Informação e Comunicação Online (Vol. I): Jornalismo Online por António Fidalgo, Joaquim Paulo Serra (Org.) - Versão HTML

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Índice

Introduç˜

ao

por António Fidalgo

1

Apresentaç˜

ao

por António Fidalgo e Paulo Serra

7

A transmiss˜

ao da informaç˜

ao e os novos mediadores

por Joaquim Paulo Serra

13

Sintaxe e semântica das not´ıcias online. Para um jor-

nalismo assente em base de dados

por António Fidalgo

49

Webjornalismo. Consideraç˜

oes gerais sobre jornalismo

na web

por Jo˜

ao Canavilhas

63

Jornalismo online, informaç˜

ao e memória: apontamen-

tos para debate

por Marcos Palácios

75

O online nas fronteiras do jornalismo: uma reflex˜

ao a

partir do tabloidismo.net de Matt Drudge

por Joaquim Paulo Serra

91

Jornalistas e público: novas funç˜

oes no ambiente on-

line

por Elisabete Barbosa

109

O jornalista multimédia do século XXI

por Anabela Gradim

117

Convergência e tecnologias em comunicaç˜

ao

por Manuel José Damásio

135

1

Jornalismo online (e) os géneros e a convergência

por Paulo Bastos

149

Jornalismo na rede: arquivo, acesso, tempo, estat´ıstica

e memória

por Lu´ıs Nogueira

159

O ensino do jornalismo no e para o século XX

por António Fidalgo

179

O jornalismo na era Slashdot

por Catarina Moura

189

Slashdot, comunidade de palavra

por Lu´ıs Nogueira

199

2

Introduç˜

ao

António Fidalgo

Universidade da Beira Interior.

E-mail: fidalgo@ubi.pt

A comunicaç˜

ao online está a revolucionar o modo como damos

e recebemos a informaç˜

ao e como comunicamos uns com os outros.

Poder-se-ia pura e simplesmente constatar o facto, aceitá-lo como uma alteraç˜

ao decorrente das novas tecnologias da informaç˜

ao e co-

municaç˜

ao e, sem questioná-lo mais, assumi-lo como uma premissa

adquirida. Contudo, o sentido da ciência está em questionar e pro-blematizar aquilo que nos é dado como facto e compreendê-lo à luz das suas raz˜

oes, perspectivas e consequências.

No LabCom – Laboratório de Comunicaç˜

ao Online da Univer-

sidade da Beira Interior1 um grupo de investigadores tem vindo a

dedicar-se ao estudo e experimentaç˜

ao das novas formas de comu-

nicaç˜

ao. Iniciativas concretas como a BOCC – Biblioteca Online

de Ciências da Comunicaç˜

ao2, uma das principais referências da

comunidade lusófona nas diversas áreas disciplinares dos estudos

sobre a comunicaç˜

ao, o jornal online Urbi et Orbi 3, que semanal-

mente vem sendo publicado desde Fevereiro de 2000, a TubiWeb4,

televis˜

ao online que trabalha sobre uma base de dados, o jornal

Akademia5, um experimento de jornalismo de fonte aberta, e ainda

outras iniciativas de que a página web do LabCom é o portal,

têm sido levadas a cabo sempre em estreita colaboraç˜

ao com in-

formáticos e designers. Mas a par dessas realizaç˜

oes tem havido

uma reflex˜

ao sobre as múltiplas vertentes da informaç˜

ao e da co-

municaç˜

ao online. A colectânea de textos que agora se junta em su-

porte de papel, mas que na sua maioria já se encontram dispon´ıveis online, traduz o labor teórico que tem vindo a ser feito. Especial 1www.labcom.ubi.pt.

2www.bocc.ubi.pt.

3www.urbi.ubi.pt.

4www.tubi.ubi.pt.

5www.akademia.ubi.pt.

Informaç˜

ao e Comunicaç˜

ao Online 1, Projecto Akademia 2003, 1-??

2

António Fidalgo

referência na investigaç˜

ao feita cabe ao Projecto Akademia – Sis-

temas de Informaç˜

ao e Novas Formas de Jornalismo Online, que

desde Setembro de 2000 tem vindo a ser financiado pela Fundaç˜

ao

para a Ciência e Tecnologia.

O projecto Akademia

Os novos meios copiam as formas dos meios anteriores. Sucedeu

anteriormente com a rádio e a televis˜

ao e sucede hoje com a In-

ternet. As formas de apresentaç˜

ao dos conteúdos s˜

ao uma cópia

dos meios tradicionais. Os jornais online s˜

ao uma mera “vers˜

ao”

dos jornais impressos, as rádios online em pouco se distinguem das rádios hertzianas e mesmo as televis˜

oes na net copiam as televis˜

oes

analógicas.

Mas também n˜

ao é menos certo que os novos meios acabam

por romper com os modelos anteriores e d˜

ao origem a novos tipos

de conteúdo e respectiva apresentaç˜

ao. A frase mais célebre de

Marshall McLuhan “o meio é a mensagem” é justamente a inte-

lecç˜

ao clara de que novos meios de comunicaç˜

ao obrigam a novas

formas de comunicaç˜

ao.

Ora uma das caracter´ısticas espec´ıficas da comunicaç˜

ao na In-

ternet é a convergência de texto, som e v´ıdeo, que traduz como que uma “migraç˜

ao” dos meios tradicionais, até aqui separados, para o

“espaço comum” – informativo, comunicacional – que é a Internet;

esta aparece, assim, mais do que como um novo meio, como um

verdadeiro meta-meio, um meio de todos os meios.

No que se refere especificamente ao jornalismo – e com o advento

do jornalismo online – a transformaç˜

ao mais saliente que a Inter-

net parece acarretar é a simbiose entre jornais e bases de dados.

O hipertexto e as bases de dados online, interactivas, estabelecem contactos entre jornais e sistemas de informaç˜

ao. Uma not´ıcia num

jornal online pode reenviar, mediante um link, o leitor para uma

enciclopédia, ou uma not´ıcia pode ser dada no contexto de outras not´ıcias, seleccionadas por uma pesquisa numa base de dados. Até agora o arquivo de um jornal era de algum modo um arquivo inerte, arquivo que só o jornal do dia podia de certa maneira ressuscitar também por um dia. Ora o online e o hipertexto permitem o acesso

Introduç˜

ao

3

aos jornais do arquivo como se de jornais do próprio dia se tratassem. Há aqui uma nova esfera do jornalismo, a ligaç˜

ao ao arquivo,

possibilitada pelo online.

Tendo em conta os pressupostos referidos, o Projecto Akade-

mia visou explorar novas formas do jornalismo online com base nas novas tecnologias da informaç˜

ao, nomeadamente em dois pontos:

i) convergência de texto, som e imagem em movimento (v´ıdeo);

ii) simbiose entre jornalismo e sistemas de informaç˜

ao (bases de

dados).

Tratou-se de um projecto interdisciplinar nos campos da comu-

nicaç˜

ao (jornalismo e audiovisual), informática (redes, bases de da-

dos, streaming) e gest˜

ao da informaç˜

ao. Foi um projecto inovador

pela metodologia e objectivos que se procuraram atingir.

É previs´ıvel que a introduç˜

ao do v´ıdeo nos jornais online modi-

fique radicalmente a forma da escrita e a apresentaç˜

ao das not´ıcias.

A evoluç˜

ao das capacidades de armazenamento dos servidores e de

largura de banda permite antever que haverá a colocaç˜

ao de v´ıdeo-

clips onde hoje se encontram fotografias. Desde logo o jornalismo online obriga a um novo tipo de escrita, na medida em que tem de

corresponder necessariamente à lógica do hipertexto e respectiva

interactividade. Há que ter em conta as diferentes possibilidades de layout que uma página impressa do jornal permite (colunas, caixas, tipos de letra, inserç˜

ao de fotografias, etc.) e que permite o

layout online (tabelas, frames, animaç˜

ao de texto, etc.).

Por outro lado, a inserç˜

ao de v´ıdeo num jornal online, e o con-

sequente acompanhamento de som, n˜

ao levanta quest˜

oes apenas

ao n´ıvel de texto, mas também ao n´ıvel da produç˜

ao e da ediç˜

ao

do v´ıdeo. Introduzindo som e imagem em movimento (v´ıdeo) no

jornalismo, levanta-se a pergunta sobre analogias, diferenças e convergência com a informaç˜

ao televisiva online (interactiva).

Investigou-se também a ligaç˜

ao entre a informaç˜

ao jornal´ıstica

e a informaç˜

ao assente em base de dados. A primeira caracteri-

zada enquanto uma informaç˜

ao de acontecimentos extraordinários

surpreendentes, mas também muito particularizada, de fenómenos

isolados, e lacunar. A segunda enquanto informaç˜

ao sistemática,

abrangente, t˜

ao completa quanto poss´ıvel em que o que interessa

ao é a novidade, mas sim o número, a quantidade, a homogenei-

4

António Fidalgo

dade, a média estat´ıstica.

O hipertexto e as bases de dados online, interactivas, estabele-

cem contactos entre jornais e sistemas de informaç˜

ao. Daqui surge

a ideia de integrar todas as not´ıcias numa base de dados, organizada por múltiplas entradas, datas, secç˜

oes do jornal, lugares, interveni-

entes, tipos de factos noticiados, etc. O arquivo de um jornal n˜

ao

seria mais um todo informe, sucessivo, mas um conjunto organi-

zado, que possibilitaria a simbiose da not´ıcia de hoje com os dados do passado.

Dadas as possibilidades informáticas das universidades e as suas

necessidades em termos de informaç˜

ao, a metodologia do projecto

passou por criar um jornal universitário, o Akademia, que, utili-

zando a largura de banda dispon´ıvel no campus universitário, constitu´ısse o novo meio de comunicaç˜

ao, em termos de meios, conteúdos

e formatos. A informaç˜

ao que existe hoje nas universidades é uma

informaç˜

ao dispersa, descoordenada; facto revelador de que n˜

ao

há ainda uma verdadeira filosofia de informaç˜

ao, profissional, no

mundo académico português. Contudo, é importante que também

as universidades saibam aproveitar a rede como uma forma pri-

vilegiada de veicular informaç˜

ao a todos os que nela trabalham,

ensinam e estudam.

Conjugar a informaç˜

ao jornal´ıstica com a informaç˜

ao institucio-

nal, juntá-la num mesmo órg˜

ao, é a melhor forma de combinar

nos destinatários o interesse e a curiosidade às exigências profissionais de estar informado. Por outro lado, esse órg˜

ao poderá vir a

constituir um fórum de opini˜

ao e de debate na própria academia.

A estrutura da obra

As alteraç˜

oes que se verificam no conjunto de uma sociedade s˜

ao

também alteraç˜

oes nas suas formas de comunicaç˜

ao e, reciproca-

mente, as alteraç˜

oes nas formas de comunicaç˜

ao de uma sociedade

ao, também, alteraç˜

oes no conjunto dessa sociedade. Apesar de

centradas na informaç˜

ao jornal´ıstica as investigaç˜

oes feitas n˜

ao po-

deriam deixar de contemplar toda uma série de quest˜

oes conexas.

Assim, a obra Informaç˜

ao e Comunicaç˜

ao Online apresenta-se

dividida em três volumes: o primeiro, intitulado Jornalismo On-

Introduç˜

ao

5

line, é primeiro num duplo sentido: porque o jornalismo online

representa a temática central do projecto, mas também porque o

jornalismo online é a temática que serve de ponto de partida para outras temáticas, tratadas nos dois volumes seguintes. Neste volume procura-se, especificamente, responder a quest˜

oes como as

seguintes: o que se entende por jornalismo online? Quais as suas

principais caracter´ısticas? O jornalismo online ainda é jornalismo, ou é já uma outra coisa? Quais as principais alteraç˜

oes introduzidas

pelo jornalismo online em relaç˜

ao ao jornalismo tradicional?6

O segundo volume, Internet e Comunicaç˜

ao Promocional, co-

loca um outro género de quest˜

oes, relativas à “aplicaç˜

ao” da comu-

nicaç˜

ao online a um dom´ınio concreto da comunicaç˜

ao, a chamada

comunicaç˜

ao corporativa ou institucional: que modalidades assume

e pode vir a assumir a promoç˜

ao electrónica das instituiç˜

oes, em

particular das universidades? A que princ´ıpios, formais e materiais, deve obedecer o s´ıtio de uma instituiç˜

ao? Quais os valores comuni-

cacionais que est˜

ao em jogo na promoç˜

ao electrónica de uma insti-

tuiç˜

ao? Em que reside a novidade comunicacional da comunicaç˜

ao

online?

O terceiro volume, Mundo Online da Vida e Cidadania, é cons-

titu´ıdo por dois cap´ıtulos. No primeiro, institulado “Novos media e cidadania” , discute-se a quest˜

ao do jornalismo online do ponto

de vista da cidadania, entendida aqui no sentido da participaç˜

ao

pol´ıtica – dando a este termo um sentido amplo – dos cidad˜

aos na

vida pública. O que aqui está em jogo s˜

ao quest˜

oes como estas: re-

presentam, os novos meios, uma potenciaç˜

ao da “esfera pública”?

Ou representam, pelo contrário, um enfraquecimento dessa mesma

“esfera”? Que novas modalidades de participaç˜

ao permitem os no-

vos meios?

Até que ponto s˜

ao eles a sede de novas formas de

opress˜

ao e de controlo? Qual a sua relaç˜

ao com a “ideologia da

comunicaç˜

ao” que hoje se generaliza nas sociedades ocidentais? O

segundo cap´ıtulo, “O mundo online da vida”, procura apreender

algumas das principais alteraç˜

oes que as novas formas de comu-

6O carácter sumário da apresentaç˜ao de cada um dos cap´ıtulos que fazemos neste prefácio deriva do facto de que, sendo cada cap´ıtulo precedido de uma apresentaç˜

ao própria, mais pormenorizada, o princ´ıpio da economia imp˜

oe-nos

evitar as repetiç˜

oes e as redundâncias.

6

António Fidalgo

nicaç˜

ao têm vindo a introduzir no nosso “mundo da vida” – nos

modos como trabalhamos e repousamos, habitamos o espaço mas

também o corpo, figuramos o real, constru´ımos a memória, ima-

ginamos o futuro. Nestes modos conjuga-se, claramente, aquilo a

que Plat˜

ao chamaria a dialéctica entre o Mesmo e o Outro, isto

é: em última análise, é sempre a partir do “mundo da vida” que

situamos o e nos situamos no online, é sempre ao “mundo da vida”

que regressamos para nele integrarmos o online.

Apresentaç˜

ao

António Fidalgo e Paulo Serra

Universidade da Beira Interior.

E-mails: fidalgo@ubi.pt

pserra@alpha2.ubi.pt

A afirmaç˜

ao – hoje trivial – de que o Homem é um ser histórico

ao significa apenas que tudo o que o Homem produz é efémero

mas também, e sobretudo, que isso que ele produz está condenado

a cristalizar, a solidificar-se e, assim, a constituir-se como o maior obstáculo à própria historicidade do humano; como se, em cada

momento histórico, o criado n˜

ao pudesse deixar de voltar-se contra o

seu próprio criador. A principal implicaç˜

ao de uma tal duplicidade é

a de que a passagem da cultura a uma nova estaç˜

ao envolve sempre,

como condiç˜

ao necessária, a luta contra o existente e a possibilidade

da sua superaç˜

ao.

Tais duplicidade e condiç˜

ao exprimem-se, na linguagem cor-

rente, e n˜

ao só, através da utilizaç˜

ao do qualificativo “pós” – como

por exemplo na express˜

ao, hoje t˜

ao em voga, de “pós-moderno”.

Ora, o desenvolvimento da Internet tem feito surgir, a propósito do jornalismo online ou web jornalismo, para nos referirmos apenas

a duas das designaç˜

oes mais generalizadas da realidade emergente,

este topos do “pós”. Os textos insertos neste volume procuram,

precisamente, analisar e discutir quatro das facetas mais relevantes dessa nova realidade: o poss´ıvel carácter outro deste jornalismo, as novas modalidades da relaç˜

ao entre informaç˜

ao e jornalismo que ele

implica, a convergência de géneros a que ele aparentemente conduz, e, finalmente, a sua mobilizaç˜

ao de discursos e linguagens alterna-

tivos.

Um jornalismo outro

A comunicaç˜

ao online, simbiose de comunicaç˜

ao interpessoal (email

e messenger ) e social (jornais, rádios, televis˜

oes e portais), altera

profundamente a forma como hoje em dia se produz e se obtém a

Informaç˜

ao e Comunicaç˜

ao Online 1, Projecto Akademia 2003, 7-??

8

António Fidalgo e Paulo Serra

informaç˜

ao jornal´ıstica. A actualizaç˜

ao permanente das not´ıcias, a

interactividade, a difus˜

ao urbi et orbi, em toda a parte e em qual-

quer tempo, a disponibilizaç˜

ao online dos arquivos da informaç˜

ao

jornal´ıstica, organizados em bases de dados, obrigam a repensar as formas do jornalismo tradicional e a investigar outros tipos de jornalismo – e, nomeadamente, o jornalismo a que se tem vindo a chamar jornalismo online ou web jornalismo, entendendo-se por tal n˜

ao o

mero shovelware, a mera transposiç˜

ao para formato electrónico do

conteúdo dos jornais tradicionais, mas um jornalismo produzido

especificamente na e para a Internet.

Que alteraç˜

oes introduz, um tal jornalismo, na forma como os

jornalistas têm vindo, desde a segunda metade do século XIX, a

exercer a sua actividade? E nas relaç˜

oes dos jornalistas com as

fontes? E com os poderes pol´ıticos e económicos? Representa um

tal jornalismo a libertaç˜

ao dos padr˜

oes do jornalismo mainstream

ou, pelo contrário, uma reorganizaç˜

ao – ou mesmo um acréscimo –

da sua submiss˜

ao a tais padr˜

oes? Quais as novas implicaç˜

oes, em

termos técnicos e tecnológicos, de um jornalismo feito na e para

a web? Mais especificamente, o que caracteriza e distingue um

jornalismo assente em base de dados? Qual a relaç˜

ao que nele existe

entre a sintaxe das not´ıcias e o seu grau de resoluç˜

ao semântica?

Visto do lado dos seus destinatários, um tal jornalismo leva a uma melhoria na informaç˜

ao que lhes é oferecida? Permite-lhes ter uma

voz na forma como se produz essa informaç˜

ao, levando-os, no limite,

a serem também “jornalistas”? S˜

ao estas, fundamentalmente, as

interrogaç˜

oes a que procuram responder os textos “A transmiss˜

ao

da informaç˜

ao e os novos media-dores”, de Paulo Serra, “Sintaxe e

semântica das not´ıcias online. Para um jornalismo assente em base de dados” de António Fidalgo e “Webjornalismo. Consideraç˜

oes

gerais sobre jornalismo na web”, de Jo˜

ao Canavilhas.

Informaç˜

ao e Jornalismo

Uma quest˜

ao ainda mais radical do que as anteriores – e, de certo

modo, prévia a elas – é a de sabermos se o jornalismo online é ainda jornalismo ou se, pelo contrário, ele n˜

ao é já o anúncio de uma

forma de informaç˜

ao que, querendo ainda continuar a considerar-

Apresentaç˜

ao

9

-se como “jornal´ıstica”, já nada tem a ver, de facto, com o jor-

nalismo. O jornalismo tem sido visto, praticamente desde os seus

in´ıcios long´ınquos no século XVII, como a forma de pesquisar, verificar, organizar e divulgar, junto de todos e cada um dos cidad˜

aos,

a informaç˜

ao comunitariamente relevante, aquilo a que Schudson

chama “conhecimento público”. Ora, com a Internet e a www,

esse papel de mensageiro e de mediador do jornalismo tem vindo

a tornar-se cada vez mais problemático. Procurando superar o di-

lema entre a perspectiva “apocal´ıptica” dos que vêem a Internet

como fim do jornalismo, e a perspectiva “integrada” dos que nela

vêem apenas um novo meio de prolongar o jornalismo tradicional,

tem vindo a ganhar importância crescente a perspectiva dos que

vêem na Internet a via para um “novo jornalismo”, um “jornalismo

informado” que pode, por um lado, deixar de ser a mera caixa de

ressonância dos poderes e dos saberes oficiais e oficiosos e, por outro lado, escapar à transformaç˜

ao generalizada da informaç˜

ao em

mercadoria e espectáculo. Uma tal perspectiva n˜

ao pode, pela sua

própria finalidade – a superaç˜

ao do dilema –, deixar de envolver

um equil´ıbrio por vezes muito instável. É como uma navegaç˜

ao no

seio dessa instabilidade que devem ser lidos, precisamente, os textos “Jornalismo online, informaç˜

ao e memória: apontamentos para

debate”, de Marcos Palácios, “O online nas fronteiras do jorna-

lismo: uma reflex˜

ao a partir do tabloidismo.net de Matt Drudge”,

de Paulo Serra e “Jornalistas e público: novas funç˜

oes no ambiente

on-line”, de Elisabete Barbosa.

Os géneros e a convergência

Está o on-line a alterar os géneros clássicos do jornalismo?

O

novo medium potencia ou n˜

ao novas configuraç˜

oes nas tradicio-

nais formas de apresentar informaç˜

ao? Qual o destino dos géneros

num meio – o digital – marcado precisamente pela convergência de

meios? O p2p e a sua inconfund´ıvel promessa de participaç˜

ao n˜

ao

será, também, o in´ıcio da degenerescência dos géneros, da fus˜

ao in-

formaç˜

ao-opini˜

ao, do primado do entretenimento e do fait-divers?

Amálgama, blurring de estilos, colonizaç˜

ao da informaç˜

ao por for-

mas que lhe s˜

ao estranhas, ou pelo contrário, maior interactividade,

10

António Fidalgo e Paulo Serra

participaç˜

ao, e um refinamento do controle semântico dos factos?

Ou ambos? Esta n˜

ao é a primeira vez que apressadamente se es-

crevem obituários ao monopólio jornal´ıstico da produç˜

ao e distri-

buiç˜

ao de not´ıcias. O futuro infirmará ou n˜

ao o óbito. Os textos “O

jornalista multimédia do século XXI”, de Anabela Gradim, “Con-

vergência e tecnologias em comunicaç˜

ao”, de Manuel José Damásio,

e “Jornalismo online (e) os géneros e a convergência”, de Paulo

Bastos, reflectem, justamente, sobre a provocaç˜

ao das formas, a

confus˜

ao dos géneros, a contrafacç˜

ao de not´ıcias, as press˜

oes do

mercado, dos meios, e de uma cada vez mais difundida ideologia da n˜

ao especificidade das profiss˜

oes jornal´ısticas, e de que forma esses

factores se poder˜

ao traduzir no futuro em novos modos de produzir

e apresentar a informaç˜

ao.

Outros discursos, novas linguagens

Se é certo que a Internet promoveu a fus˜

ao dos elementos consti-

tuintes (imagem, texto, som) dos diversos suportes comunicacionais (televis˜

ao, rádio, imprensa), pode verificar-se simultaneamente que

essa integraç˜

ao redesenhou a importância, a hierarquia e o papel de

cada um – antes de mais pelas peculiaridades técnicas e funcionais que lhe s˜

ao próprias. Este cenário mediático que progressivamente

vem depurando formas, conteúdos, ferramentas e linguagens, com

natural incidência no modo de produzir, apresentar, organizar e pesquisar informaç˜

ao, veio requerer de cada leitor/ouvinte/espectador

novos modos de traçar percursos na exploraç˜

ao das enormes ba-

ses de dados e de contextualizar os diversos contributos com que

vai compondo as suas perspectivas e referências da realidade. Esta exigência de novos procedimentos por parte do receptor é uma resposta aos (e uma consequência dos) desafios que lhe s˜

ao lançados

pelos órg˜

aos de informaç˜

ao, os quais procuram, por um lado, res-

ponder aos constrangimentos e especificidades do novo suporte e,

por outro, aperfeiçoar o uso das ferramentas e vantagens que o

distinguem.

É no cruzamento entre o legado de hábitos e com-

portamentos adquiridos, as fórmulas herdadas e as potencialidades originais (bases de dados, hiperligaç˜

oes, motores de busca, interac-

tividade, imediaticidade) próprias do novo meio que se joga o pre-Apresentaç˜

ao

11

sente e o futuro do jornalismo, dos seus géneros, das suas formas de atenç˜

ao e leitura, do seu design, da sua sintaxe, das suas narrativas

e tipologias – um processo de que os textos “Jornalismo na rede: arquivo, acesso, tempo, estat´ıstica e memória”, de Lu´ıs Nogueira, “O

ensino do jornalismo no e para o século XXI”, de António Fidalgo,

“O jornalismo na era Slashdot”, de Catarina Moura e “Slashdot,

comunidade de palavra”, de Lu´ıs Nogueira, procuram oferecer uma

demonstraç˜

ao cabal.

12

A transmiss˜

ao da informaç˜

ao e os novos

mediadores

Joaquim Paulo Serra

Universidade da Beira Interior.

E-mail: pserra@alpha2.ubi.pt

“A chave de um regime n˜

ao reside nem na consti-

tuiç˜

ao, nem no número de câmaras, nem no modo de

eleiç˜

ao, nem na pol´ıcia. A chave de um regime reside

na informaç˜

ao.” – Alfred Sauvy1

Se o mestre e o enciclopedista aparecem como as figuras t´ıpicas, que n˜

ao exclusivas, da mediaç˜

ao da informaç˜

ao entre os Antigos e os

Modernos, o jornalista aparece como a figura t´ıpica, mais uma vez n˜

ao exclusiva, dessa mesma mediaç˜

ao na sociedade contemporânea.

A nossa tese, a este respeito é a de que, numa sociedade em que a informaç˜

ao se tornou cada vez mais complexa e especializada, confi-

nando os cidad˜

aos a “c´ırculos informativos” cada vez mais restritos,

colocando a sociedade perante o risco da fragmentaç˜

ao absoluta e,

no limite, da sua própria destruiç˜

ao - lembremos, a este respeito,

a posiç˜

ao de Tocqueville acerca da importância dos jornais na de-

mocracia americana –, coube ao jornalista assumir o papel que o

enciclopedista traçara para si próprio nos alvores da Modernidade mas que o desenvolvimento das ciências e das tecnologias tornaria, a breve trecho, totalmente imposs´ıvel: o da selecç˜

ao, organizaç˜

ao

e transmiss˜

ao de uma informaç˜

ao mais ou menos geral, acess´ıvel

a todos e a todos dirigida. O problema é, no entanto, e para re-

corremos a categorias postas em circulaç˜

ao pelos autores da Ency-

clopédie, o de saber se é poss´ıvel tornar acess´ıvel, a todos, uma informaç˜

ao destinada a “conservar o memorável” e a “instruir” e,

simultaneamente, a contribuir para o cumprimento das exigências

de transparência da coisa pública e de participaç˜

ao pol´ıtica que s˜

ao

as exigências básicas da democracia e do pol´ıtico.

1Citado em Francis Balle, Et si la presse n’existait pas..., Paris, JCLattès, 1987, p. 61.

Informaç˜

ao e Comunicaç˜

ao Online 1, Projecto Akademia 2003, 13-??

14

Joaquim Paulo Serra

A história do jornalismo mostra que, a´ı a partir de meados do

século XIX - altura em que começa a definir-se o jornalismo como

relato “noticioso” e “objectivo” e, ao mesmo tempo, como profiss˜

ao

espec´ıfica - este começa a privilegiar, em vez de tal informaç˜

ao for-

mativa e comunitaria-mente relevante, uma informaç˜

ao orientada

para o “acontecimento” mais ou menos efémero, destinada a ali-

mentar a curiosidade evanescente dos leitores e visando essencialmente divertir e agradar. Uma situaç˜

ao que, a acreditarmos no

diagnóstico feito actualmente por autores como Furio Colombo2,

Tom Koch3, Serge Halimi4, Umberto Eco5 ou David Mindich6 –

repetindo, aliás, em grande medida o diagnóstico/prognóstico que

Norbert Wiener fazia já em meados do século passado – atingiu

hoje a sua “perfeiç˜

ao” suprema com a transformaç˜

ao generalizada

da informaç˜

ao jornal´ıstica em espectáculo e entretenimento7 e a sua

subordinaç˜

ao total ao poder pol´ıtico e, sobretudo, ao dinheiro.8

Um dos efeitos fundamentais desta situaç˜

ao é a transformaç˜

ao

cada vez mais evidente da própria pol´ıtica em publicidade e em

espectáculo, num conjunto de “pseudo-acontecimentos” mais ou

menos encenados visando cativar as audiências, e de que o mote

parece ser o velho “se n˜

ao podes mudá-los, junta-te a eles”, isto

é, aos subprodutos mediáticos de sucesso. Ao transformar-se em

2Cf. Furio Colombo, Conhecer o Jornalismo Hoje. Como se faz a In-

formaç˜

ao, Lisboa, Presença, 1998.

3Cf. Tom Koch, The Message is the Medium, Westport, Connecticut, London, Praeger, 1996; idem, The News as Myth. Fact and Context in Journalism, New York, Greenwood Press, 1990.

4Cf. Serge Halimi, Les Nouveaux Chiens de Garde, Paris, Raison d’Agir, 2000.

5Cf. Umberto Eco, “Sobre a imprensa”, in Cinco Escritos Morais, Oeiras, Difel, 1998, p. 55-88.

6Cf. David T. Z. Mindich, Just the facts. How “objectivity” came to define American Journalism, New York, New York University Press, 1998.

7Uma confus˜ao de que a conhecida express˜ao infotainment procura dar conta.

8Aqui, e para utilizarmos uma express˜ao cara ao marxismo na sua vers˜ao mais ortodoxa, dir´ıamos que o económico “é determinante em última instância”

– na medida em que, um pouco por todo o lado, aquilo a que ainda se chama

“o pol´ıtico” n˜

ao passa ou de um prolongamento ou de uma dependência do

económico. Ou ent˜

ao do mediático – que tende a ser, por sua vez, e cada vez

mais, um prolongamento ou uma dependência do económico.

A transmiss˜

ao da informaç˜

ao e os novos mediadores

15

publicidade e espectáculo, a pol´ıtica tende, por um lado, a deslocar as diferenças e os conflitos do plano do essencial – os programas, os problemas, as alternativas – para o do acessório – a retórica, a imagem, a oportunidade –, e, por outro lado, a convergir para um

centro cada vez mais “dialogante” e “consensual” em que, como di-

ria Hegel, já só resta pintar cinzento sobre cinzento; ou seja, e para o dizermos de forma sumária, a anular-se como pol´ıtica. No entanto, n˜

ao deixa de ser um facto – e um argumento dos que defendem

a chamada “pol´ıtica-espectáculo” – que a informaç˜

ao formativa e

comunitaria-mente relevante n˜

ao interessa à generalidade dos ci-

dad˜

aos, mais interessados na informaç˜

ao que diverte, que excita,

que distrai, mas apenas a uma minoria mais esclarecida que, ela

sim, se preocupa com a comunidade a que pertence.

Há alguma sa´ıda para esta aporia que coloca, de um lado, uma

informaç˜

ao formativa e comunitariamente relevante mas que n˜

ao é

“interessante” e, do outro, uma informaç˜

ao que diverte e distrai mas

que n˜

ao interessa? Se há, ela n˜

ao parece situar-se, ou n˜

ao parece

situar-se predominantemente, nem do lado dos pol´ıticos, que intentam conquistar, por todos os meios ao seu alcance, uma atenç˜

ao

mediática que sabem ser o bem mais precioso e mais escasso, nem

do lado da audiência, que tende a conceder a sua atenç˜

ao aos sub-

produtos mediáticos que a divertem, excitam e distraem. A sa´ıda só poderia residir, quanto a nós, no meio, no mediador entre o pol´ıtico e o cidad˜

ao – isto é, no jornalista. O que levanta, desde logo, duas

outras quest˜

oes essenciais:

i) N˜

ao representa isso conceder, ao jornalista, um papel para o

qual ele n˜

ao está nem ética nem tecnicamente preparado?

ii) N˜

ao representa isso atribuir, ao jornalista, um poder – o

“quarto poder” – que, e ao contrário dos outros três poderes, n˜

ao

é objecto de uma legitimaç˜

ao pelas instância sociais e/ou pol´ıticas

apropriadas?

Estas s˜

ao n˜

ao apenas boas quest˜

oes, mas as quest˜

oes essenciais

acerca do papel do jornalista no mundo contemporâneo. No que

se segue procuraremos, num primeiro momento, encontrar algumas

respostas, se n˜

ao boas, pelo menos plaus´ıveis, para as quest˜

oes an-

teriores; num segundo momento, tematizar aquilo a que, parafrase-

ando a conhecida express˜

ao de Schutz, chamaremos um “jornalismo

16

Joaquim Paulo Serra

bem informado” e a que Tom Koch chama um “novo jornalismo”

– um jornalismo opinativo, empenhado, de carácter marcadamente

c´ıvico e pol´ıtico; num terceiro e último momento, especular acerca do poss´ıvel papel da Internet e da Web e, mais particularmente,

do que se tem vindo a chamar “jornalismo online”, na teoria e na

prática de tal “jornalismo bem informado”.

O jornalismo em quest˜

ao

Naquele que será um dos primeiros textos teóricos sobre o tema,

a Encyclopédie, mais especificamente Diderot, exprime, em relaç˜

ao

aos “jornais” e aos “jornalistas”, uma posiç˜

ao que pode ser con-

siderada, no m´ınimo, como ambivalente. Por um lado, marca-se

claramente, quer quanto aos objectivos, quer quanto ao alcance

temporal, quer ainda quanto aos seus destinatários potenciais, a

distinç˜

ao entre uma enciclopédia e os jornais; assim, se a primeira

visa a “instruç˜

ao geral e permanente da espécie humana”, já os se-

gundos visam a “satisfaç˜

ao momentânea da curiosidade de alguns

ociosos”.9 Mas, por outro lado, n˜

ao se descarta a possibilidade de

que, apesar de n˜

ao ser um criador, o jornalista, desde que movido

pelo intuito de contribuir para o “progresso do esp´ırito humano”

e o “amor da verdade” e dotado dos “talentos necessários”, possa

exercer uma funç˜

ao de divulgaç˜

ao e de ju´ızo cr´ıtico e, assim, de

“instruç˜

ao” em relaç˜

ao às obras literárias, cient´ıficas e art´ısticas

que v˜

ao sendo publicadas, sobretudo no estrangeiro.10 Se é certo

que aquilo que os enciclopedistas caracterizam como “jornalismo”

já há muito n˜

ao corresponde, minimamente, àquilo que hoje se

considera como tal – ou corresponderá, t˜

ao só, à ´ınfima parte do

9Cf. Diderot, “Encyclopédie”, in Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, Vol. 14 (Tomo 5 do original), Mil˜

ao,

Paris, Franco Maria Ricci, 1977, p. E, 121.

10Cf. Diderot, “Journaliste”, in Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, Vol. 15 (Tomo 6 do original), Mil˜

ao, Paris,

Franco Maria Ricci, 1978, p. I, 79. Como principais “talentos” do jornalista, Diderot aponta o conhecimento acerca daquilo sobre o qual escreve, a equidade, que consiste em n˜

ao elogiar o med´ıocre e desvalorizar o excelente, a seriedade,

que deriva de que a finalidade do jornalista é “analisar e instruir”, n˜

ao “fazer

rir” e a isenç˜

ao em relaç˜

ao aos interesses do livreiro e do escritor. Cf. ibidem.

A transmiss˜

ao da informaç˜

ao e os novos mediadores

17

jornalismo “cultural” de certos órg˜

aos de informaç˜

ao especializados

ou de secç˜

oes espec´ıficas dos órg˜

aos de informaç˜

ao generalistas –,

ao é menos certo que o papel formativo que lhe é aqui atribu´ıdo é, ainda hoje, visto como um papel essencial. Por seu lado, na sua Da Democracia na América, Tocqueville atribui aos jornais n˜

ao só um

papel pol´ıtico, de vigilância do poder e de suporte da existência de partidos e movimentos pol´ıticos, como também um papel social, de suporte da sociabilidade e da associaç˜

ao dos indiv´ıduos num espaço

deslocalizado, e que se revelam, um e outro, fundamentais para a

existência das sociedades democráticas modernas.11 A quest˜

ao que

se coloca é ent˜

ao a seguinte: podemos atribuir, ao jornalismo como

hoje o conhecemos – e que é o jornalismo que se afirma, como

“indústria” e como actividade profissional espec´ıficas, pelos finais do século XIX – esse triplo papel formativo, pol´ıtico e social que é tradicionalmente visto como devendo ser o seu? Ou a transiç˜

ao

de um jornalismo “cultural” e “pol´ıtico-social” a um jornalismo

“noticioso” e “objectivo” representou, pelo contrário, a alienaç˜

ao

definitiva de qualquer interesse formativo, pol´ıtico e social – ou, pelo menos a sua subordinaç˜

ao a outro tipo de interesses?

O rol de acusaç˜

oes que, nos tempos mais recentes, tem vindo

a ser dirigido ao jornalismo e aos jornalistas obriga a, pelo me-

nos para já, responder negativamente à quest˜

ao colocada. Com

efeito, as relaç˜

oes mais ou menos ´ıntimas que muitos jornalistas

mantêm com o poder pol´ıtico, o económico e o mediático têm le-

vado recentemente certos autores a reeditar, por outras palavras, o diagnóstico/prognóstico de Wiener segundo o qual a “informaç˜

ao

comunitariamente dispon´ıvel” estaria cada vez mais reduzida e su-bordinada aos interesses do “poder” e do “dinheiro”12 – realçando, por um lado, a subordinaç˜

ao do jornalismo e dos jornalistas ao po-

der e, por outro lado, a colonizaç˜

ao da informaç˜

ao “séria”, “cr´ıtica”,

“formativa” pelo mundo do espectáculo e do entretenimento. As-

sim, e para nos referirmos apenas a algumas das obras mais recentes 11Cf. Alexis de Tocqueville, “De la démocratie en Amérique”, in Oeuvres, Vol. II, Paris, Gallimard, 1992, especialmente p. 209, 215, 625, 626, 628 e 629.

12Cf. Norbert Wiener, Cybernetics: or Control and Communication in the Animal and the Machine, Cambridge, Massachusetts, The MIT Press, 1965, p.

161-162.

18

Joaquim Paulo Serra

sobre o tema – n˜

ao tendo, portanto, qualquer intuito de sistema-

tizaç˜

ao –, Furio Colombo procede ao diagnóstico de um “jornalismo

[americano e italiano] apanhado entre o mundo do espectáculo e o

uso da informaç˜

ao ‘recebida’, disponibilizada, por raz˜

oes que lhe

ao próprias, por várias fontes de poder” – configurando “uma Dis-

neylândia das not´ıcias” cujos diversos elementos e factores “pertencem cada vez mais ao mundo do espectáculo, escravo dos gostos e

dos humores do público”13; Tom Koch procura aduzir “casos” ten-

dentes a mostrar que o suposto “quarto poder” norte-americano n˜