Hospital das letras por Francisco Manuel de Melo - Versão HTML

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HOSPITAL DAS LETRAS

HOSPITAL DAS

LETRAS

APÓLOGO DIALOGAL QUARTO

por

D. Francisco Manuel de Melo

Quare?

(Ano de 1657)

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AO SAPIENTE VARÃO DANIEL PINÁRIO

Professor de ciências divinas e humanas

A mesma fortuna que me trouxe de remotos

climas, ó varão sapiente, a estes, de um mundo,

não só diverso mas novo, foi aquela que me fez

encontrar-vos, por que me pagasse, com tão

grande achado, as moléstias de tão grande

caminho. Ora achando-vos eu para vos não

conhecer, minha própria seria então, como a

perda, a injúria, justifi-cando-se nessa ignorância

minha, arrezoada dis-graça, de que me queixo.

Todavia, quem não dirá que ou desminto ou

encontro o que digo com o que faço ? Estou con-

fessando-vos obrigações, e, em vez de satisfazê-

las, me obrigo de novo, pedindo-vos que leais,

censureis e que tal vez defendais os meus

desconcertos. Que vem isto a ser, senão

trapacear esta partida, voltando-vo-la de dívida

em galardão? Que

é

um arteficioso

agradecimento.

Porém, correspondendo à boa sorte que tive

em vos alcançar por ouvinte, e, se o posso dizer

sem soberba, afeiçoado às minhas ignorâncias,

justo será que vos não reserve a prática destas,

quiçá menos

molestas, pois, como encaminhadas a fins mais altos, é

força que levem mais destra guia, para que possam

conseguir os fins de seu caminho.

Lá vão após de vós peregrinando, e cedo espero

vaguem pelo universo, Se com licença e passaporte de

vossa aprovação, já lhe anuncio grandes prosperidade

na viagem; porque quem como vós poderá socorrer

uma censura comua das letras? E quem senão aquele,

a quem as suas tem posto em salvo, isentas da

corrupção, que aqui, ou se acusa, ou se melhora?

Por isto, vemos que com mais cargos que anos, se

vos podia contar a idade de suficiência pelo número

das autoridades, melhor que a natural pelo dos dias.

Fostes primeiro ancião no espirito que nos anos; e,

amadurecendo a um tempo com as flores os frutos, não

podemos saber quando fostes mais ou menos

aproveitado, achando-vos sempre útil. A essa causa se

viram nesta cópia tantas flores de divina e humana

erudição, fecundizadas de tantos frutos de obras

piedosíssimas, das quais participando vosso virtuoso

colégio, destes a entender ao vicio como todo o bom

exemplo dos superiores é pomo da vida, oposto àquele

pomo da morte, de que todos falecemos sem doutrina.

Vós sabeis que pudera eu aqui dizer muito mais, e

eu sei que quiséreis vós ouvir muito menos. Mas que

importa, se a virtude é um activo fogo, que, quanto

mais incoberto, se declara mais esplendidamente ?

Mereça-vos minha afeição que passeis um pouco

pelas enfermarias deste Hospital das Letras, sem que

vos embarace a julgar estas, não só pelo receio do

contágio, porque contaminam os sábios, senão a curar

os inocentes. Deus vos guarde, etc. Em um feito, 10 de

Setembro de 1657.

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

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APÓLOGO DIALOGAL QUARTO

Em que são interlocutores os livros de Justo Lipsio

Trajano Bocalino, D. Francisco de Quevedo e o

Autor desta obra.

Autor. Aonde força há, direito se perde! Bocalino. E às

vezes onde não há força; porque isto de quebrantar a

razão é uma das cousas que se faz tão bem por manha

como por força.

5 Autor. Saiu hoje por acórdão da Relação de Apoio que

vós. Senhor Trajano Bocalino, o Senhor Justo Lipsio, o

Senhor D. Francisco de Quevedo e eu déssemos uma

vista a este hospital, onde também jazemos como os

mais pecadores; víssemos,

10 ouvíssemos e remediássemos seus enfermos. Já não

há para quem apelar, senão fazê-lo.

Justo Lipsio. Uma vez escrevi a minha Critica,

emendando e melhorando, mais que acusando, aos

autores; e por uma vez que fiz tal livro, cento me

15 arrependi. Oxalá o não tivera feito, porque não há

cousa mais sem propósito que curar de propósito a

quem não quer saúde!

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Quevedo. Não direi eu outro tanto pelos meus Sonhos,

dos quais estou tão satisfeito, que, pois toda a vida é

sonho, me pesa agora muito de não haver sonhado toda

a minha vida. 5 Autor. Ainda não posso prezar-me nem

entristecer-me de haver escrito os meus Diálogos ou

Apólogos, porque todavia ignoro a fortuna que os espera.

Lípsio. Finalmente, senhor, nos quereis dizer que,

10 por sermos os presentes todos quatro escritores de

repreensões e emenda de vícios e costumes da Re-

pública — eu com a minha Critica, Bocalino com os

seus Regaglios, Quevedo com os seus Sonhos, e vós

com os Diálogos —, nos manda a Relação

15 de Apoio, como rei da sabedoria, visitemos esta

biblioteca convertida em hospital, ouçamos os

doentes, nos informemos dos males e lhes consultemos o

remédio? Difícil comissão nos é dada! Autor. Sim, senhor

Justo Lípsio; mesmissima-

20 mente é o que dizeis.

Bocalino. Pois não fora bom ajuntar todos ou pelo

menos os mais dos filósofos gregos e latinos e admitir

os médicos, quer fossem mouros quer pa-gãos, e com

esta junta dar cura e mezinha a tantos

25 languentos, como ouço gemer por essas estantes?

Quevedo. Médicos e Quevedo não se podem

ajuntar em um próprio caso, e menos em uma casa

própria. Ou eu ou eles havemos de assistir neste

congresso.

30 Lípsio. Aos príncipes toca a consideração e medida das

pessoas que elegem, e aos eleitos só servir e

obedecer. Façamos como bons servos; e, pois o

hospital é do destrito deste Reino, seja o nosso Autor

quem nos inculque e nos informe acerca dos

35 que devem ser curados e dos que não tem cura.

Bocalino. Se nós houvéssemos de observar aquela

sentença do rei egípcio, ou as regras da prudente

caridade, por nós mesmos havia começar a barrela.

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Porém, já que o Senhor Lípsio, sendo nosso mestre

assim o ordena sua palavra vá adiante.

Autor. Perigoso ofício me dais; porém, a troco de ser

mais depressa advertido de minhas faltas, 5 mostrarei as

alheas.

Bocalino, Assim dizia um galante bastardo: — Nunca

sei quem foi minha mãe, senão quando El-rei me faz

alguma mercê.

Quevedo. Por essa conta, o Autor e nós outros, 10 se

não saímos honrados da festa, sairemos pelo menos

advertidos.

Lípsio. Com elegância política disse o Fénix de África,

Santo Agostinho, que mais dano recebera Roma da vitória

que alcançou de Cartago, que de 15 toda a guerra que lhe

havia feito, porque, tirando-o Roma de defronte dos olhos,

vivendo sem inimigos, vivera sem concerto; donde não só

procederam os descuidos, mas os vícios do império. Tão

saudável cousa é a repreensão e emenda, ministrada

como e 20 quando convém!

Quevedo. Mas quem acertará com o tempo e com o

modo, se são pontos indivisíveis?

Bocalino. Senhores, para que é agora deter nessas

pouquidades? Em tendo idade, logo é tempo de 25 enfrear

o potro; que, se for por sua vontade, jamais haverá animal

que seja doméstico.

Autor. Escusai a disputa, porque as lástimas e queixas

que ali está dando um doente acusam já vossa

ponderação por impiedosa. Oh, coitado! 30 Como se

mostra dolorido!

Quevedo. Vozes soam, de grande aflição; mas, se

me não engana o eco, portuguesas parecem.

Bocalino. Pelo menos, não são italianas, nem francesas.

35 Lípsio. Nem flamengas, nem latinas. E, de caminho, vos

descubro este segredo, como versado nele: sabei que

todos os idiomas do mundo tem seu tom particular, sobre

que armam sua língua-

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gem. Como latinos, espanhóis e ingleses fazem sobre a

letra O N, franceses sobre E A, como já foram os gregos, e

são mais freqüentes que todos, os etíopes na letra E, os

bárbaros das Índias 5 ocidentais se afeiçoaram tanto à

letra V, que em quase todas as dicções nela acabam suas

cláusulas, donde, se notardes, procedem dous galantes

secretos: o primeiro, que sem compreensão de palavras se

pode averiguar qual seja a língua em que se 10 proferem;

o segundo, que pela frequência das letras se descifra

qualquer segredo escrito nelas.

Bocalino. Não lhe faltava mais agora a este fla-

mengo presumido, senão ensinar-nos o A. B. C.!

Autor. A menos custa de prosa, eu sei já, senho-15

res, quem é o doente.

Lípsio. Quem?

Autor. É o pobre de Luis de Camões, que está ali

lançado a um canto, sem que todos os seus cantos tão

nobremente cantados lhe negociassem 20 melhor jazigo!

Bocalino. De que se queixa o famoso poeta por-

tuguês?

Quevedo. De nós todos se poderá queixar, porque,

sendo honra e glória de Espanha, tão mal 25 tornamos por

ele, que, se são poucos os que o lem, são menos os que o

entendem.

Bocalino. Cuidei que se queixava de quatro tra-

duções e dous comentadores, que o tem posto na

espinha.

30 Lípsio. Quais são?

Autor. O primeiro é o bispo Frei Tomé de Faria, que

o traduziu em latim, vindo de Targa, seu bispado,

porque, pela forma da tradução, mais parece romance

púnico, que romano. Mas, se um Faria

35 o não levantou como devia, outro veio que sobre-

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modo o engrandeceu, como foi Manuel Severim de

Faria, na Vida que escreveu deste poeta.

Lípsio. Quem foi o segundo?

Autor. O segundo foi Macedo, que a verso por 5 verso o

quis trocar em miúdos, e no fim o deixou trocado, mas não

traduzido. Os mais, é um caste-Ihão e um franchinote, que,

pois lhe fizeram perder o nome que tal poeta merece, não é

razão que os seus sejam sabidos. 10 Quevedo. Não

nomeeis vós, logo, essas imun-dicias, que, ainda que

também caí na tentação de tradutor, e nos meus

Anacreonte, Epicteto, Focílides e Rómulo, muito dera a

esta hora pelos não haver traduzido ao lume da fé da

nossa lin- 15 guagem.

Bocalino. Não te arranhes, amigo, nem te car-pas, que

erros há que ficam por castigo a quem os comete. Sempre

tive para mim que a maior pena das cousas mal feitas era o

havê-las feito. 20 Lípsio. E os Comentos?

Autor. São dous e nenhum santo: de Manuel Côrrea

o primeiro, e de Manuel de Faria o segundo.

Lípsio. E que tais?

Autor. Um, breve, repreensível, e outro dizem

25 que repreensível e longo; mas eu sou tão amigo de

quem os fez, que ainda me parece breve, não o

sendo, o trabalho do seu autor, que por mais de

vinte anos estudou este livro.

Lípsio. Negócios grandes antes se ofendem que

1. Manuel Severim de Faria (1583-1655). Biógrafo de

Camões.

4. Macedo: Frei Francisco de Santo Agostinho,

tradutor de Os Lusíadas em versos latinos.

21. Manuel Côrrea. 0 primeiro comentador de Os

Lusíadas.

22. Manuel de Faria. Manuel de Faria e Sousa,

comentador de Luis de Camões e autor de Lusíadas de

Luis de Camões, príncipe de los Poetas de España.

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lisonjeam da brevidade. Esses livros, que tratam imensas

matérias, tem por qualidade principal serem difusos,

porque se acham neles esplanadas as dúvidas,

descutidos os pontos com erudição co-5 piosa, que não

pode haver nos opúsculos limitados. É cada livro dessa

sorte uma livraria, como vemos em Teodósio Zuinglio, que

com um só livro fez teatro universal a toda a sapiência.

Quevedo. Direi o que vi do comento do Faria,

10 que, sobre ser eruditíssimo, afectou excessivamente

a prova de algumas opiniões improváveis, que o

fizeram resvelar a perigoso, como de muitos varões

doutos e pios foi julgado.

Autor. Há mais certos comentos manuescritos:

15 um de João Pinto Ribeiro, outro de Aires Côrrea, que

depois reduziu a melhor forma Frei Francisco do Monte.

Lípsio. Como se julgava deles? Autor. Como de seus

autores.

20 Lípsio. Bem definistes, porque os autores não somente

se parecem com os médicos na fé que se tem com

eles, mas também com as próprias mezi-nhas: está

ardendo em ânsias um febricitante, e lhe lançam

sanguexugas! Que cousa menos pare-

25 cida com mezinha, que um bicho feio e guloso do

sangue humano! Vem a opinião, e nos faz recebê--las,

pedi-las e estimá-las por diligência saudável. São desta

sorte os autores, que, em virtude da sua reputação,

lemos um capitulo, um discurso, às vezes

30 alheo ou derramado do assunto, e todavia, por ser cujo

é, nos vamos após ele, crendo que no cabo nos há-de

pôr em bom lugar, deixando-nos alumia-

7. Teodósio Zuinglio. Teodoso Zwinger, teólogo suíço

(1597-1654).

15. João Pinto Ribeiro: Um dos restauradores de 1640.

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dos e advertidos do que não sabíamos antes de o ter

lido.

Quevedo. Por isso eu e certo meu amigo éramos de

opinião que entre escritos e escritos não havia 5 outro

diferença senão que, antes de vistos os do sábio, se podia

jurar e dizer que naquele papel não haveria cousa má e

haveria muitas cousas boas, e nos do ignorante, ao revés,

que não haveria cousa boa nele e haveria muitas cousas

más, com 10 que sempre acertávamos.

Bocalino. Igual regra tinha o outro, para não errar

nunca nos juízos da aparência.

Lípsio. Que tal era?

Bocalino. Julgar por parvos todos os que o pa- 15

reciam e ametade dos que o não pareciam.

Lípsio. Por essa se governava um cortesão, dizendo

[que] quem não quisesse errar presumisse o pior

sempre.

Bocalino. Ainda que pareça mal, me arrimo com 20

demasia à perigosa maldade. Bem vejo que foi providência

haver no mundo talentos desiguais, como vemos que criou

Deus estrelas nublosas entre as claríssimas! Se todas

luziram com igualdade, não houvera fermosura; se todas

se mortificaram, igual- 25 mente escurecidas, não houvera

beleza!

Autor. Amigos, vamos com o nosso poeta por diante,

que ainda são mais os que entenderam com ele.

Bocalino. Todos portugueses?

30 Autor. Todos; porque, se o melhor remendo é

do pano próprio, a pior bainha é do mesmo pau.

O abade João Soares e o sancristão Manuel Pires

levantaram sobre o triste Camões novo aqui-del-

32. João Soares: Padre João Soares de Brito,

autor de uma apologia de Luis de Camões.

Manuel Pires: Padre Manuel Pires de Almada, comen-tador

de Os Lusíadas.

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-rei, com uma apologia e uma defensa, que Deus lhe

perdoe. Fora outras demandas e repostas, ou libelos e

contrariedades que sobre o seu comento se puseram D.

Agostinho Manuel e o mesmo co- 5 mentador Manuel de

Faria e Sousa.

Lípsio. Há ainda mais camoístas?

Autor. Houve um Rolim e um de Galhegos.

Lípsio. Ambos sábios, segundo tenho ouvido.

Bocalino. Ambos; e, conforme deles se diz, am- 10 bos

daqueles que sempre sabem o que não importa, como há

muita gente neste tempo.

Quevedo. Pois de que se queixa destes dous o

vosso Poeta?

Autor. De que lhe querem pôr a honra em ba- 15

lança.

Quevedo. Ora vá-se embora Galhegos, que galegos

na vossa terra são melhores para alcaides que para

escrivães.

Lípsio. Se lhe dói todavia alguma cousa de novo 20 ao

senhor Luís de Camões? Porque, sob pena de nossas

vidas, havemos de procurar sua saúde.

Autor. Sim, senhor: tem uma fermosa dor de ilharga.

Lípsio. Qual? 25 Autor. Que com pouca consciência

se atrevam alguns livreiros malvados a encadernar suas

obras juntas com a Sílvia de Lisardo.

Bocalino. Com a Sílvia de Lisardo?! Não. Isso requer

castigo e emenda! 30 Lípsio. Que sílvia, ou silva, ou

selva é essa, que não está no meu mapa, nem nas tábuas

de Cláudio Ptolemeu?

7. Rolim: D. Francisco Rolim de Moura, camo-

nianista.

Galhegos: Manuel de Galhegos, outro camonianista. 27.

Silvia de Lisardo: Colecção de poesias feita em edição de

bolso, editada no mesmo ano em que se editou Os Lusíadas.

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Bocalino. São certas obrazinhas de um poeta nosso,

cousa no- mundo muito escusada.

Autor. Contudo, se afirma que era homem douto e

religioso. 5 Bocalino. Jurara-o eu, porque nunca vi

frade bom poeta.

Autor. Rigoroso estais! Parece que não vistes os versos

de Vicentino Carvalhal, frei Agostinho de Jesus, e os

modernos de D. Félix de Arriaga, que 10 era frei Hortênsio,

o mais insigne orador de Espanha; e os de Tirso de

Molina, aliás frei Gabriel Teles.

Lípsio. Contudo, não disse mal Bocalino, por mais que

sempre diga mal. A razão é clara, por- 15 que dos dous

pólos em que funda a poesia, que são amor e ociosidade,

nenhum deles se pode achar verdadeiramente em os

varões religiosos, em quem a mortificação se opõe ao

afecto, e a disciplina ao ócio. Logo, como a poesia seja um

estudo de mui- 20 tos estudos, o qual de todo arrebate a

mente de seus professores, jamais se compadece perfeita-

mente naqueles que, exercitando ciências mais altas, se

reservam talvez a esse acidental divertimento; donde nasce

que, faltando o exercício da- 25 quelas subtis ideas, a

variedade daquelas sérias palavras, a frequência daqueles

agudos conceitos, ornados de razões pomposas, que tudo

vem a ser as plumas mais louças de que a poesia se

reveste, não pode ela* nunca campear nos escritos casuais

30 com igual galhardia à que seu culto requer, que só se

acha, quando se acha, em os famosos espíritos, que,

abstraídos de outra ocupação, de todo se entregam à doce

prática das Musas.

Autor. Estou satisfeito nesta parte, sendo dúvida

11. Tirso de Molina — é pseudônimo de Frei Gabriel

Teles, notável autor dramático espanhol do século XVII.

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que muitas vezes adverti e solução que poucas vezes

achei; porque também me achei poucas vezes mão por

mão com o Senhor Justo Lípsio.

Lípsio. Mais lhe dissera a vossa mercê meu amigo 5

Júlio César Escalígero, se com ele tratássemos estes

casos de consciência; mas para um filósofo isto basta,

suposto que a poesia também é parte da filosofia, e não

menos ilustre; donde o nosso Aristóteles se empregou

tanto na poética como nas polí- 10 ticas e nas éticas, e nas

mais ciências do céu e da Terra.

Quevedo. Não devia de saber isso um rapaz

estudante do meu lugar, que, brigando com outro

de quem não levava a melhor, entre as injúrias

15 com que por vingança o desonrava, meteu o nome

de poeta entre o de patife e filho da puta.

Bocalino. Atrevo-me a conciliar esses textos em duas

palavras: ser bom poeta é glória; ser ruim poeta é infâmia.

20 Autor. Conforme ao que dizeis do mestre Estagi-rita,

não se lhe deve fazer a face vermelha a um príncipe, a um

ministro e a um ancião, de se empregar na lição poética?

Lípsio. O Menante tem seus embargos contra os 25 que,

passando de cinqüenta anos, folgam com os consoantes.

Bocalino. Assim o vi resolver nas Cortes do Parnaso,

donde fiz este aviso.

Quevedo. Todavia lembro-me que, falando em 30 uma

audiência pública ao discreto Marquês de Alenquer,

depois de Vice-rei e conselheiro de Estado, me perguntou

por certos versos que eu por aqueles dias havia feito.

Disse-lhe: Aqui os trago,

5. Júlio César Escalígero: filósofo e médico italiano do

sec. xv-xvi, autor de uma Poética.

20. Mestre Estagirita: nome que se dá a Aristóteles por

ser natural de Estagira.

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mas dirá esta gente que falamos em versos —, ao que me

respondeu: — Vengan, senor, que mayor injuria les

haremos nós otros diziendo que ellos no hablan en

versos. 5 Autor. Bem está; mas, se tanto nos detivermos

com as primeiras queixas, mal poderemos remediar as

últimas.

Bocalino. Em suma, qual é a enfermidade de Luís de

Camões, da fome em fora?

10 Autor. É...

Bocalino. Ora não passeis adiante, porque não é

justo. Valha-me Deus! Porque não sofre, pois é

honrado? Tão pouco lhe parece ser o melhor poeta de

Espanha? Entre os heróicos o mais venerado,

15 o mais aplaudido? Aquele que despojou da sua

primazia a língua castelhana, que se pôs barba a barba

com o nosso insigne Tasso? Ombro por ombro com o

mantuano Virgílio? Rés por rés com o grego Homero?

Faltam-lhe porventura, se lhe fal-

20 tou dinheiro por desgraça, glosas, comentos, expo-

sições, e ser citado e demandado pelos melhores

autores do nosso tempo? Se quatro parvos pedintes lhe

quiseram pôr o pé diante, que importa, se deu com eles

de avesso ao primeiro cambapé? Ignora-

25 mos sua vida, desprezamos sua memória? Não são

estimadas suas obras, até as de maior descuido? Pois

que lhe dói, de que se queixa, quem lhe fez mal? Ora

contente-se, que, se na vida foi dos mais mofinos, foi

na morte dos mais Venturosos; quanto

30 mais, que todos sabemos quanto importante tem sido a

providência deste a que nós chamamos cegamente

desconcerto da fortuna. Porque, se o prêmio da virtude

logo se dera de contado na vida, quem fora tão

paciente que esperara para depois o prêmio da

imortalidade?

17. Tasso: Torquato Tasso, notável poeta italiano, autor

do poema Jerusalém Libertada.

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Lípsio. Vamos avante. E essoutro que está junto ao

Camões, que por acenos parece que se queixa

igualmente, quem diremos que é?

Quevedo. Oh! Muito é que, sendo do nosso 5 ofício,

o desconheçais!

Bocalino. Ou já por isso o desconheço, que não

debalde diz o rifão: — Quem é teu inimigo? Oficial do

teu ofício.

Autor. Aquele é o nosso Francisco de Sá de Mi- 10

randa, que em sua vida e escritos encerrou toda a moral

filosofia.

Bocalino. É este por quem disse Diogo de Sousa no seu

Parnaso: «poeta até o embigo, os baixos prosa». J5 Autor.

Essa foi uma travessura de um bargante, que, não

embargante, maldito o mal que lhe tem feito.

Lípsio. Muito bem, muito bem! Este é o Sá de Miranda.

Desejava encontrar-me com ele, porque 20 em algumas

epístolas latinas que me escreveu vosso natural, e meu

grande amigo Francisco de Fontes é várias vezes citado o

Sá de Miranda, que com várias sentenças socorre toda a

doutrina áulica.

Bocalino. Pois, como sendo tão avantajado 25

poeta, o não tendes visto?

Quevedo. Eu responderei por todos. É tão vernáculo

em seu estilo, tão cerrado português, que nenhum

estrangeiro pode entendê-lo.

Lípsio. Assim passa, e foi costume de famosos

30 homens esconder altos conceitos e misteriosos, como

os egípcios, em estilo tosco; o qual observaram os

mesmos profetas, a quem o Espírito Santo aparou

as penas, como se vê que, porque Isaías e Jere-

12. Diogo de Sousa: Diogo Camacho, poeta satírico do

sec. XVII.

21. Francisco de Fontes: gramático e poeta do século

xvii.

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mias foram cortesãos, escreveram com penas delgadas e

em figuras políticas, e ao contrário Amos e Joel, como

homens do campo, tomaram dele os tropos e as razões

de sua profecia. 5 Bocalino. Novidade me foi contudo o

nome deste autor Fontes, que alega o Senhor Lípsio, por

ser pessoa que nunca vi nem encontrei.

Autor. Foi filho de Lisboa, quase dos nossos tempos,

destro nas armas e cortesanias, com pro- 10 funda notícia

de humanidades.

Lípsio. Direi o que já disse dele: que na língua latina

foi só o homem a quem na Europa tive inveja.

Autor. Bem vos merece esses elogios, pelos que 15 vos

fez na Apologia que estampou, defendendo alguns lugares

de vossas obras, em que à treição vos esperavam os

críticos de alcateia.

Bocalino. Quem mais lhe faz companhia neste tomo a

Camões e Francisco de Sá, e essoutra mere- 20 triz da

Sílvia de Lisardo?

Autor. Parece-me que é um castelhano.

Quevedo. Acabai de dizé-lo, em que vos pês. Não é

menos que o grande Garcilaso, rei dos líricos. 25

Bocalino. Sim, ele é, porque se mete de gorra com os

grandes poetas.

Quevedo. Mas se cuidareis vós que lhe vem larga a

igualdade?

Bocalino. Arrenego delas, que, por escusá-las, me 30

não casei. Não há matéria no mundo mais perigosa que

medir sangues e pesar talentos.

Quevedo. Não lhe fareis justiça a Garcilaso,

15. Francisco de Fontes, escreveu uma apologia de Justo

Lípsio e Érico Puteano.

23. Garcilaso: Garcilaso de Ia Vega (1503-1536); poeta

castelhano.

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quando ao menos o não denuncíares por príncipe dos

poetas castelhanos!

Bocalino. Eu direi neste caso o que já disse noutro o

nomeado Beltram Descalqui ao vosso D. Pe-5 dro, o

Cruel, na sua civil luta: — Não tiro reis, nem ponho reis;

com quem venho venho. Porém olhai, senhor compadre

Quevedo, que confesso que esse toledano Garcilaso foi

suave e que para os escuros tempos em que madrugou

acendeu uma

10 nova luz de que recebesse claridade o vosso idioma;

mas, se vai a falar verdade, não a tenho por marca de

tantos aqui-d'el-reis, como sobre e lalevantaram

Francisco Sanches Brocense em suas Notas, e Fer-

nando de Herrera em seus Comentos.

15 Quevedo. Levais jeito de duvidar a esse mesmo

Herrera, o cognomento de Divino, pelo qual é chamado

da antigüidade!

Bocalino. Essa demanda lhe ponha Platão, que para

mim me basta conhecer que o divino Herrera

20 foi um clérigo muito humano, ou muito desumano

poeta, em quem se não acha verso algum donde se

não descalavre uma nau da índia de Portugal, ou

uma mãona de Florença, se chocarem com eles.

Quevedo. Vejo-vos, logo, o semblante de vos en-

25 fadares de Boscán !

Bocalino. Vedes bem. Por onde achei muita graça

ao vosso Gôngora, quando disse que mais quisera ver

um touro solto no campo, que ver desde palanque um

verso solto deste poeta. E mais

13. Francisco Sanches Brocense: catedrático de Retórica

em Salamanca, que publicou em 1574 a primeira edição,

comentada, de Garcilaso. — Fernando de Herrera — publicou

em 1580 as Obras de Garcilaso de Ia Vega' «con anotaciones».

23. Mãona: embarcação antiga. 24-25. Enfadares:

enfadardes. — Boscán: poeta castelhano, amigo de Garcilaso.

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vos digo que até com o próprio João de Mena, mas

que o socorra o seu prepotente D. João, o Segundo,

estou de Candeas às avessas, se nos não ouve aqui

Fernan Nunes de Leon, o comendador

5 grego seu comentante, pois como Píndaro espanhol,

como vós chamais a Francisco de Figueiroa, vos digo

eu sempre o tive por poeta do Limbo, que no mesmo

grau está com a inocência o Bachiler de Ia Torre.

10 Autor. Conformo-me com a disgraça em que a guerra

vai, entre Espanha e Itália. Deus desavenha quem nos

mantenha.

Lípsio. Ora paz, cavalheiros! No se maten tales dos.

15 Bocalino. É vilhacão, mas eu sei que o não dizia por

tanto. E vós, Senhor D. Francisco, também sabei que,

se conferirmos os estilos dos poetas antigos e

modernos, estes farão muita vantagem àqueles, porque

a argentaria e lentijuela que hoje se

20 gasta é sem dúvida mais brilhante e agradável que a

melancólica frase dos antigos. Se hoje ressuscitassem

ao mundo aqueles famosos Símacos, Orfeus e

Clenandros, e ateimassem em trajar o entendimento

pelas medidas do tempo entanguido, a gente

25 fugeria deles. Não digo, por isto, que deixemos de

venerar e reconhecer mil brasas ardentes, dissimu-

ladas por entre aquelas cinzas frias, como vemos

1. João de Mena (1411-1456): outro poeta castelhano.

4. Fernan Nunes de Leon — Fernando Nunes de

Gusmán, notável helenista.

6. Francisco de Figueiroa: poeta espanhol, denomi-

nado o Divino (see. xvi-xvil).

8. Bachiler de Ia Torre: Francisco de Ia Torre,

escritor espanhol (sec. xvi).

22. Símaco: Quinto Aurélio Símaco (345-405), orador

romano cujos escritos se caracterizam pela afectação. —

Orfeu: filho da musa Calíope. — Clenandro — é nome que não

conseguimos identificar.

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em o ouro, que, nascendo de um parto com a Terra, não

apodrece em suas entranhas, antes por benefício da

idade se sublima em valor e pureza. Nego, contudo, o que

afirmam outros, que só em aqueles 5 primeiros séculos

fosse liberal a natureza em produzir altos juízos; porque o

mundo, se bem é verdade que se há-de acabar, não se

há-de desfazer primeiro que se acabe. Com todas suas

forças e faculdades se há-de ir à sepultura, e até o fim

per-

10 manecerá na própria ordem em que começou, con-

vindo assim ao maior espanto dos vivos e mais

admirável crédito da Omnipotência; porque tem

proporção que, assim como Deus de nada fez tudo, de

tudo faça nada; e, como o mundo nunca ascen-

15 deu por graus sucessivos à sua perfeição, não desça

por outros tais à sua aniquilação. Porque, se o mundo

fosse por graus sucessivos caducando em suas

operações, fácil conseqüência e pequena maravilha

viera a ser depois o fim dele. Além de que

20 não faltara ignorância que presumisse fora também

autor de si mesmo; mas obrar hoje o mundo como o

primeiro dia de sua criação e acabar-se amanhã é

mistério que inculca todos os espantos e encareci-

mentos. Honrai, Senhor, a antigüidade, para que

25 da posteridade sejais honrado; mas não honremos uma

por desonrar outra.

Quevedo. Morto é este brichote por nos vender caro

o que já temos comprado a menos preço. Assim é nos

livros, assim é na conversação; mas

30 enfim, ele é velho; soframos-lhe que advogue por sua

causa, quanto mais que os antigos também foram

modernos e nós também havemos de ser alguma hora

antigos.

Autor. Vamos, amigos, adiante, que a obra é grande

e o tempo pouco.

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Lípsio. Foi justa e antiga queixa de Hipócrates,

quando exclamou: — Oh, arte, como és longa! Oh,

vida, como és breve!

Quevedo. Pois que queria esse físico ? Viver ainda 5

mais, para que nós vivêssemos ainda menos?

Bocalino. Cruel fostes sempre com os médicos!

Quevedo. Como vós insofrível com os vene-zianos; mas

os médicos todavia são mais cruéis para mim e para o

mundo todo. 10 Lípsio. Seu tempo virá de averiguar esses

excessos. Passemos por ora adiante àquele leito, onde

não faltam lastimosas querelas. Lede, Autor, que eu estou

já velho e não vejo sem óculos.

Bocalino. Essa é a maior queixa que tem da vossa 15

crítica os escritores, dizendo muitos que lhes emen-dastes

lugares porque os não vistes, ou porque os não

entendestes, que vos estará pior.

Lípsio. Confesso que ainda é maior aleijão trazer o juízo

na vontade, que a vista na algibeira. Jul- 20 guei, sem

embargo, como vi e entendi, mas digam--me a quem fiz

agravo, por que os leitores, se se não conformam com a

minha correcção, sigam embora o primeiro erro, e os

autores, se erraram e folgam de desacertar, errados se

fiquem para 25 sempre, que eu protesto sair-me do casal

somente com o dote do grande estudo, que me custou sua

emenda.

Quevedo. Não vos escandalizeis de um mundo que há

tantos tempos que conheceis. Seu costume 30 é nem

sentir injúria, nem agradecer benefício. Por isso, dizia um

bacharel, meu compadre, que sabia o que dizia, que a

cada audiência se lhe perdiam vinte chapéus por dez

sentenças que dava; porque os que levavam a seu favor as

sentenças, como já o não haviam mister, nunca mais lhe

tiravam o

1. Hipócrates: o mais célebre médico da anti-

güidade.

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chapéu; os que saíam condenados, claro está que lho

não tirariam mais.

Bocalino. Dias há, que com cem bens não obrigamos tanto

como desobrigamos com um só mal. 5 Lípsio. Adiante,

Senhores, que o grito daqueles pobres não consente os

nossos descansos. Bocalino. Quem são agora estes tão

doloridos? Autor. Dir-vo-lo-ei: D. Luís de Gôngora é o

primeiro, que está atravessado de mil pontadas e 10 delas

a que mais lhe toma o alento é a consideração de que,

sendo ele pessoa principal, cujo pai, D. João de Argote, foi

corregedor de Madrid, que val como entre nós Presidente

da Câmera e sendo homem de engenho tão aplaudido e

sublimado, não pôde 15 jamais passar de racioneiro de

Córdova, que, trocado em miúdos, é como se disséssemos

quartanário — ofício que só para amansar leões foi bom

neste mundo.

Lípsio. Se, a fim de curar fortunas e méritos, 20 Apoio

mandasse fazer esta Junta, não éramos nós outros os que

a ela havíamos ser chamados: todos os signos do céu,

todos os planetas se achariam ainda incapazes de tamanho

negócio. Dizei ao Gôngora que não faremos pouco, se o

aliviarmos das 25 dores do ofício; que das da sorte apele

só para Deus. Quevedo. Se esse livro de Gôngora é o que

intitularam Horácio Espanhol, adverti que lhe doerá a

diminuição com que o imprimiram, faltando no melhor e nos

melhores versos. Se é o que publicou

8. D. Luis de Gôngora (y Argote) (1561-1627): famoso

poeta espanhol, cujo estilo exageradamente rebuscado

(gongorismo), foi muito imitado, tanto em Espanha, como em

Portugal. As suas principais obras são: Soledades, Piramo y

Tisbe, Polifemo.

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com nome de Obras de Gôngora D. Gonçalo de Hozes,

mais depressa lhe doeria o ver-se adulterado e cheio de

erros enormes, e com os ossos descon-juntados, cousa

que tarde torna a seu lugar. 5 Autor. Seguem-se os

Comentos; o primeiro de lições solenes, de D. Joseph

Pelicer.

Quevedo. Também o Pelicer é solene I

Bocalino. A esse comentador não deve o Gôngora

alguma honra, antes a ser mais casto lhe pudera 10

demandar a sua, porque com pouco empacho, que em

latim se chama pouca vergonha, se põe Pelicer não

poucas vezes a ilustrar os ilustres lugares do Gôngora,

com outros de suas obras do mesmo Pelicer, sendo

homem que nos seus tempos fugiam 15 dele as discrições,

pouco menos que a gente fugia dos pós de Milão.

Autor. Seguem-se o Polifemo, Soledades e Rimas, de D.

Garcia Coronel de Salzedo, e a Tisbe de Cristóvão de

Salazar Mardones. 20 Quevedo. Por me ver livre de

comentos, dei em falar como minha dona.

Bocalino. E por sinal, que tanto pelo claro em vossas

bargantarias, que fostes com justiça censurado por

obsceno dos varões sábios e compostos; 25 porque a

galantaria tem seus termos e a travessura entre a gente

principal é uma comarca tão estreita, que não passa a cada

um da porta da câmera para fora.

Quevedo. Aceito a repreensão, por entretanto que

1. D. Gonzalo de Hozes (y Córdova), que em 1634,

juntou cento e cinqüenta peças novas, as comédias de Las

Finezas de Isabela, La Venatoria e fragmentos do Doctor

Carlino, estas últimas obras dramáticas sem interesse real a

publicação de Viçaria feita em 1627.

6. D. Joseph Pellicer (de Sal as y Tovar) (1602--1679)

—comentou várias obras de Gôngora.

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vos trago à memória as befas da Itália, desde o vosso

querido Francisco Berniza até o Marineide e Morteleide do

Marino e Murtola, podendo não menos lembrar-vos no seu

Adónis o cantor de Bacey, 5 o Lesbio do Tasso, que deu a

entender a tanta gente, e todas as liberdades desonestas

que pela vossa terra se admitem à estampa, que em

Espanha são condenadas a perpétuo silêncio; porém

ficará meu direito reservado para outro tempo.

10 Bocalino. É sem dúvida que o vosso Gôngora foi

tentado de se meter com Estácio Papínio, seu matalote,

que ganhou mais nome pelas sombras que pelas luzes.

Quevedo. Pois parece-vos que esse Papínio foi

15 mais sábio ou mais elegante no seu idioma, que

Gôngora em o nosso?

Bocalino. Valha-me Deus! Tão obrigado lhe estais?

Deve de ser, logo, mentira, que não escreveu ele por

vós aquele soneto, que começa: Cierto poeta

20 en forma peregrina — e vós por ele o soneto: Yo me

untaré mis versos con tocino.

Quevedo. Se foi verdade, me não lembra; mas

também creio que foi mentira que levantaram os

intérpretes a Bartolomeu Leonardo de Argensola,

25 julgando a sátira contra o Gôngora, que já ouvireis: Si

aspiras ai laurel muele poeta.

Bocalino. Não vos quisera ver tão sábio nos alei-

1. Befa (it. beffa): «bargantaria».

2. Berniza (Bernia ou Berni), Marino e Mortula (Mortola).

— Poetas jocosos italianos do sec. XVI. O primeiro

escreveu Rime Giocose: o segundo escreveu o poema

Murtoleide contra Murtola; e Murtola escreveu o poema

Marineide contra Marino. — Na literatura italiana Marino

está como Gôngora está para a espanhola.

5. Lesbio (Lesbin) — é personagem do poema

Jerusalém Libertada, de Tasso.

12. Matalote: companheiro de viagem.

24. Bartolomeu Leonardo Argensola: poeta e historiador

espanhol (1562-1631).

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vés, além de que é dito das velhas que aquele te fez a

sátira que diz a trova.

Lípsio. Este Gôngora começou a ser nomeado

pelo mundo depois que eu saí dele; mas lembro-me

5 que, sendo chamado depois às cortes do Parnaso,

ali estava Bocalino, que me não deixará mentir.

Bocalino. Deixarei, deixarei, e não só vos deixarei

mentir, mas até mentir por vós, se quiserdes, porque, além

de ser cousa que me custa pouco traio balho, por outros

menti eu já, a quem se deve menos respeito.

Lípsio. Para cousas mais dificultosas quisera

valer-me de vós, que, quanto é mentiras, em gaze-

teiros curiais e regaglistas, é fruta de todo o ano.

15 Bocalino. Vamos ao que vos sucedeu no Parnaso ?

Lípsio. Digo que, achando-me nele um dia que se

julgavam os méritos dos poetas castelhanos, cer-tefico-me

que ouvi dizer a Apoio que dos viventes a nenhum

estimava mais que a D. Luís de Gôngora. 20 Quevedo.

Deponho em modo que faça fé, dizendo ao costume.

Bocalino. Não foras tu jurista! Senão, armaras

trampas à fé e palavras.

Quevedo. Torno a dizer que não fui amigo desse 25

zote, mas que do seu alto engenho não vi outro mais

afeiçoado. Todos os que em seus dias e depois deles

versificamos temos tomado seu estilo como traslado do

Palatino, Barata ou Morante, para ver se podíamos

escrever, imitando aquela alteza, que 30 juntamente é

majestade. Poucos o conseguiram, precipitados, como

demônios, do resplandor às trevas; donde disseram muitos

mal-intencionados que este engenho viera para maior dano

que proveito do mundo, pondo Sòmente os olhos nos

desbaratados, 35 e não nos instruídos.

Lípsio. Assim é, porque da mesma sorte que se as

estrelas não tivessem luz própria não seriam capazes

de receber a luz do Sol, os talentos que não têm

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própria grandeza não podem participar da adque-rida pela

doutrina ou pelo exemplo; antes quanto um juízo grosseiro

mais pertende adelgaçar-se com o artifício, se gasta em

vão e se enfraquece, e no 5 fim fica perdido, mas não

delgado; exausto, mas não agudo. As idéias subtilíssimas

não se produzem de sujeitos baixos, porque os homens

proporcionalmente são fabricados em alma e corpo. Pelo

que já Aristóteles com muitos dos peripatéticos e naturais

10 quis entender que na felice organização e compostura

humana consistia o uso do melhor juízo, como vemos que

cerra e abre mais leve e facilmente a porta bem fabricada,

que a pesada, tosca e torpe.

Autor. Agora falarei eu, por não estar satisfeito 15 do

muito que nesta matéria se tem dito.

Lípsio. Dizei.

Autor. Pois, se isso assim é, como nos pintam tão

enormes aos filósofos, que até o mesmo Diógenes Laércio,

quando escreve suas vidas e costumes os 20 demostra

medonhos?

Llpsio. É questão física, e não moral, sobre ser das

menos vulgares. Vemos todavia que a sábia e provida

natureza encerra o precioso diamante nas entranhas de um

rudo penedo, e assim as mais pre- 25 ciosas pedras; o ouro

e a prata depositou entre os torrões bárbaros do centro da

Terra, donde parece não contradiz a fealdade à discrição.

Bocalino. Porventura que por essa causa se diga são as

fermosas nécias, e as feas entendidas. 30 Quevedo. A

outro princípio o atribuiria eu.

Autor. Qual?

Quevedo. À justiça da Providência; porque, como

se podia pagar o dano que faz em uma mulher a

fealdade, senão com o entendimento? Ou com que

35 se podia humilhar a soberba de uma fermosura,

senão com a necedade?

18. Diógenes Laércio: filósofo e historiador grego.

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Lípsio. Deixemos já a Gôngora. Quem se segue?

Autor. Aquele a quem seguiram todos: o aplaudido e

universal poeta Lope de Vega Cárpio.

Bocalino. Tende mão! Em perigoso clima esta-5 mos; não

há para a saúde maior contraste, que passar de um

extremo a outro extremo: de Gôngora a Lope! Mas quanto

vai, que ficamos todos encatarroados?

Lípsio. Que obras são essas de Lope? 10 Autor.

Infinitas: todas as partes das comédias se oferecem

primeiro.

Lípsio. Elas também são as primeiras, querendo dizer

melhores obras de Lope.

Quevedo. Basta que fosse o príncipe e inventor 15

delas.

Bocalino. Não te ouça Polidoro Virgílio!

Quevedo. Esse inglês é trapaceiro, porque nesse seu

livro dos inventores das cousas a cada passo nos vende

gato por lebre, dando e doando as pri- 20 mazias a quem

se lhe antoja, com pouco temor de Deus. Porém, antes que

saiamos daqui, se o eu encontrar, eu lhe darei seu recado,

como ele merece.

Bocalino. Os toledanos se prezam de o seu João Rufo

ser mestre de Lope de Vega nas farsas, e 25 acrescentam

que D. Guilherme de Castro, Mira de Mescua, e Ximenes

de Enciso foram seus contemporâneos, todos discípulos do

culto jurado, como já lhe chamou o culto poeta.

3. Lope de Vega Cárpio (1562-1635): célebre

poeta, comediógrafo e dramaturgo espanhol.

16. Polidoro Virgílio: historiador italiano do século xv-xvi.

24. João Rufo: João Rufo Gutierrez, poeta espanhol.

25. D. Guilherme de Castro (y Belvls) (1569-1631), Mira

de Mescua (ou Amescua) (1578-1635) e (Diego)

Ximenes de Enciso (1585-1633)—dramaturgos à maneira

de Lope de Vega.

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Quevedo. Assim foi, mas todos nossos antigos,

embaraçados com os exemplos dos primeiros co -micos,

se não determinavam a despir as velhas farsas de sua

prolixidade, reduzindo a comédia a mais 5 agradável e

conveniente forma. Veio Lope e se resolveu, à vista

daquela desconveniência, em derreter o estilo e traça das

comédias antigas, e moldar delas, como moldou, a nova

comédia, tão agradável ao mundo, que justamente se

pode chamar a este

10 poeta pai e senhor da farsa espanhola.

Bocalino. Foi Lope, por essa conta, poeta alqui-

mista.

Quevedo. Não tendes razão, que, certo, que nenhum

desses que celebra a antigüidade, bebeu mais

15 folgadamente as águas de Helícona; donde proce-

cedeu a grande e suave cópia de seus versos, afir-

mando de si que correspondera cinco folhas de papel

impresso a cada dia de sua vida.

Bocalino. Agora, por essa cópia, me veio à lem-

20 branca o que acerca dela disse em Madrid um certo

domine da minha pátria a outro capigorrão espan-

tadiço.

Quevedo. Como foi o caso? Contai-no-lo, se não é

do número dos casos desestrados, que fazem

25 agouro ouvidos, como o sal derramado na mesa de

tacanho.

Bocalino. Eis ali vai Lope de Vega — dizia o parvo

do castelhano —, que é tão grande poeta, que por

amor de um seu amigo, fez em uma noite

30 uma comédia, com loa e entremeies, que é a cabe-dela

do contentamento. Sorriu-se o nosso caporal e lhe

tornou: — Senhor, se assim foi como dizeis, tendes

provado que é bom amigo, mas não bom poeta.

35 Autor. Faço-me que não sou da briga. Vós, Senhor D.

Francisco, ides e ides acumulando à vossa nasção

toda a glória desses inventores ou contendo-res do

principado da comédia, não vos lembrando

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dos portugueses, como se Gil Vicente não fosse o

primeiro cortesão e mais engraçado cômico que nasceu

dos Perinéus para cá, a quem seguiu, e não sei se

avantejou, Antonio Prestes, Antonio Ribeiro, que 5 foi o

nomeadíssimo Chiado, Sebastião Pires, Simão Machado

nas comédias de Dio e de Alfeu, e, por outro modo, das

que em prosa se escreveram, o ilustre Jorge Ferreira,

autor da Ulissipo, Aulegrafia, e dizem que Eufrósina;

Francisco de Sá nos Estran-

10 ceiros e Vilhalpandos; Luís de Camões no seu Anfitrião,

e Estratónica, de quem agora o tomou Lucas Assarino,

e outras obras em que todos os nossos foram insignes.

Quevedo. Devem-me, logo, os portugueses essa

15 restituição.

Autor. E a mim outra, o estilo cômico; porque o não

julgava merecedor de tanto séquito, pare-cendo-me

mole ocupação de ociosos.

Lípsio. A comédia é uma gentil parte de toda a

20 poesia, em a qual por exemplos agradáveis se dá a

beber a todo o povo um famoso documento e lição

contra as trapaças do mundo, o qual modo não só dos

nossos maiores foi admitido com grande aplauso, mas

também dos modernos e vivos; por-

25 que eu me lembro ouvir muitas vezes a meu amigo

Erício Puteano, que me sucedeu em Lovaina, na

célebre Cátedra de Erudições, não desejava a vida

para empregar melhor seus curiosos estudos, que na

tradução de todas as comédias de Lope de Vega,

30 convertendo-as em nossa língua flamenga, em a qual

deixou algumas já postas em limpo, não curando da

composição latina, em que ele foi eminente.

Bocalino. Já que falais nesse vosso morgado Pu-

11. Lucas Assarino — escritor espanhol, de origem

italiana.

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teano, dir-vos-ei que nunca me assombrou com suas

obras.

Lípsio. Grande foi, a juízo de todos; e, quando outra

aprovação não tivesse, mais que os favores 5 com que o

tratou o Papa Urbano VIII, sem parar neles, até se não

fazer seu compadre, esta só demonstração bastava para

seu crédito.

Quevedo. Urbano, quando Maffeo, foi poeta ele-

gante, latino e vulgar, cujos versos se acham estam-

W pados em muitas partes de Itália, e bem se viu a afeição

que teve às consonâncias, no cuidado com que reduziu

alguns antigos hinos da Igreja à observância poética, de

que se achavam desviados. Bocalino. A esse humor aludia

a praga daquele

15 travesso quanto engenhoso Duque de Féria, quando,

com mais agudeza que piedade, dizia: Bien governado

mundo se nos aparela, pontífice poeta, emperador

dançante e rei de Esparta corista. Porque o emperador

D. Fernando II se deleitava com

20 demasia no sarau, e El-rei D. Filipe IV na solfa. Autor.

Ainda ele não tinha visto o de Portugal, perfeitamente

sábio na música.

Lípsio. São ciências altas, que não há que estranhar

quando agradem a espíritos divinos. Não está

25 o perigo da afeição dos príncipes, quando se lhe

afeiçoem, na incompetência, mas no afago e doçura

deste exercício, bastante a lhe cativar o gosto e

inficionar as mentes, com dano da administração

pública.

30 Bocalino. Ainda não acbámos com o Puteano, e temos

a Lope de Vega em pé, esperando a receita com que

deve ser curado.

Lípsio. Foi nas cartas sobremodo elegante e con-

fiado.

35 Autor. Eu vos direi o que me sucedeu com ele,

8. Urbano. — Nome secular do Papa Urbano VIII

Maffeo Barberini.

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não há cem anos. Estando de caminho de Espanha para

Flandes, se me ofereceu um seu filho, por nome Felipe

Hérulo Puteano, com uma carta aberta de seu pai, Erício,

pessoa com quem eu até então 5 não tinha mais que o

público conhecimento de suas obras. Quando fui ler a

carta, achei que trazia por sobrescrito: Aos sábios e

nobres varões do mundo!

Bocalino. E que dizia nela?

Autor. Dizia que seu filho Hérulo sairá de sua 10 casa para

ver algumas Cortes dos príncipes da Europa e, porque ele

o mandava sem mais cabedal que esta recomendação,

rogava muito aos virtuosos lho amparassem e reduzissem

à sua presença.

Bocalino. E que fizestes? 15 Autor. 0 mesmo que ela

pedia, de que ficou agradecido e correspondeu depois

comigo em muita amizade.

Bocalino. Não sei se foi soberba entenderdes que essa

carta falava convosco! 20 Autor. Se todos dessem nessa

humildade, aquela boa obra se não faria.

Bocalino. Sabei que há uns bensfazeres que são

finíssima usura!

Autor. E uma modéstias que são a mesma hipo- 25

cresia. A todo o propósito me não arrependi do bem que

fizesse.

Quevedo. Ora basta, e nos dizei que livro é

essoutro que se segue às comédias.

Autor. É a Epopéia, ou Jerusalém Conquistada. 30

Bocalino. Em outra pior estamos agora metidos. Nunca tal

livro se aparecera.

Quevedo. Seu autor julgou dele havia feito um cabal

poema heróico e, em vez de lhe sair assim,

29. Epopéia. — Obra de Lope de Vega designada por

Jerusalém Conquistada, a que o autor chamava Epopeya

Trágica.

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não há livro mais achacoso, em toda esta santa casa,

que a Epopéia de Lope.

Bocalino. Dê-se-lhe vista a Torquato Tasso. Lípsio.

Dirá como dele disse a Academia de

5 Crusca, a que respondeu com a Anti-Crusca. E se lhe

lançarmos Ludovico de Castelvetro e a Escola dos

Malcontentes, que dirão dele?

Bocalino. Não podem dizer mais do que já disseram,

nem obrigá-lo a maior excesso a censura dos

10 críticos, que a desfazer um poema tão sesudo e

abalizado, e torná-lo a fazer de novo, quase outro,

depois de público ao mundo; mas de tal modo, que se

afirmam os melhores que é melhor o poema errado —

se o é, se o foi —, que o emendado, a

15 que não pondo menor diferença entre a Jerusalém

Conquistada e a Liberata.

Quevedo. Os engenhos de Espanha foram de pa-

recer que nesta Epopéia se desaproveitara a língua

castelhana, porque, sendo seus versos os mais ilus-

20 três dela, nem por eles o poema foi ilustre.

Lípsio. Senhores, a poesia épica é carreira que

poucos no mundo tem acertado, porque são tantas e

tão várias as leis e preceitos de que consta, que vem a

ser quase impossível ao juízo humano sua

25 observância. Aristóteles a pôs em praxe, usando

daqueles escuros termos que depois se enevoaram

muito mais, pelo comento dos expositores.

Bocalino. Acabem alguma hora por isso os épicos de

se conformarem em suas regras, e haverá quem

30 possa decorá-las e satisfazê-las; mas, entretanto que

4. Academia de Crusca. — Sociedade, fundada em

1582 destinada a conservar a pureza da língua italiana. Criticou

acerbamente o poema de Tasso — Jerusalém Libertada

(1585).6. Ludovico de Castelvetro (1505-1571): escritor e crítico

italiano, que também criticou o poema de Tasso.

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uns não querem que se conte mais que um só herói,

como fez Virgílio com Eneias, e que outros admitam

muitos companheiros, como Valério Flaco em os seus

Argumentos; e entretanto que uns mandam 5 se dê

princípio aos poemas pelo princípio da acção, seguindo a

Homero em Ogígia, outros pelo meio dela, conforme ao

Mantuano com o seu herói à vista de Cartago, e que

entretanto que uns se matam sobre o final apóstrofe ou

peroração, dizendo

10 que o poeta de boa lei se devia despedir com cortesia

do auditório, falando ao mecenas a quem convidou

para ser ouvido, segundo que todos os poetas latinos o

fizeram e entre os mais elegantemente Sílio Itálico; e

outros afirmam ser demasia indecorosa, de

15 que fugiu Lucano, Tasso e Camões; suposto que

alguns vulgares a aceitassem — fique o negócio, pois,

como dantes e faça cada um o seu poema segundo