Imagens soltas por Jorge Manuel Diogo Peres - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

IMAGENS

SOLTAS

de

jorge peres

1 - IMAGENS SOLTAS

As pernas tremiam-lhe como varas verdes. Todo o seu corpo

estremecia como se acabasse de sofrer um choque eléctrico.

Sinceramente, todo aquele dia começara muito azarento. Logo de

manhã, acordara bem mais cedo do que pretendia. A noite fora curta e

adormecera já sem esperança de que tal viesse a acontecer. E não que

fosse divertimento a causa da insónia. Antes fosse ...

Fora jantar com a Sónia, a sua namorada de há já alguns meses, mas

as coisas não andavam lá muito bem, e a refeição, que ele esperava

apaziguadora, tornara-se um combate verbal dos mais duros travados entre

eles ultimamente. O tom de voz subira e acompanhara o desrespeito, e

pouco depois de iniciada a sobremesa ele resolvera sair. As coisas estavam a

ir longe demais, e por aquele andar ainda podiam terminar mal.

Resolveu então dar um passeio á beira mar. Antes percorreu a

marginal numa velocidade lenta, surpreendendo-se com o facto...

Normalmente quando se enervava disparava a toda a velocidade, fazendo

não raro estremecer o ar com o ruído do potente automóvel. Mas a verdade

é que aquela discussão não o fizera alterar como outras anteriores. Quando

saíra de casa da Sónia estava sereno, sentindo que precisava estar sozinho,

num local calmo... E era isso mesmo que ele procurava.

Atravessou Cascais, seguiu para o Guincho, estacionou do lado

esquerdo para quem sobe. Á sua frente o grande, o solitário Oceano

Atlântico, cadenciava as suas ondas contra uma areia deserta, e portanto,

tão solitária quanto ele.

Afinal ao que chegara a sua vida!... Trinta anos, divorciado, um

emprego que se poderia considerar estável, uma casa pequena, mas que

chegava e bem para ele, carro ... ... ...

Conhecera Sónia ainda não havia um ano. Bastante mais nova, ela

personificava uma imagem de mulher, bem apresentável, daquelas capazes

de causar inveja, ás vezes em demasia, em qualquer local público.

Inicialmente as coisas funcionaram na perfeição quase completa, mas as

diferenças viriam ao de cima um pouco mais tarde, como sempre acontece

numa relação. O certo é que ele não conseguiu, ou não soube ultrapassar

essas divergências que no princípio pareciam inofensivas.

2 - IMAGENS SOLTAS

Sinceramente estava a começar a sentir-se fatigado duma relação em

que as coisas só funcionavam na barra horizontal de um leito, fosse o dele

ou o dela.

Mas o que lhe acontecera há cerca de duas semanas viria a revelar-se

importante, não só na vida dele, como também naquela união já um pouco

abalada. E foram essas recordações que o prenderam cerca de duas horas

frente à praia e o transportaram a casa sem o mais leve vestígio de sono.

Foram esses mesmos factos que lhe ocasionavam os tremores que agora

sentia no seu corpo.

Tudo começara naquela tarde em que trabalhara no turno da tarde, saindo

de serviço já perto das nove horas da noite. Lisboa preparava-se para

receber o Natal de braços abertos, com algumas avenidas já iluminadas,

outras em preparação. Aquela hora ainda havia gente esforçando-se por

chegar a casa a tempo de ver uma das imensas telenovelas televisivas e o

trânsito começava lentamente a voltar à normalidade, depois de mais uma

louca hora de ponta.

Direito a Cascais evitava sempre a auto-estrada preferindo ir pela

marginal. Todos os dias fazendo aquele caminho a condução tornava-se já

mecânica e automática. Circulava na zona de Oeiras quando a sua atenção

foi desviada para um clarão que parecia vir da zona exterior da parte

urbana. Reduziu a velocidade. Passados alguns segundos voltou a ver

aquela claridade. Fez sinal para a direita e saiu da estrada habitual. Os

outros condutores, pareceram não se importar ou mesmo não reparar no

facto. Mas ele sentiu uma necessidade imperiosa de descobrir a

proveniência de tal fonte luminosa.

Atravessou toda Oeiras e quando deu por ele apontava à estrada que

sabia ir dar ao Cacém. Da luz ... nem sinal. Se calhar fora impressão sua,

pensou, talvez uma ilusão fruto do cansaço de um dia já longo e atarefado.

Saiu um pouco para a berma e imobilizou a viatura. Não havia dúvida...

quem o mandava ser curioso?!? Olhou em todo o redor... nada, nada de

especial, ao longe as luzes de um e de outro lado e ladeando o caminho uma

ou outra moradia.

Preparava-se já para inverter o sentido de marcha do seu veículo

quando de repente deixou de ver. Foi estranho. Foi ... imenso ... foi ... ...

tremendo... Como se os holofotes de três estádios da Luz se acendessem de

repente mesmo por cima do seu carro. Ficou tudo ofuscado.

Demorou alguns segundos a aperceber-se que tanto o motor do carro,

como o rádio, tinham parado. Até as luzes da viatura se tinham apagado,

mas, também, com toda aquela central hidroeléctrica quem necessitava de

faróis acesos?!!!?

3 - IMAGENS SOLTAS

Curiosamente não sentira medo. Apenas um certo desconforto por

não conseguir ver nada á sua volta. Depois havia aquela voz, doce, meiga,

que lhe dizia insistentemente : “Tem calma. Nada de mal te vai acontecer.

Vamos te explicar. Tem calma.”

Mas não havia ninguém. Nem se ouvia qualquer som dentro da

viatura. Era uma voz estranha que parecia ecoar directamente dentro da

sua cabeça. Tudo pareceu manter-se em suspenso por largos minutos.

Depois, tão de repente como tinha aparecido a luz apagou-se. Tudo voltou à

escuridão.

Demorou algum tempo a habituar os olhos. Logo voltou a distinguir

as luzes dispersas das casas, ao longe. E no vale, bem a uns trezentos

metros, estava aquilo ... era estranho ... como que dois pratos de sopa

invertidos um sobre o outro, e pousados sob uma espécie de tripé de

máquina fotográfica, gigante. Suaves luzes azuladas provinham da parte de

baixo do aparelho, enquanto a parte de cima emanava uma vermelho

alaranjado.

Era mais forte do que ele. Lera imenso sobre tudo aquilo, mas estava

longe de supor que um dia iria ser testemunha de algo idêntico. Saiu do

carro e caminhou decididamente em direcção aquilo. O terreno era instável,

fazia jeito alguma daquela luz, pensou. Como se alguém tivesse

ouvido saiu do aparelho um jacto luminoso que lhe mostrou perfeitamente

o caminho mais fácil para lá chegar. Não havia dúvida. Alguém o estava a

encaminhar. Rapidamente chegou junto do tal tripé. Assim visto de perto,

parecia maior. Aí uns três metros de altura ... e o aparelho teria bem à

vontade uns cinco metros de diâmetro. Ali esteve bastante tempo, pelo

menos assim lhe pareceu. O silêncio da noite cobria-o totalmente, e pela

primeira vez sentiu frio. Desejou que Sónia estivesse ali. Gostaria de

compartilhar aquela experiência, única, com ela. Se tivesse a certeza de que

aquilo se manteria por ali, arriscava ir buscá-la a S.João e voltar. Mas claro

que não iria arriscar. Até porque nada lhe garantia que ela o quisesse

acompanhar.

Nisto, o silêncio da noite foi bruscamente interrompido por uma som

seco. Uma escotilha foi lentamente baixando, enquanto que de dentro do

aparelho apareciam dois vultos. E de novo aquela voz dentro da sua cabeça:

“--- Tem calma. Somos gente de paz. Sabemos que tu também o és.”

Uma das silhuetas fez-lhe sinal para ele subir. Hesitou. Não sem uma

rápida reflexão, acabou por pisar a pequena rampa. Ah! Como ele gostaria

que Sónia estivesse ali. Com que à vontade entraria naquela coisa levando-a

pela mão.

Olhou em redor antes de entrar completamente. A escuridão era

total. Lá ao fundo a estrada estava deserta.

4 - IMAGENS SOLTAS

Entrar naquela máquina foi como penetrar num sonho radioso. Tudo

estava iluminado, com uma luz difusa, diria que indirecta. Mas dizer

“tudo” era sem dúvida uma força de expressão. Naquele compartimento

não existia coisa alguma, nem uma mesa, nem uma cadeira ... nada ...

absolutamente nada. Atras dele fechou-se a porta por onde tinha entrado.

Mas nem da porta restavam vestígios. Ou seja, sabia que estava ali porque

a vira fechar no instante anterior, mas não havia costura, saliências, nada.

E dos vultos que avistara lá debaixo, nem sinal.

“Descontrai! Relaxa!”

Sempre a mesma voz, num português sem qualquer sotaque. Esteve

ali, tentando perceber o que seria tudo aquilo, bem à vontade uns vinte

minutos. Começava a sentir-se verdadeiramente enfastiado quando se ouviu

outro estalido seco. Nas suas costas abriu-se, aparentemente do nada, uma

pequena porta. De novo ninguém.

“--- Entra!”

A abertura era verdadeiramente estreita. Teve que passar meio de

lado. O que o esperava era algo diferente. Uma sala um pouco maior do que

a primeira. A meio continha uma mesa creme, com pequenos bancos dentro

dos mesmos tons. As paredes estavam forradas de painéis e instrumentos,

cheios de luzes, parecendo enfeites de Natal. Foi olhando em redor. Havia

num dos lados um écran grande. Era difícil falar de lados já que a sala era

redonda. Os seus olhos continuaram a percorrer a divisão. Foi então que os

viu.

“--- Olá! Bem vindo!”

Estava estupefacto. Embora os visse em contra luz a sua silhueta era

humana, talvez com a cabeça um pouco mais arredondada, os braços um

pouco mais compridos, mas de resto, em tudo semelhantes. Tentou falar,

mas a voz parecia não lhe sair. Quisera dizer-lhes : “ Olá! È um prazer!”.

Mas não saiu som nenhum.

“--- Não te esforces. Limita-te a pensar. Nós entendemos. Lemos o teu

pensamento.”

Tudo aquilo continuava a parecer irreal. Um deles aproximou-se e

estendeu-lhe uma mão enluvada.

“--- Observamos os terráqueos há muitos anos. Sabemos que é usual

este tipo de saudação. Vem. Temos muito para te dizer, mas é preciso estar

preparado.”

Fizeram-lhe sinal para que se sentasse. Então pode vê-los. Pareciam

todos eles vestidos de uma espécie de fatos de treino creme com um símbolo

que não reconheceu no meio do peito. Os fatos eram muito justos e tapavam

mesmo a cabeça, deixando apenas de fora os olhos.

5 - IMAGENS SOLTAS

Um deles sentou-se junto dele, colocou a mão sobre a mesa. Nesse

momento iluminou-se um écran na parede e começaram a passar imagens a

uma velocidade vertiginosa.

“--- Não te preocupes ! Tudo o que passar ali vai ficar na tua cabeça.

Um dia irás perceber.”

As imagens continuavam a passar. Era estonteante. Começou a sentir

sinais de enjoo. Tudo à volta pareceu esmorecer. Perdeu os sentidos.

Quando deu por si estava deitado numa pequena mesa. Perto dele o

estranho ser observava o evoluir do seu estado.

“--- Perdão. Foi escolhido entre centenas porque nos pareceu estar

preparado. Afinal a sua mente não comporta ainda tanta informação.

Vamos ter que esperar mais umas semanas. Vamos parar por aqui, hoje.

Voltaremos ao contacto exactamente daqui a duas semanas.”

Levantou-se e fez um sinal de cortesia convidando-o a passar à

primeira sala onde estivera. De novo ficou só durante um bom bocado. De

repente voltou a abrir-se a porta por onde entrara. Desceu a rampa

metálica. Olhou para cima. O objecto pareceu vibrar um pouco, emitindo

um ligeiro silvo. O grande tripé encolheu lentamente mas o disco ficou

imóvel, pairando. Depois de repente elevou-se no céu nebulado.

Rapidamente desapareceu por entre uma nuvem. Tudo voltou ao silêncio.

Tudo voltou à escuridão.

Encaminhou-se para a sua viatura, que permanecia estacionada no

mesmo sítio onde a deixara. Tudo funcionava em condições perfeitas.

Arrancou velozmente e dirigiu-se para casa de Sónia.

Tinha de contar... tinha de desabafar com ela. Compartilhar com ela

aquela experiência. Olhou o relógio. Marcava nove e meia. Rumou a S.João

do Estoril. Não estava longe. Estacionou à porta dela. Olhou a janela que

dava para o quarto. Estranhou não ver luz. Deu a volta ao prédio. A porta

da varanda da sala também não deixava antever qualquer luz. Teria

saído?!!! Mas ela esperava- -o para o jantar conforme tinham combinado.

Voltou à porta e tocou a campainha. Insistiu um pouco. Após a terceira

insistência acendeu-se a luz do quarto. A janela abriu-se levemente.

“--- Que queres ?!!!”

Que queres?!!! !!! ... ... Essa agora !

“--- Cheguei!”

“--- Deves estar a brincar comigo se pensas vir jantar ás duas da

manhã.”

Ficou perplexo. Duas da manhã?!!! Voltou a olhar o seu relógio de

pulso. Marcava nove e meia da noite. Ainda?!!! Então percebeu. O aparelho

estava parado. Mas então ... Quanto tempo estivera na nave? Olhava para a

6 - IMAGENS SOLTAS

silhueta de Sónia, entrecortada na janela. Nem conseguia articular palavra.

Ela estranhou.

“--- Estás bem?”

Não. Não estava nada bem. A cabeça parecia rebentar.

“--- Sobe. Vou abrir.”

Continuou ali até ouvir o clik do fecho da porta de entrada do

edifício. Depois, como robot subiu os escalões do hall e entrou no elevador.

Quando abriu a porta, dois andares acima, Sónia estava já à porta.

“--- Que aconteceu ?!”

Só depois de entrar e pesadamente se sentar no sofá da sala, é que a

olhou de frente. Durante cerca de duas horas contou tudo o que se

lembrava. Tentou não esquecer nenhum pormenor. Ela permaneceu em

silêncio, ouviu atentamente, de uma forma quase ausente.

“--- Bem. Não estás à espera que após ter esperado mais de três horas

por ti, de te ter ligado nem sei quantas vezes para o telemóvel, depois de ter

tentado hospitais e delegações de policia ... não estás à espera que eu engula

essa história inverosímil, apesar de contada com um dramatismo excelente,

pois não?”

Era a noite de ficar de boca aberta. Tanto que esperava pelo

momento de estar com Sónia e contar-lhe tudo, e agora que tivera essa

oportunidade ela respondia-lhe assim, tão friamente.

Levantou-se e saiu sem dizer palavra. Agarrou no carro e vagueou

sem rumo. O seu pensamento parecia agora vazio, sem se conseguir

concentrar em coisa alguma. Por isso nem deu por o automóvel parar. Só

despertou quando avistou um clarão azul atrás de si. Era o carro da

Brigada de Trânsito. Só então reparou que estava parado em pleno meio da

estrada. Colocou o motor a trabalhar e desviou a viatura para a berma. Um

agente aproximou-se da janela dele.

“--- Então sente-se bem?”

Olhou o policia com um olhar meio vidrado.

“--- Nem por isso senhor guarda. Nem por isso.”

Os agentes viram os documentos, verificaram o veículo. Por fim

pediram-lhe que fizesse o teste de medição da taxa alcoolémica . Tudo

negativo. Pois se ele nem tinha sequer jantado, quanto mais bebido. Mas

era verdade que não estava bem. Por fim deixaram-no prosseguir sob

promessa em compromisso de honra que dali iria direitinho para casa.

Assim mesmo fez. Deitou-se em cima da cama sem se despir e adormeceu

logo de seguida. Mas o sono não foi pacífico. Teve sonhos esquisitos, não

muito definidos. De manhã a cabeça pesava, o corpo doía-lhe, e sentia-se

como se tivesse gripe. Telefonou para o emprego avisando que estava

doente e foi visitar o médico. O doutor receitou-lhe um analgésico e um

7 - IMAGENS SOLTAS

antibiótico mas achou-o um pouco estranho. Tentou saber o que acontecera.

Depois de alguma hesitação, aceitou em contar-lhe, embora sem todos os

pormenores. Ao regressar a casa, passou por uma farmácia e foi meter-se

na cama, desta vez envergando um pijama.

Foi difícil adormecer. Na sua cabeça havia imagens soltas, umas bem

nítidas, outras difusas. O cansaço acabara por vencer.

Acordou com um insistente som de campainha de telefone nos seus

ouvidos. Era Sónia. Olhou o despertador. Eram sete da tarde. Dormira

cerca de sete horas de seguida. Sentia-se bem melhor. Ela convidava-o para

sair depois do jantar. Ainda se sentia fraco. Declinou o convite. Mais tarde,

eram já quase nove horas da noite tocaram a campainha da porta. Pensou

que fosse a namorada. Foi abrir ainda em pijama. Deparou com dois

indivíduos que não conhecia mas que se apresentaram com um cartão de

qualquer coisa estatal. Na sua surpresa nem fixou a entidade.

“--- Podemos falar consigo?”

Franqueou-lhes a porta. Pediu algum tempo para se vestir, e também

para organizar as ideias. Depois foi ter com eles à sala.

Eles sabiam da sua história. Não quiseram divulgar a sua fonte, no

entanto, quando começaram as perguntas ele percebeu que sabiam muito

pouco, e portanto só poderia ser o doutor, já que fora muito mais minucioso

com Sónia.

Voltou a contar tudo desde o princípio. Pareceu interessar-lhes muito

a promessa de contacto para dali a duas semanas. Um deles puxou mesmo

de um calendário e viu que a data caía no dia oito de Janeiro. Sentiu que

começava uma contagem decrescente.

A noite desse dia foi longa. Como tinha dormido toda a tarde, o sono

não abundava. No entanto deitou-se sobre a cama, não acendeu a televisão e

apagou mesmo a luz. No entanto na sua mente havia muita luz. As imagens

que tanto o massacravam começavam a tomar forma. Nelas apareciam os

seres que haviam ‘falado’ com ele. Eram passagens históricas, situadas em

diversas épocas de tempos passados. A cena mais concreta parecia um

menino a falar com eles. Não era um menino normal. Parecia apresentar

algum atraso de desenvolvimento. Depois era como se o filme fosse

avançando no tempo. O menino foi crescendo, crescendo. Na idade adulta

ele reconheceu-o . Era Einstein. Mexia e remexia numas folhas cheias de

cálculos e formulas, que percebeu iria dar à Teoria de Relatividade. Era o

episódio mais nítido que conseguia identificar. Apareciam também imagens

soltas sobre o que parecia ser a superfície de um estranho planeta. Mais

tarde reconheceu ser Marte. Depois a imagem focava um dos seus dois

satélites e foi-se aproximando de um deles, cada vez mais perto, cada vez

mais perto... até que penetrou no seu interior aparecendo toda uma

8 - IMAGENS SOLTAS

civilização, onde reconheceu alguns veículos parecidos com aquele que

tinha visitado.

Na semana seguinte voltou ao trabalho. Ainda se sentia fraco, mas

não era do estilo de ficar em casa. Estava farto. Os colegas fizeram-lhe uma

grande festa. Estranhou. Quando chegou à sua secretária percebeu. Na sua

frente as páginas centrais de um jornal com a sua história, só que revista e

aumentada, quase dando um filme de terror. Falava-se mesmo de rapto. No

fim lia-se o pomposo título : “Eles voltarão!” Ali já havia mãozinha da

Sónia.

Entretanto entre eles as coisas tinham acalmado. Ela já não punha em

causa a veracidade da sua história, no entanto preferia ignorá-la. De certo

modo, sentia-a incomodada quando caminhando pela rua lado a lado era

abordado pelas pessoas que o reconheciam.

O Natal passou-se de uma forma um pouco insípida, sem muito

entusiasmo, mas ele também nunca sentira muito calor nesta data que

sempre considerara melancólica. Pernoitou em casa dela e as coisas

estiveram um pouco melhor. Mas a noite foi entrecortada pelas imagens, e

por sobressaltos contínuos. Sónia não achou muita graça.

No ultimo dia do ano foi intimado a comparecer na central da Policia

Judiciária em Lisboa, alegadamente para esclarecer assuntos “ do seu

interesse pessoal”. Ele já sabia qual era o tema.

Chegou cedo, bem antes da hora marcada. Passou pela segurança,

após identificação, mandaram-no entrar para uma sala. Teria que esperar.

A sala até que não era desconfortável. Aquecimento, uns sofás de

pele, televisão ... enfim ...

Alguns minutos depois a porta abriu-se e entraram dois indivíduos,

com ar de donos da casa.

Levantou-se educadamente mas eles pediram-lhe que se sentasse.

--- Esteja à vontade.

O outro foi direito ao assunto.

--- Sabemos que terá um novo encontro dia 8 de Janeiro. Queremos

prepará-lo.

--- Preparar-me como?!!!

--- Temos ordens superiores para lhe colocar microfones e sensores,

para que possamos registar esse encontro. Temos também uma lista de

perguntas que queremos que você faça a esses seres. Claro que contamos

com a sua colaboração.

Não gostou de nada daquilo. Então agora virara espião?! E que

ganharia ele com essa performance?

--- E se não me agradar a ideia?

9 - IMAGENS SOLTAS

Eles fizeram silêncio. Não esperavam por certo aquela reacção.

Olharam um para o outro e depois para ele.

--- Está em causa o interesse nacional. Não me parece que tenha

grandes alternativas.

--- Essa agora! --- começava a irritar-se --- Então se eu não quiser

colaborar? ... Sou obrigado ?!

--- Temo que sim.

--- Ok! Se é assim... seja ... que querem de mim?

--- Depois a seu tempo será contactado e dar-lhe-emos todas

informações que precisar.

Quem não gostou mesmo nada da história foi Sónia. Naquela tarde

ela estava de folga e foram lanchar á esplanada do costume. Contou-lhe a

sua visita à Judiciária. Ficou furiosa.

--- Mas que coisa ... ... quando é que te irão deixar em paz ... ? ...

Estou a ficar farta de tudo isto.

E lá veio nova discussão. Nem valia a pena argumentar que não fizera

nada para que tudo tivesse acontecido assim. No inicio daquele julgamento

já era culpado logo à partida.

A passagem de ano foi morna. Já tinham combinado com uns amigos,

colegas de trabalho dela e dele fazer o reveillon num bar acolhedor de que

ambos gostavam muito. Mas ele esteve quase sempre com um ar ausente, e

ela também não estava numa das suas noites. Os amigos bem puxaram por

eles mão sem efeitos práticos.

No bater do último minuto do ano passou em revista tudo o que

acontecera nos trezentos e qualquer coisa dias que passaram. Que ano!

Sempre tivera azar a anos impares e este veio de novo confirmar essa

tendência. A sua vida era uma complicação, sentimentalmente era o que se

via, profissionalmente era uma monotonia, depois o resto era ainda mais

complicado. No entanto começava a germinar na sua mente uma ideia.

Tal como prometeram, os senhores do governo apareceram logo após

o feriado e as pontes. A ideia era então colocarem microfones por debaixo

da sua roupa e receberem em directo tudo o que iria acontecer. A pouco

mais do que uma centena de metros do local, eles estariam emboscados

captando tudo e tentando depois um contacto mais directo e oficial.

Mas ele sabia que não iria ser só assim. A data aparecera já em

diversos jornais e no dia 8 haveria uma enorme multidão esperando. Não

sabia ainda muito bem como mas teria de arranjar uma maneira de vencer

aquele problema. Tinham-lhe pedido para logo após descer da nave me

retirar o mais rapidamente do local. Isso deixava antever os planos que

tinham.

10 - IMAGENS SOLTAS

A noite do dia 7 foi longa. Sónia isolou-se, não apareceu, disse mesmo

que não se queria misturar com toda aquela confusão. Mais uma vez ficou

magoado. Mas ajudara a começar a tomar decisões no que a ela dizia

respeito. Sinceramente queria a seu lado uma mulher que fosse realmente

solidária, que estivesse por perto nos momentos que ele mais necessitava.

Dali já vira com o que podia contar. Foi talvez a maior noite de toda a sua

vida. Não. Ele não podia decepcionar alguém que confiara nele. E se

aqueles demonstraram ser bem superiores a nós, não poderia ele tomar

qualquer atitude menos digna. Tinha de fazer alguma coisa. Tinha que

fazer ... Tinha ... ... ... por momentos adormeceu. Voltaram aquelas

imagens, agora ainda mais nítidas. Agora via claramente a nave onde já

estivera, e até aquela gente.

“--- Não temas. Nós lemos as tuas mensagens. Quando quiseres falar

connosco basta pensares... nós captamos ... as tuas preocupações também

foram as nossas. Prepara-te e anda.”

Despertou com aquela frase ainda nos seus ouvidos. Sonhara?!

“--- Não sonhaste. Anda. Vem.”

Mas agora?!!!

“--- Sim. Agora. Vem.”

Vestiu-se apressadamente. De relance ao sair de casa deitou um olhar

ao relógio da sala. Quatro e meia. Quatro e meia da madrugada. Entrou no

carro. Logo ao arrancar pensou dirigir-se ao local aprazado.

“--- Não estamos onde tu pensas. Deixa-te guiar. Nós mostramos-te o

caminho.”

Sem saber como tomava decisões nos cruzamentos e curvas. Pouco a

pouco afastava-se de Cascais em direcção á Malveira da Serra, sempre

junto ao mar. Um pouco para lá do Guincho curvou á esquerda. Depois á

direita e entrou no arvoredo. Acabou-se o alcatrão e pouco depois o próprio

caminho terminou.

“--- Sai e vem. Estamos perto.”

Serpenteou por entre pinheiros bravos subindo uma pequena encosta.

Depois chegou a uma clareira. Nada. Aparentemente ninguém. O silêncio

da noite era apenas perturbado pelo vento que se fazia sentir,

transportando com ele alguma frio.

De repente, surgindo quase do nada uma forte luz quase o cegou. O

mesmo aparelho que já vira anteriormente pairou por sobre a clareira,

como que medindo o espaço para aterrar. Desceu depois suavemente até

cerca de três metros do solo. O mesmo tripé telescópio desceu até firmar-se

no chão de terra e caruma. Ao imobilizar-se a luz tornou-se menos intensa.

Abriu a escotilha já sua familiar.

“--- Sobe. Já sabes como é.”

11 - IMAGENS SOLTAS

Desta vez as portas lá dentro já estavam abertas. Sentados á mesa

fizeram-lhe sinal que se sentasse.

“--- Agradecemos a tua preocupação para connosco. Tinhas razão. Os

teus semelhantes têm planos mais pormenorizados do que aqueles que te

contaram. No fundo não lhes levamos a mal. São curiosos mas a sua falta de

conhecimentos torna-os imprudentes. É natural. Mas vocês são um povo

talhado para grandes actos. Do vosso crescimento depende a vossa

sobrevivência e a dos vossos netos e bisnetos. Os grandes problemas virão

daqui a duas gerações das vossas. Nós quisemos ajudar, mas ainda não é a

altura certa. Tu tens um espirito aberto mas a grande maioria ainda não

receberia bem a nossa presença. Os nossos conhecimentos que poderiam

ajudar-vos iriam ser utilizados imprudentemente e em vez da vossa

salvação serviriam para se destruírem uns aos outros. Vê o que aconteceu

com a teoria da relatividade. Foi insensato da nossa parte ajudar-vos com

algo que nos fez evoluir imenso em tempos passados. Mas vocês utilizaram-

na na construção de bombas atómicas quase destruindo o planeta.”

Não havia dúvida. Eles tinham razão. E agora? Que iria acontecer

agora?!

“--- Tal como aparecemos vamos desaparecer. No teu subconsciente

tens algumas informações que a seu devido tempo recordarás e que vos

ajudarão a combater algumas doenças que vos estão a minar. Quanto aos

planos dos teus superiores não os iremos defraudar completamente. Nós

vamos passar pelo local aprazado anteriormente mas não nos vamos deter.

Assim tu ficas livre de pressões e a vida decorrerá normalmente. Agora vai.

Eles esperam-te.”

Mal deu conta de sair e já estava de novo na estrada. Ao chegar a

casa o carro cinzento esperava-o á porta.

--- Então uma noite de farra ein?!!!

Nem lhes respondeu. Entrou e dois deles entraram atras dele.

--- Por favor não demore, precisamos começar a instalação do

material.

--- É só tomar um banho e podemos ir.

Era mesmo o que estava a precisar naquele momento, um bom banho

e um café bem forte.

Duas horas depois estava em plena sede governamental, em tronco

nu, assistindo impávido á colocação de cerca de meia dúzia de microfones e

um emaranhado de fios.

--- Vai ficar tudo registado, desde o que você disser, ao que lhe

disserem, até ao seu desenvolvimento físico, sabe como é, batimento

cardíaco, respiração, etc..

--- Mas eu já vos disse que eles não falam propriamente de viva voz.

12 - IMAGENS SOLTAS

--- Não se preocupe. Estamos apetrechados para captar igualmente

ondas telepáticas. Somos mais evoluídos do que muitos pensam.

Coitados. Mal sonhavam eles a evolução dos seres extraterrestres. No

fundo sentia-se quase divertido. O que ele mesmo queria era acabar com

tudo aquilo, e rapidamente, e depois ir para casa dormir.

Mais uma vez pensara em Sónia. Mas ela demarcara-se de tudo

aquilo. Pedira mesmo encarecidamente para não lhe aparecer enquanto não

resolvesse o assunto. Enfim! Mulheres! Aqui estava de novo numa situação

nada fácil... e ... sozinho!

--- Está na hora. Vamos?!

Saiu do edifício e entrou no grande carro cinzento, um daqueles

novinho do estilo do último filme do 007. Só que ele não era propriamente

James Bond e aquilo não era necessariamente um filme.

Atravessaram a cidade com duas motas policiais abrindo caminho,

furando literalmente por entre o trânsito. Nunca se sentira tão importante

na vida. Aquilo sim. Aquilo era qualidade.

O caminho até Oeiras foi feito por auto-estrada e sem que quem quer

que fosse pronunciasse uma só palavra.

Ao chegar ao local ficou estupefacto. Um autentico banho de multidão

esperava-os. Eram centenas de pessoas, talvez mesmo milhares. Incrível. O

circo estava completo. Não faltavam mesmo as caravanas vendendo bifanas

e bebidas.

O centro do terreiro estava vedado com umas cordas guardando o

suposto local de poiso do veículo.

Não conseguia articular palavra. As pessoas acenavam-lhe quando

saiu do carro e alguns aplaudiam como se fosse uma figura do jet set, ou

algum político importante. Que coisa!

“--- Não temas. Nós vamos passar aí agora. Podes avisar. Vamos dar

espectáculo para não ficares mal visto. Foi um prazer contactar contigo.

Adeus.”

Olhou á volta e gritou:

--- Eles vêem aí.

Depois olhou o céu e pensou:

“--- O prazer foi todo meu. Se algum dia vos puder ser útil ... contem

comigo.”

“--- Nós sabemos. Nós contamos contigo.”

De repente um uníssono “oooooohhhhh!!!!!” vindo da multidão

iniciou a sessão. Durante cerca de quinze minutos, aquilo que a imprensa

viria a designar pela evolução de um estranho OVNI, deliciou os presentes.

Depois tudo acabou.

--- Então é só isto?!

13 - IMAGENS SOLTAS

index-14_1.jpg

Os homens governamentais estavam desiludidos.

--- Sei tanto quanto vocês. Possivelmente assustaram-se com tanta

gente.

Eles encolheram os ombros.

--- Bem. Se não vai acontecer mais nada venha ali á carrinha tirar

esse material todo.

Ainda demorou bastante até se ver livre de toda aquela gente. À

imprensa prometeu que daria entrevistas à tarde numa conferência

alargada. Agora só queria ir dormir.

Eles deixaram-no à porta do seu apartamento. Subiu as escadas

lentamente saboreando o silêncio do prédio. Abriu a porta. Entrou. Sónia

esperava-o. Olhou-a surpreso. Abraçaram-se. Não saíram de casa em toda a

tarde. Á noite o jantar foi em casa dela. Mas as coisas estavam um pouco

frias. Estalou discussão de novo. Nem sabia já qual o motivo. A coisa estava

feia. Foi então que saiu e pensou dar calmamente aquele passeio pela

marginal. E ali estava ele. Quase quatro da manhã, e ali frente ao mar,

estacionado. Decididamente, ia voltar para casa.

Fez de novo roncar o potente motor. Conduziu sobriamente.

Estranho. Apesar da discussão, sentia-se bem interiormente.

Adormeceu sem dificuldade. Então as imagens começaram a desfilar.

Via claramente um homem já de meia idade, envergando um daqueles

trajes que vira aos visitantes, manuseando alguns instrumentos que não

identificou. O homem tinha uns cabelos esbranquiçados, mas mexia-se com

desenvoltura. Na imagem aparecia meio de lado. Algo lhe parecia familiar

naquele homem. De repente ele pareceu voltar-se. Olhou-o de frente. Claro

que lhe parecia familiar. Aquela cara podia estar envelhecida pelo passar

do tempo, mas reconhecê-la-ia em qualquer parte. É sempre fácil

reconhecer a nossa própria cara.

jorge peres

14 - IMAGENS SOLTAS

Você pode estar interessado...

  • O servo
    O servo Mistério e Terror por Ana R.
    O servo
    O servo

    Downloads:
    17

    Publicado:
    Oct 2019

    Este livro é dedicado a DEUS.\r\n\r\nSALMO 137\r\nÀs margens dos rios da Babilônia, Sentávamos e chorávamos Ao nos lembrarmos de Sião. Nos salgueiros daquelas...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Intriga
    Intriga Aventura por A.G.
    Intriga
    Intriga

    Downloads:
    81

    Publicado:
    Sep 2019

    Abas da Frente: Essa é a Manhattan de 1899: lindas meninas em belos vestidos dançando em festas até de manhã, meninos irresistíveis de sorrisos maliciosos e...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Man
    Man Romance por Kenland
    Man
    Man

    Downloads:
    84

    Publicado:
    Sep 2019

    Bossman é um sopro de ar fresco no gênero. Sensual, irreverente e muito divertida. A primeira vez que conectar Chase Parker não é exa...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT

  • Zanoni
    Zanoni Romance por Edward Bulwerk
    Zanoni
    Zanoni

    Downloads:
    27

    Publicado:
    Sep 2019

    O livro que vemos a seguir é o título do mais famoso romance ocultista do escritor inglês Edward Bulwer-Lytton (1803-1873). A narrativa se passa em Nápoles e ...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle, TXT