Inspirações da Tarde por Bernardo Guimarães - Versão HTML

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Universidade da Amazônia Inspirações da

Tarde

de Bernardo Guimarães NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal CEP: 66060-902

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Inspirações da Tarde de Bernardo Guimarães Invocação à saudade

Oh! filha melancólica dos ermos, Consolo extremo, e amiga no infortúnio Fiel e compassiva;

Saudade, tu que única inda podes Nest'alma, erma de amor e de esperança, Um som vibrar melodioso e triste, Qual vento, que murmura entre ruínas, Os gemebundos ecos acordando; Vem, ó saudade, vem; — a ti consagro De minha lira as magoadas cordas.

Quando o sopro da sorte impetuoso Nos ruge n'alma, e para sempre a despe Do pouco que há de amável na existência; Quando tudo se esvai, — ledos sorrisos, Suaves ilusões, prazeres, sonhos, Ventura, amor, e até a mesma esp'rança, Só tu, meiga saudade,

Fiel amiga, jamais nos abandonas!

Jamais negas teu bálsamo piedoso Às chagas do infortúnio!

Qual de remotas, flóridas campinas Da tarde a branda aragem Nas asas nos conduz suave aroma, Assim tu, ó saudade,

Em quadras mais ditosas vais colhendo As risonhas visões, doces lembranças, Com que vens afagar-nos, E ornas do presente as sendas nuas Co'as flores do passado.

Não, não é dor o teu pungir suave, É um triste cismar que tem delícias, Que o fel aplaca, que nos ferve n'alma, E o faz correr banhando áridos olhos, Em mavioso pranto convertido.

No íntimo do peito

Despertas emoções que amargam, pungem, Mas fazem bem ao coração, que sangra Entre as garras de austero sofrimento!

Agora que do dia a luz extrema Se expande a frouxo nos calados vales, Lá do róseo palácio vaporoso Desce, ó saudade, vem, num desses raios 2

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Que se escoam do ocaso enrubescido, Envolta em nuvem mística e diáfana, Lânguido o olhar, a fronte descaída, Em minha solidão vem visitar-me, E oferecer-me a taça misteriosa Onde vertes a um tempo o fel e o néctar.

Agora, que o africano a enxada pondo, Da terra de seus país saudades canta Aos sons de tosca lira, e os duros ferros Da escravidão por um momento esquece, Enquanto no silêncio desses vales Soa ao longe a canção do boiadeiro, E o sabiá na cúpula virente Ao manso rumorejo da floresta Mescla o trinar de mágicos arpejos, Vem, ó saudade, leva-me contigo A alguma encosta solitária e triste, Ou ignorado vale, onde só reine Mistério e solidão;

Junto a algum tronco antigo, em cuja rama Passe gemendo a viração da tarde, Onde se ouça o monótono queixume Da fonte do deserto.

Lá, ó saudade, cerca-me das sombras De maviosa, plácida tristeza, Que em lágrimas sem dor os olhos banha; Vem, que eu quero cismar, até que a noite Fresco orvalho esparzindo-me na fronte, De meu doce delírio mansamente Me venha despertar.

Recordação

Ilusão

Vê, que painel formoso a tarde borda Na brilhante alcatifa do ocidente!

As nuvens em fantásticos relevos Aos olhos fingem, que inda além da terra Novo horizonte infindo se prolonga, Onde lindas paisagens se desenham Descomunais, perdendo-se no vago De vaporosos longes

Lagos banhados de reflexos d'ouro, Onde se espelham gigantescas fábricas; Solitárias encostas, onde avultam Aqui e além ruínas pitorescas, Agrestes brenhas, serranias broncas, Pendentes alcantis, agudos píncaros, 3

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Fendendo um lindo céu de azul e rosas; Fontes, cascatas, deleitosos parques, Encantadas cidades quais só pode Criar condão de fadas, Surdem do vale, entre vapor brilhante, Com a fronte coroada de mil torres, De esguios coruchéus, de vastas cúpulas; E além ainda mil aéreas formas, Mil vagas perspectivas se debuxam, Que por longes sem fim se vão perdendo!

Todo enlevado na ilusão donosa Longo tempo meus olhos espaireço Porém do céu as cores já desbotam, Os fulgores se extinguem, se esvaecem As fantásticas formas vem de manso A noite desdobrando o véu das sombras Sobre o aéreo painel maravilhoso; Apenas pelas orlas do horizonte Bruxuleia através da escuridade O crespo dorso dos opacos montes, E sobre eles fulgindo merencória, Suspensa, como pálida lucerna, A solitária estrela do crepúsculo.

Assim vos apagais em sombra escura, Ledas visões da quadra dos amores!...

Lá vem na vida um tempo Em que a um sopro gélido se extingue A fantasia ardente,

Esse sol puro da manhã dos anos, Que doura-nos as nuvens da existência, E mostra além, pelo porvir brilhando, Um céu formoso e rico de esperança; E esses puros bens, que a mente ilusa Cismara em tanto amor, tanto mistério, Lá vão sumir-se um dia Nas tristes sombras da realidade; E de tudo que foi, conosco fica, No fim dos tempos, a saudade apenas, Triste fanal, brilhando entre ruínas!

O sabiá

L'oiseau semble la véritable embléme du chrétien ici-bas; il pref`ère, comme le fidèle, la solitude au monde; le ciel à la terre, et sa voix bénit sans cesse les merveilles du Créateur (Chateaubriand)

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Tu nunca ouviste, quando o sol é posto, E que do dia apenas aparece, Por sobre os ermos píncaros do ocaso, A orla extrema do purpúreo manto; Quando lã do sagrado campanário Já reboa do bronze o som piedoso, Abençoando as horas do silêncio; Nesse instante de místico remanso, De maga solidão, em que parece Pairar bênção divina sobre a terra, No momento em que a noite vem sobre ela Desdobrar o seu manto sonolento; Tu nunca ouviste, em solitária encosta, De anoso tronco na isolada grimpa, A voz saudosa do cantor da tarde Erguer-se melancólica e suave Como uma prece extrema, que a natura Envia ao céu, — suspiro derradeiro Do dia, que entre sombras se esvaece?

O viandante para ouvir-lhe os quebros Pára, e se assenta à margem do caminho; Encostado aos umbrais do pobre alvergue, Cisma o colono aos sons do etéreo canto Já das rudes fadigas deslembrado; E sob as asas úmidas da noite Aos meigos sons em êxtase suave Adormece embalada a natureza.

Quem te inspira o doce acento, Sabiá melodioso?

Que mágoas triste lamentas Nesse canto suspiroso?

Quem te ensinou a canção, Que cantas ao pôr do dia?

Quem revelou-te os segredos De tão mágica harmonia?

Acaso a ausência tu choras Do sol, que além se sumira; E teu canto ao dia extinto Mavioso adeus suspira?

Ou nessas notas sentidas, Exalando o terno ardor, Tu contas à meiga tarde Segredos do teu amor?

Canta, que o teu doce canto Nestas horas tão serenas, Nos seios d'alma adormece O pungir de acerbas penas.

Cisma o vate ao brando acento De tua voz harmoniosa, 5

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Cisma, e deslembra tristuras De sua vida afanosa.

E ora n'alma se lhe acorda Do passado uma visão,

Que em perfumes de saudade Vem banhar-lhe o coração; Ora um sonho lhe vislumbra Pelas trevas do porvir, E uma estrela d'esperança Em seu céu lhe vem sorrir: E por mundos encantados Lhe desliza o pensamento.

Qual nuvem que o vento embala Pelo azul do firmamento.

Canta, avezinha amorosa, Em teu asilo soidoso;

Saúda as horas sombrias Do silêncio e do repouso; Adormenta a natureza

Aos sons de tua canção; Canta, até que o dia morra De todo na escuridão.

Assim o bardo inspirado, Quando a eterna noite escura Lhe anuncia a fatal hora De baixar à sepultura, Um adeus supremo à vida Sobre as cordas modulando, Em seu leito sempiterno Vai adormecer cantando.

Colmou-te o céu de seus dons, Sabiá melodioso;

Tua vida afortunada

Desliza em perene gozo.

No tope do tronco excelso Deu-te um trono de verdura; Deu-te a voz melodiosa Com que encantas a natura; Deu-te os ecos da valada Pra repetir-te a canção; Deu-te amor no doce ninho, Deu-te os céus da solidão.

Corre-te a vida serena Como um sonho afortunado; Oh! que é doce o teu viver!

Cantar e amar eis teu fado!

Cantar e amar! — quem dera ao triste bardo Assim viver um dia;

Também nos céus os anjos de Deus vivem De amor e de harmonia: 6

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Quem me dera qual tu, cantor dos bosques, Na paz da solidão,

Sobre as ondas do tempo ir resvalando Aos sons de uma canção, E exalando da vida o sopro extremo Num cântico de amor,

Sobre um raio da tarde enviar um dia Minh'alma ao Criador!...

Hino do prazer

Et ces voix qui passaient, disaient joyeu—sement: Bonheur! gaîté! délices!

A nous les coupes d'or, remplies d'un vin charmant, A d' autres les calices!...

(V. Hugo)

I

As orgias celebremos:

Evoé! — Peian! — cantemos.

(C. Semedo)

Convivas do prazer, vinde comigo Ao folgar dos festins; — encham-se as taças, Afine-se o alaúde.

Salve, ruidosos hinos desenvoltos!

Salve, tinir dos copos!

Festas de amor, alegres algazarras De ebritroante bródio!

Salve! co'a taça em punho eu vos saúdo!

Beber, cantar e amar eis, meus amigos, Das breves horas o mais doce emprego; O mais tudo é quimera... o ardente néctar No brilhante cristal férvido espume, E verta n'alma encantador delírio Que a importuna tristeza longe espanca, E alenta o coração para os prazeres.

Pra levar sem gemer à fatal meta Da vida o peso, vinde em nosso auxílio, Amor, poesia e vinho.

Ferva o delírio ao retinir dos copos, E entre ondas de vinho e de perfumes, Se evapore em festivos ditirambos.

É doce assim viver! — ir desfolhando, Descuidado e a sorrir, a flor dos anos, Sem lhe contar as pétalas, que fogem Nas torrentes do tempo arrebatadas: É doce assim viver-se a vida é sonho, Seja um sonho de rosas.

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Quero deixar de minha vida as sendas Juncadas das relíquias do banquete; Frascos vazios, machucadas flores, Grinaldas pelo chão, cristais quebrados, E entre murchos festões roto alaúde, Que reboando balanceia ao vento, Lembrando amores que cantei na vida, Sejam de meu passar por sobre a terra Os únicos vestígios.

Antes assim, do que passar os dias,

— Qual feroz caímã, guardando o ninho, Inquieto a vigiar avaros cofres, Onde a cobiça aferrolhou tesouros Colhidos entre as lágrimas do órfão E as ânsias do faminto.

Antes assim, do que sangrentos louros Ir pleitear nos campos da carnagem, E ao som de horríveis pragas e gemidos, Passar deixando após um largo rio De lágrimas e sangue.

Antes assim... mas quem aqui vos chama, Importunas idéias? — por que vindes Mesclar voz agoureira

Das meigas aves aos mimosos quebros?

Vinde vós, do prazer risonhas filhas, De ebúrneo colo, torneados seios, Flores viçosas dos jardins da vida, Vinde, ó formosas, bafejai perfumes Sobre estas frontes, que em delírios ardem, Vozes casai da citara aos arpejos, E ao som de meigos, deleixados cantos, Ao quebrado languor dos olhos lindos, Ao mole arfar dos mal ocultos seios, Fazei brotar nos corações rendidos Os férvidos anelos, que despontam Nos vagos sonhos d'alma, bafejados De fagueira esperança, e são tão doces!...

Talvez mais doces do que os gozos mesmos Seja harmonia o ar, flores a terra, Amor os corações, os lábios risos, Para nós seja o mundo um céu de amores.

II

Je veux rêver, et non pleurer! (Lamartine) Mas é já tempo de depor as taças: Que este ardente delírio, que inda agora Ao som de soltos hinos Tripudiava n'alma, vai de manso Para os lânguidos sonhos descambando, 8

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Sonhos divinos, quais só tê-los sabe Ditoso amante, quando a fronte inclina No regaço da amada, e entre as delícias De um beijo adormecera.

Basta pois, — que o prazer não só habita Na mesa dos festins, entre o alvoroço De jogos, danças, músicas festivas...

Vertei, ó meus amigos, Vertei também no cíato da vida Algumas gotas de melancolia; Cumpre também banquetear o espírito, Na paz e no silencio inebriá-lo Cos místicos aromas que se exalam Do coração, nas horas de remanso: Na solidão, ao respirar das auras Se acalme um pouco o férvido delírio Dos atroados bródios.

E ao túmulo suceda a paz dos ermos Bem como a noite ao dia!

Quanto é grato depois de ter sumido Largas horas em risos e folguedos, Deixando estanque a taça do banquete, Ir respirar o hálito balsâmico Que em torno exalam flóridas campinas, E reclinado à' sombra da mangueira Fruir em solidão esse perfume De tristeza, de amor e de saudade, Que em momentos de plácido remanso Do mais íntimo d'alma se evapora!

Vertei, brisas, vertei na minha fronte Com macio murmúrio alma frescura; Fagueiras ilusões, vinde inspirar-me; Aéreos cantos, quérulos rumores, Doces gorjeios, sombras e perfumes, Com risonhas visões vinde embalar-me, E adormecei minh'alma entre sorrisos.

Longe, bem longe destes doces sítios O torvo enxame de cruéis pesares...

Deixai-me a sós fruindo A taça misteriosa onde a poesia A flux verte seu néctar.

Busquem outros sedentos de tristezas, De dores só nutrir o pensamento, E quais duendes pálidos vagueiem, Entre os ciprestes da mansão funérea, Lições severas demandando às campas; Meditações tão graves não me aprazem; Longe, tristes visões, fúnebres larvas De agoureiro sepulcro

Longe também, ó vãos delírios d'alma, 9

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Glória, ambição, futuro. — Oh! não venhais Crestar com o bafo ardente A viçosa grinalda dos amores.

Nos jardins do prazer colham-se rosas, E com elas se esconda o horror da campa....

Deixai que os insensatos visionários Da vida o campo só de abrolhos junquem, Lobrigando ventura além da campa; Míseros loucos... que os ouvidos cerram A voz tão meiga, que ao prazer os chama, E vão correndo após um bem sonhado, Oco delírio da vaidade humana....

De flores semeai da vida as sendas, E com elas se esconda o horror da campa...

A campa! — eis a barreira inexorável, Que nosso ser inteiro devorando Ao nada restitui o que é do nada!.

Mas enquanto se oculta a nossos olhos Nos longes nebulosos do futuro, Nas ondas do prazer, que mansas correm, Larguemos a boiar a curta vida, Bem como a borboleta matizada, Que desdobrando ao ar as leves asas Contente e descuidosa se abandona Ao brando sopro de benigno zéfiro.

III

Venez...............................................................................

L'air est tiède, et là—bas dans les forêts prochaines La mousse épaisse et verte abonde au pied des chênes.

(V. Hugo)

Descamba o sol — e a tarde no horizonte Saudosos véus desdobra...

Do manso rio na dourada veia Tremem ainda os últimos reflexos Do dia, que se extingue; E os píncaros agudos, onde pousam Do sol poente os raios derradeiros, Ao longe avultam quais gigantes feros, Que a fronte cingem com diadema d'ouro.

Ah! eis a hora tão saudosa e meiga, Em que o amante solitário vaga A cismar ilusdes, doces mistérios De sonhada ventura...

E vem, ó tarde, suspirar contigo, Enquanto não desdobra o manto escuro A noite a amor propícia....

Afrouxa a viração — mole sussurro Suspira apenas na sombria veiga, 10

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Qual voz sumida a murmurar queixumes.

É junto a ti, meu bem, que nestas horas Me voa o pensamento. — Ah! não vens inda Pousar aqui de teu amante ao lado Sobre este chão de relva?

Vem, ninfa, vem, meu anjo, aqui te aguarda Quem só por ti suspira....

Da tarde as auras para ti desfolham Cheirosas flores na macia relva, E para te embalar em doces êxtases, Murmura a solidão meigos acordes De vagas harmonias:

Vem, que ermo é tudo, e as sombras Da noite, mãe de amor.

Ah! tu me ouviste; — já ligeiras roupas Sinto leve rugir; — estes aromas São as tuas madeixas, que recendem.

Oh! Bem-vinda sejas,

Entre meus braços, doce amiga minha!

Graças à aragem, diligente serva Dos ditosos amantes, que levou-te Meus suspiros, e trouxe-te a meu seio!

Vem, meu querido amor, vem reclinar-te Neste viçoso leito, que a natura Para nós recamou de musgo e flores, Em diáfanas sombras escondido: Desata as longas tranças, E a seda espalha das madeixas negras Por sobre os níveos ombros; Desprende os véus ciosos, deixa os seios Livremente ondearem; — quero vê-los Em tênues sombras alvejando a furto, No afã de amor ansiosos arquejarem.

Da boca tua nos mimosos favos Oh! Deixa-me sorver num longo beijo Dos prazeres o mel delicioso, De amor toda a doçura.

Eu sou feliz! — cantai minha ventura, Auras da solidão, aves do bosque; Astros do céu, sorride a meus amores, Flores da terra, derramai perfumes Em torno deste leito, em que adormece Entre os risos de amor o mais ditoso Dos seres do universo!

Brisas da noite, bafejai frescura Sobre esta fronte que de amor delira, Com cantos alentai-me, e com aromas, Que em tamanha ventura desfaleço.

Eu sou feliz... demais!... cessai delícias, Que a tanto gozo o coração sucumbe!

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Assim cantava o filho dos prazeres...

Mas no outro dia um golpe inopinado Da sorte lhe quebrou o tênue fio Da risonha ilusão que o fascinava: A noite o viu cantando hino de amores, A aurora o achou curvado a verter pranto Sobre uma lousa fria.

Hino à Tarde

A tarde está tão bela e tão serena Que convida a cismar ...

Ei-la saudosa e meiga reclinada Em seu etéreo leito,

Da muda noite amável precursora; Do róseo seio aromas transpirando, Com vagos cantos, com gentil sorriso Ao repouso convida a natureza.

Montão de nuvens, como vasto incêndio, Resplende no horizonte, e o clarão rábido Céus e montes ao longe purpureia.

Pelas odoras veigas

As auras brandamente se espreguiçam, E o sabiá na encosta solitária Saudoso cadenceia

Pousado arpejo, que entristece os termos.

Oh! que grato remanso! — que hora amena, Propícia aos sonhos d'alma!

Quem me dera voltar à feliz quadra, Em que este coração me transbordava De emoções virginais, de afetos puros!

Em que esta alma em seu selo refletia, Como o cristal da fonte, pura ainda, Todo o fulgor do céu, toda a beleza E magia da terra! ...ó doce quadrar Quão veloz te sumiste — como um sonho Nas sombras do passado!

Quanto eu te amava então, tarde formosa.

Qual pastora gentil, que se reclina Rósea e louçã, sobre a macia relva, Das diurnas fadigas descansando; A face em que o afã lhe acende as cores, Na mão repousa — os seios lhe estremecem No mole arfar, e o lume de seus olhos Em suave langor vai desmaiando; Assim me aparecias, meiga tarde, Sobre os montes do ocaso debruçada; Tu eras o anjo da melancolia Que à paz da solidão me convidava.

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Então no tronco, que o tufão prostrava No viso da colina ou na erma rocha, Sobre a margem do abismo pendurada, Me assentava a cismar, nutrindo a mente De arroubadas visões, de aéreos sonhos.

Contigo a sós sentindo o teu bafejo De aromas e frescor banhar-me a fronte, E afagar brandamente os meus cabelos, Minh'alma então boiava docemente Por um mar de ilusões e parecia Que um coro aéreo, pelo azul do espaço, Me ia embalando com sonoras dálias: De um puro sonho sobre as asas de ouro Me voava enlevado o pensamento, Encantadas paragens devassando; Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam Afoito me embebia, e o espaço infindo Transpondo, ia entrever no estranho arroubo Os radiantes pórticos do Elísio.

Ó sonhos meus, ó ilusões amenas De meus primeiros anos, Poesia, amor, Saudades, esperanças, Onde fostes? por que me abandonasses?

Inda do tempo me não pesa a destra E não me alveja a fronte; — inda não sinto Cercar—me o coração da idade os gelos, E já vós me fugis, ó ledas flores De minha primavera!

E assim vós me deixais, — tronco sem seiva, Só, definhando na aridez do mundo?

sonhos meus, por que me abandonasses?

A tarde está tão bela e tão serena Que convida a cismar: — vai pouco a pouco Desmaiando o rubor dos horizontes, E pela amena solidão dos vales Caladas sombras pousam: — breve a noite Abrigará com a sombra de seu manto A terra adormecida.

Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro, Nesta hora, em que tudo sobre a terra Suspira, cisma ou canta, Como esse afagador extremo raio, Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas, Vinde pairar ainda sobre a fronte Do bardo pensativo; — iluminara Com um raio inspirado; Antes que os ecos todos adormeçam Da noite no silêncio,

Quero um hino vibrar nas cordas d'harpa Para saudar a filha do crepúsculo.

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Ai de mim! — esses tempos já caíram Na sombria voragem do passado!

Os meus Sonhos queridos se esvaíram, Como após o festim murchas se espalham As flores da grinalda: Perdeu a fantasia as asas d'ouro, Com que Se alava às regiões sublimes De mágica poesia,

E despojada de seus doces sonhos Minh'alma vela a sós com o sofrimento, Qual vela o condenado

Em sombria masmorra à luz sinistra De amortecida lâmpada.

Adeus, formosa filha do Ocidente, Virgem de olhar sereno que meus sonhos Em doces harmonias transformavas, Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas Rouqueja o vento e a voz me desfalece...

Mil e mil vezes raiarás ainda Nestes sítios saudosos que escutaram De minha lira o desleixado acento; Mas ai de mim! nas solitárias veigas Não mais escutarás a voz do bardo, Hinos casando ao sussurrar da brisa Para saudar teus mágicos fulgores.

Silenciosa e triste está minh'alma, Bem como lira de estaladas cordas Que o trovador esquece pendurada No ramo do arvoredo,

Em ócio triste balançando ao vento.

Fim

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