Juventude Brasileira e Democracia – participação, esferas e políticas públicas por Anónimo - Versão HTML

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relatório global

Juventude Brasileira

e Democracia:

participação, esferas

e políticas públicas

1 Metodologia

janeiro 2006

Apresentação

A pesquisa “Juventude Brasileira e Democracia – participação, esferas e políticas públicas” buscou

investigar valores da juventude brasileira acerca da participação. Para tanto, foram utilizadas duas

abordagens metodológicas: a primeira compreendeu a aplicação de questionários junto a oito mil

jovens moradores(as) de sete Regiões Metropolitanas do Brasil (Porto Alegre, São Paulo, Rio de

Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Belém) e Distrito Federal; a segunda significou a

realização de 39 Grupos de Diálogo envolvendo 913 jovens das regiões investigadas.

O relatório final da pesquisa apresenta os dados agregados de ambas fases, buscando

revelar potencialidades e interdições à participação percebidas na interação com os(as) jovens.

Dado o ineditismo da aplicação da metodologia dos Grupos de Diálogo no Brasil, bem

como a constatação de ter sido uma experiência bem sucedida, mostrou-se relevante a

sistematização em separado da aplicação de tal metodologia. O presente relatório busca, portanto,

relatar a experiência dos Grupos de Diálogo (GDs) na pesquisa “Juventude Brasileira e

Democracia”, enfatizando na análise de suas potencialidades e limites.

É preciso pontuar que todos os Grupos realizados foram conduzidos pelas equipes

regionais da pesquisa, cada uma delas vinculada a uma organização que compunha a rede de

parceiros. Cada instituição vinculada a essa rede, bem como os(as) supervisores(as), assistentes e

bolsistas possuíam diferentes perfis e históricos profissionais, o que tornou essa experiência um

verdadeiro exercício de diálogo, não só entre os(as) jovens durante os Dias de Diálogo, mas,

sobretudo, na construção de uma metodologia com a cara do Brasil, que respeitasse e valorizasse

as diversidades representadas pelas instituições e pessoas presentes na rede. Nesse processo

foram elaborados relatórios regionais, nos quais os(as) membros da rede analisaram os dados

obtidos nas duas fases da pesquisa, dando ênfases diferenciadas de acordo com o processo

vivenciado durante a pesquisa em cada localidade.

Para que o desafio de construção coletiva fosse enfrentado a contento, foram organizados

encontros presenciais de toda a rede, além de um Fórum Eletrônico, através do qual todas as

equipes e a coordenação puderam manter contato de forma mais permanente.

O texto que se segue foi redigido a partir dos relatórios regionais dos Grupos de Diálogo e

faz uma análise da realização dos Diálogos realizados pela pesquisa, levando em conta a

complexidade e riqueza das experiências regionais e encarando o processo investigativo também

como processo de aprendizado coletivo, em que o diálogo não foi apenas método, mas também se

manteve como princípio.

Introdução

A metodologia ChoiceWork Dialogue consiste na organização de Grupos de Diálogo, formados por

cerca de 40 pessoas cada. Nesses grupos, os(as) participantes são convidados(as) a debater,

durante um dia inteiro, ou seja, por cerca de oito horas, uma temática específica. Essa temática é

apresentada pelas pessoas responsáveis por conduzir o processo de diálogo – os(as)

facilitadores(as) –, com a ajuda de instrumentos metodológicos que têm como função expor o tema

através de informações detalhadas e alternativas para se lidar com ele.

O pensamento tradicional sobre a formação da opinião pública considera que informação

leva ao julgamento público, deixando de fora um processo de elaboração em que a diversidade de

valores e a dificuldade de fazer escolhas têm papel fundamental. Essa metodologia (chamada em

inglês de ChoiceWork Dialogue) foi criada por Daniel Yankelovich1 para preencher essa lacuna

presente na concepção mais usual de pesquisa envolvendo a formação de opinião pública.

Essa concepção considera que na realidade e, de um modo geral, as pessoas

desenvolvem suas opiniões e julgamentos através de um processo coletivo de troca de idéias,

e não através de uma avaliação deliberada e individual. Não se trata de um processo

simplesmente deliberativo, mas de um percurso em que são envolvidos valores profundos e

reações emocionais. As pessoas desenvolvem suas opiniões compartilhando pontos de vista

com quem se identificam, sejam amigos(as), familiares, vizinhos(as), colegas de escola e de

trabalho ou formadores(as) de opinião. Para Yankelovich, esse fato não pode ser

desconsiderado ao se pensar uma forma de perceber a opinião das pessoas e as

possibilidades de transformação das mesmas. O método é utilizado sobretudo na investigação

de questões polêmicas ou, ainda, na pesquisa de questões já familiares em que uma

conjuntura específica cria desafios que precisam ser reconhecidos e debatidos.

Além disso, a metodologia ChoiceWork Dialogue considera o processo investigativo

também como processo de aprendizado em que os(as) participantes têm oportunidade de acessar

informações, fazer conexões entre fatos e circunstâncias, perceber conflitos e se engajar em um

processo coletivo em que é possível apreender em que medida mudam as opiniões quando as

pessoas têm acesso a informações e dialogam sobre determinado assunto.

Em linhas gerais, a metodologia ChoiceWork Dialogue (chamada em português de

Diálogo) parte da identificação de uma questão socialmente relevante, com as características

1

A metodologia dos diálogos desenvolvida por Daniel Yankelovich encontra-se no livro The Magic

of Dialogue ( 1999). Mais informações sobre o autor e a instituição Viewpoint Learning podem ser encontradas em http://www.viewpointlearning.com.

2

indicadas anteriormente, e a trabalha a partir de “cenários”2. Esses cenários são construídos com

base em possibilidades disponíveis na sociedade e, enquanto tais, apresentam-se como

alternativas para se tratar ou enfocar tal questão.

A expectativa é que, após obter informações sobre o tema, serem apresentados cenários

possíveis para lidar com ele e de dispor de um dia inteiro com outras pessoas com diferentes

visões e papéis sociais, seria possível “medir” a mudança da percepção sobre o assunto. A

metodologia permitiria, ainda, apreender os valores acionados por diferentes cidadãos(ãs) ao

terem que fazer escolhas que têm implicações (diretas ou indiretas) na sua realidade.

Ela é usada prioritariamente no debate sobre políticas públicas. Na verdade, a metodologia

ChoiceWork Dialogue tem se mostrado eficaz na averiguação de possibilidades de implementação

de políticas polêmicas ou sobre as quais não existe consenso na sociedade. Essa metodologia já

foi aplicada para mapear o posicionamento da sociedade em relação a questões tais como: o

contrato/pacto social no Canadá; tensões étnico-raciais nos Estados Unidos; os desafios colocados

pela imigração nos EUA; biotecnologia e alimentação; além de questões como a saúde pública e

os resíduos nucleares no Canadá. Independente do assunto a ser tratado, no entanto, parece ser

ponto comum a todos eles a vinculação direta a políticas públicas. Os “cenários”, nesse contexto,

expressam alternativas políticas, que se situam entre o conservadorismo e propostas mais

progressistas, levando em conta as possibilidades disponíveis na sociedade em que o Diálogo será

desenvolvido e da temática em questão.

A realização do Diálogo, independente de se configurar ou não como demanda

governamental, tem no poder público um de seus principais interlocutores. Segundo as

pesquisadoras das Redes Canadenses de Pesquisa em Políticas Públicas (CPRN), que deram

consultoria no método através de workshops e participação nos seminários da pesquisa, para

aqueles(as) que tomarão parte do processo de Diálogo é importante que a instituição a conduzi-lo

esteja suficientemente distante da esfera governamental para possibilitar uma escuta o mais

imparcial possível, mas perto o bastante para garantir que o que for dito será “ouvido” pelos(as)

“tomadores(as) de decisão”.

Outro aspecto destacado na experiência internacional é o valor atribuído à opinião dos(as)

cidadãos(ãs) comuns em assuntos públicos e controvertidos. Ao serem convidadas a participar do

Diálogo, as pessoas são alertadas de que o que se espera delas não é a opinião de um

especialista. Ao contrário, trata-se de perceber as possibilidades de tratamento de uma dada

questão a partir da perspectiva das “pessoas comuns” que normalmente são obrigadas a conviver

com escolhas feitas de forma verticalizada.

2

Na experiência brasileira de Diálogo chamou-se «cenário» de «caminho participativo».

3

Momentos-chave e instrumentos de diálogo

O Dia de Diálogo é pensado para possibilitar o conhecimento de valores associados a determinada

questão e dar elementos que permitam medir a mudança da opinião dos(as) participantes sobre

determinado tema, tendo em vista as informações disponibilizadas, os “cenários” ou alternativas

propostas, bem como a interação com as opiniões de outros(as) participantes, de diferentes locais

de moradia, classe, faixa etária, sexo etc. Esse Dia de Diálogo comporta ajustes e adaptações

(como será visto mais à frente), mas pressupõe alguns momentos fundamentais que estão

profundamente articulados aos princípios da metodologia vistos anteriormente. A seguir esses

momentos serão apresentados de forma sintética.

A realização de um Dia de Diálogo pressupõe preparação que vai desde a produção do

“Caderno de Trabalho” [publicação distribuída aos(às) participantes em que são disponibilizadas

informações gerais sobre o tema, sobre a metodologia, além da caracterização de cada um dos

cenários ou alternativas dadas para a questão], até a escolha e o convite às pessoas que irão

participar, passando pela organização da infra-estrutura que irá permitir a aplicação da metodologia

(definição do espaço, material para as dinâmicas, refeições para participantes e equipes,

compensação para as pessoas participarem etc.).

O Dia de Diálogo é organizado através de dinâmicas e interações em pequenos grupos (até dez

pessoas) e em sessões plenárias. Cada um desses momentos é pensado para que os(as) participantes

dialoguem sobre a questão em pauta de forma intensa, sendo convidados(as) a se posicionar frente às

alternativas propostas. Durante esses momentos são apresentadas informações e cenários elaborados, é

feito trabalho em grupo em torno das preferências pessoais e coletivas sobre as alternativas

apresentadas, bem como sobre as conseqüências que resultam de tais escolhas.

No desenvolvimento das etapas que compreendem um Dia de Diálogo, a(s) pessoa(s)

responsável(eis) pela condução, chamadas de facilitadores(as), desempenham papel fundamental.

Por isso, para cada pesquisa que lance mão dessa metodologia é necessária a criação de um

“Guia do(a) Facilitador(a)”. Nele, são descritas passo a passo, e de forma bastante detalhada

(incluindo tempo previsto para as dinâmicas, materiais a serem utilizados etc.), todas as etapas

que devem ser percorridas ao longo do Dia de Diálogo, ressaltando sua importância e chamando a

atenção para problemas que possam ocorrer. Além do papel do(a) facilitador(a), que usualmente é

desempenhado por duas pessoas, é necessária uma equipe de apoio, ou seja, auxiliares capazes

de cuidar da infra-estrutura, se responsabilizando pela parte mais formal, como preenchimento da

lista de presença ou cadastro e monitoramento das refeições. Toda a preparação do espaço onde

o Diálogo acontece é feita com antecedência, preferencialmente no dia anterior à atividade. Essa

preparação inclui a arrumação do local, preparação dos materiais a serem usados e teste dos

equipamentos, como projetor, multimídia e gravador de áudio e/ou vídeo.

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Ao longo do processo de construção da pesquisa, é preciso que se dê especial atenção

para a capacitação da equipe, sobretudo das pessoas responsáveis pela facilitação do Dia de

Diálogo. É importante garantir que a equipe diretamente envolvida esteja familiarizada com o tema

e os instrumentos de pesquisa que serão utilizados nos Grupos de Diálogo. Nesse sentido, é

fundamental a garantia da realização de ao menos um “Grupo de Diálogo piloto” para testar os

instrumentos e para se praticar a facilitação das atividades e dinâmicas a serem desenvolvidas no

Dia de Diálogo. Além disso, outros momentos de formação, como a leitura conjunta do material e a

realização de workshops e seminários de capacitação, podem contribuir para o bom

desenvolvimento do Diálogo

1º) Participantes recebem e lêem o Caderno de Trabalho à medida em que chegam no

local do Diálogo.

Logo ao chegar, antes mesmo do início de qualquer atividade, os(as) participantes do

Diálogo são recebidos pela equipe e, após fazerem o cadastro, são convidados(as) a folhear e ler o

Caderno de Trabalho. Esse momento inicial ajuda a que se familiarizem com a temática.

2º) Orientações iniciais dadas pelos(as) facilitadores(as) (incluindo o propósito do Diálogo,

o uso que será feito dos resultados, regras/compromissos para o Dia de Diálogo, informações

sobre o tema a ser tratado).

Logo no início dos trabalhos propriamente ditos, o(a) facilitador(a) responsável pela

condução do processo apresenta o contexto em que o Diálogo se situa, seus objetivos e

procedimentos. Esclarece, ainda, sobre a conexão entre o Diálogo e os resultados, a serem

entregues a instâncias do poder público, bem como sobre o perfil das entidades que o promovem.

É importante que os(as) participantes percebam o propósito e a legitimidade do que lhes está

sendo proposto, bem como a idoneidade ética do processo e dos(as) que o conduzem.

Nos instrumentos utilizados e desde o início do Diálogo, os(as) participantes são

esclarecidos sobre o conceito de Diálogo tendo como parâmetro seu “oposto” que, no caso

brasileiro, foi traduzido como disputa3. Trata-se de estratégia para tornar claro o que significa 3

Foi difícil encontrar um termo capaz de traduzir essa discussão que se costuma ter informalmente e

na qual, muitas vezes, se insiste nos próprios pontos de vista, tornando-se cegos/surdos para elementos

interessantes trazidos p or aqueles(as) com quem se trava a discussão. Muitos termos foram pensados antes de se optar por “disputa”. Cogitou-se “discussão” e, até mesmo, “debate”. O que se percebeu, no entanto, foi que qualquer um deles pode ser apreendido com conotação negativa, uma vez que o “diálogo” é que está sendo

valorizado positivamente, apesar de se reconhecer que a discussão, o debate e a disputa possuem um papel importante em qualquer sistema democrático. Chegou-se a um impasse e se pensou, inclusive, em abrir mão

dessa estratégia metodológica. A opção pela manutenção da mesma se deu graças à facilidade com que

alguns(mas) jovens, para os(as) quais o material foi mostrado antes do início dos Grupos de Diálogo, tiveram em apreender o sentido do Diálogo a partir de tal contraposição. A oposição entre “ diálogo” e “disputa” foi adotada, sabendo que, em próximos Diálogos, seria interessante voltar a esta questão, buscando outras formas, ou novos termos, para que se faça entender sem correr o risco de colocar como negativo termos que denotam processos muito caros à democracia.

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dialogar em oposição às discussões em que se busca a defesa intransigente de idéias. Isso não

significa que não aconteçam disputas e debates ou longo do Dia de Diálogo, mas apenas que uma

das ênfases da metodologia adotada é na escuta do outro para que se possa formar sua própria

opinião. Apresentou-se, portanto, quadro semelhante ao que se segue:

Disputa

Diálogo

Parte da certeza de que existe apenas uma

Parte da certeza de que outras pessoas têm

resposta correta e de que você tem essa resposta!

partes da resposta.

É combativo. Tenta provar que o lado está errado.

É colaborativo. Tenta chegar ao entendimento.

Procura ganhar.

Procura encontrar pontos em comum.

Ouve a outra pessoa para achar falhas no que ela

Ouve a outra pessoa para entender o que ela

defende.

defende.

Defende seu ponto de vista.

Traz o seu ponto de vista para ser discutido

com o grupo.

Critica o outro ponto de vista.

Avalia todos os pontos de vista.

Defende um ponto de vista contra os outros.

Admite que as outras maneiras de pensar

podem enriquecer o seu ponto de vista.

Procura encontrar as fraquezas na outra posição.

Procura os pontos fortes na outra posição.

Tenta encontrar o resultado que esteja de acordo

Tenta descobrir novas possibilidades e formas

com a sua posição.

de pensar.

A partir dessa contraposição, são apresentados também os compromissos que norteiam o

Dia de Diálogo, tanto nos subgrupos de trabalho, quanto nas sessões plenárias. Esses

compromissos, listados a seguir, valorizam, uma vez mais, um processo de escuta e respeito entre

participantes.

Compromissos

O objetivo do diálogo é entender as outras pessoas e aprender com elas. Você não pode “ganhar” um

diálogo.

Todas as pessoas falam por si, e não como representantes de interesses específicos.

Tratar todas as pessoas igualmente: esqueça rótulos ou preconceitos.

Estar disposto a ouvir outras opiniões, mesmo quando não concorda com elas, e não julgar o que foi dito.

Procurar, em você e nas outras pessoas, opiniões e atitudes que possam ser mudadas.

Procurar pontos em comum.

Expressar suas discordâncias sem brigas ou ofensas.

Manter diálogo e tomada de decisão como atividades separadas. O diálogo deve sempre vir antes de

uma decisão.

Todos os pontos de vista merecem respeito e serão registrados sem discriminação.

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É ainda nesse primeiro momento que o(a) facilitador(a), tendo como referência o Caderno

de Trabalho e material visual (cartazes, PowerPoints etc.) irá apresentar as informações gerais sobre o tema que será objeto de diálogo. Esse é o momento para que todos(as) os(as)

envolvidos(as) recebam informações que serão a base comum para o diálogo.

3 º) Introdução aos cenários.

A figura do(a) facilitador(a) é, mais uma vez, central. É através dele(a) e das informações

disponíveis no Caderno de Trabalho que os(as) participantes terão acesso às alternativas que

serão a base do diálogo. Os “cenários” são apresentados pelo(a) facilitador(a) sem juízo de valor,

ou seja, como alternativas viáveis e possíveis para a questão em foco [ainda que a pessoa que

está no papel de facilitador(a) não concorde pessoalmente com algum deles]. Todos os cenários

são criados de forma que um não seja mais atraente que o outro. Todos são formados por uma

introdução geral, contendo dados estatísticos, jornalísticos etc. sobre a proposta em questão,

suas implicações, além de apresentar os prós e contras envolvidos nessa escolha. Todos esses

itens são dosados igualmente para que não haja “concorrência desleal” entre eles. O(a)

facilitador(a) ressalta que aqueles cenários são apenas o ponto de partida e que, ao final do Dia

de Diálogo, os(as) participantes poderão escolher um deles, combiná-los ou, ainda, criar um

cenário totalmente novo.

4º) Preenchimento da ficha Pré-Diálogo para medir a opinião inicial dos(as) participantes.

Após essa apresentação geral do tema e dos “cenários” possíveis, os(as) participantes

recebem uma folha com uma breve descrição de cada um dos “cenários”, devendo pontuar seu

grau de adesão a partir de uma escala de valores que varia de um a sete. Nesse momento eles(as)

estarão dando sua opinião inicial quanto a cada um deles. As fichas distribuídas possuem um

código, que se repetirá na ficha Pós-Diálogo. Dessa forma, é possível comparar as fichas Pré e

Pós-Diálogo, sem identificar nominalmente os(as) participantes, medindo as mudanças ocorridas

após um Dia de Diálogo.

5º) Comentários iniciais de cada participante para identificar principais preocupações

quanto ao tema tratado.

Após o preenchimento da ficha Pré-Diálogo, os(as) participantes são convidados(as) a se

apresentarem, dizendo, em seguida, a(s) principal(ais) preocupações quanto ao tema em questão.

É importante esclarecer que todo o Dia de Diálogo é registrado, seja em áudio, ou em vídeo, o que

permite a análise das falas dos(as) participantes, sobretudo nos momentos aqui destacados.

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6º) Diálogo entre os(as) participantes (em grupos menores e em sessão plenária).

Na parte da manhã, os(as) participantes são divididos em pequenos grupos (que podem

ser auto-facilitados ou não) e neles trabalham a partir de uma pergunta geral que é respondida a

partir das alternativas apontadas nos cenários. Eles(as) são convidados a voltar mais uma vez ao

Caderno de Trabalho e, com seus(suas) companheiros(as) de grupo, optar por um dos “cenários”,

criar um a partir dos elementos disponíveis nos “cenários” apresentados ou outro totalmente novo.

O “cenário-síntese” de cada grupo é apresentado em plenária e o(a) facilitador(a) conduz, em

seguida, um diálogo encontrando semelhanças e diferenças entre os cenários apresentados pelos

grupos. Ao final da dinâmica, ter-se-á um cenário de todo o Grupo de Diálogo.

7º) Segundo momento de diálogo entre os(as) participantes, mais intenso (novamente em

grupos menores e em plenária), trabalhando sobre escolhas concretas e do que abririam mão para

realizar sua escolha.

Após o almoço, os(as) participantes voltam aos pequenos grupos, dessa vez para

identificar ações concretas a serem tomadas para se chegar ao “cenário” final acordado no período

da manhã. Após a apresentação do resultado dos grupos em plenária, o(a) facilitador(a)

problematiza as escolhas feitas, buscando entender do que esses(as) cidadãos(ãs) estariam

dispostos(as) a abrir mão para que o “cenário” escolhido se tornasse realidade. Isso porque um

dos pressupostos da metodologia diz respeito às conseqüências e responsabilidades envolvidas

em cada escolha.

8º) Preenchimento da ficha Pós-Diálogo para medir como as opiniões mudaram ao longo

do Dia de Diálogo (e o porquê da mudança).

Após o Dia de Diálogo, uma folha semelhante àquela distribuída pela manhã, com as

mesmas perguntas e as mesmas alternativas de adesão aos caminhos, é preenchida pelos(as)

participantes. Dessa vez, no entanto, a pessoa pode escrever sob que condição se daria sua

adesão a determinado cenário. Desse modo, no momento de analisar essas folhas Pré e Pós-

Diálogo, é possível perceber tendências de adesão ou rejeição a cada uma das alternativas

apresentadas, e em que condições esse grau de adesão ou rejeição aumentaria.

9º) Comentários finais de cada participante sobre o Dia de Diálogo e mensagem para

os(as) políticos(as) e governantes (“tomadores de decisão”).

Antes do término do Dia de Diálogo, os(as) participantes são convidados(as) a se

pronunciar individualmente, avaliando a experiência do Diálogo, e a deixar uma mensagem

àqueles(as) que resolvem/tomam decisões a respeito do tema tratado.

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Diálogos no Brasil

A criação de um Diálogo adequado à realidade brasileira, capaz de lidar com as especificidades da

pesquisa, colocou para as instituições e pesquisadores(as) envolvidos diversos desafios. O

primeiro resulta do ineditismo da metodologia a ser utilizada. Houve resistências à utilização de um

método que aliava princípios de pesquisa acadêmica e de educação popular, sem se confundir

com nenhuma delas. Foi necessário encontrar coletivamente um denominador comum a partir do

qual fosse possível construir uma proposta metodológica pautada pelos pressupostos teóricos e

práticos inerentes ao Diálogo, levando em conta as experiências internacionais, mas não se

subordinando a elas. O segundo desafio enfrentado foi vencer a resistência e se apropriar de

metodologia singular, muitas vezes confundida com os já conhecidos e experimentados Grupos

Focais, para que fosse possível construir conjuntamente uma alternativa adequada para um

Diálogo do Brasil.

Outro importante desafio com o qual se deparou foi o tema da pesquisa em questão. Se,

como visto anteriormente, as experiências internacionais estavam bastante articuladas ao debate

de políticas públicas strictu sensu, a temática da participação possui um grau de abrangência e abstração que dificulta essa relação imediata. Ainda que a temática da participação social e política

de jovens na democracia brasileira seja um tema que muito diz respeito à formulação e execução

de políticas públicas, nossa intenção desde o princípio era perceber de que forma a juventude

brasileira, considerada em toda sua diversidade e complexidade, estaria disposta a ocupar a esfera

pública democrática, pensada também de forma ampliada e complexa. Ou seja, não se tratava

apenas de apresentar, por exemplo, opções claras de participação em instâncias como os

conselhos ou por meio do voto, mas de construir cenários, que levassem em conta dados

presentes em pesquisas sobre o tema, (inclusive a da primeira etapa da presente investigação),

que vêm revelando a maior disponibilidade de jovens para envolvimento em atividades e grupos

que não se circunscrevem à esfera política tradicional (partidos, sindicatos, conselhos, associações

etc.), mas à religiosidade, à cultura, ao lazer, ao voluntariado etc.

Num momento em que, no Brasil, a juventude deixa, lentamente, de ser considerada como

problema social para ser vista como sujeito de políticas públicas, faz-se urgente entender de que

formas os(as) “jovens comuns”, aqueles(as) que não se encontram vinculados(as) a grupos ou

institucionalidades, estariam dispostos(as) a participar da vida democrática do país. Melhor ainda

se, nesse processo investigativo, fosse possível engajar esses(as) jovens em um exercício que

fortalecesse os princípios democráticos investigados, propiciando uma aprendizagem

compartilhada e reflexiva de jovens participantes e pesquisadores(as). Nesse sentido, a

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metodologia do Diálogo constitui uma possibilidade para investigar a questão da participação a

partir de um processo também de cunho educativo.

Inicialmente, no entanto, foi necessário entender de que maneira seria possível “traduzir” o

debate sobre participação para os(as) jovens de uma maneira geral. Para isso, foi feito o exercício

de “delimitar a questão”, buscando perceber as alternativas de participação que faziam sentido

para os(as) jovens do Brasil. Foram utilizados dados da primeira etapa (quantitativa), mapeados

estudos que englobavam o tema, além de realizado um grupo focal com alguns(mas) jovens para

entender de que modo seria possível aproximar a questão da realidade daqueles(as) que se

buscava pesquisar. Depois de muitos debates entre toda a equipe da pesquisa – inclusive as

equipes regionais – e diversas versões de “cenários” de participação, optou-se por três alternativas

com diferentes ênfases e que poderiam fazer sentido para os(as) jovens brasileiros(as). Foram

apresentados, então, três “cenários” que, no processo de adaptação da metodologia dos Grupos

de Diálogo para a realidade brasileira, foram denominados “Caminhos Participativos”.

O primeiro valorizava a participação da juventude em organizações estudantis, partidos

políticos, sindicatos, ONGs, conselhos, ou seja, revelava a organização dos(as) jovens em grupos

ligados a alguma institucionalidade (essa proposta foi denominada “Eu me engajo e tenho uma

bandeira de luta”). O segundo deles apresentava o voluntariado como alternativa de participação,

valorizando a ação direta e individual dos(as) jovens como maneira de mudar a realidade a sua

volta [“Eu sou voluntário(a) e faço a diferença”]. E o terceiro caminho se apresentou como

“participação cultural”, estando ligado à formação autônoma de grupos por jovens organizados(as)

a partir da cultura, da comunicação ou da religião (“Eu e meu grupo: nós damos o recado”). Como

dito anteriormente, buscou-se trabalhar com concepções de participação em disputa na sociedade,

dando ênfase a valores específicos em cada uma delas, como a participação institucional, a ação

individual e direta e a ação coletiva e cultural.

Os “Caminhos” apresentados são, portanto, tipos ideais de engajamento que enfatizam e

exacerbam diferentes práticas sociais. Trata-se, no entanto, de recurso metodológico para colocar

o tema da participação em diálogo entre os(as) jovens. Ou seja, reconhece-se que as formas de

engajamento indicadas são, na realidade, mais complexas e híbridas. No entanto, o que se buscou

foi a formulação de possibilidades não-excludentes entre si, mas que revelassem tensões que

permitissem aos(às) jovens dialogar, problematizando escolhas e reconhecendo oportunidades e

limites existentes em cada um deles.

É preciso explicitar a forma de exposição de tais Caminhos Participativos. Cada um deles

foi apresentado a partir de elementos comuns: um título que buscava incorporar um possível

posicionamento do(a) jovem; um trecho de uma letra de música popular entre a juventude de uma

forma geral; um parágrafo inicial que foi usado também no CD-ROM para resumir as principais

idéias dos Caminhos; exemplos reais de inserção em determinado Caminho (Saiba Mais); fatos

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que poderiam acontecer caso tal Caminho fosse escolhido; argumentos a favor e contra cada um

deles; além de fotos ilustrando exemplos.

Buscou-se equilibrar argumentos, quantidade de texto escrito, bem como imagens

atraentes para cada um deles, de forma que a qualidade e a quantidade dos textos e das imagens

não pesassem na escolha por um ou de outro Caminho. Ou seja, buscou-se equilibrá-los para que

o determinante no momento das escolhas fossem os argumentos, e não a forma ou a quantidade

do conteúdo. Observou-se, no entanto, que, de maneira geral, os argumentos mais acionados na

reflexão dos(as) jovens sobre os Caminhos foram os disponíveis no parágrafo inicial de

apresentação de cada um, e os elementos A Favor e Contra, que eram também retomados

pelos(as) facilitadores(as) no momento da problematização das escolhas realizadas.

A seguir estão os parágrafos iniciais dos Caminhos, bem como os elementos apresentados

aos(às) jovens como Contra e A Favor:

(A) Caminho 1: “Eu me engajo e tenho um bandeira de luta”

Resumo:

A participação política da juventude ocorre por meios que vão além do voto. Uma das formas

de engajamento é a atuação firme e direta em instituições: partidos políticos, representações

estudantis, sindicatos, conselhos de direito, gestores ou escolares, ONGs, movimentos

sociais, que organizam a sociedade, controlam a atuação dos governos e contribuem para a

ampliação de direitos de cidadania no país. A participação política é um exercício que

prepara as gerações mais jovens, colaborando para que o Brasil diminua as desigualdades

sociais e amplie as possibilidades de acesso à educação, ao trabalho, ao lazer e à cultura.

A Favor:

- participar das instituições políticas aumenta a consciência e diminui a chance de

manipulação por parte dos(as) políticos(as) oportunistas e governos clientelistas;

- considerando o reconhecimento das instituições que, historicamente, são responsáveis

pela organização política do país, a participação engajada nesses espaços é uma forma de

conquistar educação, trabalho e cultura na nossa realidade;

- é a forma de participação que influencia mais diretamente os processos de definição

política e de garantia de recursos públicos para projetos que possam beneficiar os interesses

juvenis.

Contra:

- reforçar um sistema político viciado, que reproduz a corrupção, o “jeitinho brasileiro”, o

“você sabe com quem está falando?” – no qual só um pequeno grupo é beneficiado,

aumentando as desigualdades;

- tornar-se invisível dentro das instituições políticas, como os partidos, e ficar sem espaço

para desenvolver seus talentos individuais;

- ocupar cargos públicos em instituições controladas pelo chamado “mundo adulto”, correndo

o risco de ser manipulado(a) por pessoas com mais experiência e poder de decisão política.

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(B) Caminho 2: “Eu sou voluntário(a) e faço a diferença”

Resumo:

Jovens envolvidos(as) em trabalhos voluntários ajudam a diminuir os problemas sociais.

Eles(as) realizam diferentes atividades, tais como reflorestamento de áreas desmatadas,

manutenção de escolas, alfabetização de crianças, jovens e adultos(as), recreação com

crianças pobres ou hospitalizadas, campanhas de doação de alimentos e diversas outras

ações desse tipo. Para ser voluntário(a) não é necessário se vincular a um grupo ou

organização, o importante é estar disposto(a) a fazer a sua parte para realizar as mudanças

de que nosso país precisa.

A Favor:

- os(as) jovens voluntários(as) envolvidos(as) em ações sociais estão também se

capacitando pessoal e profissionalmente para o futuro;

- o voluntariado representa um significativo reforço no combate a graves problemas sociais

gerados pela falta de verba e de empenho das autoridades em buscar soluções;

- a participação individual e voluntária pode ajudar a combater as desigualdades sociais.

Contra:

- o voluntariado supervaloriza a ação individual, que produz resultados muito localizados e

pouco efetivos na resolução dos problemas sociais;

- há riscos de os(as) voluntários(as) assumirem responsabilidades na execução de políticas

e serviços que são atribuições dos poderes públicos (prefeituras, governos estaduais e

federal). Isso faz com que os governantes se descomprometam cada vez mais de suas

responsabilidades;

- as políticas sociais que se estruturam com base em ações voluntárias correm o risco de ser

frágeis por não contarem com indivíduos devidamente capacitados para trabalhar em

determinadas áreas, como saúde e educação.

12

(C) Caminho 3: “Eu e meu grupo: nós damos o recado”

Resumo:

Neste caminho, os(as) jovens praticam e fortalecem o direito da livre organização. Eles(as)

formam grupos culturais (esportivos, artísticos, musicais etc.), religiosos, de comunicação

(jornal, página na internet, fanzine etc.). Praticando a cultura do encontro, os(as) jovens

rompem com o isolamento e compartilham idéias com outros(as) jovens. Isso, por si só, já

contribui para a construção de uma sociedade menos desigual. Além disso, a partir de um

grupo é possível desenvolver diversas atividades que podem interferir de diferentes

maneiras na realidade do país.

A Favor:

- participando de grupos, os(as) jovens conhecem outras pessoas, deixam de lado o

sentimento de solidão que muitas vezes caracteriza o período da juventude. Passam a ter

com quem conversar e compartilhar necessidades, interesses e ideais em comum;

- os(as) jovens reunidos(as) em grupos afirmam sua capacidade para a auto-organização e

expressão de suas idéias e vontades. Com isso, aprendem a viver em sociedade e a lidar

com as diferenças, tornam-se mais cooperativos(as)e passam a lidar melhor com os

conflitos;

- os(as) jovens exercitam o direito de se organizarem, criando práticas e valores que não

precisam estar subordinadas às vontades de uma instituição ou pessoa mais velha. Dessa

forma, aprendem a ser responsáveis por si mesmos(as) e por seus(suas) companheiros(as)

de grupo.

Contra:

- ao fazer parte de um grupo, o(a) jovem pode estar abrindo mão de um tempo valioso de

seu dia-a-dia em que poderia estar se ocupando com seu desenvolvimento individual (por

exemplo, estudando mais ou se preparando para sua entrada e permanência no mercado de

trabalho);

- o poder público não costuma reconhecer os(as) jovens participantes de grupos informais

como representantes em órgãos (tais como secretarias de governo, conselhos e fóruns) que

definem políticas públicas e a garantia de direitos;

- jovens que apenas participam de grupos não têm uma visão abrangente em relação às

mudanças de que a sociedade brasileira necessita. Alguns grupos se fecham tanto em si

mesmos que as pessoas que deles participam se tornam preconceituosas e

antidemocráticas, ou seja, incapazes de se relacionar com quem tem idéias, gostos e

vontades diferentes das suas e do seu grupo.

Verificou-se, no entanto, que essa abordagem não seria suficiente para sensibilizar os(as)

jovens e motivá-los(as) para o diálogo, uma vez que, se a proposta era que pensassem sobre as

formas de participação na vida democrática, não bastava traduzir os sentidos atribuídos a cada

uma dessas atitudes participantes. Era preciso, também, delinear as possibilidades de

transformação da realidade da juventude brasileira, tendo em mente que, quem participa, participa

por algum motivo. Pensou-se, então, que seria melhor pedir para que eles(as) primeiro

mapeassem questões que gostariam de ver transformadas, para que só depois pensassem em

como gostariam de participar para que essas transformações se tornassem reais. Optou-se, então,

pela divisão do Dia de Diálogo brasileiro em duas partes.

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Na primeira, os(as) participantes eram convidados(as) a pensar o que gostariam de mudar

em áreas de políticas públicas bem próximas de seu cotidiano: educação, trabalho e cultura/lazer.

Após identificados, a partir da discussão em pequenos grupos, os aspectos que desejavam mudar

em cada um desses temas, o resultado era apresentado em sessão plenária. Então eram

destacadas e verificadas as semelhanças e as diferenças entre as conclusões apresentadas pelos

diversos subgrupos, seguindo o roteiro do Dia de Diálogo. Com a ajuda do(a) facilitador(a), o grupo

como um todo chegaria a um “cardápio” comum, resultado do diálogo a partir das diferenças e

semelhanças, ou seja, no final da manhã teriam listado o que gostariam de mudar nas questões da

educação e do trabalho e quanto à cultura e ao lazer.

Na parte da tarde, tendo como base essa lista das mudanças desejadas, os(as) jovens

dialogavam sobre como estariam dispostos(as) a participar para que tais mudanças se tornassem

realidade. Assim, foi possível conectar o debate sobre participação ao cotidiano dos(as) jovens.

Nesse momento, o Caderno de Trabalho, com a apresentação dos “cenários”, foi instrumento para

o diálogo em pequenos grupos. Cada um desses grupos, como na parte da manhã, deveria, a

partir do diálogo, apontar sua alternativa de participação e apresentá-la em plenária. Novamente,

todos(as) dialogavam em busca de semelhanças e diferenças. E, após listadas semelhanças entre

os “cenários” criados, formando um “cenário” de todo o grupo, o(a) facilitador(a) encaminhava o

diálogo sobre as conseqüências decorrentes das escolhas de determinado “cenário.” Esse

momento abria possibilidade para se repensar as escolhas e se definir de que estariam

dispostos(as) a abrir mão para que suas escolhas se realizassem.

No Brasil, considerando que esta pesquisa teve como público-alvo jovens de diversas

classes sociais e níveis de escolaridade, foi necessário a utilização dos(as) “jovens bolsistas”.

Eram pessoas, em sua maioria universitários(as), que tinham a função de ficar nos pequenos

grupos (tanto na parte da manhã, quanto na parte da tarde) apenas registrando o processo de

interação dos(as) jovens4.

4

Toda parte das sessões plenárias do Dia de Diálogo deve ser registrada em áudio ou vídeo para

facilitar a análise dos dados gerados nesse processo. No caso dos pequenos grupos, há diálogos em que o

regis tro fica sendo apenas o resultado do trabalho desenvolvido pelos grupos. No caso desta pesquisa, optou-se pelo registro mais detalhado dessa etapa através da presença de bolsistas com a função de registrar falas e

“não-ditos” durante o trabalho nos grupos.

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A seguir, apresenta-se em linhas gerais o Dia de Diálogo da pesquisa “Juventude Brasileira e

Democracia”:

Dia de Diálogo da pesquisa Juventude Brasileira e Democracia*

1) Chegada dos(as) participantes + acolhimento + café da manhã + distribuição do

“Caderno de Trabalho”

2) Boas vindas e comentários iniciais

3) Dinâmica de integração

4) Apresentação dos(as) jovens + “O que mais te preocupa no Brasil?”

5) Apresentação do CD-ROM

6) Ficha Pré-Diálogo (Opinião Inicial)

7) Questão da manhã: “Pensando na vida que você leva como jovem brasileiro(a), o que

pode melhorar na educação, no trabalho e nas atividades de cultura e lazer?”

8) Trabalho em pequenos grupos

9) Apresentação dos resultados do trabalho em grupos

10) Plenária da manhã + Semelhanças/Diferenças

11) Almoço

12) Dinâmica

13) Questão da tarde: “Pensando no que vocês listaram pela manhã que deve melhorar na

educação, no trabalho e na cultura no Brasil, como vocês estão dispostos(as) a

participar para que essas melhorias se tornem realidade?”

14) Trabalho em pequenos grupos

15) Apresentação dos resultados do trabalho em grupos

16) Plenária da tarde + Semelhanças/Diferenças

17) Ficha Pós-Diálogo (Opinião Final)

18) Comentários finais dos(as) participantes + recado para quem toma decisões

19) Lanche + entrega da ajuda de custo

* Nosso Dia de Diálogo durou, aproximadamente, nove horas.

Convocação e infra-estrutura

No caso da presente pesquisa, que teve como sujeitos os(as) jovens, foi necessário um intenso

processo de mobilização e convencimento para que eles(as) participassem do Dia de Diálogo.

Como dito anteriormente, tais jovens já haviam participado da primeira fase da pesquisa e

respondido positivamente a pergunta 46 do questionário então utilizado [“Você teria interesse e

15

disponibilidade para participar de encontro com jovens para discutir temas relativos aos(às) jovens

brasileiros(as)?”], dando em seguida dados que possibilitassem contato futuro (endereço, telefone

fixo e celular). Com base nessas informações, foi feito um cadastro, disponibilizado para as

equipes de pesquisa das Regiões Metropolitanas e Distrito Federal. Foram elas as responsáveis

pela convocação dos(as) participantes e pela condução dos Dias de Diálogo. Na convocação,

buscou-se preservar a proporção de jovens por sexo, classe de renda e idade, conforme os dados

da primeira fase da pesquisa.

Foi, então, elaborada uma carta-convite padrão, a ser enviada para o endereço do(a)

jovem. A idéia inicial era que o telefonema sucedesse o envio da carta. No entanto, o alto

percentual de endereços equivocados fez com que a maior parte das equipes regionais tivesse que

entrar em contato por telefone com os(as) jovens antes do envio da carta, de modo a confirmar o

endereço. Tal procedimento acabou sendo importante no processo de mobilização, apesar de

demandar mais tempo e trabalho do que o inicialmente previsto.

O processo de mobilização acabou sendo, na maior parte dos casos, feito através de

telefonema prévio para o(a) jovem, por meio do envio da carta, e novamente um contato telefônico

para a confirmação da sua participação.

No que se refere à infra-estrutura, as equipes regionais ficaram responsáveis por encontrar

um lugar acessível para a maior parte dos(as) jovens, inclusive aqueles(as) vindos(as) dos

municípios mais distantes. O local também deveria ser adequado à realização do Diálogo, ou seja,

uma sala ampla ou auditório com cadeiras móveis onde as sessões plenárias pudessem se

realizar, além de outras salas ou espaços menores para os pequenos grupos de trabalho. O

espaço deveria, ainda, comportar a infra-estrutura de gravação de áudio e exibição de multimídia e

ter espaço para se preparar e fazer as refeições (café da manhã, almoço e lanche da tarde).

Cada uma das equipes regionais teve total liberdade para escolher o espaço que julgasse

melhor, tendo em vista as possibilidades disponíveis em cada uma das regiões e instituições.

Sendo assim, os Diálogos foram realizados em hotéis, escolas, clubes ou nas próprias instituições

(ONGs e universidades).

Seguindo as instruções do “Guia do(a) Facilitador(a)”, a equipe foi ao local no dia

anterior ao Diálogo para antecipar a preparação e evitar surpresas desagradáveis. Nessa

preparação, os banners eram pendurados, a estrutura de multimídia preparada, os cartazes

colocados e cadeiras arrumadas.

Todos os Grupos de Diálogos da pesquisa “Juventude Brasileira e Democracia” foram

realizados no final de semana, por se julgar ser mais fácil para mobilizar os(as) jovens, já que boa

parte estuda e/ou trabalha durante a semana. A proposta inicial era realizar os Diálogos no sábado,

no entanto, após a realização de um Grupo de Diálogo piloto no Rio de Janeiro, que contou com

baixíssima participação, foi sugerido que os Diálogos passassem para o domingo, uma vez que

muitos(as) jovens disseram não vir ao piloto por terem trabalho e cursos aos sábados. No entanto,

16

o domingo também se mostrou um dia difícil em algumas regiões. Nesse dia, muitos(as) jovens

têm compromissos religiosos. Soma-se a isso o fato de o sistema de transporte público, em geral,

ficar ainda mais precário, com menos linhas de ônibus em funcionamento e em horários mais

esparsos. Finalmente, a maior parte dos Grupos de Diálogos foi realizada nos sábados com

algumas poucas exceções.

A variação na freqüência dos(as) jovens em cada uma das regiões pesquisadas pode ser

explicada por vários motivos, que vão desde as dificuldades encontradas no processo de

mobilização até problemas circunstanciais como chuvas fortes, passando por questões locais como

distâncias maiores e meios de transporte menos eficientes em determinadas regiões [em dois

casos – Distrito Federal e Belém – as equipes regionais contrataram serviço de transporte para

buscar os(as) jovens, a fim de garantir o quorum mínimo para a realização do Diálogo, ou seja, 15

participantes. Nessas duas regiões, um dos diálogos não aconteceu. No Distrito Federal foi

possível realizar novamente o diálogo cancelado, mas não em Belém, que tinha o menor cadastro

de jovens para convocação].

A experiência demonstrou que, em Diálogos futuros, é preciso haver um tempo maior para

a convocação, bem como o melhor dimensionamento da demanda de trabalho e tempo com a

infra-estrutura. Os relatos das equipes regionais permitem afirmar que a sobrecarga de trabalho

com essa etapa de mobilização e preparação ocupa um tempo precioso em que a equipe poderia

experimentar e estudar mais profundamente a metodologia em si, o que ajuda a antecipar

problemas que podem ocorrer durante sua aplicação, bem como a dar maior segurança a

todos(as) aqueles(as) que estarão à frente do Diálogo.

Instrumentos utilizados no diálogo brasileiro

A seguir estão listados e descritos criticamente os instrumentos utilizados pelo Diálogo da pesquisa

“Juventude Brasileira e Democracia”.

Guia do(a) Facilitador(a)

Nele, foram descritas passo a passo, e de forma bastante detalhada (incluindo tempo previsto

para as dinâmicas, materiais a serem utilizados etc.), todas as etapas que devem ser

percorridas ao longo do Dia de Diálogo, ressaltando sua importância e chamando a atenção

para problemas que possam ocorrer. De acordo com essa experiência, o Guia mostrou-se

extremamente útil, tanto para uniformizar o trabalho e unificar as orientações dadas para

os(as) facilitadores(as), quanto para passar maior segurança nas tarefas a serem realizadas –

ainda inéditas para toda a equipe. A equipe de Brasília, por exemplo, se referiu ao Guia como

uma “referência de análise para a metodologia” que permitiu seguir no Dia de Diálogo um

17

caminho sinalizado. O Guia apresentou, no entanto, segundo algumas equipes regionais,

pouca precisão quanto a algumas dinâmicas importantes, como encontrar semelhanças e

diferenças durante as plenárias ou problematizar as escolhas feitas pelos(as) jovens. Sobre

esse aspecto, é preciso ter em mente que a metodologia era inédita para todos o que a descrição

precisa de alguns processos.

As principais interferências regionais na metodologia global foram quanto ao tempo de

cada uma das atividades, que pôde ser flexibilizado de acordo com o número de participantes

presentes, que variou entre nove e 37, sendo menor do que o inicialmente esperado (40). Um dos

pontos críticos apontados por parte das equipes regionais foi o fato de haver pouco tempo para

muitas atividades, principalmente tendo em vista o fato de a maioria dos(as) jovens envolvidos(as)

nunca terem executado atividade semelhante, o que acarretou dificuldade de entendimento das

tarefas a serem realizadas e demandou dos(as) facilitadores(as) um esforço de esclarecimento

sobre as informações a serem passadas, principalmente sobre participação.

Algumas adaptações foram feitas no Guia após a realização de um grupo piloto, conduzido

pela equipe técnica central no Rio de Janeiro, e após a realização dos dois primeiros Grupos de

Diálogos regionais (Recife e Rio de Janeiro). A primeira diz respeito ao papel dos(as) jovens

bolsistas, que inicialmente seriam apenas observadores(as) e, posteriormente, foram

orientados(as) a terem um papel mais ativo, como facilitadores(as) nos subgrupos de trabalho,

esclarecendo as tarefas a serem desenvolvidas e, sobretudo, auxiliando na leitura do Caderno de

Trabalho. A segunda significou a reexibição da parte relativa aos Caminhos Participativos do CD-

ROM no início da tarde (a princípio, ele seria passado apenas no início do Dia), a fim de retomar as

informações sobre os Caminhos Participativos, relembrando algumas passadas pela manhã e

ajudando a introduzir a questão da tarde.

Caderno de Trabalho (ou “Roteiro para diálogo da pesquisa Juventude Brasileira e Democracia”)

Conforme anteriormente mencionado, trata-se de publicação distribuída aos(às) participantes

contendo informações gerais sobre o tema, sobre a metodologia, além da caracterização de cada

um dos cenários ou alternativas dadas sobre a questão. Apesar de ter sido pensado – inclusive na

sua forma e aparência – para ser mais acessível aos(às) jovens, ele se mostrou de difícil

entendimento, principalmente devido à linguagem escrita adotada. Mesmo que o Caderno

contivesse um glossário, muitas palavras não foram compreendidas pelos(as) jovens que

tiveram dificuldade de assimilar a quantidade de informação disponível. Os problemas com o

Caderno foram apontados por todas as equipes regionais, que chamaram a atenção para a

sofisticação da linguagem e o excesso de texto e informação escrita, que levou alguns(mas)

jovens de Recife a mencionarem que nunca haviam estudado tanto, ainda que o aspecto

estético tenha sido bastante valorizado.

18

É importante indicar que esse Caderno – como todos os outros instrumentos – foi redigido

e pensado coletivamente pelas equipes central e regionais. O que foi constatado, no entanto, é

que, para servir inteiramente ao que se propõe, ou seja, passar informações para os(as) jovens de

forma acessível e descontraída, seria preciso alguns grupos de testes que permitissem fazer

alterações no material. Indica-se, portanto, que o tempo de elaboração do Caderno de Trabalho

deve ser maior em futuros Diálogos para que haja possibilidade de seu aprimoramento através de

testes em grupos de diálogo pilotos e junto a jovens individualmente.

CD-ROM

Produziu-se um instrumento audiovisual para auxiliar na transmissão das informações contidas no

Caderno de Trabalho, considerando o alto grau de dificuldade de leitura entre a população

brasileira. Nele, lançou-se mão de músicas de diversos gêneros, imagens coloridas, personagens

jovens com vozes/sotaques característicos das regiões envolvidas no Diálogo, além de trechos e

palavras-chaves presentes no Caderno. A linguagem mais coloquial e o recurso audiovisual

ajudaram a chamar a atenção dos(as) participantes, principalmente no início do Dia de Diálogo.

O CD-ROM, de aproximadamente 12 minutos, foi bastante elogiado pelas equipes

regionais e cumpriu sua função de tornar a transmissão das informações contidas no Caderno

de Trabalho mais acessíveis, estabelecendo, como apontou a equipe de São Paulo, “um

patamar mínimo de informação aos(às) jovens e reforçando informações já apresentadas

pelo(a) facilitador(a)”. Foi sugerido que fossem feitas interrupções ao longo da exibição do CD-

ROM para que os(as) jovens pudessem interagir com o material, através da mediação do(a)

facilitador(a), bem como para a introdução de dados locais, o que foi feito por diversas equipes

regionais. Várias equipes chamaram a atenção para o fato de alguns(mas) jovens se referirem

ao CD-ROM e às informações veiculadas através dele ao longo do Dia de Diálogo o que, mais