Johnny Alf: duas ou três coisas que você não sabe por João Carlos Rodrigues - Versão HTML

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De volta à Pauliceia des vairada

Depoimento do baixista Lito Robledo: Toquei com o Johnny no Regine’s em 1975/76. Eu tinha 22 anos na época. A gente revezava com o Tito Madi trio e o Dick Farney trio. Nessa época ele morava num hotel na Boca do Lixo, defronte de uns cinemas pornôs, onde depois virou a Cracolândia. Uma noite chegamos para tocar e alguém veio avisar que estavam no local uns músicos esperando. Para nossa surpresa o Bill Evans trio estava sentado bem em frente ao palco. Comecei suar frio e pedi ao Johnny que só tocasse musica brasileira, e ele fez ao contrário, começou tocar música americana.

No final deu tudo certo, o Bill Evans adorou o som e os músicos dele também. Eddie Gomez era o baixista e Marty Morell era o baterista.

Toda a semana invariavel-

mente ia algum músico

ou cantor ou cantora

escutar o Johnny. Numa

noite entrou a Sarah

Vaughan, que ficou fã

incondicional do trio,

tanto que nos convidou

para fazer uma temporada

junto com ela pelos EUA.

Projeto esse que não

deu certo por motivos

esótericos. A mãe de

santo dele cortou a onda.

Com Sarah Vaughan e seus

músicos no Maksoud Plaza

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Sétimo LP

Desbunde Total (1978)

Apesar do lançamento por uma gravadora especializada em música sertaneja, a Chantecler, Desbunde Total foi um dos seus discos mais bem divulgados na mídia. Mesmo assim não recebeu boas críticas, nem emplacou nenhum sucesso radiofônico. É composto de dez canções inéditas de sua autoria, uma de Armando Cavalcanti e Vítor Freire ( Passe Livre) e outra da dupla Paulo Miranda e Anchieta Perlingeiro ( Buião). As músicas novas são bem ecléticas, e alegres na sua maioria. Há um ponto de umbanda ( Oxum), um sambão rasgado ( Orgulho de Bom Sambista) e até uma canção inspirada no livro de Hermann Hesse,

Sidarta, baseado na vida

de Buda, e uma das obras

de cabeceira da geração

hippie. A produção é de

Coelho Neto. Contracapa

de Paulo Santos, aquele

mesmo em cujo programa,

30 anos antes, o jovem

Alfredo José foi batizado

de Johnny Alf. Os arranjos

são do próprio Alf, e os

arranjos de base, de um

velho amigo das noites

de Copacabana, João

Donato. A este podemos

creditar certa leveza, que

ameniza as harmonias

belas e intrincadas. Os

músicos, como sempre,

são do primeiro time.

Mas as consequências

desse fracasso comer-

cial vão ser impiedosas.

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Doze anos sem gravar

Eu fui considerado um artista que pouco vendia, veneno de bilheteria.

As gravadoras não tinham interesse, não tinham aquela vontade.

Acabei virando maldito, o pessoal gostava, mas pra gravação

ninguém chamava pelo fato de eu só fazer aquilo que eu queria.

A década de 1980 foi um período de vacas magras. Apesar de sua almejada independência, Alf teve de voltar a cantar na noite preso a contratos com casas noturnas, alguns de longa duração. Foi assim no Chico’s Bar, no Rio, de propriedade de Chico Recarey, na Lagoa, onde revezava com Leny Andrade. E, voltando definitivamente para São Paulo, o 150 Night Club, boate do luxuosíssimo Maksoud Palace Hotel, segundo a propaganda a mais glamourosa do Brasil. Uma orquestra de 13 músicos, comandada pelo argentino Hector Costita, animava o salão. Nessa casa lendária, que funcionou de 1979 a 1997, cantaram artistas importantes como Billy Eckstine, Tony Bennet, Carmen MacRae, Bobby Short, Michel Legrand, Fred Cole, Buddy Guy e tantos outros. Frank Sinatra, que no Rio cantou para uma multidão no Maracanã, em São Paulo preferiu um show intimista no 150, pago a peso de ouro. Era um lugar de muito prestígio. Alf muitas vezes fez o show de abertura das estrelas internacionais. O diretor artístico da casa, Armando Afealo, tentou produzir um disco dele pela gravadora Eldorado, mas não aconteceu. A necessidade econômica não foi suficiente para prendê-lo, e ele acabou saindo. E desabafou em duas cartas a um grande amigo de Santos, Eduardo Caldeira, dono do Bar da Praia, onde frequentemente se exibia, datadas de 28 de maio e 11 de junho de 1986.

Eu estou ainda no processo de vagabundagem, e meu médico na

segunda-feira seguinte ao meu aniversário assim me aconselhou,

pois após me examinar disse-me que foi bom eu parar no Maksoud

porque estou com um meio acentuado vestígio de estresse! Agora

uma confidência: estou feliz com a minha missão de arauto do som

e muito satisfeito com o caminho escolhido! Mas quando um

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processo de estresse atinge um artista, causado pela mágoa de

não lhe darem campo para fazer o que ele aspira e deseja fazer

espiritualmente − pois a música é um processo de momentanei-

-dade espiritual − é foda! Mas amém!

Acho que se não existisse a música eu estaria em situação de

bloqueamento psicológico muito grande, pois estou me analisando

dia a dia desde que parei no Maksoud, e a cada sessão de audição

ou gravações eu me sinto mais próximo daquilo que o esquema

musical de quem é empregado obriga a se privar: liberdade de

escolha. O artista quanto mais idealista em termos espirituais não pode nunca se submeter durante muito tempo ao esquema de

horário − como era o meu trabalho! Aceitei o lance, que foi ótimo em termos de currículo e contato com algumas pessoas, mas meu

espírito tornou-se programado! E aí surgiu a crise.

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A arte de compor

David Tame, no seu livro O Poder Oculto da Música expõe o fato de que Haendel e Stravinsky tiveram visões antes de passar para

a pauta as peças musicais Aleluia e A Sagração da Primavera.

Não quero me colocar à altura deles, mas atuando por escolha

na mesma área, afirmo que o instante da inspiração me mergulha

num completo desligamento do que se passa à minha volta.

Acredito que o autor divino se incorpore na gente e nos passe

a mensagem em breves minutos.

Plenilúnio, eu estava dormindo, acordei de repente e consegui passar para a pauta aquilo que eu ouvi em sonho. Às vezes eu faço a letra primeiro, outras vezes a música. Nós, por exemplo, eu fiz a letra e só nove meses depois é que eu botei a música. Uma valsa

que eu fiz, Matinal, foi diferente. Eu estava estudando piano sem pensar em compor, aí a melodia começou a pintar e eu anotei.

É um negócio espiritual, eu posso estar aqui e de repente pintar

alguma coisa na minha cabeça. Eu guardo, depois em casa passo

para o papel. Mas nem sempre eu componho no piano. Muita

coisa eu escrevo diretamente na pauta. Eu gosto mesmo é de

acordes, de harmonia. Se eu pudesse, eu botava um acorde para

cada nota da melodia.

Como eu moro sozinho e me dedico muito ao meu trabalho, então

esses estágios d’alma eu tenho facilidade de passar para o papel, compreende? Cada música que eu canto eu me lembro como é

que eu estava quando compus. São autobiográficas.

Para existir parceria, tem de haver uma grande convivência. Parceiro que eu tive mesmo completo foi meu padrinho Vítor Freire. Eu tinha uma letra que não tinha feito música, então ele pegou e fez uma

música justamente nos moldes das composições que eu fazia.

Muita gente não sabe, mas nas parcerias em geral eu faço a letra, não a música. Sorriso Antigo, por exemplo, que a Márcia gravou, é uma letra minha feita bem antes da música do Marivaldo Fernando.

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Alf teve pouquíssimos parceiros. Muitos deles, pessoas anônimas, amigos, namorados. Outros são músicos de qualidade, como Rômulo Gomes,

Maurício Einhorn, José Briamonte, Vítor Freire. Seu modo de abordagem é muito bem descrito pela cantora Alaíde Costa: Para minha felicidade, um dia ele chegou com um papelzinho dobrado e botou na minha mão.

Eu perguntei o que é isso?, que bonito... Aí ele falou é pra você musicar .

Aí eu fiquei toda nervosa mas Johnny, pra eu musicar pra você? Aí ele falou:

... vire-se . E assim viramos parceiros em Meu Sonho. Com Rômulo Gomes não foi muito diferente. O jovem baixista o procurou nos bastidores de um show e o presenteou com seu disco independente Jeito Livre de Amar.

Mal conversaram. No segundo encontro, Alf já lhe deu uma melodia para que pusesse letra. ...Te vira. O poeta é você. Assim nasceu Mais que Nós.

E depois seis outras.

Eu acho que o músico tem de se atualizar, como fez o Miles Davis.

Infelizmente entre os da minha geração há muito preconceito, muita gente acha que dos Beatles para cá não presta mais. Eu acho que

isso não tem nada a ver. Eu adoro o que está acontecendo, e o

que ainda está para acontecer. Vivemos um mundo caótico, mas

dentro desse caos surge muita coisa maravilhosa.

O que se há de fazer? Explicar que uma harmonização não tem

pátria? Que um dó de nona pode ser usado por mim, pelo Villa-

Lobos, pelo Debussy, pelo Luiz Gonzaga ou pelo Thelonius Monk

sem que isso interfira na nacionalidade da obra de cada um?

Sou muito exigente. Quando eu ouço um disco, eu ouço com uma

outra intenção. Não de ouvinte, mas de músico. Para um músico

como eu, que leva a sério o seu trabalho e analisa tudo com muito cuidado, o objetivo maior não é o hit-parade, mas a liberdade de expressão. Essa é a melhor maneira de fazer um trabalho positivo, honesto e espontâneo. Por isso eu digo como a Marilyn Monroe:

Eu quero ser maravilhoso! E vou continuar tentando.

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Filho de Xangô

Como vimos, Alf foi um seguidor convicto dos cultos afro-brasileiros.

Segundo informações que conseguimos, tinha um Xangô na cabeça. Esse orixá, deus do trovão, foi originalmente um dos soberanos do reino iorubá de Oyió, e tem por natureza o senso de liderança e da justiça, possuindo um temperamento instável. Seu elemento é o fogo, e sua cor, o vermelho. Em 1966, no seu LP na Mocambo, Alf gravou uma música dedicada a seu guia.

Se meu ponto na gira firmei

Atabaque bateu, santo meu respondeu

Ê Xangô

É falange do deus do trovão que eu quero saudar

Santo de intuição que me vem confirmar

Ê Xangô

É irmão, vamos bater cabeça, kaô

É irmão, vamos firmar cabeça, kaô

Vem de Aruanda, vem e traz a sua proteção que eu quero paz

E no dia que Zambi chamar sofrimento tem fim

Pois maldade no mundo é demais para mim

Ê Xangô

Todo seguidor das religiões de origem africana, além do seu guia principal, tem um segundo protetor, que no caso de Alf, parece ter sido Oxum, orixá da água doce, vaidosa, caprichosa e temperamental por natureza. Ela foi a segunda das três mulheres de Xangô, conquistando a posição de favorita ao enganar a primeira (Obá), de que amputando uma das próprias orelhas ficaria mais atraente aos olhos do marido. Sua cor é o amarelo. Para ela, foi composta em 1978 uma canção, gravada no LP Desbunde Total.

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Oxum senhora bonita

Xangô não lhe resistiu

Oxum senhora bendita

Meu canto de fé por seu encanto surtiu

Eu estava na cachoeira

E o sol logo refletiu

Em pingos resplandecentes

ouro o leque surgiu

Oraieiê Oxum (bis)

Oraieiê minha mãe

Nesse mesmo disco Alf cantou a canção Anunciação, cuja melodia fora apresentada parcialmente, anos antes, no depoimento ao Sesc, com outra letra, e intitulada Umbanda. Para os não iniciados, tuia na língua quimbundo é sinônimo de pólvora, muito utilizada no cerimonial.

Sai da frente, sai

Deixa eu queimar tuia

Pra cruzar meu corpo

Realmente, as alusões de Alf na letra de Kaô Xangô a Aruanda, terra ancestral do culto angola, onde residem os espíritos benéficos dos Pretos Velhos, ao lado de Xangô e Oxum, orixás da etnia iorubá, revela uma vinculação, não ao ortodoxo candomblé baiano, mas ao culto umbandista, bem mais sincrético, e cuja base geográfica é o Rio de Janeiro. Canto pra Pai Corvo, gravada em 1971, confirma isso.

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Foi, foi, foi

Foi o que Pai Corvo ensinou

Ele é Preto Velho

É guia curador

É, é, é

Ele é pai e corvo também

Ele vem de Aruanda

Pra ensinar o que é de bem

Salve, salve, meu irmão

Deixa a gira se formar

Se o Capeta te aprontou

Preto Velho vai curar

No terreiro de Pai Corvo

O Capeta vai sobrar

É Pai Corvo se chegar

É o Capeta se mandar

Essa abertura de Alf para o misticismo e a religiosidade vai ser reforçada futuramente com a sua vinculação ao Centro de Estudos da Filosofia Espiritual, em Ribeirão Preto, e com um disco em parceria com Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Igreja Católica, já no final dos anos 1990.

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Saindo do buraco

Surge então no cenário o produtor João Sérgio de Abreu. Trabalhei como produtor de TV de 1967 a 1983 (Globo, TVE, Bandeirantes, Tupi, TVS) até assumir a gerência de eventos da Riotur por 11 anos, de 1983 a 1994.

Durante essa trajetória estive profissionalmente com o Johnny muitas vezes, mas vim conhecê-lo melhor quando em 1989 paralelamente a Riotur, produzia e dirigia a casa de shows Vinícius Bar em Ipanema. Inauguramos o Vinícius em 6 de junho de 1989, e a cantora programada para tal seria a Nara Leão, que, infelizmente, morreu alguns meses antes, sendo substituída por Carlos Lyra. Em meio à temporada de Lyra recebi a visita da Leny Andrade, que me trazia uma noticia muito triste sobre o Johnny, desaparecido da mídia e sem trabalho, principalmente no Rio. O Johnny está numa situação péssima em São Paulo, e nós precisamos fazer alguma coisa para ajudá-lo .

Amante que sempre fui de seu trabalho e da boa música brasileira, combi-namos de trazê-lo para uma temporada no Vinícius. E daí em diante começa o renascimento da carreira de Johnny, que logo na primeira temporada que realizamos no Vinícius lotou o espaço de uma forma jamais superada até os dias de hoje. Seguiram-se outras temporadas com o mesmo sucesso, e fui convidado pelo Johnny para trabalhar com ele, o que fiz até 1992.

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Oitavo LP

Olhos Negros (1990)

Líber Gadelha, guitarrista, ex-aluno da Berklee School of Music, hoje proprietário da gravadora LG, já tinha trabalhado com Alf no Chico’s Bar quando propôs à RCA um trabalho que fizesse jus à qualidade dele como músico, já que estava há 12 anos sem gravar. O disco foi feito em um mês, quase escondido, aproveitando uma viagem do diretor Miguel Plopschi ao exterior, antes mesmo que ele desse a permissão definitiva. É um disco de convidados, em que Alf divide as faixas com artistas do naipe de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Emílio Santiago, Leny Andrade, Sandra de Sá, Zizi Possi, Roberto Menescal e Márcio Montarroyos. Os arranjos são de Guto Graça Mello (cordas) e Jamil Joanes. Alf toca em todas as faixas, ao lado de Lucas Maciel, Ivo Caldas, Paulinho Braga, Jamil Joanes e do próprio Líber.

O repertório mistura grandes

sucessos − Ilusão à Toa, Seu

Chopin, Desculpe, Rapaz de Bem,

O que é Amar e Eu e a Brisa − com

inéditas, entre elas as excelentes

Nossa Festa e Olhos Negros. Esta

última, em parceria com Ronaldo

Bastos e cantada em dupla com

Caetano Veloso, foi bastante tocada

no rádio. O resultado final é muito

bom, e serviu para atrair a atenção

da mídia, que o havia praticamente

esquecido. As vendas, entretanto,

foram decepcionantes, apenas 10

mil discos. No lançamento em CD

foram acrescentadas mais duas

canções inéditas, sem convidados.

Uma delas é Bar da Praia, feita para

seu amigo Caldeira, de Santos.

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Um disco inacabado

Em 1992, Alf iniciou a gravação de outro LP, produzido por João Sérgio.

Os músicos foram Lucas Maciel no baixo, Ivo Caldas na bateria e o saxofonista francês Idriss Boudrioua. Apenas sete faixas, todas então ainda inéditas: Plexus, Choratina, Avatar, Convite, Eu Amanheci, Sintonia e Matinal. Por motivos nunca esclarecidos, ele se desinteressou do trabalho, que nunca foi termi-

-nado. Mas existe, gravado e mixado.

Nova fase

Em 1991, Alf conheceu Nelson Valencia, que veio a ser seu último empresário:

Eu fazia assessoria de imprensa para algumas casas noturnas onde o Johnny já havia se apresentado. Em 1992 nos aproximamos e começamos o trabalho cantor/empresário. Eu trabalhava com a Claudette Soares e estava cuidando da produção de um novo disco dela. Queria fazer um disco cult , com grandes compositores. Fui atrás do Johnny para ver se ele tinha algo inédito para ela. Ele deu duas músicas, que ela gravou E Aí? e Choratina .

Conversamos muito. Tive um impacto muito grande ao conhecê-lo mais de perto. Estava indo na casa de uma das pessoas mais importantes do mundo, tremia muito, afinal era o cara . Ele me disse que se eu arranjasse algum trabalho tamos aí .

Passou uma semana me ligou um empresário muito famoso, visivelmente contrariado, dizendo que tinha um show para o Johnny, e que ele disse que era para tratar comigo e queria saber as condições. Nem eu sabia qual eram as condições, fui pego de surpresa. Não levei à sério que ele poderia querer trabalhar comigo. Lógico, ninguém levaria, ele era de uma importância gigantesca, quem era eu? Pois assim começou. Nunca pude esquecer esse gesto dele. Tamanha generosidade, entregar seu trabalho em minhas mãos.

Que medo! Mas fui em frente.

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Lar doce lar

Um dos problemas cruciais da vida do Alf sempre foi ter onde morar. Já vimos o grande trauma que passou ao ser expulso pela família de criação, quando resolveu ser músico profissional. E como chegou a dormir na praia.

E também como morou na casa de amigos, como Luiz Paulo Ribeiro, Vítor Freire e César Camargo Mariano, em alguns casos por um longo tempo.

A essa lista podem ser acrescentadas outras pessoas, como Lea Cavalcanti, filha de seu amigo compositor, Armando Cavalcanti, e a cantora Áurea Martins

− ambas no Rio − e Vera Lúcia Coelho, grande amiga e confidente, em São Paulo. Em outras ocasiões, morou em locais inusitados, como no porão da Academia Meirelles de Música. Ou em hotéis, geralmente na região boêmia.

No Rio, na Praça Tiradentes. Em São Paulo, na Boca do Lixo. Passava o tempo de sunga, ouvindo música no quarto, só ou acompanhado. Depois radicou-se no bairro popular da Mooca, onde residiu em diversos endereços. Os dois últimos foram nas Ruas Porto Feliz e do Oratório. Mesmo essas não eram residências convencionais. O apartamento da Porto Feliz era grande, com três quartos, mas, segundo João Sérgio, tinha apenas uma geladeira, um piano velho, um sofá-cama e pilhas e pilhas de discos e livros, cuidadosamente arrumados em ordem alfabética e temática. Lito Robledo lembra que a mesinha da sala era a caixa de papelão onde veio a televisão.

Na Oratório era uma casa, mas não muito diferente. O baixista Marcos Souza confirma que tinha um quarto só com santos e ele colocava oferendas, doces, balas. Também tinha um quarto com prateleiras de aço cheias de vídeos.

Segundo o guitarrista Alexis Bittencour t, continha pilhas de discos de vinil e de CDs, dos mais variados gêneros. Lembro de ter me surpreendido ao encontrar a trilha sonora do filme Rei Leão, e também diversos discos de conjuntos de rock, como Animals, Bread, entre outros. Infelizmente, por Johnny Alf ser um homem humilde, de estilo de vida bem simples e recluso, muito dessa coleção se perdeu ou estragou (incluindo várias partituras), pois, sem condições de guardá-la adequadamente, muita coisa ficava desorgani-zada e ao relento, sofrendo as mazelas causadas pela chuva e vento.

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Esse abandono se refletia também no modo de vestir desleixado e desatento, que causou preocupação e nervosismo em seus últimos empresários. Se não ficassem atentos, havia o risco de ele aparecer com uma roupa velha de jogging, ou com uma camiseta com propaganda de um posto de gasolina, ou de chinelo. Frequentemente era levado para comprar novas roupas mais apropriadas. Na verdade ele fazia todos os serviços domésticos: limpava, lavava e cozinhava. Alguns de seus amigos mais populares causavam certo desconforto nas casas noturnas mais caretas onde trabalhou. Ele não estava nem aí.

Eu ouço som e faço as fitas quando me urge a necessidade,

depois de fazer outras obrigações às quais são referidas o rótulo de domésticas, mas que para mim representam fonte de rotatividade.

Por isso moro sozinho e gosto eu mesmo de fazer tudo porque um

lado complementa o outro! E vivendo só eu aprendi a conhecer a

mim mesmo profundamente! E dia a dia vou tentando corrigir ou

aprendendo a tirar partido das minhas deficiências.

Até 1990 ele vivia isolado do mundo. A primeira TV veio de brinde pela utilização de uma música num comercial da Sharp. Foi no tempo do João Sérgio. Depois descobriu o gravador. Gravava muitas fitas cassete para presentear os amigos, tipo miscelânea, sem identificar as músicas, o que só fazia vários dias depois. Chamava isso de “brincadeira didática.”

Vejamos um exemplo, tirado de uma carta para Eduardo Caldeira em 1987:

“Nossa Rua , Leila Pinheiro; The River , John Williams Orchestra; Quintessência , Edson Machado & Samba Novo, arranjo de Meirelles, solos de Paulo Moura e Raulzinho; Is This That Feeling Gets , Dee Dee Bridgewater; Porgy and Bess Suíte , Rob Mac Connel Band; Só por Amor , Edson Machado & Samba Novo; Passa por Mim , Luiza; Fascinating Rhythm , John Williams Orchestra; Sky and Sea , Fifth Dimention; Água Marinha , Fátima Guedes; Pavane , Ravel: 89

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Fumiaki Miyamoto, oboé, com conjunto japonês;

By Myself , Ann Richards (esposa de Kenton); Eu

e a Brisa , Paulo Moura; Someday , George Duke.

O videocassete causou outra revolução em sua

vida, pois renovou seu antigo amor pelo cinema.

Via de tudo. E procurava filmes raros, como a

versão sem cortes de Solaris, ficção científica

russa de Andrei Tarkovsky; ou Show Boat, não

a versão musical do George Sidney, mas o origi-

nal, do diretor maldito James Whale; ou ainda

Sebastiane, filme erótico de Derek Jarman sobre

a vida de São Sebastião, com diálogos em latim!

O gosto era eclético, mas sempre sofisticado.

Para Nelson Valencia, o que sempre me chocou

e nunca consegui entender, foi como um artista

que produzia um produto tão sofisticado, podia

ser tão simples, quase miserável nas suas ex-

pectativas. Por volta de 2005, levando ele para

casa, ele me disse que estava muito realizado,

pois tinha um fogão, uma geladeira, as coisas

dele. Deixei ele em casa e voltei para casa chorando,

pensando em como todos nós somos tão peque-

nos e na grandeza daquele homem. O filho da

empregada, que sempre viu sua mãe usando

a geladeira e o fogão da patroa, estava vingado :

tinha uma geladeira e um fogão.

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Uma anedota divertida

Conta o baixista Marcos Souza: Tenho uma história com o Johnny e o Ramon, no Rio. Ele marcou um show com o produtor João Sérgio, no Rio Jazz Club. Mas me falou que eu teria de ir de carro e também não teríamos hotel pra ficar, mas ele tinha arrumado a casa de um amigo pra gente ficar hospedado, pois não tinha muita grana na produção. Chegando ao Rio fomos direto para a Rodoviária apanhar o Ramon que levou a bateria de ônibus e seguimos para a boate para passar o som e por volta das 18 horas fomos para a casa do amigo dele que nos hospedaria. Era em Marechal Hermes.

Tava uma chuva, um trânsito, eu dirigindo e não chegava nunca. Depois de quase duas horas de viagem, chegamos. A casa do cara tinha um quarto, um banheiro, uma área de luz pequena e uma cozinha onde moravam a irmã do cara com o marido, mais o cara com um filho de uns dez anos, mais o Johnny, eu e o Ramon. Era uma casa, de fundos, muito simples, mas comecei a ficar preocupado, pois vi que não caberia todo mundo lá.

E a chuva não parava. Não tinha pra onde ir. Assim que acabei de tomar banho já estava na hora de voltar para a boate e tome mais pista e chuva.

Isso foi numa sexta-feira e também faríamos o show de sábado. Quando acabou, fomos comer alguma coisa e já eram três e meia da manhã quando voltamos para Marechal Hermes. Chegando lá me deparei com um casal dormindo no chão da sala, o menino também e o dono da casa falou pra mim que o quarto era pra mim e para o Ramon, o baterista. Estava cansado e só queria descansar, pois havia dirigido o dia todo. Deitei na cama do casal e logo depois o Ramon deitou ao meu lado. Me deu um acesso de riso que eu não conseguia controlar. Sei que acabei dormindo e às dez horas do dia seguinte me levantei e me sentei na cozinha. O Johnny, acho que dormiu numa varandinha da casa, já estava preparando o almoço. O cozinheiro era ele. Falei que iríamos procurar um hotel para mim e o Ramon, pois tiramos 91

a privacidade do casal e estava muito apertado para eles todos, inclusive para as baratas que circulavam pelas paredes da cozinha. Ele me falou que de jeito nenhum, que a gente não iria gastar com hotel e tava tudo bem.

Tentei umas três vezes falar com jeito e ele sempre falava a mesma coisa.

Foi me dando um desespero, ele percebeu que eu não estava à vontade, daí ele concordou.

Isso já era meio-dia e a chuva não tinha passado. Peguei o carro e fomos para Copacabana onde consegui um hotel baratinho no Leme, numa rua bem próxima do Rio Jazz Club. Hotel Acapulco. Nunca vou esquecer esse nome.

No sábado fizemos o show novamente e ele no mesmo esquema com o amigo. No domingo, voltamos para São Paulo, e ele nunca comentou nada.

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Curiosidades pessoais

Um traço inusitado na personalidade de Alf era a gula. Se observarmos suas fotografias, comprovamos como em alguns períodos esteve muito gordo, quase obeso. Adorava doces, por exemplo. Simon Khoury cita o shishbarak, doce árabe feito de coalhada e nozes, como um de seus preferidos. Também criou fama um famoso pavê feito pelo saxofonista Idriss Boudrioua, seguin-do a receita de sua mãe francesa. Para Nelson De Mundo, seus prazeres eram cinema e cozinhar, o que fazia para os músicos, quando se hospeda-vam na casa dele. Macarrão com galinha, ou feijoada. Essa última atividade nem sempre era bem-sucedida. Até hoje Lito Robledo reclama de um feijão com coentro, um tempero para peixe. Segundo João Sérgio, quando ia fazer show ele ficava o dia inteiro em jejum, por causa da voz. Então, assim que acabava de tocar, saía apressado para jantar, sem dar muita atenção aos que iam cumprimentá-lo. Saía só com um grupo de amigos chegados para comer e conversar.

Tinha uma semelhança com João Gilberto: gostava de circular de táxi pela madrugada, tendo seu motorista preferido. Mais de uma vez veio assim de São Paulo para o Rio e vice-versa. Há também um bom anedotário sobre seus centros de macumba. Havia um em Niterói, onde levou uma famosa cantora, que saiu apavorada, quando, de repente, apareceu uma jiboia deslizando calmamente pelo meio do terreiro. Uma ialorixá anunciou um roubo na casa de Lea Cavalcanti, onde estava hospedado no Rio, fazendo Alf deixar a residência de uma hora para outra sem dar explicações, causando ressentimentos nunca superados. Em São Paulo, outra mãe de santo brecou sua ida para os Estados Unidos com Sarah Vaughan. E aplicou um telefone num de seus músicos, que ficou quase desacordado por alguns minutos.

Mas também havia o lado bom, como a Casa Mão Branca, um asilo para idosos, que ele ajudava financeiramente.

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Intimidades

Meu homossexualismo interfere como nuance que evidencia e policia meu comportamento junto às pessoas. É ele a brisa do título da

música, é ele o devaneio que inspirou a letra. Analise a letra e terás a sacação! Para um artista, o motivo de certas obras fica incrustado na pedra fundamental de sua personalidade e com bastante inteligência ele usa esse motivo num teor de simplicidade honesta, sem

se revelar aos outros se é isso ou aquilo! A arte o faz.

Às vezes eu posso necessitar de ter uma pessoa, mas isso vai

acarretar uma série de problemas no meu lado artístico, pois quem vive com artista tem de ceder muito e nem todo mundo está disposto.

Eu gosto mais das pessoas simples. Eu já tive intimidade com pes-

soas de cultura semelhante à minha, e na hora sempre há um

choque de personalidades.

Quanto ao tipo de aproximação interesseira, eu prefiro não ter. Já me desapontei bastante. Se alguém está comigo e me atrapalha, me força a deixar de ser aquilo que eu quero ser, eu fico com a música, que é o que me segura, me completa e de onde eu tiro o meu sustento.

Não existe felicidade completa. É melhor se conter diante de uma coisa incerta pra realizar aquilo que você consegue bem. Mas se há proveito de um lado e do outro é que a ligação foi feita num astral legal.

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Sete anos sem gravar

Em seguida a Olhos Negros, Alf passou mais um longo período, sete anos, sem gravar um disco solo. Mas, aos poucos, depois da publicação em 1990

de Chega de Saudade − A História e as histórias da Bossa Nova, do Ruy Castro, sua importância na modernização da música brasileira começou a ser reavaliada. Nesse mesmo ano fez uma excursão para o Japão, ao lado de Dóris Monteiro e do percussionista Marçal. Voltou entusiasmado com a qualidade dos pianos. Também gravou na TV Cultura, sob a direção de Fernando Faro, o prestigioso programa Ensaio, onde, durante uma hora, respondeu a perguntas, conversou, tocou e cantou. Dezessete anos depois o programa foi comercializado em forma de DVD. É inevitável a comparação com aquele outro programa, gravado 21 anos antes na mesma emissora, onde demonstrava um nervosismo e uma inquietação agora inexistentes.

São dois momentos diferentes e significativos de um mesmo artista.

O novo Alf é calmo, tranquilo, centrado, equilibrado. Credita-se essa mudança ao abandono da bebida, mas é algo mais profundo, de fundo místico e existencial. É mais ou menos nessa época que ele passou a frequentar o Centro de Estudos de Filosofia Espiritual (CEFE) em Ribeirão Preto, dirigido por Carlos Necchi, um velho amigo, ex-administrador do João Sebastião Bar.

A linha seguida pelo centro é a Teurgia, que promove a comunhão direta com Deus, ao contrário da Teologia, que apenas estuda as obras divinas.

Algumas de suas novas composições revelam o tema do misticismo.

Agora ele se exibe com certa regularidade no circuito Sesc em São Paulo, e também pelo Brasil afora. Os esforços começam a ser recompensados.

Em 1996 participou do Free Jazz Festival, no Rio e SP. Os shows foram muito concorridos e agradaram bastante. O crítico americano Larry Birnbaum, da revista Jazziz, descreveu sua performance como brilhante. Também gravou participações nos songbooks de Tom Jobim, Marcos Valle, João Donato, Djavan e Chico Buarque produzidos pela gravadora Lumiar, de Almir Chediak.

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Nono LP

Noel Rosa Letra & Música (1997)

No songbook do Chico eu gravei duas músicas de um jeito que o Almir Chediak gostou muito, e me ligou dizendo vamos fazer

uma coisa com Noel Rosa. Eu já conhecia umas coisas, pois morei em Vila Isabel no tempo que o Noel estava lá. Eu era garoto, então havia essa afinidade. Foi fácil para mim, pois eu gosto muito da

música dele. Os arranjos do Leandro Braga, foi tudo maravilhoso,

um prêmio que eu ganhei na minha carreira.

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Na contracapa o maestro e pianista Leandro Braga afirma que, fazer esse CD

com o Johnny foi uma coisa muito gostosa. Foi muito fácil porque eu tive toda liberdade para fazer os arranjos, e não tive nenhum empecilho por parte dele, que até estimulava muita coisa, inovador, propondo coisas audaciosas harmônica e melodicamente. Me lembro que em uma das músicas, Não Tem Tradução , aquela do cinema falado, eu tive a ideia de botar um DJ usando aquelas picapes. O Chediak até ficou meio receoso. O Johnny, mais velho do que todos nós, tinha uma cabeça muito mais aberta. Tenho esse trabalho como um momento muito especial da minha vida.

São 13 sambas de Noel, a maioria deles entre os já regravados por Araci de Almeida em 1951 nos seus dois famosos álbuns da Continental, com capa de Di Cavalcanti. Alf, que não toca piano, apenas canta, está em ótima forma vocal. Os arranjos são corretos, mas pouco ousados, e parece ter havido a preocupação de conter os glissandos e as modulações do cantor. Há uma parceria de Alf com Paulo César Pinheiro, Noel, Rosa do Samba que encerra o disco. Bem-feita, mas burocrática e sem brilho. O único fato que une o clássico Noel e o moderníssimo Johnny Alf, o de ambos terem nascido e crescido em Vila Isabel, e a família de criação de Alf ter tido relações de amizade com a família de Noel (segundo ele me contou) não é sequer citado na contracapa.

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Décimo LP

As Sete Palavras de Cristo na Cruz (1998)

Nove temas orquestrais inéditos, de inspiração sacra. Uma parceria com Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, Ressureição, a única faixa em que participa da gravação. No intervalo entre as músicas, sete poemas em forma de oração de autoria de Dom Pedro Casaldáliga, em espanhol. Existe também com versão em português, recitada por Alfredo Alves. Arranjos do maestro Antonio Duran. Na capa, o Cristo de Salvador Dalí. Produção das Edições Paulinas/Comep.

Esse é outro projeto inusitado

na carreira de Alf. A princípio,

nada mais diferente de sua

música intimista e dissonan-

te do que os textos vibrantes

do principal nome da Igreja

da Libertação no Brasil. Sua

Eminência já era parceiro,

com Milton Nascimento,

da Missa dos Quilombos.

Os temas de Alf são discre-

tos, mas a qualidade precária

da gravação nos impede de

dar um veredito definitivo.

A parceria não emociona.

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Dois vídeos inéditos e dois CDs

ao vivo (1998/99)

João Carlos Rodrigues, jornalista e pesquisador, autor deste livro: Como muitas outras pessoas, eu conheci o Johnny Alf num sebo de discos. Foi na Rua Sete de Setembro, no Rio. Por volta de 1989/1990. Eu comprei o Diagonal em vinil por um preço meio salgado, e o dono, que era amigo dele, perguntou se eu queria conhecê-lo, e fez a ponte. Nos primeiros cinco minutos de conversa ele já me perguntou se eu tinha a versão integral de Solaris , um filme de ficção científica russo, dirigido pelo Andrei Tarkovsky. Eu não tinha, é claro, pois é raríssimo. Mas tinha assistido em Nova York e descrevi para ele as diferenças, etc. Até hoje me pergunto se não foi uma pegadinha, para ver se eu merecia que ele perdesse tempo comigo. Conversamos horas. Nessa época ele se apresentava muito no Vinícius Bar, e eu ia sempre. E também falávamos por telefone, todos os domingos de manhã, depois que voltou para São Paulo. Trocamos fitas, CDs e DVDs.

Em 1996, tive a sorte de ganhar uma bolsa da Fundação Rockefeller para dirigir um vídeo, e escolhi fazer sobre ele. O dinheiro só dava para metade, então completei a outra com minhas próprias economias. Tudo muito simples devido ao orçamento: uma entrevista e um show ao vivo no Vinícius Bar, com duas câmeras. Assim que fechei a produção, constatei que a imagem ia ficar pobre, não há possibilidade da câmera se movimentar dentro da boate, que é minúscula. Então aluguei uma mesa de som de trinta canais, que ficou na garagem do prédio, e gravei tudo separadamente em ótimas condições.

Como havia sincronismo absoluto, pois tudo foi feito junto, substituí o som do vídeo pelo som da mesa mixado, e produzi com o resultado dois DVDs de média-metragem e dois CDs. Os DVDs se chamam Um Retrato de Johnny

e Cult Alf . No primeiro ele fala da carreira e canta os grandes sucessos.

No segundo, comenta suas preferências artísticas e canta músicas menos comerciais. Foram exibidos em mostras e festivais, mas nunca comercializados.

Os CDs seguem aproximadamente o mesmo critério, mas foram lançados no mercado, licenciados para pequenas gravadoras. Em Cult Alf ele homenageia Dick Farney e Villa-Lobos, canta Desafinado , Fim de Semana em Eldorado , 100

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Céu e Mar , as inéditas Luz Eterna e Redenção , da sua nova fase espiritualista, e toca a instrumental Idriss, dedicada ao saxofonista homônimo. Já em Eu e a Bossa estão um tributo a Vinícius de Moraes, os grandes sucessos e mais Tristeza de Nós Dois e as instrumentais Plexus e E Aí? . Acredito ter sido o único produtor a captar Alf no seu ambiente favorito, onde realmente ficava à vontade, a boate. E também o que mais deu destaque a suas improvisações no piano, sem o limite de tempo imposto pelas gravadoras. Há faixas de mais de dez minutos, como nos discos de jazz . Resumindo: não ganhei dinheiro, mas registrei para o futuro aquilo que tanta gente deve ter pensado, mas não fez.

Prêmio Shell

Alf foi o homenageado de 1999 pelo Prêmio Shell de Música. Antes dele já tinham sido vencedores Tom Jobim, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Baden Powell, Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Zé Kéti, Luiz Gonzaga, Roberto e Erasmo Carlos, Rita Lee e outros, todos bambas da música popular brasileira. Segundo Nelson Valencia,

foi uma produção fantástica, muito trabalho, mas fizemos um belo momento na carreira dele. Direção e roteiro de Helton Altman. Cenografia genial de Carlos Colabone. E coreografia de Jaime Arôxa. Participações especiais de Alaíde Costa, Leny Andrade e Emílio Santiago.

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Doença

Nelson Valencia: Foi em 1999/2000 que surgiram as primeiras queixas.

Foi ao médico, fez os exames e constatou a doença. Câncer de próstata.

Começou um tratamento com uma injeção bem cara, pois, segundo o médico, uma cirurgia na idade dele não seria aconselhável. Ele seguiu alguns meses tomando a tal injeção (Lupron). Depois ele não quis continuar o tratamento e fiquei sabendo pelo Ribamar (amigo dele do Rio, que é médico), que ele teria dito que faria um tratamento espiritual, que o Ribamar desacon-selhou, pois disse que isso era sério e ele deveria cuidar com médico. Mas, como sempre, ele fez do jeito que quis.

Essa doença terrível, o adenocarcinoma, é mais frequente em homens da raça negra com mais de 50 anos ou profissionais que trabalham sentados, como pianistas. Ele era as duas coisas. Realmente, entre os seus sintomas estão a dificuldade de urinar, depois a incontinência e a dor óssea. Como sua evolução é muito lenta, pode ter começado muitos anos antes, talvez décadas.

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Outro disco inédito (2001)

Nilson da Matta: Foi em 2001 que veio a ideia de produzir um CD do Johnny Alf aqui nos Estados Unidos. O dono da gravadora Malandro Records (quando esteve no Brasil ele gostou do nome, mas não sabia exatamente o significado da palavra, achava bonito o malandro das antigas, calça branca, camisa listrada e chapéu de palha), Rick Warm, que também gostava das músicas do Johnny, topou a produção executiva e eu tive assim a felicidade de trabalhar com ele novamente depois de 36 anos, produzindo, arranjando três músicas e tocando o meu baixo. Os outros músicos que participaram foram o violonista Romero Lubambo, que também arranjou três músicas; o pianista e arranjador Cesar Camargo Mariano, com três arranjos; baterista Paulo Braga; guitarrista Guilherme Monteiro; pianista Hélio Alves; e o trompetista americano Randy Brecker. No repertório, os grandes sucessos.

Foram praticamente cinco dias de gravação e a maioria das faixas que ficaram como definitivas foram gravadas de primeira ou no máximo na segunda versão tendo assim um sabor (tom) bem natural e

espontâneo, quase como uma gravação ao vivo. Algumas vozes

foram refeitas em São Paulo quando fui para fazer a mixagem no estúdio Trilha Certa com o engenheiro Homero Lotito, que também fez a masterização no estúdio Reference Mastering Studio igualmente em São Paulo.

Alf, por motivo ignorado, implicou com o resultado e o disco não foi lançado. A gravadora fechou em 2005.

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Com Joyce Moreno no Japão

No ano seguinte, a convite de Joyce, fez uma série de shows no Blue Note do Japão, onde já havia estado em 1991. Deixemos que ela mesma fale.

Johnny aguentou bem o tranco da viagem. Fuso horário com ele era engra-

çado, porque ele era pessoa completamente noturna e solitária, não saía com a gente − eu e os músicos (Tutty Moreno, Teco Cardoso, Nailor Proveta, Rodolfo Stroeter − a gente se chamava de Banda Maluca) éramos praticamente uma família, fazíamos tudo juntos, refeições, compras e tudo. Ele nunca queria ir. Nem mesmo o jantar do Blue Note, servido entre os dois sets do show, ele levava uma quentinha para o hotel e comia lá depois. A gente entendeu que os hábitos dele eram esses, e o deixamos à vontade.

Fizemos Tóquio, Osaka, Nagoya e ainda o festival de Miyazaki, uma ilha que estava sendo assolada por um tufão quando chegamos. O show seria ao ar livre, mas foi adiado para o dia seguinte, e até o último minuto não se sabia se haveria ou não (finalmente houve). Na chegada, o avião quase foi parar no mar, arrastado pelo vento. Johnny ficou muito calmo, ou não demonstrou medo. Depois, já no hotel, o tufão era tamanho que em um dado momento vi na vidraça do meu quarto grudar uma folha de árvore. Só que eu estava no 36º andar! Não sei como ele se arranjou ali, sozinho. Mas não aparentava estar assustado com nada.

Por outro lado, ele ficou bastante dependente do Marcello, nosso tour manager , que dessa vez viajara com a missão específica de dar prioridade aos cuidados com o Johnny. Porque ele estava acostumado a ter o Nelson fazendo tudo por ele, e não conseguia nem ligar pro serviço de quarto sozinho.

Logo no primeiro dia, o Marcello saiu com a gente pra comer e, quando chegou ao hotel, ligou pro quarto do Johnny pra ver se estava tudo bem.

Ele pediu que o Marcello fosse até lá. Quando ele chegou, o quarto estava às escuras. O Johnny não tinha lembrado que era pra botar a chave na parede para ter luz no aposento todo. E ficou ali quietinho, sem comer, sem dizer nada, até alguém ligar pra ele. Depois dessa, pedi ao Marcello que colasse nele direto, pelo resto da temporada, e assim foi feito. E foi quando descobrimos que ele já começava a urinar sangue, mas não queria que ninguém soubesse.

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O disco japonês (2002)

Esse disco eu gravei em três horas por causa da economia.

Hidenori Sakao, produtor na contracapa do CD: O produtor musical de Tóquio, Jun Itabashi, do selo Bossanovologia, veio ao Brasil em 1998 para gravar o disco do trio vocal A Três. Johnny participou de uma faixa, Eu e a Brisa . Na ocasião, Jun confidenciou-lhe que sempre teve em mente produzir um disco exclusivo de Johnny Alf, contendo somente obras inéditas. Johnny gostou da ideia e aceitou com prazer, declarando que também tinha tido o mesmo plano, mas até agora nenhuma gravadora havia aceitado a sua proposta. Em 2002 concretizou-se finalmente o sonho de Jun. O destaque especial desse CD é que ele consegue reproduzir fielmente o som que se praticava na década de 1950, quando se gravava com fita de duas polegadas no sistema analógico e onde a execução era simultânea, cantor e músicos.

Para satisfazer essa condição, foi escolhido o Nossoestúdio, de Walter Santos, que está devidamente equipado, possuindo até piano de cauda.

Eu me senti como se tivesse entrado numa cápsula do tempo. Ao fechar os olhos, via Johnny Alf tocando no bar Golden Hall da Avenida Paulista.

Alexis Bittencourt completa as informações em sua dissertação de mestrado na Unicamp: Jun entregou ao técnico responsável pela captação dos instrumentos e da gravação, um CD do grande pianista norte-americano Bill Evans, Interplay, gravado no início da década de 1960, como referência da sonoridade desejada, por este ser constituído praticamente da mesma configuração instrumental. O resultado foi um CD bem jazzista, recheado com improvisos e arranjos instantâneos, contendo 15 músicas inéditas gravadas por Alf, então com 73 anos, em apenas dois dias.

Lançado no Japão com o título Johnny Alf Sings and Plays with his Quintet, este CD só saiu no Brasil três anos depois, em junho de 2005, pelo pequeno selo Guanabara, com o pouco criativo título de Mais um Som. Não fosse a produção apressada, o resultado poderia ter saído bem melhor. A voz, devido à grande depressão que atravessava, já não é mais a mesma, parece cansada.

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São 15 músicas de sua autoria, inéditas na sua voz, duas delas em parceria com o guitarrista Rômulo Gomes. Do total, uma tinha sido gravada anteriormente por Claudette Soares ( Choratina), uma por Isaura Garcia ( Pisou na Bola), outra por Cláudia Telles ( Ai, Saudade). Três provenientes do disco inacabado de 1992 produzido por João Sérgio ( Convite, Eu Amanheci e Sintonia), e também algumas entregues a amigas cantoras, Marisa Gata Mansa ( Operação Esquecimento) e Áurea Martins ( Ensaio pra Ilusão), mas que elas não tinham tido oportunidade de gravar. Duas delas ( Noite sem Lua e Céu de Estrelas) são egressas dos anos 1950, ainda do tempo da Cantina 108

do César. Tinham sido feitas para Dolores Duran, que morreu antes de cantá-las, e ficaram esquecidas. O autor deste livro, em conversa com Paulinho Jobim, filho de Tom, soube que seu pai costumava tocá-las em casa. Lembrou do fato ao Alf, que ficou muito surpreso por alguém ainda se lembrar delas, e decidiu registrá-las. Na verdade, estão entre as melhores de todo disco. Assim como Tema da Cidade Longe, outra obra-prima, letra e música, que embora composta em 1964, na época do Beco das Garrafas, gravada em 2002 adquire inesperadas características de confissão: Boemia em bar

Já deixei de gostar

Como é bom variar

Pra essa estrada de luz

Nós viemos fugir

Madrugada de azul

Nós viemos sentir

E a lua, sorrindo pra nós

É a alegria de um triste

Alegria de um triste qual eu

Que esquece que existe

E lá embaixo olhe só

A orgia se vê

Tanta luz cintilar

E quem sabe por quê?

Vem de lá e se ouve daqui

O lamento de um mundo

É o tema da cidade longe

Em adágio profundo

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Excursão europeia e discos

na Alemanha

Mais e mais começaram a surgir possibilidades internacionais. Em outubro e novembro de 2003, Alf, ao lado de Alaíde Costa, participou de uma turnê por 15 cidades europeias, entre elas Londres e Zurique. Foi uma iniciativa de dois músicos alemães, o guitarrista Paulo Morello e o flautista e saxofonista Kim Barth. Como resultado, o CD Fim de Semana em Eldorado, onde Alf canta a música título, e divide com Alaíde O que é Amar e Chora Tua Tristeza, de Oscar Castro Neves e Luverci Fiorini. Há também na Internet uma excelente Girl from Ipanema gravada no Elizabeth Hall London Jazz Festival.

O resultado é bom, embora a voz não seja mais a mesma e tenha preferido não tocar piano, só cantar. A convivência com os alemães não foi das melhores, com o Alf cada vez mais deprimido e impaciente. No ano seguinte, Alf e Alaíde não participaram e em seu lugar foram Peri Ribeiro e Leny Andrade.

A dupla Morello/Barth lançou então outro CD, Bossa Nova Legends, com material das duas turnês. Nele, Alf canta Rapaz de Bem e Wave.

Com Alaíde Costa no Elizabeth Hall London Jazz Festival, 2003

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Cerimônia do adeus

Eu sempre fui uma pessoa fechada. Quando eu era garoto, aos nove, dez anos de idade e morava em Vila Isabel, de manhã cedo batia sol no degrau da cozinha, e eu ficava lá sentado pensando em tudo que está acontecendo hoje. Talvez fosse uma premonição espiritual.

Em 2005, Alf resolve se desfazer de sua coleção de discos e vídeos, a primeira das quais iniciada quando ainda era adolescente. Da noite para o dia, decide também deixar sua casa na Mooca e morar no hotel Itamaraty, no centro. As razões são ignoradas, mas podemos supor.

Segundo Nélson Valencia, Já no começo de 2007, em janeiro, ele começou a andar com certa dificuldade. Eu questionei e ele dizia que dormiu de maljeito, que era dor na coluna. Como ele já estava morando no hotel, os funcionários iam me dizendo que ele estava com muita dificuldade para andar. Nós fizemos um show no Sesc Pinheiros, que era ele com o Ed Motta. Ele começou o show já sentado no piano e saiu apoiando no braço do Ed. Insisti para irmos ao médico, mas ele não queria. Passados alguns dias, ele não conseguia mais ficar de pé, muito menos andar. Fui buscá-lo para ir ao médico e ele disse que não iria de jeito nenhum. Briguei com ele e carreguei forçado mesmo. A Vera (Lúcia Coelho) me acompanhou. Na emer-gência, fomos para o serviço público, pois ele não tinha nenhum convênio.

O atendimento foi completamente caótico. Fiquei chocado com aquilo.

Vi que teria que tentar alguma outra coisa. Daí falei com a Lulu Librandi, que é uma produtora cultural, uma pessoa que sempre soube envolvida em ajudar artistas que ficam nessa situação. Ela foi superatenciosa. Primeiro levou um médico ao hotel, que atendeu ele sem cobrar nada. Mas cons-tatando a gravidade da coisa, ela falou com um secretário do governador, que providenciou um encaminhamento dele para o Hospital Dante Pazzanese e depois para o Hospital Mário Covas, em Santo André. O encaminhamento para o Hospital Mário Covas se deu quando se constatou que era um problema oncológico e esse hospital é uma referência no Estado para esse tipo de tratamento. Nesse momento o quadro dele era a perda do equilíbrio.

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O tumor da próstata havia avançado e consumido parte do osso da base da coluna. Com isso ele não andava e não conseguia ficar de pé. Sem falar da depressão que tomou conta dele.

Marcos Souza, baixista: A partir de 2002, comecei a notar certo envelheci-mento nele, a doença já estava lá. Sua voz já não era muito firme e também não fazíamos muitos shows como antigamente. Ele foi perdendo o pique e até que em janeiro de 2007 fizemos um show com o Ed Motta e ele teve muita dificuldade de andar e em certa hora, no camarim, me pediu para ampará-lo. Na semana seguinte o Nelson o levou no médico e foi diagnosti-cado que a doença tinha passado para os ossos. Foram dois anos de depressão na clínica. Ele ficava o dia todo deitado numa cama olhando para o teto, não ouvia música, não assistia à televisão. Nada. Foi muito triste de vê-lo nessa época. Mas depois ele foi para o Hospital de Santo André e também se mudou para outra clínica, Recanto das Figueiras, também em Santo André.

Aí as coisas reverteram totalmente, pois ele tratou a depressão e tocava um pouco de piano com o coral do hospital e até voltou a fazer show. Às vezes, para não deixar a peteca cair, fazíamos uns ensaios com ele, no Sesc da Vila Mariana, só para animá-lo e dar mais segurança para ele tocar um pouco.

Ele saia de lá dando risada, animado e falando que queria a gente fosse tocar no hospital. Então fizemos nossos dois últimos shows em maio do ano passado, no Sesc Pinheiros, na comemoração de seus 80 anos de vida, junto com Emílio e Alaíde.

Nesse meio-tempo, voltando a Nelson Valencia, o Dr. Milton Borrelli abraçou o caso dele. Fez uma cirurgia de raspagem de testículo, muita fisioterapia, tratou a depressão. Como o tratamento demandava muitas idas e vindas para o hospital, o melhor foi levá-lo para morar em Santo André. Foi para uma casa de repouso lá, muito boa e vizinha ao hospital. Ele voltou a andar, sem equilíbrio, mas andava bem e com apoio adequado, subia e descia escada. Em janeiro de 2009 voltou a trabalhar, fizemos um show marcando a volta dele, tendo a Alaíde Costa e Leny Andrade como convidadas. Esse show foi gravado pela TV Sesc. Muito desmotivado, ainda com muita insistência minha, pois entendia que a melhor terapia para ele seria o trabalho, 112

ainda fizemos a comemoração dos 80 anos com um show, ao lado do Emílio Santiago e Alaíde Costa. Nesse ele estava ótimo, muito feliz. Depois só mais um em agosto, dividindo o palco com a Alaíde Costa. Mas aí eu percebi que estava muito cansado e que o trabalho já não estava representando nenhuma força para ele, mas, sim, um sacrifício muito grande. Vi que não dava mais.

Ainda Nelson Valencia: Em outubro começaram as sessões de quimioterapia, o que causou um desgaste muito grande. Ao mesmo tempo que era o único tratamento possível, isso arrancava outras coisas da saúde dele. De qualquer forma, ele enfrentou bem, sem grandes problemas. O avanço da doença já era muito grande depois de alguns meses e mesmo a quimioterapia já não era mais indicada. Uma semana antes do óbito ele começou a se queixar de fortes dores nas costas.

Johnny Alf faleceu às 18 horas e 10 minutos do dia 4 de março de 2010, uma quinta-feira, no Hospital Mário Covas, em Santo André, São Paulo. O atestado de óbito registra falência múltipla de órgãos decorrente de neoplasia de próstata. No dia seguinte, foi velado no teatro Sérgio Cardoso e sepultado no cemitério do Morumbi, na Quadra XI, setor 7, jazigo 1.759. Foi-se discretamente, como viveu. Mas a herança que nos deixou não tem preço.

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O legado de Johnny Alf

Morto o artista, sobrevive a obra.

Johnny Alf deixou um acervo de aproximadamente 80 canções gravadas. Mais de 90% estão registradas com os Irmãos Vitale, mas há também algumas nas editoras Fermata, Mangione, Arlequim, Comep, Três Pontas e Warner Chappel.

Eu e a Brisa é a grande campeã, interpretada por cantores importantes de diversas gerações, como João Gilberto, Caetano Veloso, Maysa, Tim Maia, Márcia, Baby Consuelo, Waleska, Nora Ney, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Tito Madi, Wanderléa, Maria Creuza, Itamara Khorax e Cláudia Telles, fora as versões instrumentais de Paulo Moura, Lírio Panicalli, Ed Lincoln e Orquestra Tabajara. Alf tinha predileção especial pela gravação de Maysa no Canecão, feita em 1969. Ilusão à Toa vem a seguir, com registros por Sílvia Telles, Isaura Garcia, Claudette Soares, Caetano Veloso, Marcos Valle, Sérgio Ricardo, Alcione, Cauby Peixoto, Rosa Passos, Joyce, Zezé Gonzaga, Leila Pinheiro, Zimbo Trio, Egberto Gismonti, Rildo Hora, Nilze Carvalho, entre outros.

Rapaz de Bem (Wilson Simonal, Carlos Lyra, Emílio Santiago, Miltinho, Leila Pinheiro, Os Cariocas, Baden Powell, Toquinho, Dominguinhos, etc.), Céu e Mar (Agostinho dos Santos, Leny Andrade, Marisa Gata Mansa, Tom e Elis, Áurea Martins) e O que é Amar (Simone, Claudette, Sílvio Cesar, Wanderléa, Wanda Sá e Romero Lubambo) completam a lista das cinco mais. Todas as outras, inclusive clássicos como Disa, Escuta, Fim de Semana em Eldorado e Seu Chopin, Desculpe tiveram bem menos gravações. A pouca divulgação da obra de Alf fez com que passassem despercebidas pequenas obras-primas como Podem Falar, Plenilúnio, Eu e o Crepúsculo, Pensando em Você, Ama-me, Desbunde Total, Tema da Cidade Longe, Nós, Nossa Festa, e outras que aguardam ser um dia redescobertas.

Além dessas, lançadas pelo próprio Alf, existem as que foram gravadas apenas por terceiros. Alaíde Costa, sua intérprete favorita, lançou com exclusividade Estou Só (1965), Quem Sou Eu? (1976) e Meu Sonho (2006), fora Penumbra e Em Tom de Canção (em 1969, apenas na televisão). Márcia, Boêmio do Samba e Sorriso Antigo, em 1969. Os Cinco-Pados, quinteto constituído, entre outros, pelos cobras Heraldo do Monte (guitarra) e Hector Costita (saxofone), em seu único disco, de 1964, registrou a instrumental

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Bossa Banca. E temos ainda Elza Soares ( O que Vem de Baixo não me Atinge, 1972), Dick Farney ( Só Nós Dois, 1976), Cauby Peixoto ( Gesto Final, 1982), Maricene Costa ( Quem Te Ama Sou Eu, 2002). O próprio Alf cantou uma única vez a perturbadora Elegia na TV Cultura em 1969, e a elogiada Avatar, no disco inédito de 1992. Ele me falou um dia sobre a misteriosa

Oxalá, que o público talvez ainda não esteja preparado para aceitar, que, ao que tudo leva a crer, se perdeu.

A essas devemos somar 26 inéditas, a maioria esmagadora do início dos anos 1960, seu grande período. Vinte estão registradas com Irmãos Vitale.

São, por ordem alfabética: Alegretto, Amanheceu (com Dalmo Castelo),

Calor de Você, Canto dos Tempos Chegados, Desvantagem, Eclipse (com Marivaldo Fernando), Eu Respondo por Mim, Falei Teu Nome, Joa Joluda, Luz de Amor, Mais que Nós, Momentos (com José Briamonte), Noite e Penumbra, Noites de Vigília, Nossa Senhora, Ponto de Vista, Promessas, Querendo Ficar (com Ari Francisco), Só Sinceridade, Tema e Tema da Calma.

As seis restantes estão na Fermata: Coisa Boa Já se Vê, Embalo Gostoso, Eu Vou lhe Despachar, Feliz Conclusão, Minha Conformação, Oia, Caboclo.