Iracema por José de Alencar - Versão HTML

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Iracema, de José de Alencar

Fonte:

ALENCAR, José de. Iracema. 24. ed. São Paulo: Ática, 1991. (Bom Livro).

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

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IRACEMA

José de Alencar

Prólogo da 1ª Edição

Meu amigo.

Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco sítio da várzea, no doce lar, a que

povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal.

Imagino que é a hora mais ardente da sesta.

O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantas

languem. A natureza sofre a influência da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o

gênio, as duas mais brilhantes expanções do poder criador.

Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de reses, que figuram a

boiada. Era assim que eu brincava, há quantos anos, em outro sítio, não mui distante do seu. A dona

da casa, terna e incansável, manda abrir o coco verde, ou prepara o saboroso creme do buriti para

refrigerar o esposo, que pouco há recolheu de sua excursão pelo sítio, e agora repousa embalandose

na macia e cômoda rede.

Abra então este livrinho, que lhe chega da corte imprevisto. Percorra suas páginas para

desenfastiar o espírito das cousas graves que o trazem ocupado.

Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se iludam as reminiscências da infância avivadas

recentemente. Se não, creio que, ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma

silvestre e bravio que lhe vem da várzea. Derrama-o, a brisa que perpassou nos espatos da carnaúba

e na ramagem das aroeiras em flor.

Essa onda é a inspiração da pátria que volve a ela, agora e sempre, como volve de continuo

o olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri.

O livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois

vazado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser

lido lá, na varanda da casa rústica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre os

múrmuros do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros.

Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.

Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos estranho, esquecido talvez dos

poucos amigos, e só lembrado pela incessante desafeição, qual sorte será a do livro?

Que lhe falte hospitalidade, não há temer. As auras de nossos campos parecem tão

impregnadas dessa virtude primitiva, que nenhuma raça habita aí, que não a inspire com o hálito

vital. Receio, sim, que o livro seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos meus.

Se porém, ao abordar as plagas do Mocoripe, for acolhido pelo bom cearense, prezado de

seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos tempos prósperos, estou certo que o filho de

minha alma achará na terra de seu pai, a intimidade e conchego da família.

O nome de outros filhos enobrece nossa província na política e na ciência; entre eles o

meu, hoje apagado, quando o trazia brilhantemente aquele que primeiro o criou.

Neste momento mesmo, a espada heróica de muito bravo cearense vai ceifando no campo

da batalha ampla messe de glória. Quem não pode ilustrar a terra natal, canta as suas lendas, sem

metro, na rude toada de seus antigos filhos.

Acolha pois esta primeira mostra para oferecê-la a nossos patrícios a quem é dedicada.

Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro; o outro saberá depois que o tenha

lido.

Muita cousa me ocorre dizer sobre o assunto, que talvez devera antecipar à leitura da obra,

para prevenir a surpresa de alguns e responder às observações ou reparos de outros.

Mas sempre fui avesso aos prólogos; em meu conceito eles fazem à obra, o mesmo que o

pássaro à fruta antes de colhida; roubam as primícias do sabor literário. Por isso me reservo para

depois Na última página me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, em mais liberdade

do que teríamos neste pórtico do livro, onde a etiqueta manda receber o público com a gravidade e

reverência devida a tão alto senhor.

Rio de Janeiro, maio de 1865.

J. DE ALENCAR