Inéditos e esparsos por Júlio Dinis - Versão HTML

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INÉDITOS E ESPARSOS

Carta do Visconde de Castilho a Júlio Dinis

acerca do seu romance Uma Família Inglesa,

transcrita, por amável concessão do Sr. Vis-

conde de Castilho Quito), das Novas Telas

Literárias (vol. IIP (1).

Ex.mo Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar, com que V. Ex."

me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.

Dizer a V. Ex." que nos lançámos a ele com verdadeira sofregui-

dão, fora uma superfluidade; acrescentar que o levámos de um fôlego,

sem a mínima distracção, até à última página, e que depois dela nos

estava ainda inteiro o apetite para o dobro, ou o triplo, outra super-

fluidade não menos escusada.

Sim senhor: a sua inglesinha não é menos para amores que a

Margarida. Esta sua segunda filha há-de-lhe dar tanta glória como a

primogénita; e se lha não der maior, é porque não pode ser.

Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu novo

livro, é (quanto a mim) que, sendo tão sóbrio o enredo, e tão pequeno

o teatro da acção, o interesse dela é todavia dos mais poderosos.

0 talento real foi sempre assim, e assim é também em todos os seus

poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem esforços nem

violência, os máximos efeitos.

Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até ao fim)

no óptimo sistema que adoptou.

Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como

escritor de romances já distintíssimo, não só para entre nós. Eu, por

cima desse mérito, reconheço-lhe ainda o de filósofo e moralista, que

algum dia tem de ser colocado entre os de primeira plana. Teófrasto

e La Bruyère não debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac

mesmo não lê mais por dentro nos indivíduos. V. Ex.a, além do esmero

com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem

N O T A S

Colhidas de um livro manuscrito.

PRINCIPIEI a escrever as «Pupilas» em Ovar (1863) durante os

meses de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro

ou Outubro. Ficaram-me na gaveta até ao ano de 1866 em que

solvi publicá-las. Alterei bastante o romance e ampliei-o introdu-

zindo-lhe personagens e capítulos novos. Publicou-se em 1866 de

Março a Julho. Publicou-se em volume em Outubro de 1867. O pri-

meiro exemplar brochado em 20 de Outubro.

Os primeiros factos da minha existência literária remontam aos

11 anos. Não os recordo porque pretenda persuadir-te que efectiva-

mente de algum valor eram já essas façanhas de criança, mas tão

somente para me darem ensejo de fazer algumas reflexões sobre os

motivos principais que podem actuar sobre a inspiração nascente e

criar o gosto pelas letras; assim como, mais tarde, apreciar as causas

que podem educá-lo em melhor caminho.

Permite-me que te recorde alguns factos da minha vida.

Sabes que aos 5 anos fiquei sem mãe, que a nossa vida de

família...

...(Não continua).

P. — Um homem que doma feras como está mais sujeito a morrer ?

R. — De uma dor. (Domador).

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I N É D I T O S E ESPARSOS

P. — Que basta a q u a l q u e r p a r a e n r i q u e c e r ?

R. — Ser Henrique. (Enrique-cer).

P, — Em q u e dia do ano tocam melhor os sinos ?

R. — No dia de defuntos p o r q u e tocam todos a finados. (Afinados).

P. — Para q u e s e r v e a cal na artilharia ?

R. — Para fazer p e ç a s de cal e b r o n z e . (Calibre onze).

P. — Qual é o e x e m p l o de um h o m e m inevitavelmente incurável ?

R. — Um a b a d e s e m cura. (Coadjutor).

Principiei a e s c r e v e r « O s Fidalgos da Casa Mourisca», no Funchal,

em Março de 1869. Levava-o em meio do capitulo 8.° quando voltei

ao Porto em Maio do m e s m o ano. Trabalhei no Porto e escrevi-o até

princípios do capítulo 17, d e s d e Junho até Outubro, época em que

voltei p a r a a Madeira. Concluí-o no Funchal em 11 de Abril de 1870.

Levei-o manuscrito p a r a o Porto. Principiei a copiá-lo aí e levei a revi-

são e cópia até ao capítulo 22. Concluí este s e g u n d o trabalho no Funchal a 27 de N o v e m b r o de 1870.

R E N D I M E N T O D A S M I N H A S O B R A S

Pupilas — Folhetins 27$000

» 1ª edição (dinheiro) 119$215

» 70 e x e m p l a r e s 35$000

» 2.» edição (dinheiro) 246S080

» 6 e x e m p l a r e s 3$000

430$295

Família Inglesa — Folhetins 40$000

» » 1.» edição (dinheiro) 288$705

» » 27 e x e m p l a r e s 16$200

344$905

Morgadinha — Folhetins 50$000

» 1.» edição (adiantamento) 150$000

» » » 90$000

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INÉDITOS E ESPARSOS

Serões — Em dinheiro ...

150$000

» 80 exemplares

35$000

» Folhetins

16$000

AUSÊNCIAS

1863 — Ovar.

1864 — Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Aveiro,

Ovar.

1865 — Felgueiras,

1866 —

1867 — Aveiro, Ovar, Vila do Conde, Póvoa.

1868 — Matosinhos, Leça, Lisboa.

1869 — Lisboa, Funchal, Coimbra, Fânzeres.

1869-1870 —Lisboa, Funchal.

Quando uma nação forte e vigorosa, no gozo da sua autonomia,

respirando a aura vivificadora da liberdade, é invadida pela agressão

estrangeira; quando o despotismo e a servidão se aproximam, a campo

descoberto, dos seus muros, estes transformam-se em baluartes, a

reacção é pronta e eficaz, cada indivíduo é um soldado, cada soldado

cinge-se da coroa dos heróis e o sangue, patriótica e generosamente

vertido no altar da pátria, reverdece salutarmente as palmas da vitó-

ria. Mas se o mal se aproximou obscura e lentamente, se o veneno se

inoculou gota a gota nos espíritos, pervertendo-os, infeccionando-os;

se rastejou como a serpente; se a falsa doutrina foi insidiosamente

segredada no confessionário, pregada do púlpito, administrada em

sacrílega comunhão com a hóstia consagrada; se as gerações novas

a bebem na educação, dirigida por a hipocrisia, a vida da nação defi-

nha, os espíritos aviltam-se, os sentimentos nobres perdem-se, a alma

adormece voluptuosamente numa inacção vergonhosa ou, se um dia

um excesso de opressão a faz acordar, se pretende reagir, o esforço

momentâneo não a salva, antes acaba de a deprimir.

A luta é ainda gloriosa, mas improfícua e talvez prejudicial. Disto,

a Europa nos ofereceu há pouco um triste exemplo.

No mundo fisiológico há também umas e outras destas comoções,

bem comparáveis às comoções políticas a que nos referimos. Às vezes

o mal vem do exterior, acomete subitamente, violento sim, mas decla-

rado, franco, sumário. Então a economia, na presença do perigo, rica

de todos os seus recursos, forte de toda a sua energia, põe em jogo

toda a sua actividade de que está de posse. E o combate trava-se,

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I N É D I T O S E ESPARSOS

pronto, violento, muitas vezes eficaz. A febre é o tipo destas revoluções

fisiológicas.

Mas se as causas obraram lentamente, se desde o primeiro e mis-

terioso instante da existência, esse momento que encerra séculos, o

da fecundação, se assenhoreou da organização, se perverteu o leite

materno, se infeccionou as fontes de toda a substância, viciando o ar,

envenenando as águas... então o organismo cede-lhe pouco a pouco,

segue, sem reagir, um plano de vida mórbida, ou, quando reage, está

longe de manifestar aquelas eficazes e salutares sinergias que deci-

dem os fenómenos mórbidos como se estivessem despedaçados os

laços da unidade vital. É uma reacção anormal, irregular, aquela que

muitas vezes afronta (?) a subjeição do corpo. (?)

Os organismos, em certas moléstias crónicas, são um exemplo

destas outras comoções.

*

* *

Baixou do ministério do reino aos estabelecimentos de instrução

superior uma portaria mandando-os consultar sobre um plano geral

de reforma e nela o ministro deixou transparecer o seu pensamento

em relação aos destinos de cada um desses estabelecimentos.

Prepara-se pois uma reforma radical na instrução pública do

País; desde a instrução primária, a tão descurada sempre dos nossos

governos, até à instrução superior, tão longe ainda entre nós do que

devia ser. A portaria é a aurora de um clarão que promete iluminar-

-nos para a legislatura seguinte; faremos votos para que não seja ape-

nas uma aurora boreal, como a que aparece aos navegadores dos

mares do norte para, momentos depois, se resolver em trevas.

O convite que o ministério do reino fez às escolas e às acade-

mias, vimos nós fazê-lo aqui a toda a Imprensa, a todos os publicistas,

a todos os pensadores do reino e principalmente aos das províncias

do norte, que mais que nenhuns têm razões para se ocuparem desta

tentativa de reforma.

O nosso país é pequeno em área; mas ainda assim parece que

já não é um só o dialecto que se fala em todas as regiões dele. Pala-

vras há que, segundo as latitudes em que se pronunciam, assim tomam

diversas acepções.

A palavra reforma está neste caso.

Quando pelas secretarias do Terreiro do Paço, pelos gabinetes

dos ministros, pelas salas e corredores das duas câmaras e pelas pra-

ças e teatros principia a vogar esta palavra — reforma — os ouvidos da

capita! escutam-na com prazer; mas, se os ventos a transmitem às pro-

víncias, se os ecos da Imprensa a repercutem, é raro que não estre-

meçam de apreensões os espíritos menos timoratos.

De onde provém esta diferença?

É que ha muito as reformas manifestam-se em Lisboa por amplia-

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I N É D I T O S E ESPARSOS

ção nos quadros dos funcionários, aumento da despesa pública, ele-

vação das cifras de vencimentos, criação de sinecuras, com que a pro-

verbial indolência dos nossos compatriotas do sul se pressente lison-

jeada. Para nós, porém, os que vivemos longe do sol, aquele belo e

fomentador sol da capital, diversa e quase antinómica acepção tem a

palavra, quando a procuramos no dicionário, que por experiência sabe-

mos ser o mais fiel.

Em tudo é assim. Como a antiga Roma, que fora da sua cidade

não via senão países bárbaros, Lisboa para lá dos seus muros, esquece

que existe o País e procura só por si absorver tudo.

*

* *

We view the world with our own eyes, each of us; and we

make from wifhin us the world we see. A weary heart gets no gladness

out of sunshine; a selfish man is sceptical about friendship, as a man

with no ear doesn't care for music.

Thackeray — The english humourísts of the

eighteen century (pág. 39 Swift).

*

* *

Les éléments de la conjecture au sujet de telle ou telle action

sont, d'une part, ce que l'on croit savoir du caractere de celui qui l'a

fait; de 1'autre, le caractere de celui qui la juge. Les bons supposent

volontiers de bons motifs; les méchants ou les sots en supposent de

méchants ou de sots. De même qu'on ne trouve dans un livre qu'autant

d'esprit que l'on en a, on ne peut aussi sentir que dans la mesure de son

propre mérite ou de sa propre délicatesse, le mérite et la délicatesse

d'autrui. Attendez-vous donc à ce que les gents sans esprit et sans cceur,

c'est-à-dire un três grand nombre de gens, supposent à vos actions les

motifs mesqums qui réglent les leurs.

Émile Deschanel — Étude

sur le Rochefoucauld.

*

Causou-me vivo prazer a leitura dos dois trechos que transcrevi,

por me ter encontrado no pensamento com os seus ilustres autores,

quando escrevi na Morgadinha:

«É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem

no desinteresse dos outros!

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I N É D I T O S E E S P A R S O S

«Não há explicação mais difícil de ser recebida do que a que se

fundamenta em um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade,

«É preciso que duvidemos muito de nós mesmos para assim des-

confiarmos do próximo. Porque afinal o que é verdade, é que a mais

exacta e infalível ciência do coração humano só se adquire pelo estudo

do próprio coração; esse é o único que nos está bem patente. É por

isso que as melhores almas são de ordinário as mais crentes.

«Um homem a quem a desconfiança tenazmente escuda contra

todas as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão

inquinado o coração como supõe o dos outros.»

*

Li ainda no estudo de Deschanel:

Chamfort conte quelque part ceci: «Mr. Th. me disait un jour

qu'en general dans la société, lorsqu'on avait fait quelque action hon-

nête et courageuse par un motif digne d'elle, c'est-à-dire três noble,

il fallait que celui qui avait fait cette action lui prétat, pour adoucir l'en-

vie, quelque motif moins honnête et plus vulgaíre.

*

Este pensamento devido a um autor desconhecido, igualmente

me causou satisfação por haver também posto na boca de Jenny na

Família Inglesa:

«O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos,

raras vezes a acredita. Forja-se outra, às vezes menos natural e plausí-

vel, quase sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é gene-

rosa e nobre e a falsa interesseira e mesquinha.»

E na de Mr. Richard:

«E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo do

que a iniciativa no benefício? Se subtraíres da explicação o elemento

interesse, o facto será incompreensível.»

*

Quand un discours naturel peint une passion ou un effet, on trouve

dans soi même la vérité de ce qu'on entend, qu'y était sans qu'on le

sut, et on se sent porte à aimer celui qui nous le fait sentir. Car il ne

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I N É D I T O S E ESPARSOS

nous fait pas montre de son bien, mais du notre et ainsi ce bienfait

nous le rend aimable; outre que cette communauté d'intélligence que

nous avons avec lui, incline nécessairement le coeur à 1'aimer.

Pascal — Pensées VII du 1 article

— Edit. Bibl. Nation., pág. 33.

Quand on voit le style naturel on est tout étonné et ravi; car on

s'attendait de voir un auteur et on trouve un homme; au lieu que ceux

qui ont le goút bon et qui en voyant un livre croient voir un homme,

sont surpris de trouver un auteur plus poetico quam humane locuttes est.

Idem VIII, pág. 33.

II y en a qui masquent toute la nature. II n'y a point de roi parmi

eux, mais un auguste monarque; point de Paris, mais une capitale de

royaume. II y a des endroits ou il faut appeler Paris, Paris, et d'autres

ou il faut l'appeler capitale du royaume.

Idem IX, pág. 34.

Transcrevi estes pensamentos de Pascal por me parecerem mais

segura guia literária do que os conselhos que me deram alguns críticos

em público e em particular, de ataviar mais o meu estilo nos romances

que escrevo porque o achavam demasiado desornado. Em contraposi-

ção tinha a maioria dos leitores a convencer-me de que o êxito de alguns

dos meus livros era principalmente devido a essa pobreza de ornatos

e arabescos, que me apontavam os censores. Muita vez ouvi dizerem-me

que liam com prazer os romances que eu escrevia porque os enten-

diam do princípio até ao fim. Pareceu-me entrever nos pensamentos de

Pascal mais a confirmação do pensar do vulgo do que o dos críticos.

Funchal, 27 de Outubro.

We are so fond of him because we laugh at him so.

Thackeray — Engl. humourist 100.

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INÉDITOS E ESPARSOS

Acho um pensamento profundamente verdadeiro nesta frase

Thackeray.

*

Acabo de ler pela primeira vez na Histoire de Sibylle de Octávio

Feuillet o seguinte:

«En été, quand 1'aube s'est levée radieuse dans un azur ímma-

culé, les prernières heures du jour ont une pureté et un calme que l'on

croirait éternels. Cependant des brises folies se levent tout-à-coup,

inclinent les herbes et agitent le feuiilage, des roseaux blanchâtres

s'entrecroisent dans le ciei d'un horizon à 1'autre, comme des voiles

tendus soudain par de mains invisibles. On s'inquiete et l'on se dit qui

pourrait bien venir de l'orage dans la journée.»

Ora em 1866 havia eu escrito na Família Inglesa, a págs. 268:

«No Estio dos nossos climas amanhece às vezes o dia puro e for-

mosíssimo; o céu é azul, resplendentes os raios do Sol; tépida e perfu-

mada a viração que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco

parece que o Sol desmaia, que desbota o azul do céu, que nos abafa

a atmosfera inflamada; acumulam-se no horizonte e espalham-se depois

por todo o firmamento nuvens de um azulado de chumbo; forma-se a

trovoada.»

O símile è aplicado por Octávio Feuillet a indicar-nos a revo-

lução que se operou na infância de Sibylle, depois dos seis anos.

No meu romance escrevi eu:

«Esta manhã de Cecília foi bem semelhante a um destes dias de

Verão.»

Com estas e outras descobertas aprende-se, à custa própria, a

não ser precipitado em atribuir propósitos de plagiário a quem ino-

centemente muitas vezes o foi. Ninguém se deve persuadir de que,

depois de tantos séculos de literatura, ainda qualquer possa ter pensa-

mentos ou conceber imagens absolutamente novos. Esta, de mais a

mais, que é já chamada por Octávio Feuillet une vieille image.

Funchal, Dezembro de 1869.

*

S'il y avait un lieu dans l'univers ou un homme put n'avoir sous

les yeux que 1'aspect des grandes scènes de la nature et 1'espectacle

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I N É D I T O S E ESPARSOS

d'honnêtes gens, il serait difficile que son âme, si bouleversée qu'on

la suppose, n'y recouvrat pas un peu de paix et de confiance.

Oct. Feuillet — Hist. de Sibylle, pág. 339.

O romancista convencido desta verdade, deve empregar o poder

criador da sua imaginação em realizar esse lugar bem-aventurado, onde

se possa passar mentalmente algum tempo da vida e colher parte dos

benéficos frutos que tão ridente realidade prometeria. O autor das

linhas citadas assim o faz e eu conheço, por experiência, o efeito salu-

tar dos seus livros.

Pourvu que tout vienne se reunir dans un même noeud facile à

saisir, la simplicité d'une action dépend beaucoup moins du nombre

des intérêts et des personnages qu'y concourent que du jeu naturel

et clair des ressorts qui la font mouvoir. Mais, de plus, il ne faut

jamais oublier que 1'unité par Shakespeare consiste dans une idée

dominante qui, se reproduisant sous diverses formes, ramène, con-

tinue, redouble sans cesse la même impression.

Guizot — Notice sur le Roi Lear.

Parece-me verdadeira esta observação do erudito tradutor de

Shakespeare. E se ela se pode admitir em relação ao drama, onde a

acção tem necessidade de se restringir, com muita mais razão vigora

no romance cujo plano é naturalmente mais vasto e permite mais expla-

nação. É por isso que não posso concordar com os que taxam de falta

de unidade o meu romance A Morgadinha. Todas as personagens e

episódios nele introduzidos estão ligados por interesses comuns e

subordinados a uma ideia principal. Essa é a unidade que eu procuro

sempre realizar.

Funchal—Janeiro de 1870.

No difuso e confuso livro de critica de Luciano Cordeiro, lê-se a

pág. 240: «O chamado romance de costumes, geralmente variante

bucólica daquela (a feição social), desfastio da literatura burguesa,

sem alcance crítico»... É uma das muitas leviandades e fraquezas

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INÉDITOS E ESPARSOS

de critério do que a si mesmo se apresenta como o reformador da

crítica.

Os romances de costumes, bem compreendidos, pintando a

maneira de viver e o pensar comum dos povos, sobre serem de irre-

sistível interesse para a actualidade e os que mais prontamente adqui-

rem os tão disputados foros de popularidade, são mina preciosa para o

estudo da época fornecida aos vindouros. Se as idades passadas da

nossa literatura cultivassem o género, importante subsídio colheriam

nele os historiadores, que tanto se queixam da aridez das crónicas e

dos escritos literários desses tempos.

Estou convencido de que é mais provável que a posteridade leia

com mais interesse o romance de costumes, que não chega ao alcance

da critica do Sr. Luciano Cordeiro, do que, com seriedade, os ditames,

que uma pretensiosa e pedantesca coorte de rapazelhos, lhe está ditando,

cá do nosso século, como se gozassem do privilégio de videntes.

Funchal — Março de 1870.

ÍNDICE DAS CARTAS LITERÁRIAS A PROPÓSITO DOS MEUS LIVROS

1.ª — Soromenho 15- 4-67

2.ª— A. Herculano 4- 5-67

3.ª —A. Soromenho 6- 5-67

4.ª— Soromenho 27- 5-67

5.ª —João Bastos 26-10-67

6.ª —A. F. de Castilho 30-10-67

7.ª — Soromenho 1-11-67

8.ª —A. F. de Castilho 4-11-67

9.ª — Soromenho 10-11-67

10.ª —Tomás de Carvalho 14-11-67

11.ª — E . Biester 14-11-67

12.ª —A. F. de Castilho 19-11-67

13.ª — Soromenho 26-11-67

14.ª—Augusto Malheiro 28-11-67

15.ª —Mendes Leal 2-12-67

16.ª — Teixeira de Vasconcelos 2-12-67

17.ª — Alexandre da Conceição 2-12-67

18.ª —A. F. de Castilho 4-12-67

19.ª —Silva Ferraz 8-12-67

20.ª —Tomás Ribeiro 15-12-67

21.ª —Soromenho 18-12-67

22.ª — Faustino de Novais 23-12-67

23.ª —Luciano Cordeiro 28-12-67

24.ª — Soromenho ?- 1-68

25.ª —Ed. A. Falcão 17- 1-68

26.ª — Biester 7- 2-68

27.ª —Biester 22- 2-68

28.ª —Biester 9- 3-68

29.ª — Faustino Novais 23- 3-68

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I N É D I T O S E ESPARSOS

— Abade de Santa Maria de Pigeiros(?) 3- 4-68

— Custódio José Duarte 13- 4-68

— João Bastos 30- 6-68

— João Bastos 13- 7-68

— A. F. de Castilho 15- 7-68

— Soromenho 16- 7-68

— Júlio de Castilho 21- 8-68

— Tomás Ribeiro 15-12-68

— Júlio de Castilho.. 4- 4-69

— Direct. do gab. port. de Ieit. do Maranhão 24- 5-69

— Teixeira de Vasconcelos 29- 7-69

Das cartas mencionadas nesta relação existiam

na posse da família de Júlio Dinis apenas as

duas que em seguida se publicam, do poeta

portuense Faustino Xavier de Novais.

II.m° Sr.

Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 1867.

Não sei se lhe será completamente estranho o nome que assina

carta. Nessa hipótese vão algumas palavras necessárias como

exórdio ao assunto que me move a escrever-lhe.

Sou natural do Porto, lá passei a infância e a parte melhor da

mocidade. Filho de um pobre e honrado artista tive por brasões os

calos que me deixara nas mãos o uso da ferramenta empregada no

trabalho de ourivesaria, de que vivi muitos anos. Estudei as primeiras

letras apenas. Apareceu-me tarde a paixão pela literatura e se hoje

não sou inteiramente ignorante, devo o pouquíssimo que sei à per-

severança com que me dediquei, em horas vagas, à leitura de bons

livros e à convivência que tive com literatos, e especialmente com

Camilo Castelo Branco, a quem posso chamar mestre, como lhe chamo

amigo. Publiquei dois volumes de versos satíricos e rabisquei por aí

muito papel em jornais.

Loucuras do coração me impeliram a deixar a pátria em 1858,

dirigindo-me para aqui, onde me tenho conservado sempre e onde

me esperam sete palmos de terra que o mundo não poderá negar-me.

A minha saída foi traduzida aí como ambição, ou antes cobiça.

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I N É D I T O S E E S P A R S O S

Eu deixei ao mundo a liberdade da tradução, escondendo as minhas

mágoas onde não pudesse perturbá-las o sarcasmo dos moralistas de

máscara.

Tenho sido sempre infeliz, estou pobríssimo e altamente conven-

cido que assim morrerei.

Cansado de dissabores, vivo retirado do mundo, que só frequento

no exercício de um emprego que me dá a subsistência. Abandonei a

literatura, sem prejuízo para mim nem para ela e perdi de todo a

vontade de escrever. Ao terminar esta página, perguntaria V, S.\ se

tivesse a quem, com que fim o estou eu maçando com esta narração

biográfica. Eu lhe digo. Quis mostrar-lhe que sei ler, que tenho cora-

ção e que sou fanático por Camilo Castelo Branco, para lhe dar depois

os mais sinceros parabéns pelo resultado do seu trabalho literário As

Pupilas do Senhor Reitor.

Ainda não vi aqui anunciado o livro à venda mas foi-me confiado

um exemplar, de cinco que vieram para o Gabinete de Leitura, e li-o

com prazer e com entusiasmo.

Sinceramente lhe digo que hâ muito tempo não encontrei um

livro tão precioso como o seu.

Acresce em mim a circunstância de me serem muito conhecidos

os costumes do campo, que por várias vezes observei de perto e

detidamente quando eu achava poesia em tudo o que a tinha.

Admirei, pois, a extrema verdade das suas descrições e lem-

brei-me com saudade de colegas que conheci do Reitor, do João

Semana e do José das Dornas.

É impossível que V. S.* não seja filho do José das Dornas; mesmo

porque dizem os jornais que o autor do romance se chama Joaquim

Guilherme Gomes Coelho e é lente na Escola Médico-Cirúrgica do

Porto. Médico também era o Daniel.

Aceite, pois, os meus sinceros parabéns e creia que conto no

número das minhas mágoas a impossibilidade em que estou de dar-lhe

um abraço.

Oxalá que a vida lhe corra próspera e desassombrada e que a

sua robusta inteligência continue, com mais frutos como aquele, a enri-

quecer a nossa literatura.

São estes os mais ardentes votos de um homem que V. S."

obrigou a assinar-se

Amigo e ardente admirador

Faustino Xavier de Novais,

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I N É D I T O S E ESPARSOS

Amigo Senhor Gomes Coelho.

Rio —Março 23-1868.

Satisfez-me, penhorou-me, encantou-me a sua carta de 26 de

'Fevereiro último. É o seu retrato moral. De nada mais preciso para

avaliá-lo como homem, como, pelas Pupilas, o tinha avaliado como

escritor.

Vejo que compreendeu bem a sinceridade das minhas palavras

a carta que lhe dirigi, inspirada pelo entusiasmo que me causara o

eu magnífico livro.

Não sou lisonjeiro nem pretendo mostrar-me. A um literato de

grande e antiga nomeada, não haveria entusiasmo que me impelisse a

escrever naquele sentido, não havendo entre nós relações de amizade.

Receava que me julgasse adulador, ou charlatão, porque a um

homem notável nunca se apresenta, prestando-lhe homenagem, o obs-

curo e ignorante. Nesses casos eu mesmo julgo mal muitas vezes. Se

não conheço de perto o que se apresenta, fico em dúvida se vai ver,

ou mostrar-se. Cedi, pois, ao impulso do entusiasmo que me inspirara

o livro, porque a modéstia do autor se revelava no pseudónimo.

Os seus apontamentos biográficos é que vieram tarde. Quando

lhe escrevi perguntei daqui a meu irmão Miguel Novais se o conhecia

e pedi-lhe informações a seu respeito. Deu-mas imediatamente recor-

dando-me também a antiga actriz do Teatro de Camões, de que me

lembro perfeitamente. As suas feições de então desenhava-as eu ainda

agora, se fosse conhecedor da arte. As de hoje, porém, devem ser

outras, que eu queria ver copiadas pela fotografia.

Se eu lhe merecesse essa prova de estima!

Estou ansioso por ver mais trabalhos literários seus. Os corres-

pondentes do Porto para os jornais daqui anunciaram a próxima publi-

cação de outro seu romance, já publicado em folhetins, intitulado —

U ma Família de Ingleses no Porto. —É verdade que vai aparecer?

Desejo-o ardentemente.

Louvo sinceramente a resolução em que está de não adoptar a

literatura como profissão, que o não pode ser em Portugal, e menos,

muito menos, aqui.

Aceite um conselho que lhe oferece a amizade, auxiliada pela

experiência. Conserve sempre essas ideias. Tome como extraordiná-

rio o lucro que lhe advenha da literatura e nunca o espere para ocor-

rer às necessidades da vida. A inspiração desaparece no momento em

que a atenção do escritor começa a fixar-se no interesse que lhe dará

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I N É D I T O S E ESPARSOS

a sua obra, calculando antecipadamente a aplicação que há-de dar ao

produto.

Chegada essa ocasião, o escritor não escreve — trabalha. E esse

trabalho é de todos o mais mal remunerado.

Estimei saber que convive ainda com o Augusto Luso e com o

Custódio Passos, duas recordações vivas de dois amigos mortos.

Ainda bem que em ambos sobra o merecimento próprio, diante

do que se modifica a saudade.

Abrace-os em meu nome, assim como ao Nogueira Lima, António

Correia e mais amigos que se lembrarem de mim. Eu recordo-me de

todos eles.

Se quiser escrever-me algumas vezes, creia que o prazer de ler

as suas cartas me distrairá do desalento em que vivo, sem esperança

em coisa alguma e, com mágoa o digo, quase sem as crenças que

outrora me tornavam feliz.

Agradecendo-lhe as suas benévolas expressões termino pedindo-

-lhe que no número dos seus afeiçoados conte afoitamente o seu

Amigo e admirador

F. X. de Novais.

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IDEIAS QUE ME OCORREM

Extracto de um livro manuscrito.

ENHO ouvido dizer que à índole do romance repugna a lentidão

no suceder das cenas e episódios; que num género de litera-

tura, como é aquele, o leitor quer depressa chegar ao desen-

ace e impacienta-se quando o autor entra em profusas descrições, em

análises de caracteres, ou em divagações metafísicas.

Já me apontaram isto em processo de crítica feita a um dos

meus livros.

Examinei com cuidado os argumentos que se apresentaram e, na

melhor boa fé, pensei nisto alguns dias. Acabei por convencer-me de

que não tinham razão os censores.

Se foi bem tirada a conclusão, não sei; mas que a adoptei com

sincera convicção, posso afirmá-lo.

Ainda que suspeito, devo, primeiro que tudo, declarar que não

sei bem por que se há-de julgar o romance uma forma literária menos

grave e perfeita que as outras quando ela pode conter em si, em boa

e fecunda harmonia, as qualidades de todas.

Este descrédito do romance, que seguindo, com mais ou menos

fidelidade os modelos de Walter Scott, é a forma literária verdadeira-

mente característica dos nossos tempos, provém dos abusos dos roman-

cistas que, possuídos por uma falsa ideia, julgaram ser a imaginação

a única base do romance.

Pensaram e pensam estes que o romance é o enredo e esta ideia

generalizou-se e radicou-se a tal ponto que muitos críticos, aliás ilus-

trados, fizeram e fazem, talvez irreflectidamente, artigos de legislação

literária inspirados por ela.

Parece-me que a opinião que me suscitou estas reflexões está

nesse caso. O romance é o enredo? tudo o mais são condições secun-

dárias, elementos indispensáveis para que a acção principie, para que

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I N É D I T O S E ESPARSOS

o nó se aperte e enfim para que o desenlace termine a obra ? Por isso

se clama contra o romancista se a acção não caminha durante dois,

três ou mais capítulos; por isso se diz, em ar de censura, ao autor,

como se a descoberta o devesse desgostar: —já sei o fim do romance;

F. casa com L... M. perdoa ao filho, etc, etc.

Porque é que está em deplorável e espantosa decadência o

romance de imaginação?

Porque se tem derrancado o género até às indigestas e escan-

dalosas produções de Ponson du Terrail?

Exactamente por não pretenderem prender o leitor senão pela

sucessão rápida das peripécias e dos lances imprevistos.

Nem uma análise de caracteres, nem um curto olhar lançado ao

íntimo do coração humano a devassar o que lá é de costume encon-

trar-se e não nenhuma dessas monstruosidades, que poderiam ter exis-

tido num ou noutro coração, mas por excepção, e que o leitor não tem

decerto no seu.

Não caluniem o público dizendo que é só desse alimento que ele

digere. Não é assim. Vós sois que o alimentais há muito nesse vicioso

regímen, que, sem dar sólida nutrição, estraga o paladar, cuja sensibi-

lidade embotada exige estímulos cada vez mais acres e irritantes.

Há uma lei do gosto literário em que eu acredito firmemente.

O excepcional, o extravagante, o desregrado não é o que desperta

nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais dura-

douro interesse; pelo contrário, é o comum, o vulgar na justa acep-

ção do termo.

Quando encontramos em um livro pensamentos que já tivemos um

dia, sentimos agradável surpresa, como ao darmos em um lugar, ines-

peradamente, com uma pessoa conhecida; quando no carácter, no cora-

ção de uma personagem literária há alguma coisa que é nossa, quando

nos reconhecemos em parte personificados numa criação, redobra o

interesse com que o acompanhamos nas peripécias do drama.

É por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor

nos identifica bem com as personagens entre quem se passa a acção,

antes de a travar.

Depois desta iniciação, creiam-no ou experimentem-no, excita-

-nos mais interesse um simplíssimo drama que se passe entre esses

indivíduos, do que uma violenta e ultradramática tragédia em que

tomam parte personagens que o autor apenas nos faz conhecer pelos

nomes.

Querem um exemplo a corroborar a minha opinião, que não é

só minha?

Muita vez haveis de ter ouvido contar um caso notável, acompa-

nhado das mais curiosíssimas circunstâncias, um grande e horroroso

crime, por exemplo, acontecido entre pessoas que vos são desconhe-

cidas. O caso é de si bastante para vos espantar, independentemente

das personagens e, efectivamente, por um momento pasmais do que

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I N É D I T O S E ESPARSOS

ouvis. Mas a impressão embota-se, extingue-se e cedo pensais em outra

coisa, porque ignorando o carácter das pessoas a quem mais direc-

tamente o caso afecta, não podeis prever a natureza das paixões (?)

que elas suscitaram. Não as conheceis (?) antes para poder calcular

o reflexo psicológico desse facto.

Contem-vos, porém, um acontecimento muito mais simples, um

destes casos comuns na história de todas as famílias, mas que se refere

a pessoas de cujo carácter, de cujo viver, de cujos hábitos estais bem

ao facto e a notícia vos impressionará muito mais do que a outra e cor-

rereis de memória, uma por uma, aquelas pessoas, calculando e pre-

vendo pelo conhecimento que tendes delas o estado em que esse acon-

tecimento as conservará.

Isto reproduz-se no sucesso literário de um livro de romance.

As complicadas peripécias de uma história à Ponson du Terrail ator-

doam-vos, como a descrição de um crime horroroso cometido a dis-

tância da vossa terra; mas deixai passar oito dias sobre essa leitura

e não vos ficará dela memória porque nunca chegastes a conhecer e

fixar, a estimar portanto, as pessoas entre quem ele se travou.

Pelo contrário, dos simples episódios de um romance como o

Vigário de Waksfield e tantos outros da escola genuinamente inglesa,

fica-vos uma como memória saudosa, porque aquelas figuras que vistes

em acção, que sofreram e choraram, eram já de há muito conhecidas

vossas e tínheis tido tempo durante a acção lenta da história para lhes

conhecer bem o carácter antes de as ver sofrer.

Mas os episódios indiferentes, que não conduzem ao enredo?

Para que roubar tempo com eles?

Para aumentar o efeito das cenas principais. Insensivelmente,

sofreis a influêndia deles.

Ainda outro exemplo, tirado da vida real: Suponde que tendes

um vizinho a quem, por involuntária e distraída observação, tendes

descoberto certos hábitos. Vede-lo sair a certas horas, falar de certa

maneira, parar em certas lojas, etc, etc. São factos indiferentes em que

maquinalmente atentais.

Uma manhã dizem-vos que este homem teve o prémio grande

da lotaria, por exemplo, ou outro facto análogo. E todos os pormenores

do viver desse homem vos acodem à memória e a todos ligais valor,

ao referi-los aos vossos amigos, e destas particularidades indiferentes

resulta mais interesse para o episódio principal.

; É por estas e análogas reflexões que eu não posso concordar

com os críticos a que me referi. *

1 Assinalamos com um sina! interrogativo as palavras que não temos a certeza

de haver fielmente decifrado.

O autor nos seus livros manuscritos escrevia com muita rapidez e usava numerosas e curtas abreviaturas de difícil decifração.

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INÉDITOS E ESPARSOS

Conseguir com meios naturais e conhecidos um resultado daque-

les ; comover e excitar o interesse sem recorrer ao extravagante nem

sair da órbita do verosímil; pintar com cores próprias um quadro da

vida e com tão perfeita perspectiva que a ilusão seja completa, não

requer isto mais imaginação, não exige mais esforço de inteligência

do que a concepção desses romances desregrados em que todas as

lembranças se aproveitam sem as sujeitar ao critério da lógica literá-

ria, em que o autor tem sempre um subterfúgio à mão para se desem-

baraçar das veredas sem salda onde a sua inteligência imprudente o

conduziu ?

Parece poder servir-me de um símile para confirmar a minha

ideia. Nos espectáculos de prestidigitação tendes visto alguns artistas

trabalharem rodeados de uma multidão de acessórios complicadís-

simos? mesas com fundos falsos, caixas de todos os tamanhos, maqui-

nismo igualmente misterioso, armas de fogo de construção particular,

e t c , e t c ?

Conquanto não saibais trabalhar com esses aparelhos de magia

branca, desde logo acreditais que são eles os principais elementos

do espectáculo e não admirais demasiadamente a prestidigitação do

artista.

Vedes, porém, outros apresentarem-se diante de vós, sem apa-

rato, com fato simples, mãos nuas, uma mesa sem falso, etc, etc, e

surpreender-vos aliás, tanto como o outro, com sortes maravilhosas.

A este aplaudis com mais entusiasmo e vontade porque aplaudis

um verdadeiro artista. Admirais o resultado de estudos e esforços de

longo tempo para, com tão simples meios, vos maravilhar assim.

Dizei agora se não vos moverá também o mesmo sentimento a

aplaudir mais o escritor consciencioso que vos comove com os recur-

sos naturais que lhe fornece a observação do homem, do que o peloti-

queiro literário que recorre para vos prender e maravilhar a todas

as extravagâncias possíveis?

Funchal, Novembro de 1869.

*

Muitos autores de romances e dramas julgam que os amantes

em literatura escusam de ter carácter próprio. A heroína é uma rapa-

riga que ama, o herói é um rapaz que a ama a ela. A linguagem de

um e de outro é sempre mais ou menos casta e liricamente erótica.

Encontram-se, falam de amor; separam-se, falam um do outro e não

têm ocasião de revelar ao leitor mais nenhuma qualidade do seu carác-

ter, senão a de estarem apaixonados.

Resulta daqui que em vez de serem criaturas humanas, vivas,

dominadas por uma paixão, que combinada com o seu carácter indi-

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I N É D I T O S E ESPARSOS

vidual as leva a actuarem de determinada maneira, são simples perso-

nificações do amor, frias e incapazes de comover, como alegoria, como

personagens abstractas daqueles poemas em que falam as virtudes e

os vícios personificados.

O leitor não pode fixar uma feição característica desse par, cujos

infortúnios, tribulações e felicidade ou infelicidade final, compõem a

narração e, por isso, dias depois da leitura, evaporaram-se essas ima-

gens, como a de uma prova fotográfica não fixada e confundem-se no

vago em que já se haviam perdido as feições de outros muitos ternos

casais, cuja sorte já anteriormente o tinha igualmente comovido.

Desenganem-se... Para que o romance ou o drama produzam pro-

fundo e duradouro interesse, é indispensável desenhar bem as feições

características das personagens e dar-lhes um colorido de carnação

que simule a vida. A não ser assim, a alma assiste indiferente à leitura

ou à representação.

Funchal, Novembro de 1869.

*

Nos meus romances não há indivíduos caracterizadamente maus.

Não tenho pintado crimes; quando muito, vícios. Alguém há que me

tem feito o favor de me louvar essa falta como virtude, como se andasse

nisso propósito literário. Verdadeiramente não há.

Não penso que o estudo moral de uma alma criminosa ou per-

versa não seja digno da arte. O que me custa a admitir, a não ser como

excepção rara, são os tiranos sem lógica, sem motivo, que amam o

mal por instinto e sem que à prática dele sejam levados por o impulso

de uma paixão.

A razão por que fogem do campo da minha imaginação aqueles

tipos é outra. Tanto eu me deleito em conceber um carácter com que

simpatize, em o encarar por todas as suas faces para as pôr em evi-

dência aos olhos do leitor, em vê-lo em acção e em harmonizar o diá-

logo com esse carácter, quanto me repugna e enfastia o demorar o

pensamento em um tipo antipático, em um carácter revoltante, em

uma destas criaturas em cuja contemplação a alma se enoja ou se

indigna.

O artista deve vencer essa repugnância, se a arte o exigir. Eu,

porém, que procuro na cultura das letras distracção e não a tomo por

ofício, quero condescender com os meus prazeres, sem que deixe por

isso de admirar as concepções magníficas dos romancistas que sabem

pintar o mal e a perversidade, sempre que o fazem, por assim dizer,

logicamente.

Funchal, Novembro de 1869.

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I N É D I T O S E ESPARSOS

Lendo um rápido estudo biográfico de Thackeray sobre os escri-

tores humoristas ingleses do século XVIIIe as notas que o acompa-

nham, algumas das quais constam de cartas dos próprios escritores,

lembrei-me da miséria da vida literária do nosso país, onde a pre-

ciosa correspondência dos nossos homens de letras raras vezes se

salva para a posteridade.

Quem há, por exemplo, que se tenha lembrado de coligir as

cartas particulares de Garrett, que por tantos motivos deviam ser um

elemento poderoso para a apreciação daquele vulto literário e para a

da história da literatura moderna em Portugal, de que ele foi o prin-

cipal instituidor?

Devíamos aprender com os estrangeiros a dar o devido valor a

estas origens preciosas de informação para a crítica e para a história.

Funchal, 3 de Janeiro de 1869.

*

Acabo de ler o romance de Octávio Feuillet Histoire de Sibylle,

A morte da heroína no desenlace não me parece muito justificada

pelas regras naturais da arte. O problema principal do romance estava

resolvido da maneira que o autor julgou plausível resolvê-lo. O cepti-

cismo religioso de Raul era o obstáculo único para a felicidade dos

dois amantes. Esperava-se que a influência poderosa de Sibylle, já

provada com o doido Feray, com o reitor Renaud, com os duques de

Vargnes e com a duquesa Clotilde, se exercesse também sobre Raul,

cujo ânimo mais do que os outros, devia sujeitar-se à catecjuese

daquela mulher que ele idolatrava. Restava saber as circunstâncias

que deviam cooperar para a conversão, que conspiração de influên-

cias poderia incutir naturalmente a fé em uma alma generosa, leal,

incapaz de hipocrisia e de simular, por interesse, uma unção reli-

giosa que não sentisse. Que bálsamo havia de curar aquele cancro da

dúvida num coração que lamentava sinceramente a perda das passa-

das crenças?

Conseguiu-se tudo isso. Após uma crise violenta em que a des-

crença do homem da sociedade parecia mais radicada, o simples

espectáculo da mulher que ele amava, desfalecida pela comoção, numa

pobre choupana, à borda do mar, ao calor de uma fogueira, bastou

para fazer penetrar a luz da fé naquele coração assombrado pela

dúvida e para prostrar de joelhos em oração sentida, esse homem

que não cria em Deus. Bem ou mal, o problema estava pois resolvido.

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I N É D I T O S E ESPARSOS

Inesperadamente, porém, surge mais uma entidade no romance; apa-

rece uma febre perniciosa que em duas páginas sacrifica a heroína e

dissipa as esperanças de felicidade que finalmente parecia sorrirem

aos simpáticos amantes.

Revolta-me a brutalidade desta febre paludosa.

Que papel literário representa ela aqui? Por acaso a morte de

Sibylle era necessária para a conversão de Raul? Não; e tanto que,

só depois de se haver bem verificado essa conversão, é que Sibylle

pediu ao reitor que lhe abençoasse a união, e que o reitor se resolveu

a fazê-lo.