Histórias de Vovó Têca por Fellype Costa - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

 

 

 

Histórias de Vovó Têca.

..................

Fellype Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minha avó, assim como tantas outras avós mundo a fora, teve muitas histórias pra contar. Mas poucas histórias certamente influenciaram tanto a vida de um neto a ponto dele querer materializá-las num livro. As histórias que ouvi da minha avó contribuíram para a formação dos meus valores e para a visão que do mundo. Elas atravessaram décadas eu agora tenho o prazer de compartilhá-las

O que o leitor encontrará nas próximas páginas deste livro são, portanto, histórias contadas por Dona Terezinha, uma senhora amável, de vida simples, e que já ouviu e já viveu muitas coisas inusitadas, as quais tornavam menos dolorosos os sofrimentos da vida. Foram situações especialmente marcadas pelo trabalho infantil e pelos acontecimentos de pessoas que viveram numa época com outras crenças e outros costumes, superstições e relatos que, por vezes, nos dão uma aula da conservação de cultura. Comparadas as aventuras vivenciadas pelos jovens de hoje, imersos no mundo da tecnologia e da novidade, as aventuras vivenciadas pelas pessoas nos décadas de 40 e 50 eram contar histórias, criar superstições, deixar a vida menos monótona e previsível.

Eu vejo a importância de todas essas histórias que a mim foram contadas pelo fato de elas fazerem parte da minha vida desde muito cedo, no convívio com a minha avó. Fui criado por uma senhora que, antes de eu pegar no sono, enchia a minha imaginação com suas histórias bem contadas e bem vividas, as quais justificavam toda a sua trajetória de vida. Posso dizer, sem receio, que os melhores momentos da minha vida foram e sempre serão os dias em que pude ter minha avó ao meu lado. Por cuidar de mim, por realizar os meus caprichos, por ser honesta em todos os momentos, por me amar como seu eu fosse o seu filho (e eu era mesmo), é que eu posso dizer que tive a melhor avó do mundo. Lembro-me como se fosse hoje o seu olhar de ternura a me admirar “Como você cresceu, meu neto! Tornou-se um homem.” e suas incansáveis declarações: “Eu sou mãe duas vezes. Sou sua mãe por ser mãe da sua mãe e sou sua mãe por ter lhe criado”, dizia inúmeras vezes, como que insistindo naquilo que eu jamais deveria esquecer.

Jamais me esquecerei dos momentos em que a senhora vinha até meu quarto, em passos leves e com aquele jeito meigo, pedindo que eu lhe fizesse companhia, pois só estávamos nós dois em casa. Sou eternamente grato por essas noites, minha avó, em que pude ouvir suas lições de vida e seus conselhos valiosos, que eu levarei por toda a vida.

Ofereço este livro à senhora, voinha, que agora vive no plano espiritual, mas que está eternizada em meu coração.

 

 

Fellype Costa,

30 de janeiro de 2013, Palmeira dos Índios-AL.

 

 

 Sua Infância

 

Desde muito cedo minha avó teve que trabalhar para ajudar os seus pais, que tinham pequenas roças de algodão, milho e feijão. Os meus bisavós sempre viveram em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas. No início da década de 20, o sustento das famílias dessa região era retirado dessas plantações, onde todos da família se uniam para ajudar na hora da colheita. E foi nesse meio que nasceu minha avó.

Terezinha Cavalcante de Oliveira, que mais tarde passou a ser chamada de “Têca”, filha de Seu Antônio e da Dona Júlia, nasceu em 10 de setembro em 1927.  Nessa época ela já tinha duas irmãs, Maria Cavalcante e Josefa Cavalcante, vindo alguns anos depois Maria José Cavalcante, Dalva Cavalcante e Antônio Cavalcante. Todos eles começaram a trabalhar antes mesmo dos doze anos.

Era a infância que cedia lugar à vida de adulto. Minha avó, além de ter trabalhado na roça durante toda a adolescência, foi também piniqueira, como eram chamadas as jovens que trabalhavam como domésticas nas casas das senhoras (esposas dos homens de negócio). O nome fazia referência aos penicos que as jovens pela manhã retiravam debaixo da cama de seus patrões.

Terezinha sofreu muito preconceito por realizar esse tipo de trabalho, já que para a sociedade daquela época quem fazia essas coisas não merecia respeito, dado que era um trabalho para quem não tinha família. Mas Terezinha tinha família, apesar de precisar de uma ocupação para ajudar no sustento em casa.

Ela e seus irmãos tiveram apenas alguns poucos anos de estudo. Frequentaram os grupos, na casa de professores que se interessavam em ensinar aos mais novos sem receber nada em troca. Aprenderam a ler, a escrever um pouco e a fazer contas. Depois abandonaram a escola. Naquele tempo só podia permanecer na escola os filhos de pais ricos. E tanto que Terezinha desejava ir à escola, aprender o ofício de professora e brincar de quebra-pote nas festas de São João. Mas tudo isso estava distante da realidade de quem ainda criança era obrigada a ter responsabilidade com a casa e com a família.

 

 

 

 

 

                                          

 

Seu Casamento

 

Vovó casou-se com Cícero Ferreira de Lima, aos 17 anos, “sem saber nada da vida”, como ela mesma dizia.

Cícero nasceu em 1920, na cidade de Anadia-AL e foi o primogênito do casal Pedro Ferreira de Lima e Maria Antônia Ferreira de Lima. A família veio para Palmeira dos Índios em 1937. Com apenas 17 anos de idade, Cícero arranjou o seu primeiro emprego numa rede ferroviária. Depois de quatro anos foi trabalhar no armazém Carnaúba, cujo emprego deu-lhe o título de Cícero Carnaúba e fez-lhe conhecer Terezinha.

 Aprendeu as primeiras letras com a mãe, mas depois foi matriculado numa escola particular, onde fez todo o ginásio. Seu professor, o Mestre Salu, cansava de elogiar-lhe, dizendo que ele tinha futuro com as letras, pois escrevia belíssimas poesias.

Aos 17 anos já o consideravam poeta. Carnaúba escrevia versos que homenageavam sua região. Mais tarde escreveu poesias que valorizavam a família e os bens materiais que ele sonhava em deixar para os filhos. Uma de suas poesias até falavam de uma época em que o Nordeste estava com seus rios cheios e o Sul vivenciando uma crise provocada pela seca. A poesia ressaltava essa contradição:

Chove em todo o Ceará                                         Estamos cumprindo a profecia

As pasagem é uma beleza                                     Do Padre Cícero Romão

Só se ver peixe saltando                                        Ele sempre dizia

Nas águas da correnteza                                       Novos tempos virão

E mudou-se para o Sul                                           Do Sertão virá Sul

Toda a nossa probreza                                           E o Sul Virá Sertão.

 

A sêca La no Sul

Esta um caso feio

E aqui no Nordeste

Todos os rios estão cheio

Arado de boi cortando terra

E a roda passando no meio

 

Minha avó morava em frente ao Armazém Carnaúba e, todas as vezes que saía de casa, acompanhada da mãe e das irmãs, percebia os olhares do rapaz ,que cumprimentava-lhe tirando o chapéu.

Dias depois do primeiro cumprimento meu avô começou a enviar-lhe poemas de amor. A primeira reação de Terezinha foi de surpresa. Como o poeta não se identificou , ela tinha como suspeita mais de cinco rapazes. È que Terezinha foi muito paquerada na sua juventude, e os rapazes eram doidos para ter compromisso com ela, que ao contrário de suas irmãs, não sonhava em sair da casa dos pais para viver com um desconhecido.

 Cícero já havia sido casado e tinha uma filha. Contava apenas 21 anos quando sua dona se apaixonou por um caminhoneiro e fugiu com ele. Cícero estava à procura de outra esposa, que de preferência não o abandonasse. Começou a cortejar minha avó, mandando-lhe, todos os dias, poesias de amor. Foram necessárias inúmeras poesias para conquistar a moça, que até então nunca tinha se apaixonado.

Depois de identificar-se como o autor das poesias, pediu a mão da moça em casamento. Terezinha disse que ele teria de falar com seu pai, o seu Antônio, pois só poderia namorar se ele permitisse. O Seu Antônio, vendo que o rapaz tinha boas intenções, além de ser um exímio trabalhador, aceitou.

Minha avó ainda hesitou, pois ele já havia sido casado, tinha vivido muita coisa, e ela não. Como seria casar? Como seria casar com um homem que já fora casado e ainda por cima tinha uma filha? Mas ela não podia negar que estava encantada com aquele poeta de olhos azuis. Meses depois da primeira poesia de amor, casaram-se.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seus 25 Filhos

 

Vinte e cinco filhos! Não foram cinco, nem dez, nem quinze, nem vinte, nem vinte e quatro. Foram vinte e cinco. Todos se admiravam quando ouviam minha avó dizer que tinha tido essa enorme quantidade de filhos. E se entristeciam quando ela contava que somente nove vingaram.

Todos os partos normais, sem nada de pré-natal, sem nada de repouso ou qualquer tipo de acompanhamento médico. Tudo isso é coisa dos tempos de hoje, dizia minha avó. E dizia numa tristeza de dar dó. Dezesseis de seus filhos morreram sem nem chegarem a chorar pela primeira vez. Morreram ainda na barriga, por complicações que hoje são detectáveis com a ultrassografia. Sem os cuidados necessários, o menino simplesmente não vingava. Não existiam medicamentos, não existiam prevenções. Cada criança que nascia morta levava embora uma parte de Terezinha.

Não era fácil aceitar tudo isso sem se lamentar pelas crianças que não cresceriam. Se a dor física era muito forte, imagine a dor psicológica. Se para aquela não havia medicamentos, para essa é que não existia mesmo. Se existisse, fosse talvez a vida do próximo menino, pois era uma festa quando o filho vingava. E eles eram quem davam forças para a minha avó trabalhar e ter o que dar-lhes de comer.

Enxoval era coisa de rico. As roupas das crianças maiores ficavam para as menores, nada se perdia. Quando uma roupa rasgava, minha avó imediatamente a remendava, assim como ela se via obrigada a remendar a sua dor do filho que não nascia. E os irmãos mais velhos que cuidassem dos mais novos. Terezinha, ainda de resguardo, ia para a roça colher algodão para depois vendê-lo com o marido. Era disso que viviam naquela época. O dinheiro adquirido com a venda de algodão garantia o alimento na mesa. Mas não garantia divertimento e nem roupas novas para as crianças. Meu avô não gastava dinheiro com brinquedos e nem com roupas. Mas quando o remendo já não dava conta das roupas, era preciso fazer alguma coisa. E minha avó fazia. Uma vez ela teve de tirar dinheiro do bolso da calça do meu avô para comprar algumas roupas para os filhos.

“Que Deus me perdoe se o que eu fiz foi errado!”, dizia todas as vezes que contava esse episódio. De tão honesta que era, atormentava-lhe o fato de ter feito coisas sem o consentimento do marido. “A senhora fez o certo, não poderia deixar os seus filhos andarem nus”, dizia eu, numa tentativa de mostrar para ela que tudo o que ela tinha feito havia sido por amor.

 

 

 

 

Uma vara e meia

 

Contava-me minha avó que, certo dia, um homem foi à cidade para comprar tecido, queria mandar fazer uma camisa para usar no seu noivado. Dedé, um homem de mais ou menos cinquenta anos, estava ansioso para o tão esperado dia de seu casamento. Já que nunca mandava fazer roupas novas, dessa vez não queria economizar dinheiro e, por isso, resolveu fazer não uma, mas duas ou três camisas, no intuito de impressionar sua noiva Lili.

Lili era uma jovem, menina ingênua, assim como eram as moças daquela época. Era comum o casamento de homens maduros com mocinhas ainda na flor da idade. Não existiam informações sobre sexo e gravidez, portanto a moça não podia falar sobre essas coisas e muito menos fazer perguntas indevidas. A maioria delas casava inexperiente, sem nunca terem ouvido explicações do pai sobre a primeira noite que passariam ao lado do marido.

Dedé foi até a loja e chegando lá pediu três varas de tecido. Como a vara tinha um metro e era utilizada para medir o tecido, a funcionária logo entendeu que ele queria três metros para assim fazer duas ou três camisas. Satisfeito com a compra, o homem passou na costureira e deixou um metro e meio do tecido para que ela lhe fizesse a camisa do noivado. Os outros um metro e meio Dedé levou até casa da noiva no intuito de mostrar-lhe que bonita ficaria a camisa que ele usaria no casamento. Prossegui caminhando até a casa de Lili.

Aconteceu de os pais de Lili terem saído e a deixado em casa com as portas trancadas. Era comum os pais fazerem isso, acreditavam que assim estariam protegendo a filha até o dia do casamento. Pensavam eles que se não fizesse desse jeito a moça sairia para encontrar-se com o seu futuro noivo e acabar entregando-se a ele antes do casamento. Tudo tinha de ser feito para preservar a honra da filha. Mas faltavam apenas alguns dias para o noivado e Dedé queria, a todo custo, impressionar a moça. Então não conseguiu esperar para o outro dia e, ao ver a porta trancada, contou a novidade ali mesmo pela brecha da porta.

- Minha futura noiva, advinha de onde eu venho?

- Sei não, meu futuro noivo. Me diga!  

- Adivinhe! Vou dar uma dica: tenho aqui uma vara e meia, gabando-se, falou Dedé.

- Uma vara e meia?  - Assustada, perguntou Lili, que pensou ser uma daquelas coisas que ela só poderia ver depois do casamento.

- Sim, minha noiva, uma vara e meia, repetiu Dedé.

- Mas e é tão grande assim?  Retrucou a moça, mais assustada ainda.

- Oxe, se é. E ainda deixei uma vara e meia bem ali.

- Oh meu Deus! È muito grande, meu noivo. Nunca que eu podia imaginar. Assim é demais pra mim! Quero mais não. Eu aqui imaginando uma coisa menor que meia vara e você vem me dizer que tem três varas? Vou ficar solteira o resto da vida. Suma da minha porta!

E dizendo isso Lili  começou a chorar. Correu para o seu quarto, assustada com o que tinha acabado de ouvir. Três varas? Ela jamais suportaria aquilo. Sem entender nada, Dedé ficou ali parado na porta de sua futura noiva, tentando imaginar o que  havia feito de errado. Será que ela não queria que ele gastasse dinheiro com tecido? Ou será que ele tinha comprado tecido demais? 

Confuso e cabisbaixo, Dedé seguiu para casa. Via-se na rua aquele homem tristonho, com uma vara e meia de tecido na mão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O soldado

 

Vovó Têca sempre teve medo dos soldados. Dizia que a aparência de homem sério e próprio cargo de autoridade que eles ocupavam assustavam-na. Quando menina, ela não podia ver um soldado que, no automático, já saia correndo.

Certa vez, em sua mocidade, ela decidiu chegar perto de um dos soldados que sempre passavam em frente a sua casa. Pretendia chegar bem perto pra ver se ele realmente fazia medo ou se por trás daquele uniforme, de repente, existia o homem dócil. Mesmo morrendo de medo por dentro, decidiu ir de encontro ao soldado.

Numa manhã de verão estava ela tirando manga no pé do quintal de casa para vender na feira, pensando no que ia perguntar ao soldado. “Por que o senhor é tão sério?”, “ Sem essa roupa, o senhor é um homem normal?” “Eu tenho medo do senhor, sabia?”. Quanta coisa ela queria dizer a um simples homem que apenas estava exercendo o seu ofício!

Foi então que Terezinha arrumou as mangas no balaio e pegou o caminho por onde sabia que viria um dos soldados, que àquela hora estaria fazendo suas caminhadas diárias. Assim que virou a esquina para chegar a feira, que ficava perto do quartel, ela avista o homem sério de roupa verde com marrom marchando militarmente em sua direção. Ele estava acompanhado de mais dois rapazes, todos usando o mesmo uniforme e sem conversarem entre si. Eles vinham tão sérios que parecia estarem vindo a serviço de prender a moça do balaio de manga.

Ela sentiu o coração palpitar as pernas tremerem. Estava disposta a sacudir aquele balaio de manga em cima dos três soldados, caso eles quisessem prende-la. Os homens estavam cada vez mais se aproximando. O que ela faria? Saia correndo ou enfrentaria os três? Se eles a prendesse, o que ela diria a seus pais? Mas ela era tão pequena perto daqueles grandalhões.

Não contou histórias e muito menos fez perguntas. No impulso de quem acreditava que seria pega, ao ver os três soldados se aproximarem,  sacudiu o balaio cheio de mangas na rua e voltou correndo para casa. As mangas- rosa e bem maduras rolaram soltas pelo chão.

Ao verem aquela cena, aqueles três soldados, que já tinham planejado assustar a moça, caíram no riso, juntaram as mangas no balaio e continuaram a sua caminhada.

- Como é fácil roubar mangas das mocinhas ingênuas, comentaram em tamanha gargalha.

 

O Filho que foi estudar na capital

 

Era com lágrimas nos olhos que minha avó contava essa história. Relembrar aquele fato apertava-lhe o coração. “E hoje ainda reclamam”, lamentava ela, assim que chegava ao fim da história, da triste história.

Terezinha e os seus nove filhos moravam todos em Palmeira dos Índios, e tinham uma vida simples, marcada pelo trabalho e pela monotonia do dia a dia. Um dia, porém, seu filho Lula decidiu estudar Engenharia Civil na Capital.

E a história foi essa: O Lula passou no vestibular e foi morar em Maceió. Na época, as coisas estavam muito difíceis para a família, e o que ela e o que marido poderiam dar de ajuda ao meu tio era muito pouco, suficiente apenas para ele pagar o aluguel de um quartinho. Mesmo com o surgimento das primeiras dificuldades, o Lula não desistiu do seu sonho e, mesmo depois de muito os seus pais dizerem que não poderiam arcar com todas as despesas que ele enfrentaria, resolveu ir embora.

Chegando lá, ele foi procurar um lugar para morar, um lugar que ele pudesse pagar com a ajuda que receberia. Achou o local, mas não achou meios de fazer todas as refeições. Fazia-as como dava, com o dinheiro que conseguia com pequenos serviços de limpeza num mercado que ficava em frente ao seu quartinho.

Aconteceu que Lula começou a estudar de manhã e a trabalhar no mercado todas as tardes, incluindo os finais de semana. Mas seu salário era tão pouco que ele passava tamanhas necessidades, até chegar ao ponto de, em determinado momento, não ter o que comer. Além da alimentação, tinha que pagar as passagens de ônibus até a faculdade e as apostilas necessárias para as aulas.

 E era essa parte da história que mais doía o coração da minha avó. Era impossível não se sensibilizar ao ver a dor de um mãe que chorava ao relembrar das dificuldades enfrentadas pelo seu filho. “Como se não bastasse o fato dele estar longe da gente”, lamentava ainda mais.

Começou a estudar o lula, e as dificuldades só aumentaram. Ele vivia pedindo adiantamentos a seu patrão para pagar as apostilas e as passagens. A parte da comida ficava como preocupação secundária para aquele homem que queria ser alguém na vida e dar muito orgulho a sua família.

Então não foram raras as vezes que meu tio ficou sem comida. E eu sentia muito quando ouvia isso da minha avó. Sentia porque hoje as coisas estão mais fáceis, as condições para os estudantes são mais favoráveis e as Universidades dispõem de bolsa-trabalho para os alunos. Mas há trinta anos esse tipo de auxilio era raro.

Nessa vida de correria e refeições mal feitas, meu tio adoeceu. Ele pegou uma gripe forte e precisava, pelo menos durante os dias em que ficasse acamado, alimentar-se. Foi então que um anjo apareceu na sua vida.

Uma senhora, a Dona Diva, que também morava em Maceió estava de passagem por Palmeira dos Índios e resolveu visitar sua grande amiga Têca. Depois de todos os cumprimentos, minha avó contou-lhe que seu filho Lula estava estudando na Capital, e que tinha acabado de ligar dizendo que estava perdendo aula e trabalho porque mal podia levantar-se da cama. Dona Diva disse que ela não se preocupasse, que apenas lhe desse o endereço do quartinho de Lula que ela fazia questão de ajudar-lhe. No outro dia, ao chegar a Maceió, Diva foi atrás de Lula. Encontrando-o moribundo levou-o até sua casa, deu-lhe comida, deu-lhe remédio, como se ele fosse o seu próprio filho. Lula se recuperou e ficou morando na casa de Dona Divã até o último ano de faculdade, quando conseguiu um estágio numa construtora.

“Que mulher boa!”, “ Eu devo tanto a ela”, “Eu nunca vou esquecer do que ela fez pra mim”, “Dona Diva foi um anjo”, era assim que minha avó relembrava aquela história triste mas de final feliz. Talvez esse fosse o motivo dela dizer que, quando a gente mais precisa, Deus manda um anjo vir cuidar da gente.

-Sim, minha avó, anjos existem. – Tenho certeza que, no lugar de Dona Diva, a senhora faria o mesmo – dizia eu, na tentativa de confortá-la e fazê-la perceber que aquele episódio tivera um final feliz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dia em que o feijão faltou

 

Minha avó sempre dera uma importância fora do comum à comida. Para ela, numa casa poderia faltar tudo, menos o feijão e a farinha. E ela repetia sem cessar que “dinheiro aqui em casa não tem, mas comida nunca falta”. Até que um dia o feijão faltou.

Dona Terezinha sempre fora uma mulher humilde e caridosa, uma sensibilidade que ultrapassa os limites do considerado normal. Não podia ver alguém pedir esmola que já oferecia um prato de comida, feliz por poder ajudar aos outros. E as pessoas ficavam agradecidas até demais pela bondade dessa senhora que, apesar de nunca ter possuído riquezas, não pensava duas vezes antes de dar de comer ao desconhecido necessitado que por ela passasse.  

Todos os dias, ainda de manhã, o marido de Terezinha mandava-lhe feijão e farinha fresca comprados da roça vizinha a que ele trabalhava. O feijão faltou num dia em que meu avô mandara apenas o necessário para dez pessoas, pois parte do dinheiro ele usaria para, quando saísse da colheita de algodão, comprar material de construção para erguer o muro de sua casa. Assim, a comida estava contada para Terezinha e os seus filhos. Alguém que chegasse pedindo comida naquele dia, sairia de barriga vazia.

Se minha avó soubesse que alguém com fome bateria à sua porta, certamente ela teria dividido o pouco do pouco que o marido havia mandado. Como a comida sempre sobrava, ela sabia que se chegasse alguém sairia de lá satisfeito. Só que nesse dia a comida foi-se embora sem ela nem perceber.

Contou minha avó que nesse dia, quando todos tinham acabado de comer, bateu à porta um cidadão. Ela nem precisava ir perguntar o que era, quando um desconhecido batia à sua porta das duas uma: ou era má notícia ou era comida. E se fosse má notícia, o senhor, por ter tido o trabalho de se dirigir até a casa dela, sairia de lá de barriga cheia. Sairia somente se a comida tivesse sobrado.

Após o homem de meia idade, magro e de olhos fundos, perguntar-lhe se ela por acaso não poderia dar-lhe um prato de comida, pois fazia horas que ele caminhava à procura de um emprego, Terezinha mandou-o esperar e foi até as panelas  fazer o prato do senhor. Ao dar conta de que não havia mais feijão, mas somente uma cuia de farinha, o que não era suficiente, já que ninguém conseguia ficar satisfeito apenas comendo farinha, ficou desesperada. “Isso nunca me aconteceu antes”, “eu nunca fiquei sem ter o que dar de comer pra alguém que tivesse com fome”,  queixava-se a senhora que dessa vez iria ser obrigada a quebrar o seu ritual.

Dirigindo-se até a porta, apenas com uma cuia de farinha na mão, e com o olhar de quem havia perdido um filho, esticou a cuia para o homem e disse: - Meu senhor, hoje eu só tenho isso para lhe oferecer.

E o senhor, com o olhar de quem tinha perdido todas as esperanças, ergueu a mão, agradeceu, abaixou a cabeça e seguiu.

- Volte amanhã, senhor – Disse minha avó, que em seguida entrou em casa para lamentar-se pelo que acabara de ocorrer.

 

 

 

 

 

 

 

 

A Vassoura espanta gente

 

Há muitos anos, estava minha avó, num dia daqueles de agitação em casa. Meninos para cuidar, casa para arrumar, roupa para lavar, era muita coisa para se fazer naquele dia que já estava começando. Sem poder imaginar que suas tarefas seriam interrompidas por visitas inesperadas, às cinco da manhã Dona Terezinha colocou o café para ferver.

Foram duas  comadres da minha avó que vieram de um Sítio lá no Coité do Noia. Elas disseram estavam passando pela frente da sua casa e resolveram fazer-lhe uma visitinha. Visitinhas essa demoradas, e ainda por cima cheias de bagagens. Foram decididas a passar alguns dias. Dona Terezinha conta que levou o maior susto quando viu suas duas comadres, acompanhadas de três meninos cada uma, baterem à sua porta. Susto ainda maior levou quando reparou nas bagagens que elas traziam. “Não é possível, meu Deus!”, pensou.

É que naquela época as pessoas não tinham como avisar quando iam visitar algum parente. As visitas de dois, três, quatro dias, num pretexto de que estavam só se estava de passagem, era comum . Uma mulher como a minha avó não seria capaz de expulsar aquelas comadres que, mesmo de longe, eram seus parentes. Mas ela também não poderia deixar que eles se hospedassem em sua casa por mais de um dia, pois, já conhecendo a comodidade desse povo, se ela permitisse, eles passariam mais de um mês em sua casa.

Foi então que ela decidiu expulsá-los por uma via indireta. Decidiu seguir uma antiga e comum crença vigente naquela época: colocar uma vassoura atrás da porta. Ela acreditava fielmente na veracidade desse ato. Enquanto as duas comadres se acomodavam na casa, sentando-se à mesa e indo até a chaleira servir-se de café, minha avó foi até o quintal, pegou a vassoura e começou a varrer a casa. Ela não podia colocar a vassoura atrás da porta indiscretamente, assim as comadres entenderiam a sua intenção.

Após fingir varrer a casa, pôs a vassoura atrás da porta de entrada da casa, que ela deixara aberta para reforçar o efeito que esperava. As comadres, danadas a conversar sobre a viagem, sobre o preço das verduras que elas tinham vindo comprar na feira, que nem perceberam. Minha avó voltou até a mesa, sentou-se e danou-se a conversar com as duas mulheres senhoras.

Depois de uma hora de conversas sobre o preço das coisas, sobre conhecidos que se mudaram para a cidade grande e sobre as fofocas de Dona Felicidade, uma senhora feirante que sabia da vida de todo mundo naquela cidade, minha avó entrou num assunto misterioso: começou a falar para as comadres sobre uns barulhos estranhos que ela tinha ouvido na noite anterior, barulhos que pareciam ser vindos de um lobisomem arranhando a sua porta. Naquela época era comum a crença em lobisomens e em mocinhas que, por agredirem suas mães, viravam bicho e outras histórias que atormentavam toda a população.

Depois de ter relatado o fato, ela levou as duas comadres, acompanhadas dos seis meninos, até a porta, passando pela vassoura apoiada na parede, para mostrar a prova do que ela estava falando. A porta estava cheia de arranhões profundos. As comadres ficaram estupefatas ao, com os olhos arregalados, examinarem os arranhões.

Voltaram até a mesa e continuaram a tomar o café e a conversarem. Até que uma das comadres disse que voltaria à feira para dar um recado importantíssimo que uma conhecida sua do Coité mandara dar a Dona Felicidade. A outra comadre reforçou a ideia dizendo que também precisava voltar à feira para comprar a abóbora do doce do marido. Minha avó sentiu que a vassoura atrás da porta tinha surtido efeito.

As comadres pegaram suas sacolas e seus filhos, agradeceram pelo café e foram embora. “Graças à vassoura”, disse Dona Terezinha. Graças a vassoura ou a história do lobisomem? Não, graças à vassoura, afirmava numa certeza que ninguém duvidava. E não adiantava questionar, a vassoura espantou aquelas visitas inesperadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é conversa de gente besta

 

 

“Pobre do meu primo, morreu porque comeu pirão de depois bebeu água gelada”, lamentava-se minha avó sempre que contava essa história.

Silveira, um senhor de mais ou menos sessenta anos, costumava comer pirão e em seguida beber um copo de água. O pirão era servido especialmente para os homens que passavam a tarde toda trabalhando na roça; um alimento forte, saboroso, mas que não é capaz de matar ninguém.

Entretanto, a minha avó e maior parte da população de Palmeira dos Índios dos anos setenta acreditava que um copo de água após um prato de pirão era fatal. Quem fizesse isso, morreria minutos após. Era o mesmo que cometer suicídio.

Seu Silveira fazia parte da minoria que acreditava que isso era “conversa de gente besta”. Essas conversas não lhe metiam medo, o que fazia com que ele comesse o pirão e em seguida bebesse, com todo o gosto, a água. Até que um dia, logo após realizar o seu ritual, o homem fora encontrado morto no chão da cozinha de sua casa.

Foi o maior alvoroço quando o amigo que todos os dias ia com ele para o trabalho, depois de tanto chamá-lo, entrou na casa e o encontrou morto. Silveira era solteiro e não tinha filhos, um homem de poucos amigos e que gastara o seu tempo colhendo algodão embaixo do sol, sem alimentar-se direito, com uma saúde deveras comprometida. Ele morava a uns vinte minutos da casa da minha avó, tempo que ela gastou de quando soube do acontecido até chegar a casa do primo. Era preciso que alguém descobrisse a causa da morte.

Chegando na casa do primo, minha avó reparou na mesa o prato com restos de pirão e o copo com água pela metade. Não contou história e foi logo juntando as coisas.

- Tanto que eu disse ao meu primo...

Parece que a partir desse dia ninguém mais ousava dizer que o que a minha avó tanto dizia era conversa de gente besta. E ai de que dissesse que o Silveira tinha morrido por causa de um infarto.

 

 

 

 

Rasga Mortalha

 

De todas as superstições que minha avó teve, a da Rasga-mortalha era a que mais a amedrontava. Se ela ouvisse o canto da coruja, podia jurar que no dia seguinte um parente ou conhecido seu morreria.

A coruja, mais conhecida como rasga-mortalha tinha justamente esse nome por que o seu canto significava agouro dos fortes. Minha avó não duvidava disso. E ela dizia ter os devidos fundamentos que validassem sua crença. Não, ela nunca aceitou a ideia de que a pássaro que previa a morte era apenas uma de tantas outras superstições.

 O fato é que em Palmeira dos Índios, como em outras cidadezinhas do interior de Alagoas, são comuns as notas de falecimento. Os familiares do falecido contratam um carro de som para andar pelas ruas comunicando quem foi o fulano que morreu, como ele era mais conhecido, o nome do pai, da mãe, dos filhos (se tivesse) e outros parentes.

E não tinha um dia que o carro de som não passasse nas ruas da cidade para anunciar a morte ou missa da morte de algum conhecido da minha avó. Conhecido sim, porque Terezinha podia jurar que sabia de quem se tratava naquele anúncio que estava passando. “Eita, Dona Margarida, aquela minha vizinha na época em que eu era solteira, morreu”, “Seu Jorge, aquele senhor que trabalhou com Cícero, faleceu”, dizia. Ela ouviu muitas notas de falecimento em toda a sua vida, o carro de som passava em frente a sua casa. Quase todos os dias morria gente na cidade, e o carro de som danava-se a anunciar. Quando não era morte, era o convite para a missa de sétimo dia, do primeiro mês ou do primeiro ano de falecimento.

Dona Terezinha tinha uma espécie de obsessão pela rasga-mortalha e pelo carro de som. Quando este passava na rua, com o anúncio: “Nota de falecimento. Convite.” ela interrompia qualquer atividade para correr até a janela e ouvir mais de perto que acabara de morrer. Quando o anúncio era de missa, ela simplesmente sacudia os ombros, decepcionada pelo aviso da coruja não ter sido confirmado. Mas isso não significava que a previsão tinha falhado, pois naquele dia ainda haveria morte, por mais que o carro de som não anunciasse, já que nem todo o mundo tinha condições de pagar o anúncio.

Para ela a rasga-mortalha anunciava a morte dessas pessoas de graça. Se o carro anunciava com o som, o pássaro anunciava com os gritos, e aquele servia apenas para confirmar este. E ai de quem dissesse ser mera superstição! Ela não aceitava que assim como o carro de som passava todos os dias, o pássaro também cantava todos os dias, sendo isso tudo apenas coincidência. Sua lógica prevalecia qualquer outra explicação racional. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A moça que virou bicho

 

Algumas crenças acompanharam a minha avó por toda a sua vida. Mas outras ao longo do tempo foram deixando de fazer parte de suas dia-a-dia, coisas que nos tempo do hoje ela já não mais acreditava que pudesse acontecer.

Antigamente algumas pessoas acreditavam que moças que agrediam os seus pais transformavam-se em bicho. E a minha avó contou que no passado contaram a ela um caso desses. Uma moça tinha virado bicho.

Foi o que aconteceu com Maria Anunciada, uma jovem que de tanto ser desobediente e agressiva com seus pais, virou bicho. A moça que só queria saber de viver nos festivais, vivia a desrespeitar a sua mãe, levantar-lhe a voz e ameaçar deixar-lhe vivendo sozinha, já que só eram as duas em casa.  Por mais que ela lhe dissesse “Maria Anunciada, não responda a sua mãe, se não você vai virar bicho, menina” ou “Anunciada, filha que não escuta a mãe um dia se arrepende e não vai ter mais jeito”, por mais que sua mãe lhe deixasse de castigo, por mais que apanhasse Anunciada só sabia ceder aos seus próprios caprichos.

Namoradeira, a moça dizia estar cansada de ser privada de sair de casa e que se, sua mãe não permitisse que ela saísse com as amigas à noite, ela fugiria de casa. Dona Emília não acreditava nessa história, pois a filha de doze anos não tinha para onde ir. E vivia a ameaçá-la, dizendo que se ela saísse escondido de casa, quando chegasse ia ficar roxa de tanto apanhar.

Então a proibiu de sair de casa. Quando precisava ir à feira, deixava porta trancada e levava a chave. Ela acreditava que fazendo isso estaria guardando a filha antes do casamento. Mas Maria Anunciada não queria se guardar, nem tão pouco casar. Queria mais era mudar-se para uma cidade grande, arrumar um emprego e aproveitar a juventude. A mãe ficaria bem, e ela escreveria cartas para mandar notícias.

Anunciada não contou história e, num dia de festa na cidade, quando percebeu que sua mãe tinha se recolhido para dormir, pegou suas trouxas de roupa, pulou a janela e fugiu.

Depois desse dia ninguém mais teve notícias de Maria Anunciada. Para os vizinhos, os ouviam todo o bate-boca de mãe e filha, a moça tinha fugido de casa. Para sua mãe, ao contrário, a filha não tinha fugido de casa, a filha tinha virado bicho, e que por isso mesmo nunca mais veria Anunciada.

- Minha filha virou foi uma cachorra doida a vagar pelas ruas da cidade. Minha filha, que tanto desgosto me deu, agora é a cachorra da Palmeira. Isso acontece com moças que não escutam seus pais – dizia Dona Emília para todos que perguntavam do paradeiro de Anunciada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vocabulário de Antigamente

 

Antigamente as pessoas falavam certas palavras e expressões cujo significado só existia para elas. Tais palavras, com o passar dos tempos, entraram em desuso, sumiram junto com os seus falantes.

Minha avó não sabia quem as havia criado, mas conhecia muito bem quem as falava, o que essas palavras e expressões queriam e qual o contexto em que deveriam ser faladas.

“Sinha Égua” era uma expressão adjetiva de cunho pejorativo utilizado para denominar meninas traquinas. “Sinha” vem de “Sinhá”, pronome de tratamento de antigamente; “égua” está relacionado ao animal, mas quando ainda não adestrado. A menina traquina, então, precisava ser adestrada para deixar de ser chamada de sinha égua.

“Istopô balaio” era uma interjeição. Minha avó contou que dizia muito isso. Quando menina, ao deparar-se com um soldado, derrubou um balaio de manga e “Istopô balaio!”. Será que essa expressão era só dela?

“Baluarte” é uma palavra dicionarizada. Significa “lugar seguro”, “fortaleza” e era utilizada nesse contexto. Palavra bonita, viram-na pela primeira vez na Bíblia, numa passagem que diz “ O Senhor é o meu Baluarte”.

E tantas outras palavras e expressões formavam o vocabulário de pessoas que viveram numa época diferente, de um português rico de expressões regionais, as quais tinham um significado singular, onde só aquele grupo de pessoas do interior pareciam saber.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Significado dos Sonhos

 

Distante das interpretações dos sonhos segundo Sigmund Freud, antigamente os sonhos era interpretados de acordo com a lógica de quem sonhava. Algumas interpretações ficaram conhecidas e, por coincidência, quando elas batiam com a situação, tornavam-se um fato.

Minha avó que o diga. Nunca deixou de atribuir significado aos sonhos, fundamentando-se  em fatos de antigamente. Fulano sonhou com X e Y aconteceu, então acreditava que X implicava Y sempre, por mais que isso não acontecesse. Seguem-se alguns temas de sonhos e os seus significados, divididos em sonhos bons e sonhos ruins, respectivamente.

Festa de Casamento: Bom sonho, quem sonhasse com festa de casamento podia estar certo que haveria uma grande surpresa na família.

Roça (colhendo): Prosperidade. Quem sonhasse colhendo na roça, certamente teria um dinheiro extra no final do mês.

Mãe ou pai: Alguém importante apareceria. Sonhar com a mãe ou com o pai significava que um parente ou amigo muito distante reapareceria.

Chuva: Quem sonhasse com chuva poderia ter certeza que Deus mandaria chuva de bênçãos ou abençoaria a colheita para que ela rendesse mais.

Parto: O sonho com o parto, a mulher estando grávida, significava que o seu filho vingaria. Se isso não ocorresse, a mulher teria tido outro sonho depois deste, que então anunciaria que o filho não vingaria.

Coco: Dinheiro. Quem sonhasse com coco humano, ganharia algum sorteio ou receberia aquele dinheiro há muito esperado .

Sapatos: Sonho ruim. Sonhar com sapatos significava que algo de muito desagradável aconteceria na família, mas não necessariamente morte. Talvez fosse a descoberta de uma doença.

Lavar roupa: Esse sonho era o mais temido, pois significava morte. Quem sonhasse lavando roupa um amigo ou um parente morreria em breve. Esse sonho era como o canto da Rasga Mortalha, que anunciava uma morte iminente.

Mudança: Morte ou Doença. Passagem de uma condição de felicidade para infelicidade.

Visita: Esse sonho poderia ser bom ou ruim. Sonhar com visitas seria o mesmo que ou preparar-se para um funeral ou para uma grande festa pois as famílias se reuniam ou em festa ou em morte.

Cobra: Intrigas.

Boneca de pano: Quem sonhasse com boneca estava sofrendo os efeitos de uma macumba.

E não houvesse quem discordasse de tais interpretações. Os sonhos eram um dom de Deus, que se preocupava em preparar seus filhos para grandes felicidades ou grandes infortúnios. Os sonhos, portanto, não falhavam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulher sofredora pela falta de amor do marido.

 

Ou casava ou fugia a irmã mais nova da minha avó. Dalva desde criança era conhecida por ter um “gênio difícil”, quando queria muito uma coisa era capaz de fazer as coisas mais improváveis possíveis. E ela queria aquele casamento, custasse o que custar.

Seu Antonio, que já não mais aguentava a insistência da filha para casar com aquele homem gordo e trabalhador, permitiu o casamento. Ele já não tinha mais escolha, não queria ver a filha fugir de casa de viver no pecado. Se ele não queria que Dalva casasse, era porque previa o futuro infeliz que ela teria.

E foi infeliz aquela pobre mulher, que aguardava ansiosa uma vida feliz ao lado do marido. Não podia imaginar que por trás daquela aparência de herói, Renalvo escondia a covardia de um homem que a levaria a dias difíceis, marcados pela dor da rejeição de um amor que nunca existiu.

Apanhava, e não era pouco. Na vida deles os dias transcorriam na mais perfeita infelicidade. Não existia diálogo, não existia igualdade, não existia um dia de sossego naquela casa.  O Marido passava dias vadiando na rua e a mulher ficava em casa cuidado do único filho que vingou, o Luiz. Foram anos vivendo desse modo.

Luiz era um rapazinho de olhar triste e de marcas de surras pelo corpo. Assim como a mãe, era totalmente submisso ao pai, sofrendo as consequências de um casamento de um homem que só queria uma escrava em sua casa. Não brincava com os meninos da rua e quando saia de casa era para vender bolinhos com a mãe. Era o único companheiro da mãe, e assistia as bofetadas, os gritos e as humilhações que ela passava.

“Foi uma vida infeliz”, dizia a minha avó quando contava a história da irmã. Seus pais não queriam que ela casasse porque sabiam que a filha não se prenderia às leis dos maridos daquela época. Essas leis implicavam que as esposas se sujeitassem às vontades de seus maridos, já que eles eram “o cabeça” da família. Mas Dalva, com seu gênio difícil, senhora de seus próprios desejos, não seria adestrada pelo marido. E isso custaria a sua felicidade. As moças que casavam jamais voltavam a morar na casa dos pais, eles agora não tinham mais o direito de interferirem na vida das filhas.

Sofredora pela falta de amor do marido, Dalva viu sua vida se acabando aos poucos. Seus dias passavam e sua situação não mudava. Ela tentou algumas vezes escapar da carceragem em que vivia, mas sempre acabara nas mãos do marido de novo. Ela era a escrava da casa, do marido e da sua própria infelicidade.

Até que um dia a escravidão, junto com as surras e a rejeição, acabou. Dalva tinha pouco mais de cinquenta anos quando Renalvo teve uma parada cardíaca e morreu. O homem saíra de casa fazia três meses e dessa vez chegou em casa no caixão. Parecia que o sofrimento da esposa também tinha ido naquele caixão. Ela chorou. Talvez naquele momento um misto de dor, alívio e liberdade estivessem escorrendo em suas lágrimas. Viúva, foi morar com o filho na casa da irmã Josefa. E lá ficou até o dia da sua partida. Antes disso, Dalva ainda presenciou o câncer e a morte do seu único filho Luiz, que nunca havia casado.  

Não ficou sozinha aquela pobre senhora. Se ainda lhe restava algum resquício de vontade de viver, era por causa da companhia de suas irmãs, sobrinhos e amigos. Eles fizeram Dalva se sentir amada, sensação que até então nunca tinha experimentado. Seus dias transcorreram com felicidade e sua história de vida foi contada muitas vezes. Não havia quem não se emocionasse. Não havia quem não lamentasse a história de vida de uma mulher sofredora pela falta de amor do marido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gravidez acidental

 

Lucrecia, uma das filhas Seu Leopoldo, um comerciante muito conservador, tinha apenas quinze anos e já era muito namoradeira. Namorada às escondidas, longe de casa e longe da cidade. Sempre arrumava um jeito de sair após ajudar a mãe a cuidar dos seus cinco irmãos. Quatro de deus irmãos ficavam em casa, pois o seu irmão mais velho, o Jorge, ia com o pai vender os utensílios domésticos na feira. A moça saia no horário de sempre, às duas da tarde, quando os irmãos já estavam tomados banhos, os pratos lavados e a casa arrumada. Ela ia se encontrar com Teobaldo, um homem corpulento e de cabelos grandes, mais velhos que ela e casado.

Os dois se encontravam quase todos os dias, quando Lucrécia conseguia inventar uma história para a mãe. Dizia que ia ver se a tia Gedalva, moribunda há anos, precisava de ajuda, ou se o pai e o irmão precisavam dela para as vendas na feira. Lucrecia passava não mais de quinze minutos na casa da tia, na desculpa que precisava voltar para cuidar das irmãs, e não mais que trinta minutos na feira, pois dizia precisar visitar a tia, a qual deveria estar necessitando muito de uma visita.

Então a moça seguia para encontrar com Teobaldo nas proximidades da Estação de trem, que ficava a uma hora de sua casa. Voltava para casa antes das cinco, horário em que seu pai e seu irmão já estavam postos à mesa para o jantar. Ao chegar em casa, Lucrecia poderia provar que, de fato, esteve na feira e na casa da tia. Sua mentira nunca foi descoberta.

Até que um dia a moça notou que sua barriga estava crescendo. Não sabia ao certo o que tinha feito, mas viu que aquilo era por causa dos seus encontros com Teobaldo. Ficou desesperada. Como aquilo tinha acontecido? O que dizer para os seus pais? Se ela falasse dos encontros com Teobaldo, seus pais não saberiam que ele seria o pai da criança e rejeitariam a filha prenha de homem casado.

Antes que sua mãe descobrisse, Lucrecia teve uma ideia para se livrar dessa situação sem ser rejeitada pelos pais. Ela teria seu filho, mas sairia como vítima. Decidiu que contaria logo, antes que eles começassem a notar.

- Mãe e pai, nenhum rapaz nunca me desgraçou. Eu nunca me entreguei pra homem nenhum. Eu não saio de casa. Quando saio ou é para a feira ajudar meu pai ou é para a casa da tia Gedalva fazer um chá para ela. Se eu peguei bucho, foi por causa de meu irmão.Toda vez que ela chega em casa se banha na bacia que fica no quintal e não joga a água fora. Até que um dia desses, pra não gastar água, como eu vi que á água da bacia tava quase limpa, eu resolvi me banhar nela também. Eu peguei bucho pela água que meu irmão se lavou.

Seu Leopoldo e Dona Margarida, que assim como a população da época eram desinformados sobre sexo e gravidez, acreditaram na conversa da filha. Jorge, o falso pai do filho também acreditou na história e disse que criaria o menino. Teobaldo foi o único que não acreditou na história, mas também não disse que era o pai da criança, afinal isso lhe traria sérios problemas. Lucrecia sabia que Teobaldo era o pai, mas resolveu romper com ele antes que todos descobrissem a verdade.

O menino nasceu saudável e sem nenhuma semelhança tinha com o tio. Lucrecia continuou na casa dos pais e ficou conhecida na cidade pela moça que engravidou, por acidente, do próprio irmão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cura

 

Há muitos anos que minha avó sofria de uma dor na barriga. Já tinha ido para vários médicos e eles nunca descobriam a causa. Três tipos de remédios diferentes ela tomava, mas a dor nunca passara. Alguns diziam ser gastrite crônica; outros afirmavam ser uma cirrose e ainda existia que dissesse que era um câncer. Mas os médicos garantiam que não era nenhuma dessas três opções. Eles diziam que essa dor era “coisa da sua cabeça, Dona Terezinha”.

Mas ela dizia que sentia um dor muito forte no pé da barriga, e que Deus havia de curá-la. Em suas orações, pedia ao Senhor que a poupasse daquele sofrimento que a há anos a consumia. Até que numa tarde de descanso ela foi curada.

Todas as tardes, depois do almoço, minha avó ia se deitar pra tirar um cochilo. Numa dessas tardes, ela sonhou que um homem, que ela não conseguira reconhecer o rosto, apareceu em seu quarto. No momento em que ele apareceu resplandecente ao seu lado, uma sensação de bem estar, que ela não conseguiu explicar por meio de palavras, tomou todo o seu corpo. Ela conta que foi como se tivessem arrancado uma pedra de sua barriga, pois a intensa dor que ela estava sentido naquele momento simplesmente desaparecia.

No sonho, o homem forte de vestes brancas, que mais parecia um anjo sem asas, disse-lhe:

- Terezinha, você não sente mais dor.

Ela procurou manter o olhar fixo no homem, numa tentativa de reconhecê-la. Mas o seu rosto lhe era totalmente estranho. Nunca tinha visto aquele homem de cabelos castanhos escuros e voz suave. Talvez fosse mesmo um anjo.

Ao sentir que o homem tirava a mão de sua barriga e aos poucos afastava-se, abriu os olhos e percebeu que a única presença em seu quarto, além dela, era a luz forte do sol que entrava pela janela. Nesse momento, sentou-se na cama, colocou a mão na barriga e agradeceu a Deus pelo milagre que acabara de acontecer naquele quarto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você pode estar interessado...

  • Contos Eróticos
    Contos Eróticos Erótica por D.B.
    Contos Eróticos
    Contos Eróticos

    Downloads:
    363

    Publicado:
    Jun 2018

    Os Contos Eróticos do Antigo Testamento nasceram quase por acaso, quando pesquisava material para um romance que tinha em mãos e fui consultar na Bíblia, ...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Os melhores contos
    Os melhores contos Contos por H.P.Lovecraft
    Os melhores contos
    Os melhores contos

    Downloads:
    212

    Publicado:
    May 2018

    «Os melhores contos de H.P. Lovecraft» reúne, pela primeira vez em português, todos os maiores clássicos do grande mestre da literatura de horror em um volume...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Nocaute
    Nocaute Contos por Jack L
    Nocaute
    Nocaute

    Downloads:
    28

    Publicado:
    Jan 2018

    Nocaute – Há quem pense que a literatura e o boxe jamais poderiam andar juntos, que ao primor e requinte da primeira se oporiam a fúria e a brutalidade do seg...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Mascaras do Destino -
    Mascaras do Destino - Contos por Florbela Espanca
    Mascaras do Destino -
    Mascaras do Destino -

    Downloads:
    104

    Publicado:
    Nov 2017

    As Máscaras do Destino é um livro de contos escrito por Florbela Espanca, publicado postumamente em 1931 pela Editora Marânus do Porto. A obra é dedicada à...

    Formatos: PDF, TXT