'In Difesa Della Razza' Os judeus italianos refugiados do fascismo e o anti-semitismo do Governo... por Anna Rosa Bigazzi - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIENCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LINGUAS ORIENTAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA HEBRAICA.

LITERATURA E CULTURA JUDAICA

“IN DIFESA DELLA RAZZA”

OS JUDEUS ITALIANOS REFUGIADOS DO FASCISMO

E O ANTI-SEMITISMO DO GOVERNO VARGAS

1938-1945

Anna Rosa Bigazzi

Tese de doutorado apresentada ao Programa de

Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica

do Departamento de Línguas Orientais

Programa de Pós-Graduação em Língua

Hebraica, Literatura e Cultura Judaica

Orientadora: Profª. Drª. Maria Luiza Tucci Carneiro

v. 1

São Paulo

2007

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2

SUMÁRIO

VOLUME I

RESUMO – ABSTRACT (português e inglês)

5

AGRADECIMENTOS

6

Siglas e abreviaturas

10

INTRODUÇÃO

11

CAPITULO 1

I – OS JUDEUS ITALIANOS: DA EMANCIPAÇÃO À EXCLUSÃO

22

1.1 – Premissa

23

1.2 - Estado e Igreja: o discurso intolerante da revista Civiltà Cattolica

33

1.3 – Os judeus italianos diante do fascismo

38

1.4 – A Concordata de 1929

42

1.5 – O discurso racista a serviço do colonialismo italiano

44

1.6 – Mussolini diante dos judeus e do sionismo

52

CAPITULO 2

II – A DIPLOMACIA BRASILEIRA EM MISSÃO NA ITÁLIA

81

2.1 – Premissa

82

2.2 – Latour, um anti-semita disciplinado

90

2.3 – Motivos e descrição dos relatórios

103

2.4 – O anti-semitismo na prática

125

CAPITULO 3

III – REFÚGIOS DOS JUDEUS ITALIANOS

135

3.1. – Premissa

136

3.2 – Comunidades de destino

140

3.3 – Um Brasil fascista

149

3.4 – Discursos cruzados

163

3.5 – Frentes de resistência antifascistas

164

CAPITULO 4

IV – A “COLÔNIA MUSSOLINI”: HISTÓRIAS DE VIDAS CRUZADAS

171

4.1 – Premissa

172

4.2 - Sob o impacto das leis raciais

180

4.3 – O trauma da emigração

184

4.4 – Brasil, comunidade de destino

192

4.5 – Redes de solidariedade

196

4.6 – De judeus apátridas a súditos do Eixo

203

4.7 – O retorno do “turista”

206

CAPITULO 5

VTESTEMUNHOS

209

CONSIDERAÇÕES FINAIS

270

FONTES

273

BIBLIOGRAFIA

280

3

VOLUME II - DOCUMENTAÇÃO

- ESTATÍSTICAS

- DOCUMENTOS HISTÓRICOS 1938-1945: As leis raciais na Itália.

- 1º RELATÓRIO preparado pelo secretário Jorge Latour da Embaixada

Brasileira em Roma e Ofícios de acompanhamento.

-2º RELATÓRIO preparado pelo secretário Jorge Latour da Embaixada

Brasileira em Roma e Ofícios de acompanhamento.

- DOCUMENTOS DIVERSOS

-DOCUMENTOS do Arquivo Diplomático do Ministério do Exterior em

Roma.

-Rescisão de contrato de trabalho por motivos raciais.

-Fragmento do Jornal Fanfulla de 17 de maio de 1950.

- PESQUISAS:

Listas de judeus italianos passageiros nos navios com destino ao Brasil entre

1938 e 1941.

Listas de vistos deferidos e indeferidos pelo Ministério do Exterior Brasileiro.

Lista de judeus italianos sepultados em cemitérios israelitas dos bairros da Vila

Madalena e Butantã em São Paulo, até 1966.

4

RESUMO

Estudo sobre a imigração judaica italiana no Brasil, em particular em São Paulo e no

Rio de Janeiro, no contexto da política anti-semita do governo Vargas (1937-1945).

Tem como base a relação dos judeus italianos que, a partir de 1938, foram obrigados a

deixar seu país após a emissão das leis raciais fascistas (1938). Com destaque, analisa a

postura de Jorge Latour, diplomata brasileiro, atento aos efeitos das leis de exclusão no

território italiano. Os relatórios de Latour tinham como objetivo estimular os políticos

brasileiros a seguir o mesmo caminho da Itália fascista. Investiga a concessão de vistos

aos judeus italianos refugiados no Brasil, assim como suas estratégias de sobrevivência

e formas de adaptação à comunidade brasileira em geral.

ABSTRACT

We present the results of a research into the Italian Jewish immigration in Brazil, and

particularly in São Paulo and Rio de Janeiro, in the face of the anti-Semitic policy of

Getúlio Vargasś government (1937-1945). This research is based on a list of Italian

Jews who were forced to leave their country after the issuance of the fascist racial laws

in 1938. It especially analyses the position of Brazilian diplomat Jorge Latour, alert to

the effects of the laws of exclusion in Italian territory. Latourś reports aimed at

stimulating Brazilian politicians to follow the same path of fascist Italy. It investigates

the concession of visas to Italian Jews who took refuge in Brazil, as well as the

subterfuges they used to survive and their forms of adaptation to the Brazilian

community in general.

5

AGRADECIMENTOS

Esta tese é a concretização de uma idéia, de um projeto que tenho imaginado

desde a minha volta ao judaísmo: levar ao conhecimento da comunidade judaica

brasileira, e aos não judeus, a história dos judeus italianos e de sua emigração para o

Brasil, impulsionados pelas leis raciais fascistas de 1938.

Por isso agradeço em primeiro lugar à Profa. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro,

que me deu esta oportunidade, inserindo esta imigração em seu campo de pesquisa: a

Era Vargas, o racismo e o anti-semitismo deste período como conseqüência do

antijudaísmo dos séculos passados e das discriminações contra negros, japoneses...,

enfim, contra o Outro, o Diferente, o Estrangeiro.

Em segundo lugar, meus agradecimentos a todos os judeus italianos

entrevistados e àqueles que escreveram suas biografias, algumas ainda inéditas.

Através de seus testemunhos foi possível reconstruir a história da emigração forçada

pelas leis racistas italianas e conhecer a dor sentida por terem de deixar sua pátria-mãe.

Através de seus relatos desvendamos os traumas, os medos e as esperanças investidas

na nova pátria.

Agradeço também aos historiadores italianos estudiosos da era fascista italiana

à luz de um julgamento histórico mais moderno. Dentre estes cumpre citar o Prof.

Michele Sarfatti, diretor do CDEC em Milão; o Prof. Mario Toscano, da Universitá

della Sapienza di Roma. Pela parte brasileira, meus agradecimentos aos historiadores

da Era Vargas, novamente à Profa. Tucci Carneiro, Maria Celina de Araújo; Maria das

Graças Andrade Ataíde de Almeida, Jeffrey Lesser, Roney Cytrinowicz, João Fabio

Bertonha, Viviane Teresina dos Santos e Fabio Koifman.

Sou grata também a Midory Kimura Figuti, ex-diretora do Memorial do

Imigrante de São Paulo, e a Newman Caldeira, do AHI (Arquivo Histórico do

Itamaraty) do Rio de Janeiro, pela constante colaboração durante as pesquisas. Pelo

mesmo motivo agradeço a Giselle Levy do Istituto Bibliográfico dell’UCEI de Roma .

Agradeço ao Prof. Paulo Valadares pela leitura atenta dos meus textos

preliminares, e à tradutora Flora Martinelli por traduzir partes deste trabalho. Ao

amigo Saul Kirsbaum, pela leitura. À minha filha Maria Grazia, companheira de

palestras e exposições, pelo estímulo contínuo ao meu trabalho; à Ana Cecília Água de

Melo, revisora do meu português... muitas vezes italianizado. Agradeço a minha mãe,

6

Bruna Campagnano, pintora e escritora, enferma há muitos anos, por ter me passado

sua herança judaica e a vontade de escrever.

Enfim, agradeço o carinho e a amizade de todos, que me querem bem e que têm

me ajudado nos momentos difíceis deste trabalho.

Anna Rosa Campagnano Bigazzi

São Paulo, dezembro 2007.

7

Ao Mario

8

De teus mais caros bens a aventurança

tu perderás, e essa é a flecha fatal

que, de primeiro, o arco do exílio lança

Tu provarás como tem gosto a sal

O pão alheio e, descer e subir

A alheia escada é caminho crucial

Dante Alighieri. La Divina Commedia - Paradiso XVII, 55-60

Tradução de Italo Eugenio Mauro - Editora 34

Tu lascerai ogni cosa diletta

più caramente; e questo é quello strale

che l’arco de lo esilio pria saetta.

Tu proverai sí come sa di sale

lo pane altrui, e como è duro calle

lo scendere e’l sair per l’altrui scale

Dante Alighieri. La Divina Commedia

Paradiso XVII, 55-60

9

Siglas e abreviaturas

AAVV

Diversos autores

AHI

Arquivo Histórico do Itamaraty / RJ

AHJB/SP

Arquivo Histórico Judaico-Brasileiro / SP

CDEC

Centro de Documentação Hebraica Contemporánea /Milano

CIC

Conselho de Imigração e Colonização

CIP

Congregação Israelita Paulista

CPDOC

Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do

Brasil/ Fundação Getúlio Vargas / RJ

DEOPS

Departamento Estadual de Ordem Política e Social

DHBB

Dicionário Histórico-Bibliográfico Brasileiro

DIP

Departamento de Imprensa e Propaganda

DOPS

Departamento de Ordem Política e Social

FGV

Faculdade Getúlio Vargas

GCF

Grande Conselho Fascista

HO

História Oral

ICA

Ou JCA, Jewish Colonization Association

INA

Istituto Nazionale Assicurazioni

ISTAT

Istituto Centrale di Statistica del Regno d‟Itália

MER

Ministero degli Esteri

MI/SP

Milano/São Paulo

PCB

Partido Comunista Brasileiro

PNF

Partito Nazional Fascista

PPI

Partito Popolare Italiano

PROIN

Projeto Integrado Arquivo do Estado de São Paulo

RMI

Rassegna Mensile Israele

UCEI

Unione Comunitá Ebraiche Italiane

UCII

Unione Comunitá Israelita Italiane

USP

Universidade de São Paulo

10

INTRODUÇÃO

Este estudo tem como objeto a imigração dos refugiados judeus italianos para o

Brasil, em particular para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, no período de

1938-1945. Minha hipótese de trabalho baseia-se no fato de que as leis raciais

instituídas pelo governo fascista na Itália, em 1938, alteraram o cotidiano dos judeus,

forçando milhares deles a emigrar. Consideramos este fato como um marco na história

da imigração italiana, um “ponto de ruptura”. Para compreendermos o real significado

desta postura política e intolerante do Estado governado por Benito Mussolini (1883-

1945) se faz necessário retomar a vida dos judeus na Itália antes de1938. Lembramos

que de 1555 até a Unificação (1861-1870) eles viviam nos guetos.

Após 1870, a situação social, econômica e política das comunidades judaicas

melhorou a tal ponto que os judeus passaram a ser reconhecidos como “italianos

judeus” ou “italianos de fé mosaica”. Como tais, permaneceram na Itália, agradecidos

pelas novas possibilidades de vida e trabalho, por meio das quais conquistaram lugares

de destaque nas profissões, no comércio e até mesmo na vida política. Podemos

considerar como casos esporádicos os judeu-italianos que optaram por sair da Itália

após 1870, quando centenas de outros italianos, não judeus, começavam a emigrar para

vários países da América, dentre os quais o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. 1

Assim, podemos nos referir a dois momentos distintos da emigração judaica italiana

para o Brasil, considerando a razão que levou a deixar a pátria-mãe:

- 1º momento (1878-1938), quando algumas dezenas de judeus escolheram o

Brasil como comunidade de destino, induzidos pela vontade de “fazer a América” e ter

novas oportunidades de vida. Nos referimos àqueles que, por livre e espontânea

1 “A primeira grande onda migratória da Itália aconteceu entre 1870 e 1920. Durante esses 50 anos,

mais de 17 milhões de indivíduos, entre homens e mulheres, ultrapassaram as fronteiras nacionais,

alguns por pouco tempo, outros para sempre (...)”. CAMPAGNANO, Anna Rosa Bigazzi. Italianos.

Histórias e Memória de uma comunidade. Serie Lazuli. Imigrantes no Brasil. São Paulo, Companhia

Editora Nacional, 2006, p.1; ―Apesar da insistência com que o mundo agrário denunciava o fenômeno da

emigração como provocado exclusivamente pela ação embusteira dos agentes, eram bem diferentes as

motivações de fundo que levavam os camponeses a abandonar suas regiões natais pelas América. (...)

Miséria! Esta a verdadeira e exclusiva causa da emigração transoceânica entre 1888 e a Primeira

Guerra Mundial...‖

TRENTO, Ângelo. Do Outro Lado do Atlântico. Um Século de Imigração Italiana no Brasil. São Paulo,

Nobel, 1989, p.30.

CENNI, Franco. Italianos no Brasil. 2ªed. São Paulo, EDUSP, 2003.

11

vontade, deixaram a Itália em meio ao grande fluxo de emigrantes que viam as

Américas como um trampolim para uma vida melhor. Se, entre 1884 e 1938, entrou no

Brasil um total de 1.412.263 2 italianos, os judeus não deviam ser mais de uma

centena, ou seja, 0,007%. Como não existe uma estatística específica, chegamos ao

número de 100 judeus identificados por seus sobrenomes evidentemente judaicos em

estudos sobre a imigração italiana e, em particular, no livro Italianos no Brasil 3 , de

Franco Cenni. A confirmação de que estes sobrenomes eram efetivamente de judeus

foi realizada através do livro I cognomi degli ebrei italiani4 de Samuele Schaerf.

Precisamos, porém, levar em consideração que o sobrenome judaico não implica que a

pessoa é um praticante religioso, apenas que tem ascendente judaico. Ainda, muitos

sobrenomes italianos foram adotados por judeus e não judeus, e muitas vezes as raízes

do sobrenome eram judaicas por tradição.

Para este período podemos citar os sobrenomes Lattes, Lopes, Levi, Mayer,

dentre outros.

- 2º momento (1938-1945): quando, impulsionados pelas leis raciais adotadas

por Mussolini, centenas de judeus sentiram-se forçados a deixar o país por não terem

mais garantias de vida e de trabalho. A aproximação de Mussolini com Hitler não deve

ser aqui avaliada como “mera casualidade”. Esta situação de exclusão

institucionalizada tem sua gênese no Estado fascista que, personificado em Mussolini,

interrompeu qualquer forma de dialética política.

É este o momento que pretendemos estudar, tendo como foco de nossas

investigações os judeus italianos que, a partir de 1938, buscaram refúgio no Brasil.

Como tantos outros refugiados de nacionalidades distintas, este grupo inscreve-se no

quadro político gerado por uma mentalidade anti-semita secular. Ainda que a Itália não

tenha uma trajetória similar à da Alemanha e França – países reconhecidos por suas

teorias e ações anti-semitas – temos que considerar que as leis raciais italianas

atingiram seus objetivos por terem a seu favor a estrutura do Estado fascista.

Importante também lembrar que uma parcela da população, em sua maioria católica,

foi conivente com a prática anti-semita, que encontrava respaldo no ideário da Igreja

Católica. O fato de o Vaticano ser um “Estado dentro do Estado italiano” e de ter à

2 “Estatísticas de 500 anos de Povoamento” in Brasil 500 Anos de Povoamento. São Paulo, IBGE, 2000,

p.226.

3 CENNI, Franco, op. cit.

4 SCHAERF, Samuele. I Cognomi Degli Ebrei Italiani. Firenze, Casa Editrice Israel, 1925.

12

frente um Papa com o perfil de Pio XII (1939-1958), tão próximo a Hitler, não podem

ser desconsiderados.

Considerando que a prática das leis raciais forçou muitos judeus italianos a

emigrar, nos interessa avaliar a postura do governo brasileiro diante deste fluxo que,

desde 1933, era identificado pela Liga das Nações como sendo de “refugiados

políticos”. A historiografia brasileira contemporânea tem demonstrado que, a partir de

1937, o Estado Novo adotou o anti-semitismo como instrumento político e como

prática de bastidores. Esta posição exigiu, por sua vez, a elaboração de uma política

imigratória que restringisse a entrada dos refugiados apátridas, a maioria de origem

judaica. A adoção de circulares secretas a partir de 1937 e a presença de diplomatas

brasileiros anti-semitas em missão no exterior criaram barreiras a este grupo

identificado como indesejável por ser de “raça semita”. Alemães, austríacos,

poloneses, húngaros, tchecos, italianos e indivíduos de outras tantas nacionalidades

foram incluídos nesta categoria de “cidadãos do mundo” 5.

O trâmite para a concessão de vistos aos “desejáveis” se fez gerenciado por um

discurso anti-semita endossado por muitos diplomatas em missão na Europa6. Para este

estudo, em particular, nos interessam aqueles que se encontravam na Itália entre 1937

e 1945 e que – enquanto testemunhas oculares dos fatos e agentes sociais de um

processo – tinham que atender às exigências do Ministério de Relações do Exterior7 e,

a partir de 1941, do Ministério de Justiça e Negócios Interiores do Brasil8.

5 Sobre este tema, consultar o livro de CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Cidadão do Mundo. O Brasil

Diante dos Judeus Refugiados do Nazi-Fascismo, 1933-1948. São Paulo, Perspectiva (no prelo).

6 Diplomatas brasileiros em Roma: Adalberto Guerra Duval (1872-1947), Embaixador do Brasil, de

10.11.1935 até 28.01.1939; Paulo Mathias de Assis Silveira, 2º secretário de 22.06.1936 até 23.03.1937;

2º secretário classe K, Henrique de Souza Gomes, de 2104.1937 até 31.12.1937; 2º secretário, Jorge

Latour (10.05.1937), em seguida, 1º secretário classe L, até 14.04.1939; encarregado de negócios

Adriano de Souza Quartin (28.0.1938), a partir de 04.05.1938, Conselheiro e 1º secretário classe L, até

23.04.1939.

Pedro Leão Veloso (1887-1947), Embaixador do Brasil de 24.04. 1939 até 16.02.1941; 2º secretário

classe K, Henrique de Souza Gomes, até fim de 1939.

7 Ministros das Relações Exteriores brasileiros, entre 1937 e 1945, foram respectivamente: Mario de

Pimentel Brandão (1989-1956), de 01.11.1936 a 15.03.1938; Oswaldo Euclides de Souza Aranha (1889-

1960) de 15.03.1938 a 23.08.1944; Pedro Leão Veloso (interino, 1944-1946).

8 Ministros da Justiça e Negócios Interiores, entre 1937 e 1945, foram respectivamente: Agamenon Sergio

Godoy de Magalhães (1893-1952), de 07.01.1937 até 03.06.1937; José Carlos de Macedo Soares (1883-

1968), de 03.06.1937 a 09.11.1937; Francisco Luís da Silva Campos (1891-1968), de 10-11.1937 até

17.07.1942.

Alexandre Marcondes Machado Filho (1892-1974 ), interinamente, período 17.07.1942 a 23.02.1943.

Fernando Antunes (1887- 1950), interinamente, período 23.02.1943 a 03. 03. 1943.

Alexandre Marcondes Machado Filho, interinamente. Período 27.03.1943 a 27.03.1945.

Agamenon Sergio Godoy de Magalhães (1893-1952), de 03.03.1943 até 29.10.1945.

13

Fica evidente, na documentação do Arquivo Histórico do Itamaraty e do

Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, que estes dois ministérios, durante todo o Estado

Novo (1937-1945), gerenciaram a política imigratória e dificultaram, ao máximo, a

entrada de judeus no Brasil. Se alguns milhares de vistos de entrada foram concedidos

pelo governo Vargas, raros foram por princípios humanitários ou de oposição à

ideologia anti-semita sustentada pelos países identificados com o ideário nacional-

socialista.

Diante desta constatação e instigada pelos estudos desenvolvidos por Tucci

Carneio, Jeffrey Lesser, Fabio Koifman, Avraham Milgram e Leonardo Senkman,

dentre outros, procurei investigar o fluxo imigratório que, entre 1938 e 1945, trouxe ao

Brasil cerca de 700 refugiados judeus italianos. Ao caracterizar este movimento como

distinto da grande emigração italiana (1878- 1920), procuramos traçar o perfil social,

econômico e cultural deste grupo que renovou a comunidade italiana já estruturada nas

principais capitais brasileiras.

Optamos por trabalhar com fontes diplomáticas pesquisadas no Rio de Janeiro

no Arquivo Histórico do Itamaraty (AHI) e com os documentos das associações

judaicas de São Paulo sob a guarda do Arquivo Histórico Judaico-Brasileiro de São

Paulo (AHJB), em particular do Núcleo de História Oral; assim como com os registros

do Memorial do Imigrante de São Paulo. Na Itália consultei o Arquivo Diplomático do

Ministero degli Esteri, em Roma; o Instituto Bibliográfico da UCEI (Unione Comunitá

Ebraiche Italiane) em Roma e o CDEC (Centro Documentazione Ebraica

Contemporânea) em Milão. Além disso, utilizei mais de 50 histórias de vida,

registradas pessoalmente,9 de italianos judeus refugiados ou filhos destes.

Através dos documentos produzidos pelos diplomatas brasileiros em missão na

Itália, tivemos a oportunidade de identificar os produtores de um discurso intolerante e

anti-semita na sua essência, que trouxe conseqüências para estes italianos

discriminados pela política racista adotada por Mussolini. Considerados “não arianos”

pelos paradigmas da moderna ciência alemã e italiana, esses judeus foram duplamente

escorraçados como “raça inferior”: em primeiro lugar, pelo Estado italiano (que era

inspirado pelo programa hitlerista) e, em segundo lugar, pelo Estado Novo brasileiro,

adepto das teorias anti-semitas em voga na Europa. Com base nos documentos

9 Algumas destas com Sema Petragnani, no livro: CAMPAGNANO, A./PETRAGNANI, S. A Milenária

Presença de Judeus na Itália. Resgatando a Memória da Imigração de judeus Italianos no Brasil (1938-

1941). São Paulo, Atheneu, 2007.

14

produzidos pelos diplomatas em missão na Itália, procuramos buscar a essência dos

seus discursos, aqui analisados sob o prisma da intolerância.

Para Umberto Eco, a intolerância está situada aquém de qualquer doutrina.

Nesse sentido, ela tem raízes biológicas, manifesta-se entre os animais sob a forma de

territorialidade e baseia-se em reações emocionais superficiais. Percebe-se um

estranhamento diante daqueles que são “diferentes” por sua cor de pele, por falar uma

língua incompreensível, porque comem rãs, cachorros, macacos, porcos, alhos ou, até

mesmo, porque têm tatuagens10.

Italo Mereu11, ao discutir a institucionalização da intolerância, ressalta que:

Se não levarmos em conta o conceito da intolerância institucionalizada – este filão

por onde corre uma boa parte da história da Europa – é impossível explicar as

fogueiras, os patíbulos, as decapitações, as guilhotinas, os fuzilamentos, os

extermínios, os campos de concentração, os fornos crematórios, os suplícios dos

garrotes, as valas de cadáveres, as deportações, os gulag, as residências forçadas.

Sem este conceito, também não se podem compreender a Inquisição e seus processos,

o Santo Oficio, o Index dos livros proibidos, bem como todas as censuras contra a

liberdade de pensamento, então chamada de heresia. È justamente partindo do

conceito ―infame‖ de heresia (definida como ―opinião perversa que se afasta da fé‖)

que se pode encontrar o núcleo que contém, em embrião, a política da intolerância e

do partido único executada pelo fascismo, comunismo, nazismo e todos os outros

―ismos‖ totalitários do nosso século. 12

A suspeita não é uma informação certa, pelo contrário, é uma dúvida incerta. Esta é a

frase sobre a qual se baseia a obra de Italo Mereu. É a suspeita, de fato, o meio mais

importante pelo qual pode proliferar a intolerância: não somente a suspeita sobre o

diferente, mas também a suspeita como “chave social”. Ela torna possíveis a torpeza e

a injustiça, e até as torturas sob a desculpa de "exigências de ordem superior".

O termo, do latim intolerantia (composto de in negativo e tolerantia, de

tolerar), refere-se àquelas instituições, mentalidades, comportamentos, atitudes,

(individuais ou coletivos), aspectos da personalidade, com os quais são reprimidos ou

eliminados aqueles que manifestam comportamentos, valores, idéias e desejos

considerados falsos ou ruins porque diferem dos que são considerados normais. Enfim,

10 ECO, Umberto. “Definições Léxicas”. In: A Intolerância. Academia Universal das Culturas. Rio de

Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p.17.

11 Italo Mereu foi professor titular de História do Direito na Universidade de Ferrara, sendo agora

professor de História na Universidade Luiss de Roma.

12 MEREU, Italo. A Intolerância Institucional; Origem e Instauração de um Sistema sempre Dissimulado .

In: A Intolerância, op.cit., p. 42.

15

o uso do conceito é correlativo ao de tolerância, cuja história se estende das primeiras

formulações de S. Agostinho até ao grande debate sobre a tolerância religiosa dos

séculos XVI e XVII na Europa.

Consideramos que os discursos diplomáticos a respeito do Outro – no caso, o

judeu espoliado pelo nazi-fascismo – implicaram também ações intolerantes que

acarretaram graves conseqüências para aqueles que, do dia para a noite, se tornaram

apátridas. Como tais, foram reduzidos a um grupo minoritário, sem direitos e deveres

de cidadão. Foram violentados no âmago do seu direito de ser, pois a prática da

intolerância implica o exercício da violência e reduz o herético ou o diferente ao nível

de delinqüente, que se deve criminalizar, sem com ele discutir. Além da intolerância

institucionalizada, existe também a intolerância difundida e silenciosa praticada no

âmago das famílias, nas escolas, nos escritórios, nos estádios, nas discotecas, nas

estradas e nos jornais. Em qualquer instância, a intolerância é causa de sofrimento,

tanto quanto aquela praticada em nome das ideologias oficiais ou de uma autoridade.

São as atitudes aparentemente banais que, como no racismo quotidiano, se manifestam

de forma sutil, reforçando a intolerância e contribuindo para torná-la um hábito.

Consolidada pela repetição, ato continuado e persistente, acaba por radicar-se no

inconsciente social. Daí as raízes psicológicas da intolerância serem tão importantes

quanto as econômicas, sociais, políticas e ideológicas.13 Portanto, devemos estar

atentos aos indícios de traumas, dor, ódio ou qualquer outro sentimento possível de ser

identificado nos documentos históricos e nos depoimentos orais.

Procuramos não perder de vista o objeto da intolerância que, neste caso em

particular, é o judeu identificado como o Outro: “estrangeiro” ou “estranho” por sua

raça, etnia, religião ou linguagem. Para os nazistas, os não arianos e, particularmente,

os judeus eram estrangeiros; na África dos Grandes Lagos, para os hutus, estrangeiros

são os tutsis. Nestes casos estamos diante de visões totalizadoras que combatem o

pluralismo, recusando a priori tudo o que extrapola determinado modelo. Incluímos

aqui os fundamentalistas, também intolerantes. Fanáticos recusam o “diferente”

eliminando-o e, até mesmo, aniquilando-o fisicamente. Têm em comum a

demonização da diferença levada até a eliminação do Outro. Questões como estas

despontam nos textos dos ofícios, telegramas, memorandos e cartas encaminhadas

pelas autoridades diplomáticas representantes do Itamaraty, do Conselho de imigração

13BOLAFFI Guido; GINDRO Sandro; TENTOR Tullio. Dizionario delle Diversità. Le Parole

dell’Immigrazione, delRazzismo e della Xenofobia. Firenze, Ed. Liberal Libri, 1998, pp. 167-68.

16

e Colonização e da elite mandante do governo Vargas. Intolerantes, filtravam suas

versões tendo como parâmetro o ideário anti-semita que, nos países afinados com o

regime nazista, definia o judeu como um ser indesejável, descartável para a

Humanidade.

Assim como os fascismos italiano e alemão, também o varguismo tinha dois

alvos de intolerância: os comunistas (intolerância política) e os judeus (intolerância

étnica), conceitos geralmente associados entre si. Contemporaneamente, persistia a

intolerância contra os negros, os japoneses e os ciganos.

Interessante lembrar que:

ao mesmo tempo que se negava a figura do negro, do japonês e do judeu, o imigrante

europeu (ariano e católico) despontava como uma opção viável enquanto mão-de-

obra produtiva, mas desde que selecionado. Oliveira Vianna – reconhecido

intelectual brasileiro que ocupou cargos de decisão junto ao governo Vargas –

encarregou-se de propagar em seus escritos uma série de princípios racistas

louvando os milagres do arianismo alemão. O apelo oficial, por sua vez, se fazia em

nome da vocação agrária do Brasil que, nos anos 30, foi reforçada pelo conceito de