João Bethencourt: O Locatário da Comédia por Rodrigo Murat. - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

Domingos Oliveira

13

João Bethencourt miolo 2.indd 13

19/10/2007 15:03:30

João Bethencourt miolo 2.indd 14

19/10/2007 15:03:31

Outra Apresentação

As primeiras referências que ouvi sobre o João

foram do Décio Almeida Prado, ainda quando

eu cursava a Escola de Arte Dramática - EAD, em

São Paulo: Existe um comediógrafo no Rio de

Janeiro que nós todos precisamos acompanhar

com muita atenção.

A partir daí, como eu sempre gostei de ler, co-

mecei a procurar saber do tal escritor carioca

com nome estrangeirado. Em 1950, a EAD rea-

lizou uma excursão a Recife. Íamos apresentar

o repertório da Escola no Teatro Santa Isabel, a

convite do grande incentivador do teatro nor- 15

destino, Waldemar de Oliveira. Como eu já havia

encenado, na primeira experiência de Teatro de

Arena, a peça em um ato do Tennessee Williams,

Demorado Adeus, o diretor da EAD sugeriu que eu arranjasse outra peça para completar o espetáculo. E justamente, chegou às minhas mãos

uma comédia em um ato do tal autor carioca: A

Sina do Barão. Com os alunos da EAD, portanto, o primeiro espetáculo em arena apresentou 2

peças em um ato, de Tennessee Williams e João

Bethencourt. E, a maior contradição: essa apre-

sentação em arena aconteceu no tradicional

palco do Teatro Santa Isabel. O público lotou as

cadeiras em volta da areninha, no centro daquele

João Bethencourt miolo 2.indd 15

19/10/2007 15:03:31

palcão, e as poltronas todas do sisudo teatrão.

Foi uma festa!

Depois que me formei conheci João Bethencourt

pessoalmente; acho que rolou entre nós, desde o

começo, uma química favorável. Desconfio que

o segredo é que nós dois cultivávamos a mesma

paixão pelo teatro. E o senso de humor, funda-

mental para a convivência com essa paixão.

Nos tornamos amigos, mais tarde fomos até sócios

em várias produções, rolou uma amizade sadia e

acabei sendo o diretor brasileiro que – provavel-

mente – montou o maior número de peças dele.

Curtimos sucessos enormes como Tem um Psicana-

16

lista na nossa Cama, O Dia que Raptaram o Papa, Quando não Houver Inimigo, Urge Criar Um, Sigilo Bancário, O Santo e o Banqueiro, além de várias traduções que ele preparou especialmente para

as nossas produções.

Uma coisa João me ensinou: disciplina. Nunca vi

ninguém com mais disciplina pra trabalhar; ele

se levantava sempre cedíssimo, escrevia religio-

samente várias horas, com método e paciência.

Nem parecia brasileiro! Era perfeccionista! Per-

seguia seu escopo com firmeza e objetividade.

Não hesitava em reescrever seus textos várias

vezes na busca incansável da melhor expressão

das falas e das personagens!

João Bethencourt miolo 2.indd 16

19/10/2007 15:03:31

Agora, ao escrever estas notas, percebo que exi-

lado aqui em São Paulo, me mantive longe do

contato com o João, que permaneceu fiel ao Rio

de Janeiro. Nossos encontros foram raros. Tenho

muitas saudades das suas risadas e da vivacidade

do seu pensamento.

José Renato

17

João Bethencourt miolo 2.indd 17

19/10/2007 15:03:31

João Bethencourt miolo 2.indd 18

19/10/2007 15:03:31

Introdução

Um homem não sabe quantos pais tem.

Esta evocação poética coroa o artigo que Do-

mingos Oliveira escreveu para o jornal O Globo na virada do ano, quando, ao assomo dos fogos

de artifício que caracterizam os réveillons, outro veio se sobrepor – fogo triste e nada fulgurante:

a morte de João Bethencourt.

João faleceu nas penúltimas horas do dia 31 de

dezembro de 2006, após três dias de complicações

hospitalares. Estava lúcido. Lúcido e combativo.

19

Não por acaso, no dia 27, pouco antes de começar

a sentir-se mal durante a madrugada, participou

de uma reunião na Sbat – Sociedade Brasileira de

Autores Teatrais – onde defendeu com a garra

costumeira seus pontos de vista nos rumos da

sociedade que ajudou a manter de pé em tempos

de crise e que neste 2007 completa 90 anos.

João era assim: tinha oitenta e poucos na identi-

dade mas na cabeça não mais que 20. Soprava-lhe

o vento fresco dos iniciantes. Quando sabia de

algum concurso de dramaturgia e ligava para

ele – E aí, João, vamos participar? – a resposta era afirmativa e quase sempre acoplada a outra

pergunta: Você não conhece nenhuma editora

João Bethencourt miolo 2.indd 19

19/10/2007 15:03:31

de livros? (João estava às voltas com os originais de Tele-Choque, romance infanto-juvenil que me deu para ler). Ou seja, João viveu como os sábios: ciente de que é do zero que se ergue o dia.

Tenho a pretensão de acreditar que eu tenha sido

o último amigo que João fez nestes dois últimos

anos em que a vida nos aproximou por causa da

biografia. (As entrevistas foram realizadas entre

os meses de março e maio de 2005, com encon-

tros posteriores para correções e adendos feitos

com sua caligrafia de médico.) Conhecidos nós

fazemos o tempo todo mas amigo-amigo, da-

queles para quem se liga ou se envia e-mail após 20

determinado período de distanciamento – cordas

que se esticam ameaçando romper-se – esses são

raros e pontuais.

Num dos e-mails ele me escreveu: Prezado Rodrigo, você sumiu porque a fortuna anda te

farejando? Traga um pouco dela aos amigos.

(...) Escreva. Aliás foi o que disseram ao Molnár (Férenc Molnár, autor húngaro de Os Meninos da Rua Paulo ) na estação de trem enquanto se

despedia da família: Éscreva´! E assim tornou-se um escritor. Abraços. João.

Abraços também, João. Foi um prazer radio-

grafar-lhe a trajetória neste volume da Coleção

João Bethencourt miolo 2.indd 20

19/10/2007 15:03:31

Aplauso que, espero, sirva também como fontes

de diversão e cultura a seus leitores. Afinal, a história não acaba quando termina. Ela começa.

Portanto, comecemos.

II

Um dos primeiros espetáculos teatrais adultos a

que assisti nos meus verdes 13 anos – Festival de Ladrões – foi no antigo Teatro Mesbla, que ficava na Cinelândia, na hoje praticamente extinta vesperal de domingo das 6 horas da tarde, com os

saudosos Milton Moraes, Alberto Perez e André

Villon em cena. Assinando texto e direção um 21

nome que meus ouvidos começariam aos poucos

a associar a padrão de sucesso.

Não me recordo muito do enredo mas deve ter-

me sido satisfatório pois, meses depois, lá estaria eu forrando um dos assentos do igualmente lendário Teatro Copacabana nas fanfarronices de O

Senhor é Quem? , onde um abilolado Jorge Dória contracenava a maior parte do tempo com um

telefone na tentativa desesperada de descobrir

afinal quem ele era. A identidade do autor e di-

retor todo mundo sabia e eu, mais uma vez, tinha

a oportunidade de comprovar-lhe a habilidade

de reger uma platéia com staccatos de riso.

João Bethencourt miolo 2.indd 21

19/10/2007 15:03:31

Quinze anos depois, no ano de 1995, freqüentei,

como ouvinte, a cadeira de Dramaturgia que

João Bethencourt – ei-lo, o autor e diretor das

supracitadas peças – comandava na Faculdade

de Artes Cênicas da Uni-Rio. Iniciava-se ali uma

amizade em fogo brando, alimentada por en-

contros espaçados mas suficientes para manter

a chama do interesse recíproco.

Posso dizer que João é meu padrinho artístico

pois foi com um de seus pontapés certeiros que

um texto meu saiu da gaveta e foi cair no centro

do gramado, com quatro temporadas bem-suce-

didas em São Paulo e no Rio de Janeiro, além da

turnê por várias capitais e cidades do interior do 22

país, entre 2001 e 2005.

A inspiração de escrevê-lo surgiu quando o mes-

tre contou em sala de aula o enredo de um drama

que vinha fazendo muito sucesso na Broadway –

Three Tall Women, do Edward Albee – e cujos direitos Beatriz Segall, mais que depressa com-praria, co-protagonizando com Natália Timberg e

Marisa Orth o espetáculo Três Mulheres Altas, sob a batuta de José Possi Neto. Adorei a inventidade da trama (três personagens que dialogam entre

si mas que, no segundo ato, descobrimos tratar-

se da mesma mulher em três momentos etários

diferentes) e achei que o título dava paródia.

O título, não a trama.

João Bethencourt miolo 2.indd 22

19/10/2007 15:03:31

Nascia assim, a partir da brincadeira com o nome,

Três Homens Baixos. Depois foi só criar os três personagens e reescrever ad nauseum – entre a exaustão e a euforia – cenas e diálogos ao longo

dos seis anos que o texto levou para levitar do

papel e ser verticalizado no palco por intermédio

dos atores.

Quatro leituras dramáticas foram realizadas,

duas sob os auspícios de João. A primeira, em

sala de aula, feita por mim, timidamente. Mesmo

assim, João riu; Margot, sua esposa, gargalhou;

alunos se divertiram. João sugeriu mudanças,

especialmente na parte final – de fato precária –

23

e eu as fiz.

Uma segunda leitura, em escala mais profissio-

nal, foi realizada pelos atores Antônio Calloni,

Mario Borges e Flávio Antônio, em Seminário de

Dramaturgia realizado no Teatro Villa-Lobos por

João e Edwaldo Cafezeiro.

Mais duas seguiriam-se: uma na Casa da Gávea,

no Rio de Janeiro, sob direção de José Renato,

e outra como cereja da festa de lançamento

do 4o volume da Coleção Teatro Brasileiro, organizado por Soraya Hamdan, no qual o texto

está publicado, com Tarcísio Filho, Petrônio

Gontijo e Marco Antônio Pâmio dirigidos pela

João Bethencourt miolo 2.indd 23

19/10/2007 15:03:32

talentosa Bete Coelho, no Teatro Augusta, em

São Paulo.

Finalmente encenada por Fernando Guerreiro,

Três Homens Baixos utilizou diversos atores em suas muitas temporadas, alguns dos quais

ex-colaboradores de João, como é o caso de

Gracindo Jr. (em O Jogo do Crime), Jonas Bloch (em Camas Redondas, Casais Quadrados) e Rogério Cardoso (em Lá em Casa é tudo Doido; Mulher, Melhor Investimento; Brejnev Janta o

seu Alfaite).

Dentro do contexto da comédia de costumes

24

de teor, digamos assim, pérfuro-picante, Três

Homens Baixos é prima caçula de A Venerável Madame Goneau, que João escreveu, e sobrinha-neta de A Gaiola das Loucas, que ele não escreveu, mas traduziu e adaptou.

Quando soube que ele fora assistir à minha peça

e que dera boas risadas, percebi que o círculo

ali se fechava. Aquele que me fizera sorrir nas

memoráveis vesperais cariocas dos anos 70, agora

se divertia com as minhas piadas (algumas ins-

piradas, outras toscas). Nada mais natural que

ele fosse um dos meus eleitos para o raio X da

Coleção Aplauso.

João Bethencourt miolo 2.indd 24

19/10/2007 15:03:32

III

Conversar com o dramaturgo, produtor, tradu-

tor, diretor e divertidíssimo húngaro acariocado

João Bethencourt era entrar em contato com

uma usina de idéias prestes a explodir em meio

a feromônios juvenis. Se ele escreveu dezenas de

peças, ainda não tinha outras tantas concluídas,

mas elas estavam todas lá, semiprontas, no arqui-

vo da memória RAM. Era abrir e vasculhar.

Das mais famosas, muitos haverão de se lembrar

de Bonifácio Bilhões, O Dia em que o Alfredo Virou a Mão, Tem um Psicanalista na Nossa Cama, A Venerável Madame Goneau, O Senhor 25

é Quem? , Frank Sinatra 4815, O Dia em Que Raptaram o Papa.

Esta, em especial, é um fenômeno à parte, dessas

sortes grandes que a dramaturgia de um país

tira de tempos em tempos. Parida em 1972 num

assomo de criatividade – a única que João ga-

rantia ter escrito de uma só tacada –, vem sendo

sistematicamente encenada ao longo destes 33

anos em muitos países da Europa e da América

Latina. Já esteve também em cartaz nos Estados

Unidos e no Canadá, mas os países recordes em

montagens são a Alemanha e a Áustria. Recente-

mente esteve em Viena e, para breve, prometem

João Bethencourt miolo 2.indd 25

19/10/2007 15:03:32

novas encenações. (Outro dia saiu nota em jornal

anunciando a estréia no Vaticano. Efeito da visita de Bento XVI?)

Não só o Papa cruzou o Atlântico: Bonifácio Bilhões, O Dia em que o Alfredo Virou a Mão, O Padre Assaltante e Como Matar um Playboy foram assistidas na Bélgica, Áustria, Inglaterra e não param de ser encenadas. O Padre foi mon-tado recentemente na Áustria e Bonifácio esteve em cartaz na Finlândia.

João – também ele, não apenas suas peças –

viajou para o exterior a trabalho. Além de cursar

26

dramaturgia na Universidade de Yale, nos Estados

Unidos, esteve em Lisboa a convite do famoso

ator luso Raul Solnado; em Londres, onde co-

dirigiu Alec Guiness e em Amsterdam, quando

teve a chance de comandar a encenação de seu

Bonifácio Bilhões em holandês. Isso sem falar uma palavra da língua. Para se virar com os atores,

ia de mímica a inglês e, para decifrar a versão

feita pela mulher do produtor, pegava carona

no alemão, línguas que dominava bem, além do

francês, do espanhol e do português.

Tanto poliglotismo se explica porque João nasceu

em Budapeste e, ainda garoto, se mudou com a

família para o Rio de Janeiro, ali fincando sua

João Bethencourt miolo 2.indd 26

19/10/2007 15:03:32

bandeira transnacional. Desde cedo interessado

em atividades literárias, nem por isso negligen-

ciou o aspecto comercial da vida, que o levou,

ainda jovem, a exercer variadas atividades. Se

por um lado cuidava da fazenda do pai, vendia

inseticida, loção para barba, colhia maçãs nos

Estados Unidos, por outro freqüentava as altas

rodas do Country Club e as famosas dominguei-

ras literárias na casa de Aníbal Machado, pai de

Maria Clara e avô de Pluft, o Fantasminha. João também foi amigo de Nélson Rodrigues, Décio de

Almeida Prado, Oscar Ornstein, Antônio Cândido,

Millôr Fernandes, Stélio Roxo, Pedro Balász, José

Renato e Jorge Dória.

27

Com esses últimos formou a Santíssima Trindade

dos três Jotas – José, Jorge, João –, responsá-

veis por sucessos que marcaram a história do

teatro brasileiro. Com Zé (José Renato, um dos

fundadores do Teatro de Arena), trabalhou por

diversas vezes, e até se associaram em algumas

produções; com Dória emplacou, pelo menos,

duas grandes temporadas: A Gaiola das Loucas

e O Avarento.

O casamento com Margot durou 46 anos e dele

vieram os filhos Cláudio e Cristina e os netos

Victor, Clara, Pedro Estevão e Sophia Helena.

João Bethencourt miolo 2.indd 27

19/10/2007 15:03:32

João era uma cachoeira de riso. Da manga de

seu paletó brotava uma piada atrás da outra.

Ao contar-lhe, por exemplo, que um amigo acha-

va que ele aparentava 70 e não 80 anos, a réplica

veio na lata: Que ótimo! Isto significa que quando eu tiver 110, vou estar com cara de 100!

Além de germinar o grão do humor por onde

passasse, João tinha o hábito de mascar uma ci-

garrilha noir apagada. Revelou que vez por outra a acendia e que suportava o hobby por admirar o gosto do tabaco. É a minha chupeta. Herança do tempo em que pitava cachimbo. (Reza a lenda que durante ensaio teatral teria dado uma

28

cachimbada num ator relapso.)

Outro de seus hobbies era o chocolate. Não à toa um dos encontros – invariavelmente regados

a capuccino – foi selado com chocolate amargo holandês, além da doce presença de Margot.

Afinal, era véspera de Páscoa; a Holanda, para

João, era logo ali; e o melhor humor é mesmo

o amargo.

Entre os vícios do passado – tênis, natação, xa-

drez. Chegou a disputar com o vice-campeão

carioca Erbo Stenzel. No meio da partida, em

posição para lá de vantajosa, fez juntar gente

ao redor. Todos queriam saber quem era o ga-

João Bethencourt miolo 2.indd 28

19/10/2007 15:03:32

roto que dava uma lambuja no craque. Pronto.

Foi o suficiente para que nosso João começasse

a meter os pés pelas mãos e se desferisse um

xeque-mate.

Como tenista era ótimo dramaturgo. Consta que

faltava-lhe coordenação motora e que, quando

a bola vinha em sua direção, invariavelmente

acendia-se-lhe uma lamparina shakespeariana:

To win/or not to win/thatś the question!

Nos tempos de nadador do Botafogo chegou

a conquistar uma medalha de bronze. Mesmo

assim o treinador o repreendeu porque nosso

atleta amador bracejava olhando para trás. A 29

resposta, claro, veio divertida: É que eu estava querendo ver quem chegaria em quarto.

Convenhamos: quem trabalhou com os maiores

atores e ainda teve e tem peças encenadas na

Alemanha, Áustria, Itália, França, Espanha, Por-

tugal, Grécia, Israel, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Iugoslávia, Estados Unidos, México, Argentina, Venezuela, Uruguai, Holanda, Bélgica,

Suíça – além do Brasil, Paquetá e Júpiter – tinha

mais era que se conformar. Se Deus não dá asa

à cobra, que dirá a dramaturgo.