Johnny Alf: duas ou três coisas que você não sabe por João Carlos Rodrigues - Versão HTML

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Acervo pessoal

João Carlos Rodrigues

João Carlos Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro em 1949. É escritor, ocê não s

jornalista e pesquisador. Foi secretário de redação e editor da revista Filme Cultura (1981-83), e colaborador dos jornais Folha de S. Paulo, Crítica, Cine Imaginário, entre outros. Tem artigos publicados na as que v

França, Inglaterra, Espanha, Itália, Cuba e México. Exerceu também a profissão de roteirista de cinema (Rio Babilônia – 1981, de Neville ês cois

de Almeida) e TV (Programa Você Decide, TV Globo – 1996-98,

episódios Molambo de gente, Não é fácil ter dezoito anos e Ímpeto irresistível). Dirigiu e produziu o vídeo Punk Molotov (1984) e a série s ou tr

Cantoras do rádio (1985-88), com registros exclusivos das cantoras Dua

Emilinha Borba, Marlene, Carmen Costa, Isaura Garcia e Ademilde

Fonseca. É autor dos livros O negro brasileiro e o cinema (primeira edição 1988, segunda edição 2000, terceira edição 2012) e João

do Rio: uma biografia – 1996 (reeditado em 2012 com o título

João do Rio: vida, paixão e obra), para o qual recebeu uma Bolsa

Vitae de Literatura em 1993. Nesse mesmo ano editou ainda o

Catálogo bibliográfico de João do Rio 1900-1921. Preparou

Johnny Alf

edições anotadas desse autor para as editoras José Olympio e

Martins Fontes. Foi também produtor e diretor artístico dos CDs

Cult Alf – 1998 e Eu e a bossa – 1999, ambos com Johnny Alf

rodrigues

e seu trio, gravados ao vivo.

João Carlos

Johnny Alf João Carlos rodrigues

Duas ou três coisas que você não sabe

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Johnny AlfJoão Carlos rodrigues

Duas ou três coisas que você não sabe

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Johnny AlfJoão Carlos rodrigues

Duas ou três coisas que você não sabe

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Quem sou eu? / Curiosa charada...

Johnny Alf

Quando você trabalha na noite, o que mais atrai é a música, não é o trabalho.

Tocar no escuro, isso é que inebria você. Eu não faço as coisas planejando chegar a lugar nenhum. Para mim não existe ponto de chegada.

Só o caminho.

Johnny Alf

Johnny Alf não tem imagem. É um preto que canta sentado.

Durval Ferreira

O que se há de fazer?

Explicar que uma harmonização não tem pátria? Que um dó

de nona pode ser usado por mim, pelo Villa-Lobos, pelo Debussy,

pelo Luiz Gonzaga ou pelo Thelonius Monk sem que isso

interfira na nacionalidade da obra de cada um?

Johnny Alf

É o maior cantor que houve no Brasil. Não é um cantor de letras,

é um cantor de notas.

Ed Motta

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Introdução 09 Origens 11 Alfredo José vira Johnny Alf 17 Copacabana 23

As ondas do rádio 29 Primeiras gravações 32 Bar do Plaza 35

Pauliceia desvairada 36 Bossa Nova 41 Mais Pauliceia desvairada 45

A noite do amor, do sorriso e da flor 46 Primeiro LP – Rapaz de Bem (1961) 49

Carnegie Hall 51 Beco das Garrafas 53 O misterioso LP inédito 55

Terceiro LP – Diagonal (1964) 56 Quarto LP (1966) 60 Vida nova 62 Misticismo 65

Um belo e raro registro na televisão 66 Quinto LP – Ele é Johnny Alf (1971) 67

Sexto LP – Nós (1974) 68 Censurado 71 Músico freelancer 72

De volta à Pauliceia desvairada 74 Sétimo LP – Desbunde Total (1978) 75

Doze anos sem gravar 76 A arte de compor 78 Filho de Xangô 81 Saindo do buraco 84

Oitavo LP – Olhos Negros (1990) 85 Um disco inacabado 86 Nova fase 86 Lar doce lar 88

Uma anedota divertida 91 Curiosidades pessoais 93 Intimidades 95 Sete anos sem gravar 96

Nono LP – Noel Rosa Letra & Música (1997) 97 Décimo LP – As Sete Palavras de Cristo na Cruz (1998) 99

Dois vídeos inéditos e dois CDs ao vivo (1998/99) 100 Prêmio Shell 102 Doença 104

Outro disco inédito (2001) 105 Com Joyce Moreno no Japão 106 O disco japonês (2002) 107

Excursão europeia e discos na Alemanha 110 Cerimônia do adeus 111 O legado de Johnny Alf 114

Anexos 117 Discografia completa 128 Bibliografia e outras fontes de consulta 136

Depoimentos diretos ao autor do livro 139 Agradecimento especial 141 Crédito das fotografias 143

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INTRODUÇÃO

Escrever a biografia do Johnny Alf não foi fácil.

Apesar da sua importância, ele deixou poucas entrevistas, nenhum depoimento gravado nos Museus da Imagem e do Som do Rio e São Paulo (para que servem, então?) e, devido ao seu temperamento arredio, fez também poucas confissões, e era homem de pouca conversa. Eu o conheci nos últimos vinte anos de vida, já em paz consigo mesmo, mas nem sempre ele foi assim, tão tranquilo. Produzi e dirigi um vídeo sobre ele, que permanece inédito, mas originou dois CDs ao vivo lançados no final dos anos 1990, com boas críticas e péssimas vendas. Nunca perdi o contato e mantínhamos um ótimo relacionamento. Portanto, foi uma honra e um prazer ter sido indicado pelos seus herdeiros, Nelson Valencia e Vera Lúcia Coelho, amigos diletos, para escrever esta biografia.

O falecimento do Alf quando esse trabalho já estava começado, quase me fez desistir. Rememorei todas as nossas conversas, reli todas as anotações.

Mesmo assim restavam longos períodos quase sem nenhuma informação, ou com informações erradas, ou divergentes. Foi preciso sistematizar tudo antes de incorporar novo material, no que fui muito auxiliado pelas informações inéditas de José Domingos Raffaelli, pelas cartas pessoais dirigidas a Eduardo Caldeira e cedidas pelo próprio, pelas gravações raríssimas de suas conversas informais com o Simon Khoury, pelos casos contados por músicos e amigos da boemia, etc. Pouco a pouco, por detrás do cantor de vanguarda, do compositor pioneiro e do excelente pianista, foi surgindo um ser humano muito complexo, mas sempre fiel aos seus princípios, mesmo nos momentos de crise. Alguém que rompeu com os entes queridos por amor à música, que ajudou a modernizar, e viveu dela toda a vida, modestamente, sem receber tudo o que o seu talento merecia. “As flores em vida”, como diria o Nelson Cavaquinho.

O segredo mais bem guardado da música popular brasileira − ele já foi definido assim. Veja o que vai descobrir. Não vá me destruir o mito

recomendaram uns. É uma esfinge. Dali não sai nada − desaconselharam outros. Lembrei-me logo da frase bradada pela esfinge da mitologia para os que se atreviam a desafiá-la: Decifra-me ou te devoro. Tremi um pouco, 9

mas aceitei o desafio. Este livro tenta escapar dos lugares-comuns há tantas décadas repetidos sobre esse artista. Que foi um injustiçado. Passado pra trás. Um pobre coitado. Sem essa, minha gente. O verdadeiro Johnny Alf não foi nada disso, como veremos a seguir, nas suas próprias palavras.

Era um intelectual. Controlou todas as fases de seu destino, só fez o que quis, e nunca reclamou das consequências, algumas bem pouco agradáveis.

Este livro é uma colagem de entrevistas feitas por Alf em diversas mídias

− jornais, revistas, programas de rádio e TV, vídeos, gravações e conversas particulares − agrupadas por tema, em ordem cronológica. Para completar o panorama, depoimentos de terceiros e observações do autor surgem nos momentos em que o falecimento do biografado impossibilitou a continui-dade de informações essenciais.

Acredito não ter sido devorado pela esfinge, e que este livro vai contribuir bastante para os estudos desse cidadão interessantíssimo, artista tão inovador quanto formidável. São apenas duas ou três coisas que você ainda não sabe sobre ele, mas mudam tudo. E não destroem o mito. Pelo contrário.

Ele está mais vivo do que nunca.

João Carlos Rodrigues

RJ, janeiro/junho 2010

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Origens

No final dos anos 1920, Vila Isabel era um dos mais simpáticos bairros cariocas. Muitas casas, boa arborização, ruas tranquilas. População eclética, composta pelos operários das fábricas têxteis Progresso e Confiança, profissionais liberais da classe média e negociantes, alguns deles bastante abastados. O Rio de Janeiro fervilhava. A popularização do rádio possibilitava a divulgação da música popular carioca por todo Brasil. Dominava Sinhô, com os megassucessos Jura e Gosto que me Enrosco. Em 1929, quando começa nossa história, surgiu na Vila o Grupo dos Tangarás, formado, entre outros, por três compositores futuramente muito importantes: Braguinha, Almirante e Noel Rosa. Foi também o ano da primeira gravação de Carmen Miranda.

Meu nome é Alfredo José da Silva. Nasci no dia 19 de maio de

1929, na Pro Matre da Rua Camerino, no Centro do Rio. Pelo

menos assim dizem. Meu pai, Antonio José da Silva, morreu na

Revolução de 1932, quando eu ainda não tinha 3 anos. Era soldado

ou cabo, um negócio assim. Foi no Vale do Paraíba. Minha mãe,

Inês Marina da Conceição, se empregou de lavadeira numa casa

de família em Vila Isabel, na Rua Barão de São Francisco, quase

esquina da Teodoro da Silva. No início tinha tempos que a minha

mãe saía, morava fora, aí nós ficávamos com ela. Eu e meu irmão,

que era mais moço que eu uns dois anos. (Ele morreu em 1958,

do pulmão). Era daquelas casas grandes onde mora a família toda e quando morreu a avó, a pessoa mais alta, ela pediu a uma filha dela que tinha se casado que tomasse conta de mim, e foram eles que

me criaram, e me deram estudo. Fiz o primário na Escola Cruzeiro, na Rua Barão de Mesquita, 872, no Andaraí, ao lado da América

Fabril, bem pertinho de casa.

O dia em que Alf nasceu caiu num domingo. No zodíaco é signo de Touro, e no horóscopo chinês, Serpente. Nesse mesmo ano de 1929, nasceram também Hebe Camargo, Odete Lara, Fernanda Montenegro, John Herbert e Ronald Golias. Foi fundada a Estação Primeira de Mangueira. Leon Trotsky deixou a URSS rumo ao exílio. E Thomas Mann recebeu o Nobel de

Literatura. Os grandes filmes do ano foram A Caixa de Pandora, de Pabst;

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O boletim do Colégio Pedro II do ano de 1943 revela uma reprovação aos 14 anos e um erro na data de nascimento.

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Le Chien Andalou, de Luiz Buñuel e Salvador Dali; Hallelujah!, de King Vidor, e Queen Kelly, de Erich von Stroheim. Em outubro houve o crack da Bolsa de Nova York, falindo toda economia mundial e acirrando a grande crise do café.

No Brasil, foi o último ano da República Velha.

Em todas as suas entrevistas e conversas, quando se referia à sua família de criação, Alf sempre omitiu os nomes, sobrenomes e endereços. Também não falava da mãe, nem para os mais íntimos. Do irmão, uma única vez, numa gravação particular e inédita. Interpelado por mim uma vez sobre isso, que ia atrapalhar seus futuros biógrafos, ele deu uma risada e brincou que tinha feito uma promessa.

Esse pessoal que me criou, cada um tocava um instrumento,

mas não como profissional. Minha madrinha estudou piano e

violão; meu padrinho tocava cavaquinho muito bem, tentou tocar

pistom; outro padrinho não tocava instrumento, mas gostava muito

de música; minha tia tocava piano; outra tia tocava violino. Era um pessoal que curtia música para sarau, não por profissionalismo.

O fato de eles gostarem de música, fazerem aquelas festas em

casa, aniversários, tudo isso ajudou muito a minha percepção

musical desde bem cedo.

Quando eu era criança de sete, oito anos, eu já gostava de tocar

com dois dedos. Uma pessoa amiga da família, prima do rapaz que

casou com a minha madrinha, a professora Geni Borges, sentiu

que eu tinha ouvido e recomendou ao pessoal que eu estudasse.

Aí minha madrinha falou: “Se você passar pro Pedro II, eu ponho você estudando piano.” Eu era bom estudante, não ótimo, mas quando ela falou isso, eu engrenei para passar nesse concurso,

que era muito puxado, e passei em 13º lugar.

Já comecei a aprender por pauta. Só toquei de ouvido quando tinha seis pra sete anos, mas com nove já estava tendo aula. Eu estudei uns cinco ou seis anos. Teoria estudei uns quatro meses, sem piano.

Minha professora, vendo que eu tinha inclinação, me ensinou de um modo bem rigoroso, com ditados musicais. Quando eu resolvi ser

profissional, isso me valeu bastante na formação de um trio, para escrever arranjo, essas coisas. O que eu estudei de música clássica?

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Nos primeiros anos de piano a gente segue aquele ritmo de peças

tradicionais. Mais Chopin que Debussy. Gostava muito daquilo que

eu fazia. Em questão de música sempre fui muito caprichoso,

muito ligado, decorava os exercícios. Quando o pessoal lá de casa saía num domingo para visitar os parentes, eu trancava as janelas e ficava o dia inteiro ao piano.

Eu gostava muito de música erudita, e tem o fato de ter acompa-

nhado muito o rádio nessa época, que eu considero o tempo mais

precioso da música brasileira, e tive a vontade de botar no piano muita coisa que eu ouvia. A dona Geni não se importava que eu

tocasse música popular porque eu não relaxava nos clássicos,

então eu comprei a partitura de Nossa Comédia, do Custódio Mesquita. No rádio dessa época, 1938, tocava Dircinha Batista,

Carmen Miranda, Francisco Alves, Carlos Galhardo. Do Sílvio

Caldas eu me lembro bem de Velho Realejo, e de uma valsa linda, Kátia. Do Orlando Silva eu me lembro de Coqueiro Velho. Eu ouvia rádio o dia todo. A primeira música que me balançou foi Despedida de Mangueira, do Benedito Lacerda e Aldo Cabral. Eu tinha 11

anos. Aliás, eu gostava de tudo que o Francisco Alves cantava.

Ele e o Sílvio Caldas. Nas gravações do Francisco Alves, que

mesmo sendo um cantor popular, o Lírio Panicalli fazia coisas

lindas nos arranjos. Mais tarde, fiquei muito ligado no programa

Um Milhão de Melodias, do Radamés Gnatalli.

Mas voltando um pouco, eu passei no concurso e entrei no Pedro

II, com nove para dez anos, e lá fiz o ginásio e o científico. Nessa época, a rádio Cruzeiro do Sul começou a transmissão do hit

parade americano. Naquele tempo não havia essa facilidade de acesso ao jazz que existe hoje. Em casa só quem gostava disso era eu, nesse ponto uma pessoa sozinha. Só tive contato com o

jazz por intermédio de gravações. No princípio Lennie Tristano, Lee Konitz e Charlie Parker me impressionaram muito. Ouvia bastante

também Billy Bauer, Stan Keaton, Billie Holiday. Mas o principal foi o Nat King Cole, que eu ouvia muito quando era criança, o qual,

antes de ser cantor, tinha um trio instrumental.

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Desde criança eu já gostava de fazer minhas musiquinhas, fazia

coisas e guardava na minha cabeça, só para mim. Quando eu

tinha uns 14 anos formei um conjuntinho com os amigos da

vizinhança, das famílias Correia Trindade e Paiva Rio. Tinha um

que tocava pandeiro, uma garota que cantava, e nos fins de

semana tocávamos na Praça Sete, no Clube Andaraí. Nenhum

deles se profissionalizou. Mas foi aí que tudo começou.

Há informações de mais de uma fonte de que o jovem Alfredo, bom aluno, negro, gordo, pobre, tímido e de aparência gentil, foi alvo de implicâncias e chacotas por parte dos colegas de colégio, ficando marcado para sempre.

O nome do agressor principal (Hiraí) chegou aos nossos dias. Devido a isso, chegou a repetir a terceira série. É o que hoje se chama bullying. Seu refúgio era, além da música e da literatura, o cinema, diversões solitárias.

Em cinema eu sempre gostei demais de filme musical. Nesse

tempo estavam acontecendo os filmes de Busby Berkeley, As

Cavadoras de Ouro, as Goldiggers, e mais o Fred Astaire, a Ginger Rogers, e as músicas de George Gershwin, Jerome Kerr, Irving

Berlin. Filmes de Betty Grable, Carmen Miranda, Havana, esse troço todo. Eu viajava dentro dos filmes.

O meu lado de escapismo era no cinema. Eu tinha aquele negócio

de entrar na sessão das duas e ficar até as dez, ali eu me sentia parte do filme. Quando eu estava no ginasial, ali defronte do Pedro II tinha o cinema Primor, que levou Fantasia do Walt Disney, e eu vi o filme umas quatro ou cinco vezes, de tanto eu era ligado na

música clássica, gosto até hoje. O Branca de Neve eu acho que assisti semanas a fio. Depois vieram os musicais da Metro e eu

ficava horas dentro do cinema passando pra pauta as músicas de

Cole Porter, George Gershwin, Irving Berlin. Quando fui amadure-

cendo, entrei em contato com esses diretores mais fortes, Tarkovsky, Antonioni. Eu sou daqueles que adoram filmes de planos longos em

diálogo, eu fico ligadão. Porque eu acho que é o cotidiano da gente.

Eu não quero ir ao cinema só para me divertir, mas também para me analisar e me ver no que os diretores fazem. Mas a única vez que eu participei do cinema brasileiro foi quando a Derci fez A Baronesa 15

Transviada, e o Bill Farr, que trabalhava no filme, canta O que é Amar, com o mesmo arranjo que tinha gravado no disco. É um negócio bem encenado. Isso já foi em 1957, bem mais tarde.

Toda essa época, anos 1940, é muito mal estudada. Quase não

é mencionada, e é a que marcou a transição do que é tradicional

para o que foi a bossa, em que as duas coisas se engatam. As

músicas do Custódio Mesquita, por exemplo, embora escritas do

modo tradicional, já eram avançadas harmônica e melodicamente.

Você sente isso em Noturno, feita nos moldes atuais, em Rosa de Maio. Eu não sou muito partidário das letras do Evaldo Ruy, ele era meio cafona, compreende? O Evaldo suicidou-se, acho que

já carregava esse problema de baixo-astral da vida dele, e muitas letras refletem isso. Agora, o Custódio teve outros letristas muito bons. Foi numa música do Custódio, Velho Realejo, que eu tomei conhecimento pela primeira vez de um acorde dissonante. Na

hora, achei esquisito.

Eu acho que antes da Bossa Nova já tinha muita gente fazendo

bossa nova. Quando eu estudei piano eu me liguei muito nos

compositores pouco comerciais da música brasileira. O Valzinho,

autor de Doce Veneno; o José Maria de Abreu; o Bonfá; o Lírio Panicalli; o Radamés Gnatalli, que fez Amargura. Eu sou da opinião que ninguém inventa, todo mundo tem uma fonte.

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Alfredo José vira Johnny Alf

Antes de ser profissional, eu tocava no Instituto Brasil–Estados

Unidos (IBEU), ali na Rua México. Eu ainda estava no Pedro II. Eu conhecia um pouco da língua e muito da música americana, então

eles me convidaram para participar. Aprendi a parte gramatical no colégio, depois pegando as letras das músicas na Cena Muda, na coluna do Sílvio Túlio e do Ari Vasconcelos.

Tinha umas reuniões aos sábados, as conversation tea, onde só se podia conversar em inglês, era treino. Como meu nome é Alfredo,

um professor americano, com aquela mania que eles têm de abreviar tudo, me chamava de Alf. Eu tocava por amizade, e mesmo não sendo aluno do curso, participava de todos os shows. Ganhei até uma bolsa de estudos, mas não pude, porque tive de fazer o serviço militar.

Numa dessas exibições do IBEU na Rádio Ministério da Educação,

no programa de jazz do Paulo Santos, ele perguntou, na hora de apresentar os músicos: O nome do pianista é Alf de quê? E uma das alunas sugeriu: Põe Johnny, é um nome tão popular lá na minha terra.

Aí ficou Johnny Alf. Como eu tocava jazz, combinava com o nome, marcava bem. Mais tarde, quando gravei meu primeiro 78, de música brasileira, eu quis mudar, mas já estava conhecido e teve de ficar assim mesmo.

Terminei o científico com 17 anos. Aí a família me pôs trabalhando nos escritórios da Leopoldina Railways. Essa coisa de contabilidade. Mas fiquei pouco tempo. Eu queria ser músico profissional, queria tocar, e a família que me criou não queria. Também não queriam me deixar largar o emprego e servir o Exército, mas insisti e acabei indo pra Escola de Sargentos de Armas, em Realengo. Eu quis como abertura

de vida e realmente me valeu bastante. Eu já tinha o científico, então os oficiais sentiram que eu tinha certa estrutura, e eu fiquei como secretário deles, datilógrafo. Me deram certa liberdade de disciplina, era tratado quase como igual. O que aprendi de mais importante no quartel foi a independência e quando saí, com outra cabeça, decidi morar sozinho e arranjar um emprego de pianista.

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Foi nessa época que Alf contraiu tuberculose. Para alguns, isso aconteceu no Exército. Para outros, foi herança da mãe, que também teria contaminado seu irmão. Não há como hoje comprovar nenhuma das duas hipóteses.

Mas a doença, sim, foi seguramente verdadeira. Ruth Blanco, esposa do compositor Billy Blanco, lembra-se que ia visitá-lo doente, em companhia de seu então namorado Atanael da Fonseca, o Tatá, grande amigo de Alf.

E das precauções em não beber do mesmo copo, do cuidado em abraçar o doente, etc. E o jornalista José Domingos Raffaelli, também na época, soube, através de amigos comuns, da doença como adquirida durante o serviço militar. Alf nunca se referiu a isso, mas chegou a ter de parar momentaneamente de tocar piano, para não forçar a caixa torácica. Se as datas estão corretas, isso se passou no final de 1948, ou início de 1949.

Por causa disso, sua mãe pediu a outra família para a qual trabalhava que o abrigasse, pois onde moravam era muito úmido. Ele assim se mudou, pelo menos temporariamente, para a residência de seu amigo Luiz Paulo Coelho, na Rua São Francisco Xavier. Lá se curou, e não ficaram sequelas.

Pouco depois surgiu o Sinatra-Farney Fã-Clube que, apesar do nome pomposo e da importância que teve na modernização da música popular brasileira, era bem modesto. Na realidade, um porão do sobrado na Rua Moura Brito, 74, na Tijuca, transversal da Conde do Bonfim. Durou só 17 meses, de fevereiro de 1949 até julho de 1950, organizado pelas primas adolescentes Joca, Didi e Teresa Queiroz. As reuniões eram apenas nos finais de semana e havia uma grande preocupação da família em não incomodar os vizinhos com o barulho.

Participaram, entre outros, o saxofonista Paulo Moura, o acordeonista João Donato, o pianista Raul Mascarenhas, e o baterista Cyleno Dutra (o futuro Cyl Farney, galã das chanchadas, irmão de Dick). Há divergências de como Alf tomou conhecimento do fã-clube. Ruth Blanco tem a impressão de que ele chegou lá levado por seu amigo comum, Tatá. Mas Joca afirma ter certeza de que foi através do programa de Afonso Soares, na Rádio Guanabara.

Seja como for, José Domingos Raffaelli, que depois de conhecer casualmente o Alf num sebo de discos da Rua São José, no centro, em 1950, foi por ele convidado a comparecer, nos deu um interessante depoimento: Fiquei impressionado com a pequena multidão de jovens ouvindo discos de jazz e música popular americana, todos alegres e comunicativos. Na chegada de Alf percebi quanto ele era estimado por todos, sem exceção, e quando sentou ao piano para tocar algumas músicas, caí duro − o rapaz era um 18

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Com Joca numa apresentação do Sinatra-Farney Fã-Clube, 1949

gênio, sem dúvida. Depois de tocar uma ou duas horas, ele quis parar, mas não o deixaram sair do piano. Só parou quando ele insistiu que desejava apresentar-me ao pessoal, sendo eu amavelmente recebido por Billy Blanco, Tecla Peçanha, uma cantora amadora fantástica, Carlos Manga com o sobrinho Vítor, que mais tarde se tornou um grande baterista, e outros luminares.

Disse o radialista Ramalho Neto no seu livro Historinha do Desafinado: Os fã-clubes daquele tempo eram diferentes dos clubes de fanzocas de auditório que se seguiriam. Nas reuniões, os sócios ouviam discos, analisavam orquestrações, solos. Na sede do clube, instalado modestamente num porão, cedido pela mãe de uma das sócias, havia um velho piano e remendada 19

bateria. Ao piano Johnny Alf sentava-se frequentemente e nos surpreendia.

Eram diferentes aos nossos ouvidos suas composições. Aqueles acordes e harmonizações − sua música vinha de uma forma nova.

As novidades fonográficas americanas eram fornecidas pelo próprio Dick, pelo disc-jóquei Luis Serrano − que tinha um programa diário na Rádio Globo − ou compradas nas célebres Lojas Murray, no centro. Lá trabalhavam Jonas Silva e outros membros do conjunto vocal Garotos da Lua, mais lembrado hoje em dia pela meteórica participação de João Gilberto. Eram 78

rotações de Stan Keaton, King Cole Trio, Peggy Lee, Mel Tormé. Trata-se evidentemente uma invasão norte-americana. Mas é preciso lembrar que no final da década de 1940 os Estados Unidos ainda não tinham a fama imperialista e opressora que têm hoje. Pelo contrário. Aliado à URSS

comunista, o país acabava de derrotar as forças no nazifascismo na Europa e no Pacífico, e, de quebra, patrocinado a queda do Estado Novo, ditadura conservadora de Getúlio Vargas que já durava 15 anos sem convocar eleições.

América era então um sinônimo de liberdade. E também de novidade, com seus filmes tecnicolor e sua música moderna. A esperança da classe média mundial. É por não compreender esse momento histórico que muitos

críticos brasileiros ditos progressistas ainda condenam a renovação harmônica que nos conduziu à bossa nova.

Quando o Dick voltou dos Estados Unidos, o pessoal foi receber

no aeroporto. Eu não fui porque estava no Exército; então, só pude aparecer de noite. Foi quando nos conhecemos e ele, me vendo

tocar e cantar, gostou e achou que eu podia tentar a carreira. Mas eu ainda não tinha vontade de ser profissional na música. Tinha

estudado piano clássico, feito o ginásio e científico, curso de

inglês, francês, desenho, um pouco de pintura, e fiquei naquele

negócio de vai não vai.

O Dick nos mostrava as novidades musicais que chegavam da

América. Lembro de quando ele levou um disco da Sarah Vaughan

para a gente ouvir lá no clube. Ninguém acreditava nela, mas a

Cibele, mulher dele, dizia que um dia ela ia fazer muito sucesso, porque tinha certa impetuosidade no estilo para a época, que eu

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também tinha, além de ser muito ligado nessa coisa de passear

jazzisticamente nas melodias. Eu adorei a Sarah.

No Sinatra-Farney nós fazíamos uns shows em clubes pela cidade.

Fizemos um na AABB onde tomou parte a Iracema, que depois

virou Nora Ney. O diretor era o Carlos Manga, depois famoso

diretor de cinema. Tinha um rapaz que tocava violão nas reuniões

e na hora da gozação mostrava umas músicas engraçadas. Mais

tarde ele se casou com a Ruth Manga, e se tornou o Billy Blanco.

Eu saía do Exército e ia direto pro clube. O Dick também promovia umas reuniões na casa dele em Santa Tereza, depois na Urca. Nós

chegávamos às 10 horas da noite e ficávamos até as três, quatro

da madrugada, ouvindo música e cantando. Isso acontecia umas

duas vezes por semana. Depois eu emendava no Exército e a

família já achando ruim, porque eu perdia horas de sono.

Fafá Lemos foi a pessoa que me forçou a ser profissional. Ele me

viu no Sinatra-Farney e me convidou a tocar no Monte Carlo, uma

boate do Carlos Machado, me lembro que a atração era a Carmen

Brown. Fui lá e fiz um teste, e como não tinha desembaraço para

tocar em público, não fui aceito.

O César de Alencar precisava de um pianista para a cantina que

ele abriu na Rua Duvivier, em Copacabana. Fez um concurso no

programa dele, mas não conseguiu ninguém do jeito que ele

queria. Aí o Dick e a Nora falaram que conheciam um rapaz, etc.

e tal, e me levaram lá para fazer um teste. Eu comecei a tocar,

e na terceira música ele falou: Pode parar que já está contratado.

Ele me levou até no programa dele na Rádio Nacional, onde eu

cantei uma música americana, acho que foi Tea for Two.

Lá eu trabalhava direto, das nove da noite às seis da manhã.

Caymmi, Gilberto Milfont, Dick Farney, esse era o repertório que

eu fazia. A dificuldade maior foi me soltar no palco, pois eu vivia em casa, não estava acostumado. Fui educado daquele modo

tradicional, de modo que só conheci Copacabana quando comecei

a trabalhar, em 1952. Na hora de me apresentar eu ficava na

bronca, cheio de vergonha. Todo o pessoal da Nacional ia jantar

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na Cantina. Jornalistas, atores, cantores. Todo mundo ia. Na segun-da noite a cantora Marlene apareceu lá, e na hora de ir embora

me deu uma gorjeta. Eu botei no bolso sem olhar. Depois do show, quando eu fui jantar e puxei o dinheiro pra pagar, foi que eu vi.

Dava para sobreviver umas duas semanas. Assim eu vi que seria

possível viver da música.

Em casa não tinha dinheiro. Recebia algum para ir ao cinema e só.

Quando eu cheguei e disse que ia trabalhar à noite, o pessoal se

revoltou. Então sai de casa, negócio de música não dá. Queriam que eu fosse professor de inglês ou contador da Leopoldina.

Então eu fui morar sozinho, primeiro no Rio Comprido, depois em

Copacabana. Eu não me lembro qual era a moeda, mas eu pagava

o quarto, fazia miséria com o dinheiro e ainda sobrava. No início eu visitava a família, mas fui sentindo que à medida que meu

nome se firmava, eles me tratavam com ressentimento ou despeito,

não sei bem. Pensavam que eu ia dar com os burros n’água e

voltar pra casa. Como aconteceu o contrário, foram me deixando

de lado mesmo. E foi essa reação que me impulsionou ainda mais.

Eu me desliguei da minha família por causa de música, passei

por muita privação, e isso vale para você se tornar um artista

amadurecido. Se você tem um ideal certo, a privação vale como

uma base para a construção de uma espécie de alicerce. Se

você não tem, na primeira privação você tira o corpo fora e pede

arrego. Então eu me afastei e só voltei a vê-los 19 anos depois.

Acharam a princípio que eu tinha sido ingrato, mas não

foi isso, escolhi aquilo que estava dentro de mim. A gente sente

falta, mas o que vai fazer? Tive de sacrificar um lado para conseguir o outro. A despedida não foi numa boa. Isso influenciou

bastante minha obra e foi essa solidão que me deu a segurança

que eu tenho hoje. Já tive tempo de vacas magras, mas nunca

fiquei na pior mesmo. Talvez se eu tivesse ficado lá isso não

tivesse acontecido, pois a família ia ficar segurando a barra pra mim. Eu só faço aquilo que eu quero, sou eu quem paga minhas

contas e o aluguel no final do mês.

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Copacabana

O Rio vivia sua última década de esplendor ainda como capital da República.

Desde 1946, quando o marechal-presidente Eurico Dutra proibiu o jogo em todo território nacional, a vida noturna carioca passou por um grande processo de transformação, rumo à zona sul. Não é coincidência que o maior sucesso de Dick Farney se chame Copacabana, do Braguinha e Alberto Ribeiro, e Dorival Caymmi seja autor da também belíssima Sábado em Copacabana.

Proliferou em toda a cidade, mas principalmente nesse lindo bairro à beira-mar, um novo tipo de casa noturna, a boate, onde num ambiente geralmente de tamanho modesto, os casais podiam dançar e beber à meia-luz. Um samba satírico de Billy Blanco afirma que gafieira de gente bem é boate. Para animar o ambiente, música ao vivo, com pequeno conjunto e crooner. Existiam também os locais que podiam apresentar shows completos com coristas, cômicos, e cantores célebres, mas eram minoria. Isso possibilitou o emprego de muitos profissionais desempregados depois do fechamento dos cassinos, e também o surgimento de novos músicos. Johnny Alf foi um deles, mas não foi o único.

Quando vim trabalhar em Copacabana, morando sozinho, era um

deslumbramento só. Enchia a cara, ficava na rua até as tantas,

passei por essa fase também, de cair no mundo livre. A bebida me

deixava um pouco à parte dos problemas que eu tinha. Eu dormia na rua, encostava de lado e dormia encostado em alguma coisa, como

qualquer pessoa que bebe. Bebia muito por causa da questão

da família, ficar afastado do pessoal, isso me marcou muito, eu

ter sido criado por eles, e depois ter de me afastar por causa

da profissão. Fiquei muito magoado por não ser compreendido.

Resolvi ir em frente e fui, me reconstruindo, enfrentando os

obstáculos de frente. Daí nasceu o Rapaz de Bem.

Quem ficou minha amiga foi a Dolores Duran, porque quando

eu comecei na Cantina ela estava numa boate perto e quando

terminava o trabalho dela, que era mais cedo que o meu, ela

passava lá e cantava comigo, eu acompanhava. Eu, ela e o Tom

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costumávamos esticar depois das cinco da manhã na casa de um

que tivesse piano, e, numa dessas vezes, na casa dele, eu ouvi

Praias Desertas pela primeira vez, ainda inédita. Lá também eu

vi a Dolores fazer na hora a letra de Estrada do Sol. Ela tinha muita facilidade, e não demonstrava na pessoa dela a cultura que ela

tinha. Por Causa de Você o Tom tinha feito a melodia e o Vinícius fez uma letra, aí ela fez outra em cima, e foi a dela que prevaleceu.

O João Gilberto eu conheci em 1952, quando chegou ao Rio. Eu

trabalhava na Cantina, e ele se juntou à nossa turma. A Dolores

e a Dora Lopes cantavam no Acapulco e depois iam lá pra Cantina,

e depois que eu terminava íamos jantar e ver o dia amanhecer.

Todo santo dia. O Donato também apareceu nessa época. Tinha

uma loja lá na cidade, as lojas Murray, onde trabalhavam alguns

dos Garotos da Lua, a gente sempre ia ouvir discos e foi lá que

eu conheci o João Donato.

Saíamos eu, o João Gilberto, o Donato e a Dolores fazendo vocal

às cinco horas da manhã pela Avenida Copacabana. A nossa

curtição era essa.

Acho que eu misturei tudo isso na minha cabeça, a música brasileira, as canções americanas, o jazz, mais os filmes musicais que eu

assistia, e saiu alguma coisa. Minha música é difícil. É que eu

tenho uma escala modulada, que não é bem aceita pelas grava-

doras. Modulada é a música que tem vários tons, uma frase num

tom, outra em outro tom. Irregular. O Vítor Freire ia sempre à

Cantina. Por causa dele é que eu comecei a cantar as minhas

músicas. Ele pedia sempre: toque esta, toque aquela. Fazia tal

balbúrdia que eu era obrigado a tocar, não tinha saída. Com isso, fui me desencabulando. E aí o pessoal foi gostando.

Vítor Freire, militar e compositor carioca, foi muito importante para Alf nesse início de carreira. Deixou depoimento sobre isso no fascículo sobre Alf da História da MPB: Eu o conheci em 1952, quando fazia uma de minhas peregrinações noturnas pelos bares de Copacabana. Na calada da madrugada aquele piano diferente, moderno, contrastando com tudo o que 24

normalmente se ouvia na época. Lá estava um rapaz simples, modesto, de 21 anos, cativando os frequentadores da casa − sempre cheia ao raiar da madrugada − com sua voz original, apresentando um excelente repertório de músicas americanas. Mal sabia eu que ali estava o precursor da música moderna brasileira. Com o tempo, nossa afinidade musical nos aproximou, e convidei-o para conhecer minha família. E foi na Rua Rainha Guilhermina, no Leblon, no dia 7 de setembro de 1952, que Johnny Alf teve o primeiro contato conosco. Encontrou ele no ambiente da minha casa o que realmente lhe faltava − carinho, compreensão e apoio material e espiritual. Foi no meu piano Brasil onde compôs grande parte da sua bagagem musical, inclusive a magistral Céu e Mar . Quando o conheci já havia feito Rapaz de Bem , O que é Amar e Podem Falar.

Rapaz de Bem eu fiz em 1951, 1952. O pessoal ouvia e gostava, dizia que era samba moderno, mas eu não tinha consciência, era

intuitivo. Na época que eu fiz a música estava bem despreocupado, começando a curtir a vida como jovem, pois tendo sido educado

naquela rigidez, quando comecei a ser músico eu descobri o

mundo. Talvez eu tenha feito como uma apologia da liberdade

que eu estava sentindo.

Você bem sabe eu sou rapaz de bem

E a minha onda é do vai e vem

Pois com as pessoas que eu bem tratar

Eu qualquer dia eu posso me arrumar

Vê se mora no meu preparo intelectual

É o trabalho a pior moral

Não sendo a minha apresentação

E o meu dinheiro só de arrumação

Eu tenho casa, tenho comida,

Não passo fome, graças a Deus

E no esporte eu sou de morte

Tendo isso tudo eu não preciso de mais nada, é claro

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Se a luz do sol vem me trazer calor

E a luz da lua vem trazer amor

Tudo de graça a natureza dá

Pra que qu’eu quero trabalhar?

O pioneirismo de Rapaz de Bem logo se tornou evidente. Segundo o jornalista e produtor Nelson Motta, que só a conheceu dez anos depois, não só a melodia e a harmonia, mas também a letra de Rapaz de Bem era um espanto.

Aquela história de a minha onda é do vai e vem , e ainda com o Johnny cantando provocava muitos comentários. Você ouve a gravação do Carlinhos Lyra, toda comportada, discreta, insegura, e depois ouve a exuberância do Johnny, e aí a música aparece. João Gilberto adorava, muita gente o ouviu cantar na época, não sei se chegou a cantar em shows.

Para Alexis Bittencourt, guitarrista do último trio de Alf, e que estudou sua obra para sua dissertação de mestrado na Universidade Estadual de Campinas, a canção trouxe inovações harmônicas, melódicas, estruturais e temáticas que a fizeram ser considerada como a precursora do movimento bossa-nova. A letra fala de um rapaz de bem com a vida por ser bem situado financeiramente e não precisar trabalhar, querendo apenas curtir a vida, antecipando o conteúdo sol e mar, típico da poesia bossa-novista. A melodia é linear, não possuindo refrão, outra característica deste futuro estilo, e utiliza, de forma ostensiva, as tensões dos acordes (nona no acorde de tônica, quarta aumentada já no segundo acorde, quarta em acordes menores, etc.), antecipando uma tendência aproveitada futuramente por clássicos como Garota de Ipanema (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), ou Barquinho (Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli). A harmonia contém modulações não convencionais para a época − para o sexto e terceiro grau maior (a música é em F maior, portanto modula para D maior e A maior) −, mas que estão presentes em uma das canções mais conhecidas e representati-vas da bossa nova: Desafinado (Tom Jobim/Newton Mendonça), deixando claro que qualquer semelhança não é mera coincidência.

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Fiz O que é Amar na casa do Vítor Freire. Eu não tinha piano e nos fins de semana ia para a casa dele tocar. Me concentrava, porque

estava com aqueles problemas de casa que me botavam na fossa.

Eu bebia muito, e quando a gente está numa dessas fases e senta

no piano, logo sai alguma coisa. Veio letra e música, tudo junto.

É só olhar

Depois sorrir

Depois gostar

Você olhou

Depois sorriu

Me fez gostar

Quis controlar meu coração

Mas foi tão grande a emoção

De tua boca ouvir dizer:

Quero você

Quis responder

Quis te abraçar

Tudo falhou

Porém você me segurou

E me beijou

Agora eu posso argumentar

Se perguntarem o que é amar

É só olhar

Depois sorrir

Depois gostar.

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Outra que mostra bastante o meu momento de desabafo é Podem

Falar. É uma resposta a muita coisa que eu estava sentindo, não sabia extravasar e virou música.

Podem falar

Que não vou me incomodar nem mudar

Por dizerem que a vaidade me põe a perder

Podem falar

Tudo é você que o resto do mundo ignora

Tudo é você murmurando baixinho pra mim

Vem agora

Podem falar

E até menosprezar os meus atos

Mas uma paixão por um par de amizades

Não vou trocar

Podem falar.

José Domingos Raffaelli relata que, por volta de 1950, aos sábados à tarde, na casa do Luiz Paulo Ribeiro, na Rua São Francisco Xavier, onde Alf morava, costumávamos ouvir discos de jazz na companhia de outros amigos. Numa dessas audições, levei um LP de 10 do trompetista Red Rodney gravado para o selo Imperial. A segunda faixa era a famosa Valsa de um Minuto de Chopin, devidamente jazzificada. Quando começou a terceira faixa (não lembro o título do tema), um dos presentes comentou: Isso dá samba, ao que imediatamente Alf retrucou: Essa não dá, mas a anterior, sim. Foi então que alguém lhe disse: Então eu quero ver se dá mesmo samba! Alf não se fez de rogado e imediatamente sentou no piano (havia um no enorme salão da casa de Luiz Paulo) e começou a dedilhar em busca das suas ideias. Depois de 15 ou 20 minutos, tinha tudo pronto, melodia, harmonia e letra, nascendo a obra-prima Seu Chopin, Desculpe...

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Nas ondas do rádio

Foi o Vítor Freire quem levou a Mary Gonçalves lá na Cantina. Ela tinha sido eleita Rainha do Rádio e ia gravar um disco. Foi o Convite ao Romance, na Sinter. Marcamos um encontro na Rádio Mundial, mostrei a ela as minhas músicas e ela gravou logo quatro. O que é Amar, Podem Falar, Escuta e Estamos Sós.

Quando saiu o disco, o Claribalte Passos, que era crítico, escreveu: Esse disco só vai agradar à própria Mary, e tem um rapaz lá, um tal de Alf, que fez umas musiquinhas que são as melhores coisas do disco. Ainda bem que ele livrou a minha cara.

Mary Gonçalves despontou no início dos anos 1950 como cantora e atriz.

Apareceu em dez filmes, com maior destaque em O Petróleo é Nosso, de Watson Macedo, onde faz a moça rica, antagonista da heroína no amor do galã. Foi eleita Rainha do Rádio em 1952. Seu estilo era discreto, algo entre Dóris Monteiro e Isaura Garcia. Convite ao Romance tem um bom repertório, mas os arranjos de Lírio Panicalli são muito melodramáticos, o piano de Alf está inaudível, e a cantora é dura, não tem sincopado. Funcionava melhor como atriz. Apesar das boas intenções, não aconteceu. Mary logo abandonou a carreira, casou com um milionário estrangeiro e mudou-se para o exterior.

Mas seu disco impulsionou a carreira de Alf, que a acompanhava nas rádios, nas boates e até fora do Rio. Fazia o mesmo com Nora Ney, que tinha um programa na Rádio Tupi. Ele mesmo chegou, por um curto período, a ter um programa só dele. Foi lá que Alaíde Costa, sua intérprete favorita, o viu pela primeira vez. Diz ela: Eu comecei em concurso de calouros, mas sempre gostei de umas músicas diferentes. Noturno em Tempo de Samba , do Custódio Mesquita, umas coisas assim, moderninhas. Em 1952, na Rádio Clube do Brasil, o Johnny tinha um programa só dele. Era nas quartas-feiras, e durou bem pouco. Eu fui ensaiar e de repente eu ouvi um som diferente, entrei e fiquei assistindo. Nessa época ele já tinha o Escuta, O que é Amar .

Paulo Moura recorda de uma participação de Alf no programa Um Milhão de Melodias, que descreve como excepcional.

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Também José Domingos Raffaelli tem o que acrescentar: Conheci Ramalho Neto quando ele era vendedor de discos numa lojinha na Galeria Menescal, em Copacabana, por volta de 1949, muito antes de ele sonhar em ser produtor na RCA ou diretor na Continental. Mais adiante, acho que em 1950, certo dia ele me perguntou se eu conhecia Johnny Alf, o que me surpreen-deu. Disse que precisava falar com ele porque começara um programa na Rádio Guanabara e queria que Alf fosse entrevistado e tocasse lá. Assim foi feito e coloquei-os em contato.

Da Cantina fui novamente convidado pelo Fafá Lemos para tocar

no Monte Carlo, lá no alto da Gávea, onde fiquei uns quatro ou

cinco meses. Era a boate do Carlos Machado onde eu tinha sido

recusado no meu primeiro teste. De lá fui para o Mandarim, onde

revezei com o Newton Mendonça durante sete ou oito meses.

Essa era uma casa de viração. Um inferninho da pesada. Só piano

e bateria. Depois fui para o Clube da Chave, no Posto 6, que o

Humberto Teixeira tinha aberto em 1953 ou 1954. Eu era contrata-

do, tipo garoto da casa. Fui então chamado pelo Djalma Ferreira

para o Hotel Plaza, onde me revezava no piano do conjunto dele.

Os crooners eram o Miltinho e a Helena de Lima. Era uma época que se tocava muito baião, e no Plaza um rapaz amigo nosso, não

lembro se foi o Zé Carlos, pediu: Será que você pode fazer um baião? Então eu fiz o Céu e Mar. O pessoal reclamou um pouco, achou esquisito, mas, pra mim, é baião. Baião moderno, mas

baião. De lá fui para o Club de Paris, mais tarde Baccarat, no Beco das Garrafas. Depois para o Studio do Théo (Theófilo de Vasconcelos), no Posto 6, onde toquei com o Ribamar e o irmão dele, Esdras.

Dali fui de novo chamado pelo Djalma Ferreira, já no Drink. Nesse conjunto tinha o Bola Sete e a Dora Lopes. Foi quando eu senti

que estava fazendo meu nome.

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Primeiras gravações

Eu tive a oportunidade de conhecer o Ramalho Neto quando ele

ainda era radialista e tinha um programa na Rádio Guanabara.

Ele sempre acreditou muito em mim e quando foi trabalhar na

gravadora Sinter me chamou pra gravar um 78 rotações só

instrumental, com Falseta e De Cigarro em Cigarro, do Bonfá, com Vidal no baixo e Garoto no violão. Sem bateria, um trio de

formação pouco comum naquela época. Foi em 1953. Por eu ser

amigo dele, protegido, é que eu sempre consegui fazer o que

eu queria nos meus discos. O primeiro disco que eu fiz cantado,

no ano seguinte, houve pessoas que não sentiram, não enten-

deram, reclamavam. Houve certa recusa. O público foi bem

mínimo, diferentemente das boates

Dificilmente naquele tempo uma música que tivesse certas

mudanças harmônicas e certas imagens de letras seria aceita.

Acho que foi justamente pelo fato de eu tocar o piano sem

marcar o ritmo, só as mudanças harmônicas, às vezes o piano