Hypnos por H.P. Lovecraft - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
Hypnos – H.P. Lovecraft

Escrito em Março de 1922

Publicado em Maio de 1923 na The National Amateur, Vol. 45, No. 5, páginas 1-3.

Em português em Dezembro de 1974 pela Revista Planeta da editora Três

Digitação por Augusto Seoni de oliveira

“A propósito do sono, sinistra aventura de nossas noites, podemos dizer que os homens

vão dormir revestidos de uma audácia que seria incompreensível se não soubéssemos

que ela é o resultado da ignorância do perigo”.

Baudelaire

(Citação feita por Lovecraft)

Se existem deuses clementes, que eles me protejam durante essas horas em que

nada no mundo pode me proteger dos abismos aterrorizantes do sono! A morte é suave,

pois que sem retorno , mas aquele que emerge das câmaras profundas da noite,

atemorizado pelo que sabe, não encontrará jamais o descanso. Fiquei transtornado

quando mergulhei nos mistérios que o homem não foi feito para alcançar. Quanta

excitação sem freios ! Quantos apetites sem controle ! No que diz respeito a meu amigo,

aquele que me conduziu, que foi mais longe do que eu, e que foi levado embora por

forças das quais até hoje eu temo o apelo, quanto a meu único amigo – era um louco, era

um deus ?

Lembro-me de que nós nos conhecemos em uma estação. Um grupo de passantes

curiosos estava à sua volta. Achava-se caído ao chão, inconsciente. Uma convulsão

tornara estranhamente rígido aquele corpo magro vestido de negro.. Devia ter 40 anos.

Seu roto descarnado era sulcado por muitas rugas, porém possuía um oval puro e uma

conformação nobre. Sua cabeleira espessa e sua barba curta apresentavam-se grisalhas.

Sua fronte era alta e alva como o mármore de Pentelicus. Sou escultor e para mim

aquele homem desmaiado era um fauno da Hélade saído das ruínas de um templo,

ressuscitado e atirado em nosso mundo opressivo para sofrer entre nós o frio e peso do

tempo. Quando ele abriu seus olhos imensos e negros senti que havia finalmente

encontrado um amigo. Pois tais olhos haviam, sem dúvida alguma, contemplado coisas

repletas de grandeza e de espanto, coisas do Além, as mesmas que desejava em sonho e

procurava em vão. Afastei os curiosos, disse àquele homem, sem preâmbulos ou

hesitações, que ele era meu mestre, meu guia, meu irmão, e ele concordou entrecerrando

os olhos . Fomos embora os dois, mudos. Um pouco mais tarde ele começou a falar, e a

música de sua voz evocava violas antigas e esferas de cristal. Conversávamos noite e

dia enquanto que eu esculpia seu busto ou gravava seu rosto no marfim.

Não me é quase possível precisar a natureza de nossas pesquisas. Somente posso dizer

que se tratava de apreender o fio de um outro universo situado além da matéria, do

tempo e do espaço. Era somente no sono que suspeitávamos a existência desse fio, ou

antes em alguns sonhos excepcionais, sonhos de sonhos, ultra-sonhos que permanecem

1

ignorados da maior parte dos homens e surgem somente uma ou duas vezes ao longo de

uma vida consagrada ao espírito.

Os sábios interpretaram os sonhos, e os deuses zombaram. Um homem com olhos de

oriental disse que todo tempo e todo espaço são relativos, e os homens não

compreenderam. Mas esse mesmo sábio percebeu apenas de relance coisas estranhas e

formidáveis. Meu amigo e eu tentamos ir mais adiante. Com a ajuda de drogas exóticas

partimos à procura de visões terríveis e proibidas. Tudo isso se passava em nosso

estúdio, na torre de uma mansão do condado de Kent.

A impossibilidade de me exprimir é a pior das agonias que eu agora atravesso.

Nenhuma língua possui os símbolos necessários para relatar o que eu senti e aprendi

durante aquelas horas de ímpia exploração. Do começo até o fim nossas descobertas

foram da ordem das sensações, mas sensações fora da escala humanidade normal. No

fundo de tudo isso havia elementos incríveis de tempo e de espaço: coisas sem

existência separada ou definida. Como me exprimir ? Mergulho lento, queda prolongada

de um vôo planado ? Uma certa parte de nosso espírito rompia com tudo que é real e

presente, seguia para abismos tenebrosos, boiava em uma substância desconcertante,

decifrando algumas vezes certos obstáculos: espécies de nuvens amorfas, vapores

viscosos...

Nesses vôos negros e incorpóreos algumas vezes nos separávamos, outras vezes nos

juntávamos. Porém mesmo estando juntos, meu amigo sempre estava muito adiante de

mim. Adivinhava sua presença, apesar da ausência da forma, por uma espécie de

memória figurada através da qual seu rosto aparecia envolto em uma luz dourada,

incrivelmente jovem, com a fronte olímpica e os olhos fulgurantes. Nós não tomávamos

notas e não datávamos nossas experiências pois o tempo tornara-se para nós simples

ilusão. Provavelmente fenômenos estranhos aconteceram, pois eu lembro que chegamos

a nos perguntar por que não envelhecíamos mais. Nossas conversações eram cheias de

ambições que se assemelhavam a blasfêmias. Um dia meu amigo escreveu um desejo

que ele não ousava proferir. Após queimar o papel, olhei através da janela, com temor o

céu noturno repleto de estrelas... Ele queria dominar o universo visível e muito além.

Um dia a terra e as estrelas se deslocariam sob seu comando, um dia ele controlaria o

destino de todas coisas vivas... Afirmo e juro: jamais compartilhei essas aspirações

extremas, e se meu amigo disse ou escreveu o contrário ele se enganou.

Chegou um dia em que forças, seres vindos de espaços desconhecidos fizeram-no

rodopiar em um vazio sem limites, além do pensamento, além de todas as entidades.

Desta vez passamos rapidamente através de obstáculos viscosos, e logo senti que

éramos conduzidos para domínios infinitamente longínquos. Meu amigo estava muito

adiante de mim nesse estranho mergulho no indizível, no obscuro e no virgem. Eu

percebia uma exaltação sinistra na imagem-lembrança de seu semblante tão jovem e

luminoso. De repente esta imagem apagou-se, eu perdi o contato e fui projetado contra

um obstáculo intransponível: nuvem amorfa como as demais, porém mais densa,

espécie de massa adesiva, se assim posso exprimir, naquele domínio estranho à matéria.

2

A luta me despertou e abri os olhos que se pousaram nas paredes de nosso estúdio. Em

um canto estava estendido meu amigo sonhador, altivo e belo sob a luz verde e dourada

que vinha da lua. Ele moveu-se. Queiram os céus poupar-me de ouvir uma segunda vez

o que então eu ouvi ! Ele gritou, gritou, e seus olhos negros, que o medo enlouquecia,

banhavam-se no inferno. Desmaiei e foi ele quem mais tarde me ajudou a recobrar a

consciência quando teve necessidade de alguém que o ajudasse a afastar de sua alma o

horror e a desolação. Foi o fim de nossas pesquisas voluntárias nas cavernas do sonho.

Exausto, tremendo e grave, meu amigo, que atravessara a barreira, disse-me que não

deveríamos nunca mais tentar penetrar no Além. Ele não ousava descrever o que tinha

visto. Dali em diante, disse-me ainda, deveríamos dormir o menos possível, permanecer

acordados, custasse o que custasse. Ele sem dúvida tinha razão, pois, com efeito, uma

espécie de pânico apoderava-se de mim desde que o sono chegava, a partir do momento

em que minha consciência se afrouxara. Mas como seria possível deixar de dormir ?

Após cada sono breve e inevitável, eu me sentia envelhecido e meu amigo muito mais.

Em seu rosto que eu tanto admirara, as rugas se multiplicaram a cada minuto que

passava. Era terrível, horrendo. Mudamos de vida. Até o momento meu amigo, que não

me contara jamais nem seu nome nem suas origens, tinha vivido como recluso, E de

repente não podia mais ficar sozinho, ainda que fosse na minha simples companhia. Era

necessário ter à sua volta um grupo de pessoas numeroso e feliz. Pusemo-nos a

freqüentar os lugares onde a juventude se reunia e lá nossa aparência e nossa idade

provocavam sarcasmos. A partir do momento em que as estrelas começavam a brilhar, o

medo se apoderava dele e ele lançava olhares inquietos em direção ao céu. Nem sempre

fixava o mesmo ponto,. No inverno era em direção ao nordeste. No verão, quase acima

de nossas cabeças. No outono, voltava-se para noroeste. E no nascer do dia era sempre

para o leste. Ao cabo de dois anos pude compreender que aquele ponto mutável donde

lhe vinha tanta angústia correspondia à constelação Corona Borealis.

Agora tínhamos um estúdio em Londres. Não nos separávamos nunca, e nunca mais

evocávamos as coisas antigas. Os excitantes que consumíamos para nos manter

despertos, uma certa dissolução, a tensão nervosa , tudo isso nos havia consumido. Meu

amigo tinha mais cabelos e sua barba encanecera. Quase havíamos vencido o sono: uma

hora, duas horas no máximo, cada dia. Chegou o mês de janeiro trazendo brumas e uma

chuva gelada. Nós não tínhamos mais dinheiro para comprar excitantes, eu não esculpia

mais e nós sofríamos muito. Certa noite meu amigo, esgotado, mergulhou em sono

profundo de que eu não consegui tirá-lo. Lembro-me de tudo: nosso triste sótão

mergulhado na escuridão, os telhados lavados pela chuva, o tique-tique dos pequeno

relógio de parede, os rangidos da persiana e, ao longe o rumor da cidade abafado pela

neblina; acima de tudo, aquela respiração que parecia ritmar os esforços, as angústias de

um espírito em viagem em direção a esferas proibidas, terrivelmente longínquas. Um

relógio bateu as horas em algum lugar; eu estava tenso, perturbado, e meus devaneios

repletos d vagos temores regressavam incessantemente a seu centro: o tempo, o espaço,

o infinito. Muito além dos tetos, da neblina e da chuva, nos obscuros desertos do cosmo,

3

corona Borealis surgia a noroeste, aquela mesma Corona Borealis que meu amigo

parecera temer tanto e cujo semicírculo de estrelas devia cintilar, invisível a nossos

olhos, através de abismos intransponíveis. Subitamente minhas orelhas febris forma

atingidas por outro som, por um ronronar baixo e insistente, o eco de um clamor

monótono e zombeteiro, um apelo que emanava de outros mundos, de muito longe, do

nordeste. Mas não foi aquele rumor sideral que marcou para sempre minha alma,

imprimindo nela um terror insondável, e me fez soltar tais gritos que os vizinhos e a

polícia acorreram para arrombar a porta. Não foi aquilo que eu ouvi, e sim o que vi.

Pois naquele quarto escuro um facho de luz dourada e vermelha, uma luz fria,

atravessou as trevas sem dispersa-las, nasceu no ângulo nordeste e veio posar-se sobre a

cabeça daquele que dormia, sobre aquele rosto que então me apareceu idêntico ao da

imagem-lembrança de nossa última viagem através do espaço- abismo e do tempo

dissociado, imortalmente jovem e sorridente, tomado por uma alegria áspera e maldita,

enquanto se abriam as barreiras do insondável.

Aquele que dormia despertou, os olhos negros e líquidos se contorceram, os lábios

muito finos abafaram um grito por demais assustador, e naquele silêncio de agonia

segui até suas origens o raio de luz proibida. Nesse momento sobreveio-me um ataque

de epilepsia que atraiu os vizinhos e a polícia. Não posso dizer o que vi. Não posso. E o

adormecido que também viu tudo aquilo e ainda muito mais, nunca mais falará. Mas

agora eu me protegerei tanto quanto puder dos Mestres do Sono, do céu noturno, das

loucas ambições do conhecimento e da filosofia.

Não sei exatamente o que se passou. Meu espírito desequilibrou-se. Mas o dos outros

também, creio. Dizem que jamais tive amigo. Dizem que sempre fui só, inteira e

tragicamente ocupado com a arte, a metafísica e a demência. Não tiveram uma palavra

de piedade para com meu amigo, paralisado para sempre, imobilizado para sempre em

seu canto. Mas o que eles encontraram no divã deixou-os maravilhados, ao que parece.

Puseram-se a entoar louvores em meu favor, deram-me uma glória que não

compreendo, uma reputação que pouco me importa no fundo de meu desespero,

enquanto permaneço sentado horas e horas, dias e dias, calvo, a barba grisalha,

encolhido, paralisado, alquebrado, e adorando o objeto que encontraram. Eles também

olham extáticos esta coisa fria que o facho de luz zumbidora me deixou. É tudo o que

resta de meu amigo. Trata-se de uma cabeça de mármore maravilhosa, olímpica de uma

juventude e de uma perfeição fora do tempo, e coroada de papoulas. Dizem que este

rosto é o mesmo que eu tinha aos 25 anos. Mas no pedestal um único nome acha-se

gravado em letras de traços áticos: Hypnos.

4

Você pode estar interessado...