Johnny Alf: duas ou três coisas que você não sabe por João Carlos Rodrigues - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

trabalhava de modo sincopado. Isso é que talvez tenha dado

uma diferença no tipo de música que eu passei a fazer.

O pesquisador Jorge Carvalho de Mello é quem melhor analisou essas primeiras gravações, em seu blogue na Internet. Seu primeiro disco foi lançado pela Sinter em setembro de 1953. Percebe-se nele a seguinte formação: piano, contrabaixo e violão. Em muitos textos, encontramos Alf no piano (claro!), Vidal no contrabaixo e Garoto no violão. Ouvi essas gravações inúmeras vezes, sem reconhecer naquele violão a sonoridade característica de Garoto , e confesso que fiquei incomodado com isso.

Senti um grande alívio quando, no setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional, encontrei na revista Carioca , edição de julho de 1953, o seguinte informe assinado por Daniel Taylor: ... a Sinter acaba de contratar Alf, uma grande revelação como pianista e compositor. Seu trio está formado de piano (Alf), Kid (violão) e Vidal (contrabaixo).

32

index-34_1.jpg

Gravando em 1953 o primeiro 78 RPM

33

No seu segundo disco Johnny Alf estreia como cantor, sem, contudo, abandonar o piano. Os arranjos foram feitos por Lírio Panicalli para violinos, viola, cello e harpa. Com o piano de Alf estavam Nestor Campos (guitarra), Vidal (contrabaixo), Manoel Dias (bateria) e Gaúcho no acordeom. O crítico Jayme Negreiros assim se manifestou na coluna Discos, em O Jornal de 21/09/54: ... mais moderna interpretação posta em disco brasileiro até hoje, de um cantor nosso. O rapaz é artista mesmo, sente modernamente a música, conhece o piano, sua arte logo se espalha, o que ele faz com as frases é de uma naturalidade e de um jogo espontâneo tremendos. Nesse disco lançado pela Sinter, Alf interpreta dois sambas-canção: Dizem por Aí, de Haroldo Eiras e Vítor Berbara, e Beija-me Mais, de Amaury Rodrigues.”

O fracasso foi reconhecido pelo próprio produtor, Ramalho Neto em seu livro pioneiro Historinha do desafinado: O resultado não era muito animador para as vendas da companhia. Com toda boa vontade demonstrada pelos diretores da gravadora, somos gratos, e compreendemos, naquela ocasião, o receio de novas tentativas. Muitas vezes nos desculpamos com Alf por seus insucessos fonográficos. A culpa não era dele, que preferia continuar com sua arte restrita a um grupo que frequentava os lugares onde se apresentava. Preferia continuar fechado. A culpa era nossa. Em 1953 lançamos Alf com muita antecipação.

Talvez sejamos nós, como já dissemos, culpados pela insistência em lançá-lo em ocasiões inoportunas.

Parcela dessa culpa cabe também ao próprio temperamento de Alf, tímido, modesto, quase humilde, que, por força de suas inclinações artísticas, é obrigado a fazer parte de um meio cuja maior força propulsora é a vaidade.

Como bom sonhador, poeta, nunca procurou seus interesses. Jamais discutiu condições, nunca se preocupou com a porcentagem que receberia numa gravação ou com o preço de uma apresentação num clube ou casa noturna. Seu mundo é hoje, o amanhã é o amanhã, muito longe, bem distante.

Jamais, nesses anos todos em que estamos trabalhando na indústria do disco, Alf nos pediu uma nota no jornal, a execução mais frequente de seus discos nas emissoras, ou uma apresentação na televisão. É de seu feitio.

Só sabe de sua arte, de sua sensibilidade. Não espera nada em troca, a não ser sentir-se feliz, realizado, satisfeito consigo mesmo.

34

Bar do Plaza

A segunda vez que toquei no Plaza já foi na categoria de atração. A dona do hotel deu o barzinho para o seu genro, que era meu conhecido e quis usar o bar como ambiente de música. Eu tocava em trio com o Paulo Nei na guitarra e o Barbosa no baixo. E o pessoal todo que apareceu depois

− Menescal, Luiz Eça, Carlinhos Lyra, Silvinha Telles, Maurício Einhorn, Durval Ferreira − ia lá me ver. Todos eram amadores. A maioria era menor de idade, e volta e meia tinha blitz do Juizado de Menores. Combinamos com o porteiro que quando chegasse o carro da polícia, ele fazia um sinal e aí a turma se escondia no banheiro. Então havia aquele bate-papo e a coisa começou a crescer, a futura bossa nova.

No Plaza eu tocava músicas americanas, minhas músicas e as brasileiras que tivessem esse estilo, Nem Eu, Uma Loura. Nesse tempo todo mundo estava naquela de George Shearing, acho que todos sabiam de cor a gravação de Conception. Havia também um pouco de Charlie Parker, Lee Konitz, Lennie Tristano, Billy Bauer e Stan Keaton, que era o ídolo dos ídolos. O pessoal do Plaza procurava copiar as gravações americanas, os improvisos, tudo. Estavam calcados mesmo naquela

harmonia. Não que eles quisessem copiar, mas ela respondia ao que eles sentiam dentro, compreende? Depois aos poucos eles foram

criando por si mesmos.

Lembro que em 1954, quando tocava na boate do Hotel Plaza,

encontrava o Tom Jobim, que tocava do outro lado da rua, no Tudo Azul.

No meu intervalo ia correndo pra lá, e no dele ele vinha me ouvir. A gente tinha uma afinidade muito grande. Foi quando ele lançou Outra Vez, com o Dick. Me lembro dele, bem mais tarde, me mostrando Desafinado e dizendo, com aquele jeito dele, que tinha se inspirado em Rapaz de Bem.

Fiquei no Bar do Plaza de outubro de 1954 a abril de 1955. Saí porque o Heraldo do Monte foi me procurar no Rio para inaugurar a Baiúca em São Paulo. Fui sem nem avisar o dono. Estava meio perdido,

naquela fase em que se passa de rapaz para homem maduro, de

responsabilidades. Eu enchia a cara, acordava naquela ressaca. Era o rei de chegar atrasado. Em parte, eu também me radiquei em São

Paulo pra me livrar do trauma familiar.

35

Pauliceia des vairada

Vim para São Paulo, onde fiquei. Eu estranhei foi o frio, foi um ano que fez muito frio. Depois de dois meses o dono perguntou se eu

queria voltar pro Rio, mas eu resolvi ficar. Depois de um ano de

contrato surgiram vários outros e fui ficando por lá. Fiz a Baiúca três ou quatro vezes. O Michel, com o Booker Pittman, duas ou

três vezes. Cave duas ou três vezes também, After Dark, Golden

Hall, Club de Paris.

Segundo Zuza Homem de Mello, crítico musical em artigo de janeiro de 2006 na Folha de São Paulo, quando veio inaugurar a Baiúca em seu primeiro endereço e depois tocar no Cave, em São Paulo, Johnny Alf representava o sonho de jovens paulistanos identificados com a música de Tito Madi, Dolores Duran, Lúcio Alves, Dick Farney, Os Cariocas e, sobretudo, com a Sinfonia do Rio de Janeiro, de Billy Blanco em parceria com um desconhecido de nome Antônio Carlos Jobim. Os paulistas receberam de braços abertos e ouvidos atentos aquele pianista arredio e de fala mansa, o artista que já era lenda no meio. Poder ouvir o piano, a voz e as músicas de Johnny Alf era o máximo para músicos amadores e profissionais que frequentavam os bares do centro paulistano. Ficava-se deslumbrado ouvindo atentamente sua maneira de mostrar uma canção, seu piano desvinculado do contrabaixo em acordes esparsos, que mais cercavam do que sustentavam seu canto leve.

Suas composições nada tinham em comum com o que se ouvia no rádio, eram sutilmente cativantes para os ouvidos mais exigentes.

Ainda Zuza, agora em artigo de janeiro de 2000 na Zero Hora: Despretensioso, Johnny chegava mansamente com uma pilha de partituras postas sobre a estante antes de cada entrada. Sem nenhuma pressa sentava-se, folheava as páginas e parava na canção de abertura, uma parte contendo cifras sob a linha melódica em vez de, como era habitual, acordes especificando cada nota. Ajeitava o microfone e, completamente imerso na sua apresentação, dedicava-se compe-netrado a cada canção, recebendo os aplausos ao final com um sorriso discreto.

Não era de falar, era de cantar e tocar. Levantava-se discretamente sob aplausos intensos da turma jovem. Cada noite era uma aula de leveza e de bom gosto.

36

index-38_1.jpg

37

Não era jazz, não era música americana, não era samba batucado, era aquilo que se tinha vontade de ouvir e não existia.

Depois do trabalho todo mundo se encontrava lá na São João, no Popeye.

Pedrinho Mattar, dominando no jazz. Cauby Peixoto e os irmãos dele, Moacir e Araken, também jazzistas. Ganhei uma desenvoltura enorme em São Paulo, encontrei pessoas maravilhosas como Alaíde Costa, Claudette Soares, Paulo Cotrim, Wesley Duke Lee, Odete Lara. E tinha o teatro, as galerias, os cinemas.

Eu era livre e independente. Quando eu vinha ao Rio, achava tudo muito devagar.

Outra boa fonte é César Camargo Mariano em entrevista ao programa Supertônica da Rádio Cultura de São Paulo, disponível no site da emissora com o título Confissões de Johnny Alf.

Meus pais também gostavam muito de música e a nossa casa na Vila Mariana, em São Paulo, vivia cheia. Eu tinha 11 anos e já estudava piano. Um desses músicos que frequentavam nossa casa, o Sabá, nos disse que tocava contrabaixo com Johnny em uma boate chamada Golden Ball e que gostaria de trazê-lo para nos conhecer. Assim, num sábado, ele veio e passou a tarde conosco. No dia seguinte de manhã, domingo, tocou a campainha. Eu falei:

‘Mãe, o Johnny Alf taí, acho que ele esqueceu alguma coisa.’ Dois táxis pretos parados. Ele sozinho. Meu pai chegou: ‘Esqueceu alguma coisa?’

E ele: ‘Não, vim morar aqui, gostei demais dessa família.”

“Morou conosco quase nove anos. Virou nosso irmãozão e filho mais velho da minha mãe. Aí aconteceu de tudo na minha vida. O segundo táxi em que ele veio, por exemplo, só tinha livros e discos, e depois ele trouxe mais ainda e jogou dentro da nossa casa. Tudo sobre cinema, tudo sobre música clássica, tudo sobre tudo. Então foi o dia inteiro durante nove anos só falando nisso. A única coisa em que ele insistia era para que eu e meus irmãos fôssemos à escola.

Conferia as nossas lições direitinho, depois íamos lá pra sala falar de música.”

Durante este período ele compôs muito. Quase todos os dias, duas ou três músicas completas. Letra e música. Era uma pessoa muito tímida, calada, mas muito crítica e severa com sua arte. Um perfeccionista. Quando acabava de compor e escrever uma canção gostava que minha mãe e eu ouvíssemos e opinássemos. Apesar de sempre gostarmos de tudo que ele compunha, muitas 38

index-40_1.jpg

vezes ele não concordava e jogava fora as partituras. Minha mãe, sem que ele visse, as pegava de volta do lixo, passava a ferro, colava as rasgadas e guardava.”

Ainda César, em www.músicasdobrasil:umaenciclopédiainstrumental.com.br: Johnny “me influenciou profundamente, desde a postura diante da arte e da profissão até a percepção das cores e das formas das harmonias, da importância das instrumentações, das combinações de sons entre os instrumentos, enfim, de como ouvir e sentir música. Pude observá-lo compondo, tocando, escrevendo músicas e letras, errando, acertando, cantando, ouvindo, assistindo a filmes e peças de teatro, lendo livros.”

Isto se deu entre 1955 e 1962. Durante esse período, Johnny, que ainda bebia muito, teve uma cirrose hepática, curada depois de longo tratamento e muita dedicação da família Camargo Mariano. Mal ou bem ele tinha novamente uma família. Mas não por muito tempo.

39

index-41_1.jpg

40

Bossa Nova

Em 1959 saiu no Rio, pela Odeon, o LP Chega de Saudade, cantado por João Gilberto, arranjado por Tom Jobim, e produzido por Aloísio de Oliveira, considerado por quase todo mundo o marco inicial da Bossa Nova. A música brasileira nunca mais foi a mesma. Mas há quem discorde dessa primazia.

Para José Domingos Raffaelli, Johnny Alf é o precursor, o pai espiritual da Bossa Nova. Todos iam escutá-lo no Plaza, na Princesa Isabel. Até Tom Jobim, quando ouviu Alf e suas improvisações, pediu para ter uma aula.

Anos depois brinquei com Johnny: ... você foi ensinar o caminho das pedras ao Tom e deu nisso, ele faz esse sucesso todo graças a você. Não esqueçamos que diz a lenda que Tom só se referia a ele como genialf. Segundo Sérgio Cabral, jornalista e crítico musical: Johnny Alf foi o mais radical. Tão radical que chamou a atenção dos demais, pelo menos no pequeno mundo dos engajados no processo de modernização da nossa música.

O produtor e radialista de São Paulo, Walter Silva (Pica-Pau) vai mais além.

Conta que certa vez, quando assistia ao pianista, cantor e compositor Johnny Alf, Agostinho dos Santos ficou entusiasmado com a maneira do Johnny dividir o ritmo dos sambas que cantava no Lancaster. Aprendeu e levou ao João Gilberto, como bem pode testemunhar o maestro Waldemiro Lemke. João ficou impressionado e disse ter achado o que tanto procurava, a divisão rítmica que lembrasse apenas o tamborim, sem o pedal do surdo.

Isso aconteceu durante a gravação dos compactos da trilha de Orfeu Negro

na Odeon. Bem, essa gravação foi em junho de 1959, na Odeon. É anterior ao LP de João Gilberto, mas posterior aos dois 78 rotações gravados anteriormente por ele em 1958, onde estavam as emblemáticas Chega de Saudade e Desafinado, e que já eram Bossa Nova.

Acontece que Johnny tinha gravado Rapaz de Bem dois anos antes. A música é de 1953 e basta escutar para verificar que também já era Bossa Nova.

Jorge Carvalho de Mello comenta no site www.sovacodecobra.uol.com.br:

A bolacha traz Rapaz de Bem e O Tempo e o Vento, ambas de sua autoria.

Na primeira, Alf está à frente de um trio e revela algo inteiramente novo naquela época: um samba com acompanhamento no estilo jazzístico !

41

A mudança se dá no modo de acompanhar, sem fazer uma ostensiva marcação rítmica, e sim fazendo os acordes como que cercando o solista.

O mais importante é notar que o samba não deixou de ser samba por isso.

Ao invés de subtrair, só acrescentou uma nova possibilidade de expressão!

Maravilhoso! Mas o próprio Johnny Alf nunca se fez de pai do movimento, embora o fosse. A maioria dos estudiosos o enquadra como precursor.

A melhor classificação talvez seja a de fundador.

Nunca participei do movimento da Bossa Nova, nem convivi com

ele. Quando o movimento começou, eu estava em São Paulo,

trabalhando. Fui chamado para participar de dois ou três shows, talvez porque a música que eu fizesse tivesse alguma coisa a ver

com a música que eles faziam, e voltei pra São Paulo. Pelo fato de ter começado comigo não quer dizer que eu tenha participado. Eu

trabalhava no Plaza e todo pessoal que se sentia atraído por esse tipo de música ia lá e ouvia eu fazer, tempos antes, aquilo que eles tinham em mente também. Do mesmo modo que eu quando ia ao

cinema ou ouvia uma música clássica, eu sentia que aquilo era

o que eu gostaria de fazer. Eles podem ter sentido em mim uma

espécie de modelo daquilo que eles queriam fazer, mas não houve

uma participação pessoal minha. A maioria deles não tinha conhe-

cimento musical teórico, vieram a ter depois, eu já tinha seis anos de música clássica, então a minha segurança musical era total, e

a deles não. Digamos que eu abri caminho para eles com a minha

obra, e aí eles entraram com a obra deles, que justamente tinha o mesmo pique que eu fazia, mas não era igual àquilo que eu fazia.

Eles estavam querendo uma brecha e por coincidência o que eu

fazia abriu a brecha que eles queriam pro material deles, mas

ninguém tirou a ideia de ninguém.

No jazz, o pianista, quando faz o acompanhamento, nunca toca os acordes marcando os tempos, fica cercando o solista naquele

prisma harmônico da música, apenas as passagens necessárias.

42

A música é que o orienta, e ele, por sua vez, ajuda harmonicamente o solista. Não há uma marcação certa, regular, mas uma espontaneidade rítmica do pianista em função da harmonia. A batida da

Bossa Nova tem justamente um pouco disso, porque no caso

de um cantor que se apresenta só com o violão, ele se utiliza do

instrumento como um cerco para a sua voz, como o pianista e o

solista de jazz. E assim a marcação em contratempo resulta num balanço diferente, que não havia na música tradicional, que era

muito mais pesada. Esse cerco era uma coisa que eu fazia, eu

tinha justamente a mania de harmonizar e me acompanhar não

marcando. O João Gilberto ia muito à Cantina e ficava horas e

horas do meu lado, me vendo tocar, e se entusiasmava com o meu

modo de acompanhar, me lembro bem. Cantando, eu já tinha uma

divisão bem afastada da habitual e me sentia muito bem acompa-

nhando ele. O que eu fizesse, não tinha problema. Há muitas

músicas inéditas minhas que ele sabe.

O tipo de melodia que faço tem em princípio influência do instru-

mento, piano, e também uma tendência a fazer modulações.

Sempre tive inclinação para modulações e isso porque tinha a

mania de tocar as músicas em todos os tons, pois conheço o

piano bem. Acho que uma modulação dá uma espécie de vida

nova a uma música. Como letrista eu gostava muito da língua

inglesa expressando ideias profundas de maneira leve e suave.

Eu gostava tanto da linguagem das músicas americanas que fazia

versões para o português, mas usando o mesmo sentido. Tenho

a impressão que isso influiu bastante para o meu estilo.

Houve uma grande aproximação com o Newton Mendonça nesse

ponto, pois ele também tinha estudo de música clássica e tínhamos ideias comuns. O Newton era baixinho, gordinho, muito musical,

muito boa gente. Foi o primeiro músico com quem tive afinidade

musical e composições no mesmo estilo. Você Morreu pra Mim foi uma música que a Dora Lopes gravou na Sinter, mas como o Newton

43

era desconhecido, eles puseram o Fernando Lobo na parceria. Ele era uma pessoa maravilhosa. Acho que as letras mais importantes da

Bossa Nova são as dele. Desafinado, por exemplo, eu acho inteligentíssima. É uma letra que sintetiza todo o movimento.

Já tinha um grupo, só que não se conhecia. Eu consegui ser mais

notado porque comecei a trabalhar profissionalmente antes de

todos eles. Mas a tendência, eu acho que na hora que eu criei,

eles criaram também.

Silvinha Telles era como uma irmã. Participei de shows dela, cantávamos juntos. Ela era como eu e a Dolores, tinha uma queda

pro romantismo, para a paixão, para a bebida.

Era bem da época. Agora o Tom foi favorecido porque fez músicas

com o Aloísio de Oliveira, que tinha uma gravadora e contatos lá

fora feitos quando ele viajou com a Carmen Miranda. João Gilberto não apareceu gravando por causa de nenhum empresário, foi ele

mesmo, o conhecimento com o Tom, que ajudou. Foi o meu caso

e o de todos os outros. Hoje, sempre existe um anunciante para

ajudar a construir um artista. Isso desvaloriza o movimento artístico porque todo resultado de promoção do movimento está ligado

ao interesse comercial, à porcentagem.

Eu nunca fui contactado nem pela Odeon nem pela Philips, onde

gravava o pessoal da Bossa Nova. O Aloísio de Oliveira não gostava do meu trabalho, achava muito pra frente, tanto que na gravadora

dele, a Elenco, a Silvinha Telles gravou o Ilusão à Toa acho que foi por um descuido.

44

Mais Pauliceia des vairada

Em São Paulo, no início dos anos 1960, Johnny Alf era sinônimo de vanguarda musical. Os jovens Jorge Mautner, Roberto Piva, Roberto Aguillar, meio beatniks, estavam entre seus admiradores. Mautner, no seu romance de estreia, Kaos, publicado em 1964, porém escrito em 1961, é um entusiasta: Eu conheci um gênio! Conheci o Johnny Alf que é o maior poeta e sambista e louco que eu já vi. Eu fiquei ouvindo ele tocando piano acompanhado por uma bateria e um contrabaixo um tempão, um tempão! É o máximo! Ele sintetiza na linguagem da poesia e da música e ele é a Bossa Nova com toda a religiosidade do termo e respeito e valor. Alf nessa época fazia uma temporada na boate Lancaster, na Rua Augusta, onde o jovem escritor e seus amigos, sem dinheiro, ficavam horas o escutando tocar, consumindo apenas uma Coca-Cola, para desespero do proprietário. Numa outra boate, Cave, essa frequentada por grã-finos, o poeta Vinicius de Moraes, ao ver a plateia conversando alto enquanto ele tocava, irritou-se e lhe deu um conselho que virou frase célebre: Meu amiguinho, pegue a sua malinha e se mande para o Rio de Janeiro que São Paulo é o túmulo do samba!

Mas o motivo real que trouxe de volta Johnny Alf de São Paulo para sua cidade natal foi bem mais prosaico. Um pianista, invejoso de seu sucesso, ao perceber que ele não tinha toda a documentação em ordem, o denunciou à Ordem dos Músicos. Elegantemente, apesar da insistência de amigos e jornalistas, ele nunca revelou o nome do delator. E, nesse meio-tempo, o Rio acenava com novas possibilidades profissionais.

45

A noite do amor, do sorriso

e da flor

Um dos poucos shows cariocas da Bossa Nova que Alf participou foi A Noite do Amor, do Sorriso e da Flor, realizado na Faculdade Nacional de Arquitetura, em 20 de maio de 1960. Não deve ser confundido com o outro, realizado em setembro de 1959 no mesmo local, depois de proibido pela Pontifícia Universidade Católica por causa da participação da atriz e cantora Norma Bengell, considerada pelo reitor como de moral duvidosa.

Esse segundo show, bem mais organizado que o primeiro, teve o patrocínio do Jornal do Brasil e da gravadora Odeon. Participaram ainda João Gilberto e Astrud, Os Cariocas, Claudette Soares, Nara Leão, Sérgio Ricardo, Pedrinho Mattar, Chico Feitosa, Norma Bengell, Elza Soares, Rosana Toledo, Normando Santos, Luiz Carlos Vinhas e Roberto Menescal, entre outros. Vinicius de Moraes compareceu, mas não cantou, assim como Tom. Alf, importado de São Paulo pelo JB, foi assim apresentado ao público por Ronaldo Bôscoli:

Os verdadeiros entendidos na história da Bossa Nova não poderão estar esquecidos deste nome. Faz dez anos que ele toca música bossa-nova e por isto foi muitas vezes chamado de vigarista e de maluco. Johnny Alf!

Segundo Ruy Castro em Chega de Saudade, ...arrancá-lo de SP para aquele show tinha sido uma façanha. Nunca cantara para tanta gente de uma vez e sua colossal timidez entrara em cena. Para criar coragem, tomara hectolitros antes, durante e depois da viagem, e chegara tribêbado à Arquitetura. Um dos estudantes e mais dois colegas da Associação Atlética convenceram-no a ir com eles a um banheiro da faculdade. Lá tiraram-lhe a roupa e deram-lhe uma possante chuveirada, para fazê-lo voltar ao planeta Terra. Interrogado pelo autor deste livro, Alf afirmou não se lembrar dessa coisa de banho de chuveiro com atletas, que, segundo ele, teria sido realmente inesquecível.

46

index-48_1.jpg

index-48_2.jpg

47

index-49_1.jpg

48

Primeiro LP

Rapaz de Bem (1961)

Quando o Ramalho Neto foi para a RCA ele me chamou porque sabia

que eu só gravaria se escolhesse as músicas e tudo o mais.

É dessa maneira lacônica que Alf se referia ao seu primeiro LP, do qual, no entanto, ele gostava muito, segundo me confessou. A contracapa é de Ramalho Neto. Dez anos depois de composta, Rapaz de Bem ressur-gia agora dando nome ao disco, e com um novo arranjo, do trombonista Nelsinho. Os mais radicais implicam com o resultado, que seria pouco bossa-novista, um disco de gravadora. Trata-se de um exagero. Embora distante dos experimentalismos das exibições ao vivo de Alf nas boates do Rio e São Paulo, esse é um trabalho da melhor qualidade, onde são ressaltadas suas qualidades de cantor e compositor, mais do que as de pianista, pois só toca em quatro faixas.

No repertório, Custódio Mesquita, Vítor Freire, Klecius Caldas, Fernando Lobo e Paulo Soledade, da velha-guarda, e Durval Ferreira e Maurício Einhorn, da novíssima geração. E sete músicas de sua autoria, das quais três se tornaram clássicos imperecíveis: Rapaz de Bem, Escuta e O que é Amar − ainda do tempo da Cantina do César, a primeira já gravada por Carlos Lyra, as outras duas por Mary Gonçalves − e mais as novas maravilhas Fim de Semana em Eldorado e Ilusão à Toa. Esta, hoje considerada sua melhor composição, é uma das joias do nosso cancioneiro. Note-se a sutileza em retratar um amor não correspondido, tão diversa dos arroubos com que o tema foi tratado por compositores tradicionais como Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins, Adelino Moreira e Antônio Maria.

Olha, somente um dia longe de teus olhos

Trouxe a saudade de um amor tão perto

E o mundo inteiro fez-se tão tristonho

49

index-51_1.jpg

Mas embora agora eu te tenha perto

Eu acho graça do meu pensamento

A conduzir o nosso amor discreto

Sim, amor discreto pra uma só pessoa

Pois nem de leve sabes que eu te quero

E que me apraz essa ilusão à toa.

Ilusão à Toa pintou, já com letra, quando eu vinha do Rio para São Paulo, de ônibus. Eu anotei e terminei em casa. Foi a gravação da Isaurinha Garcia, dois anos depois, que divulgou bem perante o

público. Eu gosto bastante dessa gravação. Já Que Vou Dizer Eu?, do Klecius e do Vítor Freire, tem uma história. Quando vim gravar no estúdio no Rio eles marcaram logo essa música. Eu esqueci

a letra na minha casa em São Paulo, então gravei só a melodia,

improvisando. O pior é que eu tinha convidado os dois composi-

tores para assistir. Mas eles adoraram. Tema Sem Palavras, do Durval Ferreira e do Maurício Einhorn, é outra que não tem letra, é só instrumental, eu gravei improvisando com o trombone do

Nelsinho. Isso nunca tinha sido feito antes num disco brasileiro.

50

Carnegie Hall

Em 1962 chegou ao Rio o americano Sidney Frey, dono da gravadora Áudio Fidelity e de duas editoras musicais. Vinha no faro da nova música brasileira, cuja fama já tinha chegado aos Estados Unidos através de artistas americanos que se exibiram aqui, a cantora Lena Horne, os saxofonistas Gerry Mulligan e Cannonball Adderley, entre outros. Queria contratar Tom Jobim e João Gilberto, através de Aloísio de Oliveira, para um show no Carnegie Hall de Nova York em novembro desse ano. A coisa degringolou e todo mundo quis participar. A melhor fonte é Ruy Castro, mas não é a única. Carlos Lyra ouviu de Tom que não ia, e todos deviam desistir. Mas Vinícius o con-venceu a mudar de ideia, pois sabia que os outros estavam apenas fingin-do ter desistido, sob a orientação de Aloísio. O Itamaraty entrou para ajudar, provavelmente a pedido do poetinha, que ainda não deixara a carreira diplomática. Além de Tom e Lyra, ainda foram João Gilberto, Luiz Bonfá, Sérgio Ricardo, Agostinho dos Santos, Ana Lúcia, Normando, Chico Feitosa, Roberto Menescal, Quarteto Castro Neves e Sexteto

Sérgio Mendes. Em Nova York aderiram a cantora Carmen Costa e o

guitarrista Bola Sete, que já moravam lá.

Há muito folclore a respeito, mas foi uma confusão generalizada. Dando uma volta no quarteirão, João Gilberto converteu Sérgio Ricardo ao marxismo, segundo este conta no seu livro de memórias. A cônsul-geral do Brasil, Dora Vasconcelos, letrista de Villa-Lobos em Floresta do Amazonas, quis forçar a Carmen Costa a passar o vinco da calça de João Gilberto, que ameaçava não entrar em cena mal-ajambrado. O crítico José Ramos Tinhorão fez uma matéria destruindo o espetáculo sem tê-lo assistido, apenas ouvira pelo rádio.

Existe um disco, que não é bom. Mas foi nessa noite que deslancharam as carreiras internacionais de Tom, João, Lyra e Sérgio Mendes, já que Bonfá já tinha a sua. Aí nós perguntamos: e o Johnny Alf, que começara tudo?

Esse é um negócio que eu não gosto de falar, porque esse show do

Carnegie Hall foi muito bem combinado antes de ser feito. Aí o Chico Feitosa falou assim, eu tava no Rio: Johnny, vai ter um encontro no Carnegie Hall, fica de olho.... Aí eu vim pra São Paulo e fiquei ligado.

51

index-53_1.jpg

Aí o negócio aconteceu e não me chamaram. Eu fiquei na minha,

tudo bem. Agora muito tempo depois ele falou que eu não fui

porque o Aloísio pediu pro Itamaraty não dar passagem nem pra

mim nem pro Ronaldo Bôscoli. Então isso ajudou muito ao Tom,

essa amizade, porque o Aloísio pôde promover mais ele e o João

Gilberto, em termos de estrangeiro. Você vê então que a Bossa

Nova, falando certo, teve muito egocentrismo, muita panelinha.

O Aloísio não gostava do meu trabalho. A sorte deles foi que houve esse prestígio lá fora, porque se dependesse da união...

52

Beco das Garrafas

O início dos anos 1960 marca o apogeu do samba-jazz, o descendente musical mais evidente de Alf, com seus pequenos conjuntos instrumentais de alta qualidade e inventividade: Bossa Três, Zimbo Trio, Tamba Trio, Sambalanço Trio, Jongo Trio, Tenório Junior, Copa 5, Edson Machado Trio, Os Gatos, Os Cinco-Pados, 3-D. Quase todos se exibiam no Beco das Garrafas, no Lido, em Copacabana, onde num espaço de meio quarteirão funcionavam quatro ou cinco boates de dimensões mínimas.

Foi um período em que Alf esteve bem sociável. Há muitos registros da sua presença em reuniões de músicos, nessa volta ao Rio. Marcos Valle o conheceu numa dessas ocasiões, na casa dos próprios pais, no Leblon. Tinha uma amiga que gostava do que eu fazia e me apresentou a ele, que me influenciou muito com suas harmonias diferentes, melodias incríveis (O Globo, 4/3/2010).

O mesmo aconteceu com Nelson Motta, que entra em mais detalhes:

Johnny foi várias vezes a festinhas de Bossa Nova na casa dos meus pais, com Nara Leão, Sérgio Ricardo, Ronaldo Bôscoli, Menescal. Sempre chegava com um sobrinho ou afilhado , muito discreto e educado. A gente se juntava em volta do piano e não acreditava no que ouvia. Numa época de exaltação do mínimo, do conciso gilbertiano, da interpretação lisa , as firulas e frases musicais de Johnny eram escorregadias e perigosas para iniciantes. Era um suingue de samba diferente, porque não vinha do violão, mas do piano, com suas mãos gorduchas se abrindo em acordes espantosos. Ele também frequentou as casas de Disa Santiago, de Armando Cavalcanti, de Vítor Freire, de Lula Freire.

Foi também um tempo de conquistas amorosas, algumas com pessoas

ligadas ao baixo mundo de Copacabana. Talvez por isso Alf nunca tenha sido absorvido pelo grupo mais jovem dos bossa-novistas: era dez anos mais velho, e ainda por cima negro, pobre, independente, homossexual, melhor cantor, melhor compositor e melhor músico. Um desses jovens da época, que preferiu não se identificar, confessou: Nós admirávamos o Johnny Alf.

Mas também morríamos de medo dele.

Quando você trabalha na noite, o que mais atrai é a música, não é o trabalho. Tocar no escuro, isso é que inebria você.

53

index-55_1.jpg

Com Silvinha Telles e amigos, 1964

Eu não faço as coisas planejando chegar a lugar nenhum.

Para mim não existe ponto de chegada. Só o caminho.

Formei um trio com o Tião Neto no baixo e o Edson Machado

na bateria. Toquei no Bottle’s, revezando com o Tamba Trio, Sérgio Mendes, Luiz Carlos Vinhas e Silvinha Telles, e no Little Club.

Depois no Top Club, que pertencia ao barão Von Stuckart, dono

do Vogue, onde eu alternava com a orquestra do Moacir Silva,

e também no Manhattan com a Leny Andrade, em 1963.

54

index-56_1.jpg

O misterioso LP inédito

Um dos grandes mistérios da carreira de Alf, e também de toda discografia da bossa nova, é o LP que ele gravou em inglês, destinado ao mercado americano, e que por motivos nebulosos, nunca foi lançado. Durante muito tempo foi considerado uma lenda, ou, segundo os adversários, uma mentira.

Acontece que o disco existe, foi localizado no arquivo da RCA nos anos 1990, e copiado clandestinamente, para deleite dos poucos pesquisadores que a ele tiveram acesso. Tem 12 faixas, cinco de Tom Jobim, com parcerias de Newton Mendonça ou Vinicius; duas de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli; uma de Sérgio Ricardo e quatro do próprio Alf, sendo que uma delas, Gostar de Alguém, nunca foi gravada em português, e continua inédita. Não conseguimos maiores informações no arquivo da gravadora, mas é um disco completamente finalizado.

Interrogado pelo autor deste livro, Alf deu poucas informações suplementa-res: as versões seriam de sua autoria com uma amiga que não identificou, e teria sido gravado em 1963, entre Rapaz de Bem e Diagonal. Afirmou também que o disco não foi comercializado por problemas com a liberação das músicas de Jobim. Segundo Paulo Jobim, filho de Tom, nessa época as músicas do pai pertenciam a várias editoras. Hoje, mais de 50 anos depois, é impossível averiguar de onde partiu a interdição, e qual o motivo.

O lançamento desse disco teria

possivelmente mudado o rumo

da carreira de Alf, possibilitando

seu lançamento internacional,

exatamente no momento do

boom bossa-novista nos Estados

Unidos. Esse é um mistério que

talvez nunca seja elucidado. Uma

única faixa, Barquinho, foi lançada

em 1997 na coletânea CDteca da

Música Popular Brasileira, editada

pelo jornal Folha de S. Paulo.

55

Terceiro LP

Diagonal (1964)

O Ramalho saiu da RCA e entrou o Paulo Rocco que me chamou

e disse pra fazer um disco do jeito que eu quisesse. Eu tinha

amizade com o Celso Murilo, que tocava no Drink e sempre dizia

que sabia fazer arranjo, que o seu ideal era fazer arranjo pra disco.

E exigi o Celso pra trabalhar comigo.

Celso Murilo, por capricho meu, foi emprestado pela Odeon, pois

o meu disco era da RCA Vítor e o rolo de ciúmes que pintou por

parte dos arranjadores da Vítor não foi pequeno. Celso era um

simples organista de bom gosto e com quem eu batia muito papo

e ia ouvi-lo no Drink, onde ele tocava e eu cantava acompanhado

por ele, dando canjas. Depois eu terminava o meu trabalho na

boate em que eu cantava no Lido às 11 horas e sempre ia ouvi-lo

e trocar ideias. Meu conhecimento com ele aconteceu porque

meses antes ele fez um disco solo na Odeon e ele gravou Céu

e Mar, mas me procurou antes pedindo uma partitura. E daí ficou o conhecimento e a amizade. Durante os papos eu constatei a

competência dele como arranjador, lado que ele não tivera a

oportunidade de mostrar ainda. Coisas das famosas panelinhas.

Quando pintou o convite para eu gravar esse disco, ele quase não

acreditou, e foi com bastante relutância que as gravadoras chega-

ram a um acordo. Mas eu ataquei de pombagira. Botei as mãos

nas cadeiras e falei: Ou é com ele ou não vai! Naquele tempo eu tomava uns méis e era bem agressivo. Agressivo numa boa. Tudo acertado, ele viajou de férias e levou as músicas para fazer os

arranjos. No Rio o que corria na boca da noite é que eu tinha um

caso com ele e estava puxando a sardinha pro lado dele, o que

realmente nunca aconteceu, e ele era um tipaço de garotão! Já

viu, né? Mas no dia em que gravamos os primeiros playbacks,

com mil curiosos sacando o som que ia pintar, e os primeiros

foram Disa e Céu e Mar, quando o som pintou calou a boca de todo mundo.

56

Disa eu fiz quando o Jorginho Ferreira tocava no Bottle’s no conjunto do Chaim, eles revezavam com o meu trio. Quando eu conheci o

Jorginho ele era só saxofonista. Eu ia na casa dele e nós ouvíamos os discos do Les Baxter e gostávamos por causa do flautista. Eu fui pra São Paulo e quando voltei ele já estava tocando flauta. Então, empolgado, eu fiz a música pra ele. O Maurício Einhorn me ajudou a completar, e dei a parceria. Entre as pessoas que iam lá, a Disa, filha do Osvaldo Santiago da União Brasileira dos Compositores (UBC),

ficou louca pela música. Vivia pedindo toca a minha música, toca a minha música. Quando eu fui gravar o Diagonal, o Sílvio Túlio perguntou por que eu não fazia uma letra e gravava a música que eu tinha feito pro Jorginho tocar. Aí eu fiz a letra pra ela, com o nome dela.

Acho que esse é um dos meus melhores discos porque ele analisou

meu modo de cantar e fez os arranjos em cima disso, tanto que

muita coisa que eu cantava de um jeito, depois do arranjo eu

passei a cantar de outra maneira. No fim do ano: um dos melhores

discos de vocal do ano e ele o melhor arranjador! Aí a pombagira

aqui deu risada.

Diagonal é um grande disco. Alf não toca piano, apenas canta. E poucas vezes o fez tão bem. O acompanhamento é fora de série, com a bateria de Edson Machado, a flauta de Jorginho, o sax de Zé Bodega, a guitarra de Neco e o piano e órgão de Celso Murilo se destacando entre outros tantos cobras. Cinco das 12 faixas são de sua autoria. Uma em parceria com o padrinho Vítor Freire. Três velhos sucessos do início da carreira, Podem Falar, do disco de Mary Gonçalves; o chorinho Seu Chopin, Desculpe; e o baião moderno Céu e Mar, dos tempos do bar do Plaza. E Disa. Temos ainda um sambinha carioca de Vítor Freire e Armando Cavalcanti, sucesso na voz de Isaurinha, Bondinho do Pão de Açúcar. Uma bossa curtinha de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo. E gente nova, ou quase nova: Marcos e Paulo Sérgio 57

Valle, Durval Ferreira, Maurício Einhorn, Lula Freire e Tita. A contracapa é do crítico Sílvio Túlio Cardoso, sob o pseudônimo de Sérgio Lobo. Quis o destino que fosse gravado em 1964, nas vésperas do golpe militar, e lançado no mercado logo depois desse fatídico acontecimento. A imprensa e a opinião pública logo se inclinaram para uma atitude agressivamente nacionalista e militante, e o trabalho não repercutiu como poderia.

Por causa da promoção do disco, voltei para São Paulo, onde fui

caçado novamente pelo Lancaster, voltando depois à Baiúca. Aí

estava um pouco cansado da vida noturna, e com o que eu ganhava

em gravações e direitos já podia me dar ao luxo de não trabalhar na madrugada. Parei com isso em 1966.

Fala Nilson da Matta, baixista: Foi por volta de 1965/1966 que eu vi o Johnny pela primeira vez, no piano-bar chamado Baiúca da Praça Roosevelt. Com a ajuda do porteiro Bira e do maître Agostinho eu entrava e me deixavam ficar de pé encostado na parede vendo o teclado do piano, bem na passagem do banheiro das mulheres. Era impressionante ver o Johnny tocando e cantando com tanto virtuosismo e naturalidade que eu não podia acreditar no que via e escutava. Suas harmonias e melodias eram completamente avançadas para a época em termos de Brasil, cada noite pra mim era uma aula, não só musical, mas também de vida, pois ele era de uma perfeição inigualável.

Tocava todas, Rapaz de Bem, Ilusão à Toa, Fim de Semana em Eldorado, enfim, todas as que compunha e mais outras, americanas também. Era tudo bem explicado, melodia, harmonia, poesia nas letras e um tremendo ritmo que ele colocava no acompanhamento. Era realmente a minha universidade de música brasileira as noites em que o via na Baiúca.

O Johnny se apresentava em muitas casas noturnas nessa década de 1960, as vezes tocava em duas ou três boates por noite, eram muitas casas noturnas e todas tinham música ao vivo. Numa certa noite em que eu estava no bar ao lado da Baiúca, nós chamávamos esse botequim do português Toninho de Baiuquinha, a maioria dos grandes músicos passava por ali para comer um prato feito e levar um papo bem agradável e muitas vezes divertido demais. Numa dessas noites o contrabaixista que tocava com o Johnny 58

index-60_1.jpg

numa outra boate que ficava na Avenida São Luiz, na Galeria Metrópole, me pediu para fazer a última entrada com o Johnny porque tinha outro compromisso. Eu fiquei um pouco meio que indeciso, mas não consegui dizer não. Fui e toquei uma hora com o meu ídolo. Foi uma experiência fabulosa, a maioria das músicas eu já sabia, e as outras ele gentilmente tocava os baixos no piano para que eu pudesse seguir a harmonia.

Numa outra noite encontrei o Johnny na Baiuquinha, estava sentado comendo um sanduíche cercado por um montão de músicos conversando.

Enquanto conversava ele escrevia uma música para piano, sua caligrafia era de uma perfeição que podia ser igualada com um programa Finale 2010 de computador. Todos nós ficamos espantados com a certeza que escrevia sem errar nenhuma nota na pauta. Era um craque também na arte de escrever música.

59

Quarto LP (1966)

Para o grande Paulo Moura, maestro, saxofonista e arranjador, uma das dificuldades de aceitação da música de Alf foi o uso inusitado das invenções de Charlie Parker, principalmente na final das músicas. De notas como a 11ª

aumentada, então inusual, pois a maioria dos compositores usava a 7ª maior.

Esse LP tem como título apenas o seu próprio nome. O produtor Jairo Ferreira lhe deu carta branca. Os arranjos, belíssimos, são de José Briamonte, jovem pianista do Sansa Trio, que tentava, como Celso Murilo anteriormente, ter uma oportunidade como arranjador. Saiu pela Mocambo, do grupo Rozenblit, na época o único selo 100% nacional. Tem oito músicas de sua autoria, duas em parceria com Briamonte, uma com Ary Francisco, outra com Laércio Vieira.

Duas de Durval Ferreira, uma com Pedro Camargo, outra com Humberto Pires. Uma de Vera Brasil. E, finalmente, mais uma, de Armando Cavalcanti e Vítor Freire. Nenhuma fez sucesso, tocou no rádio ou se tornou cult. Não há créditos para os músicos, mas, entre eles, diz a lenda, estariam o então baterista Airto Moreira, Hermeto Paschoal na flauta, entre outros bambas. Há quem discorde. É um disco tão radical quanto Diagonal, sofisticado, intimista, na contramão do tudo que se fazia na MPB. Seis músicas com orquestra, seis com quarteto. Contracapa de Ramalho Neto, tirada de seu livro Historinha do Desafinado, o primeiro livro sobre a Bossa Nova, e que credita a Alf a inauguração do movimento, com a gravação de Rapaz de Bem em 1956. O resultado, embora excelente, classificou Alf para sempre como artista maldito perante as gravadoras e a mídia. Paradoxalmente, por pertencer a um selo pequeno, é o disco dele que teve mais edições a preços populares. Biscoito fino para as massas, como pregava o modernista Oswald de Andrade. Pouco conhecida, a sincopada Bossa só revela bastante do pensamento alfiano diante das coisas: Pode reclamar por aí

que eu não vou mudar meu modo de pensar

Deixa o nosso amor ser assim

muita opinião vai resultar em confusão

Você quer passar por bem

e diz que a bossa não vale vintém

60

index-62_1.jpg

Vive a solfejar Bach e Chopin

e quer que eu seja esnobe também

Sempre fui assim

e não vai ser você que vai mudar meu modo de gostar

E quanto ao nosso amor

é melhor conservá-lo assim: amor de lá e amor de cá

Mas desista de querer meu repertório modificar

Falar de lá bemol pode pra si

mas quanto a mim vê lá, tenha dó

Bossa só.

61

Vida nova

Uma das atividades diurnas de Alf em São Paulo foi ser professor de piano no Conservatório Meirelles, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Um de seus ex-alunos, Armando Sanino, diz que ele morava lá, com todos seus discos e livros, e que o relacionamento com os proprietários não era dos melhores.

O químico e compositor Nelson De Mundo, que foi seu empresário por um curto espaço de tempo, diz que ele morava no porão, de pé-direito muito alto, e que entre seus alunos estava Wilson Simonal. Nos finais de semana, fazia shows no interior do estado, sozinho ou com trio. Insatisfeito com sua situa-

ção financeira, Alf eventualmente recaía na bebida, até se libertar totalmente.

A descoberta do sol me fez perceber que muito da minha

depressão vinha do ambiente da noite. Só então me senti

maduro artisticamente. Antes eu me sentia um compositor

meio volúvel quanto à mensagem das músicas, era muito

interior. Depois do que passei na vida noturna, consegui me

exteriorizar e me encontrar.

Um amigo meu de Santo Amaro ia casar e pediu uma música

para tocar na cerimônia, então eu fiz a melodia de Eu e a Brisa.

Mas a igreja em que eles casaram não aceitava essas moder-

nidades, então não deixaram o organista tocar nem a Brisa nem Debussy, aceitaram só a Marcha Nupcial. Então a música ficou largada. Depois eu pus a letra.

Aí a Márcia pediu uma música para cantar no Festival da Record,

em 1967. A música não foi classificada para a final, mas entrou

no disco. Aí aconteceu no Rio. O Flávio Cavalcanti deu força no

programa dele na TV, o público gostou. Foi o meu maior sucesso.

Todo show que eu faço, tenho de cantar.

62

index-64_1.jpg

63

Ah, se a juventude que essa brisa canta

Ficasse aqui comigo mais um pouco

Eu poderia esquecer a dor de ser tão só

Pra ser um sonho

Daí então quem sabe alguém chegasse

Trazendo um sonho em forma de desejo

Felicidade então pra nós seria

E depois que a tarde nos trouxesse a lua

Se o amor chegasse eu não resistiria

E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, oh, brisa fica, pois talvez quem sabe

O inesperado faça uma surpresa

E traga alguém que queira te escutar

E junto a mim queira ficar

Um ano depois, em 1968, no III Festival Internacional da Canção, no Rio, Alf concorreu com Plenilúnio, uma das suas canções preferidas, com letra e música muito elaboradas. Nelson De Mundo, que acompanhou Alf ao Rio, conta que o convite para fazer o arranjo foi feito primeiro a Tom Jobim, que não aceitou e teria indicado Paulo Moura, que fez um trabalho excepcional.

A interpretação foi entregue a Bené Alves, um ex-feirante de belíssima voz, no qual Alf depositou muita esperança. Ele obteve o Galo de Ouro como cantor revelação. Mas a música não foi classificada. Foi o ano do confronto entre Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, e Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré. Bené prosseguiu sua carreira, mudando de gênero e aderindo ao sambão.

64

Misticismo

Entre uma e outra passagem nas boates tive muitos altos e baixos, cheguei até a dormir na praia, desorientado. Nesses momentos, principalmente os piores, comecei a estudar mais os meus sonhos e, levado por amigos, a frequentar sessões espíritas. A princípio desacreditando. Mais tarde um guia me aconselhou a ler mais sobre espiritismo, e outro praticamente desvendou a chave de tudo, quando me fez a primeira pergunta: Onde está a sua mãe?

Era um problema que eu trazia reprimido desde o início da carreira e ele foi direto ao assunto, sem perguntar mais. Descobriu, entre outras coisas, que ela tinha me feito por engano um batismo de esquerda, isto é, me levado na quimbanda, onde reinam os maus espíritos, e eu estava sob a influência deles, e precisava de muitos anos de trabalho para me soltar.

Andei me entrosando muito nos preceitos da umbanda e, naturalmente influenciado, eu fiz muita coisa calcada nesse tipo de música, folclore, afro-cubano. Foi uma época interessante porque eu consegui exteriorizar muita coisa em letra e imagem. Antes eu era o eterno romântico. Ajudou muito a me desprender de certos complexos que eu tive por causa de família, ser músico, esse desgarramento que aconteceu.

Em qualquer tipo de religião existem os pilantras, os maus-caracteres, os comerciantes. Até encontrar uma pessoa positiva temos que esbarrar em pessoas desse tipo. Já foi provado que se você é atingido por certos malefí-

cios, indo num centro, num jogo de búzios, há pessoas com certa força, certa vidência. Elas te informam um caso de você anos atrás, coisa que só você sabe, e aí você vê que é uma pessoa honesta, que fala coisa com coisa. Eu nunca achei que ia ficar fanático porque antes de entrar nisso eu li bastante, era bem informado, portanto, quando eu sentia que o negócio ia entornar, eu me afastava. Eu não me furto totalmente da música pela religião. Pelo contrário, no meu caso, uma coisa ajuda a completar a outra.

65

Um belo e raro registro

na televisão

Em agosto de 1969, Alf e seu novo trio gravaram em São Paulo, na TV

Cultura, o programa Música Brasileira. Como convidados, Alaíde Costa e o Quarteto Forma, conjunto vocal de Niterói que ele resolveu apadrinhar.

Ambos excelentes. Realizado com poucos recursos de modo informal e despretensioso, o programa se tornou registro raro pela qualidade do seu conteúdo. São apresentadas dez músicas de sua autoria, sete das quais desconhecidas ou quase. Três permanecem inéditas até hoje, e o programa é seu único registro. A perturbadora Elegia, com uma letra alusiva à sua vida pessoal, e que dá a impressão de ser meio improvisada. E as românticas e sofisticadas Penumbra e Em Tom de Canção, ainda do tempo do Plaza.

Há outro fato curioso. Alf canta pela primeira vez Garota da Minha Cidade, ainda numa versão primitiva, que inclui o trecho que depois se tornou música autônoma, Anabela. Temos aqui também a melhor versão de Plenilúnio, e uma das melhores de Eu e a Brisa.

É interessante observá-lo nos momentos em que é entrevistado, com o olhar afogueado de quem tomou umas biritas. Talvez por isso mesmo sua interpretação seja inteiramente solta, com muito destaque para o piano, que toca com movimentos inquietos. É o seu melhor momento na televisão.

66

index-68_1.jpg

Quinto LP

Ele é Johnny Alf (1971)

Primeiro disco depois de cinco anos, Ele é Johnny Alf, é bem típico da nova fase de Alf. É mais alegre, mais leve,

e podemos dizer, mais comercial. Foi produzido pelo Milton

Miranda na Odeon, uma grande gravadora, em 1971.

Os arranjos são de José Briamonte e Élcio Alvarez, e há

também um coro, dirigido por Sidney Morais. O LP tem

11 músicas. Nove são de Alf, sendo oito inéditas e mais

regravação de Ilusão à Toa, agora com uma introdução inédi-ta. Entre as novas, duas tem letras sobre personagens femini-

nos ( Garota da Minha

Cidade e Anabela), o que

é raríssimo em sua obra.

Há três românticas,

Pensando em Você, Eu

e o Crepúsculo e Ama-me,

aptas a integrar qualquer

lista de melhores, mas

que não aconteceram.

Para completar, uma de

Armando Cavalcanti, Vítor

Freire e Roberto Nascimento

(Leme), e o clássico de

Benedito Lacerda e Aldo

Cabral ( Despedida de

Mangueira).

67

Sexto LP

Nós (1974)

O Milton Miranda quis fazer outro disco comigo. Eu estava de

amizade com o Simon Khoury, que eu convidei pra produzir e ele

teve essa ideia de pedir música a outros compositores. O projeto

todo foi ideia do Simon. E fiz até uma música instrumental em

homenagem a ele.

O Egberto disse que só aceitava se eu cantasse Plenilúnio, que eu tinha feito pro FIF e nunca tinha sido gravada. Ele fez um arranjo belíssimo, todo sinfônico e ainda tive a oportunidade de ter o

Vitor Assis Brasil no sax.

Quando o Johnny ousou me convidar para produzir o seu disco, eu fiquei atônito e orgulhoso, é claro, escreveu Khoury. Logo de cara, concluí que não podia embarcar nessa canoa sozinho. Ele parecia inseguro sobre o seu material e aceitou a minha ideia de músicas de autores convidados.

Eu perguntei quais ele sugeria, ele começou a dizer, e no quarto ou quinto eu mandei parar. Ele disse que ainda tinha muitos outros, mas eu achei que se ele citou esses primeiro, é porque deviam ser os preferidos E foi assim que passei os momentos mais importantes da minha vida profissional com Egberto Gismonti, Luiz Gonzaga Junior, Gilberto Gil, Ivan Lins e Milton Nascimento. Como aprendi com eles, meu Deus. Nós é isso aí. Johnny e seu silêncio, seus anseios, sua importância, seus mistérios, sua coerência, seus amigos, sua humildade, sua volta.

Houve um momento das gravações que o Johnny ficou totalmente afônico psicologicamente. Ele não gostava de certas pessoas assistindo à gravação, e eu entendo porque, pois muita gente vai só pra criticar e fofocar, e eu não podia mandar sair. Mas nesse dia eu recebi uma ordem da Odeon que o disco teria de ser terminado naquele dia, e ele afônico. Eu vi que era psicológico, não falei nada pra ele, combinei com os técnicos, falei que era só a gravação 68

index-70_1.jpg

index-70_2.jpg

69

do som-guia, e sem saber de nada ele gravou com a voz completamente límpida. Foi essa gravação que a gente usou, na música do Luiz Gonzaga Junior.

Acho que se você está num lugar e chega uma pessoa com ideias

contrárias ao seu bem-estar, você sente isso. Chamam de baixo-

astral, mas isso existe e eu já fui vítima desse tipo de coisa, e era o que acontecia lá no estúdio de Nós.

Esse é o disco mais ambicioso da carreira de Johnny Alf. Tem arranjos de Egberto Gismonti, Paulo Moura, Wagner Tiso, Gilberto Gil e Ivan Lins. Entre os regentes, o maestro Mário Tavares, e, entre os músicos, Vítor Assis Brasil, Maurício Einhorn, Tenório Junior, Nélson Ângelo, Lindolfo Gaya e Nicolino Cópia. São dez faixas. Metade de autoria de Alf. Uma regravação ( O que é Amar, com uma introdução que fora registrada em 1963 na Fermata com o título de Feliz Conclusão.) e quatro inéditas, sendo uma Plenilúnio e outra a instrumental Tema pro Simon. As outras cinco são de autoria de autores convidados: Egberto Gismonti e Paulo César Pinheiro, Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, Gilberto Gil, Márcio Borges e Milton Nascimento, e Gonzaga Júnior. O resultado é bom, mas bem diferente da sua obra anterior.

A bela capa, com Alf de perfil em primeiro plano, vestindo uma camisa de estampado coloridíssimo, tendo ao fundo, desfocado, um belo rapaz (louro) caminhando em sua direção, deu o que falar. Até hoje é considerada precursora da arte gay no disco brasileiro. O trabalho é creditado a Visual Studios, sem identificação de autor.

70

Censurado

No primeiro semestre de 1973, Alf conheceu, num sebo de discos do Largo de São Francisco, no centro do Rio, o estudante Marcelo Câmara. Nessa época ele morava no Hotel Presidente, na Rua Pedro I, Praça Tiradentes, atrás do teatro Carlos Gomes, bem próximo dali. Tornaram-se amigos. Marcelo, então com 24 anos, abriu mão de uma bolsa de estudos na Itália para, junto com ele, elaborar um show inédito que se chamaria Acorda Ulysses, título de uma bela canção do LP Nós. O espetáculo teria sua estreia em Niterói.

O texto, que ainda existe e está registrado na Biblioteca Nacional, intercala falas de Alf, trechos de Jean-Paul Sartre e dos poetas da negritude, Aimée Cesaire e Léopold Senghor. Tem uma atmosfera militante. Incluiria músicas pouco conhecidas, como Samba do Retorno, gravado anos antes num compacto quase desconhecido, e inéditas, como O Sonho Acabou.

A principal delas, Canto dos Tempos Chegados, e que é a espinha dorsal do texto, merece um comentário mais detalhado. Foi registrada em 1969.

É longuíssima, o que sugere que tenha sido composta especialmente para o espetáculo. E tem uma letra cheia de metáforas sociais e políticas, fato único em toda sua obra. O canto dos tempos chegados é o canto que vem pra julgar/ E o canto dos tempos chegados não vem perdoar./ O canto dos tempos chegados criou-se, nasceu pra mostrar/ que o jovem que é jovem /

e jovem que não vai recuar. Como foi interditada pela censura, impossibilitou a continuação do trabalho. Esse parece ter sido um período de uma grave crise existencial para Alf, causada pela morte trágica de Vítor Freire por atropelamento, pois abandonou várias possibilidades de trabalho.

Acorda Ulysses veio da observação que eu tive da juventude. É o nome de uma peça que eu ia fazer. Uma das músicas que eu quis botar no

Nós, o Canto dos Tempos Chegados, a letra foi vetada pela censura.

Aí desmembrou tudo e desisti.

Eu já era meio rebelde, aí o Milton Miranda me chamou pra gravar

um disco de duetos. Tinha a Claudette com o Dick, a Dóris com o

Miltinho, eu ia gravar com a Márcia. Mas eu não queria gravar com ninguém e saí da Odeon por causa disso.

71

Músico freelancer

Sem contrato com gravadora e resolvido a não trabalhar mais na noite, Alf procurou, e conseguiu, outras fontes de renda e projeção. Por exemplo, o Seis e Meia do teatro João Caetano, no Rio, que reunia duplas de artistas, a preços populares. Ou o Projeto Pixinguinha, da Funarte, que promovia excursões pelo Brasil afora. Neles, Alf trabalhou com artistas tão diferentes como Nana Caymmi, Zezé Motta, Emílio Santiago e o conjunto pop A Cor do Som.

Fiz uma viagem a Belém do Pará de ônibus em 1974, levei dois

dias e duas noites. O que a gente vê de paisagem, de verde, de

azul, é uma higiene mental muito boa para quem é do Rio e São

Paulo. Fui sozinho, sem o trio, e fiquei lá uns dois meses. Adquiri paciência, calma e boa vontade. Passear de lancha na ilha de Marajó, naqueles furos que tem na floresta, são coisas muito importantes, alimentam o espírito, no bom sentido. O que eu vi de pássaros lá

foi uma beleza. Essas coisas transparecem na minha obra, princi-

palmente a instrumental. A descrição da paisagem te induz ao

instrumental, não à poesia.

Um dos seus trabalhos favoritos dessa época foi o Projeto Minerva, organizado por Ricardo Cravo Albim na Rádio MEC, em 1975, com o tema 100 Anos de MPB, e que foi gravado em vinil. Alaíde Costa e Dóris Monteiro também fizeram parte. Nessa mesma época ele participou, na TV Cultura, do programa MPB Especial, dirigido por Fernando Faro. Foi a sua primeira grande entrevista pública. E, no ano seguinte, fez a sua primeira viagem internacional, inusitada para um artista já consagrado como ele.

A primeira vez que saí do Brasil foi em 1976. Fui como atração no transatlântico Eugenio C. Uma viagem de três semanas Rio – Miami

– Rio com escalas em Martinica, Saint Thomas e Porto Rico. Ficamos dois dias em Miami, com pouco tempo pra sair do navio. Ficamos

passeando, fui a Disneyworld, a um cinema pornô de madrugada,

pouca coisa. Fui eu, o baixista Flamarion e o saxofonista Odorico Vítor.

72

index-74_1.jpg

73