Intraterra por Marcello Salvaggio - Versão HTML

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MARCELLO SALVAGGIO

Intraterra

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INTRATERRA

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obra sem a devida permissão do autor.

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Intraterra tem como base as teorias da conspiração

envolvendo reptilianos e illuminati, além de referências a

diversas sociedades secretas e à ufologia mística. A ação do

romance se inicia nos dias de hoje e prossegue trezentos anos à

frente, após grandes transformações na civilização. O mistério

paira sobre o protagonista Joshua Christiansen: será um

simples escritor, como alega? Um agente governamental? Um

integrante do Comando Ashtar, patrulha interestelar

responsável por trazer uma nova luz a diferentes mundos? Ou

um mago pertencente a alguma seita obscura?

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PRÓLOGO

Pelos corredores secretos, espaços perversos debaixo da terra,

ouviam-se os passos dos sapatos, o som da cavalgada tensa de

um espectro vivo que acreditava saber perfeitamente o que

precisava ser feito. O agente Williams, um negro alto de

semblante duro e cabeça raspada, retirou os óculos escuros ao

entrar na sala prateada, hermeticamente fechada, onde estava

preso o suposto terrorista. Contudo, ao vê-lo pela primeira vez

pessoalmente só lhe pareceu ter encontrado um louco

inofensivo. O velho barbado e sujo, que se recusara a tomar

banho desde que fora detido, estava jogado no canto, as roupas

rasgadas, as costas feridas apoiadas à parede gelada. Seu olhar,

perdido do mundo, era de morte sem vida.

“Esse é quem seria um dos grandes líderes terroristas em

nosso país? Não passa de um autista, o que é mais do que

evidente! Só seria capaz de se explodir depois de encherem seu

corpo de bombas enquanto dorme!”, bradou o agente após

confirmar suas primeiras impressões; tentara interrogar o

suspeito e este permanecera mudo, ora olhando para o vazio,

ora fechando os olhos. “Como puderam cogitar que fosse um

criminoso de alta periculosidade? Estamos perdendo tempo,

enquanto a Al-Qaeda prepara novos ataques.”

“Achamos que ele esteja fingindo. Os médicos disseram que

esse miserável é perfeitamente são, após uma série de exames

realizados. Nenhuma lesão no cérebro. E pode não estar

falando agora, mas já falou muito. Anunciou a algumas

pessoas, sem muito critério, ao que parece para provocar e

assustar, o ataque às Torres Gêmeas e os últimos atentados que

ocorreram ao redor mundo antes que estes acontecessem, azar

dele que uma destas era o Scott, que o prendeu imediatamente.

E não parece estar restrito à Al-Qaeda! Conhece os

movimentos de todas as organizações terroristas. Só pode

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portanto ser um dos cabeças, embora alegue ser um visionário,

e que o fim da civilização que conhecemos se aproxima.”,

explicou o agente Simons, um homem loiro e robusto, de

expressão ácida.

“Mais um profeta do Apocalipse! O que ele diz sobre 2012?”,

a pergunta de Williams partiu repleta de ironia.

“Ele deve estar simulando a loucura e inventando esse papel

de vidente para escapar das acusações e das evidências. É um

verme covarde, não podemos cair nessa atuação.”

“Mas e se for realmente um visionário? Não poderia nos ser

útil? Não podemos negar que ele acertou o que disse.”, inquiriu

a agente Murdock, uma ruiva de face sardenta, os cabelos

curtos.

“Você acredita nessas coisas?”, de repente, após a indagação

cética, Simons esboçando um sorriso irônico, o sujeito

começou a tremer e sua boca a espumar, atraindo a atenção dos

agentes; com seus olhos aparentemente sem salvação, o azul

disperso como um rio sem margens, viu dependurado no teto

um estranho morcego com traços de réptil, as asas semelhantes

às de um pterossauro. Porém não se tratava de um simples

animal: sua existência era claramente cruel e inteligente.

Alucinação?

Despejou seu verbo sobre aqueles indivíduos, que pertenciam

à NSA, a Agência de Segurança Nacional ( National Security

Agency), órgão norte-americano que já fora tão secreto que

recebera os apelidos que eram algo como “não há tal agência”

( No Such Agency) e “nunca diga nada” ( Never Say Anything):

“Vocês são tolos. Devido a imbecis pretensiosos como vocês, o

mundo está arruinado!”, sem deixar de ser fitado pela criatura,

que era inacessível aos demais.

“Pelo visto vamos ter uma sessão de delírios! Não quero

perder mais tempo, chamem um psiquiatra para levar esse

pobre diabo! Os acertos dele devem ter sido puro acaso.”

“Não custa ouvir um pouco, Williams.”, objetou Murdock.

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“Claro que custa! Estamos perdendo tempo!”, mas o agente

sentiu abruptamente seu corpo gelar e seu estômago ficou

embrulhado ao receber sobre si os olhos do velho, que pela

primeira vez o encarava. Um nó em sua garganta impediu que

sua voz tornasse a sair em seguida. Simons também começou a

passar mal; a única que continuou bem foi Murdock.

“Se não querem me ouvir, terei que forçá-los a algo mais, pelo

bem da humanidade. Serei sincero agora: sabia a identidade

verdadeira do seu amigo Scott, e propositadamente me deixei

capturar. Agora arquem com as conseqüências de sua inépcia!”

“O que está fazendo??”, a agente ia sacar sua arma, acreditava

em poderes psíquicos e pensou estar diante de um paranormal

perigoso; mas, por mais força que fizesse, perdeu os

movimentos e a voz.

“Não ia forçar você, a única que tem a mente mais aberta, mas

não tive outra escolha. Vou lhes mostrar e dizer algumas coisas

que seus superiores já sabem em parte...”, os três viram uma

espécie de tela cristalina se abrir, imagens passando a

acompanhar a voz do estranho sujeito, enquanto o morcego

guinchou e desapareceu da visão deste. “Para começar, fiquem

cientes que a Terra mudará profundamente. Primeiro, o

aquecimento do planeta, que já está em curso, com o

derretimento das geleiras, se intensificará, tanto por razões

humanas, devido ao pouco cuidado com o meio-ambiente, a

camada de ozônio praticamente desfeita e a radiação ulta-

violeta entrando em excesso e provocando uma proliferação de

cânceres e doenças de pele, quanto pelo fenômeno natural do

aumento das manchas e explosões solares causado por

mudanças que irão de qualquer maneira ocorrer no sistema,

com o alinhamento perfeito, distinto do que ocorre de forma

anual, não tenho tempo agora para explicar os detalhes a

respeito, de todos os planetas ao sol e do sol ao centro da

galáxia. As manchas são regiões onde ocorrem reduções de

temperatura e pressão das massas gasosas solares, relacionadas

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intrinsecamente aos campos magnéticos; durante o próximo

período, com o alinhamento exato, que influirá no magnetismo,

aumentarão drasticamente suas ocorrências, o que provocará

alterações na ionosfera terrestre, influindo nas comunicações

de rádio. Manchas solares são mais frias do que a superfície

convencional; contudo, o sol fica mais violento na presença

delas, e uma série de reações em cadeia provocará imensas

explosões. Após o período de mais baixa atividade solar em

quase um século, se manifestarão de forma mais significativa

as chamadas labaredas solares, e como o campo de proteção

magnética da Terra será prejudicado, os sistemas de

comunicação e distribuição de energia elétrica entrarão em

pane. Com a continuidade desse processo, boa parte da

humanidade terráquea, já desequilibrada e a ponto de explodir,

enlouquecerá, os criminosos começarão a se aproveitar da

contínua escuridão para perpetrar seus crimes impunemente e,

sem a televisão, o rádio e a internet, os governos não terão mais

fácil acesso aos seus cidadãos; para completar, o aumento do

nível do mar e turbulências no oceano gerarão tsunamis e

países inteiros serão varridos pelas águas, a maior parte das

cidades costeiras desaparecerá. Para os religiosos fanáticos, a

ira de Deus que irá se manifestar, e muitos extremistas

começarão a matar os membros de outras religiões e os ateus e

agnósticos. A mudança não será apenas física, como também

mental e espiritual, disso poucos se darão conta, e uma outra

espécie muito antiga que permaneceu por milhões de anos

limitada ao plano espiritual, ou astral, se tornará

vibracionalmente compatível com o plano físico da Terra: os

que vocês talvez tenham ouvido falar nas teorias conspiratórias

sob a denominação de reptilianos, ou como falange dos

dragões; há muito de fantasia nas idéias de conspiração, mas

também verdades. Durante muito tempo, estes reptilianos

foram uma espécie vivendo próxima do físico, no chamado

umbral, seus domínios abaixo da crosta terrestre, no interior da

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Terra, porém num nível de existência que até hoje não pôde ser

detectado pela ciência terrestre. Apesar da aparência, não

descendem dos répteis da Terra, são na verdade uma civilização

de outro mundo exilada aqui por seres superiores para que

aprendesse junto com os terráqueos, porém ao invés de se

educar degenerou ainda mais, ambicionando se apoderar do

planeta no decorrer das eras. Com materializações eventuais

por períodos curtos, sempre influenciaram a política terrestre

no sentido de dirigi-la ao ocaso, esperançosos de que quando

chegasse o momento encontrariam uma humanidade fraca, fácil

de subjugar. Ao contrário da ciência humana, sabem o que irá

ocorrer em decorrência da atividade solar e procurarão

intensificar o processo, incentivando o homem a depredar a

natureza. Dessa forma, quando sairão das entranhas na Terra,

seus corpos compatíveis com a vibração do planeta, portanto

físicos, tomarão conta do que encontrarão e tornarão a

humanidade escrava.”

“Mas...Há como deter esse processo?”, Murdock conseguiu

tornar a falar porque era a única que estava levando realmente

a sério aquele discurso, afinal alguém que fazia o que aquele

homem mostrava ser capaz não podia ser um charlatão. Os

outros dois ainda resistiam.

“Não. Mas se existirem ao menos algumas pessoas

conscientes e preparadas, poderão enfrentar os reptilianos. Já

ouviu falar dos homens de preto, não ouviu?”

“Claro. Inclusive li um livro de Jacques Bergier que falava

sobre eles, e alguns relatos de pessoas que recebiam deles

ordens para não exporem a público suas experiências com

alienígenas. Mas sempre pensei que fosse puro folclore, afinal

nunca os vi, mesmo conhecendo gente da CIA e sendo parte da

NSA.”

“Os cabeças da organização dos homens de preto, que é na

verdade a Illuminati, a verdadeira sociedade secreta, não o

pequeno ramo que surgiu na Baviera no século XVIII, sempre

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foram reptilianos. O objetivo deles é deixar a humanidade

ignorante e impotente. Pode parecer um paradoxo que usem o

nome de illuminati, mas a luz da qual falam é uma luz que

cega, não que ilumina. Combateram durante os séculos os que

pregaram valores humanistas, sendo derrotados por diversas

vezes, como na ocasião do fracasso de Hitler, que

manipulavam por trás das cortinas, mas com a mudança

planetária acabarão por triunfar em conseqüência da

continuidade dos erros coletivos do ser humano.”, na tela a

imagem do ditador alemão discursando para a multidão, porém

se via algo que não era costumeiro nas imagens normais: uma

enorme sombra atrás do Führer, e outras menores atrás de seus

colaboradores. Os agentes foram percorridos por calafrios.

Mesmo quem não era favorável ao nazismo, entre os que

estavam ali presentes, sentia um impulso irresistível de erguer

o braço e gritar Heil Hitler!

“Esse sujeito era um mero fantoche dos illuminati, que

pretendiam na época bloquear a mescla de raças, fazendo com

que a humanidade tivesse menos variedade e liberdade, mas

esteve longe de ser o primeiro e único. Na própria segunda

guerra, entre 1943 e 1945, tivemos na Itália uma república

comandada por Mussolini, que tinha à sua disposição como

conselheiros, sem imaginar o que realmente fossem, diversos

illuminati. Estes coordenaram a queima de mais de oitenta mil

livros e manuscritos que pertenciam à Sociedade Real do Saber

de Nápoles. Inúmeros tesouros culturais foram reduzidos a

cinzas, e entre estes manuscritos inéditos de Leonardo da Vinci,

obras alquímicas e investigações curiosas, como a de um

homem que chegou a concentrar, com a ajuda de um telescópio

sobre a água, a luz de diferentes estrelas, obtendo assim uma

água-Sirius, uma água-Aldebarã, uma água-Vega e assim por

diante. Cristalizou a seguir substâncias sensíveis aos efeitos

cósmicos e meteorológicos, como o nitrato de urânio, obtendo

sais cristalizados que formaram agrupamentos que

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curiosamente se pareciam com os símbolos esotéricos da

estrelas. O homem é realmente um animal simbólico, os

símbolos são a maneira que a alma humana encontra para

sintetizar as leis da Criação, e estaria provado na Terra que

estes nunca tiveram nada de casual. Só que infelizmente o

estudo foi destruído pela união sinistra entre homens de preto e

camisas-negras.

“Como sempre pensei. Havia algo maior por trás do

nazismo.”

“Não só do nazismo.”, veio a imagem da antiga Alexandria, a

primeira cidade da Terra a ser construída por inteiro em pedra,

sem nenhuma utilização de madeira; um edifício se destacava

em seu núcleo espiritual, e o paranormal tratou de explicar do

que se tratava: “Esta que vocês estão vendo foi a famosa

biblioteca de Alexandria, que possuía incontáveis tesouros

herméticos e até mesmo obras que se referiam à presença

extraterrestre, como as de Beroso. Júlio César, o primeiro a

violentá-la, não se limitou a queimar alguns volumes, sob a

influência dos illuminati; na verdade pegou a maioria dos

escritos considerados secretos para si, o bibliotecário e seus

auxiliares conseguindo esconder outros a tempo. Só que muitas

coisas que estavam naqueles livros ele não devia saber ou

conhecer, e não por acaso foi assassinado por seu querido

Bruto.”, surgiu a cena do assassinato do grande líder romano,

mais viva do que em qualquer filme de época, e tanto Bruto

quanto Cássio sentiam suas mãos como que teleguiadas

enquanto apunhalavam César.

“Mas ele chegou a perceber que estava sendo manipulado?”

“Não, em nenhum momento. A missão dele para os illuminati

se limitava a destruir as obras de sabedoria, e como não a

concluiu, foi punido por isso.”, na seqüência, outra cena nos

tempos romanos: “Este agora é Diocleciano, que quis destruir

todas as obras que tratavam dos segredos da fabricação do ouro

e da prata. Ele pensava que se os egípcios conseguissem fazer

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isso, poderiam obter meios para criar um exército forte o

suficiente para combater o império.”, e vieram cenas dos

massacres no cerco a Alexandria, atrás do imperador e de seu

cavalo uma figura trevosa, encapuzada de preto, sem olhos

visíveis, apenas sombras por cima do nariz e dos lábios.

“Esse era um illuminati?”

“Isso mesmo. E claro que invisível para o imperador, assim

como foi para Omar, o fanático muçulmano que promoveu a

destruição sucessiva e definitiva. E agora reconhece esta

mulher?”

“É a famosa Madame Blavatsky, se não me engano.”

“Blavatsky cometeu seus erros, por vezes quis aparecer mais

do que sua missão lhe permitia, mas foi um dos tantos espíritos

enviados à Terra para abrandar o karma coletivo, talvez em

vão.”

“Lembro de ter lido a respeito de um relatório da sociedade de

pesquisas psíquicas britânica, pelo qual ela foi desmascarada,

considerada uma farsante.”

“Blavatsky entrou em depressão depois disso, porque na

verdade ela foi vítima de uma farsa, uma conspiração

organizada ao mesmo tempo pelo governo inglês, pelos

serviços policiais do vice-rei, já que ela defendia a

independência da Índia e por isso não podia ser bem-vista pelos

britânicos, por missionários protestantes que não desejavam

uma valorização da cultura oriental, e por último e mais

importante por membros da Illuminati, para a qual era uma

pessoa incômoda por buscar revelar a existência dos mestres

ascensionados ao mundo. Gandhi, que depois afirmaria sua

dívida moral para com ela e todo o movimento teosófico, seria

a vítima seguinte pelas mãos de outro assassino teleguiado, um

caso diferente do de César, mas a raiz sabemos qual é. Quanto

aos mestres, estes deixarão o planeta quando houver a crise que

estou mencionando, pois sua vibração se tornará incompatível

com a do planeta, e seriam como que envenenados se ficassem,

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a pureza que possuem não lhes permitirá permanecer, e só

poderão voltar após alguns bons séculos.”

“Mas afinal que tipo de seres são os reptilianos?”

“Na realidade, podem mudar de aparência e inclusive

parecerem belos seres humanos; são meramente na superfície

similares a répteis, e biologicamente bem mais resistentes do

que a humanidade terráquea, tolerando melhor tanto o frio

como o calor extremos. Seu sangue é de um terceiro tipo, nem

quente e nem frio como o dos habitantes da Terra, e se

alimentam de carne e sangue, porém, após um processo de

desintoxicação, conseguem comer frutas e outros alimentos

sem se sentirem mal.”

“Os greys fazem parte do mesmo grupo? Já ouvi histórias de

que os reptilianos criaram os greys para capturar seres

humanos.”

“Está bem-informada quanto a teorias de conspiração! Muito

bem...Pois muitas vezes ocorrem confusões e equívocos. Os

cinzentos são uma outra espécie extraterrestre, que não é

essencialmente negativa. O grande problema de sua evolução é

que desenvolveram apenas o intelecto, não sabem o que é o

amor, e por isso chegaram a colaborar com os reptilianos

algumas vezes, e alguns ainda colaboram, para realizarem

experiências. Valorizam o conhecimento acima de tudo,

veneram a mente, mas não sabem o que é Sabedoria.”, e na tela

surgiu a imagem de um grey ou cinzento, o corpo pequeno, as

mãos com três dedos cada, nu, com uma enorme cabeça,

desproporcional ao restante, em um formato que lembrava uma

pêra invertida, olhos negros imensos sem pupilas, boca

minúscula, pele cinza.

“Isso só pode ser hipnose...”, o velho permitiu que Williams

balbuciasse.

“O que está dito está dito. E, acreditem ou não, acontecerá.

Cabe a vocês decidirem o papel que terão neste processo, se

deixarão milhões de pessoas morrerem sem defesa, se por

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orgulho irão se eximir das responsabilidades em relação à

verdade, ou se avisarão o mundo e assim conseguirão salvar

algumas vidas que caso contrário estarão irremediavelmente

perdidas.”, uma luz azul eclodiu de modo repentino do centro

do peito do indivíduo misterioso, um pequeno sol, e quando os

agentes puderam voltar a enxergar, viram uma figura

completamente distinta diante de seus olhos: levitava ali um

indivíduo alto, por volta dos dois metros de altura, as pernas e

os braços compridos, em uma armadura celeste rutilante ornada

por algumas pedras que pareciam diamantes brancos, destaque

para uma maior no meio de uma armação no pescoço; a pele

era clara e lisa, e os cabelos loiros longos e escorridos, com

olhos de puro azul, sem pupilas, e uma aura de corredeiras

luminosas. Até mesmo o agente Williams ficou boquiaberto.

“Estou de partida. Terei que me ausentar por um longo tempo,

para vocês, das questões da Terra, devido a compromissos em

um mundo distante. O aviso foi dado.”, ao que, gaguejando,

Murdock indagou: “Quem é o senhor?”, tentada a se ajoelhar,

tomada por um irresistível impulso de devoção; aquele ser

parecia um anjo ou algo similar, um mensageiro de uma

realidade superior. “O meu nome é Ashtar Sheran.”, respondeu

o ser esplendoroso, que voltou a pousar seus pés no chão. “Já

ouvi falar. Mas pensei que não existisse, que fosse invenção

desse pessoal new age.”, disse Simons. “Não acredito no que

está acontecendo. Acho que estou ficando louco!”, exclamou

Williams. “Estão longe de ficar loucos e volto a salientar que,

apesar de algumas doses de fantasia, as teorias de conspiração

não são de todo ridículas. Prestem mais atenção ao seu redor.

Contestem. Observem. Não sejam crédulos, mas também não

sejam cegos. Escolhi me manifestar para vocês porque cada um

dos três reúne um aspecto interessante para desenvolver o

trabalho necessário de advertência à humanidade. Não

esmoreçam, e peço que valorizem esta escolha.”, replicou

Ashtar Sheran. “O que você é, afinal? Um comandante de uma

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frota interestelar meio Buda e meio Jesus?”, perguntou Simons.

“Não tenho muito que ver nem com Jesus, que era um

emissário do amor, disposto a sempre dar a outra face, nem

com Buda, que foi um amante da sabedoria, que restaurou em

si a concepção original que a Existência faz de nós e buscou

espalhar essa mensagem. Sou o que na Terra vocês definiriam

como um guerreiro, conquanto não lute para impor nada, e sim

para restabelecer as leis éticas da Criação quando estas são

violadas.”, e se seguiu outra pergunta, de Murdock: “A que

povo você pertence?”, Ashtar respondendo com um discreto

sorriso: “Hoje em dia não pertenço mais a nenhum povo. O

universo é minha morada. Por isso, costumo me manifestar de

forma diferente para cada espécie, de modo que seja sempre

um encontro agradável. Não tenho a intenção de assustar e nem

de chocar ninguém. Se mostrasse minha verdadeira aparência,

vocês ficariam cegos.”, e Simons complementou: “Seria como

ver a face de um anjo.”, e Ashtar, sorrindo com serenidade,

confirmou com um discreto aceno de cabeça antes de

desaparecer em uma nova explosão de luz, mais intensa do que

a primeira.

Uma vez o comandante interestelar tendo partido, Williams, o

mais impressionado de todos, não conseguiu parar de tremer

por alguns minutos; e quando voltou a olhar para o seu relógio,

notou espantado que tinha se passado muito menos tempo do

que imaginara; o tempo quase parara por alguns instantes, e

não podia tomar outra decisão a não ser acreditar, passando as

mãos pelo rosto suado. Deixou a NSA alguns dias depois,

abrindo na internet um site que falava sobre Ashtar Sheran, sua

experiência com a entidade e os segredos que os governos do

mundo escondiam, expondo todas as informações que recebera

durante o fatídico encontro. Não foi considerado um risco pelos

seus antigos patrões, tratado como um louco pela mídia, ainda

mais porque adquirira uma forte gagueira e se tornara todo

trêmulo, passando a ser visto como uma figura folclórica,

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diferentemente da agente Murdock, que permaneceu na NSA,

investigando a agência e também a CIA e os meandros do

governo norte-americano. Conseguiu reunir informações

valiosas, que estava acumulando para divulgar ao grande

público quando fosse o momento, uma verdadeira bomba. No

entanto, encontrava-se em seu apartamento tomando um café e

lendo alguns relatórios militares sobre interferências dos greys,

que conseguira obter quebrando as senhas de computadores

sigilosos, graças à ajuda de um amigo hacker, quando ouviu

batidas pesadas em sua porta. Por que não tocavam a

campainha? A princípio não cogitou que fosse nada sério,

depois raciocinando melhor e cogitando que começariam as

perseguições à sua pessoa ao sentir um calafrio muito

desagradável, e era como se viesse do outro lado da porta uma

energia tremendamente negativa. Pegou sua arma e ficou

imóvel de frente para a entrada por alguns segundos, até ouvir

a primeira ameaça:

“Senhorita Murdock, abra, por favor. Tenho ordens para

invadir sua residência se não nos permitir. Se não for por meios

pacíficos, será pela força.”

Como a haviam descoberto? Fora discretíssima. Talvez fosse

paranóia sua, apenas estariam investigando suas entradas em

órgãos do governo que nada tinham a ver com as suas missões

pela agência, mas sem qualquer informação conclusiva a seu

respeito que pudesse representar alguma ameaça. Porém e se os

illuminati tivessem começado a atuar? E se tivessem poder

suficiente para descobrir e seguir todas as suas ações? Não

estava paranóica a ponto de criar aquela situação mentalmente,

ao menos isso era certo que não, a voz e a presença do outro

lado da porta eram bem reais. Bem diferente do outrora cético

Williams, que vivia tendo pesadelos com os reptilianos, estava

bem equilibrada. Terminou por abrir a porta, e emitiu um leve

suspiro de susto ao se deparar com um homem baixo, de terno,

sapatos e calça pretos, pele azul-clara, desbotada, parecendo

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um pouco escamosa, e óculos escuros. Não tinha uma

expressão humana.

“Serei curto e direto. Não lhe farei mal se permanecer em

silêncio. Que fique bem claro: estamos a par de todas as suas

atividades, sabemos todos os seus passos, e se por acaso pensa

em divulgar o que descobriu, considere-se um cadáver. Até

permitimos que descobrisse, porém não irá mais adiante.

Continue seu trabalho como agente como era antes, ou leve

uma vida pacata.”

Aquele era um dos homens de preto. Murdock sabia que com

ele seria impossível argumentar, e agora que sabia de tantas

verdades, nunca iria negá-las à população. Por isso sacou seu

revólver e atirou. O disparo furou a testa do sujeito, que no

entanto, depois da cabeça se inclinar para trás devido ao

impacto, voltou a olhá-la de frente. Os olhos eram pretos sem

pupilas, e gélidos.

“Nossos cérebros não ficam necessariamente em nossas

cabeças.”, a pele da testa se reconstituiu e, quando ela se pôs a

atirar seguidas vezes, tentando acertar outras partes do corpo,

ele saltou, e se locomovia a uma velocidade tão grande que

logo estava em suas costas, tampando-lhe a boca com uma

mão, impedindo-a de gritar, e tirando a arma com a outra,

imobilizando-a com sua aura fria e pesada. “Não adianta

resistir. Última chance, senhorita.”, ela não precisou berrar em

recusa à proposta da criatura, que leu suas intenções e quebrou

seu pescoço, fulminando-a a seguir com um tiro certeiro na

cabeça. No dia seguinte foi noticiado um incêndio que por

pouco não se espalhara por todo o prédio onde residia a agente.

Seu corpo acabou carbonizado junto com todos os seus

pertences. A notícia não intimidou Williams, que foi a

programas televisivos e deu entrevistas a jornais dizendo que

fora não um acidente e sim um crime cometido pelo governo

oculto do mundo, afinal Murdock, cujo nome preservara

durante todos esses anos a pedido dela, fora a agente que

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estivera a seu lado durante o fatídico encontro com Ashtar

Sheran. Poucos deram ouvidos ao ex-agente, e entre estes

apenas alguns esotéricos que ele não tivera a intenção de atrair,

vindo até ele para falar das conjunções astrais que anunciavam

o iminente fim do mundo.

Simons, que ao contrário da colega tivera o nome publicado

por Williams, deixara a NSA no mesmo período do

companheiro, indo por um caminho distinto, vendendo livros

sobre a conspiração reptiliana e juntando uma boa fortuna com

isso. Ao ser perguntado por repórteres se o que escrevera era

verdade ou ficção, e se estava de acordo com o ex-colega para

dar origem a um best-seller e se dividiam os lucros dos direitos

autorais, dava respostas elípticas. Williams fazia questão de

dizer que nunca recebera um centavo de Simons, que definia

como um aproveitador, um vendido, cujo nome estava em suas

revelações porque era a pura verdade, nunca tivera o menor

interesse na criação de qualquer romance midiático.

Apesar do sucesso de público, a crítica destruiu as séries de

livros de Simons, considerando-os de péssima qualidade

literária, oportunistas e repletos de clichês. Sem se importar

com isso, o ex-agente nunca seria ameaçado pelos homens de

preto e fez sua família, casando-se com uma modelo e tendo

dois filhos.

Williams morreu na miséria, abandonado por sua mulher, que

se envolveu com um vendedor, após contrair tantas dívidas que

o obrigaram a morar na rua. Como última visão de sua

existência, entre as latas de lixo de um beco, uma serpente que

após perseguir um rato terminou por morder a própria cauda,

sua pele se descascando e se revelando vermelha e queimada

por baixo. Apesar do frio pelo resto do corpo, em uma noite

gelada de inverno em Nova Iorque, suas pernas recebiam o

calor do centro da Terra, e foi assim, entre os extremos, que seu

espírito partiu.

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CAPÍTULO 1 – Céu Vermelho

Cidade brilhante de areia. Em seu centro, um palácio; ao seu

redor, um rio que na verdade era um dragão d'água, que

começou a girar na visão do monge: observou bem a mandala,

antes que fosse desmanchada pelo sopro do mestre. Às suas

costas, a luz e o calor da tocha acesa; à sua frente, o velho

diante dos portões vermelhos, que pareciam feitos de fogo

metálico. Quando estes iriam se abrir? Decidiu fechar os

olhos, mergulhando nas sutilezas da escuridão, eventualmente

interrompida pelas centelhas de sonho e despertar. - Atento, um

dos minicontos do livro Pelos olhos da Alma, de Joshua

Christiansen.

“Aquele ali não é o Joshua Christiansen? Vi ele numa

entrevista na televisão faz alguns dias. Se não for, é no mínimo

muito parecido.”

“Não gosto dos livros dele. Não passa de auto-ajuda

disfarçada de aforismos pseudo-herméticos.”

“Auto-ajuda? Nada a ver! Só que é preciso saber reconhecer a

profundidade da poesia dos textos dele. Coisa que acho que é

difícil pra alguém como você, que é materialista demais.”

“Não é questão disso. Só vejo nos livros dele que me caíram

em mãos uma série de metáforas confusas, digressões

irrelevantes, e quando há uma história ela não avança.”

“Isso do seu ponto de vista. Além de ser uma literatura

elaborada, vejo nele uma postura crítica e um apelo a nos

voltarmos, mesmo que só um pouco, pra dentro de nós

mesmos.”, um casal discutia no restaurante da espaçonave; os

olhares da moça, que defendia aquele que era um dos seus

autores favoritos, estava justamente sobre o próprio, que se

achava em outra mesa, com seus dois filhos e sua esposa.

Christiansen era um homem alto e magro, na faixa dos trinta e

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cinco anos, de cabelos ruivos e pele bem clara, olhos castanhos

pequenos como seu nariz e sua boca, usava óculos, e gostava

de se vestir de preto e cinza, entre calças, camisas escuras,

jaquetas e sobretudo; não era de falar muito, preferia ouvir, um

observador nato, simpático com seus interlocutores. Estava

tomando uma taça de vinho e comendo um belo prato de

macarronada, não fazendo questão de regular o apetite mesmo

nos ambientes mais elegantes e passando o pão no molho que

sobrava no prato, o que causava irritação em sua mulher, ainda

mais quando se sujava.

“Joshua, pelo amor de Deus! Você é uma figura pública, e vê

se dá um bom exemplo pras crianças...”, falou-lhe no ouvido

com a voz contida, mas a raiva nem tanto.

“Que eu saiba não escrevo best-sellers!”, deu uma resposta

bem-humorada.

“Mesmo assim é bem conhecido, ou não teriam vindo já sete

pessoas pedir autógrafos pra você.”

“Sério que foram sete? Não contei, achei que tinham sido

menos.”

“Dá pra deixar de ser cínico?”

“Cínico? Juro que não estou sendo! Ah não, Anna, não vamos

começar outra vez...”, por mais que não quisesse admitir isso,

seu casamento estava em crise, e era para ele horrível que suas

brincadeiras mais inocentes e a simplicidade no seu modo de

agir estivessem gerando tantos mal-entendidos. Quando

haviam se conhecido e nos anos de namoro, noivado e nos

primeiros do matrimônio, estavam juntos havia quase doze,

Anna o definira como um cavalheiro, um príncipe, pela sua

cultura e por ser carinhoso, porém não conseguia mais suportar

certos desleixos do marido, que apesar de divertido e

inteligente, extasiante nos momentos íntimos, esquecera por

duas vezes seguidas seu aniversário, deixava todo o serviço de

casa e a labuta com as finanças e os filhos para ela e não se

importava nem um mínimo com a opinião alheia. Tudo bem

20

que era um artista, alguém diferenciado em relação à massa, só

que exatamente por isso precisava cuidar de sua imagem

pública. Sempre o apoiara, mesmo nos anos em que o

reconhecimento não viera, pois escrevia e já havia publicado

sua primeira obra quando se conheceram, contudo não podia se

sacrificar tanto, afinal não era só uma dona de casa como tinha

responsabilidades pesadas em seu escritório de advocacia.

Anna era pouco mais baixa do que o esposo, cabelos pretos

cacheados e grandes olhos negros, uma morena de semblante

compenetrado e palavras firmes. Seus discursos tinham sempre

começo, meio e fim, ao contrário das falas e textos

assistemáticos de Joshua, e possuía um grande poder de

persuasão, que não funcionava tão bem apenas com seu

marido.

Costumava comer pouco por estar sempre de dieta, tendo

ficado só um pouco acima do peso após a segunda gravidez.

Regulava muito também a alimentação das crianças, no que

Joshua era contrário: “Você não precisa exagerar desse jeito. A

criança não pode ser obesa, mas não tem problema se for um

pouco gordinha. Eu mesmo fui cheinho e depois enxuguei! Não

dá claro pra eles abusarem das frituras, mas um pouco a mais

de lasanha não vai matar ninguém.”, ela não queria saber dos

argumentos dele, e seguia do seu jeito. Como Joshua não era fã

de discussões, preferindo estar em paz, não se opunha com

veemência quando discordava e procurava com freqüência o

silêncio, o que a irritava ainda mais. Anna via seus argumentos

se perderem ao vento, nunca o dobrava, por mais que

“vencesse” algumas discussões, e quando o notava aéreo,

pensando em seus livros ou em alguma outra coisa distante que

ela tentava saber o que era, mas não conseguia descobrir, saía

do sério: “Você prestou atenção no que eu disse ou eu estava

falando com as paredes?”

Os dois tinham bastante em comum, gostavam de literatura,

de espiritualidade, e durante o namoro haviam inclusive

21

praticado yoga juntos e Joshua lhe apresentara os antigos textos

de sabedoria que eram algumas de suas fontes de inspiração,

como as Upanixades, a Bíblia, a filosofia de Plotino e alguns

poemas e histórias zen-budistas. Com o tempo, Anna foi se

interessando mais exclusivamente pela vida prática, tomada

pelo direito e abandonando o aspecto espiritual, que passou a

ser um interesse meramente intelectual, distante. Deixaram de

fazer muitas coisas juntos, o que o entristeceu, mas buscou

aceitar a mudança, ao mesmo tempo que sem perceber, de

forma inconsciente, foi perdendo o interesse na companheira,

que vivia lhe falando de processos e causas enroscadas.

Por estes e outros motivos, com as férias do escritório, o casal

decidiu aproveitar o tempo para viajar e voltar a fazer algumas

coisas juntos. Pena, ele lamentou, que ela não estivesse com a

cabeça tão fresca ainda.

A nave em que se encontravam, a Canaan, um grande ônibus

espacial cilíndrico que era como um hotel em seu interior,

estava indo para Marte, que fora colonizado pela civilização

terrestre naqueles tempos. Não se poderia falar apenas em

humanidade terrestre, pois após o fim da guerra entre os

reptilianos do interior do planeta e os humanos, que ofereceram

sua resistência, as duas espécies chegaram a uma coexistência

pacífica, ao menos exteriormente, o que era visível na Canaan:

os tripulantes de pele verde ou azul escamada, sem nenhum fio

de pêlo ou cabelo, seus olhos lembrando cobras ou crocodilos,

alguns exibindo suas caudas, dificilmente cumprimentavam os

humanos ou eram cumprimentados por estes. O casal

Christiansen era dos poucos cordiais com os reptilianos e nem

sempre, devido ao mútuo preconceito, recebiam em troca o

mesmo tratamento.

Após o período da grande crise, a face da Terra, que se tornara

um planeta bem mais frio, mudara de maneira drástica,

algumas terras submergiram, outras emergiram, tanto que

Voynich, o país de onde vinham e a principal potência da

22

civilização na época, apresentava em suas metrópoles ruínas

atlantes de mármore e oricalco entre os arranha-céus mais

modernos. Prevalecia o tráfego terrestre, com carros que se

moviam sobre colchões de ar, e o trânsito nas grandes cidades

era bastante caótico; contudo, ao menos o transporte público

era dominado pelas aeronaves, o que minimizava a turbulência

urbana.

O restaurante da Canaan apresentava um ambiente de

refinação esteticista e um certo esnobismo que incomodava

Joshua. Quando o escritor, parecendo sem jeito com os olhares

que recebia, se levantou para ir ao banheiro e, todo

atrapalhado, tropeçou na toalha de mesa e deixou cair tudo no

chão, Anna levou as mãos ao rosto e meneou a cabeça para os

lados, desaprovando o desastre sem conseguir falar nada, ao

passo que os filhos do casal riram.

Walter e Luna adoravam seu pai, principalmente a menina, de

seis anos, bastante mimada (a “pulguinha sardenta” de Joshua),

e que, como a mãe vinha dizendo, estava ficando respondona.

O garoto, que era mais moreno do que a irmã, tendo puxado

mais a Anna nos traços, recém-completara onze anos, gostava

de cantar e tinha uma boa voz, tendo chegado a participar de

um programa infantil de talentos alguns meses antes e

alcançado as semifinais. No momento, férias à parte,

estudavam em período integral; e, enquanto Anna se

interessava pelos deveres de casa e pelo rendimento escolar,

Joshua os “deseducava”, incentivando as brincadeiras e as

atividades criativas, estimulando o talento do filho para a

música e o da filha para o desenho. A esposa não chegava a se

opor nisso, afinal as crianças precisavam de momentos de

diversão e distração e possuíam mesmo dons especiais, tanto

que fora ela que levara Walter à televisão, só não aprovava que

o tempo do lazer excedesse o do dever. Uma carreira de cantor

ou de desenhista nunca seria tão segura quanto uma no direito,

na medicina ou na engenharia, isso do seu ponto de vista.

23

Precisava zelar pelo futuro do seu casalzinho, já que o casal

adulto não ia assim tão bem.

“Que papelão hoje! Às vezes não acredito como você pode ser

tão atrapalhado. Você é culto, educado, trata bem todo o tipo de

pessoa, mas como mete os pés pelas mãos! Precisaria ser

menos disperso. Hora de pensar nos seus livros é hora de

pensar nos seus livros, hora do jantar é hora do jantar. Você que

medita tanto, não consegue ficar atento?”, discutiram quando

foram para seus aposentos no ônibus espacial, um apartamento

amplo, onde seu quarto, com direito a uma cama ampla e

confortável, repleta de almofadas, um ambiente perfumado

com suavidade, estava bem separado do das crianças.

“O trabalho criativo é diferente de qualquer outra coisa. Me

vêm uma cena, uma idéia, um personagem, e não consigo

sossegar enquanto não coloco no papel. Tem horas que penso

que é como uma doença, ou uma maldição. Não tem como

conter, e nisso fico aéreo, pensando no momento em que vou

poder trabalhar, e angustiado pelo medo de perder o que

pensei.”

“Não vá me dizer que trouxe o seu computador...”

“Bem que pensei em trazer escondido, mas com medo de

levar uma surra, trouxe só um caderno.”

“Você não toma jeito mesmo!”, terminaram rindo da situação

e se entendendo no calor dos corpos; ela não conseguia conter

a paixão que conservava pelo marido, que conhecia os segredos

e caminhos de seu prazer como ninguém, e Joshua resolveu

pedir desculpas ao final do ato, após um período de silêncio,

olhares e carícias:

“Sei que ando um tanto negligente, afinal um casamento não é

só sexo e interesses em comum, é saber ouvir e dividir

problemas, é deixar um pouco de lado o que é nossa diversão

individual, que no meu caso é a escrita, pra compartilhar do

mundo do outro. Por isso estou pedindo desculpas pelos

últimos tempos, e acho que essa viagem vai nos fazer muito

24

bem.”

“Não se preocupe, querido. Eu também tenho sido imatura,

pentelha, exigente demais, criticado você em excesso, cobrado

em horas que não devia e mulher é assim mesmo, meio dodói!

Mas você é o único homem que me cativou, nunca senti nada

parecido antes de te conhecer. Você não toca só o meu corpo,

toca diretamente o meu coração. É que fico com medo de você

perder o interesse em mim, por isso toda a cobrança. Sobre

você ser atrapalhado, mil vezes um homem que tem bom-

humor do que esses advogados sérios e sisudos com quem

convivo no trabalho.”

“Falhei muito com você, e isso deve ter passado a impressão

de falta de interesse.”, ele estava se sentindo um pouco

culpado. “Mas acho que é natural em todos os relacionamentos

um período de crise. A nossa está um pouco longa, mas vai

passar.”

“Quando um relacionamento sai de uma crise, fica mais forte,

e tenho certeza que será assim com a gente. Se você perdeu um

pouco do interesse em mim, mesmo que seja pouco, e que não

admita, não adianta fazer essa cara, vou lutar pra recuperar

isso. Vamos voltar a fazer atividades juntos. O erro mais grave

da maioria dos casais está em deixar de namorar, de se curtir.”

“Vamos determinar a partir de hoje uma virada para o nosso

relacionamento. Não vale a pena deixar pra amanhã.”, seria um

período de reconstrução.

Contudo, quando a Canaan acabara de chegar em Marte, e se

aproximava do espaçoporto de Arash, uma das principais

cidades-estado do planeta, de maior população e economia,

outras duas naves, menores, mas sem tripulação, que eram na

verdade duas bombas voadoras, de formato oval, surgiram de

forma imprevista e atingiram em cheio o luxuoso ônibus

espacial. Não haveria nenhum motivo para atingi-lo, um

veículo que se limitava a transportar civis de classe média-alta

de um planeta para o outro. Só que a explosão ocorreu e foi

25

violenta, o fogo desta de um vermelho brilhante e ofensivo

similar ao que o céu de Marte, em seu crepúsculo, apresentava

naquele momento. Os destroços caíram sobre os habitantes

apavorados da cidade, que além dos edifícios altos e do rubor

dominante apresentava belas áreas verdes, algumas das árvores

elevadas infelizmente atingidas pelos pedaços incandescentes

da Canaan. Qual o destino da família Christiansen? Ante um

desastre daquela amplitude, nenhum sobrevivente seria a

resposta mais lógica. Joshua, Anna e as crianças deviam estar

dormindo no momento do terrível impacto, entre sonhos de

formas e vozes confusas.

CAPÍTULO 2 – Multidão de braços

A moleza dos tentáculos do polvo foi se dissipando. O

molusco adquiria rigidez. Saindo a água, tornava-se não

pedra, mas metal. Seus olhos viraram primeiro faróis e depois

câmeras. Na praia rochosa, envolveu e capturou os anfíbios

feridos, retendo-os com seu peso. De dia, o sol forte demais

ressecava todos; de noite, a chuva caía tímida, em pingos de

agonia. Ao cabo de alguns meses, o mar refletia os registros de

morte. - Programação, um dos minicontos do livro Pelos olhos

da Alma, de Joshua Christiansen.

Joshua despertou de um pesadelo incômodo em que uma

espécie de polvo demoníaco buscava a todo custo prendê-lo

com seus tentáculos, e neste procurava se livrar e fugir, mas

todas as tentativas eram em vão. A besta era forte demais,

apesar de úmida, e seus braços frios e poderosos imunes até

mesmo à espada que usou para tentar cortá-los. Um gosto

desagradável de sal misturado com sangue predominava em

seu paladar, começando no sonho e se prolongando ao

despertar. Ouvia vozes ao redor, e acordou entre os frangalhos

26

de uma construção, pedaços de metal derretido próximos, seu

corpo parcamente revestido por restos queimados de roupa.

Quando se deu conta que não era mais um pesadelo, e sim a

realidade, veio-lhe à mente que perdera tudo, não apenas as

anotações para suas próximas obras como seus filhos e sua

mulher. Sua família fora reduzida a cinzas, e ao se levantar e

olhar à sua volta isso ficou mais do que evidente: impossível

alguém ter sobrevivido a tamanha catástrofe, que rachara

prédios e esmagara casas. Apesar de Marte ser um planeta mais

frio do que a Terra e da falta de roupas, nunca sentira um calor

tão insuportável. Como sobrevivera? Esta é uma questão que

naquele momento apenas o próprio Joshua sabia responder, e a

persistência de sua vida foi o que mais intrigou os policiais e os

bombeiros quando estes se aproximaram e, ao conversar um

pouco, descobriram que o escritor estivera na Canaan.

Joshua foi levado para um hospital às pressas, mas para a

surpresa dos médicos não apresentava nenhum ferimento

grave, ao contrário dos outros tripulantes, que haviam todos

morrido carbonizados. As piores marcas estavam na sua alma.

Pouco falou por dias, olhando fixamente por horas para as

janelas fechadas do quarto no hospital. Respondia apenas o que

queria responder. As enfermeiras abriam as janelas quando

entravam, mas quando saíam ele as fechava outra vez. Não fora

visto chorando, porém durante as noites, quando estava e

principalmente se sentia completamente sozinho, as lágrimas

escorriam com insistência e sem freio. Quase não dormia,

vendo muitas vezes vultos e espectros disformes e irados, que

mesmo que não o tocassem gritavam ou o olhavam com ódio

por minutos inteiros, que pareciam horas; ninguém mais os via

ou ouvia. As férias, voltadas ao descanso e à reconciliação,

haviam se tornado o pior dos pesadelos.

Ao receber alta, não voltou para casa, decidindo ficar em

Arash pelo resto do mês. Retornar para o lar sem a presença de

Anna e as vozes de suas crianças seria insuportável, ainda não

27

conseguiria tolerar isso, e permaneceu portanto no planeta

vermelho. Não atendeu as ligações recebidas, que haviam

ficado armazenadas em seu comunicador, nem ligou para

ninguém, a não ser para o banco, para que lhe mandasse novos

cartões de crédito e débito, até ser anunciada pelo recepcionista

do hotel uma visita:

“É uma policial. E quer falar com o senhor.”

“Não estou com cabeça pra atender ninguém. Diga que venha

outra hora.”, e desligou, mas o atendente voltou a ligar:

“Ela não está disposta a ir embora, senhor. Disse que será uma

conversa breve. Mas que é urgente.”

“Que insistência irritante. Mas está bem, deixe-a subir.”,

acabou cedendo, já imaginando que teria que falar sobre a

morte de sua família, o que o deixava com o estômago

embrulhado, dor de cabeça e a mente mais irritada do que

nunca. Abriu a porta de má vontade para aquela mulher, que

devia ter por volta de trinta anos, trajada como uma civil (nada

do uniforme vermelho com a insígnia de uma espada prateada

da polícia de Arash), com um sobretudo feminino longo e uma

calça e sapatos de couro artificial, toda de preto, esbelta e de

rosto comprido, olhos castanhos claros e cabelos loiros lisos,

na altura dos ombros, com uma mecha vermelha. Fisicamente o

oposto em quase tudo da falecida Anna, seu semblante era

sério, mas com uma delicadeza fina, que transpareceu na voz:

“Me desculpe, senhor Christiansen. Sabemos da sua dor e não

era nossa intenção desrespeitá-la. Mas preciso cumprir com o

meu trabalho.”, era bonita para o seu gosto e até se vestia do

seu jeito predileto; em outros tempos e em outro contexto,

antes de conhecer Anna, talvez até tivesse se animado com ela.

“Vocês não sabem de nada.”

“Entendemos a sua revolta, mas vim lhe trazer inclusive

algumas informações sobre quem podem ser os assassinos de

sua família, os autores desse terrível atentado que derrubou a

espaçonave Canaan.”

28

“Ok. Sente-se e acomode-se. Eu prefiro ficar de pé mesmo.”,

fechado e mau-humorado como não costumava ser, foi se

acalmando aos poucos e trouxe um copo d'água à moça, que

começou a se explicar, sentada na poltrona da sala:

“O meu nome é Joanna Flammarion. Na verdade, meu

trabalho para a polícia de Arash, como investigadora, é uma

fachada.”, quando ela declarou isso, ele franziu o cenho e

redobrou sua atenção ao fitá-la. “Não se preocupe, não sou uma

criminosa nem uma justiceira ilegal. Trabalho para o serviço

secreto de inteligência do Estado e se estou revelando isso ao

senhor é porque precisarei da sua ajuda.”

“Da minha ajuda? Sou apenas um escritor, não tenho nada que

ver com o que quer que possa estar pensando.”

“Será mesmo apenas um escritor?”

“O que está querendo sugerir? Esse tipo de postura me irrita,

ainda mais depois do que passei.”

“Por favor, entenda, senhor Christiansen. Suposições me

servem como ponto de partida. Porém trabalho com fatos

observados e informações precisas que me são passadas. Vou

lhe esclarecer: a responsável pelo atentado à Canaan foi a

organização terrorista Stella Matutina, que assumiu a ação com

todas as letras, e inicialmente cogitamos que o motivo teria

sido a prisão recente de um dos seus integrantes. Eles

costumam, como retaliação, atingir civis.”

“E eu fui um desses civis atingidos.”

“Estranhamente, o único que sobreviveu, mas me deixe

concluir.”, terminou de beber a água, apoiou o copo e juntou as

mãos enquanto cruzava as pernas. “Capturamos, depois desse

integrante que teria sido a causa do atentado e que se suicidou

antes de nos revelar qualquer coisa, outro membro da Stella. E

tivemos, após horas de recusa dele em abrir a boca, antes que

mais um se suicidasse, porque eles preferem morrer a revelar

seus segredos, que recorrer à tortura.”

“Não sabia que aqui em Marte ainda se recorre a um método

29

tão arcaico pra se extrair uma confissão.”

“Não tivemos escolha. Não aprovo isso em criminosos

comuns. Mas em terroristas às vezes é necessário. Sou é contra

a pena de morte, porque eles não se importam de morrer, ainda

mais essa gente meio mística, tanto que se suicidam de forma

recorrente, e com a execução perdemos informações

preciosas.”

“Importam as informações, não o ser humano?”

“Um ser humano que matou a sua família, pois foi esse o

sujeito que guiou as naves-bombas e, além disso, deixou claro

que a intenção do atentado foi provocar a sua morte.”

“A minha?”

“Exato, senhor Christiansen. É por isso que estou aqui, e que

vim pedir a sua colaboração.”

“Mas por que alguém iria querer me matar??”

“Ele disse que o senhor sabe qual o motivo...”

“Quero ver esse desgraçado.”, disse após um silêncio

suspenso; Joanna, que permanecera calma esperando a

resposta, concordou.

A Stella Matutina era uma organização criminosa de cunho

mágico-religioso, atuando inclusive no tráfico de drogas e

armas, embora suas finalidades fossem maiores. Centrava-se

nos dizeres “faz o que quiseres, pois é tudo da lei” e “amor é a

lei, porém amor sob vontade”; e tal vontade individual podia

esmagar a vontade alheia, bastando para isso ser uma vontade

maior: quanto mais determinado e pleno de si o indivíduo, mais

próximo de Deus estaria, no intuito que adiante, no curso da

evolução natural da humanidade, fossem selecionados os

melhores, pouco a pouco tornando os seres humanos

semelhante a deuses, e então enfim o homem seria imagem e

semelhança de seu Criador, não passando a civilização presente

de uma caverna de sombras e rascunhos nas paredes. Os

homens da atualidade estariam para os do futuro, que a Stella

ambicionava selecionar, como os macacos em relação aos

30

primeiros. Quanto aos reptilianos, os que haviam aderido ao

acordo conciliatório e à convivência pacífica deveriam ser

considerados tão fracos quanto a humanidade comum, ou ainda

piores, seres decadentes, ao passo que os que ainda se

mantinham nas sombras, esperando a oportunidade para

retomar a guerra, valorizavam o fato de pertencer a uma

espécie mais antiga e sábia, e portanto mereciam ser ouvidos

com alguma veneração. Estes, cuja existência era ocultada pelo

governo e existiam realmente, não sendo mera elucubração dos

magos da organização terrorista, ao contrário, agindo por trás e

dentro desta, constituíam uma das mais séries ameaças, senão a

maior, à manutenção da paz na Terra e em Marte. Haviam

perdido a batalha, mas não admitiam ter perdido a guerra.

A Stella, que no plano político pretendia inaugurar e

encabeçar um governo unificado para os dois planetas, e sem

mais subdivisões entre países e estados, fora fundada por

sobreviventes do massacre dos illuminati, levado a cabo por

um grupo misterioso que extinguira a seita. Alguns diziam que

se tratara na verdade de apenas um executor, e outros iam mais

longe, alegando que este fora um membro do lendário

Comando Ashtar, que muitos haviam evocado como uma força

messiânica no período de maior crise na Terra, sem que

houvesse qualquer prova da existência desta facção militar

extraterrestre.

O que os serviços secretos sabiam era que alguns illuminati

tinham conseguido escapar e fundado a Stella Matutina. E

sobre isso Joanna foi conversando com Joshua no caminho

para o cárcere mais próximo, reservado a criminosos de alta

periculosidade. O escritor escutava com toda a atenção,

enquanto a aeronave policial passava sobre Arash, que naquele

dia apresentava um céu bem azul, passando sobre um bairro de

aranha-céus rubro-escuros, quase negros, e bastante

pontiagudos. A prisão estava um pouco afastada da metrópole,

em uma área florestal repleta de árvores que lembravam

31

pinheiros altíssimos, uma nave esférica suspensa por meio de

mecanismos de ação anti-gravitacional e hermeticamente

fechada, abrindo-se uma passagem apenas depois que a agente,

ao parar por alguns segundos diante da superfície metálica lisa,

digitou a sua senha.

Entre os que supervisionavam o lugar, havia tanto humanos

quanto reptilianos. E quando já se aproximavam da cela do

fadado prisioneiro, entre outras de um corredor em que barras

eletrificadas mantinham os foras-da-lei apartados, Joanna

parou com as explicações e deixou claros os objetivos de seu

trabalho:

“Que fique ciente, senhor Christiansen, que até agora

respeitamos a sua dor. Mas dependendo da conversa que

tivermos com ele, será a sua vez de se abrir conosco. Expus

tudo o que sabemos sobre a Stella, mas ao que parece eles

sabem algo do senhor que nós ainda não sabemos. Queremos

descobrir o quê, e para isso melhor que se abra, e assim

poderemos protegê-lo. Colabore. Caso contrário, talvez

tenhamos que mantê-lo prisioneiro.”

“Quer dizer que foi para isso que me trouxe?”, Joshua parou

de andar e indagou. “Uma armadilha. E caí como um idiota!

Bem que minha falecida esposa dizia que eu era atrapalhado

demais.”

“Não é uma armadilha, apenas queremos ajudá-lo.”

“E ser ajudados.”

“Se o senhor faz parte de algum serviço de inteligência e tem

muitas informações, e por isso o perseguem, deve confiar em

nós. Poderemos colaborar.”

“Não faço parte de nenhuma agência, tenha certeza disso.”

“Então por qual motivo iriam querer executá-lo? Por favor,

senhor Christiansen, imagino que deve ter ordens para manter o

sigilo a todo custo, mas não será melhor nos unirmos contra um

inimigo em comum?”

“Não tenho o menor interesse em organizações terroristas,

32

nem trabalho pra governo nenhum; não sei por que querem me

executar, quantas vezes vou precisar repetir isso?!”,

manifestava uma irritação muito rara em sua personalidade

antes da morte de seus familiares.

“Mas ele disse que o senhor sabe qual foi a razão.”

“Vai acreditar na palavra desse maluco?? Sou só um escritor.

Ele deve estar querendo me usar como bode expiatório só

porque sobrevivi ao atentado, que deve ter sido mesmo uma

retaliação, ou uma provocação.”

“Se insiste nisso...”, quando chegaram à cela, viram um

homem jogado ao fundo do espaço de chão e paredes lisas

azul-escuras, não fazendo questão do conforto da cama ao lado.

Era um indivíduo de pele escura, cabelos crespos, nariz

achatado e físico possante, em trajes pretos sujos,

originalmente um belo terno e uma calça social cara, de marca;

ao encarar Joshua, deixou deslizar por seus lábios um suave

sorriso de ironia. “Sabia que cedo ou tarde viria.”, disse, e

continuou: “Mas se não vai se abrir com eles, que direito nós

teríamos de denunciá-lo? Uma coisa é certa: você é mais

resistente do que uma barata. Será que uma explosão nuclear

que destruísse a cidade onde você estivesse acabaria com

você?”

“Não sei do que o senhor está falando. Por que declararam

que eu era o alvo do atentado? Por que matou a minha família e

tantas pessoas inocentes? Não teria bastado simplesmente me

dar um tiro?”, perguntou o escritor, sob o olhar compenetrado

de Joanna.

“Se uma explosão não adiantou, um tirinho iria servir pra

alguma coisa? Você não está desmemoriado. Nós da Stella

somos magos, e sou um cavaleiro de segundo grau apenas, mas

é o suficiente para sentir as suas emoções e saber que está

mentindo. Sabe perfeitamente que a sua mulher, os seus

filhotes e as pessoas naquela nave estavam no nosso caminho.

Sabe por que o estamos perseguindo. E lembra de cada detalhe

33

do seu passado e o remorso o persegue! Queria levar uma vida

tranqüila, não é? Isso é impossível. Quem mergulha no mar no

meio da tempestade não pode simplesmente pensar em

descansar numa ilha deserta.”

“Pelo visto essa conversa não vai levar a nada. É melhor eu ir

embora.”

“O senhor se esqueceu das nossas condições, senhor

Christiansen? Não irá embora enquanto não se dispuser a

colaborar conosco.”, Joanna o segurou pelo braço.

“Não podem me prender aqui. Estariam infringindo a lei. Sou

um cidadão honesto e tenho o direito de circular livremente.”

“A partir do momento que é suspeito de atividades ligadas a

algum serviço de inteligência, nos tomamos o direito de retê-

lo.”

“Quer dizer que estão acima da lei?”

“A sua segurança e a segurança da população vão além das

formalidades da lei.”, o diálogo entre os dois fez o membro da

Stella alargar seu sorriso.

“Pelo menos então me levem para um lugar melhor. Não

agüento mais olhar pra cara desse sujeito.”

“Claro, terá todo o conforto. Mas enquanto não nos ajudar,

não poderemos liberá-lo.”

“Já disse que não pertenço a nenhum serviço secreto.”

“E é verdade.”, o terrorista de repente interveio. “Vou dar uma

dica: ele não está ligado a nenhum governo. Pelo menos não da