Jair Rodrigues: deixa que digam, que pensem, que falem por Regina Echeverria - Versão HTML

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Regina echeverria é jornalista profissional desde 1972.

Trabalhou nos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e nas revistas Veja, Isto É, Placar, Caras, A Revista. Publicou os livros: Furacão Elis (1985), Cazuza, Só as Mães São Felizes (1997), Cazuza, Preciso Dizer que Te Amo (2001), Pierre Verger, um Retrato em Preto e Branco (2002), Mãe Menininha do Gantois, uma Biografia (2006), os dois últimos em parceria com Cida Nóbrega. E, ainda, Gonzaguinha e Gonzagão, uma História Brasileira (2006). Em 2011 lançou Sarney, a Biografia.

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Jair Rodrigues Regina echeveRRia

Deixa que digam, que pensem, que falem

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Deixa que digam, que pensem, que falem

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Sumário

Prólogo 9 Igarapava, Nova Europa, a Vida na Roça 10

A Vida em São Carlos e a Descoberta da Vocação 20 O Tiro de Guerra e o Restaurante Bambu 27

São Paulo, o Começo de Tudo 31 Um Cantor da Noite 36 Venâncio e Corumba, a Vida Profissional 41

Deixa que Digam, que Pensem, que Falem... 51 Elis e Jair, O Fino da Bossa 56

Disparada e o Fim de Elis e Jair 71 A Carreira Internacional e o Casamento com Clodine 89

A Saída da Philips e o Balão Mágico para Jairzinho 96 Dois filhos artistas e o renascimento 109

Uma Casa no Campo 115 Aos 70 anos e a saúde em forma 120 Cronologia 127

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Em memória de Elis Regina

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Prólogo

Regina Echeverria

A primeira vez que o vi foi na televisão, ao lado de Elis Regina, no palco do teatro Record, cantando um pot-pourri memorável do qual a minha geração jamais esqueceu. Aquela sequência de músicas brasileiras combinava tanto entre si que, por anos, nos pareceu uma única e só canção. Depois o conheci pessoalmente, em depoimento para o meu livro Furacão Elis, sobre sua parceira nos anos 1960. Encontrei em Jair Rodrigues um exemplo do Brasil que se supera. Nascido no meio de um canavial no interior paulista, hoje é conhecido em todo o país e com verbete garantido em qualquer história da nossa música popular que nasceu nos fervilhantes anos 1960. A voz clara, cristalina, reconhecível e popular. Talvez seu jeito brincalhão tenha afastado alguns possíveis fãs, mas isso não passa de puro preconceito. O cantor Jair Rodrigues ainda é um legítimo representante dos velhos seresteiros do Brasil, mesmo quando canta samba. E, embora não me identifique com parte de seu repertório mais recente, reconheço suas qualidades de intérprete sensível e sempre melodioso.

Deixa que digam, que pensem, que falem...

O cidadão Jair Rodrigues de Oliveira que conheci mais a fundo nos últimos dois anos em que me dediquei a este livro-depoimento é surpreendente. Pude contar com sua fabulosa memória para reconstruir a infância em Igarapava e Nova América, a adolescência em São Carlos e o começo da carreira profissional, ainda “de menor”, cantando em boates e restaurantes da capital paulistana.

E, ainda, com suas histórias engraçadas da época do Fino da Bossa, da TV

Record, os bastidores dos festivais de música popular brasileira.

Foi um imenso prazer descobrir que Jair Rodrigues, ao contrário de muitos artistas contemporâneos seus, cuidou com inteligência de seu patrimônio, da educação dos dois filhos − dois artistas − e do casamento com Clodine, que dura até hoje. Aos 71 anos, segue com energia de sobra para se apresentar em shows por todo o país e no exterior. Com ele aprendi sobre uma época em que me apaixonei pela música popular brasileira.

Espero que os leitores também.

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Igarapava, Nova Europa, a Vida

na Roça

Nasci no meio de um canavial. Minha mãe trabalhava na roça, já estava para dar à luz e, mesmo assim, foi trabalhar. Cortar cana. Lá pelas duas ou três da tarde, estourou a bolsa. Fizeram um colchão com palha de cana e eu vim ao mundo ali mesmo. Meu cordão umbilical foi cortado à base de facão e jogaram muita água em cima de mim.

Fui registrado Jair Rodrigues de Oliveira em 6 de fevereiro de 1939, uma segunda-feira, em Igarapava, interior de São Paulo, distante 459 quilômetros da capital. Igarapava fica na região nordeste do Estado, no Vale do Rio Grande, divisa com Minas Gerais.

Ainda era menino de colo quando uma tragédia se abateu sobre a nossa pequena família − minha irmã mais velha, Maria Helena, meu irmão Jairo, eu e minha mãe Conceição. Foi num dia como outro qualquer do ano de 1940, quando meu pai, Rodrigo Severiano de Oliveira, veio almoçar em casa depois de uma manhã de labuta amansando os animais da fazenda onde trabalhava. Era peão de boiadeiro. Era ele quem cuidava do serviço de domesticar os animais, acalmá-los, torná-los úteis para o patrão.

Meu pai chegou para o almoço depois de dobrar um burro bravo e o amarrou do lado de fora. Conta minha mãe que, depois de comer, ao pegar o burro para voltar à fazenda, aconteceu o inesperado: assustado, o animal empinou-se todo e a chincha − aquela cinta que amarra o arreio no animal − soltou-se.

Ele caiu sentado no chão duro de terra batida e impressionou a todos pelo barulho surdo e tenebroso de seu corpo espatifado no chão. Perdeu os sentidos. Dizem que sangrou até morrer.

Eu sequer o conheci. Como também não conheci meus avós, nem por parte de mãe nem por parte de pai. Conceição Maria Rosa Rodrigues de Oliveira, minha mãe, nos contou que naquela época ela já não trabalhava mais na roça, só em casa. Meu irmão Jairo costumava me dizer que meu pai, Rodrigo, era bastante parecido comigo. Às vezes dizia:

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− Puxa vida, estou conversando com você e me lembro do nosso pai!

E me contava que ele era risonho, festeiro, alegre.

Eu também sou assim. Outra característica que herdei do meu pai foi a de bater o olho em alguém e perceber se a roupa que a pessoa está usando deixa à mostra algum fio solto, um furo, um pedaço rasgado. Meu pai também tinha essa cisma. O pessoal com quem ele convivia lidava muito com arame farpado, passava por cima da cerca e rasgava a roupa. Quando acontecia com ele, não dava outra: ao chegar de tarde em casa, ele trazia outra camisa e dizia para minha mãe:

− Essa aqui não presta mais! Não uso esse negócio rasgado porque dá um azar desgraçado!

Ele acreditava mesmo que roupa rasgada trazia má sorte. Depois da morte precoce e chocante de meu pai, minha mãe Conceição precisou voltar ao trabalho para garantir o sustento dos filhos. Resolveu, então, deixar Igarapava e suas tristes lembranças e mudar-se para perto, Curupá. Mas antes ela conheceu aquele que seria meu padrasto, Alexandre José Soares, também trabalhador no engenho de cana. E foram os dois para enfrentar a nova vida.

Alexandre, na verdade, também era viúvo e tinha dois filhos, Helena e Orlando, que foram morar com a gente em Curupá, cidade que fica entre Igarapava e Nova Europa.

Minha mãe e Alexandre casaram-se e foi ele quem me criou. Ele tinha uma carroça, com uma parelha para oito bois. Na carroça, transportava lenha para as caldeiras da usina. Com uns quatro ou cinco anos, eu também já ajudava a carregar a carroça.

Meu padrasto era um matuto, não sabia ler nem escrever, como a minha mãe também nunca quis aprender nem a ler nem escrever. Cada vez que a gente pegava no pé dela, a resposta vinha rápida:

− Burro veio não aprende não, burro veio não aprende mais nada, não!

Eu dizia sempre:

− Mãe, isso tá errado!

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Com o meu padrasto era a mesma coisa, mas eles tinham a inteligência deles. Meu padrasto era um homem que o que falava você podia escrever.

Ele sabia as horas pela posição do sol. Tinha conhecimento da vida, do mato, conhecia todos os tipos de verduras, frutas, legumes, de árvores. Parecia saber de tudo e minha mãe também. Você podia chegar para o matuto e perguntar: você sabe a hora?

Ele certamente iria te responder:

− Falta pouco para as duas horas da tarde.

Nem precisava conferir.

Toda manhã, ele pegava a marmita que minha mãe fazia. Em seguida, os dois saíam para o trabalho. Ela comia no emprego, mas ele não, tinha que levar marmita. Por incrível que pareça, todos esses caras, do mato, eles não esperam chegar meio-dia, tipo dez e meia, onze horas, já estão comendo. E eu quase aprendi isso. Quase, porque, contava minha mãe, que com quatro ou cinco anos, eu comecei a ajudá-los na colheita do café, na colheita do algodão, no corte de cana.

Era menino, mas minha mãe contava que eu era fortinho, que aos quatro anos ela botava um feixe de lenha ou cana na minha cabeça e eu levava para dentro daqueles carros de boi. Às vezes, eu, menino, dirigia a carroça de boi.

Era gostoso.

Meu padrasto, Alexandre, também era um homem alegre, gostava de festas, não dispensava a sua cachacinha, gostava demais da sua cachacinha. Não só ele, mas praticamente todos os trabalhadores da cana faziam a sua cachacinha de alambique. Naquela época, onde havia trabalho − de plantio ou de colheita − era para lá que iam os cortadores de cana, a gente da roça.

Pouco tempo depois, de Curupá nos mudamos para Nova Europa, hoje região administrativa de Araraquara e a 331 quilômetros da capital paulista.

Estávamos no começo dos anos de 1940. Minha mãe havia conseguido um emprego na Fazenda Itaquerê (Companhia Açucareira Itaquerê), assim batizada em homenagem ao rio do mesmo nome que corre próximo às suas terras. Foi trabalhar como empregada doméstica para a família Magalhães, dona da fazenda de cana-de-açúcar que de tão grande e importante tinha 13

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uma ferrovia particular, que saía da estação de Curupá, no ramal de Tabatinga da Estação de Ferro de Araraquara. A fazenda ficava nos arre-dores de Nova Europa.

E nossa vidinha ia se desenhando daquela maneira, quando um vendedor ambulante apareceu na Fazenda Itaquerê e convenceu minha mãe a comprar uma rifa, que seria sorteada pela loteria. O prêmio era uma casa. Ela comprou e rezou. E, por uma dessas sortes do destino, foi sorteada e ganhou a casa, com o inconveniente de que o imóvel ficava em Campinas, longe dali. Não sei como, mas minha mãe acabou vendendo a casa de Campinas e comprando um casarão na própria cidade de Nova Europa. Foi em Nova Europa que se escondeu o médico nazista Josef Mengele, em 1960. O Anjo da Morte viveu com o refugiado e húngaro Geza Gitta Stammer e trabalhou como gerente de sua fazenda.

Durante um período, moramos na casa de Nova Europa e minha mãe ia trabalhar na fazenda. Eu amava aquela casa! Tinha um pomar enorme e, quando era tempo de manga, de laranja ou abacaxi, eu e meu irmão Jairo saíamos pelas ruas da cidade vendendo frutas, para garantir uns trocados.

E nessa tentativa de garantir trocados, houve a fase em que fui engraxar sapatos. Minha mãe comprou uma caixinha para mim. Naquele tempo não se usava tinta, nem graxa. Era água. Você pegava e jogava água no sapato, ou álcool, e aí dava uma escovada e deixava no sol para secar a água, enquanto um pé secava, eu trabalhava no outro. Todos os domingos de manhã, depois da missa, minha mãe ia embora para casa e eu ia para a pracinha engraxar sapatos. Devia ter um seis anos.

Depois, conheci um cara que lavava o cinema da cidade. Lembro que ele era fanho, falava pelo nariz e se chamava Terto. Um dia me convidou para ajudá-lo a limpar o cinema, em troca de ingresso grátis. Ele não era muito velho, deveria ter uns 16, 17 anos. Um garotão. Comecei a ajudá-lo, mas meus amigos também queriam ver os filmes de graça e, quando eu entrava no cinema, sempre largava aberta a porta dos fundos para que eles pudessem entrar.

Depois de um tempo, Terto levou uma bronca tremenda do dono do cinema, que percebeu a molecada entrando de graça. E ele descobriu que era eu o culpado por deixar a porta destrancada. Fiquei pouco tempo como lavador de 15

cinema. Mesmo assim, deu para ver muitos filmes do Tarzan, do Johnny Weissmuller, de Jane, da macaca Chita. Gostava também do Durango Kid.

Todos aqueles filmes de caubói. Em desenho eu não era muito chegado não, gostava mais de filme de caubói, do John Wayne.

Quando eu tinha de sete para oito anos, minha mãe falou:

Oia meus fio, eu tenho que botar ocês pra aprendê um ofício!

E me colocou para aprender o trabalho de alfaiate. Meu irmão foi aprender o ofício de mecânico. Arranjei colocação na alfaiataria e Jairo na oficina mecâ-

nica. Aprendi a costurar antes mesmo de aprender a ler. Três homens me ensinaram a arte da alfaiataria: Aurelino Silva Souza, baiano, que ainda está vivo, José Valente, já falecido, e Alaor Buzar. Éramos funcionários da Alfaiataria Cazzeto, sobrenome do Argelindo, o dono. A mulher dele chamava-se Mariazinha. E eu era calceiro, aprendi e me especializei em fazer calças.

Antes disso, tive que ficar craque na arte de chulear.

O primeiro dos muitos apelidos que tive na vida foi Grande Otelo, não sei o motivo. Talvez porque na época eu fosse baixinho, meio fortinho, atarracadinho.

Eu não entendia nada, não tenho nem cacoete de Grande Otelo, nunca tive.

Com nove, dez anos, já costurava bem. Mas antes disso entrei para a escola e fiz o curso primário. Minha mãe fez de tudo para me botar na escola.

Quando meu irmão entrou, ele já deveria ter uns dez anos, eu tinha oito.

Quando Jairo começou a aprender a ler, minha mãe disse:

− Está vendo meu filho, você também tem que aprender, você também tem que ir para a escola.

Eu dizia:

− Não vou para a escola, eu não sei ler!

Ela dizia:

− Deixa de ser besta menino, só vai na escola quem não sabe ler para aprender!

Ela dizia que eu chorava, não queria saber de escola não. Aí, a partir da hora que eu entrei na escola, eu me dei tão bem, que descobri outro mundo.

E lá a gente tinha que aprender o Hino Nacional, o Hino da Bandeira.

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Todas as festas, todos os feriados, então a gente aprendia, a primeira coisa, a gente perfilava, lá no pátio da escola, e cantava o Hino. Foi quando a própria professora, dona Alice, começou a prestar atenção na minha voz, que já se destacava no meio da molecada.

Todas as vezes que minha mãe ia à escola para saber como eu e o Jairo estávamos nos comportando − ela era fogo, era pé firme, pegava a gente pela orelha − dizia:

− Sua mãe não sabe ler nem escrever, mas quero saber da sua professora se você está sendo levado!

Mas eu era estudioso e a professora sempre confirmava e ainda dizia à minha mãe:

− Ele canta muito bem. Fica na frente de toda a turma para cantar o Hino Nacional.

Católica fervorosa, minha mãe teve a ideia de me levar para o coral da Igreja de Nova Europa. Ela nos levava para assistir à missa aos domingos e eu só conseguia prestar atenção no coral. Dona Conceição retrucava:

− Presta atenção na missa!

E me tascava um beliscão. Doía. Ela pegava na orelha da gente com força:

− Presta atenção na missa, rapaz!

Depois, passei a fazer parte do coral da igreja, lugar onde eu participava também do time de futebol. O padre era o técnico e nos levava para jogar em campeonatos na cidade de São Carlos, Araruba, na Fazenda Itaquerê, em Nova Europa. Eram campeonatos mirins. E o que o padre fazia?

− Quem não vier à missa não joga!

Todos nós íamos, para não correr o risco de ficar fora do time. E eu sempre gostei, era o meu forte, estava até me preparando. Eu pensava que ia ser um craque de futebol. Mas quem acabou com essa minha onda foi a minha mãe. Ela realmente não gostava que eu jogasse bola, de jeito algum. A gente jogava descalço e naquele tempo não tinha asfalto. Aos sábados e domingos fechávamos a rua e com duas pedras marcávamos a área do gol.

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Nossa Senhora, eu amava. Aquilo era tudo para mim. Tanto que minhas pernas têm muitas marcas que permanecem até hoje.

E cada vez que eu chegava em casa machucado, minha mãe até chorava:

− Meu fio, pára com esse negócio de bola, meu filho! Você não dá pra isso!

Para compensar, ela me elogiava como cantor. O meu padrasto era muito ligado em música sertaneja. Certa vez comprou um violão e uma viola para que eu e meu irmão, Jairo, fizéssemos dupla, mas ela terminou no ensaio.

Em Nova Europa tinha aqueles seresteiros, aquele pessoal que saía cantando nas janelas da amada, nas fazendas, e eu fugia à noite para ouvi-los. Nós morávamos num sobrado, pagávamos quase nada, acho que o dono deixou a gente morar lá porque ninguém queria saber de morar em sobrado, porque diziam que aquilo era coisa mal-assombrada. Um sobradão, acho que cabiam umas dez pessoas lá dentro.

Eu e o meu irmão dormíamos na parte de cima, e minha mãe com meu padrasto ficavam embaixo. Então, o que a gente fazia? A gente deixava uma escada na varanda que dava para nossa janela, porque meu padrasto queria ver todo mundo dormindo, não dormia enquanto a gente não fosse dormir.

Era sempre a mesma ladainha:

− Vão pra cama, isso não é hora de moleque estar na rua, não!

E eu sabia que tinha aquele seresteiro e gostava. Então descia as escadas, saía no pomar, não tinha cachorro, não tinha nada para fazer barulho, só tinha galinha, aí a gente atravessava um riozinho assim, tirava os sapatos, pulava lá do outro lado do riozinho, do córrego, e ia acompanhar os seresteiros até bem tarde. Na volta era o mesmo processo. Eu sempre gostei de acompanhar esses seresteiros, esses violeiros, ficava lá, sentado, ouvindo. Aprendia as músicas:

Deixa a cidade, formosa morena...

Eu era pequeno, mas sabia de tudo isso.

− Boa noite amor, meu grande amor...

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Na verdade, foi na alfaiataria que comecei a me inteirar das músicas populares do Ataulfo Alves, Silvio Monteiro, Mendes Silva, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Agostinho dos Santos. Porque os três rapazes que trabalhavam lá, os três empregados, eles também cantavam.

Minha infância foi pobre, mas nunca passamos fome. A gente sabia que, se trabalhasse, vivia. Então minha mãe mexia com tudo, eu engraxava para ajudar o pessoal, dava uma força na farmácia para colocar os remédios nos lugares. Tudo o que aparecia e podia ajudar em casa eu pegava. Mas fome, graças a Deus, nunca. Tanto é que, quando perdemos nosso pai Rodrigo, algumas pessoas se ofereceram para nos criar.

− Deixa eu levar seus filhos? Me dá dois desses filhos?

Naquele tempo era assim. Porém, minha mãe sempre dizia:

− Meus filhos não! O que eu comer meus filhos vão comer e eu mesma fiz e eu mesma vou criar. Seja lá o que Deus quiser!

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A Vida em São Carlos e a

Descoberta da Vocação

Quando completei 14 anos, em 1953, minha família resolveu deixar Nova Europa e tentar a vida em São Carlos, onde alguns amigos e vizinhos já haviam se estabelecido e nos mandavam boas notícias sobre a cidade. São Carlos, a 231 quilômetros da capital paulistana, já era uma promessa de desenvolvimento naquele tempo. Era conhecida como a cidade do clima, devido ao ar seco e ameno. Hoje é conhecida como a capital da tecnologia

− um em cada 180 habitantes tem título de doutor (no Brasil, o número é de 1 para cada 5.423 habitantes), 39 cursos de graduação e 70% dos programas de pós-graduação locais são da área de ciências exatas.

E lá atrás, ainda nos anos 1950, minha mãe vendo que eu já tinha aprendido um ofício e meu irmão também, sentiu que estava na hora de procurar vida melhor em outra cidade. Só que a família não mais estaria unida nesta empreitada. Meu irmão Jairo não foi conosco. A relação entre ele e meu padrasto Alexandre não tinha conserto. Ele não quis ir conosco, pois nunca aceitou de fato a autoridade dele.

Tinha uma pinimba muito grande entre os dois. Jairo não obedecia. Quando chegava a época de plantar feijão, plantar milho, Alexandre nos dava uma vasilha com sementes e era preciso colocar no máximo três grãos de feijão ou de milho em cada cova. E meu irmão colocava um monte. Eu fazia direiti-nho. E meu padrasto avisava:

− Se nascer mais de três pés de feijão e milho aqui vou esfregar sua cara e fazer você arrancar!

E, claro, isso sempre acontecia com os pés que ele plantava. Meu padrasto também não era fácil. Como eu obedecia, ele me tratava bem. Mas com o Jairo era diferente. Eles brigavam muito, até que Jairo saiu de casa aos 14 anos e foi morar em Araraquara, trabalhar como mecânico. Morava dentro da oficina.

Em São Carlos fomos viver num bairro chamado Tijuco Preto, Rua da Raia, uma casa perto do cemitério. Ali havia também uma área grande beirando 20

o cemitério, onde a garotada improvisou um campo de futebol. E eu adorava jogar futebol, apesar da minha mãe, e comecei a fazer amizade com aquele pessoal. No quintal de casa tinha um poço de água. E a turma que jogava bola deixava as camisas e meias para minha mãe lavar. E o saco de bolas também ficava em casa.

Quando completei o primário, não continuei a estudar. Só costurava. Fui procurar emprego numa alfaiataria em São Carlos e eles davam preferência a pessoas que costurassem em casa. Diante disso, minha mãe comprou uma máquina de costura − a primeira que tive e que está comigo até os dias de hoje −, para que eu pudesse trabalhar em casa. E, junto, ela comprou uma radiovitrola. Televisão, a gente via na casa dos vizinhos.

E minha rotina passou a ser costurar e ouvir rádio.

Escutava Francisco Alves, Orlando Silva, Elizete Cardoso, Agostinho dos Santos.

Naquele tempo não tinha essa coisa de música específica para cada programa, tocava-se de tudo. E eu cantando junto! Minha mãe, então, chamava as amigas e dizia:

− Meu fio acho que vai dá pra um bom cantô!

E me incentivava cada vez mais.

E, para brincar, eu sempre falava para ela:

− Que dá pra bom cantor, o que é isso?

E ela, sem malícia:

− Não tô falando nesse sentido não, seu bobagento.

Um dia, minha irmã Maria Aparecida, que hoje mora em Jacareí, se interessou em cantar. Adorava cantar as músicas de Dalva de Oliveira, Ângela Maria e se inscreveu para ir ao programa de calouros em São Carlos. E eu fui incumbido de levá-la na rádio São Carlos. Fomos de bonde.

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Nesse mesmo dia do ensaio, minha mãe avisou toda a vizinhança:

− Minha fia vai cantá hoje na rádia!

Maria havia ensaiado um grande sucesso de Ângela Maria, Lábios de Mel.

Porém, minha irmã tinha um vozeirão, mas nenhuma noção de ritmo.

O pessoal da orquestra tentou ajudar, mas não dava certo. Ela começava a cantar e atravessava. Percebendo a aflição, resolvi ajudá-la, passando o ritmo pra ela:

Meu amor quando me beija/vejo o mundo revirar.

O chefe do conjunto virou-se para mim e falou:

− Que pena, sua irmã não passou no teste. Mas você não quer cantar pra ver se passa?

E eu sabia uma música que era cantada pelo Francisco Alves, Vivo bem na minha terra, samba de 1941 (Gastão Vianna − Jorge Faraj) Ah, se eu pudesse, vivia como lorde na Inglaterra...

E cantei. Minha irmã ficou tiririca, fula da vida comigo. Porque no final, ganhei o concurso. Ganhei um prêmio de 500 mil réis, um par de meias, um cinto e uma camisa. A partir daquele dia, todos os domingos eu voltava à rádio.

Uma loucura! Ela me adora, gosta de mim, mas nessa área é completa-mente frustrada. Um dia falei com ela: parece que você ainda carrega isso. Eu percebo, mas deixo para lá.

Voltei a cantar na rádio São Carlos umas quatro ou cinco vezes seguidas, sempre aos domingos.

Mas, desde que fui morar em São Carlos, meu sonho era ser jogador de futebol, não pensava em ser cantor. Comecei a jogar no meio da rapaziada no campo ao lado do cemitério, no Tijuco Preto. E eu jogava no meio dos grandes, uma moçada de 26, 27 anos. Eles levavam aquele bate-bola muito a sério. Um dia um adversário entrou na minha perna com tudo, uma 22

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pancada violenta, um coice, que acabou destruindo o músculo. Quase viro saci-pererê. Passei a andar de muletas. Diante do estrago, minha mãe decidiu com muita determinação:

− Você não vai mais jogar!

A reabilitação se deu aos poucos. Eu ainda era um molecote de 15 anos e tinha muita saúde. Talvez para tirar o futebol definitivamente dos meus planos de futuro, minha mãe passou a incentivar minhas cantorias com mais intensidade.

Começou levando as amigas em casa para me ouvir cantar. Nossa casa ficava no alto e tinha um corredor que dava para a sala onde eu costurava.

A janela abria para um muro bem baixinho. Eu costurava e cantava. Quando olhava para cima, estava cheio de gente. Aí minha mãe disse:

− Meu fio, se você continuar assim vai dar num grande cantor!

Tinha meus 17, já era bem crescidão, e comecei a frequentar aqueles clubes, os clubes da cidade. Cantava, dava canja.

Quando atingi a faixa dos 17, quase 18 anos, fui servir no Tiro de Guerra de São Carlos, TG-43. Entrei no exército. Logo ao me apresentar e já nos primeiros dias encontrei uma turma muito bacana que todos conheciam como Grupo A. Servíamos do meio-dia às seis da tarde. Como eu tinha que costurar de manhã, minha ordem unida era de meio-dia às seis. No exército aprendi a atirar, a marchar, dar ordem unida. E foi ali que ganhei o meu segundo apelido, de tantos outros que eu ainda teria na vida. Grande Otelo ficou para trás e surgiu o Peru. E era porque eu marchava feito um peru.

Os caras morriam de rir ao me ver marchando.

No quartel também acontecia de recebermos castigo. Enquanto o sargento estava dando aulas na lousa, os soldados jogavam bolinha de papel, faziam bagunça. E como castigo a gente tinha que molhar o pátio. Todo barrento, a gente tinha que se esfregar no barro e chegar em casa todo enlameado.

Porém, no dia seguinte, tinha que voltar limpinho pro quartel.

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Ainda bem que eu tinha logo duas mudas de fardas. E os meninos do meu grupo também gostavam de batucada, gostavam de cantar e jogar bola. E então passei a ser o crooner, o cantor do Grupo A. Até que um dia um amigo me falou:

− Peru, tem uma casa aqui em São Carlos de um restaurante chamado Bambu e o cantor vai pra São Paulo. Você não quer ir lá fazer um teste?

Um desses colegas do Exército tinha o apelido de Quatroquinha, era o mais terrível amigo da gente, era o que fazia as anarquias lá com o sargento, embora ninguém contasse e, por isso, os castigos eram aplicados em grupo. E esse Quatroquinha era meu fã, um cara danado. Era um daqueles que acabou me levando para o Bambu.

Eles tinham amizade com um tal maestro, Félix. E resolveram então me levar até a sua casa e me apresentar a ele.

Mal sabia eu que depois de conhecer o maestro Félix minha rota do destino seria traçada.

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O Tiro de Guerra e o

Restaurante Bambu

O ano era 1959 e eu já com meus 19 anos. Um sábado à tarde, os meus amigos da Turma A do exército me levaram até a casa do maestro Félix. Meu horizonte, naquele tempo, era pequeno, não sonhava com nada em especial, além de defender a vida com o trabalho da alfaiataria e cumprir meu tempo de quartel. O futebol já havia ficado para trás.

Ao chegar à casa do maestro Félix, a primeira pergunta que me fez:

− O que você gosta de cantar?

Eu disse que gostava das músicas do Agostinho dos Santos...

Agostinho era o meu cantor favorito. Naquele ano, ele tinha gravado o que seria o maior sucesso de sua carreira, Manhã de Carnaval, de Luís Bonfá e Antônio Maria, música da peça e depois do filme Orfeu Negro. Ele era paulista e eu adorava sua voz macia, privilegiada.1 Embora a bossa nova tivesse surgido um ano antes, com João Gilberto e seu Chega de Saudade, nos anos 1957, 1958 e 1959, outras canções também ocuparam a parada de sucessos, como Castigo (Dolores Duran), Atiraste uma Pedra (Herivelto Martins e David Nasser), Meu Mundo Caiu (Maysa), Viva Meu Samba (Billy Blanco), Deusa do Asfalto (Adelino Moreira). Canções que eu ouvia na rádio e aprendia a cantar.

Naquela tarde de sábado lá em São Carlos, quando revelei ao maestro Félix minhas predileções musicais, ele me apresentou várias partituras de canções que ele conhecia e eu também. Gostou da minha voz e do que ouviu, pois combinamos que eu deveria aparecer à noite no restaurante Bambu, onde ele tocava acompanhando um cantor que estava de mudança para São Paulo.

1. Agostinho dos Santos morreu em 1973, em trágico desastre aéreo nas imediações do Aeroporto de Orly, em Paris, no voo Varig 820.

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Fui com meus amigos do Grupo A. E percebi que os frequentadores toma-vam drinques, comiam e batiam papo sem sequer perceber a música que estava tocando. Foi quando o maestro Félix me chamou para cantar.

Comecei acompanhado de teclado, piano e bateria:

Manhã, tão bonita manhã

Na vida, uma nova canção

Cantando só teus olhos

Teu riso, tuas mãos

Pois há de haver um dia

Em que virás

Das cordas do meu violão

Que só teu amor procurou

Vem uma voz

Falar dos beijos perdidos

Nos lábios teus

Canta o meu coração

Alegria voltou

Tão feliz a manhã

Deste amor2

E notei que o pessoal que estava bebendo começou a prestar atenção. E foi indo assim muito bem, pois a cada canção nova eles aplaudiam. Depois da apresentação, o dono do restaurante Bambu falou comigo:

− Puxa, você canta em algum lugar?

O maestro Félix respondeu por mim:

− Ele veio aqui para ver se consegue cantar no Bambu nos fins de noite.

2. Manhã de Carnaval, Luís Bonfá e Antônio Maria.

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Aí estabeleceram um cachezinho para mim e gostei. Foi a primeira vez que cantei e recebi por isso. Minha mãe gostou demais.

Meu irmão Jairo era sargento do exército e, quando ia a São Carlos nos visitar, passou a me presentear com discos, livros e informações sobre música, para que eu pudesse saber mais sobre a profissão de cantor. Ele me ouviu uma noite no Bambu e também tinha ficado impressionado.

− Ah, meu irmão, mas você canta!

Numa dessas visitas, Jairo perguntou à minha mãe o que ela acharia se eu me mudasse para São Paulo. Usou o argumento de que eu poderia morar com ele em Osasco, onde servia. Jairo já era casado e minha mãe confiava nele. Adoramos a ideia. Jairo foi muito prático:

− Jair vai morar comigo, porque aqui em São Carlos, se ele ficar não vai ter condições. Não vai caminhar, vai ficar sempre aqui, então vou levar ele para São Paulo, porque em São Paulo tem mais condição e enquanto não ingressa na carreira artística ele vai aproveitar para ganhar a vida. Eu já tenho um lugar para ele trabalhar como alfaiate.

E assim foi feito. Deixei São Carlos, os amigos, o restaurante Bambu, a alfaiataria e levei para São Paulo as boas recordações da minha vida naquela cidade.

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São Paulo, o Começo de Tudo

Desembarquei em São Paulo no ano de 1959. Cheguei com meu irmão Jairo em Osasco e fomos direto para a casa dele no Jardim de Abreu. Ali moravam Odete, minha cunhada, a mãe dela e as irmãs, uma se chamava Marcília.

Viviam todos juntos. Quatro ou cinco dias depois saí à procura de trabalho por ali mesmo. Trabalho de alfaiate, claro. Consegui uma colocação na Alfaiataria Primor. Era para garantir a sobrevivência nos primeiros tempos.

Mas, pouco tempo depois, meu irmão Jairo chegou em casa e disse:

− Jair, se apronta! Hoje vamos conhecer a noite de São Paulo!

Foi um problema arranjar um jeito de me vestir bem para aquela importante jornada. Meu irmão sairia fardado e eu não tinha terno. Ele me emprestou o dele, embora eu tivesse que espichar a calça porque ele era bem menor do que eu. Àquela altura eu já tinha meus 1,80 metro. Não era mais parrudinho como na infância. Tinha virado um pirulitão. Vesti finalmente o terno reformu-lado, camisa social e uma gravata bem fininha.

Nosso primeiro destino foi a Avenida 9 de Julho, que sai do centro da cidade.

E paramos numa casa que se chamava 707. Bar 707. Entramos e procuramos uma mesa, até Jairo identificar com quem poderia falar ali. Depois dirigiu-se ao gerente:

− Meu irmão é cantor. Será que ele pode dar uma canja?

O homem concordou. Peguei o microfone e cantei. Todos foram educados, gostaram do que ouviram, porém imediatamente ficamos sabendo que a casa não precisava de um crooner. A turma do 707 acabou nos incentivando a procurar outros endereços.

E foi o que fizemos. Naquela mesma noite, visitamos outra casa noturna.

Era um lugar engraçado. Durante o dia, chamava-se Panificadora São Bento e, à noite, Gruta São Bento. Ficava exatamente na rua São Bento, no edifício Martinelli. Chegando lá, meu irmão usou dos mesmos artifícios. Procurou o gerente:

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− Olha, está aqui meu irmão. Ele canta. Será que pode dar uma canja?

E na Gruta São Bento um sanfoneiro chamado Rolando Sterzi cantava músicas italianas. Ele disse que eu podia pegar o microfone. E comecei a cantar. Para nossa surpresa, ao terminar minha apresentação, o dono da Gruta me convidou para cantar lá. Ficamos felizes da vida, pois na segunda tentativa já arranjei um trabalho. Havia, no entanto, um empecilho legal. Eu, com 19 para 20

anos, ainda era menor de idade pela legislação em vigor na época − maior de idade, só com 21 anos.

Enquanto discutíamos a situação com o dono da Gruta, ele mesmo apontou a solução:

− Se por acaso vierem aqui do Juizado de Menores, a gente dá um jeito.

E foi assim que comecei a cantar na Gruta São Bento, de segunda a sábado.

Das nove da noite à duas horas da madrugada. Algumas vezes a fiscalização aparecia por lá. Na verdade, eles nem olhavam para mim, nem reparavam que eu poderia ser menor de idade, mas o dono ficava com medo. Numa dessas vezes resolveu me esconder dentro de um freezer (desligado, claro!).

E a turma do Juizado de Menores perguntava para os garçons:

− Cadê o cantor? Viemos pra ouvi-lo!

Naquele dia, foram correndo me tirar do esconderijo. Mas nunca perguntaram a minha idade. Teve até um dia que meu irmão Jair voltou na Gruta para me ouvir. Só que estava sem farda e o porteiro não quis deixá-lo entrar antes de falar comigo:

− Tem um rapaz ali que diz que é seu irmão, mas ele não quer apresentar os documentos. Ele é de menor?

− Não, ele é mais velho do que eu!

Tive que ir lá na porta para salvar meu irmão. Ele ficou indignado:

− Meu irmão que é menor está aí cantando e eu nem posso entrar!

A São Paulo que comecei a conhecer em 1959 ainda cultivava a noite e os programas de rádio. A televisão ganharia força um pouco depois. Os cantores 33

que até então faziam sucesso vinham do rádio, como Ângela Maria, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Ataulfo Alves, Dalva de Oliveira, Dick Farney, Elizeth Cardoso, Francisco Carlos, Isaurinha Garcia, Jorge Goulart, Francisco Alves, João Dias, Inezita Barroso, Nelson Gonçalves, Nora Ney, Orlando Silva. Alguns historiadores da música popular, aprendi depois, consideraram a década de 1950 como de involução musical, provocada pela moderna indústria do disco que começou a criar e a manipular uma nova audiência. Era o início do que se chamou depois de manipulação do sucesso.

O mais importante, no entanto, é que, para muitos, os anos 1950 na música popular foram marcados pela decadência e internacionalização da canção.

Tanto que, no mesmo período em que cheguei a São Paulo, um novo espaço para a música surgia no Rio de Janeiro, com as boates da zona sul, que reuniam músicos, jornalistas, escritores e gente que gostava de ouvir música. Reunia-se, enfim, naquelas boates, Vogue, Au Bon Gourmet, Arpége, Sacha, todos aqueles que atuavam no meio da produção artística cultural e intelectual urbana.

A bossa nova estava surgindo e com força bruta. Basta ver a lista das músicas mais tocadas do ano de 1959, que pesquisei no livro do Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello:

Chiclete com Banana (Gordurinha e Almira Castilho) Desafinado (Jobim e Newton Mendonça), na voz de João Gilberto Dindi (Antonio Carlos Jobim e Aloísio de Oliveira) Eu Sei que vou te amar (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes) A Felicidade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes) Lobo Bobo (Carlos Lira e Ronaldo Bôscoli)

Manhã de Carnaval (Luís Bonfá e Antônio Maria) A Noite do Meu Bem (Dolores Duran)

Recado (Luís Antônio e Djalma Ferreira)

O Samba É Bom assim (Norival Reis e Hélio Nascimento) Em 1959, o Brasil começava a se despedir do presidente Juscelino Kubitschek, no ano seguinte haveria eleições. Jânio Quadros e o Marechal Teixeira Lott seriam os candidatos. Foi o ano do lançamento do Fusca, da inauguração da ponte aérea Rio – São Paulo e em que os paulistanos elegeram Cacareco 34

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para vereador. Enquanto ainda comemorávamos a Copa do Mundo de 1958, outra estrela, Maria Ester Bueno, venceu o torneio simples de Wimbledon, e o filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. No Rio, Roberto Carlos gravou seu primeiro disco, um compacto simples. E, para tristeza de todos, morreram Dolores e Heitor Villa-Lobos.

Eu, na verdade, ainda estava alheio aos fatos e aos movimentos. Buscava com toda a minha força um lugar entre os cantores da noite. E foi isso que fiz, desde o início.

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Um Cantor da Noite

Cantei nas noites da Gruta São Bento de 1959 a 1961. O bar da Gruta era muito parecido com o do filme Casablanca e frequentado por mulheres mais velhas. No começo foi difícil. Meu trabalho na boate ia até as duas horas da manhã e eu era obrigado a esperar até as seis horas para pegar o trem que seguia para Osasco. E, quando chegava na casa do meu irmão, às sete ou oito horas, não podia dormir, porque tinha que abrir a alfaiataria.

Durante cinco ou seis meses levei essa vida. É claro que fiquei extenuado.

E disse ao meu irmão que estava ficando difícil. E como, finalmente, eu já estava conseguindo viver do meu trabalho com a música, já poderia me mudar para o centro da cidade.

Jairo foi comigo procurar uma pensão para que eu morasse. Encontramos uma atrás da igreja de Santa Cecília. A dona era uma portuguesa. Gostou do meu jeito e disse que na pensão havia um quarto, onde já tinham duas camas e ela iria colocar mais uma. Será que eu toparia?

Sim, eu não me importei de ficar com outros dois. E ela disse ainda:

− Tem que pagar de 15 em 15 dias. Aí dei uma entrada, paguei logo os primeiros 15 dias adiantado e ela gostou.

Certo dia, já em 1962, eu tinha um grande amigo chamado Nino. Era baterista, que também tocava na noite. Jogávamos bola juntos e ele morava numa pensão, perto da Consolação, esquina com a Rego Freitas. Uma noite eu estava na Gruta São Bento e ele veio com a novidade:

− Vim te tirar daqui. O Djalma Ferreira inaugurou uma casa e ele precisa de um cantor. O Miltinho está fazendo sucesso no Rio e vai sair. E você, então, vai lá às duas horas para ensaiar.

Os músicos eram o Heraldo do Monte, o Luís Chaves e o Luis Mello, pianista.

Fui ensaiar e o Djalma estava lá. O Luís Mello me achou fraco. Aí o Heraldo, o Luís Chaves e o Nino disseram que se eu era fraco eles também eram e não ficariam também. E o Luís Mello se justificou dizendo que tudo bem, que eu não tinha era repertório.

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A boate Djalma’s fez história na noite paulistana. Fundada pelo pianista, compositor e homem da noite, o carioca Djalma Ferreira, havia inaugurado sua primeira casa em São Paulo em 1960. Era um veterano na música e na noite. Muito experiente. Sua primeira composição foi gravada em 1936, por Francisco Alves. Desde os anos 1940 já atuava como pianista em casas de jogos como o Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, e na cidade mineira de Poços de Caldas. Trabalhou, também, na boate do Hotel Quitandinha (Petrópolis, RJ). Em 1945, formou o grupo Os Milionários do Ritmo. Abriu a boate Drink em 1954 no Rio de Janeiro, onde foram praticamente lançados vários cantores, como Miltinho, Ed Lincoln, Sílvio César e Helena de Lima.

Ocupava o coração da noite de São Paulo, na praça Roosevelt, e se instalou onde antes funcionava o Farney’s, dos irmãos cantores Dick e Cyll. Um ano depois de minha estreia em sua boate, Djalma mudou-se para os Estados Unidos e, em 1968, foi viver definitivamente em Los Angeles, apresentando-se em cassinos e hotéis. Morreu em 2004, em Las Vegas.

Depois da saída de Luís Mello, para substituí-lo, contrataram o Hermeto Pascoal. E, depois do baterista Nino entrou o Rubinho que, ao lado de Luís Chaves e Amilton Godoy, formaria o famoso Zimbo Trio. Quando entraram o Hermeto e o Rubinho, logo em seguida também veio o Dave Gordon, na época em que era casado com a irmã da Dolores Duran, Izzy Gordon, de nascimento Denise Helena Rocha Gordon.

Ela começou a cantar profissionalmente como a irmã sempre quis. Gravou dividindo com Marisa um LP e um 78 rotações. Fez também programas de televisão em São Paulo e Rio de Janeiro e cantou na Boate Baccarat, no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro. Veio para São Paulo para inaugurar a Boate Djalma’s, do Djalma Ferreira, proprietário também da Boate Drink, e ali foi apresentada ao cantor Dave Gordon da Guiana, que já conhecia Dolores e havia ficado muito impressionado, pois ela sentou-se ao piano e o acompa-nhou cantando a música Hey There. Em seguida, ela o convidou para jantar em sua casa e no dia seguinte Dave e Izzy começaram a namorar e casaram em seis meses. Tiveram dois filhos: Denise (Izzy) e David Anthony (Tony), ambos cantores.

Da boate Djalma’s acabamos praticamente todos nos mudando para o Stardust, que ficava do outro lado da praça Roosevelt, na época o centro nervoso das 38

boates e boa música na noite paulistana. Moacyr Peixoto (irmão de Cauby e Araquém) dominava a Baiúca. Havia ainda o Bon Soir e a Vogue, onde Laura Garcia ensaiava com suas garotas o que seria a futura La Licorne, casa de mulheres e shows de travestis.

O Stardust foi fundado por Alan Gordin e Hugo Landwer, músicos, parceiros e sócios. Alan Gordin era filho de russos, nascido na China, e sua mulher, polonesa, também nascida na China. O filho de Alan, Alexander Gordin, o Lanny Gordin, nascido em Xangai, virou mito e um dos maiores guitarristas brasileiros. Hugo era romeno e conheceu Alan aqui no Brasil.

Eu já tinha sido convidado para cantar no Stardust, que era do outro lado da praça. Uma semana depois, o Hermeto, o Luís Chaves, o Rubinho, todos também receberam proposta para cantar no Stardust. O Hermeto chamou o Benitez, que era o gerente do Djalmaś, e disse que todos haviam recebido convite para ganhar o dobro do que ganhavam lá.

Benitez não acreditou. Achou que era cascata, papo-furado. O Hermeto ficou bravo. E a partir daquele momento resolveu parar. Todos pararam. Ele ficou irredutível. No dia seguinte fomos todos para o Stardust. E eu cantei ali até 1967. Foi na boate Stardust que Hermeto começou a se interessar pela flauta.

Para praticar o instrumento, ele se trancava no banheiro da boate ou ia para a Igreja da Consolação durante o intervalo das apresentações, chegando a dominar o instrumento em apenas um mês. Logo recebeu um convite do cantor Walter Santos para participar da gravação do seu LP Caminho, lançado em 1965, como flautista.

Ali nasceria também o maior sucesso de minha carreira, com uma música que me colocaria nas paradas de sucesso.

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Venâncio e Corumba, a Vida Profissional

Para dar continuidade à carreira, fora o trabalho na noite, eu também cantava em programas de calouros. A Rádio Tupi ficava na Avenida São João, quase esquina com a Duque de Caxias. E ali acontecia o Programa Cláudio de Luna, um mineiro que foi radialista popular e advogado criminal ao mesmo tempo.

Chegou a São Paulo em 1948 e, depois de começar a carreira como locutor comercial, passou a apresentador de programas e animador de auditórios.

Seus colegas da época: Arruda Neto, Alfredo Nagib, Luiz Falanga, Homero Silva, Jota Silvestre. Tinha um estilo alegre, sempre gostou de rir, de contar piadas, de viver levando tudo na brincadeira.

Certo dia, eu estava na fila para me inscrever no seu programa de calouros e ele disse:

− Olha, não dá para inscrever todo mundo. Vou escolher alguns.

Parou na minha frente e perguntou:

− Você quer cantar hoje?

Eu era quase um dos últimos. Respondi que sim.

Ensaiei, cantei e ganhei o prêmio.

Desde que eu havia começado a trabalhar no Djalma’s, para complementar o orçamento, cantava ainda num salão de baile, um dancing, onde as pessoas tinham que picar o cartão das moças para dançar. Chamava-se Azteca. Ali também se apresentava a dupla Venâncio e Corumba. Eles eram considerados os maiores repentistas do Brasil. E seriam os parceiros e amigos mais importantes de minha carreira.

Autores da inesquecível No último pau-de-arara, os dois nasceram em Pernambuco. Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o Venâncio, e Manuel José do Espírito Santo, o Corumba. Eles se conheceram em 1928, ano em que surgiu a dupla. No início dos anos 1940, foram se aventurar no Rio de Janeiro. Gravaram o primeiro disco em 1950 e, nesse mesmo ano, mudaram-se para São Paulo, contratados pela Rádio Nacional (atual Rádio Globo).

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Foi na capital paulista que também começaram a empresariar artistas. Eram donos da Venca Produções. Venâncio trabalhou muito para melhorar o status do nordestino por aqui e chegou a presidente da Associação de Repentistas, Poetas e Folcloristas do Brasil, na década de 1970. Jair: Corumba era segurança de uma casa de forró, lá em Pernambuco. O apelido dele era Mané do Pato Morto. Ele contava que vivia com uma peixeirona aqui atrás e tomava conta de um forró.

A dupla se desfez em 1968. Corumba continuou como empresário e chegou a morar na minha casa, quando já estava bem velhinho.

Depois de me ouvirem cantar no Azteca, os dois foram conversar comigo.