John Herbert: Um Gentleman no Palco e na Vida por Neusa Barbosa. - Versão HTML

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7/12/2009, 12:14

John Herbert

1

Um Gentleman no Palco e na Vida

Governador

Geraldo Alckmin

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Arnaldo Madeira

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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2

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Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

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Revisão

Andressa Veronesi

Projeto Gráfico

e Editoração

Carlos Cirne

John Herbert

Um Gentleman no Palco e na Vida

3

por Neusa Barbosa

São Paulo, 2004

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Barbosa, Neusa

John Herbert : um gentleman no palco e na vida / por Neusa Barbosa.

– São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : Cultura -

Fundação Padre Anchieta, 2004. --

184p. : il. - (Coleção aplauso. Série perfil / coordenador geral Rubens Ewald Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (obra completa) (Imprensa Oficial) ISBN 85-7060-266-9 (Imprensa Oficial)

1. Atores e atrizes cinematográficos - Brasil - Crítica e interpretação 2. Atores e atrizes de televisão - Brasil - Crítica e interpretação 3. Atores e atrizes de teatro - Brasil - Crítica e interpretação 4. Herbert, John, 1929-I. Ewald Filho, Rubens. II. Título. III. Série.

4

04-3601

CDD-791.092

Índices para catálogo sistemático:

1. Atores brasileiros : Biografia e obra :

Crítica e interpretação : Representações

públicas : Artes 791.092

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

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Apresentação

por Rubens Ewald Filho

Estou aqui tentando corrigir uma injustiça. Não sei se vocês sabem, mas eu apresento todos os

domingos na Rede Cultura um programa

chamado Cine Brasil, que exibe filmes brasileiros.

Já apresentamos as chanchadas da Atlântida, os filmes da Cinedistri de Oswaldo Massaini, várias vezes as fitas da Vera Cruz e todas elas tinham uma coisa em comum: a presença do John

Herbert. Eu já conhecia quase todos os filmes, 5

mas nunca tinha tido antes a oportunidade de

assisti-los assim, um após o outro. E fiquei

impressionado. “Poxa, O cara era bom!”. Pensa

que é fácil fazer par para Eliana, cada vez que ela levantava aquela sobrancelha? Ou cantar,

sendo dublado por Anísio Silva. Até com a voz

do Rubens de Falco ele aparece em Floradas na

Serra. Também é difícil lutar a socos com o

Wilson Grey ou, pior ainda, com o Wilson Viana.

Mas foi revendo esses filmes que me dei conta

realmente de como é difícil a missão de ser galã.

Johnny não era apenas boa pinta. Tinha uma

grande empatia. Todo mundo confiava nele,

acredita nele. Mas sua missão era dizer diálogos por vezes completamente impossíveis. E sem

parecer ridículo, sem cair no melodrama ou

resvalar para a chanchada. Eu percebi como

Johnny fazia bem uma coisa, que no fundo é a

principal função do galã, além de provocar

suspiros na platéia feminina: tem, principal-

mente, que fazer os outros brilharem, servir de apoio para o mocinho e escada para Oscarito

ou Derçy Gonçalves. Não, Johnny não era

qualquer galã. Tenho certeza que Johnny foi o

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melhor galã do cinema brasileiro.

Arrisco dizer que Johnny nunca deu uma

interpretação ruim... E Johnny foi bom e

convincente não apenas em português, mas

também inglês e até alemão - eu até vi aquele

filme da Helga e os Homens, que ele andou

fazendo. Mas ainda estou correndo atrás de

Escravas do Amor das Amazonas, que juro que

ainda vou programar para o Telecine Classic.

Pesquisando o IMBD, que é a enciclopédia do

show business mundial, encontrei lá nove

variações no nome John Herbert, mas o nosso

Johnny é o único que, além de ator, trás também como identificação as categorias de produtor e diretor.

Porque nem todo mundo se lembra: Johnny

também é um talentoso diretor de cinema, está

lá incluído no meu Dicionário de Cineastas. Foi premiado pela Associação dos Críticos de São

Paulo, sempre louvado pelo saudoso Rubem

Biáfora, embora demonstrasse uma inexplicável

atração pelos textos da Cassandra Rios. E se

alguma queixa eu tenho, é a da situação sempre complicada do cinema brasileiro que não

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permitiu que Johnny dirigisse com mais

freqüência.

Mas estou aqui como admirador confesso do

trabalho de Johnny, e volto a falar da injustiça.

Todo mundo gosta do Johnny Herbert, mas nem

todos reconhecem a qualidade de seu trabalho.

E sabem por que? Porque, no fundo, ele é como

o Fred Astaire, que faz tudo parecer tão fácil, que as pessoas acham que já nasceu sabendo.

Não percebem todo o trabalho que houve por

trás. Mas é com outro ator que a comparação

fica mais clara.

Eu acho que Johnny é o nosso Cary Grant... Como ele, faz tudo com classe, elegância, um

impecável timing de comédia e total

competência no drama. Lembrem-se de que o

Cary fazia também tudo parecer tão fácil, tão

suave e debonair, que não parecia estar

representando, que no fundo é a mais difícil das artes. E por isso, nunca lhe deram um Oscar

normal, apenas um especial. De uma certa

maneira, estou aqui um pouco para isso. Não

posso lhe trazer um Oscar da Academia, mas

trago meu respeito e minha admiração.

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Maio 2004

Introdução

Duas vezes a vida profissional do ator John

Herbert dependeu de um smoking. Na primeira

vez, em 1952, quando ele, ainda um estudante

de Direito, foi convidado pelo colega Renato

Consorte para fazer uma ponta no filme

Appassionata, uma das primeiras produções do

estúdio Vera Cruz. Por coincidência, uma

situação que lhe deu oportunidade de

aproximar-se da então jovem bailarina Eva

Wilma. Os corredores do Teatro Municipal foram 9

o palco dos primeiros flertes de um casamento

e parceria artística que duraram mais de 20 anos, formando uma das duplas mais queridas do

público brasileiro na TV, no cinema e no teatro entre as décadas de 1950 e 1970.

Na segunda vez, o smoking foi necessário para

uma cena de O Petróleo é Nosso, de Watson

Macedo, agora na Atlântida. Mal-descido do

avião que o levou de São Paulo para o Rio, o

então jovem intérprete entrou no estúdio,

ganhou seu traje de soirée e repetiu um beijo

vinte vezes. Assim, sem ensaio, na raça.

Com sua aura de roupa de galã, o smoking serve de medida para o tipo de comédia sofisticada

da qual Herbert se tornou uma das mais

expressivas traduções, em seus sólidos 52 anos de carreira, onde se contam 60 filmes, 30

novelas, 32 peças de teatro – como ator ou

produtor, às vezes na dupla função entre os

bastidores e a ribalta. Um produtor de olho

sensível, aliás, para abrir as portas da carreira a muitos grandes nomes da cena atual – caso de

Irene Ravache, Regina Duarte, Ewerton de

Castro, Cláudia Melo e Ricardo Petraglia.

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Galã batizado nas emergências de uma televisão ainda sem videoteipe, feita ao vivo, e de um

cinema que queria ser profissional mas, na sua improvisação, tantas vezes desafiava o instinto dos atores – ainda que eles então não viessem

das passarelas da moda e sim do rádio ou do

teatro - John Herbert tornou-se um dos intér-

pretes mais versáteis da cena artística brasileira.

Vivendo numa época que assistiu ao nascimento

da televisão no Brasil, ao florescer do Teatro de Arena, do TBC e outras companhias estáveis,

bem como da mais séria tentativa de implantar

no Brasil uma indústria cinematográfica –

através dos estúdios Vera Cruz, Maristela,

Multifilmes, Atlântida – John Herbert forjou

essa sua capacidade de navegar calmamente por

todas as tempestades que sacodem a vida de

um artista no Brasil sem perder a fleuma, para o que certamente lhe valeu a férrea disciplina aprendida num lar alemão luterano. Uma

fleuma, é bom que se diga, à qual ele soube

somar um brasileiríssimo senso de humor e um

jogo de cintura que já o levou a desfilar em

escola de samba.

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Aliando a disciplina germânica à versatilidade tupiniquim, que parece nunca assustar-se nem

perder a esportiva diante de nada, Herbert

atravessou períodos em que a comédia sofis-

ticada, que é a sua marca, desapareceu do

cenário, passando pela pornochanchada, filmes

de cangaço, cinema marginal, sobrevivendo a

duros embates em cena, em lutas sem dublê, e

também na vida real, com a censura do período

militar – vivendo o incidente mais traumático

de sua vida com a proibição da peça Os Rapazes da Banda, em 1971.

Os anos 1970 marcaram também o fim de seu

casamento com Eva Wilma – com quem teve a

única filha mulher e única artista entre seus

quatro filhos, Vivien Buckup, diretora de teatro

– e a um novo casamento, com a fisioterapeuta

Claudia Librach, bela como uma atriz de cinema, com quem vive até hoje. Soa até estranho

descobrir que um de seus ídolos é Clint

Eastwood, porque Herbert não tem nada do tipo

durão que o colega americano encarnou em

tantos de seus western spaghetti. Elegante

diante da separação, como diante de tudo, o

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ator não é nem nunca foi figurinha fácil de

colunas de fofocas nem das revistas de

celebridades. Fiel às paixões que conheceu cedo na vida, ele continua praticando a natação, no mesmo clube Pinheiros que assistiu às suas

primeiras braçadas e de onde ele quase saiu

candidato a uma medalha olímpica, em 1948 –

não fosse uma pneumonia a tirá-lo do páreo.

Ganhou o teatro, em todo caso, onde ele pisou

pela primeira vez aos 18 anos e nunca mais

largou, até hoje, para deleite dos espectadores que preferem a escola do humor sutil e

sofisticado. Um gentleman no palco e na vida,

cuja filosofia é: “Viva a sua vida e não se leve muito a sério”.

Neusa Barbosa

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Capítulo I

Uma infância isolada no ninho alemão

A família Buckup, da qual faço parte, veio de

Hamburgo, Alemanha. Um estudo de nossa

árvore genealógica confirmou que ela existe

naquela região desde 1270. Quase todos os seus integrantes foram comerciantes, seguindo a

principal tradição de uma típica cidade

portuária. Meu avô, Paul Adolf Buckup, nasceu

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em Altona, na região de Hamburgo, em 1866.

Veio para o Brasil no final do século XIX, em

1889, como representante de uma firma

importadora e exportadora chamada Tormmel.

Em 1901, ele se casou com dona Ernestina Avé-

Lallemant, brasileira que pertencia a uma

família antiga de Niterói, de raízes francesas e alemãs. Meu pai, Hans Eduard Buckup, já nasceu aqui, em Santos, em 1902. Quando ele tinha dois anos de idade, meus avós voltaram para

Hamburgo. Hans cresceu, foi educado e

conheceu minha mãe, Kitty, lá mesmo.

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Minha mãe era filha de uma inglesa de Londres, Katie Schmidt, e de Werner Schmidt, também

natural de Hamburgo. Foi nessa cidade, em

1926, que meus pais se casaram e decidiram vir para o Brasil.

Como meu avô, meu pai continuou trabalhando

como comerciante. Eu fui o filho mais velho, o primeiro paulistano do clã Buckup, formado de

uma longa linha de protestantes luteranos. Nasci no dia 17 de maio de 1929, no Hospital Oswaldo Cruz, que era um dos centros de referência da

colônia alemã e existe até hoje, no bairro do

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Paraíso. Nessa época, minha família morava na

Rua Estados Unidos, nos Jardins. Um ano ou dois depois, nos mudamos para a Rua Bela Cintra.

Depois, fomos para a Rua Guadalupe, que

também fica perto da Estados Unidos. Lembro

que, nessa época, nossos vizinhos da frente eram os Mangels, donos da indústria de rodas do

mesmo nome. Eu freqüentava sempre a casa

deles. Brincava com Anita, a filha caçula, tinha a minha idade. Um dia, brincamos de

cabeleireiro e ela me cortou todo o cabelo! Tive de raspar a cabeça com máquina zero, não teve

outro jeito. Lembro-me até hoje de chegar em

casa com o cabelinho tosado.

Sempre moramos nessa região dos Jardins. Mas

na minha infância a paisagem era muito

diferente. Em 1936, meu pai comprou um

terreno na Rua França. Era tudo mato por ali,

estradas de barro, só uma casa ou duas nas

imediações. Todo mundo falava que meu pai

era maluco por insistir em morar naquele lugar.

Mas em 1937, Hans começou a construir a nossa

nova casa. Eu tinha 8 anos nessa época e fui

morar uns tempos com a minha avó paterna,

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dona Ernestina, na Rua Venezuela. Essa minha

avó, aliás, é quem tinha escolhido meu nome,

John, tirado de um personagem de um livro do

escritor inglês John Galsworthy. Então esse ficou sendo meu primeiro nome. O segundo, Herbert,

é muito comum na Alemanha. Tenho um tio

chamado assim.

Uma das primeiras experiências emocionantes

que eu tive na vida foi andar de avião. Aos 5

anos, fui o primeiro passageiro da VASP, porque meu pai e meu avô eram os importadores de

um avião, o Junker.

Lembro de que a gente voou por cima da cidade, foi uma impressão muito forte na minha

memória de criança.

A influência alemã sempre foi muito forte na

minha vida. Em casa, só se falava alemão. Por

causa disso, até os 8, 9 anos de idade, eu não falava bem o português, tinha bastante sotaque.

Todas as colônias que existiam na São Paulo dos anos 30 eram muito fechadas. Havia a cultura

alemã, a italiana, a árabe, a japonesa, mas cada uma ficava restrita ao seu grupo, não se

misturavam muito. Estudei em colégio alemão,

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o Olinda Schüle, que ficava na Rua Olinda atual Pça. Roosevelt, e depois da II Guerra Mundial

mudou de nome para Colégio Visconde de Porto

Seguro, hoje instalado no Morumbi. Estudei lá

desde os 6 anos de idade.

Foi nessa época também que eu comecei a me

interessar por esportes. Meu pai tinha um barco e freqüentávamos o Iate Clube Santo Amaro.

Eu e meu irmão, Joaquim, íamos à Sociedade

Harmonia de Tênis, que ficava ao lado de casa, na Rua Canadá, onde está até hoje. Meu irmão

jogava tênis, eu também, além de nadar e

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John, agachado à frente, o 3o a partir da esquerda 20

praticar pólo aquático. Só que naquela época o Harmonia não possuía turma de natação nem

treinador. Como eu tinha facilidade para o

esporte, um bom físico, lá mesmo me sugeriram

mudar para o clube Pinheiros, que naquele

tempo ainda se chamava Germânia, porque

também era um clube da colônia alemã. Como

várias outras instituições, eles tiveram que

mudar de nome depois da II Guerra Mundial.

Comecei a nadar no Pinheiros em 1939 e fi-

quei por lá até hoje. Sou, como se diz, móveis e utensílios do clube. Integrei a equipe de natação por 15 anos. Ganhei muitas medalhas e troféus, que guardo com muito orgulho. As provas de

100 metros e de 400 metros eram a minha

especialidade, venci muitas delas. Em 1945,

fui campeão paulista dos 1500 m pelo Pinhei-

ros – um título que o João Havelange tinha

conquistado um ano antes. Também ganhei

muitas travessias. Naquele tempo, ainda se

podia nadar no rio Tietê, mas eu mesmo não

tive oportunidade de fazer muito isso. Depois, o rio ficou poluído e não deu mais. Hoje, procuro nadar todos os dias. Ainda consigo fazer meus

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800, 1000 metros. Também faço muitas

caminhadas e fitness lá mesmo no Pinheiros,

onde às vezes encontro velhos amigos.

Eu tinha 10 anos quando estourou a II Guerra,

em 1939. Levava essa minha vidinha, de colégio, clube. São Paulo era uma cidade provinciana

ainda, mas muito agradável de se viver. Andava para todo lado de bicicleta, de vez em quando

ia até para o colégio assim, pendurado no bonde que subia a Rua Augusta. Para falar a verdade, a gente nem sabia direito o que estava

acontecendo na Europa, não só por ser criança, mas também porque não existia televisão. Só

havia os jornais, o rádio. Lembro que em São

Paulo chegou a existir uma juventude hitlerista.

No clube Pinheiros, que nessa época ainda era

Germânia, todo dia 1º de maio era realizada

uma Festa do Trabalhador onde vários jovens

desfilavam, ostentando a suástica nos uniformes.

Era uma influência do partido Nacional Socia-

lista, o partido Nazista, que estava no poder na Alemanha. Eram jovens da colônia alemã. Eu

era muito garoto, a gente não tinha nada a ver com aquilo, mas me lembro de ver alguns desses 22

desfiles.

Quem acompanhava a II Guerra com certo

interesse era meu pai. Inclusive ele tinha um

mapa da Europa onde colocava uns alfinetes

mostrando a expansão das fronteiras da

Alemanha. Aquela coisa de sangue alemão, ele

era patriota. O maior aperto que sentíamos era o racionamento dos gêneros alimentícios, entre 1941 e 1942. Existia fila para tudo, na padaria para comprar açúcar, farinha, os artigos mais

básicos. Nós éramos três crianças – eu, meu irmão e minha irmã Úrsula - e todos íamos para a fila,

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porque cada pessoa tinha direito a um pão. Às

vezes os produtos acabavam e era preciso voltar no dia seguinte.

Mas essa restrição alimentícia não foi o pior que poderia nos acontecer. Um dia, apareceu lá em

casa uma turma que levou meu pai preso,

quando o Brasil entrou na guerra, em 1944. Meu pai foi detido, como todas as figuras proemi-nentes da comunidade alemã. Ele era industrial, tinha sido fundador do Clube Transatlântico, era uma pessoa conhecida.

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Com os irmãos, Úrsula e Joaquim

Foram muitos os presos, os pais dos meus ami-

gos também não escaparam. Não havia propria-

mente uma acusação contra eles. As autorida-

des apresentavam aquela alegação vaga de que

os alemães faziam parte de um complô contra o

Brasil, criando um clima de histeria e caça às bruxas. Lembro-me de que a gente ia visitá-lo

todo domingo. A prisão ficava na antiga

Hospedaria dos Imigrantes, na Rua Visconde de

Parnaíba, na Moóca – onde hoje está instalado

o Memorial do Imigrante. Como sempre, os

alemães se organizaram, lá dentro era tudo

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muito arrumado, eles mesmos cuidavam de

tudo. Meu pai ficou prisioneiro naquele lugar

durante um ano.

Ele e meu avô, Paul Adolf, tinham chegado a

trabalhar juntos. Fundaram uma fábrica de

vidros, a Cristalaria Paulista, na Av. Celso Garcia.

Às vezes, a gente ia lá ver como era o trabalho.

Meu pai costumava trazer bichinhos de vidro

para casa. Depois da II Guerra, por causa de toda aquela pressão, eles resolveram vender a fábrica, que deu origem aos Cristais Prado.

Na minha escola, apesar de ser alemã, não se

mencionava a guerra. Nunca se falou em sala

de aula, não se comentava nada sobre os

acontecimentos na Europa. Nunca ninguém ali

dentro tentou forçar uma discussão ideológica, nada disso. Era só estudo e muito bom. Aliás,

foi no colégio que eu aprendi a falar inglês

muito bem. Os professores vinham comis-

sionados da Alemanha. Mas é claro que todo

mundo tinha consciência de que uma coisa

muito grave estava acontecendo e afetava a

colônia germânica. Lembro-me de que nos

pediam no colégio, em casa também, que

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evitássemos falar alemão na rua, porque alguém podia ser agressivo com a gente.

Eu, meu irmão, meus amigos íamos para o

colégio de bonde, naquele que chamávamos de

“camarão”, um bonde da antiga Light que era

vermelho e saía de um ponto na Pça. do

Vaticano para o centro da cidade.

Nessa época, quando estávamos no bonde,

ficávamos bem quietos, porque entre nós só

falávamos alemão e alguém podia ouvir e não

gostar. Os alemães e também os italianos

tomavam esse tipo de precaução, porque às

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vezes aconteciam atritos, a gente tinha um

pouco de medo. No fim da guerra, em 1945,

isso acabou tendo uma conseqüência na minha

vida, porque o currículo alemão do meu colégio não era mais reconhecido aqui. Tudo o que eu

tinha feito não valia mais e ponto final.

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Tive que refazer em um ano o antigo ginásio,

fazer um exame que naquele tempo se chamava

“madureza” para ter direito ao diploma e poder continuar meus estudos.

Antes mesmo de a guerra acabar, eu já tinha

começado a romper um pouco esse isolamento

da comunidade alemã no próprio clube

Pinheiros. Com o fim da guerra, eu me abrasi-

leirei ainda mais, porque não convivia mais só com membros da colônia. Mesmo no colégio,

que tinha mudado de nome, já havia muitos

brasileiros de outras origens, o ambiente não

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era mais tão fechado como antes. O fim da

guerra forçou uma mistura, uma integração

maior e eu comecei a descobrir outras coisas.

Comecei a gostar muito de música e descobri o

jazz. Tinha muitos amigos com as mesmas

afinidades. A gente trocava discos, íamos um na casa do outro. Gostava muito de Thelonius

Monk. Era a época das grandes orquestras,

Glenn Miller, Tommy Dorsey. A gente dançava

muito esses ritmos nos bailes da moçada.

Cheguei a ter vontade de tocar bateria, e até

mesmo construí uma versão caseira, usando um

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tamborim e um prato de cozinha. De vez em

quando, nessas tardes frias de São Paulo, ficava ouvindo um programa de jazz que havia na

Rádio América e acompanhando as melodias

com a minha “bateria”. Mas não passou daí meu

namoro com a música.

Em 1948, quando eu estava no último ano do

Científico (o equivalente ao segundo grau hoje), tive uma grande frustração. Por causa de uma

pneumonia, perdi a chance de ir às Olimpíadas, em Londres. Ainda cheguei a treinar com febre, mas não deu para ir até o fim nos treinos classifi-28

catórios. Naquela altura, ainda não se usava a penicilina. O tratamento era com sulfa e demo-rava muito mais tempo do que agora.

Ficou na vontade o sonho de ter uma medalha

olímpica. Talvez isso tenha mudado todo o meu

futuro. Em compensação, nesse mesmo ano, eu

descobri o teatro, ainda no colégio. Ou ele me descobriu. Estava terminando o Científico e

ainda não sabia direito o que faria da minha

vida depois da formatura. Foi quando chegou

da Alemanha o Hoffman Harmisch, que dirigia

um grupo de teatro e montava peças alemãs

importantíssimas aqui no Teatro Municipal,

textos clássicos no idioma original. Dessa vez, ele organizava uma montagem de Fausto, de

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Goethe, e veio ao Colégio Porto Seguro procurar alunos que pudessem fazer algumas pontas.

Eu e meu primo, Ludwig Buckup, nos candida-

tamos. Eu tinha até uma fala, uma só: “Deiner

Mutter Sohn”. Ou seja, “filho de minha mãe”.

Coisa bem simples. Mas no dia da apresentação, com todo aquele pânico da estréia, no

Municipal, quase esqueci o que devia dizer. Mas me salvei a tempo. Foi assim, cheio de emoções, meu primeiro contato com o teatro. Ainda não

havia nenhum ator na minha família, mas isso

era só uma questão de tempo.

30

Capítulo II

Entre o Teatro, o Cinema e o Direito

Mesmo com esse meu primeiro contato com o

teatro, com a pequena fala em Fausto, meu

caminho para tornar-me ator seria muito longo

e tortuoso. Era muito jovem, ainda não estava

seguro nem do meu talento nem da minha

vocação. Mesmo se estivesse, na minha família

ninguém ia querer ouvir falar disso.

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Mas eu já fazia minhas primeiras tentativas para me tornar independente da família, ganhando

meu próprio dinheiro. Por volta de 1947, existia em São Paulo uma firma chamada Perval, que

importava carros ingleses da marca Anglia, um

modelo quadradinho. Eu conhecia um dos

diretores da firma e arranjei um bico, que

consistia de ir a Santos trazer um dos carros, dirigindo, porque a essa altura eu já tinha carta de motorista. Então, depois da aula, eu pegava um ônibus, junto com vários colegas da minha

classe, descíamos a serra e íamos até o porto de Santos pegar um carro para trazer na volta.

Ganhava-se uma nota razoável e muitos faziam

isso quase diariamente. Naquela época, não

existiam essas “cegonhas” para transporte dos

carros que, aliás, eram todos importados. Para nós, então, era um serviço fácil e agradável, um verdadeiro passeio.

Um pouco depois, minha irmã começou a

namorar um rapaz, o Luciano Gualberto Filho,

que era filho do reitor da USP. O Luciano Filho trabalhava na reitoria da USP e me arrumou um

emprego no arquivo. Naquela época, a reitoria

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ficava na Rua Helvétia, no centro da cidade. Eu saía da escola e ia direto para lá.

Quando o reitor saiu, me transferiram para o

serviço administrativo de um posto de saúde,

em Santa Cecília. Depois, me colocaram num

outro posto que ficava na Rua Aimorés, no meio de uma zona de meretrício. Eu trabalhava lá de tarde e o ambiente em torno era bem barra-pesada. Fiquei nessa vida mais ou menos um

ano.

Quando terminei o Científico, meu pai

perguntou-me o que eu queria ser.

Sempre quis estudar medicina, mas isso era qua-se uma afronta, era contra toda a orientação da família. Sempre muito pragmático, meu pai dizia: “Mas como, medicina? Não tem um médico

na família, é todo mundo comerciante, industri-al. E depois ser médico leva tanto tempo, será que você gosta disso mesmo?” Ficou decidido

então que, enquanto pensava, eu ia trabalhar.

Meu pai mesmo me arrumou emprego no Ban-

co Francês-Alemão, que ficava na Rua XV de

Novembro, para ver se eu gostava do serviço de escritório.

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Fiquei lá quase um ano. Fazia de tudo, menos

caixa, que eu nunca fui muito bom de cálculo.

Meu pai achava que eu podia seguir adiante.

Um dos diretores do banco inclusive me

elogiava, dizia que eu estava indo muito bem.

Mas eu não agüentei aquela rotina de escritório.

Disse a meu pai que não ia dar para continuar

ali, não era minha praia.

Foi então que surgiu a idéia de fazer o curso de Direito. Não tinha nada a ver comigo, também,

mas eu precisava ganhar tempo, para descobrir

o que eu realmente queria.

Isso foi no mês de setembro de 1948. O exame

para a Faculdade de Direito do Largo de São

Francisco seria em janeiro de 1949. Foi um

dilema, porque eu tinha feito o Científico e no exame tinha prova de latim, que não fazia parte do currículo desse curso e, portanto, eu nunca tinha visto na minha vida. Tive que fazer um

estudo intensivo, decorar todas aquelas decli-

nações, nominativos. Era muito complicado.

Naquela época o vestibular não era como o de

hoje, com provas de múltipla escolha. Todo

aluno tinha que escrever uma dissertação, além 34

da prova oral. Era muito difícil.

Mas eu tive sorte. Na prova de latim, caiu justamente um ponto que eu sabia. A dissertação eu

lembro até hoje, era sobre o Ano Santo. Tirei

uma nota bem alta, acho que foi oito. Também

fui muito bem em inglês. No final, fui aprovado.

E fui super bem-recebido porque era nadador.

Para a faculdade, era uma maravilha ter mais

um atleta porque havia as Olimpíadas Universi-

tárias e nunca era demais reforçar o time

naquelas competições contra as outras escolas, como a Politécnica e o Mackenzie.

Mas um pouco antes de entrar na faculdade de

Direito, o bichinho do cinema já tinha me

mordido. Desde 1947, eu tinha começado a

freqüentar a Cinemateca do Museu de Arte

Moderna (MAM) de São Paulo, que ficava na

Rua Sete de Abril. Tínhamos uma turma que

gostava de freqüentar a cinemateca e de discutir cinema, teatro. Virou um ponto de encontro.

Lá passavam todos os clássicos do cinema

francês, italiano, também o trabalho dos

pioneiros, dos irmãos Lumière, Méliès.

Os freqüentadores faziam dali um centro de

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debates. Tinha também um tipo de café-bar, que ficava em frente, onde todo mundo se reunia.

Dessa turma, que se encontrava à tarde na

cinemateca ou na Pça. Dom José Gaspar, na

porta da Biblioteca Municipal, fazia parte o

Manoel Carlos (que virou autor de novelas),

Antunes Filho (futuro diretor de teatro), Flávio Rangel (dramaturgo e diretor de teatro e TV) e o Franz Kracjberg (artista plástico). Lembro que eu costumava conversar muito com o Kracjberg

em alemão. Fazendo parte desse grupo, é

natural que o meu interesse pela arte crescesse cada vez mais. Então uma coincidência veio ao

meu encontro. Eu soube na cinemateca que

estavam criando um curso para atores lá perto, no Centro de Estudos Cinematográficos para a

Formação de Atores e Técnicos de Cinema. O

curso era orientado pelo Ruggero Jacobbi, um

italiano que depois tornou-se diretor do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e dirigiu também

cinema na Companhia Cinematográfica Vera

Cruz. Entre os professores havia também a Carla Civelli (mulher do Jacobbi) e o José Renato, que em 1963 implantou no Brasil o primeiro Teatro

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de Arena, a partir de experiências francesas que ele conheceu através de seus professores na

Escola de Arte Dramática (EAD). Entrei nesse

grupo inicial, com o Sérgio Britto, a Monah

Delacy (mãe de Christiane Torloni) e acabei sen-do um dos fundadores do Teatro de Arena em

São Paulo, que foi o primeiro da América Latina.

No começo, a gente não tinha uma sala própria, então montamos nossas primeiras peças lá

mesmo, no MAM. O palco era redondo, com as

cadeiras em volta, e se prestava para a proposta de teatro de arena.

Mas não era nada fácil atuar nessas condições, especialmente para mim, que não tinha muita

experiência. Os espectadores na primeira fila

estavam a um metro de você e por todos os

lados. Era um exercício e tanto de palco. Foi aí que perdi de vez um pequeno sotaque alemão,

que ainda carregava. A primeira peça que

montamos foi em abril de 1953, uma comédia

inglesa, Esta Noite é Nossa, de Stafford Dickens, com direção do José Renato. Em outubro desse

mesmo ano, fizemos O Demorado Adeus, de

Tennessee Williams, e Judas em Sábado de

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Aleluia, de Martins Pena. Só depois é que

achamos o espaço da Rua Teodoro Baima para

instalar o Teatro de Arena. Que, anos depois,

virou o Teatro Eugênio Kusnet, que existe até

hoje no mesmo endereço.

Nosso primeiro grande sucesso nesse teatro foi uma peça francesa do Marcel Achard, Uma

Mulher e Três Palhaços, que se passava no circo.

Os três palhaços éramos eu, o Sérgio Britto e o José Renato. Mas, antes do José Renato, quem

fazia o terceiro papel era o Jorge Fischer, um rapaz muito talentoso, mas que depois desistiu da carreira e foi ser um executivo de sucesso. O

José Renato era também o diretor.

Com essa peça, fizemos uma primeira tentativa

de uma turnê pelo Brasil, com uma companhia.

Montamos o espetáculo em São José dos

Campos, na Escola Preparatória de Aviação.

Depois viajamos para o Rio de Janeiro, no

Ministério da Cultura, naquele prédio lindo,

projetado pelo Oscar Niemeyer.

Montamos a peça também em clubes e até no

Palácio do Catete, a pedido do presidente da

República, que na época era o Café Filho.

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Apresentamos o espetáculo para ele e vários

ministros, numa das salas do Palácio. Foi um

evento raro mesmo.

Viajar com uma companhia naquele tempo era

muito complicado. Nós tínhamos alguns

patrocínios, mas não havia leis de incentivo,

como hoje. Dependíamos também de fazer

bilheteria para nos financiarmos. Tivemos a sorte de arranjar um patrocinador, Bernardo Gold-farb, presidente das lojas Marisa na época, que foi presidente do Corinthians e virou até nome de um dos viadutos da Marginal Pinheiros.

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Em Uma Mulher e Três Palhaços

Ele gostava de arte, e patrocinou até a cons-

trução daquele teatro na Rua Teodoro Baima,

que era alugado. Quando voltamos da turnê,

nossos rumos mudaram. O José Renato acabou

mudando-se para o Rio, eu comecei a fazer mais cinema, e o Teatro de Arena trocou completamente de trupe. Mas nós fomos os pioneiros.

Foi nessa peça, Uma Mulher e Três Palhaços, que eu trabalhei pela primeira vez com a Eva Wilma, minha primeira mulher. Ela era bailarina, fazia parte do Balé do IV Centenário de São Paulo,

em 1954. O José Renato achou que ela podia

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interpretar a Colombina na nossa peça.

Eu tinha conhecido a Eva um pouco antes, em

1952. Estudava ainda na Faculdade de Direito e um dos meus colegas era o Renato Consorte, na

época era um dos produtores na Vera Cruz. Ele

precisava de muitos figurantes para filmar uma cena no Teatro Municipal para o filme Appassionata (1952), com direção do Fernando de

Barros e a Tônia Carrero e o Paulo Autran no

elenco (aliás foi a estréia do Paulo Autran no cinema). Havia uma cena de concerto na trama

e eles precisavam filmar o Municipal lotado de espectadores vestidos de smoking. Aí o Consorte convidou toda a faculdade para ir.

Tinha até um cachê, um dinheirinho razoável,

para passar uma manhã. A gente só tinha de

levar o próprio smoking e aparecer no Municipal para filmar às 9 horas da manhã. E ainda tinha a vantagem de poder ver artistas, como a Tônia, de perto. Era uma farra.

Lá no teatro, estava ensaiando um grupo de

dança da Maria Oleneva e a Eva Wilma era uma

das alunas. A gente já se conhecia de vista, ela também freqüentava as festinhas do pessoal do

41

Jardim Europa, porque ela morava por ali, na

Rua Maestro Elias Lobo.

Nos intervalos da nossa filmagem, a gente descia para tomar água, as bailarinas também. Acabei

conversando com ela e pedindo seu telefone.

Dois dias depois, eu liguei.

Ela tinha um namorado mas os dois estavam

meio abalados na época, e acabamos ficando

juntos por 21 anos.

Um pouco antes, eu também já tinha posto o

pé no cinema, que foi uma coisa de que eu

sempre gostei.

Eu ainda atuava no Teatro de Arena quando

comecei a rodear a Companhia Cinematográfica

Vera Cruz, cujo escritório ficava ali, na Rua Major Diogo, no terceiro andar de onde fica hoje o

TBC, vendo se eu conseguia alguma oportuni-

dade. O estúdio já tinha rodado Caiçara (1950) e Tico-Tico no Fubá (1952), ambos dirigidos por um italiano, Adolfo Celi, que depois se tornaria meu amigo. Acabei sendo chamado para um

teste num filme que foi a minha estréia nas telas, Uma Pulga na Balança (1953). Estava aí o Luciano Salce, um excelente diretor italiano, que depois 42

voltou para a Itália, onde dirigiu várias

comédias. O meu destino parecia estar sendo

traçado por si mesmo. Eu tive a sorte de começar minha carreira numa época em que estava

acontecendo uma intensa renovação em todas

as artes no Brasil.

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Cena de Uma Pulga na Balança, com

Mario Sergio, Ruy Affonso e Paulo Autran

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Capítulo III

Adeus Direito, Alô Doçura

Sem que eu planejasse nada de antemão, minha

carreira artística foi se impondo na minha vida.

O começo dos anos 50 era também uma época

efervescente, de intenso desenvolvimento no

Brasil. A televisão acabava de ser implantada, em 1950. O Teatro de Arena, do qual eu participava, tinha chegado ao país e diversas

45

companhias estáveis, como o TBC, se consoli-

davam. No cinema, proliferavam novos estúdios, como a Vera Cruz, a Maristela, a Multifilmes,

uma tentativa de consolidar uma indústria

cinematográfica no país agora com o apoio dos

industriais paulistas. Era fácil ser tragado por esse turbilhão e eu fui. Entrei de cabeça e

coração numa ciranda de atividades paralelas

que seria a tônica do meu cotidiano pelas

décadas seguintes. Fazia teatro, cinema e já

tinha começado também na televisão, tudo ao

mesmo tempo.

Em 1952, entrei para o elenco dos teleteatros

da TV Tupi, que prepararam o terreno para as

novelas que se tornaram tão populares logo

depois. Em 1953, fui contratado pela TV Record, para participar de teleteatros dirigidos pelo

Graça Mello e pelo Miroel Silveira.

Num deles, eu tinha como colegas o Hélio Souto, que foi meu amigo a vida toda, e a Silvia Ortoff.

Paralelamente, continuei cursando Direito e me formei em 1954. Foi no mesmo ano em que eu

e a Eva Wilma começamos a fazer Alô Doçura,

do Cassiano Gabus Mendes.

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Curioso é que nesse programa, que mudou tanto

a nossa vida, nós dois nem fomos a primeira

opção para o elenco.

Inicialmente, o Cassiano tinha convidado o

Mário Sérgio e a Marisa Prado, que eram atores da Vera Cruz, para estrelarem um seriado que

deveria se chamar Os Namorados da Tarde.

Depois, o patrocinador mudou o nome para Alô

Doçura e nós substituímos os dois.

Era um tipo de comédia familiar inspirado no

modelo de I Love Lucy, com a Lucille Ball e o

Desi Arnaz.

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O Cassiano escrevia o roteiro e retratava a realidade, o cotidiano de uma grande cidade, que

era São Paulo, e isso era uma novidade que

fascinava o público. O programa foi um sucesso absoluto, ficou dez anos no ar na TV Tupi e nos tornou extremamente populares. Éramos

reconhecidos na rua. Dávamos autógrafos em

todo lugar.

Casei-me com a Eva, em novembro de 1955.

Devido à nossa fama com o Alô Doçura, a

cerimônia de casamento foi uma loucura, pois

todo mundo queria nos ver de perto. O público

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lotou a igreja Nossa Senhora do Carmo, no

Paraíso, desde as 9 horas da manhã. Às 10 horas, já estava cheia, muito antes da hora da

cerimônia, que era no final da tarde. Quando

nossos convidados começaram a chegar, pelas

4, 5 da tarde, não havia mais lugar. A maioria dos nossos amigos ficou do lado de fora.

O casamento, em compensação, mudava minha

perspectiva. Eu precisava sustentar uma família e naquele tempo, mesmo trabalhando em

cinema, teatro e televisão, não ganhava muito

dinheiro. Ser artista era quase uma aventura.

Ainda faltava meu capítulo final com a

advocacia. Fui para o Rio de Janeiro, trabalhar por uma indicação do meu pai, numa firma

alemã de marcas e patentes, a Dannemann

Siemsen. E continuava como podia as minhas

atividades de teatro e televisão, a Eva também fez teatro no Rio. Durou uns sete, oito meses

essa minha rotina de escritório, sempre dividida com a vida artística, que a essa altura eu sabia que era o que eu realmente queria, apesar das

dificuldades. Eu vivia nessa ida e volta entre o Rio e São Paulo, não agüentava mais. Então,

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falei com o dono da empresa, voltei para São

Paulo e ainda fiquei um tempo representando-

os por aqui. Não durou muito esse arranjo, até porque meu coração estava em outro lugar.

Larguei a advocacia, agora de uma vez por

todas. Meu pai se conformou, porque eu tinha

pelo menos tirado o diploma. Ele me dizia:

“Tudo bem, filho, sempre um dia você pode

voltar a ser advogado”. Mas isso nunca

aconteceu.

Na televisão, naquele tempo, além de tudo era

preciso ter fôlego. Todos os programas eram

feitos ao vivo, com duas ou três câmeras em

cena. O Alô Doçura mesmo foi produzido assim,

nos seis primeiros anos. A televisão nesse seu início era uma extensão do rádio, tudo diário, direto. Mesmo os atores vinham do rádio, caso

do Lima Duarte, do Walter Forster. Por conta

disso, trabalhava-se muito. Alô Doçura ia ao ar duas vezes por semana, às terças e quintas. Era transmitido às oito da noite, depois do jornal, que na época era o Mappin Movietone, e depois

de A Piada do Dia, que era sempre contada pelo Ribeiro Filho. A gente recebia o texto dois, três 50

dias antes, estudava, repassava de tarde,

ensaiava uma vez e de noite fazia tudo ao vivo.

Não podia errar. Quando dava um branco, o

único recurso era o contra-regra no set, que

ficava soprando o texto para a gente. Não existia teleprompter ainda. A Eva Wilma também era

especialista em colar pedacinhos de papel com

o texto escondidos pelo cenário, para ajudar

numa emergência. Se não dava certo, o remédio

era improvisar, ir em frente, porque aquilo não podia parar, eram 15 minutos ao vivo. Seis anos trabalhamos assim. Foi uma grande escola.

Depois, nos últimos quatro anos do programa,

já se podia gravar antes, ficou bem mais fácil.

Meus dois filhos mais velhos nasceram durante

a temporada do programa, a Vivien em 1956, o

Johninho em 1958. A Eva trabalhava até a

véspera do parto. Só que durante a gravidez as câmeras a enquadravam praticamente só em

primeiro plano, para não mostrar a barriga, que não fazia parte da história. E enquanto ela ficava fora, de licença, a gente colocava convidados.

Uma vez eu fiz o programa com a Yoná

Magalhães. Normalmente, a gente também re-

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cebia convidados que eram do elenco da própria Tupi: Walter Stuart, Elias Gleiser, Lolita

Rodrigues, o Ribeiro Filho (o mesmo de A Piada do Dia). Mas nós éramos os únicos fixos.

Na televisão, a gente tinha um contrato, que

permitia uma sobrevivência razoável. Ficamos

mais de vinte anos contratados pela Tupi, até

que a emissora acabou, em 1980. Mas era-se

obrigado a fazer teatro também. Cinema naque-

la altura não dava dinheiro nenhum. Os atores

não ganhavam quase nada, só os produtores. E

olha que naquele tempo o cinema era muito

mais popular do que a televisão. As chanchadas da Atlântida, do Oscarito e do Grande Otelo,

provocavam filas de dobrar quarteirão em

plena segunda-feira. O povão adorava aquilo.

Vivemos muitos anos, eu e a Eva, nessa vida

louca. Fazíamos televisão de dia, teatro de noite, e ainda cinema também, tinha filmagens até de

madrugada durante alguns dias da semana. Não

sei como dava tempo nem como a gente

encontrava energia para todas essas coisas

simultaneamente. Mas era assim mesmo a vida

de artista e a gente tinha paixão em tudo que

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fazia.

Só depois de Alô Doçura é que a gente passou a fazer novelas, que decolaram na nossa televisão no começo dos anos 1960. Eu e a Eva inaugura-mos o horário das 19h30 na Tupi, em dezembro

de 1964, com Prisioneiro de um Sonho. O texto

era do Roberto Freire, psicoterapeuta e drama-

turgo consagrado, com quem depois eu faria o

único filme que ele dirigiu, Cléo e Daniel (1970).

Na novela, a Eva fazia três papéis ao mesmo

tempo e havia ainda o charme de ter-se uma

música exclusiva para o programa, composta por ninguém menos do que Chico Buarque de

Hollanda. Na época, ele ainda não era conhe-

cido, era um garoto de 20 anos, muito tímido,

que andava pelos corredores da TV Record quase sempre de olhos baixos, praticamente sem falar com ninguém. Em 1966 é que ele se tornaria

famoso com a vitória de sua música A Banda,

no 2º Festival da Música Popular Brasileira da mesma Record.

A TV Tupi foi muito importante para promover

uma renovação fundamental nas telenovelas,

com Beto Rockfeller (1968/69), escrita pelo

53

Bráulio Pedroso e dirigida pelo Cassiano Gabus Mendes, na qual eu também participei. Foi essa novela que mudou mesmo radicalmente toda a

temática, a linguagem da novela brasileira.

Inclusive eu dirigi a segunda fase, A Volta de Beto Rockfeller (1973). Mas depois, em 1980, a TV Tupi acabou e todo mundo foi para a Globo.

A primeira novela que eu fiz lá foi Água Viva, do Gilberto Braga.

Engraçado como quando a gente começou a

fazer novela era tudo muito pudico. Não tinha

beijo fervoroso, não se podia mostrar nada.

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Hoje em dia, não. O pessoal está muito ousado.

Isto mudou muito. Não havia também essa

veneração moderna pelo galã de novela. Hoje

em dia as grandes emissoras têm que manter

até um departamento para receber as cartas que as fãs mandam para os atores.

Fazem até levantamentos, sabem quem recebe

mais cartas, há um serviço que envia fotos para os fãs, tudo organizado. Isto não existia no

começo da TV.

Dirigindo A Volta de Beto Rockfeller

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Capítulo IV

Sob o signo de galã no cinema

Não foi à toa que fiz 60 filmes – pode-se dizer que participei praticamente de todas as fases

do cinema brasileiro: chanchada, cangaço,

pornochanchada, cinema marginal. O cinema

sempre foi uma grande paixão para mim.

Lembro da primeira vez que meu pai me levou

para assistir a um filme. Eu era menino, tinha 55

meus 8 anos. Era lá no centro velho de São Paulo onde ficavam as melhores salas. Havia o UFA-Palace, um cinema chiquérrimo, projetado pelo

Rino Levi, com uma acústica fenomenal. É onde

fica hoje o Art Palácio, na Av. São João.

Havia também o cine Alhambra, na Rua Direita,

onde meu pai me levou pela primeira vez na

vida ao cinema, para assistir a um filme alemão sobre um navio de guerra que se chamava

Encouraçado Endem. Foi um espetáculo que me

impressionou muito, ficou sempre na minha

cabeça.

Tanto que, no colégio, quando eu fazia uma

dissertação – uma coisa que pediam muito para

os alunos na época – eu escrevia quase um

roteiro de cinema, contava uma história

procurando tornar visuais as coisas que eu

contava.

Depois veio a Cinemateca do MAM, onde eu

assistia a todos aqueles filmes que marcaram a minha geração, italianos, franceses, que depois a gente discutia ali mesmo ou na Pça. D. José

Gaspar. Era natural que um dia eu procurasse

fazer parte do meio cinematográfico. Eu

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consegui naquele momento em que a Vera Cruz

estava começando. Fiz meus dois primeiros

filmes lá. Fiquei feliz demais, tudo o que eu

queria na vida era entrar naquele reduto. A Vera Cruz era grande, séria, poderosa, tinha uma

ambição de se tornar a nossa Hollywood. Eles

tinham construído estúdios enormes e sofis-

ticados em São Bernardo do Campo, importado

técnicos e diretores da Europa. Uma coisa de

Primeiro Mundo. Não havia quem não quisesse

pertencer àquele círculo, era o máximo.

Meu primeiro filme foi em 1953, Uma Pulga na

Balança, uma comédia que marcou a estréia no

cinema do Luciano Salce, um diretor italiano que tinha vindo ao Brasil para trabalhar no TBC. No elenco, estavam também o Paulo Autran e a Lola Brah, que era uma russa que vinha do teatro

paulista e desenvolvera uma carreira sólida aqui, tinha se naturalizado e tudo. A voz da Lola era grossa, com um sotaque que a tornava muito

peculiar.

Logo depois eu fiz Floradas na Serra, uma

adaptação do famoso romance da Dinah Silveira

de Queiroz, com a Cacilda Becker e o Jardel

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Filho. Não poderia ter sido melhor meu começo

no cinema. Nós ficamos dois meses filmando em

Campos do Jordão. Na época, como eu estava

começando, ela me intimidava um pouco. A

Cacilda era excelente, uma grande dama do

teatro. Depois, ficamos muito amigos, uma

amizade que durou até o fim da vida dela, em