Jornalismo alternativo para a questão ambiental amazônica por Maurício Pimentel Homem de Bittencourt - Versão HTML

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0

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA AMBIENTAL

MAURÍCIO PIMENTEL HOMEM DE BITTENCOURT

JORNALISMO ALTERNATIVO

PARA A QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA

SÃO PAULO

2013

1

MAURÍCIO PIMENTEL HOMEM DE BITTENCOURT

JORNALISMO ALTERNATIVO

PARA A QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Ciência Ambiental (PROCAM) da

Universidade de São Paulo para obtenção do

título de Doutor em Ciência Ambiental.

Orientadora: Profa. Dra. Eda Terezinha de

Oliveira Tassara.

Versão Original

(versão original disponível na Biblioteca da Unidade que aloja o Programa e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP) SÃO PAULO

2013

2

AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE

TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA

FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

FICHA CATALOGRÁFICA

Bittencourt, Maurício Pimentel Homem de.

Jornalismo alternativo para a questão ambiental amazônica./

Maurício Pimentel Homem de Bittencourt; orientadora : Eda

Terezinha de Oliveira Tassara. – São Paulo, 2013.

276f.: il.; 30 cm.

Tese (Doutorado – Programa de Pós-Graduação em Ciência

Ambiental ) – Universidade de São Paulo

1. Meio ambiente - Amazônia. 2. Jornalismo alternativo –

aspectos ambientais. I. Título

3

MAURÍCIO PIMENTEL HOMEM DE BITTENCOURT

JORNALISMO ALTERNATIVO PARA A QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (PROCAM) da

Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Ciência Ambiental.

TESE APROVADA EM ____ / ____ / ______.

_________________________________________________

_________________________________________________

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4

Para Fabiana e Caio.

5

AGRADECIMENTOS

À orientadora Eda Tassara por disponibilizar com generosidade mais do que

conhecimentos científicos: sabedoria;

À amada Fabiana pela dedicação leal; pelo auxílio ágil e eficiente durante todo o

processo desta obra;

Ao filho Caio, companheiro paciente e afetuoso: meu melhor amigo;

A Peregrina Gomes Serra por manter firme a crença;

Aos pais Maria Beatriz e Sergio pelos ensinamentos de toda uma vida;

Ao vovô José ( in memoriam), à vovó Stella, a todos os familiares e professores que se

dedicaram à minha educação ao longo dos anos;

À Norma e ao Paulo, minha família mineira, pela amizade sincera;

À irmã Ana Helena, a Elane Lima, Isadora e Andrea Marques, Cosmo de Souza,

Cristiano Rodrigues, Fábio de Castro, Georges Caramanos, Milton Francisco, Paulo e Caco

Peres, Victor Romero, amigos presentes nesses quatro anos;

Aos pensadores Antonio Alves e Nilson Mendes pelas ideias de liberdade e beleza;

Aos povos da Amazônia e do Acre pela inspiração;

Aos alunos que participaram desta pesquisa;

Aos professores Celso Frederico, Dennis de Oliveira e Marcos Sorrentino;

À Secretaria e professores do PROCAM;

Ao pessoal da UFAC: Reitoria, Diretoria de Pós-Graduação, PROEX e PROPEG;

Aos colegas do curso de Jornalismo e do Centro de Filosofia e Ciências Humanas;

À CAPES.

6

Há algo de uma guerra civil difusa por todos os cantos e recantos do mundo.

Octavio Ianni

7

RESUMO

BITTENCOURT, Maurício Pimentel Homem de. Jornalismo alternativo para a questão

ambiental amazônica. 2013. 276 f.. Tese (Doutorado em Ciência Ambiental) – Programa de

Pós-Graduação em Ciência Ambiental (PROCAM), Universidade de São Paulo, São Paulo,

2013.

Este trabalho descreve a concepção, o planejamento e o processo de viabilização da

intervenção constitutiva de uma mídia alternativa na sociedade amazônica, com suas

articulações políticas e de custeio. Configurando-se como uma pesquisa técnico-empírica, seu

objeto consistiu no processo de criação de um meio de comunicação jornalístico alternativo: a

Agência Ambiental de Notícias da Amazônia (ANAM). Enquanto veículo de comunicação, o

objetivo da ANAM é alimentar e fundamentar o debate sobre a questão ambiental amazônica

(QAA), ampliando seu teor democrático e contextualizando-o sob o enfoque de uma crítica da

visão hegemônica do desenvolvimento – a visão comprometida com os interesses capitalistas

do processo global de produção. A concepção de um projeto editorial para a ANAM, sua

concretização como meio de comunicação na internet e como projeto de extensão

universitária em uma universidade pública amazônica demonstraram que a proposta de

intervenção é viável sob as condições estratégicas que delimitaram sua proposição e

planejamento. Tais condições estratégicas apoiaram-se sobre os seguintes pressupostos: é

possível contribuir para a conservação da floresta amazônica por meio do jornalismo; a QAA

contextualiza-se no panorama de uma crise ambiental global, cuja existência apresenta-se

como realidade; o debate sobre as relações entre os pressupostos anteriormente apontados se

revela essencial para a promoção da conservação da Amazônia. Ressalva-se que a

contribuição do jornalismo para a conservação da Amazônia depende de outros processos

sociopolíticos para se efetivar, tendo em vista que os produtos de mídia não são agentes

diretos da conservação ambiental. Tampouco se considera que o jornalismo alternativo para a

QAA seja a única forma de contribuição jornalística para o enfrentamento da problemática

ambiental da Amazônia.

Palavras-chave:

Meio ambiente. Amazônia. Jornalismo alternativo. Questão ambiental amazônica.

Comunicação.

8

ABSTRACT

BITTENCOURT, Maurício Pimentel Homem de. Alternative journalism for the

environmental question of Amazonia. 2013. 276 p. Doctorate Thesis. Graduate Program of

Environmental Science, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

This doctorate thesis describes the fundaments of the conception and planning – and the

process regarding its enablement, together with its politics and costs – of the constitutive

intervention of an alternative media in the Amazon society. By using empirical and technical

data, the object of this thesis refers to the process of creation of an alternative journalistic media: the Environmental News Agency for the Amazonia (ANAM). As a means of

communication, the objective of ANAM is to stimulate and to promote the debate about the

Environmental Question of Amazonia (QAA), by broadening its democratic sense and by

contextualizing it towards a criticism of the hegemonic vision about economic development, a

vision that belongs to the capitalist interests of the global process of production. The

development of an editorial project for the ANAM, its construction as an online channel of

communication and as a university extension program in an Amazon public university have

evidenced that the intervention proposal can be enabled through the strategic conditions in

which it inheres. These strategic conditions are based on the following assumptions: it is

possible to contribute to the conservation of the Amazon rainforest through journalism; the

QAA contextualizes itself in the panorama of a global environmental crisis, which is real; the

debate about the relationships between the aforementioned assumptions should be seen as

pivotal for the promotion of the conservation of Amazonia. Nonetheless, in order to be

enabled, the contribution of journalism to the conservation of Amazonia hinges on other

sociopolitical processes, since the media products are not direct agents of environmental

conservation. That notwithstanding, the alternative journalism for the QAA cannot be seen as

the unique way of contributing journalistically for addressing the environmental problem of

Amazonia.

Key-words: Environment. Amazonia. Alternative media. Environmental Question of

Amazonia. Communication.

9

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................10

2. A QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA (QAA) .........................................................14

2.1 História Ocidental da Amazônia ........................................................................................15

2.2 A Questão Ambiental Global..............................................................................................50

2.3 QAA Política e Socioeconômica ........................................................................................79

3. JORNALISMO E QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA............................................92

3.1 Jornalismo versus Mídia de Massa ....................................................................................94

3.2 O Jornalista como Mediador Social .................................................................................110

3.3 Um Jornalismo Alternativo ..............................................................................................124

4. NARRATIVAS DA FLORESTA ......................................................................................136

5. AGÊNCIA AMBIENTAL DE NOTÍCIAS DA AMAZÔNIA (ANAM) ..........................155

5.1 Intervenção Pedagógica ...................................................................................................159

5.2 ANAM: Meio de Comunicação Jornalístico Alternativo ................................................176

5.2.1 Projeto Editorial da Agência Ambiental de Notícias da Amazônia ..............................177

5.2.2 Pautas / Angulação ........................................................................................................181

5.2.3 Viagens para Captação de Dados ..................................................................................184

5.2.4 Redação .........................................................................................................................191

5.2.5 Edição e Publicação ......................................................................................................192

5.2.6 Conclusões da Pesquisa de Campo ...............................................................................196

5.2.7 O Futuro da ANAM ......................................................................................................201

6. CONCLUSÃO ...................................................................................................................204

REFERÊNCIAS .....................................................................................................................207

ANEXOS ...............................................................................................................................215

10

1

INTRODUÇÃO

Esta tese pretende contribuir para o debate democrático sobre a questão ambiental

amazônica. Há alternativas ao tipo de desenvolvimento que domina a região? A voz da

maioria da população amazônica tem representatividade nesse debate? A pesquisa nasceu

dessas e de outras perguntas que, somadas aos ingredientes da Ciência Ambiental e das

Ciências da Comunicação, levaram a novas formulações.

Fixa-se a pesquisa, dialeticamente, na realidade social, política e econômica da

Amazônia, evitando a compreensão dessa região como objeto estático de análise. Tanto que,

no decorrer do texto, opta-se pela palavra “conservação” do ambiente amazônico, a qual

remete a uma forma racional de ocupação do bioma, em oposição à “preservação”, em que se

propõe que o ambiente permaneça intocado. Aventa-se uma hipótese que considera possível

contribuir para a conservação da Amazônia por meio do jornalismo. Como? Alimentando e

fundamentando o debate democrático sobre a relação sociedade-ambiente na Amazônia.

Enquanto prática jornalística, tal contribuição somente se viabiliza em um veículo de

comunicação.

Assim, este trabalho caracteriza-se como uma pesquisa técnico-empírica cujo objeto

consiste no processo de criação de um meio de comunicação jornalístico alternativo: a

Agência Ambiental de Notícias da Amazônia (ANAM). A tese descreve a concepção, o

planejamento e o processo de viabilização da intervenção constitutiva da ANAM na sociedade

amazônica, com suas articulações políticas e de custeio. Pesquisam-se: um jornalismo de

interesse público para alimentar e fundamentar o debate sobre a questão ambiental amazônica;

formas alternativas de viabilizar esse meio de comunicação jornalístico.

O Capítulo 2 – A QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA – inicia-se com a

definição de questão ambiental amazônica (QAA). Para isso, primeiramente se estabelece um

panorama da Amazônia pelo viés do materialismo histórico. 1 O método se ajusta à proposta da pesquisa por permitir a análise das relações sociedade-ambiente e de suas implicações

econômicas e políticas.

Destaca-se que a Amazônia sofre intensa influência de questões geopolíticas. Desde o

século XVI, os interesses das classes hegemônicas dos principais países capitalistas

1 Entende-se o “materialismo histórico” como o método marxista que analisa a sociedade humana pelo aspecto prioritário da atividade econômica (WILLIAMS, 2007, p. 269-70). Em análise complementar, Gorender (2007, p. XXVI) aponta que o materialismo histórico interpreta a sociedade pelo viés dos modos de produção. Ainda segundo Gorender, a teoria marxista define a história como “história da luta de classes” (p. XXVII).

11

influenciam profundamente sua história. 2 Em regra, a partir daquela época a maioria da população amazônica tornou-se classe subalterna e os rumos da região passaram a ser

definidos exogenamente. 3 Nota-se que, também no Brasil, existe uma classe hegemônica, cujos interesses se alinham muito mais aos das elites dos países ricos do que aos das classes

subalternas amazônicas.

Ainda no Capítulo 2, constata-se que a primazia do crescimento econômico como

critério de desenvolvimento configura-se a principal causa da crise ambiental mundial, devido

ao impacto que gera sobre os recursos naturais. A análise materialista desvenda o jogo de

forças presente na discussão da questão ambiental. Argumenta-se que a questão ambiental é,

sobretudo, econômica e política, articulada aos processos de apropriação social dos recursos

ambientais. Dessa forma, a QAA é definida no que concerne aos aspectos políticos e

socioeconômicos da relação sociedade-ambiente na Amazônia.

Este trabalho, balizado pela urgência de se conservar um bioma extremamente

pressionado, materializa-se em uma pesquisa que pretende contribuir concretamente para a

conservação da floresta a partir do marco filosófico da “racionalidade ambiental”, assim

nomeada por Enrique Leff. 4 Vê-se o debate da QAA como parte da construção da racionalidade ambiental examinada pelo autor.

Leff é a principal referência filosófico-ambiental desta tese por trazer importante

análise sobre o mundo contemporâneo e sobre as consequências ambientais do

desenvolvimento acrítico. Segundo o autor, a questão ambiental exige uma revisão das

estruturas ontológicas e epistemológicas da racionalidade econômica dominante, pois manter

a atual relação sociedade-ambiente torna impossível a sustentabilidade ambiental.

No capítulo 3 – JORNALISMO E QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA – avalia-

se a capacidade de a prática jornalística contribuir para o debate da QAA. O começo do

capítulo visa a esclarecer sobre o que se entende tradicionalmente como prática jornalística.

Verifica-se que o jornalismo da mídia de massa encontra-se em grave crise, submetido aos

2 De acordo com Williams (2007, p. 199-200), entende-se “hegemonia” como o predomínio político-econômico de uma classe social sobre outra(s). Admite-se que a hegemonia abranja fatores culturais, isto é, as classes subordinadas supõem que a hegemonia da classe dominante integre a “realidade normal” ou “senso comum”.

3 A expressão “classe subalterna” é utilizada como forma de não se ater a uma rígida divisão de classes, adaptando-a ao contexto contemporâneo. Consideram-se classes subalternas todas aquelas cujos interesses se submetam aos interesses da classe hegemônica (elite econômica e política). Ferreira (2006, p. 108) aponta que se trata de um conjunto de classes existente em “todos os tipos de sociedade atuais”. Segundo a autora, a característica de “subalterno” transcende a dominação econômica, estendendo-se à dominação cultural.

4 LEFF, E. Racionalidade ambiental: a reapropriação social da natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

12

interesses das grandes empresas capitalistas. Desta forma, questionar a hegemonia do modelo

capitalista de desenvolvimento torna-se inviável para o jornalismo da mídia de massa.

Assim, a orientação do Capítulo 3 passa a ser a procura de argumentos que

comprovem a capacidade de a prática jornalística contribuir para o debate da QAA. Para que a

prática jornalística seja capaz de contribuir para o debate da QAA, deve articular-se ao projeto político de um meio de comunicação que tenha esse objetivo. Em resumo, o Capítulo 3

permite entender por que, para se discutir a QAA, é preciso um jornalismo alternativo.

A perspectiva de esta tese integrar o processo de construção de uma racionalidade

ambiental para a Amazônia ganha impulso no Capítulo 4 – NARRATIVAS DA FLORESTA

– em que se promove um mergulho na Amazônia para conhecer o local em que será realizada

a pesquisa de campo. Expõem-se os depoimentos dos “comunicadores da floresta”,

apresentados como última argumentação no sentido de fixar diretrizes para a intervenção

constitutiva da ANAM. 5 São comunicadores que dão seus depoimentos sobre a cobertura da imprensa para a QAA. Ainda nesse capítulo, apresenta-se o Estado do Acre como mais um

cenário típico brasileiro em que os interesses hegemônicos dominam a sociedade.

No Capítulo 5 – AGÊNCIA AMBIENTAL DE NOTÍCIAS DA AMAZÔNIA

(ANAM) – descreve-se todo o processo de institucionalização da ANAM como meio de

comunicação jornalístico alternativo que visa a alimentar e fundamentar o debate da QAA.

Trata-se de uma mídia alternativa financiada pelos recursos da Universidade Federal do Acre

(UFAC). Entre os principais aspectos descritos nesse capítulo destacam-se a articulação

política e econômica de criação da ANAM e a concepção de um projeto editorial coerente

com a definição de QAA.

Enfim, entende-se que a concretização da ANAM como meio de comunicação

jornalístico comprove a hipótese de que seja possível contribuir para a conservação da

Amazônia por meio do jornalismo.

Salienta-se que a ANAM não visa a modificar diretamente a relação sociedade-

ambiente na Amazônia, mas contribuir para o debate democrático sobre a QAA. Em outras

palavras, a institucionalização da agência não garante a conservação da floresta, o que

depende de outros processos sociopolíticos para se efetivar. A ANAM visa a fundamentar e

alimentar esses processos com informação independente.

5 No Capítulo 4, utilizamos entrevistas colhidas no projeto de pesquisa Narrativas da Floresta em 2008. Foram entrevistados agentes sociais qualificados como “comunicadores da floresta”: jornalistas e líderes comunitários do Estado do Acre ligados à discussão sobre a QAA.

13

Esta tese mostra que o jornalismo alternativo para a QAA depende da criação de um

meio de comunicação jornalístico alternativo para a QAA, com um projeto editorial articulado

a um projeto político e econômico. Afinal, a determinação da linha editorial de qualquer

veículo de comunicação depende de um posicionamento político o qual, nesta pesquisa,

encontra-se na própria definição de QAA.

A criação da ANAM como projeto de extensão da UFAC evidencia ainda a

viabilidade da constituição de meios de comunicação alternativos na Amazônia, a partir da

utilização da infraestrutura de uma instituição pública. A riqueza da pesquisa de campo

concluída confirma a prática como preâmbulo da teoria.

14

2

A QUESTÃO AMBIENTAL AMAZÔNICA (QAA)

A questão ambiental amazônica abrange fatores históricos, geopolíticos, sociais e

ecológicos que são proporcionais às dimensões do bioma. Contudo, a maioria da população

amazônica permanece com pouca força política no debate sobre os rumos desse território.

Surge, então, um problema representado pela dificuldade de um grupo social para decidir

sobre seu futuro.

Muitas decisões a respeito da Amazônia se dão nas mesas de escritórios

governamentais, empresariais, não governamentais (ONGs) ou acadêmicos, longe da floresta.

Aqueles que decidem com intenções conservacionistas raramente conhecem a realidade dos

locais a serem resguardados. Muitos entendem que a Amazônia deva adequar-se aos padrões

ocidentais, sem ponderar, contudo, se na floresta já existem soluções, especialmente no que se

refere à questão ambiental. Em regra, ignora-se a história complexa e dinâmica da região.

Muitos agentes sociais agem segundo análises apriorísticas. Uma dessas análises propõe a

crença em uma questão ambiental amazônica reduzida a fatores ecológicos. Entende-se que,

diferente disso, as questões em jogo na Amazônia envolvem uma grande disputa por estoques

de natureza ainda não regulamentados juridicamente. Nesse sentido, como assevera Becker,

“três grandes eldorados podem ser reconhecidos contemporaneamente: os fundos oceânicos

ainda não regulamentados, a Antártida, partilhada entre as potências, e a Amazônia, único a

pertencer, em sua maior parte, a um só Estado Nacional.” 1 Conhecer a questão ambiental da Amazônia inicia-se, portanto, no entendimento desse viés geopolítico.

Enquanto as economias dos países ricos se encontram em uma situação de crise, a

Amazônia segue com a maior parte de sua superfície florestal em pé, com seus grandes rios,

com fartas e desconhecidas matérias-primas acima e abaixo da superfície. Há uma enorme

pressão global por recursos naturais baratos, premissa dos lucros das empresas capitalistas.

Exportam-se os recursos juntamente com os lucros, deixando para trás um rastro de

destruição, pobreza e conflitos no campo.Trata-se da globalização:

A globalização do mundo expressa um novo ciclo de expansão do

capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório de alcance mundial.

Um processo de amplas proporções envolvendo nações e nacionalidade, regimes

políticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, economias e sociedades,

culturas e civilizações. Assinala a emergência da sociedade global, como uma

totalidade abrangente, complexa e contraditória. Uma realidade ainda pouco

1 BECKER, B.K. Amazônia: geopolítica na virada do III milênio. Rio de Janeiro: Garamond, 2009, p. 35.

15

conhecida, desafiando práticas e ideais, situações consolidadas e interpretações

sedimentadas, formas de pensamento e voos da imaginação. 2

A proposta hegemônica de desenvolvimento3 tem seus atrativos, conforme se vê nas cidades amazônicas, nos seringais, nas pequenas propriedades rurais, nas comunidades e

aldeias indígenas. Tais grupos sabem apreciar os benefícios da tecnologia ocidental,

principalmente no que diz respeito à saúde, à informação e à mobilidade territorial, pontos

fundamentais para a qualidade de vida em qualquer latitude. A questão principal transfere-se,

então, para a quantidade e para a qualidade do desenvolvimento desejado, bem como para o

rigor democrático na ponderação de quais critérios devem norteá-lo. Um desses critérios está

no ponto de encontro entre uma qualidade de vida digna e a manutenção de um ambiente

saudável. Desde o início, a questão geopolítica domina a história da Amazônia, fator que deve

ser considerado em qualquer análise sobre o ambiente da região. Fica evidente, neste capítulo,

que as terras americanas foram vistas como imenso estoque de recursos naturais gratuitos,

bastando aos fidalgos europeus que viessem buscar.

2.1

História Ocidental da Amazônia

Por meio de uma concessão de poderes para a exploração de terras descobertas,

Vicente Yánez Pinzón chega à foz do Rio Amazonas nos “primeiros dias do mês de fevereiro

de 1500, portanto, quase três meses antes da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral”. 4

Ao som da pororoca, Pinzón descobre que as águas abaixo do casco da caravela eram doces.

Batiza o rio como “Santa Maria de La Mar Dulce”, tomando posse da Amazônia,

unilateralmente, em nome da Espanha. No entanto, a Amazônia ainda não havia sido

“inventada” pelo Ocidente. Aquele primeiro descobridor avançou pouco pelo rio e logo

atravessou o Atlântico de volta, para confirmar o Tratado de Tordesilhas, que apontava para

aquelas terras, enfim descobertas, como espanholas.

2 IANNI, O. A era do globalismo. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 11.

3 Há inúmeras interpretações sobre desenvolvimento e definições divergentes entre economistas. Excede o objetivo deste trabalho o aprofundamento sobre o tema. A palavra é usada por ser de fácil entendimento em diferentes esferas discursivas. Nesta tese, atribui-se ao substantivo desenvolvimento qualquer processo que aproxime determinado grupo social do padrão econômico e tecnológico ocidental.

4 RIBEIRO, N.F. A questão geopolítica da Amazônia: da soberania difusa à soberania restrita. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 25, (grifo do autor).

16

Do ponto de vista ocidental, que afirma ser a invasão europeia uma “descoberta”, a

história da Amazônia está intimamente ligada à lógica do sistema capitalista. Emissários dos

reis, os navegantes saíram pelo mundo em busca de recursos, como especiarias e metais

preciosos. As narrativas de viajantes, algumas das quais mágicas e fantásticas, eram as

principais fontes de informação sobre América, Índia, Amazônia e outros locais. Sob a

necessidade de buscar matéria-prima e produtos para o comércio, as cortes basearam-se em

relatos e informações difusas para apostar na existência de outros continentes. Não foram

poucas as expedições espanholas em busca de riqueza, guiadas por mitos como El Dorado, rio

do ouro, lago dourado, cidade do ouro. 5 Segundo Sampaio6 (1825 apud GONDIM, 1994, p.119), o número de empresas e viagens espanholas que vasculharam a região do Rio das

Amazonas em busca de riqueza chegou a 60.

Os motivos que levaram o primeiro europeu à Amazônia também foram geopolíticos.

Tiveram como contexto a disputa diplomática das duas potências marítimas, Portugal e

Espanha, pelo domínio de terras descobertas a Oeste e Sul, do outro lado do Atlântico. A

ansiedade era tanta e as informações tão desencontradas que em 1494 se celebrou o Tratado

de Tordesilhas, que dispunha sobre os limites de terras desconhecidas pelas partes signatárias

do acordo. Os ibéricos, então, lançaram-se cada vez mais ao mar. Junto com a descoberta do

Brasil e da América, as implicações geopolíticas da chegada à Amazônia foram consideráveis.

A Europa mudava sua visão de mundo, tendo acesso a territórios, a espécies, a biomas e a

povos diferentes.

No entanto, a planície amazônica permaneceu desconhecida por mais de 40 anos, até

que em 1541 o governador da província de Quito (atual Equador), Gonzalo Pizarro, deu início

a uma expedição para reconhecer e para tomar posse das terras entre os Andes e o Oceano

Atlântico, pertencentes à Espanha, segundo Tordesilhas. Como fator econômico, havia a

perspectiva de descoberta do “País da Canela” e do reino do El Dorado. 7 Os expedicionários teriam de atravessar os Andes e enfrentar uma série de dificuldades naturais, contando para

isso com um homem de confiança de Pizarro, Francisco de Orellana, que ganhou o comando

geral das tropas. Devido a sucessos que incluíram terremoto, frio, chuvas torrenciais e

indígenas aguerridos, a expedição teve de se dividir. Orellana partiu com 54 homens em

embarcações pequenas e velozes chamadas bergantins, mais algumas canoas, visando a

5 GONDIM, N. A invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994, passim.

6 SAMPAIO, F.X.R. Diário da viagem que em visita, e correição das povoações da Capitania de S. José do Rio Negro fez o ouvidor, e intendente geral da mesma. Lisboa: Academia, 1825.

7 As informações históricas do período, bem como os aspectos geopolíticos advindos de tais acontecimentos, nesta e nas próximas páginas, baseiam-se em RIBEIRO, 2005, passim.

17

abastecer-se de comida para voltar e alimentar os companheiros. Levou a maior parte da carga

da expedição, bem como os recursos financeiros. Chegando, porém, à confluência dos rios

Coca e Napo, percebeu que a volta seria difícil devido à correnteza, deixando aí três

expedicionários para relatar os acontecimentos a Pizarro. Orellana e seus homens se deixaram

levar pela correnteza, descendo o rio Coca sem saber aonde chegariam, tendo à disposição

apenas vagas informações sobre a proximidade de outro rio, bem maior.

A expedição de Orellana prosseguiu pelo Napo, até chegar ao eixo do “Grande Rio

ou “Paranauaçu”, como era chamado pelos povos indígenas aquele que seria depois

denominado por Orellana como “Rio das Amazonas”. Continuou navegando com o

apoio das populações indígenas, tendo chegado a 3 de junho de 1542 ao rio Negro,

nome dado pelo próprio Orellana, quando deparou com o encontro de suas águas

com as do Amazonas. [...] Finalmente, em 23 de junho, os aventureiros chegaram à

foz do rio Nhamundá, onde se depararam com uma tribo indígena que lhes pareceu

ser constituída de mulheres guerreiras. (RIBEIRO, 2005, p. 30, grifos do autor)

Orellana lembrou-se das lendárias amazonas da Ásia Menor, batizando o grande rio

como “Rio das Amazonas”, que viria a transformar-se simplesmente em Amazonas, dando

origem também ao nome de todo o bioma, “Amazônia”. O responsável pelo relato da viagem

de Orellana, o dominicano Frei Gaspar de Carvajal, carregou nas tintas ao descrever as

amazonas sul-americanas. Das linhas que escreveu sobre as mulheres guerreiras, até hoje não