John Carter: Entre Dois Mundos por Stuart Moore - Versão HTML

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JOHN CARTER

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BASEADO NO ROTEIRO DE:

ANDREW STANTON & MARK ANDREWS E MICHAEL CHABON

BASEADO NO CONTO UMA PRINCESA DE MARTE DE EDGAR RICE

BURROUGHS

PRODUZIDO POR:

JIM MORRIS, COLIN WILSON E LINDSEY COLLINS

DIRIGIDO POR ANDREW STANTON

TRADUÇÃO: DÉBORA ISIDORO

Ao entregar a você o estranho manuscrito do capitão Carter em

forma de livro, creio que será interessante escrever algumas

palavras relacionadas a essa impressionante personalidade.

Minhas primeiras lembranças do capitão Carter são dos poucos

meses que ele passou na casa de meu pai na Virgínia, pouco

antes do início da Guerra Civil. Eu era então uma criança de

cinco anos, no máximo, mas lembro bem do homem alto,

moreno, de rosto liso e porte atlético que eu chamava de tio

Jack.

Ele parecia estar sempre rindo; e participava dos esportes

infantis com a mesma boa vontade e simpatia que exibia quando

se envolvia em passatempos apropriados a homens e mulheres

de sua idade; ou ele se sentava por uma hora entretendo minha

velha avó com histórias de sua vida estranha e livre em todas as

partes do mundo. Todos nós o amávamos, e nossos escravos

idolatravam o chão em que ele pisava.

Ele era um esplêndido modelo de masculinidade, com mais de

1,85m de altura, ombros largos e quadril estreito, com o porte

de um homem treinado para lutar. Seus traços eram simétricos e

firmes, o cabelo negro e curto, e os olhos cinzentos como o aço

refletiam um caráter leal e forte, cheio de entusiasmo e

iniciativa. Suas maneiras eram perfeitas, e o refinamento era

típico de um cavalheiro sulista da mais alta estirpe.

Sua habilidade com cavalos, especialmente acompanhando cães,

era um encanto e uma alegria mesmo naquele país de

magníficos cavaleiros. Muitas vezes ouvi meu pai preveni-lo

contra seus loucos descuidos, mas ele apenas ria e dizia que

ainda não nascera o cavalo que o mataria com um tombo.

Ele nos deixou na época em que a guerra eclodiu, e não o vi

mais por 15 ou 16 anos. Quando ele retornou foi sem aviso, e foi

com grande surpresa que notei que ele não aparentava ter

envelhecido nem um momento, nem havia mudado em

nenhum outro traço da aparência. Quando havia outras pessoas

em sua companhia, ele era o mesmo homem feliz e simpático

que conhecíamos há muito tempo, mas quando pensava estar

sozinho eu o via passar horas sentado olhando para o espaço,

com o rosto cristalizado numa máscara de anseio e infelicidade.

À noite ele se sentava para assim olhar o céu e eu não tinha

idéia do porquê, até ler seu manuscrito anos mais tarde.

Ele nos disse que estivera garimpando e trabalhando em minas

no Arizona durante parte do tempo depois da guerra; seu grande

êxito era evidente pela quantidade ilimitada de dinheiro que

possuía. Ele era muito reticente quanto aos detalhes de sua vida

nesses anos e, na verdade, não os mencionava.

Ficou conosco por cerca de um ano e depois foi para Nova York,

onde comprou uma casinha no Hudson. Eu o visitava uma vez

por ano por ocasião de minhas viagens ao mercado de Nova

York - meu pai e eu possuíamos e operávamos uma cadeia de

armazéns de variedades por todo o estado da Virgínia naquela

época. O capitão Carter tinha um pequeno mas belo chalé

situado no alto de um penhasco, com vista para o rio, e durante

uma de minhas últimas visitas, no inverno de 1885, notei que

ele passava muito tempo escrevendo, agora presumo, este

manuscrito.

Naquele tempo ele me disse que, se lhe acontecesse alguma

coisa, ele queria que eu assumisse o comando de sua

propriedade. Então me deu a chave de um compartimento do

cofre que ficava no escritório, informando que eu encontraria

ali seu testamento e algumas instruções pessoais que ele me fez

jurar seguir com total fidelidade.

Quando me recolhia para dormir, eu o via da janela do quarto,

em pé, sob o luar na beirada do precipício de onde se via o

Hudson, os braços levantados para o céu como num apelo.

Pensei que estivesse rezando, mesmo sem nunca ter visto nele

as características de um homem religioso, não no sentido

rigoroso do termo.

Vários meses depois de ter voltado para casa após minha última

visita, em 1o de março de 1886, eu acho, recebi um telegrama

dele me pedindo para ir vê-lo imediatamente. Sempre fui seu

favorito entre os representantes da geração mais jovem dos

Carter, por isso me apressei em atender ao chamado.

Cheguei à pequena estação, distante pouco mais de um

quilômetro da propriedade, na manhã de 4 de março de 1886.

Quando pedi ao homem uniformizado para me levar à

residência do capitão Carter, ele me disse que, se eu era amigo

do capitão, estava para receber notícias bem tristes: ele fora

encontrado morto pouco depois do amanhecer, naquela mesma

manhã, pelo vigia que trabalhava em uma propriedade vizinha.

Por alguma razão, a notícia não me surpreendeu, mas corri à

casa dele o mais depressa que pude, de forma que pudesse cuidar

do corpo e tomar todas as providências.

Encontrei o vigia que o havia descoberto em companhia do

chefe de polícia local e de vários cidadãos, todos reunidos em

seu pequeno escritório. O vigia relatou os poucos detalhes

relacionados à descoberta do corpo, que ele disse ter encontrado

ainda quente. Segundo esse homem, o capitão estava deitado na

neve com os braços estendidos sobre a cabeça na direção da

beirada do precipício.

Quando ele me mostrou a posição eu pensei que ela era idêntica

àquela em que eu o vira várias noites, com os braços erguidos

numa súplica ao céu.

Não havia marcas de violência no corpo. Com a ajuda de um

médico local a perícia chegou rapidamente à conclusão de que a

morte havia sido causada por ataque cardíaco. Sozinho no

estúdio, abri o cofre e tirei tudo que havia na gaveta onde ele

dissera que eu encontraria as instruções. Eram peculiares, em

parte, mas eu as segui até o último detalhe e com toda fidelidade

de que fui capaz.

Ele me orientou a remover seu corpo para a Virgínia sem

embalsamá-lo, e disse que deveria ser posto em um caixão

aberto dentro de uma sepultura que mandara construir

previamente. Como soube mais tarde, a sepultura era bem

ventilada. As instruções estabeleciam que eu devia me assegurar

pessoalmente de que tudo fosse feito como ele determinara e

que tudo fosse feito em segredo, se necessário.

Seus bens foram deixados de tal maneira que eu deveria receber

os rendimentos durante vinte e cinco anos, quando as

propriedades se tornariam minhas. Outras instruções eram

relacionadas a esse manuscrito, que eu deveria manter por 11

anos lacrado e não lido, tal qual eu o encontrara, e cujo

conteúdo eu só poderia divulgar 21 anos depois de sua morte.

Uma coisa estranha a respeito da sepultura onde seu corpo ainda

descansa é que a porta imponente possui uma grande fechadura

dourada que só pode ser aberta por dentro.

Cordialmente,

Edgar Rice Burroughs

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- Luz - GRITOU Sab Than, alçando o corpo em meio à poeira que

girava na ponte da aeronave. - Preciso de luz limpa!

Os homens se debruçaram sobre seus comandos, se esforçando

para guiar a aeronave para cima, para dentro da nuvem da

poeira. A areia entrava pelos portais abertos da ponte semi-

cerrada. Um tripulante, um homem velho que havia servido ao

pai de Sab, tossiu secamente.

- Eu disse luz limpa - Sab continuou. - Para o alto!

- Para o alto! - o homem repetiu.

Sab Than, governante da cidade predadora de Zodanga,

segurou-se à balaustrada da ponte, na altura de sua cintura, e

cambaleou sobre o deque aberto, afastando a areia mortal com

um gesto da mão protegida pela luva. A aeronave arrancou,

subindo com o nariz apontado para o alto. Do lado de fora,

equipes de aviadores trabalhavam furiosamente para preparar as

palhetas solares da nave... Os longos equipamentos de metal

folhado que possibilitavam a viagem aérea no planeta vermelho

de Barsoom - também conhecido como Marte.

Sab olhou para cima, além da tremulante bandeira vermelha de

Zodanga, para a nuvem que se aproximava. Depois ele se virou

para olhar para trás da nave. Não conseguia ver os perseguidores

no meio da poeira densa, mas sabia que ainda estavam em seu

encalço. Duas naves de Helium, único reino que ainda ousava

desafiar a supremacia de Zodanga. E agora tinham encurralado o

governante de Zodanga em uma tempestade de areia.

Apesar do perigo, Sab sentia o sangue ferver diante do desafio.

Os pensamentos invocavam o momento mais intenso e

imponente de sua vida: o dia em que assumira pela primeira vez

o trono de Zodanga. Zodanga, a devoradora - a cidade móvel,

atropelando as areias de Barsoom com suas centenas de pernas,

drenando esse mundo de toda vida e energia. Governar Zodanga

era ter um poder que nenhum outro homem jamais conhecera.

Quando a nave ganhou mais altitude e entrou na tempestade, a

poeira se tornou densa e escura. Em torno de Sab Than, homens

tossiam e sufocavam, apesar das máscaras. Sab ficou firme,

apenas piscando um pouco enquanto examinava o furioso céu

marciano.

Então a nave se inclinou para a esquerda, descrevendo uma

curva acentuada. O ar ficou mais claro. A tempestade de areia

sumiu abaixo da nave e foi substituída pela luz ofuscante do sol.

Raios de sol incidiram sobre o deque da nave, sobre as asas e as

palhetas solares. Os tripulantes assobiavam e gritavam,

trabalhando para direcionar as placas das asas para a luz.

Triunfante, Sab recuou e voltou ao interior no instante em que a

luz inundou a ponte. A tripulação entrou em ação, correndo de

leme em leme, de instrumento em instrumento.

A luz dançava nos controles de múltiplas lentes.

- Força total! - ele gritou.

- Dez pontos ascendentes - disse o navegador.

As mãos do cartografo voavam sobre os controles.

- Preparando novo curso...

- Não há tempo - disse Sab. - Curva fechada. Agora!

O cartografo fez uma careta, mas assentiu e obedeceu. Sab

segurou-se firme a uma mureta quando a nave sofreu um

solavanco, fazendo o retorno sobre o ponto exato onde eles

haviam emergido da tempestade de areia.

Sab correu de volta ao deque no mesmo instante em que os

atiradores trocavam de posição nas estações de armas. Eles se

apoderavam das grandes metralhadoras sobre apoios,

apontando-as para o alto, para baixo e girando. Ainda não

conseguiam ver os alvos.

- Apontem para baixo - Sab gritou contra o vento, no mesmo

instante em que as duas aeronaves de Helium apareceram do

nada, irrompendo da nuvem de poeira e subindo. Os atiradores

se prepararam para disparar...

- Sombra!

Era o pior alerta possível a bordo de uma aeronave.

Chocado, Sab virou a cabeça para o alto e viu uma terceira

aeronave de Helium pairando no ar, bloqueando a passagem de

luz para as velas zodanguianas. Sab sentiu a aeronave abaixo

dele reduzir velocidade, e o barulho dos poderosos motores

enfraquecer com a interrupção repentina da preciosa energia

solar.

Depois disso, tudo aconteceu muito depressa. As duas primeiras

aeronaves de Helium subiram, abrindo fogo assim que se

posicionaram junto à nave de Sab. Choveram balas de canhão

sobre o deque zodanguiano. A terceira nave começou a mandar

grupos de abordagem que desciam por longas cordas.

Os guerreiros de Sab Than não precisaram de ordens, nem do

comando de seu líder. Sacando espadas, eles combateram

abertamente os invasores no caótico e oscilante deque da

aeronave. Tiros de canhão ribombavam em torno deles. Os

atiradores de Sab tentavam reagir com fogo, mas logo o deque

tornou-se uma confusão de zodanguianos em vermelho e

heliuminitas em suas malditas capas azuis. Alguns caíam mortos

no deque, outros despencavam da nave para as areias marcianas

lá embaixo.

Sab rangeu os dentes, sacou sua espada e na seqüência atingiu

um oponente. Um, dois, três soldados vestidos de azul. Mas ele

sabia que não seria suficiente. Podia enfrentar uma nave de

Helium, talvez duas. Mas, três naves o haviam encurralado e

não havia energia suficiente para fugir. Os soldados de Helium

já dominavam a ponte.

Sab Than sabia que seu governo chegava ao fim. Assim como

sua vida.

Então, algo aconteceu. Algo que mudou o destino do planeta

Barsoom.

Quando cambaleou e caiu momentaneamente contra uma

balaustrada, Sab viu uma estranha luz azul. Ela emanava da

nave inimiga mais próxima, flutuando numa distância de alguns

poucos metros no céu. A nave parecia estar envolvida em

chamas azuis, um fogo frio e sinistro diferente de tudo que Sab

já havia visto. Diante de seus olhos, o fogo ganhou intensidade,

cercando toda a nave de Helium - que cintilou e desapareceu.

Simplesmente sumiu.

Sab olhou para o alto bem a tempo de ver a mesma chama tocar

a nave que flutuava sobre eles. Essa também desapareceu, sumiu

num forte clarão azul, revelando o sol ofuscante acima dela. Em

torno de Sab, os guerreiros - tanto de Zodanga quanto de

Helium - apontavam e olhavam chocados, com medo, vendo a

terceira nave sofrer o mesmo destino e dissolver-se em um

lampejo de poeira azul.

Contudo, a chama azul não se apagou. Ela se aproximou,

cercando-os de todos os lados. Surpreendentemente, a luz não

tocava os mostradores e instrumentos de Sab. Porém, diante dos

olhos perplexos do governante, a luz incinerou guerreiro após

guerreiro, fazendo cada um deles desaparecer em um raio de

fogo mortal. Zodanguianos e heliuminitas, atiradores e

navegadores - ninguém foi poupado.

Finalmente, restou apenas Sab Than.

O fogo ainda se aproximava. Rangendo os dentes, Sab levantou

a espada - um gesto inútil, ele sabia. Mas, para sua surpresa, o

fogo parou na ponta da espada e se dissolveu em um brilho azul.

Um forte raio de sol o atingiu em cheio, cegando-o por um

momento. Ele cobriu os olhos com a mão em pala, espiando o

sol. Três silhuetas envoltas por mantos desciam suavemente pela

luz radiante, chegando com facilidade ao deque aberto - onde

não restava o menor traço da tripulação de Sab Than ou dos

invasores de Helium.

As criaturas eram altas e calvas e seus mantos claros tinham

estampas de complexos desenhos antigos. O líder empunhava

uma estranha arma, uma mistura de luva de armadura com

pistola que envolvia sua mão em uma rede de renda azul. Sab

Than viu o líder aproximar-se e entregar a ele o estranho

equipamento.

Sab olhou para a arma por um longo instante. Nos meses

seguintes, ele aprenderia a palavra nanotecnologia, assim como

o nome do líder, Matai Shang, e o nome daquela estranha raça:

os therns. Mas nesse momento...

Sab apontou para Matai Shang e atirou.

O tiro atingiu um campo de energia e se dissipou sem causar

dano. Matai levantou uma das mãos e fez um gesto

despreocupado, tirando Sab do chão com uma força invisível. A

arma caiu no chão do deque com um barulho

surpreendentemente suave.

- Ser tolo é um grande luxo, Sab Than - Matai falou com uma

voz grave e antiga. - Levante-se.

Sab ficou em pé com esforço.

- Quem... o que são vocês?

- Servimos à Deusa - disse Matai. - E ela o escolheu para receber

esta arma.

Ele moveu a mão mais uma vez e a arma levitou do chão,

voltando para a mão de Sab.

Sab deslizou as mãos pela arma, experimentando a curiosa

textura firme e, ao mesmo tempo, macia. De repente ele sentiu

o antigo poder, aquela sensação de conquista iminente, a mesma

que havia sentido no dia em que ocupara o trono pela primeira

vez.

Sua vida, agora sabia, não chegara ao fim. Estava apenas

começando.

- Faça como ordenamos - continuou Matai - e governará

Barsoom. Sem ninguém para desafiá-lo e nada para ficar no seu

caminho.

Sozinho no deque de sua nave, tendo por testemunhas apenas os

três therns que mais pareciam deuses, Sab Than assentiu e

preparou-se para aceitar seu destino.

Capí

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u o 1

MEU NOME é Edgar Rice Burroughs, sou escritor de ficção

popular. Quando alguém ganha a vida com esse ofício, essa

pessoa também lê muito: livros, revistas populares, manuais, até

anúncios. Mas nada do que eu tenha lido me perturbou tanto

quanto o telegrama que recebi naquele dia fatídico em 1881:

QUERIDO NED

VENHA IMEDIATAMENTE

JOHN CARTER

Era seco, sem informações, mas as implicações me deixaram

gelado por dentro. Meu tio Jack nunca fora homem de pedir

ajuda, e eu o conhecia bem o bastante para sentir o desespero

por trás de suas palavras. Quando o trem em que eu viajava

parou na estação Croton-on-Hudson, eu havia lido o telegrama

uma dúzia de vezes, procurando pistas em vão.

Vi o homem solene e reservado em pé na plataforma, chamando

meu nome. E entendi.

- Sr. Burroughs? Meu nome é Thompson, sou mordomo do

capitão Carter. Receio ter más notícias...

Depois do silencioso trajeto em carruagem, paramos diante da

sóbria mansão de granito de tio Jack. Thompson me ajudou a

descer, e eu apertei a mão de um cavalheiro baixinho e vestido

formalmente, que se apresentou como Noah Dalton, advogado

de meu tio.

- Meus mais profundos sentimentos, Sr. Burroughs. - Dalton

pediu-me que entrasse na casa. - A morte de seu tio foi um

choque para todos nós. Ele era um modelo de saúde e vigor.

Em pé no saguão mantido em ordem impecável, mal consegui

acreditar nas notícias.

- Como ele...?

- Apoplexia. Simplesmente caiu morto em seu estúdio menos de

cinco minutos depois de mandar me chamar para buscar o

médico. Quando cheguei, ele já havia... partido.

Entramos no salão principal e eu parei, olhando para a cena

diante de mim. Objetos enchiam a sala: relíquias, mapas, cartas,

documentos, fotografias de sítios arquitetônicos representando

todas as culturas antigas do mundo. Os objetos estavam

espalhados aleatoriamente em torno de uma mesa central - não

como uma exibição de museu, mas como se fossem partes vitais

de um grandioso projeto de pesquisa.

- O homem nunca parava de explorar - prosseguiu Dalton. - Pelo

mundo todo. Ele mal começava a cavar um buraco e já estava a

caminho de Java ou das Ilhas Orkney para cavar outro. Dizia

que era pura pesquisa, mas sempre tive a impressão de que ele

procurava alguma coisa. - O homem voltou seu olhar piedoso

para o céu. - Deus permita que agora ele tenha encontrado.

Eu não prestava atenção ao que ele dizia. Olhava interessado

para um grande mapa-múndi marcado por dúzias de pequeninos

alfinetes, todos interligados por fios multicoloridos. Ao lado

dele havia um retrato de meu tio, forte e robusto, mas com um

toque de tristeza no olhar. Ele era um homem muito vigoroso

que parecia ter parado de envelhecer em um dado momento.

Não parecia mais velho do que as lembranças mais antigas que

eu tinha dele.

Dalton apontou o porta-retratos.

- Um cavaleiro perfeito, até o fim - disse.

- Minha mãe disse que Jack nunca voltou de fato da guerra -

comentei. - Ela dizia que só o corpo dele que foi para o oeste.

Sempre suspeitei de que alguma coisa aconteceu com ele

naquele tempo, quando era jovem.

- Muitos homens têm cicatrizes daquele conflito - Dalton disse

em tom suave.

- Ele me contava as histórias mais incríveis. - A respiração

falhou por um segundo e limpei uma lágrima. - Gostaria de

prestar-lhe minha homenagem.

Dalton me levou para fora da casa e nós atravessamos o terreno

da propriedade, chegando a um mausoléu simples de pedra que

se erguia entre as alamedas de fronteiras verdes. Seu tamanho

era quase insuficiente para abrigar um corpo, e sobre a porta

havia as palavras INTER MUNDOS entalhadas na pedra.

- Inter mundos - sussurrei, passando a mão pela porta

perfeitamente lisa.

- Não vai encontrar fechadura - disse Dalton. - Ela só abre por

dentro. Ele insistiu. Caixão aberto; sem embalsamar, sem

funeral.

Andei em volta da sepultura de pedra limpa, quase sem traços

dignos de nota. Ainda procurando pistas.

Dalton sorriu com ironia.

- Ninguém acumula a riqueza que seu tio conseguiu se

comportando como a maioria, não é?

Naquela noite, eu me sentei no pequeno anexo do salão

principal para ouvir Dalton ler o testamento de meu tio.

Enquanto ele falava, eu não conseguia deixar de analisar os

artefatos: estatuetas, mapas obscuros, estranhas esculturas de

culturas que nunca vi antes...

- ...de agora em diante determino que minha propriedade deverá

ser mantida em fundo por vinte e cinco anos, e seus

rendimentos beneficiarão meu querido sobrinho, Edgar Rice

Burroughs. Ao final do período estipulado todos os meus bens

serão entregues a ele.

Virei a cabeça para ele, chocado.

- O quê?

Dalton assentiu.

- Todos os bens - repetiu.

- Eu... é claro que sempre o adorei. Mas faz tanto tempo. Por

quê...?

- Ele não deu nenhuma explicação, e eu não fiz perguntas.

Dalton enfiou a mão em sua pasta e retirou de lá um diário de

capa de couro bem velho preso por um enorme fecho. Ele o

empurrou para mim por cima da mesa.

- O diário pessoal dele - disse. - Ele fez muita questão de que

você, e só você, lesse esse registro. Talvez você encontre aí

algum tipo de explicação, acho.

Toquei o livro e deslizei os dedos pela capa de couro macio.

- Agora me retiro. - Dalton se levantou. - Mais uma vez, meus

pêsames.

Olhando para o livro, quase nem tomei conhecimento da

partida de Dalton. Com mãos trêmulas, toquei o fecho e o abri.

Comecei a ler com lágrimas nos olhos, fascinado.

Meu querido Edgar, lembro como eu costumava sentá-lo no

meu colo e contar histórias fantásticas, nas quais você sempre

me fazia a cortesia de acreditar. Agora você cresceu; o tempo e

o espaço nos separaram. Mas eu transponho essa distância para

me aproximar daquele mesmo menino de olhos muito abertos e

pedir-lhe para acreditar em mim mais uma vez.

Essa história fantástica começa em 1868, há treze anos, no

território do Arizona, entre as montanhas Pinaleno e os fundos

do Inferno...

Capí

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u o 2

QUANDO JOHN Carter voltou ao posto avançado do forte Grant, ele

era um arremedo de ser humano. Sua barba estava longa e

infestada de bichos, as peles de búfalo fediam a suor e poeira. Os

alforjes pendiam praticamente em frangalhos; a mula que o

acompanhava estava quase morta. Em seus olhos brilhava o fogo

da loucura.

Mas não foi por nada disso que fez Dix, dono do armazém,

revirar os olhos e virar as costas quando Carter se arrastou para

dentro de seu estabelecimento.

Havia dois grandalhões bebendo junto do balcão. Um deles o

encarou rindo.

- Veio comprar isca de aranha, Carter?

Carter o ignorou, aproximou-se de Dix e deixou dois pesados

alforjes sobre o balcão. Dix balançou a cabeça.

- Já chega, Carter.

Carter alisou a barba e olhou para o comerciante.

- Algum problema, Sr. Dix?

- Sim. Você é maluco.

Os grandalhões riram e bateram com a mão no balcão. Mas o

rosto de Dix estava sério, até zangado.

- Você me deve dinheiro, Carter. Cem dólares, e a dívida já

venceu.

- Eu vou pagar - Carter respondeu. - Estou perto disso. Esse

velho yavapai que conheci disse ter visto a caverna perto do...

- Pare - Dix levantou a mão. - Nem mais uma palavra sobre sua

caverna de ouro.

- Ei, ei - disse um dos valentões. - Tenha respeito, Dix. É a

caverna de ouro da aranha malvada.

Os grandalhões riram de novo e brindaram batendo os copos.

- Acabou, Carter - Dix anunciou com olhar firme. - Vá para casa.

Carter não se moveu.

Lentamente, os dois grandalhões se levantaram. O primeiro

sacou uma faca e aproximou o rosto do de Carter.

- Acho que ele disse para você ir embora.

O segundo tocou o cabo do Colt.

- Irei embora quando essas bolsas estiverem cheias - Carter

falou.

O primeiro grandalhão se moveu. Carter pegou a tampa de um

pote sobre o balcão, bloqueando com facilidade o golpe da faca.

O homem grunhiu e deixou cair a lâmina, mas Carter já se

virava para pegar o revólver do segundo agressor. Carter bateu a

mão armada contra o rosto do homem, quebrando seu nariz. Em

seguida, com grande agilidade, ele bateu com a tampa do pote

no queixo do primeiro atacante, provocando um estalo

pavoroso.

Os dois caíram inconscientes.

Carter pegou o revólver de um deles e se virou, apontando-o

para o rosto de Dix. Sabia o que o comerciante guardava

escondido sob o balcão.

- Solte a arma, Dix.

Dix engoliu em seco. O barulho indicou o momento exato em

que sua espingarda caiu no chão.

Mantendo o Colt apontado para a cabeça de Dix, Carter enfiou a

outra mão no bolso, de onde tirou um pequeno objeto que jogou

para o perplexo comerciante.

- Encontrei isto há dois dias, perto de Bonita. Deve pagar minha

dívida e ainda sobra.

Os olhos de Dix se estreitaram. Ele olhou para o objeto, uma

pequena estátua apache de uns cinco centímetros de altura.

Uma aranha com nove pernas esculpida em ouro brilhante.

Dix levantou a cabeça e olhou para Carter com ar chocado.

- Por que não mostrou isso logo?

- Não gostei da sua atitude. - Carter baixou a arma e jogou a lista

de compras sobre o balcão. - Feijão. O primeiro item é feijão.

- John Carter?

Carter não se virou, mas reconheceu o tom. Homens da

cavalaria - mais de um, pelo som. Ele resmungou um palavrão.

Havia se preocupado tanto com os locais que se esquecera de

proteger a retaguarda.

- Sua presença é requisitada no forte. Sugiro que venha

pacificamente.

A mão de Carter apertou o cabo da pistola.

- Ah, você sugere... - Ele se virou... e deu de cara com o cano de

uma Remington do exército.

Só teve tempo para registrar o rosto aborrecido de um sargento

acompanhado por três subordinados. Depois mergulhou num

sono cheio de aranhas, sofrimento e pesar.

- Você é um homem difícil de encontrar.

Mais tarde, Carter não conseguia lembrar o que havia

acontecido primeiro: as palavras incisivas ou o jato de água fria

no rosto. Ele voltou ao mundo dos vivos engasgando e tossindo

sobre uma cadeira de madeira, no centro de um gabinete militar

improvisado. Dois guardas de mãos grandes seguravam seus

ombros. Um coronel carrancudo, desconfiado e de meia-idade

estava parado diante dele segurando uma pasta cheia de papéis.

- Capitão John Carter - o coronel continuou. - Primeira

Cavalaria da Virgínia, Exército do Norte da Virgínia. Estados

Confederados da América. - Ele se abaixou para encará-lo

diretamente. - Sou o coronel Powell. Seja bem-vindo à Sétima

Cavalaria dos Estados Unidos da...

Carter jogou o corpo para frente, dando uma cabeçada violenta

em Powell. A cabeça do militar virou para trás, jorrando sangue.

Carter levantou-se, mas cambaleou sem equilíbrio, ainda

atordoado. Os dois guardas entraram em ação, agarrando-o

rapidamente e jogando-o no chão. Enquanto Powell limpava o

sangue do nariz com uma careta desapontada, os golpes dos

guardas caíam sobre Carter.

Vinte minutos mais tarde, ele estava algemado à grade da cela

do forte. Seu rosto estava machucado, o olho ainda sangrava.

Powell estava em pé do lado de fora, lendo tranqüilamente o

dossiê como se nada houvesse acontecido.

- ...excelente cavaleiro, ótimo espadachim. Condecorado seis

vezes, inclusive com a Cruz de Honra do Sul. Em Five Forks, a

companhia sob seu comando quase mudou a situação.

Carter fungou com desdém, depois se encolheu com a dor. Tudo

doía.

- Resumindo - Powell continuou - um guerreiro inato. E aos

olhos do Tio Sam, um homem necessário para a defesa do

território do Arizona...

- Não.

Powell ergueu os olhos dos papéis. Olhos duros.

- Estamos cercados de apaches, filho.

- Não é problema meu - disse Carter.

- Creio que é sim, capitão. As pessoas são atacadas em suas casas.

Mortas. Elas precisam de proteção.

- Vocês começaram tudo isso. Vocês que terminem.

- Agora é nativo, então?

- Os apaches também podem ir para o inferno. - Carter sacudiu

as algemas, sentindo a velha ira ferver dentro dele. - A

humanidade é uma espécie selvagem e beligerante. Não quero

saber dela.

- Você é um homem da cavalaria. Isso o torna valioso para nosso

país e nossa causa.

- Coronel Powell. Senhor. - Carter empurrou o rosto contra as

grades. - Seja qual for a dívida que imagina que tenho com você,

com o nosso país ou com qualquer outra preciosa causa, já

paguei. Está quitada.

Ele cuspiu por entre as barras. Powell o olhou de cima,

impassível.

- Mas vou lhe dizer o que eu vou fazer - Carter continuou. - Vou

sair desta cela, pegar meu ouro, trocá-lo por uma fortuna em

dinheiro imundo, e depois vou comprar sua bunda murcha de

soldado só para poder chutá-la por aí o dia inteiro.

De repente, e com grande selvageria, Powell deu um soco no

estômago de Carter enfiando a mão entre as barras da grade.

Carter caiu para trás e ficou tossindo no chão da cela.

Powell olhou com desprezo para o prisioneiro.

- Capitão - ele disse lentamente -, tenho dificuldades para

relacionar o homem do meu dossiê com esse para o que estou

olhando. Sugiro que tenha o bom senso de aceitar minha oferta,

antes que eu faça o que realmente acho que devo fazer.

A porta bateu e Powell se foi. Carter estava de joelhos, tonto,

pensando: Não desmaie. E se desmaiar, pelo amor de Deus, não

sonhe com Sarah.

Mas, é claro que ele sonhou.

Na manhã seguinte, ao amanhecer, Carter enganou um guarda,

pegou o cavalo do coronel e subiu cerca de oito quilômetros das

colinas do Arizona antes de ser avistado.

Ele levou o cavalo para uma encosta íngreme e olhou

rapidamente para trás. Seis soldados montados liderados pelo

próprio Powell se aproximavam depressa. E o coronel não

parecia feliz. Carter praguejou, conduzindo o cavalo em

velocidade ainda maior. Havia roubado o casaco e o chapéu do

guarda, e agora o sol quente o fazia suar. Mas a arma do guarda

ainda podia ser útil.

Quando Carter aproximou-se do cume da colina, o trovejar de

cascos soava mais forte atrás dele. Ele sabia que seria apanhado.

A menos que houvesse algo inesperado além daquele pico...

Havia. Uma dúzia de guerreiros apaches vestindo trajes de

guerra completos e armados com rifles modernos.

Carter deteve o cavalo e levantou as duas mãos num gesto de

rendição. Os apaches se aproximaram desconfiados. Depois,

ouviram o som dos cavalos que perseguiam Carter e voltaram ao

estado de alerta anterior.

Devagar, cuidadosamente, Carter falou com os apaches no

idioma deles. Explicou que aquilo era um exercício, um jogo

entre os homens brancos, não um ataque contra os nativos. O

líder dos apaches, um homem chamado Domingo, ouvia com

atenção e desconfiança, mas seus homens mantiveram as armas

apontadas para a cabeça de Carter.

Domingo parecia ter rancor dos brancos daquela região. Carter

o entendia. Havia muitos homens brancos de quem ele também

não gostava.

Quando os cavaleiros comandados por Powell chegaram ao pico

da colina, Carter havia quase convencido Domingo a não matá-

los todos.

Então, um soldado ansioso gritou:

- Senhor!

E os apaches ameaçaram atacá-lo.

- Cale essa boca, cabo - ordenou Powell. Ele se aproximou de

Carter e Domingo, cujos homens agora o mantinham sob a mira

de suas armas.

Os homens de Powell se posicionavam lentamente em arco,

também com as armas em punho. Apaches e cavalaria se

observavam atentos, os dedos nervosos sobre o gatilho.

- O que ele está dizendo, Carter?

Carter levantou a mão pedindo silêncio. Domingo, no entanto,

já estava ficando agitado, acusando Carter de induzir os apaches

a uma armadilha. Carter mantinha a voz baixa, calma, mas

insistente, explicando a Domingo que aquilo era só uma questão

entre ele mesmo e o Coronel Powell.

- Carter, que diabos eles estão...

Um tiro. Carter nunca soube quem o disparou, mas foi o

bastante. A colina explodiu num confronto armado.

O cavalo de Carter disparou encosta abaixo e quase o derrubou.

Ele tentava controlar o animal, lutando com as rédeas. Homens

da cavalaria caíam - um, dois, todos eles, seis no total, e seus

cavalos saíram em debandada, sem nenhum controle. E bem

atrás dele...

- Carter!

Powell o seguia com visível fúria nos olhos. Contudo, um tiro

atingiu o coronel. Ele gritou e tombou sobre o cavalo que, em

pânico, emparelhou com o de Carter.

Carter estendeu o braço e agarrou as rédeas do animal,

pensando que devia estar maluco.

Com esforço, tentou controlar as duas montarias. Domingo

gritava palavrões, mas Carter e Powell tinham uma boa

vantagem. Mesmo assim, o apache logo estaria atrás deles.

Powell segurava o ombro ensangüentado.

- Pensei... que não se importasse.

- Cale a boca.

Mais adiante, o terreno árido do deserto se estreitava formando

uma garganta entre duas colinas altas. Era a única chance que

tinham. Carter puxou as rédeas e conduziu os dois cavalos para

o corredor estreito.

Sabia que os apaches os perseguiam, silenciosos como coiotes.

Carter parou os animais na entrada de uma grande caverna e

desmontou depressa. Depois tirou o atordoado Powell de cima

do cavalo. Powell o encarou furioso por um instante quando

Carter o desarmou, mas não disse nada. Carter o arrastou para

dentro da caverna e o sentou com as costas apoiadas à parede.

Havia só uma entrada na caverna escura. Carter não acreditava

que poderia vencer sozinho uma dúzia de apaches, mas pelo

menos os veria chegar.

Já se ouvia os cascos dos cavalos batendo no chão do lado de

fora.

Powell se mexeu.

- Dê-me uma arma, Carter.

Carter assentiu e entregou uma pistola ao coronel. Em seguida,

engatilhou seu rifle e esperou. Os apaches surgiram a toda na

entrada da caverna... e pararam de repente, todos boquiabertos e

horrorizados.

Suas montarias relinchavam de medo.

Os olhos apavorados de Domingo encontraram os de Carter por

um momento e ele balançou a cabeça. Em seguida, o chefe fez

um gesto e os apaches se afastaram cavalgando a toda pressa.

Carter olhou para Powell, que deu de ombros. Devagar, ainda

com o rifle preparado, Carter se aproximou da abertura da

caverna. Lá fora, era possível ver a poeira que os apaches

levantavam enquanto desapareciam do outro lado de uma

encosta. Ele então se virou para olhar para a boca da caverna, e

seu coração parou de bater por uma fração de segundo.

Entalhado sobre a entrada havia um círculo do qual se

irradiavam nove linhas.

A aranha de nove pernas.

Alguns minutos mais tarde, no fundo da caverna, Carter

acendeu um fósforo e não conteve uma exclamação de espanto.

Artefatos tomavam todo o espaço: uma canoa apodrecendo,

pedaços de flechas velhas. Mas uma sinistra e complexa rede de

linhas se estendia por todas as paredes, aparentemente

entalhadas há muito, muito tempo. Na parede ao fundo havia

uma plataforma de pedra, uma grande rocha esculpida com o

mesmo desenho da aranha de nove pernas.

Atrás dele, Powell resmungou:

- Este lugar não é apache, isso é certo.

Carter passeou lentamente o fósforo aceso - alguma coisa na

parede refletia sua luminosidade. Arregalando os olhos, ele

seguiu um veio brilhante ao longo da parede até o teto, que

cintilava pela pequena chama do fósforo.

- Ouro - sussurrou ele.

- Carter!

Carter virou-se e viu uma silhueta estranhamente vestida

caminhando em sua direção. Havia em seu pescoço um

medalhão com o desenho da aranha de nove pernas. Uma

lâmina preta e de aparência mortal surgiu na mão da criatura,

materializada do nada.

Carter atirou. A figura levou a mão ao peito e caiu para trás.

Powell se aproximou mancando e olhou para o recém-chegado.

- Ele não estava aqui. E de repente estava...

O desconhecido tentou se levantar, mas Carter sabia que ele

estava morrendo. Ele levantou seu medalhão, que agora

brilhava intensamente azul, e começou a cantar:

- Ok Ohem, Oktay, Weez... - Um gemido de dor. - Ok Ohem,

Oktay, Weez B...

O medalhão escorregou dos dedos sem vida da criatura, e Carter

o recolheu.

- Weez... Barsoom - concluiu o desconhecido.

Carter olhou para o artefato brilhante.

- Barsoom?

Ele só teve tempo para ver Powell estendendo a mão em sua

direção e gritar apavorado.

E então, John Carter desapareceu.

Capí

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u o 3

As PERNAS da aranha pareciam se esticar em todas as direções,

fraturando espaço e tempo em uma rede infinita de luz. Carter

caía, caía eternamente, sem conseguir sequer tentar se agarrar a

um dos feixes de luz que poderiam levá-lo de volta para casa.

Então os feixes pareceram se comprimir, juntando-se em um

único e grosso cordão de luz brilhante. Ele o atraía, o sugava

com irresistível força gravitacional. Carter foi tragado pelo

cordão, cego e impotente...

Até que ele levantou a cabeça e cuspiu areia carmim.

Olhou em volta, piscando, incrédulo. Definitivamente, não

estava mais na caverna. A areia vermelha se estendia em todas

as direções até onde podia enxergar; musgo amarelo cobria

rochas escarlates; estranhas e bulbosas formações rochosas

salpicavam a paisagem desértica. Carter balançou a cabeça e se

levantou de um salto.

Girou no ar. Seis metros, oito, e finalmente ele caiu sobre um

aglomerado do estranho musgo amarelo.

Perplexo, ele se levantou devagar. Deu um passo hesitante... e

subiu, subiu, caindo às cambalhotas feito um mergulhador.

Durante a meia hora seguinte, Carter tentou saltitar, andar

devagar, pular como um sapo, nadar no ar e saltar como um

coelho. Todos os movimentos terminavam com um doloroso

retorno ao solo do deserto. Desesperado, ele se agachou e tentou

andar feito um caranguejo pela areia, movendo-se com

segurança. O processo era lento e humilhante, mas funcionou.

Frustrado, ele aumentou a velocidade dos passos e subiu

novamente, quase se chocando contra uma formação rochosa

antes de cair de novo.

Furioso, Carter pegou uma pedra e a jogou longe com toda força

que tinha. Ela disparou como um míssil, voando mais longe do

que ele podia enxergar. Carter arregalou os olhos. Depois ele se

abaixou e se arremessou no ar, como fizera com a pedra.

Girando no meio do vôo, ele conseguiu pousar sobre os pés e

com segurança.

Quatro ou cinco pulos mais tarde, estava quase se divertindo.

Ele executou um arco complexo no ar, evitando por pouco um

círculo de pedras de contorno serrilhado, e notou uma estranha

estrutura octogonal mais adiante, um espaço que lembrava um

curral com laterais opacas e cobertura de vidro facetado. Carter

rastejou até lá e galgou ao alto da construção para espiar através

da cobertura.

E não conteve uma exclamação de espanto.

Grandes ovos cobriam o piso do cercado, tremendo como feijões

saltadores mexicanos. Horrorizado, Carter viu um braço verde e

fino surgir de um ovo quebrado. Outra rachadura, outro braço.

Depois, um par de perninhas verdes.

Um dos ovos se abriu e um bebê magro monstruoso piscou e o

encarou. Sua pele era completamente verde. Duas pequenas

presas grossas brotavam das faces macias do recém-nascido.

Carter não conseguia desviar o olhar. É uma incubadora, ele

percebeu.

Outro ovo rachou, depois um terceiro. Logo a incubadora estava

cheia de furiosos e inquietos bebês verdes. Um deles começou a

chorar e os outros o imitaram, criando uma cacofonia terrível.

Carter se encolheu.

De repente um rugido soou atrás dele como que em resposta,

seguido por um trovejar de cascos gigantescos. Uma manada de

bestas gigantescas se aproximava levantando uma nuvem de

poeira vermelha. Criaturas enormes, cada uma do tamanho de

uma casa, com presas cinzentas, quatro pernas de cada lado e

estranhas caudas achatadas. Carter nunca vira nada parecido

com elas.

Quando notou os seres que cavalgavam as bestas, ele foi tomado

por um novo tipo de medo.

Eram figuras de forma vagamente humana, mas verdes, e com

corpos alongados como aranhas. Tinham pelo menos três metros

de altura e quatro braços em vez dos dois habituais.Todos

usavam traje cerimonial de guerreiro e levavam uma

impressionante coleção de lanças, pistolas e outras armas

desconhecidas. Como suas montarias

- e como os bebês que Carter acabara de ver saindo dos ovos -

cada cavaleiro tinha duas presas afiadas e curvas brotando da

metade inferior do rosto.

O que Powell dissera na caverna, mesmo?

Este lugar não é apache, isso é certo.

O líder dos cavaleiros gritou alguma coisa, apontou uma lança

afiada para Carter e atacou. Sem pensar, Carter pulou para o alto

e foi parar muito além da cabeça do cavaleiro. O animal se

chocou contra uma pedra, jogando longe a criatura que a

montava. O homem verde caiu com violência e ficou deitado na

areia.

Carter pousou com facilidade e no mesmo instante ouviu o

primeiro tiro.

Os cavaleiros estavam atirando com seus longos rifles. Carter se

jogou no chão e rolou para trás de uma pilha de pedras. Balas as

atingiram e acabaram com o esconderijo. Os velhos instintos de

guerra entraram em ação, e ele começou uma série de saltos

curtos em zigue-zague, pousando de rocha em rocha, à procura

de regiões mais altas.

Carter olhou para trás e viu o líder - já recuperado da queda -

desviar com um tapa o cano do rifle de um guerreiro de presa

quebrada.

- Katom! Tet mu yat Jeddak hok ta!

De trás de uma rocha, Carter viu o líder dos guerreiros ordenar

com um gesto imperioso que seus homens recuassem. O

guerreiro de presa quebrada hesitou por um instante, olhando

furioso para o comandante, depois se juntou aos companheiros

para formar um perímetro em torno da posição de Carter.

O líder andou na direção dele.

- Kaor! - ele disse. - Jah mu tet!

Carter ficou tenso ao ver o guerreiro verde se aproximando

devagar, deliberadamente, sem nunca desviar o olhar. O líder

depôs sua lança, desafivelou a bainha e se livrou de todas as

armas uma a uma, deixando-as no chão ordenadamente.

Quando falou novamente, seu tom era calmo, quase relaxante.

—Jah mu tet. Satav... satav.

Carter saiu de trás da pedra com as mãos erguidas, as palmas

voltadas para a frente.

- Tudo bem, você me pegou. Eu me rendo.

- Jeddak. - A criatura apontou para ela mesma. - Tars Tarkas.

- Jeddak? - Carter repetiu.

- Tars. Tars Tarkas.

A criatura sorriu, um sorriso horrível e aterrorizante. Carter

tentou não se encolher de medo.

- Capitão John Carter. Virgínia.

- Vor-gí-nia - a criatura repetiu devagar, apontando depois para

Carter. - Vorgínia!

- Não, não. John Carter. Eu sou de Virgínia.

Depois Carter sorriu, e foi a vez da criatura se encolher.

Enquanto ele estava distraído, Carter deu um pulo por cima dele

e pousou bem ao lado da pilha de estranhas armas descartadas.

O ser de quatro braços o estudava num silêncio perplexo. Era

evidente que nunca vira ninguém com suas habilidades antes.

- Vor-gí-nia! - O líder girou sobre os calcanhares e correu para

Carter, agitando os oito braços de um jeito quase cômico. - Tet!

Tet saal! Tet saal!

Carter olhou para o círculo de guerreiros e viu o que tinha a

presa quebrada apontar uma arma para ele. Desesperado, Carter

pegou da pilha a enorme pistola do líder. Ele a estudava aflito,

tentando entender o mecanismo de disparo. O líder o empurrou

para o lado e o derrubou - no mesmo instante em que uma bala

raspou na nádega esquerda de Carter antes de explodir na areia.

Carter gritou de dor.

De alguma maneira, ele sabia que a provação estava apenas

começando.

O que aconteceu em seguida se passou quase como um sonho.

As criaturas reuniram os recém-nascidos da incubadora, os

vestiram e embrulharam, e os penduraram nos flancos de duas

das maiores bestas do rebanho. Por insistência do líder, eles

cobriram o ferimento de Carter com uma das fraldas. Carter

tinha vaga consciência de que devia se sentir humilhado, mas só

conseguia pensar na dor que sentia.

Quando todos os bebês foram retirados da incubadora, restaram

ainda alguns ovos inteiros, uma ou duas dúzias. O guerreiro da

presa quebrada engatilhou o rifle, e o líder - Tars Tarkas - olhou

diretamente para ele. Um segundo depois Tars assentiu e

juntou-se à criatura de presa quebrada na incubadora.

Tars deu uma ordem breve, um som que sugeria pesar. Em

seguida, juntos, os dois guerreiros abriram fogo contra a

incubadora, destruindo os ovos fechados.

Muito mais tarde, quando conhecesse melhor essas criaturas,

Carter aprenderia que eles eram chamados de tharks, e que seus

animais eram os thoats. E ele saberia o que significara a ordem

pesarosa de Tars Tarkas: não deixe nada para os macacos

brancos.

Capí

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u o 4

BARSOOM, UM mundo no limite...

Ela balançou a cabeça e começou novamente. Ensaiou as

palavras em pensamento.

O poder recém-descoberto de Zodanga ameaça destruir nossa

cidade de Helium. Se Helium cair, Barsoom também cai...

Não. Muito forte!

Dejah Thoris, princesa de Helium, estava sozinha na

pomposamente nomeada sala do trono, olhando séria para a

longa mesa. O trabalho de sua vida estava sobre ela, envolto por

uma manta de seda, escondido. Ela repuxava o tecido, nervosa.

Vossa Majestade - não, milorde. Meu... Jeddak. Meu Jeddak,

após anos de incansável pesquisa, eu lhe apresento... a resposta.

Ela acrescentou em voz alta:

- Assim espero.

Dejah era alta, elegante e muito bonita. Metade dos homens de

Helium a pediram em casamento em um ou outro momento.

Um pretendente particularmente poético descrevera seus olhos

atormentados citando o azul dos oceanos desaparecidos. Sua

pele, dissera ele, era tocada pelo rico carmim de Barsoom.

Mas Dejah Thoris não tinha tempo para romance. Ela entendia

o precipício sobre o qual se equilibrava sua cidade - e seu

mundo. Cada momento que ela passava acordada era dedicado a

salvar seu povo.

Um clamor de vozes chamou a atenção de Dejah. O pai dela

entrou: Tardos Mors, Jeddak de Helium. Ele parecia agitado e

cansado. Kantos Kan, o experiente almirante de Jeddak, o

seguiu, e depois entraram os outros membros do Alto Conselho.

Tardos Mors olhou rapidamente para o objeto coberto sobre a

mesa, depois franziu o cenho. Evitou o olhar de Dejah.

- Meu Jeddak. - Ela se curvou. - Após anos de incansável

pesquisa, eu lhe apresento...

- Sinto muito, princesa. - Ele passou direto por ela. - Sua

apresentação vai ter que esperar.

- Pai? O que aconteceu?

Kantos a olhou incisivo: agora não.

Tardos Mors subiu ao trono e sentou-se com visível cansaço. Os

membros do conselho o cercaram, todos falando ao mesmo

tempo em voz baixa. Acontecera alguma coisa com Zodanga...

Dejah ouviu as palavras "última chance" mais de uma vez.

Finalmente Tardos se manifestou.

- Conheço os termos propostos por Sab Than! O que quero saber

é se podemos nos dar ao luxo de recusá-los.

- A fronteira do leste foi arrasada - Kantos disse em tom

sombrio. - Sab Than incinerou nossas defesas com sua nova

arma. O povo da fronteira foi massacrado.

Os olhos de Dejah se arregalaram. Com urgência, ela removeu o

tecido que cobria a mesa, revelando uma complexa e sofisticada

máquina.

Seu pai e o conselho não prestavam atenção.

- Nossas melhores tropas e nossas naves mais velozes foram

inúteis - continuou Kantos Kan. - E agora recebemos a notícia

de que o último esquadrão que nos restava desapareceu.

Tardos abaixou a cabeça.

- Helium está perdido. Meu povo, meu mundo... falhei com

todos eles.

- Não, meu Jeddak. Não falhou.

Todos os olhos se voltaram então para Dejah. Ela ligou o

equipamento, provocando um som baixo e vibrante.

Kantos franziu a testa.

- Milady não viu a arma zodanguiana. Ela irradia a mais intensa

e ofuscante...

- Luz azul?

Quando disse as palavras, Dejah acionou o último interruptor.

Um raio de luz azul incidiu sobre o assoalho, brilhando

inofensivo nos ladrilhos desenhados.

Tardos levantou-se do trono. Os membros do conselho foram

com ele, aproximando-se de Dejah e sua máquina. Eles olhavam

para o raio azul, mantendo uma distância cautelosa.

Dejah pigarreou.

- Quando li nossos relatórios sobre as armas de Sab, eu soube: de

algum jeito, aquele bruto idiota descobriu primeiro.

- Descobriu o quê?

- O Nono Raio. Poder ilimitado.

O raio azul começou a piscar, brincando nos ladrilhos do piso e

iluminando partículas de poeira no ar. A esperança inundou os

olhos de Tardos. Até Kantos moveu a cabeça numa aprovação

silenciosa.

- Sab a usa apenas para matar - Dejah continuou. - Mas pensem

no que nós podemos conseguir com esse poder. Transformar os

desertos... restaurar os mares...

Os membros do conselho se aproximaram, examinando a

máquina, espiando o raio de ângulos diferentes. Tardos olhou

para o almirante.

- Foi isso que viu, Kantos?

- É muito parecido.

- Esperem um pouco - disse Dejah. - Vai funcionar.

Então, algo estranho aconteceu. Pelo canto do olho, Dejah

pensou ver um movimento rápido no grupo de membros do

conselho - quase como um lampejo de renda azul se projetando

para atingir a máquina. Ela se virou alarmada. No mesmo

instante uma onda sacudiu o aparelho, que entrou em curto-

circuito. Faíscas voaram. O raio azul dançou loucamente por um

momento, e todos recuaram amedrontados. Depois o raio

morreu, e a máquina ficou em silêncio, fiimegando suavemente.

Todos os membros do conselho olharam para Dejah,

decepcionados e confusos ao mesmo tempo. Ela fechou os olhos

com desânimo.

- Saiam todos - disse Tardos Mor. - Agora.

Kantos foi o último a se retirar, lançando um olhar de pena na

direção de Dejah. As portas gigantescas se fecharam.

Dejah estava parada ao lado da máquina fumegante, olhando

para o pai por cima dela. Foi difícil não demonstrar dor quando

ele tocou um fio arrebentado, examinando-o por um segundo.

- Estava funcionando, pai. - Ela se esforçava para banir o tremor

da voz. - Mas aconteceu alguma coisa... uma sabotagem,

talvez...?

Parou de falar. A desculpa soou patética até para ela mesma.

- Dejah - Tardos começou devagar. - Desde que era pequena,

você... você sempre correspondeu às expectativas. Superou-as,

na verdade...

Ela o encarou atenta. Alguma outra coisa o aborrecia. Ela

estendeu a mão para segurar a dele, trêmula, forçando-o a fitar

seus olhos.

- Os termos de Sab - murmurou Tardos.

- Quais são?

Ele pôs a outra mão sobre a dela.

- Ele poupará Helium se você aceitar seu pedido de casamento.

- Sab Than? - Dejah removeu a mão. - Ele é um monstro!

- Dejah...

- Pai, você precisa rejeitar esses termos.

- Ele já está a caminho.

- Mas... todo o meu trabalho... - As mãos apontavam aflitas a

máquina arruinada. - Só preciso de mais tempo! Não pode

simplesmente... Como pode se curvar à vontade de Zodanga?

- Um casamento salvará esta cidade.

- Talvez. Mas pode destruir Barsoom.

Ele se virou de costas para a filha.

Dejah insistiu:

- Sem ninguém para deter Zodanga, esse será o começo do fim.

Você é o Jeddak de Helium. Precisa encontrar outro jeito...

- Não há outro jeito!

Dejah se afastou, magoada.Tardos suavizou a voz imediatamente

e tocou seu ombro.

- Minha filha... você sabe, se houvesse outra chance, eu

arriscaria tudo para agarrá-la. Esta é a chance que nos foi dada.

Talvez... talvez seja a Vontade da Deusa.

- Não. É a sua vontade.

A acusação o feriu.

- Quando eu era pequena - ela continuou -, nós olhávamos para

as estrelas, e você me falava sobre como a glória de todos

aqueles heróis estava escrita no céu. Dizia que havia uma estrela

para mim lá em cima. Era isso que imaginava que estava escrito?

Kantos Kan voltou à sala e pigarreou para anunciar sua

presença.

- O corsário de Sab Than aproxima-se da cidade, meu Jeddak.

Eles pediram permissão para pousar.

Tardos e Dejah ficaram frente a frente por um longo momento,

trocando um olhar silencioso.

- Autorize - disse Tardos. - E vamos todos nos preparar para o

casamento.

Em seguida ele saiu da sala a passos largos, deixando Dejah

Thoris, princesa de Helium, possível futura rainha de Barsoom,

com o escombro fumegante do trabalho de sua vida inteira.

Capí

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u o 5

NAQUELA NOITE John Carter estava acorrentado a uma parede ao

lado de fileiras de bebês tharks vestindo fraldas. O berçário

thark lembrava uma masmorra: paredes imundas, correntes

enferrujadas, chão duro de argila.

Mulheres tharks se moviam com delicadeza ao longo da fileira

de filhotes de pele verde, virando chaleiras de um líquido forte

e malcheiroso em suas bocas famintas. Elas murmuravam

palavras naquela áspera linguagem desconhecida dos tharks.

A mulher chamada Sola aproximou-se de Carter, hesitando em

princípio. Depois ela agarrou sua cabeça. Quando ele resistiu, a

mulher voou para cima dele e prendeu seus braços com duas de

suas quatro mãos. Sola era magra, mas alta, e sobrepujava o peso

de Carter em muitos quilos. Ela o obrigou a abrir a boca com a

terceira mão e, com a quarta, despejou a mistura líquida. Carter

sufocou, engoliu e tossiu.

Sola também estava falando... e enquanto tossia e quase se

afogava, Carter percebeu que começava a entender o que ela

dizia.

- Beba... bom...

Ele piscou e balançou a cabeça.

- O que tem nessa coisa?

Os olhos estranhos mergulharam nos dele. Quando ela voltou a

falar, Carter ouviu cada palavra com clareza.

- A voz de Barsoom.

Depois de consumir a poção, Carter conseguiu lembrar e

traduzir as palavras que os tharks haviam falado mais cedo

naquele dia. Os costumes daquele povo passaram a fazer

sentido... ou tanto sentido, pelo menos, quanto qualquer coisa

que havia visto nesse lugar estranho.

Eles chegaram à cidade em formação de tropa. Carter, amarrado

a um thoat carregado com os recém-nascidos, viu um

aglomerado de construções em ruínas surgir diante deles. A

tropa passou por um quebra-mar e atravessou um portão

dilapidado.

Uma horda de tharks parecia se materializar, brotar de cada

portal e de cada edifício. Centenas deles cercaram a tropa que

voltava para casa, dando as boas-vindas aos guerreiros. Carter

percebeu que todos os tharks carregavam uma arma, inclusive as

crianças.

Quando os guerreiros chegaram a um pátio aberto, as mulheres

- dúzias delas - se adiantaram. Uma mulher gigantesca e

carrancuda, que Carter passaria a conhecer como Sarkoja,

ordenou que elas formassem duas fileiras, uma de frente para a

outra, separadas por um metro e meio, aproximadamente.

Depois Tars Tarkas, líder dos guerreiros thark, cortou com sua

lâmina os cestos presos ao thoat de carga. Os bebês caíram no

chão com Carter, que gemeu e ficou inerte por um momento,

tonto e dolorido. Ele viu os bebês se moverem, se levantarem e