Histórias do Vovô Apolônio (Sociedade e Política para Jovens) por Tarcísio José da Silva - Versão HTML

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DO

VOVÔ

APOLÔNIO

(SOCIEDADE E POLÍTICA PARA

JOVENS)

1

Vovô Apolônio era um velho professor de latim muito

querido pela criançada e pelos jovens. Ele era um negro de olhos

vermelhos e cabeça pelada, lustrosa como um espelho; os dentes

eram alvos, bastante polidos.

Vovô Apolônio contava histórias fascinantes aos seus

ouvintes. Inventava coisas de admirar. Ou reinventava contos

antigos. Dizia que eram “verdades” escondidas sob a carapuça de

fábulas e parábolas. Portanto, havia muito que aprender com tais

histórias.

Ele falava sempre sobre “consciência política” e queria que os

jovens possuíssem esse precioso bem. Apolônio não aderia a nenhum

partido, nenhum mesmo... achava todos falhos e incompletos. Cada

um se dizia o dono da verdade e não era dono de verdade nenhuma:

eles criavam as suas próprias verdades, convenientes às suas

doutrinas.

O velho professor não falava contra a propriedade privada,

nem incentivava as revoluções, nem se dava por salvador do mundo.

Afirmava que qualquer atitude, por mais simples que fosse, desde

que fosse sincera e voltada ao bem, ajudaria o mundo a melhorar.

2

Viesse sob o nome de religião, ou socialização, ou ideologia, o que

importava era o resultado.

Citava nomes como os de Madre Teresa de Calcutá e Irmã

Dulce, mulheres abnegadas que prestaram um favor enorme à

sociedade sem perder tempo com discursos inflamados e inúteis.

Falava também de Santo Onofre, um ermitão que se afastou

do mundo para viver uma vida em contato direto com a natureza,

sem nenhum apego aos bens materiais. Não usava roupas, não tinha

dinheiro, não brigava. Apenas com o seu exemplo, mostrou que há

valores maiores que uma existência materialista.

E assim, Vovô Apolônio buscava incutir nos seus discípulos a

tal “consciência política”.

Diante do Grupo Escolar Professor Pirajá, reuniam-se os

meninos e as meninas, à noite, para ouvir os contos do ancião.

Sentavam-se em cadeiras ao redor do negro, sentado em uma cadeira

mais alta. As histórias geralmente eram contadas durante noites

seguidas até o final, como quando se lê um livro comprido para

crianças – lê-se uma parte hoje, outra amanhã, etc. Essa técnica,

muito boa, foi usada pela bela Sherazade para escapar da morte,

contando histórias ao sultão que nunca terminavam na mesma noite.

3

Embora não gostasse de revoluções, nem de guerras,

Apolônio contou a história de uma guerra. Contou a história de:

Desertão

Durante a Monarquia de D. Pedro II, apareceu no sertão

nordestino um jovem pregador de barbas longas, vestido em um

camisolão azul e carregando uma sacola de couro às costas. Ele

pregava muito bem e o povo seguia-o, pois ele falava a linguagem

simples das pessoas e das coisas vividas por elas. Chamava-se

Antônio Conselheiro.

O Conselheiro gostava da Monarquia, do imperador e da

princesa Isabel. Mas, a Monarquia caiu. Uma formosa dama seduziu

os homens da política e dominou o país: era a República.

O sertão, como vocês sabem, é um lugar árido, assolado pela

seca periodicamente. Secam-se os rios, faltam as chuvas e a

população fica a penar, maltratando-se de trabalhar, caminhando dois

ou mais quilômetros com balde d’água na cabeça, labutando no solo

duro e rachado.

4

Dizem que o nome sertão vem de deserto. Um grande deserto:

um deSERTÃO.

Assim que a República assumiu o comando do Brasil e D.

Pedro II partiu para a Europa, o Conselheiro ficou com raiva e

começou a falar mal da dita-cuja. Dizia que ela era inimiga do povo e

que, em breve, o mundo ia se acabar.

Porém, como já se falou, a República vivia de conchavo com

os poderosos e, reclamando a eles das ofensas sofridas, conseguiu a

sua ajuda para calar o Conselheiro. Fascinados pela beleza da dama,

os homens resolveram acabar com o profeta e com sua gente.

Mas, o Conselheiro ainda passou muito tempo falando mal da

República até que viesse a vingança dela. Quando veio a guerra,

Conselheiro já estava velho e tinha uma cidade só sua, onde ele era o

chefe: o Arraial de Canudos, no interior da Bahia.

Em Canudos, a Seca não entrava. Por mais que tentasse, a

Dama de Negro do sertão não conseguiu invadir as terras abençoadas

do profeta. Lá, ninguém passava fome, nem sede. O rio Vaza-Barris

supria as necessidades do povo pobre. Todos gozavam a fartura e a

felicidade. Os animais que moravam lá também eram felizes, pois

não sofriam as misérias provocadas pela Seca. Vinham pessoas, de

5

longe,

para

habitar

Canudos.

A

população

cresceu

consideravelmente.

A Seca, toda trajada em seu vestido preto, especulava

maneiras de entrar naquele paraíso para devastá-lo tal como fazia nos

arredores, mas não havia jeito. Ela remoía-se de raiva, batia os pés de

desespero e esculhambava o Conselheiro: quem era aquele homem

barbudo, de chapéu da abas largas e vestido de azul que aparecera

para desafiá-la e impedi-la de realizar a sua colheita voraz?

A Seca, com os seus cabelos desgrenhados, sacudia a foice de

um lado para outro, furibunda e torcia para que o Conselheiro batesse

as botas (se bem que ele não calçasse botas, mas simples sandálias).

A principal construção de Canudos era a igreja. De sua torre,

o sino badalava chamando os fiéis para a missa e marcando as horas

do dia – da mesma forma que acontecia na Idade Média quando a

igreja era o centro da vida comum e servia como relógio de todos.

O profeta pregava diariamente diante do templo. A multidão

reunia-se para ouvi-lo. Todos queriam aprender com o santo. E ele,

com seus olhos brilhantes, discursava sobre religião e sobre o futuro.

6

O velho também escrevia muito. Conhecia latim e tinha

muitos livros de antigos Doutores da Igreja. Até A Utopia de Tomás

Morus fazia parte do seu acervo.

Outra promessa que o chefe do arraial fazia com frequência

era a do retorno de D. Sebastião, um rei português que sumira numa

batalha na África há muitos anos. Ele dizia que esse rei voltaria para

governar o mundo e isso mais irritava a República, pois quem

governava era ela.

Finalmente, a Dona República obteve o que tanto almejava: a

guerra contra Canudos. Os seus amantes resolveram protegê-la

contra as investidas do Conselheiro. E veio a matança.

Havia, em Canudos, muitos atiradores (os chamados

jagunços) e eles lideraram a revolta contra as forças da República.

Não é preciso dizer que muitas pessoas morreram nessa briga inútil.

A princípio, os sertanejos valeram-se de enxadas, foices e armas de

fogo rudimentares para lutar; depois, vencendo algumas batalhas,

apropriaram-se da armas de fogo dos soldados e passaram a usá-las.

Quase um ano durou a guerra. E o número de mortos e

aleijados crescendo. Levaram até metralhadoras e canhões Krupp

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uma novidade – para matar o povo de Canudos. O Conselheiro não

participava das brigas – era homem de paz.

A Seca vibrava com tudo aquilo. Já que não pudera vencer o

profeta, que o vencesse a República. E foi o que aconteceu...

O Conselheiro venceu a Seca, mas não derrotou a República.

No final, os defensores da bela dama destruíram Canudos por

completo. Antes, porém, da derrota, o velho pregador foi embora;

não queria ver o seu povo morrer e desaparecer: mudou-se, portanto,

para o céu, para junto de Deus, onde lograria as bem-aventuranças

eternas.

As festas da República e dos seus aliados foram enormes.

Todos se sentiram felizes com aquela matança louca.

E a Seca, pulando de alegria, voltou a ser dona absoluta de

todo o sertão.

.......................................................................................................

- Essa história é triste... – falou Letícia.

- E, afinal, a República era mesmo má? – perguntou

Frederico.

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- Bem... Não é uma questão de ser ou não má – explicou

Vovô Apolônio – Tanto a Monarquia como a República

apresentaram vantagens e desvantagens. A cisma do Conselheiro

com a República tinha, provavelmente, mais motivação religiosa que

política. Para ele, a Monarquia representava o tipo de governo ideal,

aprovado por Deus. A Bíblia está cheia de histórias de reis

escolhidos por Deus e o próprio Jesus foi aclamado Rei dos Judeus.

O novo sistema era diferente, era coisa nova, não era milenar como a

Monarquia. Além disso, a República separou Igreja e Estado e

instituiu, assim, o casamento civil, realizado sem a benção dos

sacerdotes. Para o profeta, isso era um pecado terrível e ele não

aceitou a nova forma de governo. Indícios levam a crer que o

Conselheiro não era revolucionário e jamais pretendera uma guerra.

Há versões que afirmam que ele desejava a rendição, mas os

jagunços pressionaram-no a continuar no conflito.

- E quem estava certo? – indagou Luíza.

- Ninguém. O que os governantes fizeram foi uma crueldade

sem tamanho. Mataram milhares de pessoas que precisavam de ajuda

e não de violência. O sertanejo sempre sofreu – na Monarquia ou na

República, a sua vida nunca foi muito fácil. A República não

considerou que o sertanejo também faz parte do país e, como

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cidadão, tem direito a uma vida digna e feliz, tem direito a usufruir

de todas as regalias que os outros possuem. Atacou aquele povo

pobre com armas pesadas, rugindo como bestas-feras e destruindo

tudo, matando crianças, mulheres e velhos. Realmente, era o fim do

mundo – para os sertanejos. E a República era o Anticristo. Mas,

havia falhas em Canudos também. Para proteger-se das ameaças dos

republicanos, o Conselheiro cercou-se de alguns homens de moral

duvidosa – homens que já eram habituados aos crimes pelas brenhas

do sertão. Foram esses matadores que encabeçaram a guerra e

lideraram a população no massacre. Além disso, essas pessoas

começaram a praticar assaltos nas redondezas e até em locais

distantes. O Conselheiro pregava contra o roubo – por que, então, os

seus homens roubavam? Se todos viviam bem em Canudos, para que

praticar crimes? O Arraial, de fato, recebia auxílio de grandes

fazendeiros de modo que as terras, o gado e os mantimentos iam

crescendo sempre mais.

Após uma pausa, ele concluiu:

- O que aconteceu, na verdade, foi um sério desentendimento

e, mais uma vez, a brutalidade humana prevaleceu e veio a guerra. E,

com a guerra, morreram milhares de homens, tanto sertanejos como

soldados, estraçalhados pelas balas, queimados pelo fogo. Muitos

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sobreviveram mutilados, marcados com o estigma da dor e do

sofrimento e isso os acompanharia pelo resto de suas vidas. O

homem prefere a estupidez à harmonia e, por causa disso, vive se

exterminando e acabando com tudo ao seu redor.

- Qual será a história agora, Vovô?

Vovô Apolônio gostava de animais e o animal que mais

gostava era o porco. Dizia que o porco era tratado, via de regra,

como um bicho sem valor e destinado ao comércio de carne; vivia

pouco e era, muitas vezes, maltratado. Isso era preconceito. O porco

é um animal inteligente e afetivo e merece usufruir longos anos de

existência.

Devido a tal pensamento, o velho contava sempre histórias de

porcos. E assim, naquele dia, ele contou a história de:

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OS TRÊS PORQUINHOS

A história que Joseph Jacobs não contou

Era uma vez, três porquinhos que viviam em uma família

muito pobre. Tão pobres eles eram que decidiram sair pelo mundo a

fim de encontrar algum trabalho e ajudar os pais.

Eles separaram-se e cada um seguiu um rumo.

O primeiro porquinho, embora nutrisse boas intenções, não

era muito disposto. Mesmo assim, bateu pernas em busca de algum

serviço. Parou em uma loja onde havia uma placa: Precisa-se de

vendedores.

- Tem experiência no ramo? – perguntou a gerente – Tem o

segundo grau completo ou algum curso técnico? Sabe mexer com

softwares e hardwares? Expressa-se bem, falando corretamente e

usando devidamente as regras da Gramática?

O porquinho saiu de lá desiludido, pois certas coisas ele nem

sabia o que eram. “Softwares?”, “Hardwares?” – que diabo era isso?

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De nada sabendo, o porquinho foi catar lixo na rua. Apanhava

papelão e materiais plásticos para vender nos depósitos convenientes.

Ocupou um terreno baldio à beira do esgoto na periferia e construiu

uma casinha toda de papelão e coberta de palha.

Completamente desorientado, o porquinho não sabia

economizar e passava as noites bebendo, fumando e jogando nos

bares. Sentava-se a uma mesa, sozinho ou acompanhado por

parceiros de infortúnio e danava a tomar pinga ou outra bebida

alcoólica que não fosse cara. Só raramente bebia cerveja, pois era

cara demais. Volta e meia, gritava:

- Bota mais uma!

E lá vinha o dono do botequim com uma garrafa na mão e

despejava uma dose no copo encardido.

Reunia-se a jogadores boêmios, dados a artimanhas e furtos.

Os principais jogadores eram gatos e raposas. Teriam depenado o

porco – se ele tivesse penas, é claro. De qualquer modo, o pobre

perdia quase sempre e apostava até o que não tinha, enrolando-se em

dívidas cada vez maiores.

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O Gato Melado era o mais exímio jogador da região. Sujo e

fedido, vivia com um cigarro na boca. Jogava cartas, dominó e fazia

bingos em que ninguém ganhava.

Outro frequentador assíduo daquele botequim era uma

criatura muito temida: o terrível Lobo Mau! Era o pior bandido da

cidade: liderava uma quadrilha de assaltantes, assassinos e traficantes

de drogas. Tão grande era o seu poder que tinha agentes no rio (entre

as piranhas), no mar (entre os tubarões), no ar (entre os gaviões e

carcarás) e no subsolo (entre as baratas cascudas).

O Lobo Mau observava o comportamento do porquinho e via

como ele atolava-se em dívidas que não tinha como pagar. Esses

fracassados eram os ideais para compor a sua gangue: animais sem

esperanças, endividados, sem emprego e entregues ao vício.

Uma noite, o porquinho voltou a casa, ronronando, e

suspirando, e conversando sozinho, e mais sujo que a maioria dos

porcos, com um chapéu de palha todo esfiapado na cabeça:

- Ron, ron, ron... ohhh, que situação a minha... como vivo

com a corda no pescoço... como sofro... ron, ron, ron...

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Pensava o pobre em como era gordo em outros tempos e

como agora estava emagrecendo a olhos vistos. Não havia infâmia

pior para um porco do que emagrecer. As suas roupas começavam a

folgar em seu corpo. Talvez fosse efeito do cigarro e da bebida, pois

não tinha mais o mesmo apetite de antes, alimentava-se mal, não

tomava o café da manhã.

E entrou em casa. Atirou-se à cama e, envolvido com restos

de pano, remoeu pensamentos do passado, da sua vida familiar. A

sua mãe jamais permitiria que ele definhasse daquele jeito: chegara a

passar fome para dar comida aos filhos – dava e ficava sem comer.

Como era boa a vida em família, ao lado do seu pai e da sua mãe,

ambos trabalhadores e zelosos da saúde dos porquinhos! Como eles

amavam os filhinhos! Mas, vendo que a situação piorava cada vez

mais, os três irmãos resolveram sair pelo mundo a fim de arrumar

alguma coisa. Depois, voltariam para amparar os pais.

Vai, então, que aparece o Lobo Mau seguido de alguns dos

seus companheiros. Já o Gato Melado integrava o grupo, muito

orgulhoso de si mesmo. Como ele – um hábil trapaceiro – ficaria a

desperdiçar tempo jogando cartas nos botecos? Não... tinha que

crescer, pensar no seu futuro. E nada melhor que participar da maior

quadrilha da cidade. Agora sim, o seu futuro estava garantido e o

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felino tinha certeza de que seria um grande animal. Sim... o Gato

Melado prosperava!

E grita o chefe com a sua voz cavernosa de malvado:

- Porquinho, porquinho! Deixe-me entrar! Tenho uma

proposta a fazer.

O porquinho salta na cama dura, sem colchão e treme das

patas à cabeça. “É o Lobo Mau!”, pensa o pobre assustado.

- Não, não e não! – respondeu de dentro – Não vou abrir a

porta! Sei o que você quer!

- Ora, porquinho! Sei que você está devendo até a cabeça e

não tem com que pagar. Junte-se a nós e ganhará dinheiro suficiente

para livrar-se! Deixe-me entrar!

- Não, não e não! Sou um porco honrado! Não quero ser

ladrão! Não, não e não!

O Lobo Mau já havia decidido que, se o porquinho recusasse,

ele o mataria. Era uma ótima forma de impor respeito. E o que era

um porco sujo e endividado na sociedade?

Assim, o lobo berrou, arreganhando os dentes afiados:

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- Então, eu vou soprar e a sua casa derrubar!

E, enchendo o peito de ar, soprou. Como tivesse fôlego de

sobra, soprou bastante e a casinha de papelão e palha desfez-se. O

que ele não conseguiu derrubar com o sopro, os seus parceiros

puseram abaixo em segundos.

E o porquinho, vendo-se ao relento, à mercê do Lobo Mau,

botou pernas pra que te quero e desabalou numa carreira formidável

com o lobo e seu grupo atrás.

....................................................................................................... O

segundo porquinho era um pouco mais disposto que o primeiro, mas

também não tinha muita coragem. Foi a uma loja fazer o teste de

admissão para balconista e se deu mal. O gerente explicou:

- Infelizmente, nada podemos fazer. O seu conhecimento é

insuficiente, você não tem currículo, nem referências... e nem

entende de informática.

E lá vai o porquinho a uma indústria, arriscar um emprego.

Mas, o resultado foi idêntico. Ele carecia de conhecimento escolar

mais profundo. E, ainda por cima, havia as máquinas.

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Conversando com uma máquina de muitos braços, ela disse-

lhe:

- Uma máquina realiza o serviço de muitos homens e com

mais eficiência. Não recebemos salário, não reclamamos e não

fazemos greve. Para os industriários, o nosso uso é mais vantajoso.

Somos mais econômicas – econômicas e lucrativas. O porquinho viu

que, de fato, havia mais máquinas que operários naquela indústria. E

os operários tinham que ser qualificados.

Sem opções, ele foi trabalhar como servente de pedreiro, sem

carteira assinada e sem condições de pagar o INSS. Sujou-se de

cimento e areia até os olhos. Logo nos primeiros dias, machucou uma

perna e, embora seus dedos fossem cobertos por cascos, quebrou um

deles.

Esse porquinho também foi morar em um subúrbio – local

repleto de favelas. Arrumando um terreno onde perto se amontoavam

lixos, ele construiu uma casinha de tábuas.

Como o seu irmão mais novo, ele entregou-se ao vício: à

jogatina e à bebedeira. Passava as noites nos botequins, enchendo a

cara e perdendo o que não tinha. Só tornava a casa bebum como uma

cabra, vendo em dobro e trançando as pernas.

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Naquele bairro, o Lobo Mau também exercia a sua influência,

é claro. Andava nos bares, espiando, ameaçando, extorquindo,

angariando adeptos. Observou a situação do porquinho e pensou

consigo: “Esse serve pra mim!”

Mas, o porquinho, tal qual o seu irmão, não gostava de

roubos. Os seus pais desenvolveram neles rígidos códigos de honra:

sempre diziam que o crime não compensa. E, ainda que vivessem

uma vida desregrada de jogos e bebidas, não queriam roubar, nem

matar, nem traficar.

Por isso, certa vez, entregou um dos membros da quadrilha do

Lobo Mau à polícia. Sabem quem? O Gato Melado, logo ele, que

tinha um futuro tão promissor, foi ver o sol nascer quadrado em

início de carreira...

O Lobo Mau quis vingança.

- Vamos apagar esse porco safado! – decidiu o chefe.

A quadrilha do lobo era composta por gatos, cães, ratos,

guarás,

lagartos

e

cobras.

Todos

terríveis.

Impiedosos.

Maquiavélicos.

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O lobo e alguns facínoras chegaram, uma noite, diante da

casinha de tábuas. O malvado líder gritou:

- Porquinho, porquinho! Deixe-me entrar!

No seu leito de colchão mais furado que uma peneira, o

porquinho estremeceu. “É o Lobo Mau!”, pensou.

- Não, não e não! – respondeu de dentro – Não vou abrir a

porta! Sei o que você quer!

- Então, eu vou soprar e a sua casa derrubar!

E, inchando o peito, o Lobo Mau soprou e as tábuas velhas

começaram a abalar. Com a ajuda dos seus comparsas, a moradia do

porquinho veio abaixo. E ele, vendo-se ao léu, disparou na corrida

mais fantástica que já correra.

.......................................................................................................

O terceiro porquinho, o primogênito, era o mais inteligente,

disposto e precavido dos três. Nunca abandonou os estudos.

Arrumou um emprego de garçom em um bar, trabalhando ao dia e

estudando o supletivo à noite.

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Pouco tempo depois, arranjou emprego num restaurante. O

trabalho no restaurante era mais cansativo: como garçom, ele tinha

que percorrer várias mesas, servir pratos diferentes, tomar cuidado

com os objetos quebráveis, equilibrar bem a bandeja.

O gerente percebia o esforço do porquinho e sabia o quanto

ele era bom e confiável. Falou dele ao proprietário como o substituto

ideal para o cargo de gerência. É que o gerente arrumara proposta de

trabalho fora da cidade e, em breve, deixaria o lugar. Estava

procurando, portanto, um substituto.

A escolha caiu, de fato, sobre o porquinho. E o danado

ascendeu na vida, ocupando o cargo de gerente. Era muito bom em

matemática, fazendo contas como ninguém.

O restaurante prosperou como nunca e o dono aumentava o

salário do funcionário com alegria.

Contudo, o Lobo Mau também andava por ali. Embora todos

soubessem quem ele era, temiam-no e permitiam que ele

frequentasse os melhores ambientes. Tinham medo de alguma

represália de sua gangue tenebrosa.

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E assim o lobo conheceu o porquinho e ficou de olho nele

(ele tinha cisma com porcos). Começou a nutrir inveja do porquinho,

pois ele era trabalhador e honesto e, de garçom, atingira um alto

posto no estabelecimento. Como isso fora possível? Ele, o Lobo

Mau, também pobre antigamente, tivera que roubar para crescer. Por

que o porquinho crescera sem roubar – isso era possível? E passou a

perseguir o gerente.

Porém, o porquinho era esperto e conhecia um tanto de leis.

Dessa forma, metia na cadeia os bandidos que vinham atrás dele,

ameaçá-lo ou seduzi-lo com promessas vãs.

Assim que virou gerente, ele arrumou emprego para os seus

irmãos que estavam nas ruas, mendigando e fugindo do Lobo Mau.

Concluído o supletivo, o porquinho preparou-se para o

vestibular. Como gostasse muito de desenhar e o seu maior sonho

fosse adquirir uma casa grande e bonita para morar com a sua

família, optou pela arquitetura. Já estava mesmo trabalhando na

planta de uma mansão de arrepiar.

Passou com ótima colocação e, enquanto gerenciava pelo dia,

estudava à noite. Gostou da Universidade Federal e fez muitos

amigos. Ganhou bolsas para pesquisas. E, como tivesse economias,

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começou a construir a sua casinha (casinha?). Ele mesmo chegou a

ajudar os pedreiros a assentar tijolos.

Vivia em uma pensão familiar onde era benquisto por todos.

Mas, não via a hora de ter a sua própria morada. Todas as noites,

pedia a Deus pela saúde dos seus pais e dos seus irmãos.

O Lobo Mau, no entanto, persistia em provocar o porquinho.

Mas, sempre se dava mal e a sua quadrilha começou a desbaratar-se.

Muito esclarecido, o danado do estudante livrava-se das investidas

do lobo e entregava os companheiros dele à polícia; denunciava os

pontos de tráfico e os refúgios dos bandidos. Em tudo, era auxiliado

pelos seus irmãos, que conheciam muita coisa do Lobo Mau.

Foi assim que muitos dos seguidores do lobo pararam no

xilindró, ou morreram em combates com a polícia, ou sumiram-se no

mundo. Com o passar dos anos, a quadrilha já não era a mesma. O

Lobo Mau decaíra medonhamente; ninguém queria integrar o seu

grupo falido, houve deserções e muitos dos bens do lobo (que não

eram dele) foram confiscados.

Vai que o Lobo Mau cai na sarjeta, abandonado pelos falsos

amigos, sem eira, nem beira, vivendo de pequenos furtos. Mas, ele

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não desistira de vingar-se do porquinho: queria a sua cabeça. E foi

atrás dele.

Naquela noite, diante do casarão do porquinho, sempre

renovado e bonito, o Lobo Mau remoeu o seu ódio.

O porquinho formara-se em Arquitetura e não parava de

receber encomendas.

“É hoje!”, pensou o lobo. “Esse porquinho maldito e seus

irmãos safados! Por causa deles, estou sem nada, na rua da amargura

– eu, que era o maior bandido da cidade! Mas, eles vão me pagar!

Hoje, é o grande dia!”

Aproximando-se da porta de entrada, ele gritou:

- Porquinhos, porquinhos! Deixem-me entrar!

Lá dentro, os dois porquinhos mais novos tremeram:

- É o Lobo Mau!

- Não se preocupem: esta casa, ele não derrubará.

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De fato, o lobo não usaria o seu poderoso sopro – seria inútil,

pois aquela casa era de cimento e tijolos, com pilares de ferro e

outros materiais de grande resistência.

Olhando para cima, viu uma enorme chaminé no topo da

casa. Sim! Ali era uma boa entrada para o interior. Sim! Ali estava a

porta para a sua vingança. Uma vez lá dentro, ele acabaria facilmente

com os porquinhos.

Apalpando a pistola e o punhal na cintura, ele começou a

escalar a casa. No trajeto, ansiando por colocar as patas sujas nos

porquinhos, lembrava-se das belas tundas que recebera da polícia por

causa do porquinho; na polícia, havia alguns exaltados que desciam a

madeira sem dó.

Depois de andar muito, ele atingiu a chaminé e, mais uma

vez, lá de cima, observando tudo ao seu redor, sentiu-se poderoso.

Riu com prazer e principiou a descida.

No interior da casa, o sábio porquinho percebeu a fuligem que

caía da chaminé no chão e sacou a artimanha do inimigo.

Rapidamente, destampou o caldeirão de água que fervia na lareira.

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Pobre lobo! Caiu direto no caldeirão e saiu pulando pela casa,

com o rabo todo queimado. Foi parar no pronto-socorro para

tratamento das feias queimaduras recebidas. Depois, encaminharam-

no à cadeia, onde aguardaria julgamento por seus crimes.

Claro que o porquinho não foi condenado por queimar o lobo:

legítima defesa – ele entendia um tanto de leis.

O julgamento chegou e o Lobo Mau foi sentenciado à pena

máxima: 50 anos de prisão na penitenciária de maior segurança do

país.

Todo mundo ficou feliz com a prisão do lobo, pois já viviam

fartos das suas maldades. Imaginem vocês que ele foi condenado por

delitos diversos: assalto à mão armada; homicídios e zoocídios;

tráfico de drogas; formação de quadrilha; sedução de menores e

estupro. O patife gostava de forçar mulheres a ficar com ele. Foi

assim que fizera com a sua vítima mais famosa: uma menina de

quinze anos, linda como uma rosa, que usava um vestidinho

vermelho com capuz.

Chapeuzinho Vermelho ia à casa de sua avó, no outro lado da

cidade. Para isso, atravessou, avoada que era, um trecho perigoso do

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qual todos lhe avisavam: Não ande por esses pedaços, pois é

território do Lobo Mau.

O lobo viu-a e quis agarrá-la, mas, por sorte, andava por ali

uma patrulha de soldados, fiscalizando o lugar. E o lobo ficou a

chupar o dedo.

Ardiloso como era, porém, planejou uma visita à velhinha.

Conhecendo bem todos os caminhos e brenhas da cidade,

chegou à casa da senhora antes da garota. Agarrou a velhinha e,

quando Chapeuzinho apareceu, agarrou-a também, não sem antes

amaciá-la com uma porção de palavras bonitas que as meninas

gostam de ouvir.

Quando ela percebeu que o lobo era mau, começou a gritar e

os seus gritos atraíram alguns guardas. Os homens desceram o cacete

no lombo do lobo. O criminoso foi preso, mas como, na época, era

muito poderoso e tinha muito dinheiro, comprou a justiça e, no outro

dia, já estava na rua rindo à toa. Os guardas que bateram nele, por

sua vez, perderam a farda, pois o Lobo Mau denunciou-os como

agressores.

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Como os pais de Chapeuzinho ficaram tristes com o fato!

Recriminaram-na por sua desobediência em trilhar caminhos

perigosos e levaram-na a um psicólogo para tratar do trauma.

Agora, felizmente, nada disso aconteceria mais: o Lobo Mau

acabaria os seus dias na cadeia.

Os porquinhos finalmente chamaram os seus pais para

morarem com eles, pois o Lobo Mau já estava fora de circulação.

Assim, a família de porquinhos, sem nunca mais passar necessidades,

viveu feliz para sempre.

.......................................................................................................

Há algo que vale a pena contar.

Alguns dias depois da transferência do lobo para o presídio,

publicaram a seguinte reportagem: