'Impaciência do conhecimento': aproximações aos Sonâmbulos de Hermann Broch por Daniel Reizinger Bonomo - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA E LITERATURA ALEMÃ

DANIEL REIZINGER BONOMO

“Impaciência do conhecimento”

Aproximações aos Sonâmbulos de Hermann Broch

São Paulo

2012

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA E LITERATURA ALEMÃ

DANIEL REIZINGER BONOMO

“Impaciência do conhecimento”

Aproximações aos Sonâmbulos de Hermann Broch

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação

do Departamento de Letras Modernas da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo para a

obtenção do título de Doutor em Letras.

Orientação: Prof. Dr. Helmut Paul Erich Galle

São Paulo

2012

2

Agradecimentos

Ao professor Helmut Galle, por toda a atenção e amizade;

ao professor Carl Wege, por tanta coisa;

aos professores João Adolfo Hansen e Marcus Vinicius Mazzari, pela solicitude;

à professora Monika Ritzer, minha orientadora na Universität Leipzig;

aos professores Elcio Cornelsen, Jorge de Almeida, Paulo Astor Soethe e Sandra Guardini

Vasconcelos, por participarem do exame de qualificação e defesa da tese;

ao CNPq, pelo auxílio aqui e na Alemanha. Ao DAAD;

a todos os amigos, mencionados ou não. A Ana e Andrei, a Caru e Pedro, pelos anos de

camaradagem; ao caro Alê, por todo o interesse e sugestão; a Henrique Xavier, por

acompanhar de perto; aos amigos primeiros de Suzano e aos de Leipzig, principalmente

Stefan e Julia; a Helano e Klaus, parceiros em dias frios; a Reinaldo e Élida, sempre

queridos; a Ana Flora, Cide Piquet, Claudia Dornbusch, a Danilo e Rê, a Emanuel e Bia, a

Júlia Hansen, a Rodrigo Villela, a Valéria Pereira;

à minha família. Aos meus pais, Renilda e Roberto Bonomo, por todo o respeito e carinho;

a Gabi, pela generosidade; a Maria Luiza, por mais generosidade e pela revisão cuidadosa

do texto; a Márcio, Júlia, Filippe e Pedro Calonge;

a Joana, companheira em tudo.

3

Resumo

A pesquisa consiste em aproximações aos Sonâmbulos, de Hermann Broch, e privilegia

aspectos históricos e construtivos dessa trilogia composta de Pasenow ou o romantismo,

Esch ou a anarquia e Huguenau ou a objetividade. Está dividida em duas partes. Na

primeira, predomina a discussão do contexto literário e histórico, do pensamento do autor e

de questões teóricas do romance como gênero. Aqui, tomamos a trilogia por um comentário

sem igual à “crise do romance” de seu tempo, as ideias de Broch por uma ética da

totalidade, e propomos uma retórica realista e metafísica como recurso-base do texto dos

Sonâmbulos. Na segunda parte, prevalecem observações sobre a configuração da narrativa

e investimos no jogo das semelhanças e diferenças dos três títulos. O objetivo é organizar

um quadro para o entendimento do lugar dos Sonâmbulos e de sua especificidade literária.

“Impaciência do conhecimento”, em Broch, significa poesia apta a se adiantar à ciência,

romance capaz de se adiantar à filosofia.

Palavras-chave: Hermann Broch; Os sonâmbulos; Teoria do romance; Crise do romance;

Realismo.

4

Abstract

This research is devoted to Herman Broch’s trilogy The sleepwalkers. The focus of our

interest lies on the historical and constructive aspects of the novels Pasenow the romantic,

Esch the anarchist and Huguenau the realist. The study is divided in two parts. The first

one contains a discussion on the literary and historical context, on the author’s thought and

on theoretical questions about the novel as a genre. In our view, the trilogy offers a unique

commentary upon the crisis of the novel around 1930. Moreover, we take Broch’s ideas as

an ethics of totality and we propose a realist and metaphysical rhetoric as a key device of

the text of The sleepwalkers. The second part consists of observations on the narrative

composition, in which we analyze the dynamics of similarities and differences among the

three titles. Our aim is to provide a framework for the understanding of the trilogy’s literary

place and specificity. “Impatience of knowledge” in Broch means poetry capable of

anticipating science, novel being able to anticipate philosophy.

Keywords: Hermann Broch; The sleepwalkers; Theory of the novel; Crisis of the novel;

Realism.

5

Zusammenfassung

Die Untersuchung besteht aus Annäherungen an Die Schlafwandler Hermann Brochs, die

vor allem auf historische und konstruktive Aspekte dieser Trilogie eingehen. Sie enthält

zwei sich ergänzende Teile. Im ersten geht es um die Diskussion des historischen und

literarischen Kontextes, die Vorstellungen des Autors sowie die theoretischen Fragen des

Romans als Gattung. Die Trilogie wird hier verstanden als ein einzigartiger Kommentar zur

damaligen Krise des Romans; Brochs Ideen werden hier als eine Ethik der Totalität

interpretiert und als Grundverfahren des Textes wird eine realistische und metaphysische

Rhetorik angenommen. Im zweiten Teil werden Beobachtungen zur narrativen

Konfiguration vorgenommen und dabei die Spezifik und Differenzen der drei Romane in

den Blick genommen. Ziel der Untersuchung ist die Herstellung eines Gesamtbildes, um

das Verständnis des Orts der Schlafwandler und ihrer literarischen Besonderheit zu

ermöglichen. „Ungeduld der Erkenntnis“ bei Broch heißt, dass Dichtung imstande ist,

Wissenschaft vorwegzunehmen, dass der Roman es vermag, der Philosophie

zuvorzukommen.

Stichwörter: Hermann Broch; Die Schlafwandler; Romantheorie; Krisis des Romans;

Realismus.

6

index-7_1.jpg

Oswaldo Goeldi (1895-1961), Sonâmbula, s.d.

(Coleção Pinacoteca do Estado de São Paulo)

7

Sumário

Introdução..............................................................................................................................10

Primeira parte

1. Sobre romances e crises............................................................................................17

1.1 Coisas e loisas.............................................................................................................17

1.2 Romance em crise........................................................................................................25

1.3 Crise em romance........................................................................................................38

Excurso: Aborrecimento e romance (primeira tentativa).............................................................55

2. O romance e a ética da totalidade de Hermann Broch..............................................65

2.1 A base romântico-idealista............................................................................................65

2.2 Romance e totalidade...................................................................................................69

2.3 James Joyce und die Gegenwart...................................................................................77

2.4 Aspectos da recepção de Joyce na Alemanha.................................................................79

2.5 O comentário de Benjamin...........................................................................................83

2.6 A obra de arte da totalidade segundo a dimensão e a época.............................................85

2.7 Segundo a construção e o efeito....................................................................................89

2.8 O exemplo de Goethe...................................................................................................96

2.9 A trilogia epistemológica e poli-histórica.......................................................................99

3. O realismo e a metafísica dos Sonâmbulos.............................................................102

3.1 Duas retóricas............................................................................................................102

3.2 A realista...................................................................................................................105

3.3 A metafísica..............................................................................................................123

Excurso: Aborrecimento e romance (segunda tentativa)......................................................139

Segunda parte

4. Pasenow ou o romantismo.......................................................................................146

4.1 O caso Pasenow.........................................................................................................146

4.2 O romance de família do neurótico..............................................................................147

4.3 A ameaça do desejo....................................................................................................151

4.4 O passado por vir.......................................................................................................155

4.5 A linguagem do substituto..........................................................................................159

8

5. Esch ou a anarquia.................................................................................................164

5.1 O caso Esch...............................................................................................................164

5.2 A justiça engasgada....................................................................................................166

5.3 A redenção do futuro..................................................................................................170

5.4 A contabilidade do amor.............................................................................................175

5.5 A linguagem do símbolo.............................................................................................180

6. Huguenau ou a objetividade...................................................................................186

6.1 O caso Huguenau.......................................................................................................186

6.2 A máquina do presente...............................................................................................187

6.3 O homem sem ornamentos..........................................................................................191

6.4 A linguagem da coisa.................................................................................................195

6.5 Teologias privadas.....................................................................................................198

7. Bertrand ou Os sonâmbulos.....................................................................................203

7.1 O caso Bertrand.........................................................................................................203

7.2 Um mais que personagem...........................................................................................205

Conclusão............................................................................................................................221

Referências bibliográficas...................................................................................................227

Apêndice

James Joyce e o presente........................................................................................................243

A mundivisão do romance......................................................................................................268

O romance Os sonâmbulos.....................................................................................................294

Problemática, conteúdo, método dos Sonâmbulos.....................................................................297

Construção ética nos Sonâmbulos............................................................................................300

Sobre os fundamentos do romance Os sonâmbulos...................................................................302

O desmoronamento dos valores e Os sonâmbulos.....................................................................308

9

Introdução

Mas os livros são sonâmbulos que não devemos despertar.

(Blanchot 2005: 165)

Nos últimos anos de vida, mesmo que tomasse outros assuntos por prementes,

Hermann Broch (1886-1951), o autor austríaco dos Sonâmbulos e da Morte de Virgílio,

perguntava ainda por uma “forma romanesca” ( romanartiges Gebilde) (KW13/3 343).1

Procurava, no momento, recuperar textos publicados no passado e esparsamente, restaurá-

los, acrescentar alguma coisa inédita e reuni-los em outra unidade, um “romance em onze

contos”, cujo título, Os inocentes, se referia de modo irônico ao período que precede a

catástrofe política e humana do nazismo. Broch sabia que aquele mundo era já distante, que

os tempos eram outros e não por isso menos graves, e sabia que aqueles textos se

apresentavam algo deslocados de seu contexto original. No entanto, apesar das reservas,

tinha por válidos e sérios assuntos conhecidos desde os primeiros estudos e tentativas

poéticas, e demonstrava guardar questões e inquietações não intactas, mas preservadas do

esquecimento e estimuladas por trabalho intelectual zeloso, nunca esmorecido. Assim,

falava uma vez mais sobre o andamento da desintegração dos valores, sobre a tarefa de

totalidade do romance, a insuficiência dos procedimentos realistas, a relação da ciência com

a arte, da filosofia com a literatura, e mais temas de igual peso:

A forma do romance – mesmo que se trate de obras de consumo fabricadas sem

nenhuma ambição artística – modificou-se consideravelmente ao longo dos últimos

anos. Como toda a arte, o romance também deve apresentar uma visão total do

mundo, e particularmente a totalidade das vidas de seus personagens. Esta é uma

exigência cada vez mais difícil de realizar num mundo que se torna a cada dia mais

dividido e mais complexo. Atualmente o romance exige uma maior amplidão do

material, ao mesmo tempo em que para dominá-lo, precisa de abstrações e

organizações mais rigorosas. O romance antigo cobria setores parciais. Era romance

formativo, romance social ou romance psicológico. Entre seus grandes méritos

1 A sigla corresponde à edição comentada da obra de Hermann Broch, organizada por Paul Michael Lützeler,

Kommentierte Werkausgabe (1974-1981), seguida do número do volume e da página, como acima (KW13/3

343).

10

figura o de frequentemente ter sido precursor da ciência, sobretudo no que se refere

ao estudo dos fenômenos psíquicos. Numa fase de nítido radicalismo, como o de

hoje, o romance pseudocientífico já não tem vez e os conhecimentos que a literatura

propicia nesses campos não passam, quando muito, de trivialidades popularizantes.

A ciência, por sua vez, não pode fornecer totalidades. Deve entregar esta tarefa à

arte, e com isso, também ao romance. Dessa maneira, o aspecto integral, exigido da

arte, adquiriu um caráter radical antes inimaginável, e para satisfazer essa

exigência, o romance precisa de uma multiplicidade de planos, para cuja elaboração

certamente não basta a velha técnica naturalista. Deve-se representar o homem na

sua totalidade, com toda a gama de suas experiências vividas, desde as físicas e

sentimentais até as morais e metafísicas.2 (1988a: 304)

O trecho, que não disfarça as formas imperativas, lança compromissos e virtudes à

conta da literatura sem exatamente repetir a opinião austera do escritor que, pouco depois

de concluir um dos mais acabados e difíceis romances do século XX, no qual trabalhara

durante anos, dizia: “O Virgílio tornou-se-me em objeto de esquecimento e ódio bem

merecido, por me ter afastado por tanto tempo do trabalho científico”.3 Afirmações dessa

natureza, formuladas de quando em quando, incentivaram a célebre expressão de Hanna

Arendt, que o chamou poeta “à revelia” ou “a contragosto” ( Dichter wider Willen) e elevou

tal conflito à condição de essencial.4 Arendt está certa, mas a ênfase na fatalidade do poeta

e na contrariedade pode causar enganos. As questões coligidas por ocasião dos Inocentes,

que não acreditam na transformação do homem pela poesia e veem no aburguesamento do

mundo um péssimo sinal,5 apontam para a convicção dilatada e sólida de Broch acerca do

vínculo entre atividade poética e comprometimento, entre poesia e conhecimento. Em todo

caso, não recusam o poeta e recuam a problemas da forma romanesca e de uma ética

2 A tradução é de Herbert Caro, o texto consta da edição brasileira dos Inocentes. Quanto aos Sonâmbulos,

citamos a partir da tradução em língua portuguesa de António Ferreira Marques e Jorge Camacho (Lisboa:

Edições 70, 1988-89) e acrescentamos em notas os trechos originais correspondentes. Quando há trechos

grifados, trata-se de interferências nossas nas traduções (quase sempre evitadas). As citações aparecem

acompanhadas do ano da edição e do número da página entre parênteses, como acima (1988a: 304). Há

tradução brasileira dos Sonâmbulos de Marcelo Backes (São Paulo: Benvirá, 2011). A tradução brasileira

apareceu quando já havíamos redigido parte substancial de nosso texto, o que justifica nossa decisão pela

tradução portuguesa. Aqui, não nos pronunciamos quanto aos méritos e deméritos de tais traduções, uma vez

que não procedemos a nenhum cotejo mais detalhado, mas reconhecemos o desafio assediado de não poucas

dificuldades que é traduzir Broch.

3 Trata-se de carta de Broch a Iwan Goll. A tradução é de António Sousa Ribeiro ( apud Scheidl 1984: 271).

4 Cf. Homens em tempos sombrios (1987: 99-131).

5 “Como é terrível esse progresso liderado pelo pequeno-burguês! E, evidentemente, ele continua avançando

sem que ninguém o detenha. Em toda a parte do mundo aumenta o número de campos de concentração; em

toda a parte intensifica-se o terror. O espírito nazista dos pequeno-burgueses parece prestes a tornar-se

paradigma da humanidade inteira, que se dispõe a descobrir na matança abstrata não a meta de sua vida, mas

certamente a de sua morte.” (1988a: 306)

11

literária discutidos já à época dos Sonâmbulos, sua primeira ficção de fôlego, ou a

pesquisas poéticas ainda mais antigas, de quando assinava textos cujos títulos, se não

assustam, soam tão provocadores quanto “Quatro sonetos sobre o problema metafísico do

conhecimento da realidade” (1915) e “Uma novela metodológica” (1918).

Os sonâmbulos, como o “romance em contos”, o Virgílio, a “Novela metodológica”

e os tais sonetos, é uma literatura do conhecimento. Broch, em certo momento, pensou em

qualificar a obra de “romance histórico” (KW13/1 79). Contudo, preferiu as designações

“romance epistemológico” e “poli-histórico”, que melhor correspondem à sua feição

filosófica. Pois, nos Sonâmbulos, como em tudo quanto escreveu, literatura é “impaciência

do conhecimento”, isto é, cumpre com uma tarefa que não se pode esperar da ciência, qual

seja a de configurar uma totalidade. A ciência, diz Broch, deve “pavimentar o mundo de

átomos”, enquanto o homem, impaciente, “não possui mais que uma vida curta e grita por

totalidade” (KW1 731). A imagem é urgente. Porém, essa totalidade – noção multívola – é

cada vez mais intransponível e difícil, senão impossível de pressentir em tempos

absolutamente babélicos como os do “desmoronamento dos valores” e ainda os nossos. Daí

a incumbência desmedida, o atrevimento e a necessidade de técnicas por assim dizer

“avançadas” de representação que fazem do romance de Broch e de alguns companheiros

de geração episódios únicos e excessivos da história do gênero.

Adorno, em meados da década de 1950, referiu-se à ambição exagerada dos

romances de Broch, desaprovando os resultados de suas intervenções nada ponderadas

como autor, sua evidência indiscreta na própria obra, mas não foi além da opinião.6 Por sua

vez, no ensaio que dedicou a James Joyce – contribuição extraordinária para a fortuna do

escritor irlandês e para o debate literário moderno –, o autor dos Sonâmbulos preferiu

indagar se o próprio tempo não daria razão à obra de arte que veio à luz numa outra época,

6 Cf. “Posição do narrador no romance contemporâneo” (2003: 58). Apesar da desaprovação, não há por que

insistir na recusa de Adorno a Broch, que só teria algum mérito se atentasse igualmente naquilo em que

coincidem. No ensaio em questão, a passagem seguinte – imediatamente anterior à referência a Broch – é

aliás um tanto brochiana. “Pois quanto mais se alienam uns dos outros os homens, os indivíduos e as

coletividades, tanto mais enigmáticos eles se tornam uns para os outros. O impulso característico do romance,

a tentativa de decifrar o enigma da vida exterior, converte-se no esforço de captar a essência, que por sua vez

aparece como algo assustador e duplamente estranho no contexto do estranhamento cotidiano imposto pelas

convenções sociais. O momento antirrealista do romance moderno, sua dimensão metafísica, amadurece em si

mesmo pelo seu objeto real, uma sociedade em que os homens estão apartados uns dos outros e de si mesmos.

Na transcendência estética reflete-se o desencantamento do mundo.” Tradução de Jorge de Almeida.

12

mais ou menos distante; preferiu reparar na conquista da “realidade histórica” mediante a

passagem dos anos, averiguar

se essa obra se converteu em realidade, dispensada do jogo belo e embriagante

surgido a cada vez que a onda do tempo quebra e lança à superfície suas cores e

formas novas: que não havia sido um jogo evanescente, mas uma realidade que faz

justiça a seu tempo e enraizada em sua época, existente e sólida como todas as

realidades que uma época faz surgir, uma realidade submersa e que submerge no

fluxo dos tempos em virtude do próprio peso, que nada mais pode arrastar e reluz

de sua profundeza renovadamente, do mesmo modo que, inabaláveis e atuantes,

perdura o espírito de cada período e, às vezes, também o espírito de uma geração

em tempos posteriores.7

O trecho diz respeito ao Ulisses, mas poderia ser pensado a propósito dos

Sonâmbulos. O tempo, em todas as suas dimensões e latitudes, não assegura apenas o lugar

histórico da trilogia, senão atesta a atualidade já desobrigada de justificativas da obra de

Broch. Quanto ao mais, somente “aproximações”, em que pesem os riscos, permitem

despertar aquilo que nos Sonâmbulos dorme. Nossa pesquisa é esse passo arriscado. As

falhas estão aí latentes, se não ostensivas. Vale a observação de Michel Butor, a impressão

de que não apenas “a criação, mas também a leitura de um romance é uma espécie de sonho

acordado” (1974: 12).

*

Nossa pesquisa consiste numa leitura da trilogia Os sonâmbulos (1928-1932). Seus

títulos, da primeira à terceira parte, são Pasenow ou o romantismo ( Pasenow oder die

Romantik), Esch ou a anarquia ( Esch oder die Anarchie) e Huguenau ou a objetividade

( Huguenau oder die Sachlichkeit), e correspondem a três cortes históricos, 1888, 1903 e

1918, na devida ordem. Nota-se, com certa frequência, que seu mundo é do “homem

7 Tradução nossa (também nas demais citações da obra não ficcional de Broch incluídas ao longo da pesquisa,

onde apresentamos, em regra, os originais). “[...] ob dieses Werk zur Wirklichkeit geworden ist, enthoben

dem schönen und berauschenden Spiel, das jedesmal da ist, wenn die Welle der Zeit aufs neue aufrauscht und

ihre neuen Farben und Formen zur Oberfläche wirft: daß es kein Spiel gewesen war, das sich verflüchtigt,

sondern eine Wirklichkeit, bestehend und fest wie alle Wirklichkeiten, die eine Epoche hervorbringt,

zeitgerecht gekommen und in ihr verwurzelt, eine Realität, eigesenkt und einsinkend vor eigenem Gewicht in

die Fluten der Zeiten, von keiner mehr wegzuschwemmen und immer wieder aus ihrer Tiefe leuchtend,

gleichwie der Geist einer jeden Periode und manchmal sogar auch der einer Generationsspanne unvergänglich

und bis in die spätesten Zeiten lebendig weiterwirkt.” (KW9/1 63)

13

confrontado com o processo de degradação dos valores”.8

O trabalho está dividido em sete capítulos e duas partes. Na primeira parte,

procuramos estabelecer relações entre a trilogia e um contexto histórico e teórico mais

amplo, privilegiamos temas que concernem às discussões da época do surgimento dos

Sonâmbulos e assuntos que de certa maneira permeiam toda história e teoria do romance,

consideramos aspectos do pensamento de Broch e da configuração da trilogia. Na segunda,

lemos a organização dos Sonâmbulos, de seus conteúdos e estrutura, a fim de destacar

significados e elementos construtivos do texto e complementar a primeira parte.

No primeiro capítulo, sem descuidar da ambiguidade que predomina nos termos

“romance” e “crise”, tratamos de romances e crises, uma vez que, à época da publicação da

trilogia, as noções, em língua alemã e nas melhores línguas (as de Benjamin, Döblin,

Kracauer, Musil), aparecem comumente juntas. Aqui, ainda que consideremos a atitude

sempre crítica da poesia moderna e a variedade de suas expressões, não ignoramos que o

discurso da crise corresponde então a uma ou duas crises de fato: uma crise e um

sentimento de crise da realidade histórica e de certo “romance histórico”, o do realismo

oitocentista, grosso modo. Nesse contexto, a trilogia de Broch será – trata-se do

pressuposto de nosso trabalho – um comentário apurado à “crise do romance” de seu

tempo.

No segundo capítulo, tratamos das ideias de Broch sobre o romance e associamos

seu pensamento à tradição romântica e idealista da estética alemã. Agora, o acento recai nos

argumentos de Broch, que usam dos exemplos de Goethe e Joyce, para a defesa do

conhecimento em poesia e de sua ética da totalidade como tarefa da arte. No capítulo

seguinte, ao encerrarmos a primeira parte da pesquisa, retomamos, de certa maneira, o tema

do primeiro capítulo e procuramos observar a complexidade, no que respeita ao tratamento

de uma crise do romance, de romances críticos (romances da crise) como são os da trilogia.

Neles, a configuração literária demonstra que, também em tempos modernistas, crises não

implicam apenas descontinuidades, mas coincidências e transições formais.

Acrescentamos ao primeiro e terceiro capítulos dois excursos sobre a relação

“aborrecimento e romance”. A princípio, o tema aparece algo despropositado. No entanto,

queremos mostrar que pertence não apenas aos Sonâmbulos e às crises, mas ao romance

8 Cf. Milan Kundera, A arte do romance (1988: 48).

14

como gênero.

Na segunda parte do trabalho, o quarto, quinto e sexto capítulos são leituras dos

livros de Pasenow, Esch e Huguenau, e tomam por base os conflitos dos personagens-título.

Agora, privilegiamos semelhanças e diferenças que podem, afinal, compor uma leitura

integral da “prosa das relações” dos Sonâmbulos. No sétimo capítulo, um comentário a

Bertrand – personagem (e não somente personagem) presente nos três estágios – encerra a

pesquisa e acrescenta ao entendimento estrutural da trilogia.

Ao fim do trabalho, apresentamos nossas traduções e primeiras versões de um

ensaio e de uma conferência de Broch, respectivamente: “James Joyce e o presente” e “A

mundivisão do romance”. Trata-se dos dois textos de Broch que mais detida e diretamente

se ocupam do romance, textos que falam, igualmente, dos Sonâmbulos, mesmo que os não

mencionem. Traduzimos também comentários de Broch aos Sonâmbulos. Esperamos, dessa

maneira, contribuir para o conhecimento do autor, tornando acessíveis textos inéditos em

língua portuguesa e importantes subsídios para a discussão teórico-literária.9

9 Nas traduções, vertemos os textos da edição de Paul Michael Lützeler e contamos com a revisão de Helmut

Galle. As notas incluídas nas traduções são nossas.

15

Primeira parte

16

Primeiro capítulo

Sobre romances e crises

Coisas e loisas. Há na discussão teórica do romance acúmulo de lugares-comuns que

contribuem para as determinações e indeterminações do gênero a um só tempo: espécie

textual não convencional (em sentido clássico-normativo), romance é gênero flutuante,

furtivo, elástico, versátil, impuro, multiforme, abrangente; é dissolução, fusão dos gêneros

antigos e modernos, “monstro de muitas patas e muitos olhos” (Cortázar), não se reduz a

qualquer modalidade discursiva, senão dissemina modalidades subgenéricas às soltas,

experiências de material, conteúdo e público divergentes, da trama vampiresca kitsch à

pesquisa intelectual dos significados da filosofia e da vida; da intriga sentimental e privada

de consumo rápido à investigação psicológica do homem e da dinâmica social; da aventura

em terras da fantasia e do futuro à construção de eventos históricos. Aqui, não se trata de

simples oposições segundo critérios valorativos, tampouco se enumeram tipos exclusivos –

os elementos de uma e outra espécie apresentam-se repetidamente misturados num único

romance –, mas de perceber a disparidade e o hibridismo de um gênero que impõe

verdadeiras dificuldades à delimitação de um conjunto algo unitário. À diferença de

narrativas tradicionais (pensamos nos contos folclóricos de Propp, nos mitos de Lévi-

Strauss), o romance atrapalha a estrutura e o esquema, afasta de si o esboço de gráficos e

regulamentos como quem corrompe as “formas simples” (Jolles) – daí a complicação de

uma “estrutura discursiva transformacional” (Kristeva), por exemplo. O dilema teórico, por

conseguinte, reside na possibilidade de verificar as dimensões variáveis e as constantes, as

mudanças e as permanências que permitem circunscrever tendências descontínuas e

movimentos recorrentes do patrimônio romanesco da modernidade. Em geral, a análise

crítico-literária, ao observar tratamentos diversificados no que respeita à configuração do

tempo e do espaço e da ação, à figuração de personagens e narradores, favorece o

aprofundamento da matéria. No entanto, o procedimento analítico, ora aplicado a uma obra

17

isolada, ora auxiliado pelo método comparatista, a despeito da obtenção de resultados mais

ou menos coerentes e precisos, frequentemente, em vez de estabelecer generalidades e

fronteiras, expande singularidades e territórios. Nesse sentido, um romance é sempre um

evento particular, e o esforço de definição do gênero à maneira de verbete em dicionário

pouco resiste à multiplicação das alternativas históricas.

A história do romance, por sua vez, confunde-se com a própria história da literatura,

remete à invenção da imprensa e às unificações linguísticas nacionais, ao estabelecimento

dos critérios de originalidade, à asseguração da propriedade autoral e à constituição de um

corpo social composto de escritores, críticos e leitores. Nesse contexto, que sugere mais

complexidade histórica, a ideia de uma “ascensão” ou “afirmação” do romance, termos

difundidos da historiografia literária, remonta a práticas textuais e a hábitos de leitura

surgidos principalmente no século XVIII europeu. Práticas e hábitos surgidos não sem

conflitos. De início, a história crítica do romance é, acima de tudo, um debate entre a

condenação e a legitimação do gênero. Há diversos exemplos na França, Inglaterra e

Alemanha, onde as censuras são quase sempre morais. Reprimendas, públicas e privadas,

falam de romances como veículos de mediocridades e insignificâncias, desencaminhadores

de jovens e moças, escolas de maus costumes. Panegíricos, por sua vez, defendem que

romances servem à boa imaginação, à instrução e ao deleite. Há, na história do romance,