JÚLIO CARDOSO NO PALCO DA VIDA / 50 Anos de Teatro por Seiva Trupe - teatro vivo - Versão HTML

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/ O H O M E M

/ O A C T O R

/ O E N C E N A D O R

/ O C O N S T R U T O R

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/ “Uma Visita Inoportuna” de Copi,

com enc. de Jorge Castro Guedes.

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JÚLIO

CARDOSO

/ 50 ANOS DE TEATRO

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/ “Tio Vânia”, de Anton Tchecov, 1987

/ “Sexta-Feira”, de Hugo Claus, 1982.

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/ “Play Strindberg”, de Friedrich Durrenmatt, 1990

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lves A

nio

ntó Ato

/ “Eu Sou a Minha Própria Mulher”, de Doug Wright, com enc. de João Mota, 2010.

/ Fo

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...............................................

O produto da publicação deste livro reverte

a favor da Associação Mutualista dos

Artistas - AMAR - CASA DO ARTISTA/Norte

...............................................

Com o apoio

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JÚLIO

CARDOSO

/ NO PALCO DA VIDA

/ 50 ANOS DE TEATRO

/ ANTóNIO REbORDãO NAVARRO

/ ÍNDICE

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 17

/ pág. 50

/ pág. 65

/ GRATIDãO

/ O bOMbARDEAMENTO DA EMISSORA

/ UM FILHO

..................................................................

/ A FRAGATA “AFONSO DE

..................................................................

/ pág. 19

ALbUQUERQUE”

/ pág. 66

/ O ACTOR – ARNALDO SARAIVA

..................................................................

/ EPISóDIOS SIMPLES

..................................................................

/ pág. 51

..................................................................

/ pág. 23

/ O FIM. A PRISãO

/ pág. 67

/ AUTORES REPRESENTADOS

..................................................................

/ O “ZÉ CARIOCA”

..................................................................

/ pág. 52

/ LIbERDADE E CENSURA

/ pág. 35

/ SEIS MESES DE INFERNO

..................................................................

/ PREÂMbULO

..................................................................

/ pág. 68

..................................................................

/ pág. 53

/ LUÍS TITO

pág 37

/ O “CHICO”

/ “UM DOS ACTORES MAIS PATEADOS

/ ALGUMA INFÂNCIA

/ O REGRESSO

DO PAÍS”

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 38

/ pág. 54

/ pág. 70

/ UM ENCONTRO COM FERNãO

/ PARÊNTESIS COM GOA

/ COM ANTóNIO PEDRO

DE MAGALHãES

/ RETOMAR A VIDA

/ “O JUDEU” DE bERNARDO

/ ÁLbUM DE FAMÍLIA

..................................................................

SANTARENO

..................................................................

/ pág. 55

/ UM TEATRO MUNICIPAL NO PORTO

/ pág. 39

/ UM CASAMENTO

..................................................................

/ ADOLESCÊNCIA

/ “FEDRA” E OUTRAS ACTIVIDADES

/ pág. 71

/ O PODER DO ACASO. O PRIMEIRO

TEATRAIS

/ ARMANDO bAPTISTA

ENCONTRO COM O TEATRO

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 56

/ pág. 72

/ pág 41

/ CHICO TEIXEIRA DE ALMEIDA

/ OUTRAS CENAS NO

/ O “RIVOLI” EM QUESTãO

..................................................................

“TRANSMONTANO”

/ OS MESTRES, A ESTREIA

/ pág. 57

/ COMO JÚLIO CARDOSO SE FEZ SóCIO

..................................................................

/ O ACTOR DIRIGE-SE AO CRONISTA

DO “bOAVISTA FUTEbOL CLUbE”

/ pág 42

..................................................................

E AS “HISTóRIAS PARA SEREM

/ TEATRO MODERNO DO PORTO

CONTADAS”

/ pág. 59

..................................................................

/ A VIDA MILITAR

/ O “TEP”, A ÁRVORE”

/ pág. 73

..................................................................

..................................................................

/ CURSOS DE TEATRO.

/ pág 43

/ pág. 60

TEATRO PARA CRIANÇAS

/ ÍNDIA

/ DIREITOS DE AUTOR

..................................................................

..................................................................

..................................................................

pág. 74

/ pág 44

/ pág. 61

/ SObRE CãES E GATOS

/ GOA: OUTROS TRAbALHOS

/ DESEJO E OCULTAÇãO

/ O GRUPO DE TEATRO DA OLIVA

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág 45

pág. 62

/ pág. 75

/ DEUS LHE PAGUE

/ UMA DOR ANTIGA

/ RUGGERO JACCObI

/ ENCENAÇãO DO REAL

/ ACIDENTES

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 76

/ pág 46

/ pág. 63

/ “O MAIS FELIZ DOS TRÊS”

/ O GOVERNADOR

/ O CÍRCULO DE CULTURA TEATRAL

/ O ÊXITO INTERROMPIDO

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág 47

/ pág. 64

/ pág. 78

/ O ROSTO CONTRA O SOL

/ VICISSITUDES

/ HONRAS E SOLIDãO

/ SINAIS DE GUERRA

/ UM TELEFONEMA ESPANHOL

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 81

/ pág. 102

/ pág. 120

/ A RUA ANTóNIO PEDRO

/ O PRIMEIRO FITEI E OS PRObLEMAS

/ “TEATRO DO CAMPO ALEGRE”

/ O REGRESSO

INERENTES

..................................................................

..................................................................

/ O VELHO E O NOVO

/ pág. 121

/ pág. 103

..................................................................

/ PROTESTO

/ O INCÊNDIO DA CARRINHA

/ pág. 82

..................................................................

..................................................................

/ UM CONVITE DE VASCO MORGADO

/ pág. 122

/ pág. 106

/ S. JOãO E PRÉMIO DE MELHOR

/ SUbSTITUIR RAUL SOLNADO

/ MAIS PRObLEMAS

ESPECTÁCULO

..................................................................

/ A DEDICAÇãO E O PRAZER

/ O HORROR ÀS PROFUNDIDADES

/ pág. 83

DO TEATRO

/ JÚLIO CARDOSO E A CRÍTICA

/ ESPECTÁCULOS FORA DE HORAS

/ DESAPARECE UM ELEMENTO

..................................................................

..................................................................

O FESTIVAL INTERNACIONAL

/ pág. 86

/ pág. 123

DE TEATRO LATINO-AMERICANO

/ ANTóNIO REIS

/ “SISTEMA” EM SENTIDO LATO

..................................................................

/ O GRUPO DE TEATRO INDEPENDENTE

/ SObRE MOÇAMbIQUE

/ pág. 108

“ANTóNIO PEDRO”

..................................................................

/ “AbAJO EL IMPERIALISMO YANKEE!”

..................................................................

/ pág. 124

/ JÚLIO CARDOSO NA ONU

/ pág. 90

/ NA FIGUEIRA DA FOZ

..................................................................

/ SEIVA TRUPE

/ UM TEATRO EM MOSCOVO

/ pág. 109

..................................................................

..................................................................

/ PARÊNTESIS

/ pág. 91

/ pág. 125

/ UM HOMEM SENTADO

/ “CATARINA NA LUTA DO POVO”

/ O CIRCO DE MOSCOVO

..................................................................

..................................................................

E O TEATRO bOLSHOI

/ pág. 111

/ pág. 94

/ POLóNIA

/ AS COSTAS EM bRASA

/ TRAbALHOS E CANSEIRAS

..................................................................

/ “QUANTO VALE UM POETA”

/ CORRERIAS E CANSAÇOS

/ pág. 126

..................................................................

..................................................................

/ bARCELONA

/ pág. 112

/ pág. 95

/ KIEV

/ ANTóNIO REIS E A SANITA

/ UM TOMbO RESPEITÁVEL

QUEbRADA

/ bUENOS AIRES

/ UM PROJECTO GORADO

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 114

/ pág. 128

/ pág. 96

/ “MISTÉRIO bUFO” EM PENAMACOR

/ E AGORA FUTEbOL

/ UM POEMA PERDIDO

..................................................................

/ EVOCAÇãO DE JAYME VALVERDE

/ JÚLIO CARDOSO E LUIZ PACHECO

/ pág. 116

..................................................................

..................................................................

/ AINDA O “MISTÉRIO bUFO”

/ pág. 129

/ pág. 97

/ TELEFONEMAS A DESORAS

/ E AINDA SEIVA TRUPE

/ CONTOS CRUÉIS

/ O FITEI E A SUA EXPANSãO

..................................................................

..................................................................

..................................................................

/ pág. 130

/ pág. 98

/ pág. 117

/ EU SOU A MINHA PRóPRIA MULHER

/ UM PERÍODO DA VIDA

/ A VENDA DO COLISEU DO PORTO

/ UM PROJECTO DE VIDA

/ A ESCOLA SUPERIOR ARTÍSTICA

..................................................................

..................................................................

DO PORTO

/ pág. 118

/ pág. 133

..................................................................

/ O ENSINO DO TEATRO

/ NOTA FINAL

/ pág. 99

..................................................................

/ AUTO EXAME bREVE

/ pág. 119

/ O TEATRO DE S. JOãO

/ PRONÚNCIA DO NORTE

..................................................................

/ pág. 100

/ A CRIAÇãO DO FITEI

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/ Esta publicação só foi possível com o apoio da

Fundação Engº António de Almeida e do bPI, nas

pessoas dos Senhores Doutores Fernando Aguiar branco

e Artur Santos Silva.

Aqui fica, portanto, o nosso amplo agradecimento.

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/ GRATIDÃO

Gratidão – neste caso – por muito valor que lhe possamos prestar, não passará de mais uma simples e vã palavra ou de uma particulazinha perante o incomensurável esforço, dedicação e amizade que o António Reis, o Júlio Filipe, a Nina, Marta, Humberto Nelson, Adérito, Júlio Gago e outros puseram na feitura do livro, especialmente pela força e pelos constantes empurrões que nunca se cansaram de me dar, pela paciência para aturarem as minhas rezinguices e pelo bom gosto que exigiram que este Palco da Vida transportasse. Não tenho mais do que pôr a minha alma neste reconhecimento. De igual modo, todo o meu íntimo explode com o profundo sentido de um muito obrigado ao António Rebordão Navarro.

Evidentemente que jamais poderei esquecer esse grande artista, Paulo Carteiro, que sempre está fora do alcance da luz dos projectores. Na sombra, com toda a sua rara sensibilidade, inteligência e técnica, apaixonou-se pelo meu ofício.

Numa prova de sanguínea amizade, com a sua alma artística e o seu talento, quase com raiva e com paixão, resolveu criar vários retratos dos quais alguns alguns enriqueceram este livro.

Júlio Cardoso

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Pintura: Paulo Carteiro

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O ACTOR

O papel que lhe coube: génio

E era em palco um génio

genial

Corrida a cortina

caladas as palmas

a sala vazia

lá estava ele outra vez

a contas com as contas

a hérnia

a paixão sem suporte

no velho papel de pobre

diabo

ARNALDO SARAIVA

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/ Júlio Cardoso.

/ “Lux in Tenebris”, 1975.

/ Recebeu prémios, troféus e homenagens

/ Paralelamente à sua vida de actor/encenador teatral,

participou em televisão - cinema - ópera - publicidade

e foi “diseur” em centenas de recitais de poesia.

/ Tem sido considerado uma importante referência como

animador sócio-artístico-cultural e programador, de

profundos conhecimentos, estando ligado a iniciativas

de grande fôlego tanto no país como no estrangeiro

/22

/ Alguns autores representados por Júlio Cardoso ao longo da sua carreira:

/ William Shakespeare / bertold brecht / Miguel Unamuno /

/ Paer Lagerkvist / Carlo Goldoni / Karl Wittlinger /

/ Guilherme Figueiredo / Silvano ambrogi / José António

Ribeiro / Romeu Correia / Walmir Ayala / Miguel Mihura /

/ António Pedro / Túlio Pinneli / José Régio / Gil Vicente /

/ Leon Chancerel / António José da Silva / Joseph Kesselring /

/ bizet / Raúl brandão / E. Labiche / Papiniano Carlos /

/ Stella Leonardos / Terence Mcnally / Carrigialle / António

Tabucchi / Robert Anderson / Sófocles / Camilo Castelo

branco / Jean Genet / Ricardo Monti / Dário Fo / Marcelo

Rubens Paiva / Ionesco / Gervásio Lobato / Mário Cláudio /

/ Almeida Garrett / Pam Gems / Fassbinder / Michael Frayn /

/ Eric Emmanuel / Schmitt / Carl Djerassi / Roald Hoffman /

/ Roberto Cossa / Margarida Fonseca Santos / António

Skármeta / Gluck / Orlando Neves / Pedro bandeira Freire /

/ Victor Haim / Augusto Cuzzani / Luís Francisco Rebelo /

/ Luís Humberto Marcos / John Osborne / bernardo Santareno

/ Plínio Marques / Pedro barbosa / Maricla boggio / Cliford

Odets / Armand Salacrou / Camões / Nelson Rodrigues /

/ Hugo Claus / Copi / Friedrich Durrenmat / Eça de Queirós /

/ Nicolau Gogol / Samuel becket / Federico Garcia Lorca /

/ Luigi Pirandello / Anton Tchecov / Heiner Müller / Oswaldo

Dragun / Thomas bernhard, e outros.

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/ Em Agüimes – Canárias, depois de uma representação da Secreta Obscenidade, José Saramago foi homenageado pela Câmara local.

Em palco Júlio Cardoso e António Reis com escritores ibero-latinos-americanos. O Alcaide declarou que, juntamente com outros municípios espanhóis, iria propor Saramago a Prémio Nobel.

/ Recebido por Ramalho Eanes.

/ Entregando o Prémio Seiva ao Prof. Corino de Andrade.

/ Júlio Cardoso recebendo das mãos do actor o Prémio

/ Confraria das Tripas.

Nacional de Teatro Ruy de Carvalho.

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/ Recebendo das mãos do Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, a Medalha como Membro da Ordem de Mérito atribuída à Companhia Seiva Trupe.

/ Prémio Seiva - José Rodrigues.

/ Prémio Carreira Fantasporto.

/ Recebendo a Medalha de Mérito Distrital da Ministra da Cultura e da Governadora Civil do Porto.

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/ “Afonso III” - Teatro Municipal Sá de Miranda, Viana do Castelo.

/ Na Ramalhal figura - Ramalho Ortigão.

/ No “Auto da Índia”, de

Gil Vicente, com enc. de

Carlos Avilez e cenário

de Júlio Resende, 1965.

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/ Em 1982 na Festa da Poesia em Salvaterra do Miño com o escritor e

jornalista Altino Tojal e o actor Rogério Paulo.

/ No filme “O Viajante”, de António Damião.

/ Em D. Magnífica da Costa no espectáculo

“Luzes de Palco”, com enc. Norberto Barroca,

que foi comprar uns tecidos para a sua pensão

Magnífica a uma magnífica casa no Largo dos

Lóios, cujos proprietários eram do Conjunto

António Mafra e é atendida por um irmão Mafra.

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/ Teleteatro com a obra de Alfonso Sastre “A Morte no Bairro”, com José Pinto.

/ “Marlene”, de Pam Gems - Júlio Cardoso dirige Simone de Oliveira, 2001.

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/ “Henrique IV”, de Luigi Pirandello.

/ Em “A Desconhecida de Arras”, de

Armand Salacrou, com Alda Rodrigues.

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/ Nos “Três Chapéus Altos”, de Miguel Mihura.

/ No Grupo de Trabalho de um espectáculo que ficou célebre no Porto “Histórias para serem contadas”, de Oswaldo Dragun.

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/ Na Festa da Poesia em Afife com Natália Correia, Pedro Homem de Mello e José Carlos Ary dos Santos.

/ Com Dina Sfatt, António Reis e José Cayolla.

/ No 10º Aniversário do TEP.

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/ PREÂMBULO

Passando este ano meio século da vida teatral de Júlio Cardoso, decidiram os seus amigos e admiradores celebrar esta data, reunindo num livro alguns passos da sua vida e da sua carreira, tarefa nem sempre fácil, pois quando com ele se insistia para evocar acontecimentos e lembranças, declarava, peremptório, que “Hoje e amanhã é que interessam, o passado já foi.”

No entanto, e ao longo de sessões várias, conseguimos trazer de Ponte da barca aquele menino nascido em 8 de Setembro de 1938, com ele o seu pai, praticante de tiro aos pombos que interromperia o prélio porque o seu filho tinha fome. Com a morte do progenitor a evocação de outros familiares, marcando-lhe a infância com relevantes traços de carácter que para sempre recordaria. Depois, com a mãe e a irmã, a vinda para o Porto, a prossecu-

ção dos estudos, a carreira de promissor e jovem executivo da “Regisconta”, interrompida pela perseguição de uma rapariga dirigindo-se para um curso de teatro no Clube Fenianos onde Júlio conheceria o actor Jayme Valverde, esse homem tão humanamente interpretando a figura de Ivan Ivanovitch Nioukhine que daria lugar à lenda correndo o Porto de ter servido a Tchekov de modelo para a personagem de “Os malefícios do tabaco”. Ainda as vicissitudes porque passou na Índia Portuguesa, onde inclusivamente seria dado por morto, constituem traços marcantes da biografia do actor que foi também um dos fundadores desse importante grupo de teatro que é a “Seiva Trupe”, bem como um dos mais importantes elementos desse festival internacional de teatro que é o “Fitei”.

Ainda as andanças do actor pelo mundo, as lições de teatro que elas lhe proporcionaram, a convivência e a estima que o ligaram a actores e autores, até a sua faceta de apreciador de futebol fornecem-nos uma ampla perspectiva do percurso de um actor pelo palco da vida.

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/ Júlio Cardoso - 3 anos.

/ João Júlio Barreira Cardoso – pai.

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de borracha, sendo unanimemente escolhido para

/ ALGUMA INFÂNCIA

guarda-redes e aplaudido nas suas defesas pelos

Um dos primeiros episódios que recorda e lhe traz

mais velhos que assistindo aos jogos o designavam

a imagem de seu pai vem dos idos da infância e aí

por Azevedo, então futebolista célebre do Sporting

batem asas, soam tiros e ele desempenha papel pri-

Clube de Portugal.

mordial. Teria uns cinco anos e assistia a um torneio

Como a escola de Magalhães tinha uma profes-

de tiro aos pombos entre o progenitor, adepto de tal

sora regente, teve, após os dois primeiros anos, Júlio

modalidade e um outro concorrente não natural da

Cardoso de ser transferido para a freguesia vizinha

barca. O cenário era um campo de futebol junto ao

de S. Tomé do Vade, sendo-lhe o almoço levado por

rio Lima. Estavam uns cavalheiros sentados a uma

uma serviçal muito se arreliando por ele a retardar

mesa e um homem tapado com uma serapilheira

com jogos de bola e, nesses tempos de fome e escas-

puxava uns fios. A assistência aplaudia. Mas, perto

sez, dividir a refeição com os colegas mais necessi-

da vitória, o pai constata que o filho tem fome. Fome

tados, o que obrigaria a sua boa tia Anésia a aumentar

e sono e, atendendo a tais necessidades, põe termo

as doses de comida.

ao campeonato.

Sendo as instalações da escola de S. Tomé dimi-

Morreria pouco depois. E, com a sua morte, a

nutas e rudimentares houve que construir-se uma

vida de Júlio e dos seus altera-se. A irmã necessita

outra. A inauguração do novo estabelecimento origi-

seguir os seus estudos secundários. A mãe, menina

nou solene festa e, porque o Julinho da Vinha demons-

bonita de D. Azevedo, nunca trabalhara. Mas, na-

traria algumas qualidades teatrais, Dª. Ludovina, a sua

queles tempos, sem reformas nem subsídios, mas

professora, encarregá-lo-ia de decorar alguns versos

dívidas acumuladas pela doença do marido, não tem

de exaltação patriótica que o rapazinho declamaria

outro remédio senão vender a casa onde viviam que

perante os senhores Inspector-Geral, Presidente da

ainda hoje se mantém junto ao edifício abandonado

Câmara e Governador Civil. Estalariam foguetes,

da Guarda-Fiscal, com ela todas as leiras e vem pa-

aplausos e, perante tão digna assistência, o seu pri-

ra o Porto procurar emprego que lhe consinta man-

meiro público, Júlio Cardoso sentir-se-ia envaide-

ter a filha a estudar, visto que em Ponte da barca

cido.

não existiam estudos liceais. A partir de então o

filho vai viver para a Quinta da Vinha, na freguesia

de Magalhães, com o avô paterno e as tias solteiras,

passando a ser conhecido por Julinho da Vinha.

Aí foi crescendo, brincando com os mocitos do

lugar, jogando com eles, sob uma latada, a sua bola

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/ A Casa da Vinha.

..............................................................

..............................................................

/ UM ENCONTRO COM FERNãO

/ ÁLbUM DE FAMÍLIA

DE MAGALHãES

Ao contrário da família Azevedo, o ramo paterno

Teria Júlio Cardoso 7 ou 8 anos, quando, seguindo

do actor era plebeu e, segundo consta, seu avô, um

com seu avô por uns atalhos para apanharem a car-

torna-viagem, chegou a ser considerado uma das

reira em Paço Vedro, ao passarem por uma capela

grandes figuras da região. Na primeira República,

a meio de uns silvados, inquiriria: “Avô, que capela

uma das maiores casas comerciais de braga – a

é esta que está sempre fechada e com uns santos muito

Casa Redonda – era dele. Na freguesia de Maga-

feios?” Extremamente católico, o avô repreendê-

lhães, além de muitos bens ao luar espalhados pela

-lo-ia: “Nenhum santo era feio” e a capela pertencia

aldeia, pertenciam-lhe duas grandes quintas, a da

à Casa de Paço Vedro, constando que ali fora bapti-

Igreja e a da Vinha. Certa vez, contar-lhe-ia uma

zado Fernão de Magalhães, narrando-lhe os seus

história que jamais esqueceria. O pai dele era um

gloriosos feitos. De facto, embora durante muito

dos caseiros da Quinta da Vinha. Um caseiro espe-

tempo se atribuísse a Sabrosa o lugar do nascimento

cial, género feitor. Pertencia a Quinta ao Conde do

do navegador e muitos romeiros, especialmente do

Casal que ali vivia com a sua família. Um dia, pro-

Chile, por isso se deslocassem àquela região, como

pôs o fidalgo ao seu feitor que levasse o filho a sua

também havia de dizer-se ter nascido no Porto, o

casa, de cara e mãos lavadas, pois desejava dar-lhe

que não faria sentido por ser Fernão de Magalhães

uns rebuçados. Lá foram. Havia um piano em certa

de origem fidalga e, como tal, impedida a perma-

sala e o rapazinho aventurou-se então a tocar numa

nência dos seus nessa cidade, o que parece hoje

tecla. Mal o fez quase o prostrou violento cachaço

cabalmente demonstrado é ser ele natural de Ponte

desferido pelo titular que se encontrava atrás de si.

da barca.

O pai pediu perdão pela falta do filho. O conde de-

Haverá alguma relação entre Magalhães e Cardoso,

clarou ter já aplicado merecido correctivo e deu

além dessa provável naturalidade? O actor diz que

por findo o encontro.

não. Talvez só uma certa incompreensão e ainda um

O feitor faleceu e o filho rumou ao Porto, traba-

contraste porque Júlio Cardoso sempre se recusou

lhando numa refinaria de açúcar na Rua do bonjar-

a emigrar, apesar de muitas solicitações e propostas

dim. Estudava e lia muito. Poupava, poupava, pen-

nesse sentido se lhe terem deparado.

sando sempre no brasil, nesses tempos a imagem do

Eldorado. Quando juntou o suficiente partiu num

vapor rumo a S. Paulo que por então era só mato.

Foi um dos seus construtores e por quatro vezes,

em viagens demorando 31 a 34 dias, para lá rumou.

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/ João Júlio Cardoso – Avô paterno.

/ Júlio Cardoso.

Em dada altura, soube que a Quinta da Vinha estava

tempo depois e em horas extras é o responsável pela

à venda. Foi ter com o Conde para a comprar. Infor-

escrita da representação do “Martini”. Desta época

mado do preço, apenas perguntou: “Nessa quantia

recorda o actor com saudade o representante do ver-

está incluído o piano?” O fidalgo anuiu. Então

mouth Albino de Jesus. A firma de máquinas e equi-

adquiriu a propriedade.

pamentos cresce e atrás do departamento comercial

Deste antepassado falecido há mais de cinquenta

e nas instalações, organização, direcção de serviços,

anos guarda o actor uma lembrança indelével e em-

destaca-se o futuro actor.

bora desde jovem tenha tomado posições políticas

..............................................................

contrárias, apoiando Arlindo Vicente e depois Hum-

berto Delgado, hoje compreende e aceita o conser-

/ O PODER DO ACASO. O PRIMEIRO

vadorismo do avô e da sua família, entre esta a mãe,

ENCONTRO COM O TEATRO

inicialmente monárquica e só depois, mas à custa,

Ora, num fim de tarde em que com os seus 17 anos

salazarista, implorando-lhe que não fosse caçador

descia a Avenida dos Aliados, junto ao cruzamento

nem político e dando-lhe como exemplo um seu

com “O Comércio do Porto”, cruza-se Júlio Cardoso

irmão a quem, durante o sidonismo, chegariam a

com uma rapariga de rabo de cavalo e formas atraen-

arrancar-lhe as unhas. E Júlio Cardoso que diziam

tes que o levam a segui-la. Estaria longe de supor

muito igual a seu pai, embora, ao invés dele, amasse

que aquele fortuito encontro o conduziria a um no-

pombos e outros pássaros, sente profunda mágoa

vo destino. Mas não seria ainda nesse dia que a sua

por sua mãe ter falecido antes do 25 de Abril.

vida encontraria novo rumo. A perseguição seria in-

terrompida por interpelação do seu amigo Eleutério,

..............................................................

antigo jogador do Futebol Clube do Porto e por

/ ADOLESCÊNCIA

então proprietário da Cervejaria Capitólio. Nessa

Concluído o exame de admissão e por então não

altura, a rapariga desapareceria. Passados dois ou

existir em Ponte da barca ensino secundário, vem

três dias, voltaria Júlio Cardoso a pensar nela, efec-

Júlio Cardoso para o Porto. Nessa altura pensava ser

tuando o mesmo percurso cerca da mesma hora na

bombeiro, aviador ou guarda-livros. Mas seria esta

esperança de voltar a vê-la e aguardando-a junto ao

última a carreira que seguiria, devotando-se com en-

“Guarani”. Já quase desanimava e tomava o cami-

tusiasmo à contabilidade. Nessa altura, uma grande

nho da Praça, quando a moça apareceu e lhe sorriu.

empresa de escritório e organização estabelece-se na

Enchendo-se de coragem, perguntou se poderia

cidade, passando a ser a mais importante a norte do

acompanhá-la. “Que sim, responderia ela, mas só

Mondego. É a “Regisconta”e Júlio Cardoso inicia a

até aos “Fenianos”. Vou para uma aula de teatro

sua actividade nos serviços administrativos. Algum

e já estou atrasada”.

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/ Ao centro JOSÉ RÉGIO conversando com Dr. Ferrão Moreira. Ao fundo de pé a contar

/ Jayme Valverde em “Os Malefícios

da esquerda Júlio Cardoso é o quarto, já director da Secção Cultural para a Juventude do tabaco”.

do Clube Fenianos Portuenses.

– Teatro?, inquiriu Júlio.

Consentiria o mestre que o novato assistisse à

– Sim, sim, de teatro, porquê? Não gosta?

lição e dela nunca mais se esqueceu Júlio Cardoso

Ele gostava e logo lhe fez várias perguntas: se

que versava Ortofonia, seguindo atentamente a ex-

podia frequentar tais sessões, como poderia inscre-

posição, explicando as várias formas de colocação

ver-se, quem era o professor. Se podia assistir, etc.

da voz através das falas dos diabos das peças vicen-

Ela foi respondendo e quando ele manifestou inte-

tinas. Os alunos iam repetindo o termo “oremus”

resse em assistir à lição desse dia, a rapariga foi

com a voz no peito. O professor corrigia, explicava,

falar ao mestre a tal respeito, declarando então ao

sugeria. Até que, por último, decidiria chamar o no-

porteiro que seguiriam para a Sala Gil Vicente.

vato à lição. Ficaria satisfeito com a prova e, finda

O mestre era Jayme Valverde, o grande actor e

esta, Júlio Cardoso inscrevia-se no curso. Era o cha-

brilhante intérprete de “Os malefícios do tabaco”,

mamento do Teatro fazendo desaparecer a rapariga

de Tchekov. Era um homem alto, calvo, que fazia

que involuntariamente o levara até ali. Iniciar-se-

diariamente a barba à cabeça e nunca usava gravata.

-iam então mais de cinquenta anos de uma vivência

Morava na Rua de Santo Ildefonso e Júlio Cardoso

profunda com denodado estudo e entusiasmo, com

considera-o “um milionário de sonhos” que lhe in-

inquietação e desassossego em que tentaria de todas

cutiu humildade e amor ao estudo, à investigação,

as formas seguir as lições dos Mestres que ao longo

à modernidade. Valverde possuía essas e muitas

da vida lhe abriram horizontes, lhos transmitiram e

outras qualidades. Sonhando derrubar a ditadura,

ele passou humildemente a incutir nos outros.

fora protagonista da célebre revolta da Mealhada:

A partir daquela primeira lição nos “Fenianos”,

mesmo quando lhe comunicaram que a mesma tinha

o Teatro passou a ocupar papel fulcral na sua vida,

sido adiada, não desistira. Levava consigo quatro-

fazendo parte de um núcleo de fidelíssimos alunos

centos homens e saíra de Cavalaria 6 à frente de

de Jayme Valverde que o seguiriam por mais de três

um comando, num side-car. Na Mealhada, face à

anos e participando noutros cursos no “Teatro Expe-

desproporção das forças sitiantes, despromoveu-se

rimental do Porto”. A humanidade do mestre, o seu

a si próprio, fazendo uma patriótica alocução às

saber e sonho, a sua verticalidade constituiriam uma

suas fiéis tropas. A partir daí, sempre que havia

escola exemplar.

movimentação revolucionária, lá o iam buscar à

casa onde vivia e mantinha um estabelecimento de

guarda-roupa teatral.

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/ Teatro Rivoli - Porto.

/ Deniz Jacinto.

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/ O “RIVOLI” EM QUESTãO

/ OS MESTRES, A ESTREIA

Ao núcleo de Teatro do “Leão d’Ouro”, onde na-

Seriam António Pedro, Deniz Jacinto e Jayme

turalmente pontificava Jayme Valverde chegaria por

Valverde os verdadeiros e primeiros mestres de

esses tempos a notícia de que o Teatro Rivoli iria

Júlio Cardoso que, continuando a estudar e a exerci-

ser demolido para aí se instalar a sede do banco

tar-se nas lides teatrais, participaria em récitas,

borges e Irmão. Valverde garantia que tal empresa

coros mímico-falados, análises e obras dramatúrgi-

não seria efectuada sem firme contestação, afirman-

cas, até que, em certa noite de 1959, Amadeu Meire-

do, convicto, que, iniciando-se os trabalhos, imedia-

les, um tchekoviano compulsivo, homem da rádio,

tamente, embora pacificamente, resistiria, deitando-

do teatro e da boémia, lhe sussurra como contra-

-se no hall da entrada e dali não saindo, ainda que

regra: “Entra!”. Tal ordem paralisa Júlio Cardoso,

lhe lançassem jactos de água ou o espancassem.

mas um forte cachaço o impele para o palco. Já não

A ele se juntariam outros, entre eles Cardoso, firme-

está no casarão do “Teatro Sá da bandeira” a abar-

mente determinados a não deixar destruir o antigo

rotar de espectadores, mas em Tebas de mitos e pro-

teatro. Este movimento repercutiu-se, chegando ao

dígios. É em “Antígona”, de António Pedro, Hemon,

conhecimento da administração do banco, prome-

filho de Creonte e noivo de Antígona. Acabou o Juli-

tendo edificar um pequeno teatro nas instalações

nho da Vinha, desapareceu o homem da Regisconta.

do prédio que ocupava na Travessa dos Congrega-

Nasceu o actor Júlio Cardoso.

dos. Jayme Valverde recusou tal proposta. O que

A Sala Gil Vicente onde entrara pela primeira vez

não permitia era a destruição do “Rivoli”. Dona

com uma rapariga que seguira seria integrada na Sec-

Maria borges intercedeu, pedindo a seu filho Fran-

ção Cultural para a Juventude do Clube Fenianos Por-

cisco que, enquanto fosse viva, não tirassem à cida-

tuenses. À frente da direcção encontrava-se o grande

de o célebre teatro. E assim se fez, o que demons-

pedagogo Ferrão Moreira. Aqui se movimentavam

tra que é já antiga a luta pela conservação do céle-

centenas de jovens e cada um tinha, pelo menos, de

bre recinto.

frequentar uma das cerca de trinta disciplinas minis-

tradas por professores criteriosamente seleccionados

pelo Dr. Ferrão Moreira. Ainda muito jovem, não

teria mais de dezoito anos, Júlio Cardoso pertenceria

já à direcção. Depois, aquele grupo tornar-se-ia inde-

pendente através da formação do “Centro Cultural

Ramalho Ortigão” cujos estatutos não escapando à

matriz oficial teriam uma aprovação provisória.

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/ Placas nos Fenianos.

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/ TEATRO MODERNO DO PORTO

/ A VIDA MILITAR

É então que um grupo, não se dirão dissidentes,

Ainda não eram tempos de se falar de descoloni-

mas amuados/ aborrecidos com o TEP, onde, entre

zação que apenas seria invocada por Sottomayor

outros, pontificavam Fernando Gaspar, João Apoli-

Cardia no cinema Nun’Alvares, o que daria lugar à

nário, João Maia, Moreira Azevedo resolveram fun-