Jeca Tatu, Macunaíma, a preguiça e a brasilidade por Carmen Lucia de Azevedo - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de História

Programa de Pós-Graduação em História Social

Jeca Tatu, Macunaíma, a preguiça e a brasilidade

Carmen Lucia de Azevedo

VERSÃO CORRIGIDA

Orientador: Prof. Dr. Elias Thomé Saliba

São Paulo

2012

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de História

Programa de Pós-Graduação em História Social

Jeca Tatu, Macunaíma, a preguiça e a brasilidade

Carmen Lucia de Azevedo

VERSÃO CORRIGIDA

Tese apresentada ao programa de Pós-

Graduação

em

História

Social

do

Departamento de História da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para obtenção

do título de Doutor em História

Orientador: Prof. Dr. Elias Thomé Saliba

São Paulo

2012

2

Ao Ilmar,

meu mestre sempre

Ao Paulo Cesar,

companheiro de todas as horas

( in memoriam)

À Camila,

Thiago e Pedro,

herdeiros das reminiscências

3

RESUMO

Jeca Tatu, Macunaíma, a preguiça e a brasilidade

Esta tese se dedica ao estudo de dois personagens de destaque na literatura

brasileira, Jeca Tatu, personagem que surge nos primeiros artigos publicados por

Monteiro Lobato em 1914 em O Estado de S. Paulo e o acompanha durante toda sua

trajetória como escritor, e Macunaíma, protagonista do romance homônimo publicado

por Mário de Andrade em 1928. Cada um a seu modo, os dois autores buscam

apresentar um retrato da essência brasileira por meio da construção desses personagens,

dando relevo a uma característica em comum: a preguiça. O principal objetivo deste

trabalho é rastrear a criação desses dois ícones da brasilidade, analisando as

circunstâncias histórico-culturais em meio às quais eles foram gestados e buscando

captar em que medida e por que ambos os autores colocam a preguiça no coração dos

personagens, como elemento central do seu comportamento.

PALAVRAS-CHAVE: literatura brasileira – história da cultura – modernismo –

brasilidade – preguiça – Mário de Andrade – Monteiro Lobato

4

ABSTRACT

Jeca Tatu, Macunaíma, laziness and Brazilianism

This work presents a study about two well-known Brazilian literary characters,

Jeca Tatu, which appears in Monteiro Lobato's first texts, published in 1914 in O

Estado de S. Paulo, and will be an ongoing character until his death, and Macunaíma,

main character of the homonym novel published by Mário de Andrade in 1928. In

different ways, the two writers aim to present a portrait of brazilian cultural essence

through these literary characters, emphasizing a shared characteristic: the laziness. The

main purpose of this work is trying to trace the conception of these both characters,

analyzing their historical and cultural contexts and searching for the reasons for laziness

being chosen as one of main characteristics of both Jeca Tatu and Macunaíma.

KEYWORDS: Brazilian literature – cultural history – modernism – Brazilianism –

laziness – Mário de Andrade – Monteiro Lobato

5

SUMÁRIO

Agradecimentos .......................................................................................................

7

Introdução ................................................................................................................

9

1 - Jeca Tatu ............................................................................................................

12

Sobre o autor, Monteiro Lobato .........................................................................

16

A gestação do Jeca ..............................................................................................

24

O début do personagem ......................................................................................

30

O Jeca visto de perto ...........................................................................................

33

Os desdobramentos do Jeca ................................................................................

42

2 - Macunaíma .........................................................................................................

47

Sobre o autor, Mário de Andrade .......................................................................

52

Romance de formação em cadência de gesta .....................................................

62

A complexa rede de Macunaíma ........................................................................

73

3 - A preguiça e a brasilidade ..................................................................................

96

O sertão, a preguiça, a riqueza e a cidade de São Paulo .....................................

110

Semelhanças e diferenças entre os personagens e seus autores ..........................

128

Entre Lobato e Mário, o modernismo .................................................................

138

Conclusão ................................................................................................................

149

Fontes e bibliografia ................................................................................................

152

6

“O grande problema não é o que você não sabe; é o que

você tem certeza que sabe, só que não é verdade”

Mark Twain

“Meu destino é lembrar que existem mais

coisas que as vistas e ouvidas por todos”

Mário de Andrade. Carta a

Manuel Bandeira, 10/10/1924

7

AGRADECIMENTOS

Nada do que irão ler aqui poderia ser escrito se Monteiro Lobato e Mário de

Andrade não fossem quem foram e não deixassem as obras que deixaram. Também os

contemporâneos, que com eles conviveram e interagiram, e todos os que de alguma

maneira preservaram esse legado, editores, arquivistas, bibliotecários, inúmeros e

anônimos, muitos deles, essa gente toda comparece de alguma forma nesta pesquisa.

Foram eles que registraram, conservaram e ajudaram de variadas maneiras os livros e

documentos a sobreviver e alcançar sucessivas gerações de leitores, todos sempre a

renovar a alegria do acesso ao conteúdo de suas narrativas cativantes e informações

preciosas. Também os críticos e estudiosos participam dessa cadeia imensa de muitos

elos, da qual este trabalho é tributário.

Além dessa imensa rede de pessoas cujos rostos jamais conheci (vez por outra

vislumbrei um perfil através de fotografias, mas quase sempre puder ver somente seu

trabalho), alguns amigos muito chegados foram extremamente importantes para o curso

da pesquisa. À grande amiga Maria Lêda Oliveira devo, sem sombras de dúvida, a

maior contribuição para a clareza que porventura tenha conseguido atingir neste texto.

Nossos sucessivos encontros e as muitas horas que passamos a conversar sobre o que

aqui está exposto foram fundamentais para o andamento do trabalho e motivo de muita

alegria, porque é sempre muito bom partilhar pesquisas, descobertas e prospecções.

Patricia Raffaini foi outro ombro amigo, compartilhamos o orientador e também longos

papos sobre Mário de Andrade e Monteiro Lobato, autores sobre os quais ela trabalhou

em seu mestrado e doutorado, respectivamente. Erika Werner ouviu-me inúmeras vezes,

algumas comemorando vitórias, outras reclamando percalços vários, e me ajudou

sanando dúvidas em alemão e latim, e confeccionando a versão para o inglês do resumo

deste trabalho.

Sou igualmente devedora ao corpo de funcionários do Instituto de Estudos

Brasileiros, tanto da biblioteca quanto do arquivo, sempre solícitos e prestativos na

localização de obras e documentos, e ao pessoal da Biblioteca Florestan Fernandes, da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

8

Gostaria de agradecer em especial ao meu orientador, prof. Dr. Elias Thomé

Saliba, a paciência e a interlocução cuidadosa e gentil, sempre colaborando para que o

trabalho chegasse a bom termo.

O apoio da CAPES foi outro elemento importante nesta teia, pela concessão da

bolsa que propiciou com que eu pudesse me dedicar com exclusividade a esta pesquisa.

Por fim, o trabalho e sua autora contaram com a participação ativa e carinhosa

de sua banca de qualificação, conduzida pelo seu orientador com a participação dos

Profs. Drs. Nelson Schapochnik e Paula Esther Janovitch, cujas sugestões foram muito

úteis para iluminar opções e caminhos para a argumentação e a redação final.

São Paulo, julho de 2012.

9

INTRODUÇÃO

Há muitos anos venho trabalhando com Monteiro Lobato. Em 1997 publiquei,

com outros dois autores, uma fotobiografia do escritor, Monteiro Lobato: furacão na

Botocúndia. No ano seguinte, no âmbito de um grande projeto patrocinado pela

Odebrecht e pela Fundação Banco do Brasil, colaborei em uma exposição e um vídeo-

documentário sobre a vida do escritor, que então completava 50 anos de morte. Em

2002, retornei a ele em minha dissertação de mestrado, Monteiro Lobato: um moderno

não modernista. Como sempre me intrigou a distância que grande parte da crítica

literária fazia questão de manter entre os modernistas e os demais autores do período, e

como Monteiro Lobato e Mário de Andrade criaram dois personagens amplamente

reconhecidos como ícones da brasilidade – Jeca Tatu e Macunaíma –, resolvi que meu

doutorado seria um estudo comparativo sobre eles. A curiosidade que moveu a pesquisa

foi examinar de perto como dois autores tão significativos, produtores de obras bastante

citadas pelo público, ainda que tão díspares, segundo a crítica, poderiam ter criado

personagens diferentes mas que teriam em comum uma visão da brasilidade – ou, ao

menos, problematizariam a nacionalidade segundo critérios que apresentavam

similitudes – e por que ambos elencaram a preguiça como característica primordial do

nosso povo.

Jeca Tatu nasceu ao final do ano de 1914, em meio a um mundo surpreendido

pela conflagração mundial. Monteiro Lobato, nome desconhecido até então em nossas

lides literárias, fazia o seu début publicando em O Estado de S. Paulo dois artigos onde

retratava um tipo caboclo do Vale do Paraíba. O personagem fez sucesso instantâneo,

tais artigos foram reproduzidos pela imprensa do Brasil afora e o escritor engatou dali

em diante uma fértil e consagrada carreira, onde se destacou não só como autor adulto e

infantil, mas também como editor de renome. O seu Jeca Tatu o acompanhou na

trajetória, sendo reavaliado, reposicionado e reescrito algumas vezes, até a morte de

Lobato, em 1948.

Macunaíma, por seu turno, surgiu na década seguinte, em 1928, criado pelo

polígrafo e intelectual autodidata Mário de Andrade, nome bastante cotado em meio à

10

vanguarda literária paulistana e com várias obras publicadas. O contexto era um tanto

diferente, a República brasileira mostrava sinais de crise e o modernismo já havia dado

seu grito de liberdade. A obra, algo muito mais elaborado e amadurecido do que um

artigo para jornal, constituía romance rapsodo, novidadeiro na forma e no conteúdo,

onde o autor buscava captar o caráter psicológico do brasileiro. Com o tempo, e

mediado por outras produções que o tomariam como ponto de partida, Macunaíma

ganharia a aura de arquétipo da alma brasileira, encarnação do mais genuíno espírito do

nosso povo.

Intitulado Jeca Tatu, Macunaíma, a preguiça e a brasilidade, este trabalho

ocupou-se então em rastrear a criação dessas duas figuras literárias, analisando as

circunstâncias histórico-culturais em meio às quais foram gestadas e buscando captar

em que medida e por que ambas trazem a preguiça no âmago, como elemento central do

comportamento das personagens. A essas indagações tento responder ao longo dos três

capítulos que perfazem o presente texto.

No primeiro capítulo, trato do Jeca Tatu criado por Monteiro Lobato em 1914,

que rapidamente se tornou símbolo do caipira brasileiro. Acompanho sua gestação

desde os primeiros fiapos da ideia, expressos pelo autor em sua correspondência, a

redação dos artigos, a sua publicação em jornal e depois, já reescrito, inserto em livro

em 1918, a repercussão que o personagem alcançou junto ao público e as modificações

que o criador lhe fez ao longo da vida, respondendo a circunstâncias externas, sociais e

políticas, e também à evolução do seu pensamento, segundo a compreensão de Lobato

do mundo que lhe rodeava. Dentre os elementos reunidos pelos artigos e suas reescritas,

sobressaía a caracterização psicológica do personagem face ao meio rural brasileiro,

suas crenças e valores, o não-vínculo com a terra e também a sua remota filiação a uma

velha tradição oral que foi muito forte em comunidades agrícolas do Ocidente, tradição

esta que satirizava as condições de vida e festejava a astúcia do campônio Bertoldo.

No segundo capítulo, enfoco Macunaíma, o personagem criado por Mário de

Andrade em 1926 e que saiu em livro em 1928. Como ele também se fez essência do

habitante do Brasil, analiso as circunstâncias de vida do autor, como e porque ele

construiu o personagem e qual o processo pelo qual Macunaíma acabou transformado,

ao longo dos anos, no protótipo do brasileiro. Faço um exame das grandes linhas

simbólicas do texto, chamando a atenção para elementos que julguei importantes na

caracterização psicológica do personagem e detalhando o quanto se fizeram presentes

11

também, nesse homem brasileiro, outras múltiplas referências culturais provenientes da

tradição clássica, greco-romana e ocidental europeia, assim como aspectos mitológicos

egressos das cosmogonias indígena e africana.

No terceiro capítulo, traço um breve histórico de como uma noção vaga e

ambígua de preguiça acabou associada ao comportamento dos trabalhadores em nosso

território tropical, em decorrência da tradição greco-romana, das condições climáticas,

das crenças cristãs, do regime escravista e da cobiça dos colonizadores. Em seguida,

observo como a preguiça aparece nos textos aqui analisados, buscando demonstrar

como o sentido que lhe estava atribuído se vinculava a um determinado contexto

histórico de mudança, por meio qual se modificava o regime de trabalho sem entretanto

alterar o sistema de propriedade e tampouco a distribuição de renda. O palco principal

dessa mudança foi o sudeste e a orquestração do processo coube aos grandes

fazendeiros de café, em meio aos quais despontavam nomes como o de Antônio da

Silva Prado. Julgo ter deixado claro de que maneira a preguiça se tornou marca

comportamental dos personagens aqui analisados, criação de dois autores paulistas cujo

conjunto da obra alcançou grande destaque em meio à produção literária do período. E

busquei ainda esclarecer o quanto foram produtos da época e das pressões que o

contexto geral de mudança exerceu sobre as manifestações culturais paulistas.

12

JECA TATU

Às vésperas de completar 100 anos, Jeca Tatu é ainda um personagem forte e

vivo no imaginário popular brasileiro. Essa figura mais que conhecida continua a

encarnar algo que eu chamaria de nosso passado, íntimo, saudoso e comum. Ao longo

desses anos todos, o Jeca materializou um sentimento que trazíamos dentro de nós e

cujas raízes repousavam em uma velha paisagem rural, habitat da alma brasileira –

humana, de modo geral, e brasileira, no particular. A se considerar a velocidade com

que as referências do mundo contemporâneo estão a mudar, talvez não lhe reste muito

tempo de vida. Entretanto, essa velocidade contemporânea pode ser a nota falsa da

história, porque, quando se olha com mais profundidade, observa-se que o mito do

campônio Bertoldo é um arquétipo da trajetória humana na terra. Quanto mais a

sociedade avança para uma maior complexidade das relações, provavelmente mais se

dissemine o arquétipo, por ele ser o contraponto da realidade, uma espécie de fuga do

real, transportando consigo a tristeza e o riso.

O sucesso do Jeca assoma quando se folheia jornais e revistas do período. O

personagem foi reproduzido, criticado, debatido, desenhado e estilizado a partir de

infinitos ângulos e pontos de vista. E não só no papel: foi levado também para o teatro,

para o cinema e para a música. Ainda em 1918, o dentista Angelino de Oliveira,

instalado em Botucatu e que ali exercia vários outros afazeres – escrivão de polícia,

vendedor de imóveis e ainda músico-líder do Trio Viguipi (violino, guitarra e piano) –,

executaria pela primeira vez, em audiência exclusiva para Nestor Seabra, presidente do

Clube 24 de Maio, um dos mais tradicionais da cidade, a música “Tristeza do Jeca”.

Angelino havia composto a melodia por encomenda do próprio Nestor e, apesar de

gostar imensamente dela, jamais lhe passou pela cabeça que sua composição alcançaria

o século seguinte, gravada e regravada sucessivamente, por artistas e músicos. Passados

mais de 90 anos, permanece escolhida a melhor música caipira de todos os tempos, em

enquete promovida pelo jornal Folha de São Paulo em 2009 1.

1

In www.folha.com.br/090651. Acesso em 17/04/2012.

13

Uma adaptação do personagem (feita pelo próprio Monteiro Lobato, que era

amigo de Cândido Fontoura, dono do laboratório) sustentou a mais longa – e maior, em

termos de quantidade de exemplares impressos – campanha de que já se teve notícia no

país, segundo o publicitário José Roberto Whitaker Penteado 2 : a do Biotônico

Fontoura, veiculada através das páginas do Almanaque Jeca Tatuzinho, distribuído

gratuitamente pelas farmácias a quem comprasse o produto. Em depoimento para um

documentário sobre Lobato produzido em 1998, no qual trabalhei, o escritor Ziraldo

Alves Pinto relembrou seu espanto de menino ao ver as galinhas de botinas, como

mostravam as ilustrações da peça, imagem que nunca mais esqueceu. E frisou o impacto

causado pelo almanaque, disputadíssimo entre os seus companheiros, a meninada pobre

do interior de Minas, por ser o único „livro‟ ao seu alcance – apesar de não lerem,

adoravam as figuras e através delas captavam o enredo.

No cinema, um dos que mais colou sua imagem à figura do Jeca Tatu foi

Amácio Mazzaropi 3, artista de formação popular que atuou em circo, teatro, rádio,

cinema e TV. Fez muito sucesso nos seus primórdios encarnando principalmente o

caipira cuja empatia atraía o público, ao se apresentar nos circos mambembes que

percorriam o interior. Mais tarde, ator já consagrado, rodou, em seus próprios estúdios,

uma película intitulada Jeca Tatu, que foi lançada em 1959. Segundo Marcela Matos 4,

tratava-se de uma adaptação de Jeca Tatuzinho e com ela abriu-se toda uma série

famosa, produzida e interpretada pelo artista: Tristeza do Jeca (1961), O Jeca e a Freira

(1967), Um Caipira em Bariloche (1973), O Jeca Macumbeiro (1974), Jeca contra o

Capeta (1975), Jecão, um Fofoqueiro no Céu (1977), Jeca e seu Filho Preto (1978), O

Jeca e a Égua Milagrosa (1980).

2

Cf. José Roberto Whitaker Penteado. Os filhos de Lobato: o imaginário infantil na ideologia do

adulto. Rio de Janeiro: Dunya, 1997.

3

Mazzaropi iniciou a trajetória ainda rapazinho, em meados dos anos 1920. Perseguiu a sua arte com

muito afinco e, no final dos anos 1930, havia se tornado atração em espetáculos cômicos populares.

No rádio, encarnou o caboclo que contava „causos‟ e piadas aos ouvintes, garantindo audiência para

Rancho Alegre, programa que esteve no ar por vários anos, após a Segunda Guerra. Seria depois ator

de sucesso no cinema, atuando na Vera Cruz. No final da década de 1950 montaria empresa

cinematográfica própria, a PAM - Produções Amácio Mazzaropi, onde desenvolveu roteiros,

encarnou personagens, dirigiu filmagens, em suma, desempenhou as inúmeras funções necessárias à

produção de filmes. Elias Thomé Saliba, em seu artigo “A dimensão cômica da vida privada na

República”, destaca o eterno retorno do arcaico que a figura do Jeca representa e reproduz

comentários de Paulo Emílio Salles Gomes sobre a reação da plateia ao desempenho do Jeca de

Mazzaropi: “o segredo de sua permanência é a antiguidade. Ele atinge o fundo arcaico da sociedade

brasileira e de cada um de nós”. Cf. História da vida privada no Brasil, vol. III, pp. 358-359.

4

Cf. Marcela Matos. Sai da frente! : a vida e a obra de Mazzaropi. Rio de Janeiro: Desiderata, 2010.

14

Como quase todas as figuras marcantes do imaginário, a combinação da qual

nasceu o Jeca tem muito de ambígua e paradoxal. A sua popularidade repousa, a meu

ver, justamente no contraste entre a realidade mutante (dos indivíduos e da sociedade) e

as emoções díspares que o personagem simboliza. Apesar de sujeito da roça, bronco e

infenso ao progresso, ele surge acolhido especialmente por homens recém-urbanizados,

que viviam no seu dia a dia a azáfama da velocidade – dos bondes, automóveis e apitos

de fábrica – e traziam no coração uma saudade imensa do velho e acolhedor ambiente

rural pacato que, não fazia muito, desfrutavam.

Segundo a minha leitura, a rápida e calorosa identificação com o Jeca Tatu

deveu-se a um sentimento de perda de suas raízes que muitos brasileiros estavam a

experimentar, alguns de forma clara e expressa, outros ainda de forma difusa, meio

inconsciente, sem terem se dado conta integralmente da cisão que lhes atravessara o

caminho. O Jeca veio condensar e materializar tudo o que fora, até então, a vida da

maioria da população, circunscrita principalmente pela moldura rural do nosso passado,

e que naquele momento começava a enveredar por novas rotas e caminhos, agora com

horizontes mais futuristas e preponderantemente urbanos. Por outro lado, o Jeca

representa também o atraso, o Brasil velho, o que não muda, tudo o que emperra a

modernização e o desenvolvimento. Trata-se de um obstáculo, algo a ser ultrapassado,

deixado para trás, caso o país quisesse realmente superar a sua condição de carta fora do

baralho no concerto das nações. O comportamento do caipira, preso a uma velha

realidade e ditado por hábitos arraigados, estaria em profundo desacordo com as

necessidades do novo tempo, que transformava não só a mente dos homens como

também seu movimento físico – seus gestos, ritmo, adequação ao compasso das

máquinas industriais e ao frêmito das cidades, São Paulo em especial, como tão bem

pontuou Nicolau Sevcenko 5.

Esse choque cultural foi quem fez do Jeca o ícone que ele se tornou. Ele surgiu

na confluência de muitas mudanças, do arcaico para o moderno, do rural para o urbano,

do escravismo para o industrialismo, do simples para o complexo. Agrupou em torno de

si uma multiplicidade de raciocínios e sentimentos, assumindo ora um aspecto, ora o seu

oposto. O que Monteiro Lobato fez, ao escrever o seu texto, foi como que fornecer um

5

Cf. Orfeu extático da metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo:

Companhia das Letras, 1992.

15

„aparelho‟, como se diz no espiritismo 6, para algo que todos de alguma forma sentiam,

percebiam e queriam manifestar 7. Uma vez modelado, enformado, retratado, a maioria

se identificou imediatamente com o personagem, assegurando-lhe a popularidade. Isso

não significa que o viam, todos, da mesma forma. A empatia que alcançou era porque o

sentiam e percebiam em seu íntimo, ele era como que a materialização de alguma coisa

que todos traziam dentro de si, ainda que não a tivessem conseguido exprimir e ainda

que cada um a visse por seu próprio ângulo. Jeca Tatu surgiu e fez-se símbolo por conta

de tudo isso que enfeixou. O símbolo manifesta algo que é corriqueiro, banal, mas

também sutil e abstrato, variando segundo conteúdos subjetivos de indivíduos outros

que não aquele que o criou. Trata-se de algo coletivo por sua própria índole, que nasce –

ou pode assim nascer, embora talvez nem sempre – de uma elucubração original, criada

por um determinado autor, mas que logo ganha independência e se torna expressão

coletiva. Traduz um momento da vida em sua eterna variedade e movimento, uma luta

entre significados, afirmados ou negados, desejados ou desprezados, conscientes ou

inconscientes – em suma, algo que diz respeito ao mundo da representação e da cultura.

Na qualidade de símbolo, de arquétipo que mobiliza sentimentos e sensações, é

provável que sequer se relacione simplesmente a um passado recente, mas também, e

sobretudo, a um passado remoto, guardado em um lugar indefinido do inconsciente

coletivo da humanidade. Talvez por isso, o pai do Jeca Tatu tenha ligado este seu filho à

reminiscência de outro personagem famoso na literatura medieval da cristandade do

Ocidente, o Bertoldo 8, cuja vida se relata em romances seiscentistas. Monteiro Lobato

não criou o mito, apenas o vestiu com roupas condizentes com o novo tempo e espaço,

ensinou-lhe a ser espelho de um povo determinado e a falar como ele. Quer dizer, ao

velho mito supranacional a língua, as roupas e os trejeitos fizeram-no mito brasileiro.

6

Lobato participou, no final da vida e em companhia de sua esposa Purezinha, de algumas sessões

espíritas, na sequência da morte dos filhos. Ele, aliás, soltou em carta o seguinte comentário sobre a

independência da Emília: “Cada vez mais, Emília é o que quer ser, e não o que eu quero que ela

seja. Fez de mim um „aparelho‟, como se diz em linguagem espírita”. Cf. A barca de Gleyre, 2º

tomo, carta de S. Paulo, 1/2/1943, p.341. E ainda, na última carta da longa correspondência, assim se

despediu do amigo Rangel: “Adeus, Rangel! Nossa viagem a dois está chegando perto do fim.

Continuaremos no Além? Tenho planos logo que lá chegar, de contratar o Chico Xavier para

psicógrafo particular, só meu – e a 1ª comunicação vai ser dirigida justamente a você. Quero

remover todas as tuas dúvidas.” Cf. A barca de Gleyre, 2º tomo, carta da Véspera de S. João, 1948,

p. 363.

7

E ele nem foi o único a fazê-lo, vários outros tipos similares surgiram na época, criados por autores

os mais variados. O seu Jeca, no entanto, acabou sendo o catalisador deles todos.

8

Urupês, p. 249.

16

Sobre o autor, Monteiro Lobato

José Bento Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em uma chácara de

Taubaté onde morava o seu avô. O cenário era muito parecido com aquele onde criaria o

Jeca, anos depois, aos pés da velha serra da Mantiqueira. A posição social de ambos,

entretanto, era bem distinta, oposta, na verdade. Esse avô, materno, o barão de

Tremembé, possuía terras no Vale do Paraíba exploradas mediante o trabalho escravo e

teve a „honra‟ de hospedar o imperador D. Pedro II quando este por lá passou, em sua

visita à província paulista, em 1888, ocasião em que promoveu seu anfitrião a visconde.

Apesar de possuir, na época, apenas seis anos de idade, Lobato recordaria anos a fio o

acontecimento, por ter ficado impressionadíssimo com a „falinha fina‟ do Imperador 9.

Assim como muitos brasileiros, daquele e de outros tempos, Lobato trazia de

berço uma origem bastarda, que no seu caso advinha pela linha matrilinear. Sua mãe

nascera de uma união não legalizada, ainda que o visconde de Tremembé tivesse

reconhecido os filhos que gerou fora do casamento. Bem mais tarde, oficialmente

casado com aquela a quem o futuro escritor chamava ironicamente de „Visconda‟, o avô

assumiria a tutela dos netos, porque Lobato e as duas irmãs perderam os pais no

intervalo de um ano apenas, em 1898 morreu-lhes o pai, no início do seguinte, a mãe.

Lobato, que era o primogênito, foi o único a estudar na capital e lá residia ao

ficar órfão, com a mãe levada pela tuberculose. A doença, muito comum naqueles

tempos em que não existia antibióticos, mais tarde ceifaria seus próprios filhos homens,

em uma fase difícil da vida do escritor na qual ele enfrentou batalhas públicas contra a

política getulista do petróleo – tendo sido preso, acusado e submetido, sob a condição

de réu, ao tonitruante Tribunal de Segurança Nacional.

Segundo a biografia publicada por Edgard Cavalheiro 10 em 1955, Lobato

tencionava cursar Belas Artes, mas o avô, já na condição de tutor, achou mais

recomendável a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, para a qual o neto

entraria no derradeiro ano do século XIX. Como desde pequeno gostava de desenhar e

escrever, Lobato acabou se enturmando em um grupo que se autodenominava Cenáculo.

9

CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato, vida e obra, vol. 1, p. 23. São Paulo: Nacional, 1955.

10

CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato, vida e obra. São Paulo: Nacional, 1955. 2 vols.

17

Eram todos interessados em literatura, artes e imprensa, e mantinham discussões

filosóficas intermináveis. O livro de cabeceira – a bíblia deles – era um romance de

cavalaria que foi muito popular no Brasil, por várias décadas. Chamava-se Tartarin de

Tarascon (1872), de autoria do escritor francês Alphonse Daudet, e o enredo serviu de

referência para brincadeiras sucessivas entre os rapazes. A ambição literária dessa turma

revelou-se duradoura, como ficou patente nas obras que posteriormente publicaram 11.

Mas, deles todos, aquele que alcançou a maior projeção foi sem dúvida Monteiro

Lobato.

O cotidiano brincalhão desse seu tempo de universitário veio a público décadas

mais tarde, em 1944, quando saiu A barca de Gleyre 12, dois volumes enfeixando uma

compilação das cartas que ele enviou, entre 1903 e 1943, para o amigo e colega de

Cénaculo, Godofredo Rangel. Pela primeira vez no Brasil um autor dava a conhecer

uma correspondência tão longeva, enviada a um único interlocutor. Apesar de mostrar

apenas a opinião de um dos missivistas 13, estão ali muitas – e importantes – revelações.

Destaca-se, em primeiro lugar, a força e a persistência do interesse de ambos pelos

livros, o quanto a literatura foi importante em suas vidas e como se prepararam

diligentemente para executar o projeto, que acalentaram desde novos, de virarem

escritores. E estão ali pontuados os elementos principais do processo pelo qual Monteiro

Lobato formou sua escrita, os bastidores da sua trajetória crítica e mental, alicerces da

sua produção autoral. No caso de Lobato, em particular, cuja documentação foi em sua

maior parte perdida, pouco restando de elementos e pistas circunstanciais sobre as raízes

da sua imensa produção – como autor, editor, tradutor e mesmo como leitor –, dispor de

11

Para maiores detalhes sobre o grupo, consultar AZEVEDO, Carmen Lucia de et alii, Monteiro

Lobato: furacão na Botocúndia, pp. 34-46, e também as notas de rodapé ao bilhete e primeira carta

em A barca de Gleyre. Godofredo Rangel escreveu três romances – Os bem casados (1910),

Falange gloriosa (1917) e Vida ociosa (1920) – e publicou dois volumes de contos – Andorinhas

(1921) e Os humildes (1944) . José Antonio Nogueira foi autor de País de ouro e esmeralda e Amor

imortal (editado em Portugal, em 1912 ou 1913). Ricardo Gonçalves, muito conhecido em vida por

sua atividade política e também pela poética, morreu novo, em 1916. Seu livro de poemas, Ipês, saiu

postumamente, em 1922, organizado por seus amigos. Algumas dessas obras vieram a público pelo

selo editorial da Monteiro Lobato & Cia.

12

LOBATO, Monteiro, A barca de Gleyre, quarenta anos de correspondência literária entre Monteiro

Lobato e Godofredo Rangel. 5ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1951, 2 tomos. Esta será a edição

utilizada no presente trabalho e, daqui para frente, será citada da seguinte forma: A barca de Gleyre,

número do tomo, carta (com local e data) e a página da citação.

13

Infelizmente, o livro traz apenas aquelas que Lobato enviou – as cartas de Godofredo a Lobato

jamais foram publicadas.

18

A barca de Gleyre foi fundamental 14 . Embora o livro tenha sido editado com a

colaboração do próprio Lobato, que provavelmente copidescou o conjunto (eliminando,

talvez, os trechos mais delicados ou críticos), o material que ali está propicia conhecer

inúmeros detalhes da sua trajetória de leitor, aprofundar o processo de sua formação

crítica, perceber o quão profundamente ele conhecia uma série ampla de autores,

nacionais e estrangeiros, e como foi sistemático e sério em suas análises e leituras,

julgando-as o melhor método para aperfeiçoar sua própria produção. Esse livro constitui

“verdadeira biografia intelectual de Monteiro Lobato”, ressalta Ana Luiza Reis Bedê,

que explorou em seu estudo, em particular, a força da literatura francesa na formação do

autor 15.

Lobato sempre leu muito, a vida inteira, e logo reparou serem poucos os autores

a produzir uma obra fundamental e permanente. Externava frequentemente essa opinião

em suas cartas ao companheiro Rangel, ressaltando o quanto a maioria dos que se

dedicavam à escrita gravitava em torno de modismos e questões e protegia-se em clubes

e academias. Ele se dizia muito individualista para ser mais um na rodinha dos

apadrinhados. E por isso escolheu “ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não

seguir” 16.

Mediante os autores e livros comentados ao longo dessa correspondência pode-

se perceber, como Ana Luiza Bedê fez de forma lapidar para a literatura francesa, o

grau de erudição na bagagem intelectual de Monteiro Lobato. O arco de sua abrangência

temática e temporal impressiona, assim como é digna de relevo a forma objetiva como

articula suas críticas. No caso da literatura brasileira, as observações que fez sobre a

escrita de Machado de Assis ou sobre Canaã, de Graça Aranha, a quem define (em

1904, é preciso marcar) como “o artista de cultura moderna que há de substituir os

meros naturalistas descritivos à Zola (mas sem o gênio esmagador de Zola)”, são de

14

Livros como este são cruciais para aqueles que se dedicam a história da cultura. Ainda bem que se

tornou corriqueiro publicar correspondências de literatos, porque através delas se consegue muitas

informações preciosas para pesquisas dessa natureza. Cartas são fontes quase inesgotáveis, uma vez

que com elas se podem montar muitos quebra-cabeças sobre as trocas culturais entre os agentes

históricos. Conhecer a biblioteca de um autor, ter acesso a ela e acompanhar anotações deixadas na

marginália dos livros, como é possível fazer com Mário de Andrade porque tudo dele foi recolhido

ao Instituto de Estudos Brasileiros, da USP, facilita imensamente o aprofundamento de questões

suscitadas por sua produção. Monteiro Lobato, entretanto, não teve a mesma sorte, seu arquivo e

biblioteca não sobreviveram.

15

Ana Luiza Reis Bedê. Monteiro Lobato e a presença francesa em A barca de Gleyre. São Paulo:

Annablume/Fapesp, 2007, p. 18.

16

A barca de Gleyre, 1º tomo, carta de S. Paulo, 15/11/1904, p. 82.

19

extrema pertinência e apuro 17. Outro escritor brasileiro cuja fatura foi captada por

Lobato com precisão chama-se Lima Barreto, de quem dá notícia a Rangel em outubro

de 1916 18 . Toda essa leitura, evidentemente, servirá de eixo para a sua própria

produção e transparecerá em detalhes ou comentários que ele inclui em seus escritos.

Logo no início da correspondência há uma carta especialmente interessante,

prenunciadora da paixão pelos livros, eixo principal em torno do qual vai girar toda a

sua vida. Foi escrita em Taubaté, em 20/1/1904, por um Lobato ainda estudante e em

férias, mas profundamente enjoado da conversa dos „coronéis‟ à sua volta e com

saudades de „voar literariamente‟ com seu amigo Rangel. Apesar de não dispor de

interlocutor à altura, tem em mãos livros maravilhosos:

“A biblioteca do meu avô é ótima, tremendamente histórica e científica.

Merecia uma redoma. Imagina que nela existem o Zend-Avesta, o

Mahabarata e as obras sobre o Egito de Champollion, Maspero e Breasted;

o Larousse grande; e o Cantú grande; e o Elysée Reclus grande e inúmeras

preciosidades nacionais, como a coleção inteira da Revista Ilustrada do

Ângelo Agostini, a do Novo Mundo de J. C. Rodrigues e mais coisas assim.

Há uma coleção do Journal des Voyages que foi o meu encanto em

menino”19.

E prossegue, relembrando o quanto os livros sempre o estimularam a „voar‟:

“Cada vez que naquele tempo me pilhava na biblioteca do meu avô, abria

um daqueles volumes e me deslumbrava. Coisas horríveis, mas muito bem

desenhadas – do tempo da gravura em madeira. Cenas de índios sioux

escalpando colonos. E negros achantis de compridas lanças, avançando

contra o inimigo numa gritaria. Eu ouvia os gritos...”.

Não posso deixar de marcar que o maravilhamento vivido em meio àquele

mundo que lhe chegava pelas páginas do Journal des Voyages, cheio de aventura e

plasticidade imaginativa, visualmente cativante por conta das ilustrações estampadas

nos volumes, ele próprio recriaria, anos mais tarde, para encantar jovens gerações de

brasileiros e fazer deles leitores atentos e curiosos, fisgados pelos enredos, cenários e

17

Sobre Machado, cf. A barca de Gleyre, 1º tomo, carta de Taubaté, 15/07/1905, p.101-102; A barca

de Gleyre, 1º tomo, carta de 8/1/1908, p. 206; A barca de Gleyre, 1º tomo, carta de Areias, 1/3/1909,

p. 236; A barca de Gleyre, 1º tomo, carta de S. Paulo, 30/7/1910, p. 292-293. Sobre Canaã, cf. A

barca de Gleyre, 1º tomo, carta de Taubaté, 20/01/1904, p.52-54. Comentários também muito

interessantes contrapõem o estilo acadêmico do jornalismo brasileiro e o de Euclides da Cunha, em

A barca de Gleyre, 1º tomo, carta de Taubaté, 11/9/1911, p. 312-314.

18

Lobato comenta ter lido, e gostado bastante, dos contos que Lima Barreto publicara em Águia,

revista portuguesa, e fala também da boa acolhida a Policarpo Quaresma, que já esgotava a segunda

edição. A barca de Gleyre, 2º tomo, carta de S. Paulo, 1/10/1916, p.108.

19

A barca de Gleyre, 1º tomo, carta de Taubaté, 20/01/1904, p. 50.

20

personagens do Sítio do Picapau Amarelo. E devo também acrescentar que, apesar de

paisagisticamente ambientado no interior do Brasil, o sítio condensa, em seu

imaginário, as principais referências do universo cultural do Ocidente, uma vez que

Lobato fez questão de reunir, em suas histórias, boa parte das expressões eruditas e

populares que marcaram a nossa civilização – na antiguidade ou na atualidade, em

forma de lendas, personagens míticos ou heróis dos quadrinhos ou do cinema 20.

A sua vocação beletrista manifestou-se desde novo. Ainda nos tempos da

faculdade, a paixão pela escrita levou Lobato a tentar a sorte de forma mais regular,

através do jornalismo. Foi colaborador eventual em periódicos variados, geralmente do

interior, em especial no Vale do Paraíba, seu torrão. Depois de formado, voltou à

Taubaté para cavar nomeação judiciária, como então faziam todos os bacharéis, porém

conseguiu apenas uma reles promotoria em Areias, comarca situada quase na fronteira

com o Estado do Rio de Janeiro. Como já estava noivo e pretendia casar-se em breve,

topou. A pouca importância da nomeação que Lobato alcançou foi, no meu entender,

reflexo do jogo político e da posição relativa que seu avô, e o grupo de interesses ao

qual pertencia, desfrutava naquele momento. Ligado a um segmento social já decadente,

cujo esplendor circunscrevera-se ao sistema que ruíra com a Abolição e a República, o

neto jamais se interessaria por política partidária – não se filiou ao PRP e deu as costas à

chance de disputar um futuro brilhante na carreira de bacharel. Seu zelo pela

independência política e pela liberdade de raciocínio não o ajudava muito. Não

esquentou no cargo porque em 1911, com a morte do avô, Lobato herdou-lhe as

propriedades, tornando-se fazendeiro 21 . Continuava a escrever, ainda que pouco

conseguisse publicar. Naquela altura, o material seu que encontrava maior saída eram as

traduções de artigos momentosos da imprensa internacional.

Mestre no estilo direto, opinativo, e com especial aptidão para captar nuances e

preferências em meio ao comportamento comum, abordando-as com ironia e graça em

sua escrita, o Lobato desses anos prenunciava grandes chances no jornalismo justamente

por alcançar o grande público, cativar o leitor médio. Sabia interessá-lo e prender-lhe a

atenção: seu texto era normalmente apaixonado, vazado numa linguagem simples,

20

Hércules e Minotauro, Peter Pan, Alice e Chapeuzinho Vermelho, Shirley Temple, Tom Mix e Gato

Félix, entre muitos outros. Cf. Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia, p. 167.

21

A herança, na verdade, foi distribuída entre os netos, mas a Lobato, o único varão, coube administrar

as terras.

21

usando inúmeras vezes a polêmica como verve. Foi assim que ele acabou criando o Jeca

Tatu, que surgiu no tempo em que Lobato „estava‟ fazendeiro.

O primeiro artigo assinado com seu próprio nome que Monteiro Lobato publicou

na grande imprensa da capital saiu em 1913, no Correio Paulistano, e versava sobre

Guiomar Novais, jovem pianista brasileira que em 1909 surpreendera positivamente o

júri e alcançou o primeiro lugar na seleção para o curso de piano do Conservatório de

Paris 22. O segundo foi aquele em que aparecia o Jeca, “Uma Velha Praga”, publicado

em O Estado de S. Paulo 23. Entretanto, durante o curso de Direito, Lobato acostumara-

se a colaborar, sob pseudônimos variados, em pequenas folhas do interior, entre elas o

Minarete 24 . O jornal, cujo nome fora sugestão do próprio Lobato, circulava em

Pindamonhangaba e seu proprietário, Benjamin Pinheiro, constava no logotipo como