Interdisciplinaridades: latinistas, helenistas e sociólogos em revista (França, 1898 - 1920) por Rafael Faraco Benthien - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de História

Programa de Pós-Graduação em História Social

Rafael Faraco Benthien

Interdisciplinaridades: latinistas,

helenistas e sociólogos em revistas

(França, 1898-1920)

(VERSÃO CORRIGIDA)

São Paulo,

Março de 2011

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de História

Programa de Pós-Graduação em História Social

Rafael Faraco Benthien

Interdisciplinaridades: latinistas,

helenistas e sociólogos em revistas

(França, 1898-1920)

Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação em História Social como pré-

requisito para a obtenção do título de

doutor.

Orientador: Prof. Dr. Francisco Murari Pires

(VERSÃO CORRIGIDA)

São Paulo,

Março de 2011

ii

Para Waleska.

iii

O progresso do conhecimento, no

caso da ciência social, supõe um

progresso no conhecimento das

condições de conhecimento.

PIERRE BOURDIEU

iv

AGRADECIMENTOS

A presente tese é uma autobiografia impessoal. Ela sinaliza para o esforço crítico de

alguém que, desde cedo engajado nos estudos clássicos e nas ciências sociais, quis refletir

sobre como esses saberes foram e são socialmente produzidos. Mas isso não é tudo. Aqui e ali,

em suas linhas e entrelinhas, todos aqueles com quem tive a chance de compartilhar os

últimos quatro anos e meio deixaram suas marcas. Se enumerar é esquecer, ainda assim eu

não poderia deixar de mencionar aqui indivíduos e de instituições que, retrospectivamente,

me parecem terem sido determinantes para o trabalho.

Inicio meus agradecimentos mencionando os apoios da FAPESP e, no contexto de uma

bolsa sanduíche, da CAPES. Sem as excepcionais condições de trabalho oferecidas por tais

agências de fomento nada do que se vê aqui teria sido possível. Ainda no plano institucional,

expresso minha gratidão para com os funcionários da Universidade de São Paulo, em especial

João Roberto Patrinhani da Pró-Reitoria de Pós-Graduação, bem como o trio sempre prestativo

e amigo que encontrei na Secretaria da Pós-Graduação de História, Osvaldo Medeiros, Priscila

de Carvalho e Luiz Filipe da Silva Correia.

Quando meu doutorado teve início, em agosto de 2006, eu estava em Curitiba

lecionando como professor substituto no Departamento de História da Universidade Federal

do Paraná. Agradeço aos colegas que me acolheram de braços abertos e me auxiliaram nesse

que era apenas meu segundo semestre de experiência docente, bem como aos alunos de

Teoria da História II e História Medieval II. Tenho aí uma dívida particular com Carlos Alberto

Medeiros Lima e Helenice Rodrigues da Silva, amigos e interlocutores.

Durante todo o ano de 2008 e em duas ocasiões diferentes em 2010, pude

desenvolver partes da pesquisa na França. Essa primeira vivência concreta da diferença

linguística, comportamental e institucional não teria sido suportável sem as várias amizades

que aí tiveram início. Dentre as pessoas queridas que conheci na Maison du Brésil, destaco os

nomes de Valter Lúcio de Oliveira, Fábio Carvalho, Renata Picão, Grégory Ponthière, Angélica

Müller, Cristiane Oliveira, Camila Jourdan e Kenneth Günther. Para além do ambiente da Cité

Universitaire, em seminários, festas, cinemas, cafés e restaurantes, tive ainda a sorte de cruzar

o caminho de Laura e Lucile Chartain, Jessica Ozan, Catarine de Melo Baldan, Cristian Escorza,

Marco-Antonio Machado, Barbara Maraux, Felipe Brandi, Aurelie Therond, Yann Coron e

Manon Bosc. Guénolé Labey-Guimard merece um agradecimento especial: além de sua

vontade de construir pontes capazes de amenizar a barreira da alteridade, auxiliou o

desenvolvimento da presente pesquisa hospedando-me generosamente em sua casa e na de

seus familiares não parisienses.

v

Na École des Hautes Études en Sciences Sociales, instituição que me acolheu em Paris,

descobri mestres e amigos. Evoco, em primeiro lugar, o nome de Afrânio Raul Garcia Júnior, o

qual tornou o estágio possível ao aceitar ser meu supervisor. Ele não poupou esforços para

fazer o trabalho avançar, vibrando com minhas “descobertas” e encorajando-me em

momentos-chave. Jean-Pierre Faguer, que conheci graças a Afrânio, foi certamente meu mais

constante e fiel interlocutor. Indicando-me bibliografias, eventos e seminários, ou ainda

acompanhando-me a arquivos e entrevistas, sua presença aqui é de tal ordem que não seria

exagero dizer que sem ele não haveria tese alguma. Pude ainda, em diversas ocasiões, receber

importantes conselhos e informações de Dominique Merllié, Marcello Carastro, Etienne

Hubert, Pierre Judet de La Combe e Johan Heilbron. Destaco também o diálogo com

pesquisadores não pertencentes a essa instituição, em particular Camille Tarot, Sarah Rey e

Brigitte Le Roux. André Laks, que eu havia conhecido durante meu mestrado, recebeu-me em

diversas ocasiões, tornando também possível meu acesso tanto à biblioteca da École Normale

Supérieure quanto ao filólogo Jean Bollack. Bollack, aliás, não satisfeito em responder às

questões ligadas a minha pesquisa, concedeu-me ainda a honra de entrevistá-lo. Não há como

agradecê-lo por isso.

O contato com arquivos é um capítulo à parte na história da presente tese. No Collège

de France, todo o trabalho foi singularmente facilitado pela equipe da biblioteca da instituição,

Claire Guttinger em especial. Na Bibliothèque Méjanes, em Aix-en-Provence, fui recebido com

o maior dos profissionalismos por Philippe Ferrand e Michelle Allard. O mesmo pode ser dito

dos funcionários do Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine, em Paris e em Caen. Por

fim, abro um parêntese especial quanto ao Musée d’Archéologie Nationale et Domaine

National de Saint-Germain-en-Laye. Quando fui visitá-lo a primeira vez, estava interessado

apenas nos arquivos pessoais e profissionais de Henri Hubert ali depositados. Para minha

sorte, porém, encontrei também bons amigos e interlocutores. Meu muito obrigado a Loïc

Hamon, Claire Aumeunier, Paul Chillon, Guillaume Goujon e, em especial, às sucessoras de

Hubert no departamento de Arqueologia Comparada, Christine Lorre e Anaïs Boucher.

Da França para a Inglaterra. Em um curto estágio de um mês, realizado já no final da

pesquisa, pude conhecer sociólogos e antropólogos do outro lado do Canal da Mancha. O

convite partiu de William Pickering, presidente e um dos fundadores do British Center for

Durkheimian Studies. Sua gentileza, interesse, invejável vivacidade e faro detetivesco não

serão esquecidos. Por intermédio de Bill, obtive acesso ao sistema de bibliotecas local, assim

como travei contato com Nick Allen, cujo trabalho passei a conhecer e admirar. Além de

presenciarem a apresentação de parte da pesquisa nos quadros de um evento do centro,

ambos aceitaram conversar em particular comigo e deram importantes contribuições ao

vi

trabalho. At last, but not least, agradeço à família Gordon-Colebrooke – Sarah, Jeremy, Jack,

Liv e Charlie –, a qual aceitou receber a mim e a Waleska como hóspedes. Sentimo-nos aí como

em casa.

Entre uma e outra viagem, em São Paulo ou em Curitiba, pude contar com o apoio de

familiares e de bons amigos, alguns mais novos, outros de longa data. Seu Luiz, Dona Mara e

Paty estiveram sempre lá, com atenção e afeto infinitos. Agradeço também a Sônia e Rodrigo

Laux, Irô Floriano ( in memoriam), Raquel Weiss, Joana Clímaco, Rafaela Deiab, Luis Filipe

Silvério Lima, Miguel Soares Palmeira, Rodrigo Turin, Eduardo Dimitrov, Luiz Lima Vailati,

Pedro Ipiranga Júnior, Carlos Ogawa, Bruno Hübscher, Germaine Mandelsaft, Maikon Augusto

Delgado (o Magoo), André Luiz Cavazzani, Ricardo Sabbag, Rogério Cunha e Leonardo

Marques. Pedro, confiando a mim e a Waleska sua casa, deu-me oportunidade de redigir boa

parte da tese no mais propício dos ambientes. Rodrigo, Eduardo, Miguel e Magoo

constituíram, por seus esforços combinados ou isolados, uma espécie de atelier de final de

tese. Os três primeiros, comentando um ou outro subcapítulo, permitiram-me corrigir,

esclarecer e aperfeiçoar ideias e encaminhamentos de pesquisa. Magoo, por sua vez,

encarregou-se da revisão final do texto.

Por terem me emprestado seus olhos e ouvidos, agradeço ainda aos helenistas,

historiadores, antropólogos, sociólogos e estatísticos brasileiros: Marcelo Rede, Sergio Miceli,

José Antônio Dabdab Trabulsi, Márcia Consolim, Lygia Sigaud ( in memoriam), Paulo Bittencourt

e Flávio de Oliveira. Destaco, entre eles, o nome de Sergio Miceli. Além de sua presença

marcante no momento da qualificação, ele me permitiu entrar em contato com Afrânio,

contribuindo assim decisivamente para o avanço do trabalho.

E o que dizer de Francisco Murari Pires? Dotado de uma formação interdisciplinar no

mais amplo sentido do termo, assim como dono de uma obra com estilo próprio, forjada com

toda a erudição que ele pôde acumular ao longo dos anos, mas também contra ela, Francisco é

mais que um simples professor/pesquisador. Ele é, em verdade, um projeto de ciência e de

universidade. Com ele, as palavras não são desperdiçadas e os silêncios falam. Com ele, os

dogmatismos, os jogos de salão e os corporativismos da Academia são rebaixados graças a

uma reflexão intelectual séria, livre e inventiva. Foi um grande privilégio tê-lo tido como

orientador, algo só superado pela satisfação de tê-lo como amigo.

As últimas palavras dos agradecimentos vão a quem dedico a tese. Na por vezes dura e

sempre sublime tarefa de amar, Waleska esteve presente em todos os dias. Obrigado por

quase dez anos de história que me ajudaram a ser quem eu sou. Obrigado também por estar

disposta a transformar o teu e o meu futuro em algo nosso.

vii

RESUMO

Durante as décadas de 1890 e 1910, a sociologia adquiriu direito de cidadania na universidade

francesa, passando a compor, em uma posição institucionalmente frágil e marginal, o leque

das disciplinas ofertadas nas Faculdades de Letras. A presente tese se propõe a investigar os

diálogos que os portadores desse saber “novo” travaram então com helenistas e latinistas, os

quais representavam, por seu turno, disciplinas tradicionais e ainda hegemônicas no sistema

de ensino daquele país. Para tanto, são aqui privilegiados os circuitos de ideias e de pessoas

entre cinco revistas especializadas de perfil universitário: o Année Sociologique, o Bulletin de

Correspondance Hellénique, os Mélanges d’Archéologie et d’Histoire, a Revue des Études

Grecques e a Revue des Études Anciennes. A partir do exame dos sentidos de tal fluxo, procura-

se esclarecer quais condições epistemológicas e sociais tornaram possível uma

interdisciplinaridade historicamente dada, problematizando tanto seus limites práticos quanto

seu peso na definição de cada um dos saberes nela implicados.

Palavras-chave: Sociólogos, Latinistas, Helenistas, Universidade francesa (1898-1920),

Interdisciplinaridade.

ABSTRACT

During the 1890s and 1910s, sociology acquired citizenship rights within the French University

system, and became part of the spectrum of disciplines offered at the various faculties of

Letters all over the country, even though it kept holding an institutionally weak position. The

purpose of this thesis is to examine the dialogues during this early period between the holders

of this “new” knowledge and Hellenistic and Latin scholars, who, in turn, represented

traditional disciplines which still dominated the French educational system. To that end, we

focus upon the circuits of ideas and people represented in five specialized academic journals,

i.e: Année Sociologique, Bulletin de Correspondance Hellénique, Mélanges d'Archéologie et

d'Histoire, Revue des Etudes Grecques, and Revue des Etudes Anciennes. By analyzing the

meanings of such a flow, we attempt to elucidate the epistemological and social conditions

that allowed a historically given interdisciplinarity, questioning both its practical limits and its

influence on the definition of each knowledge area.

Keywords: Sociologists, Latinists, Hellenists, French university (1898-1920), interdisciplinarity.

Contato: rfbenthien@hotmail.com

viii

SUMÁRIO

LISTA DE ABREVIAÇÕES/NOTA SOBRE AS CITAÇÕES

xii

LISTA DE QUADROS (TABELAS)

xiii

LISTA DE IMAGENS

xv

INTRODUÇÃO

1

Prólogo: Platão e as Ciências Sociais

2

Da hegemonia absoluta dos liceus à relativa autonomia universitária

4

[Caixa de texto: Universidades e grandes écoles]

6

Modos de fazer

10

CAPÍTULO 1 – A REVISTA DOS SOCIÓLOGOS E OS ESTUDOS GRECO-LATINOS

13

1.1 – O ANNÉE SOCIOLOGIQUE E OS CLÁSSICOS GRECO-LATINOS

15

Uma revista atípica

15

Por um comparatismo radical

18

De algumas formas sociológicas de classificação

20

Onde colocar Pausânias?

21

1.2 – OS COLABORADORES ANTIQUISANTS DE L’ANNÉE SOCIOLOGIQUE

44

Entre amizades e comparatismos

44

A adesão de jovens especialistas

52

CAPÍTULO 2 – AS REVISTAS DOS ANTIQUISANTS E A SOCIOLOGIA

60

2.1 – O BULLETIN DE CORRESPONDANCE HELLENIQUE

64

A École Française d’Athènes

65

*Caixa de texto: “Ateniense”+

68

Criação e estrutura do BCH

69

*Caixa de texto: “Os diretores da EFA”+

73

Padrões de recrutamento

74

A recepção da sociologia no Bulletin de Correspondance Hellénique

80

Os sociólogos no Bulletin de Correspondance Hellénique

82

2.2 – OS MÉLANGES D’ARCHÉOLOGIE ET D’HISTOIRE

86

A École Française de Rome

87

A estrutura dos MAH

90

Edmond Le Blant e Louis Duchesne

91

Padrões de recrutamento

95

A recepção da sociologia nos Mélanges d’Archéologie et d’Histoire

102

ix

Os sociólogos nos Mélanges d’Archéologie et d’Histoire

104

2.3 – A REVUE DES ÉTUDES GRECQUES

107

Uma instituição de elite

108

[Caixa de texto: A AEEG e o sistema de ensino francês]

111

Do anuário à revista

112

Dois diretores

114

[Caixa de texto: A Villa Kérylos]

117

O helenismo é um humanismo

121

Padrões de recrutamento

125

A recepção da sociologia na Revue des Études Grecques

138

Os sociólogos na Revue des Études Grecques

144

[Caixa de texto: Uma forma antiga de contrato entre os trácios]

156

2.4 – A REVUE DES ÉTUDES ANCIENNES

157

Antecedentes institucionais e a caracterização de uma equipe

158

[Caixa de texto: Novas posições se consolidam]

160

O grupo antes do grupo (I): uma formação de elite

163

[Caixa de texto: Três retratos de normalianos por Salomon Reinach]

165

O grupo antes do grupo (II): reorientação e convergência

167

[Caixa de texto: Henri de la Ville de Mirmont (1858-1923)]

175

O todo e as partes

176

[Caixa de texto: A Dama de Elche]

178

Camille Jullian, patrono e patrão

182

[Caixa de texto: Do patriotismo gaulês]

189

O “incidente” Stapfer

191

Padrões de recrutamento

195

[Caixa de texto: Joseph Déchelette (1862-1914)]

202

A recepção da sociologia na Revue des Études Anciennes

207

Os sociólogos na Revue des Études Anciennes

213

2.5 – LINHAS DE FORÇA

221

“Jovens” x “Velhos”

221

Paris x província

222

Latinistas x Helenistas

224

Particularismos x Universalismos

226

Dreyfusards x Antidreyfusards

226

Padrões de relação

227

x

CAPÍTULO 3 – HELENISTAS, LATINISTAS E SOCIÓLOGOS: DIÁLOGOS EM INSTITUIÇÕES

230

3.1 – OS DURKHEIMIANOS NO COLLÈGE DE FRANCE (1897-1918)

234

O Collège de France (I): disposições heréticas

237

O Collège de France (II): um sistema de recrutamento particular

240

O Collège de France (III): linhas de força

242

Durkheim: os primeiros e paradigmáticos fracassos

247

[Caixa de texto: Monsieur Schmidt]

251

Meillet: a tranqüila eleição de uma unanimidade

251

Fossey: um sucesso “ilegítimo”

253

Mauss e seu duplo fracasso

256

[Caixa de texto: O testemunho de van Gennep]

261

Simiand: não à sociologia, não ao socialismo

262

Considerações finais

265

3.2 – OS DURKHEIMIANOS, SALOMON REINACH E O MUSÉE DES ANTIQUITÉS NATIONALES

268

Alexandre Bertrand e os primórdios do Museu de Saint-Germain

269

Salomon Reinach, prodígio e polígrafo

272

Entre tensões e afinidades eletivas

274

Um museu aberto à sociologia

279

[Caixa de texto: O Deus com o Martelo]

281

Considerações finais

282

3.3 – AS CONTRIBUIÇÕES DOS DURKHEIMIANOS AO DICTIONNAIRE DES ANTIQUITÉS

GRECQUES ET ROMAINES

283

O Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines

283

Henri Hubert, uma jovem promessa entre os antiquisants

287

Paul Huvelin, o especialista consagrado

291

Notas sobre o lugar da sociologia no DAGR e o do DAGR na sociologia 294

CONCLUSÃO

296

Interdisciplinaridades (I): observações sobre a teoria do campo

298

Interdisciplinaridades (II): os campos se sobrepõem

300

ANEXO

303

ENTREVISTA COM JEAN BOLLACK

305

CADERNO DE IMAGENS

322

BIBLIOGRAFIA

333

xi

LISTA DE ABREVIAÇÕES/NOTA SOBRE AS CITAÇÕES

Em função das alusões recorrentes a um conjunto relativamente pequeno de

periódicos acadêmicos e instituições, optou-se aqui por adotar as abreviações que seguem

listadas abaixo. No caso das revistas, essas siglas serão também utilizadas para fins de citação

seguindo o seguinte padrão: SIGLA, ANO: PÁGINA (ex: BCH, 1909: 105-109). A única exceção se

aplica à Revue Archéologique (RA), que publicava a cada ano dois volumes com paginações

independentes. Nesse caso, indica-se o semestre após o ano (ex: RA, 1899/2: 145-167).

ABREVIAÇÕES DE PERIÓDICOS E DICIONÁRIOS

Année Sociologique (AS)

Bulletin de Correspondance Hellenique (BCH)

Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines (DAGR)

Mélanges d’Archéologie et Histoire (MAH)

Revue Archéolofique (RA)

Revue Celtique (RC)

Revue des Études Anciennes (REA)

Revue des Études Grecques (REG)

Revue de l’Histoire des Religions (RHR)

Revue de Métaphysique et de Morale (RMM)

Revue des Universités du Midi (RUM)

INSTITUIÇÕES

Académie des Beaux-Arts (ABA)

Académie Française (AF)

Académie des Inscriptions et Belles-Lettres (AIBL)

Académie des Sciences (AdS)

Académie des Sciences Morales et Politiques (ASMP)

Association pour l’Encouragement des Études Grecques en France (AAEG)

Bibliothèque Nationale de France (BNF)

Collège de France (CF).

École Française d’Athènes (EFA)

École Française de Rome (EFR)

École Normale Supérieure (ENS)

École Pratique des Hautes Études (EPHE)

Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine (IMEC)

Musée des Antiquités Nationales (MAN)

xii

LISTA DE QUADROS (TABELAS)

Quadro 1.1.1 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1898).

23

Quadro 1.1.2 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1899).

24

Quadro 1.1.3 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1900).

25

Quadro 1.1.4 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1901).

26

Quadro 1.1.5 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1902).

27

Quadro 1.1.6 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1903).

28

Quadro 1.1.7 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1904).

30

Quadro 1.1.8 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1905).

32

Quadro 1.1.9 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1906).

34

Quadro 1.1.10 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1907). 36

Quadro 1.1.11 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1910). 38

Quadro 1.1.12 – A presença da antiguidade greco-latina em L’Année Sociologique (1913). 40

Quadro 2.1.1 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (BCH, 1877-1887).

75

Quadro 2.1.2 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (BCH, 1888-1898).

76

Quadro 2.1.3 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (BCH, 1899-1909).

77

Quadro 2.1.4 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (BCH, 1910-1920).

78

Quadro 2.2.1 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (MAH, 1881-1887).

96

Quadro 2.2.2 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (MAH, 1888-1898).

97

Quadro 2.2.3 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (MAH, 1899-1909).

98

Quadro 2.2.4 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (MAH, 1910-1920).

99

Quadro 2.3.1 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (REG, 1888-1898).

128

Quadro 2.3.2 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (REG, 1899-1809).

129

Quadro 2.3.3 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (REG, 1910-1920).

130

Quadro 2.3.4 – REG – 1899-1906. Frequência de publicação, trajetória pessoal e

133

institucional.

Quadro 2.3.5 – REG – 1907-1913. Frequência de publicação, trajetória pessoal e

134

institucional.

Quadro 2.3.6 – REG – 1914-1920. Frequência de publicação, trajetória pessoal e

136

institucional.

Quadro 2.4.1 – Trajetória escolar e background familiar dos fundadores da REA.

167

Quadro 2.4.2 – Número absoluto e relativo de cadeiras associadas aos estudos greco-

169

latinos nas Faculdades de Letras francesas (1865-1928).

Quadro 2.4.3 – Números absoluto e relativo de artigos ( articles de fond) por área

179

xiii

temática da REA.

Quadro 2.4.4 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (REA, 1899-1909).

196

Quadro 2.4.5 – Padrões de recrutamento – autores de artigos (REA, 1910-1920).

197

Quadro 2.4.6 – REA – 1899-1906. Frequência de publicação, trajetória pessoal e

204

institucional.

Quadro 2.4.7 – REA – 1907-1913. Frequência de publicação, trajetória pessoal e

205

institucional.

Quadro 2.4.8 – REA – 1914-1920. Frequência de publicação, trajetória pessoal e

206

institucional.

Quadro 2.5.1. – Instituições dedicadas aos estudos greco-latinos (1846-1923)

224

Quadro 2.5.2 – Revistas dedicadas aos estudos greco-latinos (1877-1923)

225

Quadro 2.5.3 – O espaço das revistas dos helenistas, dos latinistas e dos sociólogos

228

Quadro 3.1.1 – Cadeiras nominalmente relacionadas ás ciências sociais criadas no

236

Collège de France (1897-1918).

Quadro 3.1.2 – Candidaturas de sociólogos durkheimianos ao Collège de France 1918.

236

Quadro 3.1.3 – Composição do CF (1897-1918): “cientistas” e “literários” (em números

243

absolutos e relativos).

Quadro 3.1.4 – A composição do CF (1897-1918): o quinhão das Academias (em números 243

absolutos e relativos).

Quadro 3.2.1 – Apreciações críticas dos trabalhos de Salomon Reinach em L’Année

277

Sociologique (1898-1905).

Quadro 3.2.2 – Apreciações críticas dos trabalhos de Salomon Reinach em L’Année

278

Sociologique (1906-1913).

Quadro 3.3.1 – DAGR: periodicidade e conteúdo.

284

Quadro 3.3.2 – Henri Hubert e o DAGR.

287

Quadro 3.3.3 – Paul Huvelin e o DAGR.

292

xiv

LISTA DE IMAGENS

Encontram-se listadas abaixo as imagens (fotografias) citadas ao longo da tese.

Figura 2.3.1 – A baía de Beaulieu-sur-Mèr em julho de 2008.

323

Figura 2.3.2 – O átrio central da Villa Kérylos.

324

Figura 2.3.3 – A disputa da lira entre Hermes e Apolo.

325

Figura 2.3.4 – A sala de refeições ( triklinos) da Villa Kérylos.

326

Figura 2.3.5 – Detalhe do quarto de Théodore Reinach, no segundo andar da Villa

Kérylos.

327

Figura 2.4.1 – O Busto antigo intitulado “A Dama de Elche”.

328

Figura 2.4.2 – A Dama de Elche na folha de rosto da REA.

329

Figura 3.2.1 – A Sala de Marte ou Sala de Arqueologia Comparada no início do século XX. 330

Figura 3.2.2 – A Sala de Marte ou Sala de Arqueologia Comparada no início do século

XXI.

331

Figura 3.2.3 – Exemplo atual de vitrine da Sala de Arqueologia Comparada.

332

xv

INTRODUÇÃO

1

A

presente tese estuda, na perspectiva de uma história social das

ciências sociais, os diálogos entre latinistas, helenistas e sociólogos durkheimianos na França

da Terceira República, dando ênfase ao período que se estende de 1898 (ano de lançamento

de l’Année Sociologique) a 1920 (imediato pós-guerra). Tendo como principal suporte

documental os periódicos científicos dedicados à sociologia e aos estudos greco-latinos, ela

intenta explicar eventuais tensões e afinidades eletivas que marcaram nesses espaços a

circulação de idéias e de indivíduos. Mas não se quer aqui apenas analisar uma

interdisciplinaridade episódica. Trata-se também de restituir a importância de tais diálogos

para a constituição de cada uma das disciplinas em questão.

PRÓLOGO: PLATÃO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS

Na Paris de 1913, um artigo publicado na influente Revue de Métaphysique et de

Morale teve seu papel no esforço que então se fazia para rediscutir o lugar dos clássicos greco-

latinos no sistema educacional francês (RMM, 1913: 221-255). O título provocativo, Platon et

La Science Sociale, sinalizava que nem mesmo o antigo filósofo escapara à tormenta. León

Robin, recém-doutor e postulante a um assento permanente na Sorbonne, defendia ali que

Platão, além de refletir cientificamente acerca da sociedade, antecipou algo do método e das

conclusões de ninguém menos que Émile Durkheim. Com efeito, dizia Robin, o filósofo

reservara em sua República “lugar importante aos fatos econômicos na explicação dos fatos

sociais”. Além do mais, concebera “a grande lei da divisão do trabalho social”. E como se tudo

isso já não bastasse, suas teses sobre o lugar da política na “educação científica hierarquizada”

estariam em consonância com formulações recentes de Comte1.

Que Platão não fosse um pensador abstrato, apesar de nova, era uma ideia aceitável.

O curioso aqui é a radicalização de uma leitura absolutamente oposta à idealista, que, vinte

anos antes, dominava a questão. Com efeito, nos idos de 1890, Bergson ensinava no Liceu

Henri IV o caráter arquetípico das ideias platônicas (BERGSON, 2005: 105-117). No mesmo

período, um celebrado tratado histórico sobre o regime de terras na Grécia Antiga afirmava

que a opinião do ateniense sobre questões sociais tinha “valor medíocre” (GUIRAUD, 1893:

1 Os exemplos foram retirados respectivamente de RMM, 1913: 228, 238 e 254-5.

2

587). E mesmo Durkheim em De la Division du Travail Social, embora tenha citado Aristóteles,

ignorava solenemente o mestre do estagirita.

Mas o que ocorreu entre 1890 e 1910 para provocar tal reviravolta na fortuna crítica

de Platão? A resposta é inequívoca: a sociologia aconteceu. Não se tratou, porém, de um

processo simples. À medida que abria espaço nas instituições de ensino, negociando com elas

rearranjos, a nova disciplina suscitava reações de simpatia ou de hostilidade por parte dos

portadores dos saberes já consolidados. Para ter sucesso, ela tinha de sensibilizar ao menos

alguns de seus colegas universitários quanto à importância das questões ditas sociológicas,

incentivando a aplicação destas aos objetos daqueles.

Assim, Durkheim não agiu sozinho quando afirmou em Les Formes Élémentaires de La

Vie Religieuse, de 1912, o lugar crucial de Platão no desenvolvimento das ciências positivas da

sociedade (DURKHEIM, 1912: 623). Ele dialogava, em verdade, com especialistas na filosofia

antiga simpáticos às ciências sociais. Dentre eles, Octave Hamelin, professor da Sorbonne e

amigo próximo de Durkheim, já havia afirmado em 1904 o quanto a sociologia auxiliava o

estudo da filosofia antiga (HAMELIN, 1931: 1-22). No ano seguinte, Victor Brochard, também

professor da Sorbonne e um dos principais responsáveis pela ida de Durkheim a essa

instituição, notou o quanto até mesmo as ideias “abstratas” de um Platão tinham raízes sociais

e refletiam dilemas reais da vida em sociedade (BROCHARD, 1905).

Por certo, a polêmica acerca de um Platão “idealista” ou “positivista” é muito mais

complexa do que essa curta série de citações deixa entrever. Também não coube a Robin

encerrar a discussão, como sentenciou a única acolhida, bastante positiva, de seu artigo nas

revistas especializadas nos estudos greco-latinos2. Em todo caso, tal episódio envolvendo

Platão importa aqui mais por sensibilizar o analista moderno quanto ao lugar de destaque dos

autores clássicos no universo em que a sociologia durkheimiana veio a se institucionalizar. De

fato, não havia nada mais tradicional em todo o sistema educacional francês: do início do

século XIX até meados do século XX, as línguas e as obras literárias greco-latinas ocuparam um

espaço central nos currículos do ensino médio, o que as tornava indispensáveis aos mais

prestigiados concursos e certificados de estudo. No ensino superior, até mesmo em

decorrência das demandas de professores de liceus, helenistas e latinistas constituíam boa

parte dos quadros das Faculdades de Letras, bem como de instituições como a École Pratique

des Hautes Études e o Collège de France. Em outras palavras, o contato com esses antiquisants

era inevitável para quem quisesse seguir uma carreira universitária na França.

2 Em uma resenha publicada na Revue des Études Grecques, Émile Bréhier, embora não faça quaisquer

referências a Durkheim, elogia as teses de Robin, as quais “parecerão convincentes a muitos”. O próprio

autor, no entanto, se isenta de tomar partido. Cf. REG, 1914: 359-360.

3

Diante desse quadro, antes mesmo de apresentar em detalhes o material a ser aqui

analisado ou discutir os encaminhamentos metodológicos da análise, cumpre compreender as

linhas gerais do processo de construção do sistema de ensino francês.

DA HEGEMONIA ABSOLUTA DOS LICEUS À RELATIVA AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA

O universitário brasileiro, diante da história recente e das particularidades do sistema

de ensino no qual ele próprio está inserido, tem dificuldades para refletir acerca do caso

francês. Na França, afinal, as universidades são, ao menos nominalmente, muito mais antigas.

Além disso, lá tudo converge para Paris, enquanto aqui há um regionalismo mais pronunciado,

visível nos descompassos que aproximam e separam as diferentes unidades de ensino

federais, estaduais e privadas. E o que dizer dos estatutos que distinguem as grandes

instituições francesas: as universidades, as Grandes Écoles, o Collège de France e aquelas

voltadas apenas à pesquisa, tais como a École Pratique des Hautes Études e a École des Hautes

Études en Sciences Sociales? Não há nada análogo a essa divisão do trabalho intelectual nos

trópicos. Por fim, considere-se ainda os vínculos entre o ensino secundário e superior nos dois

países. No Brasil, cada um desses domínios constitui um mercado à parte, com padrões de

recrutamento e planos de carreira relativamente autônomos um frente ao outro. Na França,

ao contrário, a passagem como docente pelo secundário era, ao menos até as décadas de 1960

e 1970, uma etapa quase obrigatória para ingressar, anos mais tarde, no ensino superior.

Importa ressaltar aqui, porém, que o sistema de ensino francês é, sob muitos

aspectos, muito mais recente do que se possa imaginar3. Se seus alicerces foram montados já

no final do processo revolucionário, ele só atingiu uma complexidade similar à atual nas

últimas décadas do século XIX, quando se constituíu aí de fato um nicho estável e

relativamente autônomo voltado à pesquisa científica original. Pode-se, de modo

esquemático, dividir a história desse sistema em duas partes, uma que vai do final das

experiências pedagógicas revolucionárias até a década de 1870, caracterizada por uma

hegemonia absoluta do ensino secundário, e outra marcada pela ascensão da universidade, no

sentido moderno do termo, como instituição que se ocupa tanto do ensino como da pesquisa.