John Carter: Entre Dois Mundos por Stuart Moore - Versão HTML

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correrem para o espaço entre as duas fileiras de mulheres.

Elas tentaram pegá-los. Alguns filhotes tentaram fugir,

debatendo-se e agitando os quatro braços, enquanto outros se

submetiam com docilidade. Várias vezes, duas mulheres

tentavam pegar o mesmo bebê e começavam a brigar, lutando

até uma delas cair ou desistir, voltando a atenção para outra

criança.

Mais uma vez, Carter pensou: Onde eu estou?

Uma mulher - Sola - ficou para trás e não conseguiu pegar um

bebê. As outras mulheres gritaram com ela, algumas exibindo

seus filhotes recém-adotados para provocá-la. Sarkoja

aproximou-se de Sola, a empurrou para trás e a esbofeteou.

Tars Tarkas interferiu:

- Sarkoja - ele chamou, dizendo palavras que Carter logo

entenderia. - Chega!

Sarkoja o encarou ofendida. As outras permaneciam perfiladas

assistindo ao drama. Uma delas pegou a última criança que

sobrara.

Sarkoja então saiu da fila e caminhou até onde Carter

continuava caído no chão. Ela o pegou e levou para a área entre

as fileiras. Sem poder fazer nada, Carter caiu no chão diante de

Sola, que havia se levantado.

- Sola pode ficar com o pequeno verme branco - disse Sarkoja.

Sola olhou para Carter com expressão indecifrável. Em seguida

ela se abaixou, o pegou nos braços e o libertou das amarras. Seu

toque era mais suave do que o capitão esperava. Os braços

tinham um complexo desenho de cicatrizes, uma confusão de

símbolos queimados e calejados. Todas as outras tharks tinham

cicatrizes, ele notou, mas as de Sola eram. muito mais extensas.

- O que aconteceu com você? - ele perguntou.

- Fique quieto.

Sarkoja bufou e levou as outras mulheres dali. Sola as seguiu

submissa, carregando Carter como se fosse um bebê, passando

pelos tharks reunidos. Alguma coisa brilhante e metálica pendia

do cinturão de um jovem guerreiro...

O medalhão. O artefato de aparência antiga que levara Carter

até aquela terra estranha. Ele percebeu que o havia perdido ao

cair nas areias vermelhas. O guerreiro thark devia ter

encontrado o medalhão perto da incubadora e o pegara antes de

recolher os bebês.

Carter pulou dos braços de Sola e se jogou contra o guerreiro

surpreso, derrubando-o sobre vários outros. Enquanto eles

urravam furiosos, Carter agarrou o medalhão, arrancando-o do

cordão que o prendia.

Então, com velocidade incrível, três braços verdes o agarraram e

imobilizaram no chão. Um quarto braço segurava uma faca

contra sua garganta. O rosto sombrio do guerreiro da presa

quebrada surgiu diante dele.

O medalhão escorregou de seus dedos.

- Agora matamos - disse o guerreiro. Uma gota de saliva brilhou

em sua presa quebrada.

- Afaste-se, Tal Hajus.

Agora Carter já reconhecia a voz de Tars Tarkas, embora ainda

não identificasse todas as palavras.

Tal Hajus puxou Carter pelos pés.

- Dá mais valor a isto do que à minha opinião?

A silhueta imponente de Tars Tarkas apareceu sobre Carter,

bem na frente do rosto de Tal. Carter, que estava no meio dos

dois, os viu encostar as presas num gesto evidente de desafio.

- Afaste-se - Tars repetiu devagar.

Tal Hajus ficou furioso. Ele pressionou a lâmina contra a

garganta de Carter.

- Reivindico o direito ao desafio.

- E quem apoia seu desafio?

Ainda segurando a faca no pescoço de Carter, Tal afastou suas

presas das de Tars e se virou para olhar para os tharks ali

reunidos.

- Quem vai aliar seu metal ao meu?

Silêncio.

Tars Tarkas deu um passo à frente e agarrou Carter como se ele

fosse uma boneca de pano.

- Não será Jeddak desse jeito, Tal. Talvez amanhã.

Tal Hajus sustentou o olhar de Tars por um longo momento.

- Amanhã, então.

Tal virou-se e se afastou andando por entre a multidão. Carter

deixou escapar um suspiro aliviado - depois tossiu quando Tars

Tarkas o arrastou para o grupo.

- Vejam o troféu que seu Jeddak encontrou!

Os tharks se reuniram olhando para ele com evidente

curiosidade.

- É um filhote de macaco branco? - alguém perguntou.

- Não - Tars respondeu orgulhoso. - É um animal raro e valioso.

O nome dele é Vorgínia.

- Vor-gí-nia - os tharks repetiram, vacilantes.

- Vejam só. Afastem-se todos. - Tars soltou Carter, que

cambaleou ao chão. - Mostre a eles, Vorgínia. Pule.

Carter ainda não entendia todas as palavras de Tars, mas o

significado do gesto dele era claro. E dentro de Carter, algo

trincou. Havia sido jogado de um lado para o outro, embrulhado

como um bebê, tratado como animal de estimação e escravo. De

jeito nenhum executaria truques obedecendo a comandos.

Tars imitou o movimento de pular usando três de suas mãos.

- Pule - repetiu.

Sola aproximou-se e gesticulou encorajadora.

- Não - disse Carter.

Tars bateu na parte de trás de seus joelhos. Carter caiu para a

frente, com o rosto no chão a centímetros do medalhão

abandonado. Os tharks explodiram em gargalhadas, exibindo os

dentes monstruosos.

- Sola - disse Tars acorrente-o. Eduque-o com os outros filhotes.

Com uma careta, Sola prendeu um colar de metal ao pescoço de

Carter. Enquanto as mulheres thark o punham em pé, ele ouviu

Tars Tarkas sussurrar:

- Por Issus, você vai pular amanhã, Vorgínia.

Naquela noite Carter foi barbeado, esfregado, limpo e empoado

com os outros bebês. Nenhuma mulher thark parecia saber que

bebês eram seus filhos biológicos. Elas simplesmente adotavam

os que conseguiam agarrar, e depois todos eram submetidos ao

mesmo processo ríspido de iniciação à sociedade thark. Para

Carter, o sistema parecia ser frio e desumano.

Por outro lado, ele lembrou, essas criaturas não eram humanas.

Depois de Sola alimentá-lo com a poção de tradução, Carter caiu

exausto. Acordou suado e olhou em volta, percebendo que

estava deitado sobre um tapete, cercado de bebês adormecidos.

Todos roncavam. Lentamente, ele se levantou e começou a se

mover na direção da entrada. Uma longa corrente ainda o

prendia à parede, chocalhando como que para lembrá-lo de sua

impotência.

Uma criatura assustadora impedia a passagem de Carter,

olhando para ele com seus olhos de bola de gude. Meio lagarto,

meio buldogue, uma boca enorme cheia de fileiras de dentes

afiados. Quando Carter aproximou-se, ele se empinou sobre suas

dez pernas curtas e fortes.

- Calma, garoto - Carter falou em voz baixa. - Bom cãozinho

feioso...

A criatura se acalmou, sentando-se. Além dela, a porta do

berçário se abria para uma rampa que subia em espiral. Seria um

pulo fácil... não fosse pela corrente. Carter a puxou e sentiu um

elo começar a ceder. A criatura abriu um olho e o fechou em

seguida.

Mais um puxão e a corrente se partiu. Carter deu impulso e

saltou por cima do animal surpreso. Ele pousou com facilidade

no topo da rampa e se virou para a saída - mas o animal estava

bem na frente dele. Fuçando.

- Como é possível? - perguntou Carter.

A criatura grunhiu, tentando empurrar Carter de volta ao

berçário. Ele saltou novamente e viu a besta segui-lo numa

explosão de poeira. Carter pousou mais adiante na rampa, alguns

passos mais perto da liberdade.

O animal não parecia querer machucá-lo. Na verdade, Carter

tinha a estranha sensação de que ele estava preocupado com sua

segurança. Mas ele o atrasava, isso era certo.

Após um último pulo, Carter caiu no meio do assentamento

thark. Havia tendas espalhadas entre as ruínas, ocupadas por

tharks adormecidos. Carter caiu abaixado e parou para pensar

no que fazer.

Ainda não sabia onde estava. Ouvira histórias sobre a África e a

América do Sul, sobre vilarejos distantes intocados pela

moderna civilização. Nenhum desses relatos, porém,

mencionava guerreiros de pele verde, três metros de altura e

presas brotando das faces.

Seu primeiro impulso foi sair correndo, saltar a muralha do

assentamento e ir em frente. Mas não havia nada num raio de

muitos quilômetros. Por quanto tempo poderia sobreviver

sozinho em um deserto desconhecido?

O animal do berçário se aproximou silencioso e, parado atrás

dele, rosnou baixinho.

- Xô! - Carter respondeu. - Vá embora. Suma!

Não, percebeu ele, os tharks eram sua melhor opção. Agora que

entendia a língua que eles falavam, estava em melhor posição

para negociar com Tars Tarkas. Mas uma arma aumentaria ainda

mais as suas chances.

Em silêncio, seguido de perto pelo animal primitivo, Carter

atravessou o pátio central e se dirigiu a um grande edifício

parcialmente destruído. Em uma varanda alta, a luz do fogo

tremulava e tambores e vozes soavam. Uma sentinela armada

atravessava a varanda.

Carter pulou para dentro da varanda e agarrou a sentinela

surpresa pelo pescoço. Enquanto os braços do thark se agitavam

com aflição, Carter o acertou com uma forte pancada na cabeça

e pegou sua espada longa e fina. A sentinela caiu.

Depois da varanda, uma grande tenda se erguia entre as paredes

em ruínas de uma antiga sala de trono. Carter caminhou

silencioso até a entrada da tenda, parando nas sombras. Pelo

lado aberto, era possível ver Tars Tarkas cercado pelos homens

de seu clã, comendo. Alguns tharks tocavam tambores

cerimoniais.

Carter respirou profundamente e levantou a espada.

Foi então que o animal passou por ele como uma explosão,

rugindo. Ele caiu desajeitado no meio de um grupo de tharks,

derrubando pratos no piso de pedra. Olhando para Carter, a

criatura rugiu novamente.

Os tharks dominaram a criatura em um instante, atingindo-a

com golpes violentos.

O primeiro impulso de Carter foi proteger o animal. Ele se

lançou para a frente com a espada erguida, gritando:

- Já chega!

Carter tirou um thark de cima da criatura e o esmurrou com

força, jogando o guerreiro contra uma estaca que sustentava a

tenda, a alguns metros dali. A estaca quebrou, derrubando um

lado da tenda, e o thark se chocou com violência contra uma

parede de pedra. Estava morto.

Todos os outros pararam, olhando chocados para Carter. Ele

ergueu um punho, surpreso com a própria força.

Tars Tarkas se levantou, os olhos fixos no thark morto. Devagar,

ele se virou e cravou os olhos frios em Carter.

- Você o matou com um único golpe.

- Eu não... não queria...

Carter percebeu que agora entendia as palavras de Tars. Mas, no

mesmo instante em que esse pensamento penetrou sua mente,

Tars fez um gesto para os outros, e todos se lançaram sobre

Carter furiosos, ansiosos para vingar a morte do camarada.

Carter ainda estava muito aturdido para reagir. Ele entregou-se,

apertando os olhos ao sentir os punhos verdes que o castigavam

e lançavam na inconsciência. Seu último pensamento foi uma

dúvida: será que morreria ali... sem saber onde realmente

estava?

CAP

A ÍTU

T LO 6

LENTAMENTE, SARKOJA tirou do fogo o ferro em brasa. Ela mostrava

aquele sorriso horrível dos tharks. Então Sarkoja pressionou o

ferro com força no braço de Sola, que já era marcado por muitas

cicatrizes.

A carne do braço de Sola fritou. Ela lutou com as amarras que a

mantinham imóvel. Mas não gritou.

- Pelo amor de Deus! - Carter berrou.

Estava acorrentado no pátio, assistindo impotente ao bárbaro

ritual de marcação dos tharks. Tars Tarkas e os outros culpavam

Sola pela fuga de Carter. Esse era seu castigo. Seus braços

estavam amarrados a uma estrutura em forma de X, e Sarkoja se

debruçava sobre ela, apreciando cada segundo do sofrimento de

Sola. Sob o sol quente, os tharks reunidos assistiam a tudo,

sedentos por sangue ou, talvez, por diversão.

Quando o ferro queimou outra vez a carne de Sola, Carter jogou

o corpo para a frente.

- Foi minha culpa...

Tal Hajus se aproximou e o atingiu com um tapa no rosto.

- Silêncio!

- Faça isso de novo e eu...

Tal repetiu o gesto.

- Chega!

Todos os olhos se voltaram para Tars Tarkas, que puxava Sarkoja

para longe da prisioneira. Sarkoja rosnava e brandia o ferro

quente no ar, mas Tars a ignorou. Ele usou a própria faca para

cortar as amarras de Sola.

Os braços de Sola estavam cobertos de vergões.

- Não há espaço para outra marca, Sola - disse Tars. - Sua

próxima falta será a última.

Alguma coisa no tom de voz do thark fez Carter desviar os

olhos. Sentindo um puxão, ele virou a cabeça e viu Tars

segurando a corrente que o prendia como uma coleira.

- Pule, Vorgínia.

Carter olhou para Tars por um instante. Não queria ter mais

nada a ver com esses selvagens... fossem quem fossem, de onde

fossem.

- Você vai pular, Vorgínia. Agora.

Atrás de Tars Tarkas, Sola olhou suplicante para Carter.

- Naves!

Todos olharam para cima. No alto de um velho telhado havia

uma sentinela thark apontando com desespero para o céu.

- Vocês são as pedras - disse Tars Tarkas. - A areia!

Os tharks se dispersaram em silêncio, desaparecendo como

fantasmas atrás de portas e arcadas, passando por buracos e

janelas, procurando os esconderijos que haviam cavado nas

ruínas. AJguns se enterraram em bancos de areia, deixando

expostas apenas as narinas no alto da cabeça.

Tarks puxou a corrente de Carter com força, querendo levá-lo

para uma torre de forte semi-destruída. Carter olhou para o céu

novamente e ouviu o primeiro ronco distante. Apressado, ele se

virou para seguir o líder dos tharks.

Tharks lotavam os porões apertados, olhando para o céu. Um

deles se movia entre os outros recolhendo pulseiras, colares e

outros objetos valiosos que ia depositando em uma vasilha,

selando as apostas.

- Helium - disse um thark. Outro fez um muxoxo de desdém

para ele.

- Zodanga! - Outro falou ao jogar seu colar na vasilha.

- Helium.

Carter alongou os membros, tentando enxergar o céu. Tars

havia afrouxado as correntes, mas seus músculos ainda doíam.

Lá em cima, três aeronaves vermelhas e de aparência hostil

perseguiam outra que, solitária, voava levando uma bandeira

azul.

- Zodanga é a vermelha - disse Tars. - Helium é a de bandeira

azul.

Carter apontou para a nave-líder de Zodanga. Uma arma negra e

de aparência letal se prendia a uma das laterais, com garras que

penetravam o casco. A arma parecia fora do lugar, como uma

criatura viva costurada a uma máquina.

- O que é aquilo?

Tars olhou para uma luneta por um instante, depois deu de

ombros.

- Navios voadores - Carter sussurrou.

A nave líder da esquadra de Zodanga passou por cima deles. Sua

sinistra arma azul começou a brilhar intensamente, depois

disparou um facho de energia azul diretamente contra a nave de

Helium. Atingida, a nave brilhou, faiscou e cintilou. Carter teve

a impressão de ver um homem da nave ficar paralisado, gritar e

evaporar na luz azul.

A nave de Helium morreu no ar, planando sobre as ruínas. Os

tharks aplaudiram.

Carter olhou para Tars.

- Seu povo torce por Zodanga?

- Zodanga está ganhando a guerra. Mas, para nós, não faz

diferença. Que os homens vermelhos matem outros homens

vermelhos até restarem apenas tharks.

Lá em cima, o raio azul brilhou novamente.

- Não me pareceu ser uma luta limpa - opinou Carter.

Tars olhava sério pela luneta.

- Zodanga nunca luta limpo.

Sab Than assistia satisfeito sua tripulação conduzir os últimos

prisioneiros de Helium para o deque de sua aeronave. Um

prisioneiro tropeçou quando desceu da rampa de abordagem,

quase caindo no ar entre as duas naves.

Os heliuminitas se perfilavam passivos, encarando os que os

haviam capturado. Eles tinham o rosto protegido por capacetes,

mas Sab Than quase conseguia sentir o cheiro do medo. Todos

ali haviam acabado de ver dúzias de companheiros de tripulação

se desintegrando, dizimados pelo raio azul. E agora eram

prisioneiros de Zodanga.

Sab Than sorriu. Envolvendo a mão dele, a pistola thern pulsava

como uma criatura viva.

Ele se aproximou da fila, abrindo o capacete do primeiro

prisioneiro. Sab estudou o rosto jovem e franziu o cenho. Depois

passou ao segundo prisioneiro, e ao terceiro.

Ele parou no quarto homem, um idoso com olhos cor de ardósia

no rosto de pele avermelhada.

- Onde ela está?

O homem não disse nada.

Sab Than levantou a mão e disparou a arma thern. O prisioneiro

gritou, reluziu em azul e desapareceu.

Os olhos do prisioneiro seguinte refletiam medo quando Sab

abriu seu capacete. Erguendo a arma, Sab encostou a

extremidade brilhante bem no rosto do homem.

- Onde ela es...

- Senhor!

Sab Than virou-se e viu um tripulante apontando a nave

capturada. A passarela entre as duas aeronaves balançava,

sacudida violentamente para cima e para um lado. Soldados

zodanguianos, surpreendidos na passarela, giravam os braços

com desespero tentando manter o equilíbrio.

A nave de Helium se afastava, abrindo as palhetas para ganhar

mais potência. Tentava se libertar.

- Quem está lá dentro? - Sab Than perguntou.

- Apenas nossos homens - respondeu o líder do grupo de

abordagem. - Não deixamos nenhum heliuminita vivo, senhor.

Eu juro!

- Para a ponte. Depressa! - Sab virou-se, apontou e viu um dos

heliuminitas dar um sinal. De repente os prisioneiros caíram

sobre eles, atacando seus captores. Estourou uma luta

generalizada.

- Acabem com eles! - Sab Than gritava, disparando a arma que

era como uma luva. Outro heliuminita se dissolveu em fogo

azul.

A prancha de abordagem se partiu. Zodanguianos gritaram e

despencaram no ar.

Sab Than correu para a ponte, empurrando tanto os próprios

soldados quanto os rebeldes heliuminitas. Esse não era o fim,

jurou ele. Antes do fim do dia, teria a mão da princesa de

Helium em casamento - e Barsoom seria unificado sob seu

domínio de ferro.

Sab parou pouco antes da entrada da ponte e olhou para o lado,

para fora da nave. A nave irmã se movia na direção da aeronave

heliuminita fugitiva, tentando interceptá-la. Mas o inimigo era

rápido...

Soldados zodanguianos despencavam sobre os tharks,

quebrando o pescoço e a cabeça ao se chocarem contra as ruínas

de pedra. Os tharks reagiam a cada impacto, murmurando

exclamações de alegria ou de piedade debochada.

- Aquelas naves vão bater - disse Carter.

Ele e Tars viram a aeronave de Helium ganhar velocidade e ir

de encontro à segunda nave zodanguiana com um estrondo

pavoroso. A nave se inclinou para um lado, as palhetas solares

muito danificadas. Mais zodanguianos caíam do deque,

mergulhando para a morte por entre os indiferentes tharks.

O olhar de Carter foi atraído por outro movimento no deque da

aeronave. Ele arrancou a luneta de Tars, ignorando os protestos

do thark. Pela luneta, ele viu uma criatura de armadura e

capacete, um traje muito diferente dos zodanguianos, com suas

vestes vermelhas, cambaleando pelo deque para se debruçar

sobre a lateral da nave. A criatura cruzou o ar por um momento,

mas agarrou-se à arma presa à lateral da aeronave. O capacete

caiu e longos cabelos castanhos se espalharam ao vento.

A primeira coisa que Carter pensou foi: ela é linda.

A segunda: ela é humana.

A mulher era alta e exuberante, com lábios carnudos, braços

fortes e um rico tom avermelhado na pele. Ela se agarrava com

desespero àquela saliência da nave, os olhos azuis expressando

desespero. Por um instante, aqueles olhos pareciam ter

encontrado os de Carter através da luneta.

Ele ouviu seu grito distante de socorro.

Carter jogou a luneta para Tars e saltou, subindo muito alto. A

corrente voou no seu encalço. Tars tentou segurá-la, mas era

tarde demais.

Carter mirou um telhado e quase errou o pulo, desequilibrado

pelo peso da corrente. Quando pousou, ele ouviu a mulher

gritar novamente, um grito mais claro que o anterior. Olhou

para cima, para o corpo que se debatia no ar, depois olhou em

volta, para os vários edifícios. Havia poucos telhados mais altos

do que aquele onde estava. Segurando a corrente, ele pulou de

novo, ganhando mais alguns metros de altura. Se a nave

continuasse à deriva... e se ele conseguisse se aproximar só mais

um pouco...

Pela primeira vez desde a caverna apache, Carter tinha a

sensação de ter um propósito - talvez até, ele percebeu chocado,

pela primeira vez desde a guerra.

Não vou falhar com você, pensou. E saltou mais uma vez,

aproximando-se ainda mais da estranha mulher vermelha de

cabelo esvoaçante.

No chão, o agente de apostas thark continuava recolhendo os

valores apostados. Ele passou por cima de um zodanguiano

caído, inclinando a cabeça para encarar Tars Tarkas.

- Zodanga ou Helium?

Sorrindo, Tars jogou um amuleto na vasilha do agente.

- Aposto no Vorgínia - ele disse.

Capí

p t

í u

t l

u o 7

O ASSENTAMENTO thark havia sido uma grande cidade portuária.

Agora a cidade de pedra estava em escombros, torres e templos

devastados pela areia, pelo tempo e por hordas de criaturas

predadoras.

Carter pulava de telhado em telhado, de cúpula em parapeito,

subindo em zigue-zague para a inclinada nave de Helium. Ele

parou, olhando para a frente. Agora só havia uma cúpula mais

alta que o local onde estava, estava a quinze metros de distância,

pelo menos, e tinha um parapeito muito estreito. Ele hesitou.

De repente, a aeronave de Helium sacudiu, virando de lado no

ar. A mulher não conseguiu se segurar e, gritando, começou a

cair.

Carter se abaixou e saltou tão alto quanto pode.

Ele subia. Ela descia. Carter se esticou no ar até alcançá-la. Ela

se agarrou com força à mão que a salvava, e ele girou o corpo,

conseguindo pousar sobre a cúpula. A corrente despencou no ar

até um parapeito mais baixo e quase o derrubou. Ele balançou

por um segundo, depois recuperou o equilíbrio, ainda com ela

nos braços.

O tempo parecia ter parado enquanto eles se entreolhavam. Por

um instante, Carter experimentou aquela sensação de propósito

há tanto tempo ausente.

Então, uma prancha de abordagem baixou com um estrondo

sobre o parapeito da cúpula. Carter olhou para cima e viu uma

das aeronaves de Zodanga pairando no ar. Soldados em vestes

vermelhas desembarcavam e percorriam a prancha com espadas

e armas em punho.

Carter soltou Dejah, deixando-a em pé.

- Com licença, senhora. - Diante de seu olhar surpreso, ele pegou

a espada que ela levava na bainha. - Se puder ficar atrás de

mim... Isso pode ficar perigoso.

Os soldados ocupavam todo o espaço da prancha. Carter segurou

a corrente ainda presa a seu corpo e a sacudiu como se fosse um

chicote, atingindo os dois primeiros soldados.

Com a outra mão, ele brandia a espada da mulher num grande

arco, admirado com a leveza e flexibilidade da arma. Um

soldado gritou e levou a mão ao peito lanhado. O outro teve

menos sorte - a lâmina penetrou seu coração.

Até ali Carter havia ido bem. Porém, quando parou para

recuperar o fôlego, o último zodanguiano que restava brandiu

sua arma como um taco, arrancando a espada da mão dele.

Surpreso, Carter a viu voar... diretamente para a mão da mulher.

Ela agarrou o artefato pelo cabo com habilidade, deu um salto

acrobático que a posicionou diante dele e empalou o

zodanguiano com um golpe rápido e preciso.

Carter olhou para o homem morto, depois para a corajosa

mulher.

- Talvez eu é que deva ficar atrás de você - ele disse.

Ela sorriu; era um sorriso afetuoso, muito diferente das caretas

monstruosas dos tharks.

- Não se esqueça de me avisar quando a situação ficar perigosa -

ela disse.

Depois limpou a lâmina da espada no traje de bebê de Carter. Só

então ele percebeu que ainda usava a fralda com que Sola o

vestira na noite anterior. Por um instante, foi impossível evitar

o constrangimento.

Em seguida, uma grande sombra os cobriu. Carter olhou para

cima e viu as duas naves de guerra de Zodanga convergindo

para a posição que eles ocupavam. Uma delas, a que voava mais

alto, portava aquela estranha arma negra que ele vira antes. A

nave de Helium ainda pairava perto dela, fumegante e

inclinada.

A bordo da nave zodanguiana mais próxima, um novo

contingente de soldados chegava à rampa. O líder desse grupo

fez um gesto, e todos correram na direção de Carter e da

fugitiva.

- Já cansei desses moleques - disse Carter. Ele apontou para uma

rampa em espiral que descia do outro lado da cúpula para o

assentamento lá embaixo. - Se me permite, senhora, sugiro que

corra.

Sem esperar a resposta, Carter correu para a rampa e saltou

sobre os soldados surpresos, pousando logo acima deles. Mais

um pulo o levou para o deque da aeronave, onde mais

zodanguianos surpresos o encararam sacando a espada. Mas

Carter já decolava outra vez, saltando para o teto da ponte da

nave. De lá, ele olhou para a segunda aeronave e respirou fundo.

Um salto no ar, e ele caiu no deque, de onde saltou para o teto.

Sem parar para pensar, Carter deu mais um pulo, agora para a

terceira e maior nave, tentando chegar ao deque das armas.

A tripulação assustada o viu saltar, alguns deram o alerta, e

vários tentaram apontar armas em sua direção. Tarde demais.

Carter desceu sobre a nave como um míssil, pousando com uma

tempestade de chutes e socos. Ele derrubou os homens que

estavam no deque das armas e nem se virou para vê-los cair. Em

seguida, agarrou uma arma montada sobre um apoio, girou-a e a

apontou para baixo.

O mecanismo era desconhecido, mas simples. Carter olhou pela

mira, centralizou a nave que estava diretamente abaixo dele e

disparou. Uma, duas, três vezes.

A segunda nave zodanguiana estremeceu, partiu-se ao meio e

explodiu em chamas. Ela começou a cair, levando consigo a

nave Helium, ainda engatada.

Por um momento tenso, Carter pensou que as duas aeronaves

poderiam atingir o assentamento thark. Aquele povo era

bárbaro, o tratava feito criança, mas não queria provocar um

massacre.

Carter suspirou aliviado quando as aeronaves despencaram na

areia, pouco além dos limites do assentamento, no lugar onde,

séculos atrás, estivera o mar. O chão tremeu com a violência do

impacto.

Carter pensou ter ouvido mais alguma coisa: sim, os aplausos

dos tharks.

Ele se virou e deu de cara com um forte guerreiro que o

encarava. Olhos humanos e cruéis, peito protegido por uma

armadura de ouro e pele, e a capa vermelha de Zodanga. Carter

levou a mão à arma e percebeu que ela havia desaparecido.

O guerreiro levantou uma das mãos. Ela estava coberta por uma

estranha e brilhante arma azul diferente de todas que Carter já

vira antes.

- Sou Sab Than, governante de Zodanga - disse o homem. - E o

condeno a...

Ele parou de falar e inclinou a cabeça, como se escutasse uma

voz desconhecida. O brilho da arma se apagou, e Sab Than

olhou espantado para a própria mão.

- O quê? Levá-lo vivo?

Três soldados cercaram Carter. Ele girou a corrente,

derrubando-os e ferindo-os gravemente. Sab Than gritou:

- Deixem-no!

Em seguida ele deu um passo à frente sacando a espada. Seu

sorriso era quase uma careta.

- Isso vai ser divertido.

Carter pegou a espada de um dos zodanguianos caídos,

levantando-a bem em tempo. As duas lâminas se chocaram e

deslizaram provocando uma chuva de faíscas. Sab Than recuou,

sorriu e atacou novamente. Carter defendeu-se com dificuldade.

- O que você é? - perguntou o zodanguiano. - Não é um homem

vermelho. Não é exatamente um macaco branco...

Carter havia treinado com espadas, mas a arma em sua mão era

desconhecida, e Sab Than era evidentemente um mestre

espadachim. Lentamente, o zodanguiano o empurrou contra a

lateral da nave.

- Seja você o que for - Sab Than sibilou -, vai sangrar como um...

O zodanguiano parou, olhando para um ponto além de Carter.

- Tharks!

Carter virou-se, olhou para baixo e viu de relance a multidão

verde fortemente armada reunida sobre as ruínas. Todas as

armas estavam apontadas para cima, para as naves.

Carter atacou com firmeza, forçando Sab Than a recuar. Depois

ele pulou, tomando novo impulso no teto da outra nave no

mesmo instante em que os tharks abriam fogo.

A aeronave explodiu em chamas, causando uma grande

destruição. Carter sentiu o calor nas costas enquanto voava pelo

ar, movendo os braços para dar impulso, tentando cair em uma

área de areia macia lá embaixo. Foi uma longa descida.

Acima dele, a aeronave restante - aquela em que estava Sab

Than - era alvejada continuamente, mas se mantinha no ar. Os

atiradores de Sab se recuperaram, e disparavam contra os tharks.

Mas a nave fora danificada.

Carter preparou-se para uma dura aterrissagem, olhou para

baixo e viu uma pequena silhueta vermelha, seguida por algo

verde, correndo pela areia para longe do assentamento thark.

Era a mulher vermelha, aquela da nave de Helium. Ele caiu

sobre uma duna de areia bem na frente dela.

A mulher o viu pousar e levantou as mãos.

Carter olhou atrás dela e viu quem a perseguia: Sola. A mulher

thark parou, sem saber o que fazer.

Longe, os destroços de três aeronaves ardiam em chamas,

espalhando no ar um cheiro de madeira e carne humana

queimadas.

A mulher de Helium entregou sua espada a Sola, mas seus olhos

estavam fixos em Carter. Ela falava com a confiança seca de um

comandante.

- Pode me levar agora.

Sab Than entrou na ponte como um raio. Havia soldados mortos

por toda a parte, caídos sobre equipamentos fumegantes. Com a

nave balançando muito, Sab removeu o corpo do Mestre de Luz

de cima do medidor de luz e leu os dados. Ele ia de um posto ao

outro, movendo alavancas com pressa e determinação.

O navegador sobrevivente olhou para ele assustado.

- Prepare a manobra de retorno - Sab ordenou. - Vamos atrás da

princesa.

Ele sentiu o conhecido formigamento dentro da cabeça — Matai

Shang estava ali novamente. Em seus pensamentos, em sua

ponte, sempre com ele. Sempre no controle.

Era o preço que Sab Than pagava pelo poder ilimitado.

- Não - falou Matai Shang. - Os tharks a pegaram. Você

perdeu essa oportunidade.

- Por que o queria vivo? O macaco branco, o homem... seja lá o

que for?

- Vá para casa, Sab Than. Outra chance surgirá.

- Como os encontrará outra vez?

Matai Shang deu um sorriso fino, e Sab Than retraiu-se ao sentir

uma breve dor aguda dentro da cabeça.

- Podemos encontrar qualquer um.

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u o 8

SEU SOME era Dejah Thoris, e Carter nunca havia conhecido uma

mulher como ela. Braços fortes, olhos azuis e vivos, lábios

carnudos que se distendiam num sorriso. Sua pele era

avermelhada, um tom selvagem que combinava com as areias

sob seus pés.

Eles ficaram ali por um longo momento enquanto as aeronaves

queimavam e a mulher thark, Sola, os observava incomodada.

Então um brado selvagem ecoou, e Carter virou-se e viu toda a

tribo thark correndo na direção deles.

- Não disse que ele conseguia pular? - Tars Tarkas dizia.

Carter se abaixou para saltar, mas alguma coisa o deteve. Ele

olhou para baixo e viu o fiel animal parecido com um cachorro,

Woola, segurando sua perna com afeição brincalhona. Carter

afagou a cabeça de Woola.

- Me solta cão danado!

Mas era tarde demais. Os tharks o cercavam, puxando-o para

longe de Dejah Thoris e batendo em suas costas.

Tars Tarkas abriu caminho entre o grupo e apertou Carter entre

os quatro braços, sorrindo feito um pai orgulhoso.

- Você é feio, mas é bonito. E luta como um thark!

Carter engasgou e tossiu, mas antes que pudesse dizer qualquer

coisa,Tars o pôs no chão diante dos guerreiros. Eles se

aproximaram um por um, entregando-lhe equipamento e armas,

enfeitando-o como uma árvore de Natal.

O próprio Tars Tarkas removeu seu cinturão, colocando-o em

Carter que viu alguma coisa pendurada no pescoço do líder: o

medalhão, o objeto que o levara àquele lugar estranho.

Tars olhava para ele intrigado, e Carter percebeu que o estava

encarando. Ele apontou o medalhão, abriu a boca para falar...

- Jeddak dos tharks!

Todos se viraram quando a voz de Dejah ecoou. Sola a mantinha

sob a mira da arma.

- Sou Dejah Thoris - ela continuou. - Regente da Academia Real

de Ciência de Helium. Minha nave de pesquisa foi atacada.

Consegui religar o propulsor Oitavo Raio, mas não pude salvar

meu...

Tars se aproximou com brutalidade e empurrou Dejah para os

braços de Carter.

- Sua parte dos despojos - ele disse.

Os tharks riram, um som horrível. Dejah ficou ainda mais

vermelha.

- Sola - chamou Tars -, cuide da propriedade de Vorgínia.

- Sim, meu Jeddak. - Sola usou seus quatro braços para segurar

Dejah, que se debatia. Carter assistia a tudo desamparado e

inseguro.

- Sabe - Dejah resmungou -, quando Sab Than me encontrar, vai

usar a arma dele contra vocês.

- Sei que Zodanga encontrou um jeito de derrotar você -

respondeu Tars. - E agora você procura uma arma própria. Mas

Vorgínia luta por nós! Ele vai combater os torquas no sul, os

warhoons no norte. E será chamado de Dotar Sojat! Meus bons

braços direitos!

Os tharks levantaram suas armas numa ovação barulhenta. Tars

olhou para Carter com seu horrível sorriso thark.

- Não - disse Carter.

A expressão de Tars desmontou.

- Não luto por ninguém. Não mais.

Exausto, Carter começou a se despir dos presentes tharks: um

cinturão, um rifle, um grande amuleto. A descarga de

adrenalina havia passado, e a realidade da situação começou a se

impor. Este não era seu lar; este não era seu povo. Nem mesmo

eram pessoas!

Tars se aproximou dele, sorrindo novamente.

- Vorgínia - ele falou em voz baixa. - Se recusar essa honra, não

vou poder garantir a segurança de sua mulher vermelha.

Carter encarou Tars, os olhos recaindo mais uma vez no

medalhão em forma de aranha no pescoço do Jeddak. Em

seguida ele olhou além de Tars, para as cicatrizes de Sola, para as

marcas bárbaras que recobriam seus braços. Examinou o rosto

dos tharks. Sarkoja e Tal Hajus observavam atentos, esperando

que ele tomasse a decisão errada. Para eles, seria um prazer vê-

lo exilado ou morto.

E, por fim, havia Dejah. Ainda orgulhosa, ainda altiva, mas com

uma sombra de medo nos olhos.

Carter levantou o punho fechado... fraco, no início, depois com

todo vigor que ainda lhe restava.

- Eu... eu sou Dotar Sojat - ele disse.

Os tharks explodiram numa loucura coletiva, gritando e

aplaudindo mais alto que nunca.

Tars Tarkas apontou as naves destruídas.

- Ao saque!

Ainda comemorando, os tharks correram para os destroços.

Antes de ir, Sarkoja e Tal Hajus lançaram um olhar hostil para

Carter.

Carter se aproximou de Dejah, ainda prisioneira das mãos firmes

de Sola. Mas a mulher de Helium lançou para ele um olhar frio,

sombrio, e virou para o outro lado.

Horas depois, um sol desolador se punha sobre os destroços da

aeronave de Helium. O incêndio havia cessado, mas os tharks

ainda corriam pelos deques destruídos como um exército de

gigantescas formigas verdes. Carter se mantinha afastado da

areia, observando os tharks e a indiferença com que eles

jogavam os corpos heliuminitas de lado.

Dejah estava ao lado dele, mordendo o lábio para conter as

lágrimas pelo destino de seus compatriotas. Sola segurava a

extremidade da coleira grosseira presa a seu pescoço.

- Guerra - Carter comentou. - Que coisa vergonhosa.

As palavras soavam fracas e impróprias.

- Não quando uma causa nobre é defendida por aqueles que

podem fazer a diferença. - Dejah o fitou séria. - Você hoje fez a

diferença, Vorgínia.

- O nome é John Carter. Virgínia é o lugar de onde vim.

Ela o contornou sem pressa, arrastando junto sua coleira.

- Como aprendeu a pular daquele jeito? - Havia nos olhos dela o

brilho da curiosidade científica.

- Não sei - Carter deu de ombros. - Como aprendeu a voar?

- Suas naves não voam com a luz? Em Virgínia?

- Não, professora. Nossas naves navegam no mar. - O olhar

confuso sugeria que ela não conseguia entender o conceito. Ele

apontou para as areias estéreis. - Água. Água a perder de vista

por toda parte.

Ela assentiu com ar superior, depois segurou seu braço e o

apertou.

- Estrutura esquelética aparentemente normal. Talvez a

densidade de seus ossos... - Ela bateu em uma de suas pernas. -

Pule para mim.

- Não!

- Chega. - Sola puxou a coleira de Dejah. - Vai ter tempo para se

divertir depois.

Dejah resistiu desafiante.

- Não quero me divertir com ele. Quero a ajuda dele. - E olhou

novamente para Carter. - Explique como faz isso... os saltos! Se é

uma habilidade, eu pago para você ir ensiná-la em Helium. Faça

seu preço.

- Não estou à venda. Tenho uma caverna de ouro só minha. -

Carter afastou-se. - Em algum lugar.

Ele olhou para o pálido disco solar desaparecendo no horizonte.

A luz agora os deixava e a areia passava de vermelha a marrom.

Uma sentinela thark patrulhava uma área mais afastada, sua

silhueta verde e magra diminuída pela enormidade do thoat que

ele montava.

Quero ir para casa, Carter pensou. De repente, nada era mais

importante... nem mesmo essa mulher atraente e frustrante que

caíra do céu.

- Não há mares neste planeta - Dejah falou. - Não mais. Só um

louco sonharia com o Tempo dos Oceanos.

Ele se virou e olhou para trás.

- É essa sua opinião de especialista? Acha que sou maluco?

- Ou mentiroso.

Sola sorriu daquele jeito thark.

- Ela combina bem com você, Dotar Sojat.

- Não me chame assim... - Ele interrompeu-se e virou para Dejah

com um movimento brusco. - Você disse "planeta"...

Dejah o encarou com uma expressão estranha. Esticando a

coleira o máximo que podia, ela se ajoelhou, pegou um graveto e

desenhou um círculo na areia.

- Sol - disse.

Depois desenhou um anel em torno dele, e outro. Nove círculos

cercando o Sol. Carter a viu marcar um ponto em cada círculo,

começando pelo mais interno.

- Rasoom - ela começou a contagem.

- Mercúrio - Carter disse em voz baixa.

- Cosoom.

- Vênus. Depois a Terra... somos nós.

Ela o fitou com uma estranha luz de descoberta nos olhos.

- Esse é Jasoom - disse. Em seguida marcou um ponto no quarto

círculo a partir do Sol. - Você está em Barsoom, John Carter.

Ele se virou balançando a cabeça. O sol se fora; a escuridão caía

rapidamente. Carter olhou para cima... e viu não uma, mas duas

luas resplandecendo no céu noturno.

- Cluros e Thuria - disse Dejah. - Os Amantes Celestiais. Uma

dupla, como as alianças que usa no dedo.

Carter tocou suas alianças de casamento. De repente sentiu uma

tristeza profunda, tão grande quanto a distância entre este lugar

e... Jasoom.

- Estou em Marte - ele sussurrou.

- E seu lar é Jasoom... desculpe-me, a Terra - Dejah acrescentou,

cética. - Veio até aqui em uma de suas naves que navegam?

Atravessou todos esses karads de espaço vazio?

Carter estava tão chocado que nem respondeu à provocação.

- Não - disse. - Um medalhão me trouxe até aqui. O mesmo que

agora está no pescoço de Tars Tarkas.

- Um medalhão... - Dejah alinhou os ombros. - Ah! Bem, isso

explica tudo.

- Explica?

- Sim. Você é um thern... e quer voltar para casa. É isso?

- Não sei o que é um thern.

- Podemos resolver isso agora mesmo. Venha.

Segurando a coleira, Dejah começou a se afastar da área do

desastre, caminhando para o assentamento thark. Sola franziu o

cenho e olhou para Carter. Ele deu de ombros, e os dois a

seguiram.

- Não gosto do tom dela - Sola comentou.

Carter tinha que admitir: também não gostava.

- Não pode entrar aqui - Sola protestou. - É proibido!

Mas Dejah Thoris não lhe deu atenção. A mulher de Helium

entrou correndo no templo em ruínas, empunhando uma tocha

para iluminar pilares caídos e paredes feitas de pedras aos

pedaços.

Carter e Sola a seguiram para o interior de uma grande sala.

Uma antiga estátua de uma deusa dominava o ambiente, sua

altura equivalente a vários andares.

- Foi você quem insistiu para eu remover a coleira - queixou-se

Sola.

Carter assentiu e tentou sorrir.

Dejah levantou a tocha, iluminando uma janela de vidro cor-de-

rosa empoeirada. Em seus complicados montantes de pedra

brilhava o desenho de uma aranha de nove pernas idêntico ao

do medalhão.

- Parece familiar? - ela perguntou.

Sola ajoelhou-se. Ela levantou duas mãos para cobrir a cabeça, as

outras duas protegendo o coração.

- É claro - Dejah resmungou -, ajoelhe-se diante do sagrado

thern. - Ela se virou para Carter com ar furioso. - Pode usar a

religião como disfarce para enganar os selvagens tharks, mas

comigo não vai funcionar. Já percebi o que está fazendo.

Carter encolheu os ombros, confuso.

- Desperdiça meu tempo com fantasias sobre essa Terra

enquanto minha cidade está para ser derrotada.

- Você me chamou de... de thern. - Carter apontou para a

estátua. - É isso que ela é?

- Ela é Issus! - gritou Sola. - Seu templo está no coração de cada

cidade de Barsoom. Todos idolatram a Deusa.

- Nem todos - Dejah corrigiu.

Mas Carter não ouvia a conversa. Olhava para um baixo-relevo

entrelaçado com uma antiga e desconhecida escritura que se

estendia acompanhando a área junto ao teto do templo. Um

padrão geométrico entremeava o desenho, entrando e saindo

dele.

Já vira esse desenho antes. Na caverna no Arizona. Em casa.

- O que está escrito?

- Esqueceu sua própria língua? Que conveniente.

Carter agarrou Dejah e saltou, divertindo-se com seu grito de

surpresa. Ele pousou sobre um pilar inclinado sob o baixo-

relevo.

Dejah se debatia quase a ponto de derrubar a tocha.

- Ponha-me no chão!

- Assim que ler essa inscrição para mim.

Contrariada, ela entregou a tocha a Carter, que a segurou perto

da parede. Dejah apontou a primeira fileira de imagens: eram

silhuetas humanas ou semi-humanas sobre uma extensa

cordilheira, usando medalhões.

- No tempo dos oceanos, todo o Barsoom era desordem e caos. -

Ela parou, fazendo um esforço para ler. - Então vieram... os

therns. Mensageiros sagrados da deusa Issus... eles tomaram o

primogênito e separaram os homens vermelhos dos verdes. A

cada um deles, deram os dons do conhecimento... - Seu dedo

deslizava sobre uma série de imagens sobrepostas e borradas de

therns semi-divinos.

- As faces duplas - Carter falou. - O que significam?

- Supostamente, os therns certa vez viveram entre nós como

guardiões. Tomavam a forma que queriam... falavam

diretamente com os homens em pensamento. Guiavam,

protegiam...

- Feito anjos.

Outra vez ele segurou Dejah, pulando para um parapeito do

outro lado do templo. Dejah o encarou furiosa por um instante,

depois olhou para a parede. Ela deslizou o dedo ao longo da

imagem de um longo rio sinuoso.

- O maior conhecimento ofertado pelos therns - Dejah

continuou a ler - foi o caminho da Deusa.

Carter tocou o extremo mais distante da imagem do rio. Havia

outro medalhão desenhado ali dentro de uma pirâmide de

cabeça para baixo.

- Lá está o medalhão outra vez. O que significa?

- Não me apresse. Diz que aqueles que buscam o consolo da

eternidade podem descer o rio... passar pelos sagrados Portões

de Iss e encontrar a paz eterna no seio de Issus.

Carter seguiu o olhar dela até a gravura dos enormes portões

forjados.

- Os Portões de Iss... Acha que a resposta está aqui?

Ela hesitou.

- Sim. Tenho certeza disso. - Depois olhou para Sola, no chão, e

baixou a voz. - E se eu pudesse levar você até lá?

Ele franziu o cenho.

- E se eu não confiar em você?

- Nesse caso, estaremos quites.

Ele sorriu.

- Posso conduzi-lo aos Portões - continuou Dejah. - Às respostas

que procura. Ao caminho de volta para Jasoom.

- Terra.

- Terra. - Ela olhou em volta numa atitude conspiratória. - Desde

que consiga nos tirar daqui.

Seus olhos se encontraram por um momento. Em seguida,

Carter estendeu a mão.

- Fechado.

Ela olhou para a mão estendida sem saber o que significava o

gesto.

- Você tem que apertar minha mão - ele explicou. Seguiu-se um

cumprimento muito desajeitado. Carter sorriu outra vez, apesar

de tudo.

- Agora só preciso pegar aquele medalhão de Tars. Não imagino

que ele vá simplesmente...

- Dotar Sojat?

Os dois olharam para baixo e viram Sola se debatendo nos

quatro braços fortes de Sarkoja. Cinco tharks apontavam rifles

na direção de Carter e Dejah, num aviso silencioso.

- Eu disse que era proibido - Sola falou.

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TARS TARKAS entrou na tenda-prisão afastando as duas partes da

lona com os quatro braços.

- O que está acontecendo, em nome de Issus?

Quatro tharks seguravam Carter, que se debatia nas amarras

apertadas. Sarkoja estava em pé ao lado de Sola, ajoelhada, e de

Dejah Thoris, brandindo uma espada num gesto triunfante.

- Issus foi profanada - disse Sarkoja. - Encontramos esses dois

tramando no templo.

Tars olhou para Dejah Thoris.

- No templo?

- Sola os levou até lá.

Carter viu os olhos de Tars buscarem os de Sola, e uma

expressão de terrível sofrimento estampou-se no rosto do

Jeddak.

- Não - disse Carter. - Sola tentou nos deter. Não tive a intenção

de desrespeitar sua deusa, Tars.

Sarkoja pressionou a lâmina contra a garganta de Carter.

- Seu "braço direito" planeja roubar o medalhão, meu Jeddak. Ele

tramava levá-lo pelo rio Iss para usá-lo em uma blasfêmia ainda

maior.

- Só quero voltar para casa! - Carter gritou.

Tal Hajus parou atrás de Tars Tarkas, analisando a cena com

frieza.

- Todos devem morrer - ele decretou. - Na arena.

Tars estendeu um braço e empurrou Sarkoja para o lado. Ele

alçou Carter no ar e, com mais dois braços, carregou o terráqueo

para longe dos outros, para um canto da tenda.

- Como pôde fazer isso? - A quarta mão de Tars apertava o

pescoço de Carter, ameaçando estrangulá-lo. - Poupei sua vida,

fiz de você Dotar Sojat. Mas a vida dela não significa nada para

você!

A voz dele era amarga, aborrecida... e temperada por uma

tristeza desesperada.

- Você sabia - Tars continuou. - Sabia que ela não tem espaço

para outra marca. Agora Sola vai morrer por sua causa.

- Ela... - Carter tentava respirar. - Ela é sua filha, não é?

O rosto do Jeddak incendiou-se de choque e culpa. Ele sacudiu

Carter, afastando-o ainda mais dos outros, e o empurrou com

força contra uma pedra. Anda amarrado, Carter não tinha como

se defender.

- Quem lhe contou isso? - Tars perguntou em voz baixa. - O

thark tem apenas a tribo por pai e mãe.

- Chame de intuição paternal. - Carter olhou para as alianças em

sua mão amarrada. - Mas como sabe? Que ela é sua filha, quero

dizer?

- A mãe dela guardou um ovo. Sola é a última centelha de nossa

antiga grandeza.

Carter apontou para o medalhão de Tars.

- Então, não pode ficar parado e deixá-la morrer...

De repente Tars o agarrou pelo pescoço novamente. Quando o

thark virou, Carter viu por quê: Tal Hajus e Sarkoja se haviam

aproximado, sorrateiros, tentando ouvir a conversa particular.

Tars Tarkas olhou diretamente para Sarkoja.

- Você tem razão. Meus braços direitos me ofenderam. Agora

devo cortá-los. - Ele se inclinou para a frente e falou com toda a

força de um Jeddak thark. - Deixem-nos.

Tal e Sarkoja se afastaram olhando para trás com evidente

desconfiança.

Quando eles já estavam longe, Tars Tarkas sacou uma faca. Ao

vê-la, Carter teve um horrível momento de medo e dúvida.

Havia exagerado? O Jeddak realmente o mataria para manter

seu segredo sobre Sola?

Tars usou a faca para cortar as amarras. Carter estava livre.

Sola e Dejah juntaram-se a ele.

- Precisam ser rápidos - falou Tars, apontando a lona no fundo

da tenda.

Dejah segurou o braço de Carter.

- Obrigada, Jeddak...

- Tenho uma condição. - Tars tirou o medalhão do pescoço e o

entregou a Carter. - Levem Sola na jornada pelo rio Iss.

Sola não conteve uma exclamação de espanto. Quando Tars

olhou para ela, sua voz soou estranhamente... humana.

- Prefiro que você morra nos braços da Deusa a vê-la virar

comida de banths selvagens na arena thark. - Tars olhou solene

para Carter. - A partir deste momento, Sola serve a Dotar Sojat.

Aonde você for, ela vai.

Carter assentiu e depois apontou a frente da tenda.

- E Sarkoja e Tal Hajus? O que vai dizer a eles?

- Deixe um thark com sua cabeça e uma mão, e ele ainda poderá

vencer. - Tars abriu um sorriso pavoroso dos thark. - Agora vá!

Quando começou a correr, seguido por Dejah e Sola, Carter

percebeu surpreso: estou quase me acostumando àquele sorriso.

Os três galoparam pela areia, cada um montado sobre um thoat

veloz. Carter ouviu um barulho e se virou depressa, certo de que

eram perseguidos. Mas uma criatura conhecida corria atrás

deles, levantando uma nuvem de poeira.

- Woola! - ele exclamou. - Mas como...

- Você pertence a ele - disse Sola. - Woola o encontraria em

qualquer lugar de Barsoom.

Dejah Thoris apontou para a frente.

- Sigam-me!

Eles cavalgaram por muitos quilômetros, passando por terras

arrasadas pontuadas por uma incrível variedade de ruínas.

Antigamente, Dejah explicou, aquilo era um mar repleto de

ilhas, acampamentos e portos. Mas a água secara há muito

tempo, e a móvel cidade predadora de Zodanga esgotara a maior

parte dos recursos restantes do planeta. Barsoom tornara-se a

sombra de um mundo, um deserto estéril mergulhado na

selvageria.

Carter estava fascinado com a beleza de Dejah, com sua energia

e paixão pela idéia de salvar seu povo. Contudo, sentia cada vez

mais que ela não revelava tudo que sabia.

No segundo dia, quando Dejah cavalgava à frente deles sob o sol

quente, Sola olhou para o céu intrigada. Depois aproximou seu

thoat do de Carter.

- Dotar Sojat- ela disse. - Quero dizer, Carter. Acho que ela não

nos está levando ao Iss.

Carter assentiu sério.

- Finja que não percebeu.

Então, ele galopou mais depressa, para se aproximar de Dejah.

Ela se virou surpresa, e Carter aproveitou esse momento para

tomar as rédeas de seu thoat.

- O que pensou que eu faria quando visse sua cidade?

- O quê?

- Devia estar nos levando ao rio.

Sola se aproximou trotando e apontou as luas gêmeas que

brilhavam no céu.

- Cluros e Thuria. Elas já deviam estar atrás de nós. Você está

nos levando para Helium.

Dejah suspirou e tentou reduzir a velocidade do thoat - mas

Carter tinha as rédeas e manteve o animal em movimento.

- Eu tinha certeza que, quando chegássemos a Helium - disse ela

-, você veria a nobreza de nossa causa.

- Todos pensam que a própria causa é virtuosa, professora.

Com um movimento preciso, ele puxou o alforje da montaria de

Dejah. Tudo que havia em seu interior caiu na areia. Quando ela

se virou, surpresa, Carter a empurrou de cima da besta e soltou

as rédeas.

Dejah rolou para o chão. O thoat disparou sem comando e

desapareceu além de uma elevação. Carter e Sola se afastaram,

cavalgando lado a lado em direção oposta.

- Não - gritou Dejah. - John Carter, você não pode ir!

- Gosto mais deste plano - Sola respondeu.

Carter fez um gesto para silenciar a thark.

- Seu louco! - Dejah corria atrás deles e arfava. - Você não é da

Terra... e não existem therns! Eu só disse o que você queria

ouvir para convencê-lo a nos ajudar... Para você me ajudar.

Sola olhou para Carter com curiosidade.

- Logo ela vai dizer a verdade - ele disse, baixo para que Dejah

não o ouvisse.

- Pare - gritou Dejah. - Não posso... Não posso me casar com ele!

Carter parou o animal e o guiou para olhar para Dejah.

- Não pode se casar com quem? - perguntou.

Ela o encarou furiosa.

- Sab Than. O Jeddak zodanguiano com quem você lutou a

bordo da aeronave. Ele propôs uma trégua em troca da minha

mão.

Meu pai teme a nova artilharia dos zodanguianos, por isso

aceitou a proposta, mas eu... eu não posso.

- Seu pai?

- Tardos Mors.

- O Jeddak de Helium? - Sola perguntou em tom chocado. - Ela é

uma princesa!

- Uma princesa de Marte. - Carter se aproximou de Dejah e

começou a rodeá-la. - Uma princesa que não queria se casar, por

isso fugiu.

De repente estava bravo. Ela o usara, mentira para ele, colocara

centenas de vidas em perigo. E só por isso?

Carter deu meia-volta e se afastou trotando.

Dejah ainda o seguia.

- Eu não fugi. Eu escapei.

Ele manobrou novamente o thoat.

- Por que não se casa com ele e ajuda seu povo?

- Não posso fazer isso com eles.

- Fazer o quê? Deixá-los vivos?

- Uma vida de opressão? Isso não é viver.

- Morrer não é viver.

- Mas eles não precisam morrer.

- Certo. Você pode se casar com Sab Than.

- Ou você pode nos ajudar... ahhhh!

Ele ouviu Dejah tropeçar e olhou para trás. Ela estava caída com

o rosto na areia. Carter recuou praguejando e desceu do thoat

para ajudá-la.

Ele estendeu a mão, mas Dejah a empurrou com violência.

Sola contornava a cena sem descer do thoat, mantendo

distância.

Lentamente, Dejah levantou-se e olhou para o chão. Quando ela

falou, sua voz era dura como aço.

- Se tivesse meios para salvar outras pessoas, salvar aqueles de

quem mais gosta, não tomaria nenhuma atitude para isso?

- De nada adiantaria se eu lutasse sua guerra.

- Eu daria minha vida por Helium. Mas não vou vender minha

alma. - Dejah baixou os olhos novamente. - Sim, eu fugi. Fui

covarde, fraca. Talvez devesse simplesmente ter me casado com

ele. Mas eu temia que isso fosse o fim para Barsoom.

As mãos adoráveis, mas firmes, seguraram os ombros de Carter.

- Vou lhe dizer a verdade, John Carter da Terra. Não existem

Portões de Iss. Eles não são reais.

- Sinto muito, princesa. - Ele levantou o medalhão quase como

se pedisse desculpas. - Mas isto é real, e foi o que me trouxe

aqui. Se isto pode me levar de volta para casa... eu tenho que

tentar.

Eles trocaram um olhar demorado. Um estranho pensamento

passou pela cabeça de Carter: se ela pode entender meu

sofrimento, talvez eu possa entender o dela.

Juntos, de mãos dadas, eles voltaram ao thoat de Carter.

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