorge Avilez; Carmem Garcia, esposa do

naturalista Bompland; Maria Joana, filha do capitão Ferreira Sodré; Regina de Satourville,

mulher de um ourives da rua do Ouvidor; Carlota Ciríaco da Cunha, filha de um rico

industrial; Clémence Saisset, mulher de um comerciante francês; e outras, como Joaninha

Mosqueiro, que lhe daria um filho, José, nascido em 1829; Luizinha Meneses, Andresa Santos,

Gertrudes Meireles, Ana Sofia Steinhausen e Androsinda Carneiro Leão. Do serralho ainda

constaram a viscondessa de Sorocaba, irmã da marquesa de Santos; Maria Benedita Delfim

Pereira; Luisa Clara de Meneses, mineira de Paracatu, mulher do general José Severino de

Albuquerque; Heloísa Henri, mestra de dança francesa, mulher do dr. Roque Schüh; as mães

de Umbelino Alberto de Campo Limpo e de Teotônio Meireles; bem como a atriz Ludovina

Soares. Nenhuma se negava a d. Pedro I. Por ser rei e por ser fogoso.

DE “TEÚDAS E MANTEÚDAS” A “LIGAÇÕES PERIGOSAS”

Comecemos pelo pano de fundo: até o período em que se deu a Independência, vivia-se na

América portuguesa num cenário com algumas características invariáveis: a família patriarcal

era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto, nas camadas populares rurais e

urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a

marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com sua função econômica,

política, administrativa e cultural. Alguns números ilustram os contingentes demográficos:

São Paulo contava com cerca de 20 mil habitantes, Recife, com 30 mil, Salvador, com 60 mil, e

o Rio de Janeiro, graças à vinda de portugueses seguindo d. João VI em seu exílio tropical, era

a única a contar com mais de 100 mil residentes. A população urbana, contudo, crescia,

alimentando uma forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro). Apesar

dos problemas de abastecimento, higiene e habitação, as cidades atraíam pela enorme

oportunidade que ofereciam de mobilidade social e econômica.

Com todas essas transformações, é bom não perder de vista que, de acordo com vários

viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire,

Tollenare, Debret, Rugendas, Koster, Luccock, Maria Graham), a paisagem urbana brasileira

ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros onde a

agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís e Ouro

Preto –, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados com

casario baixo e discreto, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Mesmo na chamada corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma do que de

fundo. A requintada presença da Missão Francesa pode ter deixado marcas na pintura,

ornamentação e arquitetura. Mas as notícias dos jornais Gazeta do Rio de Janeiro ( 1808- 1822) e

Idade de ouro do Brasil ( 1811- 1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do

Real Teatro de São João, onde se exibiam companhias estrangeiras e onde soltavam seus

trinados artistas como a graciosa Baratinha ou as madames Sabini e Toussaint, não eram

suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo e dos saraus

familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.

Os viajantes que por aqui passaram na primeira metade do século XIX concordavam num

ponto: “a moralidade reinante no Rio de Janeiro se apresenta bem precária”, como dizia o

mineralogista inglês Alexander Caldcleugh. Já o francês Freycinet queixava-se dos vícios e da

libertinagem. Afinal, tratava-se de um país onde “não é difícil encontrar-se todo o tipo de

excessos”. E seu conterrâneo Arago cravava: “o Rio era uma cidade onde os vícios da Europa

abundavam”. Eles tomavam como vícios os concubinatos e adultérios, correntes sobretudo nas

camadas mais pobres da população, em que se multiplicavam as “teúdas e manteúdas”. Para a

chamada “poligamia tropical” não faltaram explicações associadas ao clima quente, como a

dada por J. K. Tuckey:

“Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países da zona tórrida, não há

intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o

poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e, após um florescimento rápido,

deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a

sua beleza, e, aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. Assim a vida das

três destas filhas do sol difere muito da de uma europeia; naquela, o período de perfeição

precede muito o de perfeição mental, e nesta, uma perfeição acompanha a outra. Sem dúvida,

esses princípios influenciam os legisladores do Oriente em sua permissão da poligamia; pois

na zona tórrida, se o homem ficar circunscrito a uma mulher precisará passar quase dois terços

de seus dias unido a uma múmia repugnante e inútil para a sociedade, a não ser que a

depravação da natureza humana, ligada à irritação das paixões insatisfeitas os conduzisse a

livrar-se do empecilho por meios clandestinos. Essa limitação a uma única mulher, nas

povoações europeias da Ásia e das Américas, é uma das principais causas de licenciosidade

ilimitada dos homens e do espírito intrigante das mulheres. No Brasil, as relações sexuais

licenciosas talvez igualem o que sabemos que predominou no período mais degenerado do

Império Romano.”

Outra explicação, dessa vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as

mulheres brasileiras gozavam de menos privilégios do que as do Oriente. Casavam-se cedo,

logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam

ter tido. Os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas negras ou mulatas. “O

casamento é apenas um jogo de interesses. Causa espanto ver uma moça, ainda jovem, rodeada

de oito ou dez crianças; uma ou duas, apenas, são dela, outras são do marido; os filhos naturais

são em grande número e recebem a mesma educação dos legítimos. A imoralidade dos

brasileiros é favorecida pela escravidão e o casamento é repelido pela maioria, como um laço

incômodo e um encargo inútil. Disseram-me que há distritos inteiros em que só se encontram

dois ou três lares constituídos. O resto dos habitantes vive em concubinato com mulheres

brancas ou mulatas.”

“Nascer do outro lado dos lençóis” era o eufemismo empregado para designar bastardia. E

não foram poucas as famílias assim constituídas. João Simões Lopes, o visconde da Graça,

estancieiro, comerciante e chefe do partido conservador em Rio Grande, tinha uma vida nada

convencional na segunda metade do século XIX. Casado, mantinha na mesma rua em que

morava, três casas abaixo, sua amante. Quando sua esposa deu à luz um filho, quase na mesma

semana nascia-lhe outra da “teúda e manteúda” Vicência Ferreira Lira. Teve, com cada uma

delas, dez filhos, sendo pai de doze de um primeiro casamento do qual ficou viúvo. O arranjo

não causava discórdia. Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e

a concubina, do outro. Todos muito devotos!

ENTRE BEATARIA E LIBERTINAGEM

Existia um alto nível de violência nas relações conjugais. Não só violência física, na forma

de surras e açoites, mas a violência do abandono, do desprezo, do malquerer. Os fatores

econômicos e políticos que estavam envolvidos na escolha matrimonial deixavam pouco

espaço para que a afinidade sexual ou o afeto tivessem grande peso nessa decisão. Além disso,

mulher casada passava a vestir-se de preto, não se perfumava mais, não mais amarrava seus

cabelos com laços ou fitas, nem comprava vestidos novos. Sua função era ser “mulher

casada”, para ser vista só por seu consorte.

Como esposa, seu valor perante a sociedade estava diretamente ligado à “honestidade”

expressa por seu recato, pelo exercício de suas funções no lar e pelos inúmeros filhos que

daria ao marido. Muitas mulheres de trinta anos, presas ao ambiente doméstico, sem mais

poderem “passear” – “porque lugar de mulher honesta é no lar” –, perdiam rapidamente os

traços da beleza, deixando-se ficar obesas e descuidadas, como vários viajantes assinalaram.

Mulheres abandonadas por esposos que buscaram companheiras mais jovens sempre houve em

todo o mundo, mas fatores específicos, como o desequilíbrio demográfico nas regiões

interioranas, ocasionaram um mercado matrimonial desvantajoso para um número muito

grande de mulheres cujos maridos deixavam o sertão para ir trabalhar nas cidades litorâneas.

Homens de prestígio e de boa situação social sempre tiveram a chance de constituir mais de

uma família.

As mulheres jovens sem bens e que não haviam conseguido casamento numa terra de

estreito mercado matrimonial encontravam no homem mais velho, mesmo casado, o amparo

financeiro ou social de que precisavam. Mesmo sendo “a segunda ou terceira esposa do senhor

juiz”, por exemplo, o poder e o prestígio dele ajudavam-na a sobreviver. Ser “teúda e

manteúda” de um homem importante implicava galgar degraus, ganhar status econômico que

de outra maneira não existiria. É certo que se exigia dela ser conhecedora “do seu lugar”, com

comportamentos adequados e comedidos, mas, ainda assim, ela gozava de respeito.

O preconceito racial de estrangeiros não raro misturava-se com a aversão europeia pela

“corte amorosa à brasileira”. O fato de meninas, muito meninas, passarem da reclusão familiar

às mãos dos maridos fazia-os crer num precoce interesse pelo sexo oposto. Interesse, aliás,

muito malvisto. Os viajantes criticavam a precocidade com que adquiriam modos e

conhecimentos impróprios para a sua idade: “antes de cumprir dez anos, uma menina conhece

perfeitamente bem o valor dos homens como marido e o que é o flerte. Quando estiver com

quatorze anos, ela saberá tudo a respeito de coisas que se supõe que uma inglesa não saberá até

que esteja casada”. A percepção desses estrangeiros é de que havia certa antecipação sexual

nas moças do Novo Mundo.

Durante o século XIX, continuavam sem punição as infidelidades descontínuas e transitórias

por parte dos homens casados, bem como toleravam-se concubinatos de escravas com seus

senhores. Muitos destes escondiam suas amásias em lugares afastados para evitar

“complicações domésticas”. Confiavam-nas à proteção de amigos, concediam-lhes alforria ou,

então, instalavam-nas em um pequeno sítio, com um ou dois escravos para servi-las.

As regras do celibato eram abertamente desrespeitadas e não faltaram registros como os do

escocês George Gardner, que se choca ao conhecer o filho de um padre, ele próprio possuidor

de um título eclesiástico além de senador do Império, que “veio visitar o pai trazendo consigo

sua amante, que era sua prima, com oito filhos dos dez que ela lhe dera, tendo além disso

cinco filhos com outra mulher, que falecera ao dar a luz ao sexto”. Do ponto de vista dos

estrangeiros que nessa época chegam em massa ao Brasil, as ligações entre brancos e negros

ou mulatos desaguavam sempre no rebaixamento moral dos primeiros e em repercussões

insidiosas sobre a vida social, sendo a mais dramática delas o grande número de filhos

naturais.

Embora não haja estatísticas sobre o assunto, é de imaginar-se que as relações

extraconjugais fossem correntes, depois do casamento. O adultério perpetuava-se como

sobrevivência de doutrinas morais tradicionais. Fazia-se amor com a esposa quando se queria

descendência; o resto do tempo era com a outra. A fidelidade conjugal era sempre tarefa

feminina. A falta de fidelidade masculina, vista como um mal inevitável que se havia de

suportar. Era sobre a honra e a fidelidade da esposa que repousava a perenidade do casal. Ela

era a responsável pela felicidade dos cônjuges.

A FRAGILIDADE DA CARNE

Mas seriam elas tão santinhas assim? Os amores adúlteros custavam caro para as mulheres

da elite. Em 1809, certo João Galvão Freire achou-se preso, no Rio de Janeiro, por ter

confessadamente matado sua mulher, d. Maria Eufrásia de Loiola. Alegando legítima “defesa

da honra”, encaminhou ao Desembargo do Paço uma petição solicitando “seguro real para

solto tratar de seu livramento”. A resposta dos desembargadores não deixa dúvidas sobre a

tolerância que rodeava tal tipo de crime: “a ocasião em que este [o marido] entrou em casa, os

achou ambos, esposa e amante, deitados numa rede, o que era bastante suspeitar a perfídia e o

adultério e acender a cólera do suplicante que levado de honra e brio cometeu aquela morta em

desafronta sua, julgando-se ofendido”. Cometido por “paixão e arrebatamento”, o crime era

desculpável! Não havia castigo maior do que a pecha de corno, pecha que pairava sobre

homens públicos casados quando se queria atingi-los na sua probidade.

Já com mulheres de camadas desfavorecidas, a solução era a separação. Cada qual seguia

para seu lado. Algumas mais corajosas ou tementes a Deus declararam, em testamento, que

“por fragilidade humana” tiveram cópula ilícita durante o matrimônio. Assim, em 1858, uma

mulher casada alegava que tinha três filhos legítimos e sete ilegítimos, dois destes nascidos

durante o casamento e cinco já na viuvez, conforme depoimento de seu próprio punho:

“Declaro que por fragilidade humana tive na constância do matrimônio dois filhos, que são

[...] e depois da morte do meu marido tive cinco filhos que são [...] e todos estes foram

havidos com homem solteiro e desimpedido, com quem podia casar e por isso são

verdadeiramente naturais”.

Comportamentos arrojados não faltavam. Nos registros de certo memorialista, não escapou

a lembrança de algumas senhoras, “mulheres de altos personagens”, marcadas por certa

desenvoltura; e ele explicava: “não se querendo dar nunca por velhas”, tomavam por

“afilhados, distintos mancebos provincianos a quem faziam a fortuna”. Houve, conta-nos

Afonso d’Albuquerque Melo, sinhás famosas por essa espécie de prestígio: o de namorar

jovens. E coube ao médico Pires de Almeida inventariar as traições: “A Marquesa de A... com

o Dr. A”; “A Marquesa de O... com seus próprios cocheiros”.

Coches e cocheiros, assim como alcoviteiros, passaram a ter seu papel na vida amorosa das

cidades. Sinhás de sobrado não se furtavam a aventuras galantes dentro de vitórias ou

carruagens com lanternas douradas, forros em damasco de seda e caixilhos das rodas em prata.

Escravos cocheiros encarregavam-se de alcovitar amores proibidos, mas não eram os únicos.

Vendedores de flores e doceiras, com entrada franca nos sobrados imponentes das cidades,

levavam e traziam mensagens: “as mulheres até casarem quase nunca saem de casa, a não ser

quando sob a vigilância da mãe e quando vão à missa; companhia de homens lhes é

absolutamente proibida, e este rigor as leva frequentemente a se entregarem a uma negra de

sua confiança, que por caridade cristã assume o honrado papel de alcoviteira, com o que é

satisfeita a natural inclinação das brasileiras para a aventura, de modo que até as filhas das

famílias melhores, mais cultas, apesar de severamente vigiadas, quase sempre encontram

oportunidade para desafiar a vigilância dos pais”, conta E. Belman, em 1825.

Barrigas de amores ilícitos eram resolvidas, desde sempre, por conhecidas comadres.

Métodos para interromper a gravidez eram, todavia, bem divulgados, conforme reconheciam

os doutores da Academia Imperial de Medicina em 1885: chá de alfazema adoçado com mel,

ou, quando necessária, coisa mais forte, feijão preto com sal, tomado com o estômago vazio.

Se nada funcionasse, as Santas Casas de Misericórdia atraíam os bebês indesejados. A do Rio

de Janeiro – para ficar num exemplo – recebeu 17 mil crianças entre 1859 e 1908.

O adultério opunha-se às noções de fidelidade, de vida comum e de ajuda mútua,

princípios reguladores do casamento e do equilíbrio familiar interno. O homem ou a mulher,

quando adúlteros, violavam a honra conjugal, praticando a “injúria grave”, que era razão, nas

leis religiosas, para anulação do matrimônio. A quebra da fidelidade era considerada falta

grave para ambos os sexos, porém colocava a mulher numa situação inferior do ponto de vista

jurídico. Segundo o jurista Clóvis Bevilácqua, o antigo direito português punia o adultério

com a pena de morte, tanto para a mulher casada quanto para seu cúmplice, mas as

infidelidades masculinas, descontínuas e transitórias, não eram consideradas atos puníveis. Só

os concubinários com suas amantes eram passíveis de degredo, pena raramente aplicada.

“A dissolução dos costumes parece ter sido uma das notas predominantes do Primeiro

Reinado”, assinala o autor do Estudo histórico sobre a polícia da capital federal de 1808 a 1831,

que acrescenta terem os “desregramentos de vida do primeiro imperador, seu proceder

altamente censurável com a Marquesa de Santos, os fatos escandalosos sucedidos na Corte, na

alta sociedade e no próprio clero”, invadido todas as classes sociais, levando “a

desmoralização ao lar doméstico com o afrouxamento dos laços de mútuo respeito e estima,

que esposos, pais e filhos deviam entre si”.

Eram os grandes dando o mau exemplo aos pequenos. Os sobrados promíscuos

contagiando os mocambos. Era a dissolução dos costumes até nas gazetas: “Tendo chegado ao

conhecimento do público que certas senhoras casadas se querem intitular virgens! sem o já

poderem ser, de que é bem constante nesta Corte do Rio de Janeiro [...], mas no caso de

quererem ainda parecer ou fingirem que o sejam para certas pessoas, que sejam fáceis de se

capacitarem de tais coisas se lhes aplica um novo remédio de cuja aplicação resulta um novo

hímen sendo o seu preço, medíocre e o seu uso facílimo, o qual é composto de um emoliente”,

etc.

O adultério feminino explícito ou disfarçado, somado aos concubinatos masculinos,

generalizou-se. A imprensa que se multiplicou a partir da segunda metade do século

costumava trazer uma “sessão de boatos” ou crônicas onde as traições eram abertamente

comentadas. No jornal A Regeneração, de Nossa Senhora do Desterro, na ilha de Santa

Catarina, por exemplo, dava-se notícia de paternidades negadas, maridos atraiçoados, padres

amasiados e mulheres adúlteras: “O Sr. Genoíno está atacado de uma moléstia conhecida pelo

nome de Corno mania”. O remédio viria, rapidamente, em consulta com “o Dr. Bovino que

cura pelo sistema da relhopatia”. Ou informava que, na “festa da padroeira, certo moço de

família fazia brincadeiras com a esposa de um amigo. E o dito fingia não perceber”. As

denúncias nos jornais visavam acirrar a moral pública. Muitas delas, anônimas, acabavam por

divulgar a intimidade de vários casais.

Aos 28 anos, escrevendo de Washington, onde servia como adido na delegação diplomática

brasileira, o jovem Joaquim Nabuco, verdadeiro Don Juan tropical, escrevia surpreso: “aqui

não há liasons de forma nenhuma”. Ou seja, sem amantes ou adúlteras, teve que se contentar

em olhar de longe as belas americanas, pouco interessadas em “fragilizar suas carnes”.

ARMAS DA SEDUÇÃO ERÓTICA

Na primeira época do reinado de d. Pedro II, entre 1840 e 1867, até a Guerra do Paraguai,

copiavam-se tanto os esplendores do Segundo Império francês quanto os maus costumes. Paris

dominava o mundo. O Rio de Janeiro contagiava-se por imitação. Nos diferentes bairros,

proliferavam sociedades com títulos preciosos: Vestal, Sílfide, Ulisseia. A dupla piano &

charuto torna-se inseparável: a mocidade abandonara o rapé, preferindo olhar a fumaça com

volúpia. Rapazes pareciam sonhar com um charuto entre os lábios, enquanto a jovem atacava

uma valsa no piano. Lia-se Byron, solfejavam-se óperas como Nabuco ou Otelo. O Catete, o

bairro do bom-tom, da elegância, do espírito, da aristocracia – o faubourg Saint-Germain do

Rio de Janeiro –, tinha salões onde ecoavam canções em francês. Tudo era pretexto para

reuniões e encontros.

Nesse ambiente de mudanças, a aparência, segundo Gilberto Freyre, tinha muito a dizer

sobre homens e mulheres no sistema patriarcal em que se vivia. O homem tenta fazer da

mulher uma criatura tão diferente dele quanto possível. Ele, o sexo forte, ela, o fraco; ele, o

sexo nobre, ela, o belo. O culto pela mulher frágil, que se reflete nessa etiqueta e na literatura

e também no erotismo de músicas açucaradas, de pinturas românticas; esse culto pela mulher

é, segundo ele, um culto narcisista de homem patriarcal, de sexo dominante que se serve do

oprimido – dos pés, das mãos, das tranças, do pescoço, das ancas, das coxas – como de alguma

coisa quente e doce que lhe amacie, excite e aumente a voluptuosidade e o gozo. Nele, o

homem aprecia a fragilidade feminina para sentir-se mais forte, mais dominador. Seios

interessavam? Ainda não. Eram chamados pelos médicos de “aparelhos de lactação”.

Todo o jogo de aparências colaborava para acentuar a diferença: a mulher tinha que ser

dona de pés minúsculos. Seu cabelo tinha que ser longo e abundante e preso a penteados

elaboradíssimos para fazer frente a bigodes e barbas igualmente hirsutos. Homem sem barba

era maricas! Brilhante, sob o efeito de pomadas e cremes, presa em coques e tranças,

trabalhada com flores artificiais ou naturais, em penas de aves ou seda, a capa capilar também

servia de atrativo para os homens. A cabeleira feminina era tão importante nos jogos de

sedução que as que não a tinham aumentavam a sua com cabelos de meninas mortas, vendidos

em bandejas pela rua.

A cintura feminina era esmagada por poderosos espartilhos, acentuando os seios

aprisionados nos decotes – o peito de pomba. Escapulários e medalhões serviam para destacar

o colo. E o traseiro era valorizado graças às anquinhas. O “talhe de vespa” ou cintura estreita

fazia parte dos padrões de beleza física. Uma tal armadura era responsável, segundo os

médicos mais esclarecidos, por problemas respiratórios e hemoptises, ajudando a desenhar a

figura da heroína romântica: “a pálida virgem dos sonhos do poeta”, doente do pulmão. A

complicação das roupas tinha um efeito perverso: ela suscitava um erotismo difuso que se

fixava no couro das botinas, no vislumbre de uma panturrilha, num colo disfarçado sob rendas.

A aparência desejável e sedutora era fundamental.

A acentuada diferença nos papéis matrimoniais não escapava aos mais observadores,

confirmando as impressões do sociólogo pernambucano: “quando o brasileiro volta da rua,

reencontra no lar uma esposa submissa, que ele trata como criança mimada, trazendo-lhe

vestidos, joias e enfeites de toda espécie; mas essa mulher não é por ele associada nem aos

seus negócios, nem às suas preocupações, nem aos seus pensamentos. É uma boneca, que ele

enfeita eventualmente e que, na realidade, não passa da primeira escrava da casa, embora o

brasileiro do Rio de Janeiro nunca seja brutal e exerça seu despotismo de uma maneira quase

branda”, dizia a professora francesa Adéle Toussaint-Samson.

O FETICHE MAIS SENSUAL

Não faltavam, na época, critérios de beleza. Partes do corpo sexualmente atrativas

designavam, entre tantas jovens casadoiras, as mais desejadas. Esses verdadeiros lugares de

desejo, hoje não fazem o menor sucesso. Do corpo inteiramente coberto da mulher, o que

sobrava eram as extremidades. Mãos e pés eram os que mais atraíam olhares e atenções

masculinas. Grandes romances do século XIX, como A pata da gazela ou A mão e a luva

revelam, em metáforas, o caráter erótico dessas partes do corpo. As mãos tinham que ser

longas e possuidoras de dedos finos, acabando em unhas arredondadas e transparentes. Os

pulsos, quanto mais finos melhor. Vejamos José de Alencar descrevendo uma de suas

personagens, Emília: “Na contradança as pontas de seus dedos afilados, sempre calçados nas

luvas, apenas roçavam a palma do cavalheiro: o mesmo era quando aceitava o braço de

alguém”. Não apenas os dedos eram alvo de interesse, mas seu toque e os gestos daí derivados

eram reveladores da pudicícia de uma mulher. O ideal é que estivessem sempre no limite do

nojo ou da repugnância por qualquer contato físico.

Pequenos, os pés tinham que ser finos, terminando em ponta; a ponta era a linha de mais

alta tensão sensual. “Faire petit pied ” era uma exigência nos salões franceses; as carnes e os

ossos dobrados e amoldados às dimensões do sapato deviam revelar pertencer a um

determinado grupo social, do interior do qual as mulheres pouco saíam, pouco caminhavam e,

portanto, pouco tinham em comum com escravas ou trabalhadoras do campo ou da cidade,

donas de pés grandes e largos. Os pés pequenos, finos e de boa curvatura, eram modelados

pela vida de ócio, emblema de “uma raça”, expressão anatômica do sangue puro, sem mancha