Juventude Brasileira e Democracia – participação, esferas e políticas públicas por Anónimo - Versão HTML

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uma vez, sinaliza a sua eficácia.

O principal problema de tal ferramenta está no fato de depender de equipamento

multimídia para sua exibição. No “Guia do(a) Facilitador(a)”, chamou-se a atenção para a

necessidade de testar com antecedência tal equipamento, e sugeriu-se criar uma alternativa no

caso de algum imprevisto ocorrer. Pelos relatos regionais, parece não ter havido muitos problemas

nesse sentido. O maior deles, no entanto, aconteceu na RM de Porto Alegre, que ficou sem luz em

um dos Dias de Diálogo, quando a equipe “dramatizou” o conteúdo do CD-ROM com a ajuda

dos(as) jovens.

19

Estandartes ( Banners)

Os estandartes apresentaram em destaque algumas das informações presentes no Caderno de

Trabalho e no CD-ROM, servindo tanto para introduzir o(a) jovem no Diálogo (uma vez que eram

vistos logo que chegavam), quanto para ajudar a fixar as informações passadas. Estes foram

bastante valorizados pelas equipes regionais, principalmente aquele referente aos compromissos

do Diálogo, que ajudou alguns(mas) jovens a evocar as “regras” junto a seus(suas) colegas. Eles

contribuíram também para criar, no local do encontro, um ambiente propício ao Diálogo. Os

estandartes foram importantes “como recurso de identificação visual, na tentativa de fazer os(as)

jovens se sentirem familiarizados(as) com aqueles personagens – presentes em também nos

Cadernos e no CD-ROM – que, ao longo do dia, estariam passando as informações para eles”, nas

palavras da equipe do Rio de Janeiro.

20

Fichas Pré e Pós-Diálogo

As fichas Pré e Pós-Diálogo, instrumentos que permitiram medir as variações na adesão aos

“Caminhos Participativos” propostos, foram diferenciadas por cores distintas. Nelas, os(as) jovens

poderiam mostrar o grau de adesão ou rejeição a cada Caminho, marcando um valor numa escala

de 01 a 07, onde 01 representava rejeição total e 07, adesão total. Na segunda delas, em que o(a)

jovem poderia dizer em que condições aderiria a determinado Caminho, foram solicitados também

dados básicos de seu perfil (sexo, faixa etária, grau de escolaridade e se trabalhava ou não).

Apesar de algumas equipes regionais terem apontado que as informações presentes nas fichas

eram bastante claras, isso não foi consenso. Outras equipes ressaltaram ter percebido dificuldade

entre os(as) jovens quando as preenchiam, destacando a importância de explicar as orientações

ao invés de apenas lê-las. Apesar de terem chamado a atenção para o fato de não ser uma prova,

não havendo respostas certas ou erradas, muitos(as) jovens tenderam a encará-la dessa maneira.

A linguagem, que seguiu o padrão do Caderno de Trabalho (Roteiro para o Diálogo), também pode

ter representado uma dificuldade no seu entendimento e preenchimento.

Solicitou-se que os(as) jovens atribuíssem pontuação para os três diferentes Caminhos

Participativos sugeridos: o Caminho 1 ( Eu me engajo e tenho uma bandeira de luta), o Caminho 2

[Eu sou voluntário(a) e faço a minha parte] e o Caminho 3 ( Eu e meu grupo: nós damos o recado).

Como dito anteriormente, essa avaliação dos Caminhos Participativos ocorreu em dois distintos

momentos. O primeiro momento ocorreu após a apresentação aos(às) participantes do CD-ROM e

dos Cadernos de Trabalho, que traziam imagens e textos com fundamentação, aspectos positivos

e problematizações sobre esses mesmos Caminhos. O segundo momento de pontuação ocorreu

ao final do Dia de Diálogo; nesta segunda avaliação, solicitou-se que os(as) jovens escrevessem

suas condições de apoio ao Caminho, caso elas existissem.

Como pressuposto metodológico, não se pretendeu que os(as) jovens estabelecessem

comparações valorativas entre os Caminhos, mas que avaliassem cada um deles em separado

numa escala na qual 01 representaria a mais baixa adesão ao Caminho e 07, a mais alta adesão.

Buscaram-se, então, através deste instrumento, dados que permitissem perceber a opinião inicial

dos(as) participantes sobre os Caminhos antes da interação provocada pelo Diálogo, que ocorreria

durante todo o dia, e a reação destes(as) após o evento, que pôde variar entre a manutenção da

pontuação inicial e a mudança, para mais ou menos e com diferentes intensidades, em cada um

dos Caminhos sugeridos.

As fichas Pré e Pós-Diálogos são recursos auxiliares que, em conjunto com os dados

qualitativos recolhidos durante as sessões de Diálogo, permitiram perceber a influência da

interação sobre a manutenção ou mudança de posições relacionadas a formas e conteúdos de

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participação social, cultural e política segundo os diferentes perfis dos(as) participantes

(escolaridade, gênero, idade e condição frente ao trabalho).

A agregação das notas das fichas Pré e Pós-Diálogo que foram atribuídas por cada um(a)

dos(as) participantes permitiu perceber a preferência por determinado Caminho Participativo em

cada uma das regiões da pesquisa. A análise desses dados agregados, em conjunto com os dados

qualitativos dos grupos de diálogo, contribui para a percepção sobre os valores atribuídos pelos(as)

jovens a cada um dos sentidos de participação impressos nos Caminhos sugeridos pela pesquisa.

É possível intuir que a nota Pós-Diálogo é atribuída em momento de melhor condição de

julgamento, considerando que, ao fim do Dia de Diálogo, os sujeitos experimentaram processo no

qual puderam dialogar sobre valores, efetividade dos Caminhos para a realização de mudanças e

suas conseqüências pessoais e coletivas.

Partindo da informação que a maioria dos(as) jovens atribuiu notas altas (06 e 07),

configurando intervalo de diferenciação valorativa pouco significativo, a ordem numérica das

preferências pode ser muito mais reveladora de tendências participativas. As equipes regionais de

pesquisa identificaram muitos(as) jovens que reconheceram potencialidades e também problemas

nos três Caminhos sugeridos.

Considerando as notas das fichas Pré e Pós-Diálogo, pode-se dizer que os(as) jovens

perceberam positividades nos três Caminhos Participativos para a promoção das mudanças

desejadas por eles(as) nas áreas da educação, trabalho e cultura/lazer. Ainda que estatisticamente

se possa apontar preferências, não é demais insistir em dizer que o “clima cultural” dos grupos de

diálogos tendeu ao hibridismo na hora da escolha dos Caminhos. Dessa forma, ao se apontar o

caminho melhor pontuado individualmente pelos(as) jovens, não se deve perder de vista que, em

verdade, não houve “Caminho vitorioso” nacional ou regionalmente, mas, sim, percursos

privilegiados de escolhas ancoradas por determinados valores. Os diálogos ocorridos em torno dos

Caminhos Participativos colocaram em jogo razões, valores e intersubjetividades que levaram os

(as) jovens a valorizarem determinado Caminho no momento em que foram solicitados(as) a fazê-

lo nas fichas Pré e Pós-Diálogo.

Ao estabelecerem – escrevendo nas fichas Pós-Diálogo – condições para o apoio a cada

um dos três Caminhos Participativos sugeridos pela pesquisa, os(as) jovens evidenciaram o

predomínio de alguns valores que desejam ver impressos à participação.

Foram 911 os(as) jovens que responderam às Fichas Pré e Pós-Diálogo nas regiões onde

se realizou a pesquisa.

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Considerações finais

O Diálogo brasileiro, tendo como tema a participação e como foco a juventude, foi uma rica

experiência em que vários aspectos contribuíram para que pudesse ser compreendida como

experiência exitosa, considerando seu ineditismo e as dificuldades encontradas ao longo do

percurso. Para concluir a presente exposição, serão destacados alguns pontos que concorreram

para sua realização, bem como algumas dificuldades encontradas ao longo do caminho.

A Rede

A opção por um trabalho descentralizado, em que a coordenação e a equipe técnica buscaram

respeitar as especificidades locais e institucionais, se mostrou muito rica, apesar dos desafios

colocados por essa forma de trabalho. A pesquisa foi pensada, desde o início, para ser realizada

por uma multiplicidade de parceiros que construíram juntos uma forma coletiva de trabalho. O

papel de coordenação foi desempenhado pelo Ibase e pelo Pólis. Os parceiros canadenses CPRN

(Redes Canadenses de Pesquisa em Políticas Públicas) e IDRC (Centro de Pesquisas para o

Desenvolvimento Internacional) foram responsáveis, respectivamente, pela assessoria técnica –

principalmente na metodologia dos Diálogos – e pelo apoio financeiro. Além deles, em cada uma

das regiões pesquisadas, uma ou duas instituições ficaram responsáveis por sua supervisão

regional e gestão local. A seguir, encontra-se listagem das instituições envolvidas em cada uma

das regiões:

Região pesquisada

Instituição(ões) responsável(is)

Porto Alegre

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

São Paulo

Ação Educativa

Rio de Janeiro

Iser/ Assessoria e Universidade Federal

Fluminense/ Observatório Jovem do Rio de

Janeiro

Belo Horizonte

Universidade Federal de Minas Gerais/

Observatório da Juventude

Distrito Federal

Inesc – Instituto de Estudos Socioeconômicos

Salvador

Cria – Centro de Referência Integral de

Adolescentes

Recife

Equip – Escola de Formação Quilombo dos

Palmares e Redes e Juventudes

Belém

Unipop – Instituto Universidade Popular

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O entrosamento e a interação entre todos os membros da rede, bem como a obtenção de

um padrão homogêneo no trabalho realizado de forma descentralizada, foram alcançados através

de encontros presenciais e de um Fórum Eletrônico (via internet). Os encontros foram organizados

no formato de seminários, ao todo, quatro. Houve um esforço coletivo permanente na construção e

manutenção da rede, tanto por parte da coordenação do projeto, quanto das equipes regionais.

Disso resultou a pesquisa planejada centralmente (mas de forma participativa), e

executada e gerenciada de modo descentralizado (mas como uma construção conjunta e coletiva),

com um importante aprendizado para todas as partes envolvidas. As consultoras do CPRN

trabalharam a partir desse mesmo princípio, trazendo sua experiência na metodologia dos Diálogos

para um novo espaço de construção, respeitando especificidades locais, do tema e do próprio

arranjo organizacional adotado por esta pesquisa.

Foi formado um Conselho Político da Pesquisa, composto por representantes do Ibase,

Pólis, IDRC e Secretaria Nacional de Juventude, que acompanhou os principais momentos do

estudo, ajudando a pontuar questões estratégicas para o projeto.

Foi a partir desses pressupostos do trabalho em rede que foi possível valorizar e incorporar

as especificidades regionais no processo, reconhecendo que foram as experiências locais e a troca

entre elas as responsáveis pela criação de um Diálogo brasileiro. Como dito na apresentação,

buscou-se estabelecer o diálogo não apenas como método, mas, sobretudo, como princípio. E,

nesse sentido, a troca permanente entre parceiros(as) (instituições e pessoas) com perfis

profissionais tão diversos foi um desafio que valeu a pena enfrentar, pois foram essas diferentes

perspectivas que, ao longo do processo, possibilitaram uma visão mais ampla sobre a construção

da pesquisa e, ao final dele, puderam revelar a qualidade dos dados conseguidos e suas múltiplas

formas de interpretação e possibilidades a apreensão.

O Tema

Pesquisar o tema da participação junto a sujeitos que não possuíam, obrigatoriamente, experiência

participativa, mostrou-se como mais um desafio a ser enfrentado desde o início da investigação. A

metodologia dos Grupos de Diálogo mostrou-se interessante nesse aspecto, já que, em um certo

sentido, o próprio Dia de Diálogo oferecia um espaço propício à participação e adequado à escuta

daqueles(as) que não tinham o hábito da fala pública. No entanto, como apontaram algumas

equipes, o contraponto dessas vantagens esteve no fato de a participação ter sido apresentada,

todo o tempo, como valor positivo. Os materiais produzidos, as questões levantadas, a postura

dos(as) facilitadores(as) e a forma de se apresentar as perguntas da pesquisa levavam a crer,

nessa perspectiva, que, antes de tudo, participar era bom. Nesse sentido, o fato de não ser

colocada a possibilidade da não-participação como Caminho possível pode ser encarado como um

viés na investigação.

24

Por outro lado, há de se lembrar que o que se buscou investigar eram as potencialidades e

interdições à participação dos(as) jovens na esfera pública. Desse ponto de vista, a partir dos

valores contidos em cada Caminho, poderia ser possível entender quais deles mobilizavam mais

ou menos para a participação. E o fato de se ter tido um dia inteiro de trabalho fez com que muitas

equipes observassem mesmo a falta de ânimo para a discussão da participação (distante da

realidade da maioria), em contraposição às acaloradas discussões sobre trabalho, educação e

cultura/lazer, aspecto levado em conta na análise dos dados produzidos nesse processo. Havia,

ainda, as fichas Pré e Pós-Diálogo, que também abriam espaço para uma eventual recusa à

participação, já que os(as) jovens poderiam ter dado, logo no início, notas muito baixas às

alternativas apresentadas. Não tendo sido, no entanto, o que aconteceu.

A dificuldade de compreensão e entendimento do tema não pode ser desconsiderada.

Como já apontado, a linguagem sofisticada do material disponibilizado para os(as) jovens pode ter

contribuído para esse fato. No entanto, o fato de alguns grupos terem idealizado a solução para os

problemas apontados, projetando a responsabilidade do engajamento participativo para outros(as)

jovens sem levar em conta a sua própria condição, evidenciou a presença de um(a) “jovem

abstrato(a)” que deveria realizar o Caminho idealizado. Os(as) participantes do Diálogo parecem

não falar a partir deles(as) e para eles(as), mas para uma outra pessoa, como se os Caminhos

fossem algo longe de sua realidade.

Algumas equipes apontaram tal fato indicando que, ao pensar na participação juvenil, e

tendo sido feito um esforço por parte dos(as) facilitadores(as) para que os(as) jovens se

colocassem nessa posição, o exercício de pensar a participação era feito, não raro, em terceira

pessoa, sendo os Caminhos pensados como formas ideais e distantes, e não como possibilidades

reais de atuação na realidade. Ainda assim, e como os(as) próprios(as) jovens, em sua grande

maioria, demonstraram na avaliação final do Dia de Diálogo, esse exercício de pensar em questões

que não se colocam no seu cotidiano pareceu válido e mesmo importante, fazendo com que

muitos(as), além de exercitarem escolhas, também se deparassem com possibilidades

impensadas.

A Metodologia

Alguns aspectos da metodologia devem ser recuperados nessas considerações finais.

Primeiramente, quanto à dinâmica do Dia de Diálogo, os pequenos grupos trabalharam com mais

vitalidade, interesse e tranqüilidade no período da manhã, talvez pelo fato de que, nessa parte do

dia, os(as) jovens falaram, essencialmente, de suas experiências. Sentiam-se, portanto, em

condições de contribuir para o Diálogo, aproveitando, também, esse espaço para falar de assuntos

(educação, trabalho e cultura/lazer) que, de fato, lhes afetavam profundamente. Uma constatação

geral foi sobre a importância dos trabalhos em pequenos grupos, em que, mesmo em regiões onde

se constatou um maior monopólio da palavra por poucos(as) jovens, todos(as) tiveram maior

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oportunidade de dar suas opiniões e construir propostas coletivamente. Muitas vezes, no entanto,

as apresentações dos pequenos grupos em plenária não eram condizentes com o que tinham

conversado no grupo. Houve, por vezes, uma tendência a resumir as decisões na hora de

apresentá-las, de forma que muitos dos seus significados se perdiam. Além disso, houve casos em

que o grupo mudou os itens de sua apresentação às pressas, o que pode explicar algumas

incongruências ou falta de consistência nos relatos. Essa constatação revela, uma vez mais, a

importância da incorporação de bolsistas no acompanhamento dos pequenos grupos, tendo como

responsabilidade a anotação das discussões ocorridas nos pequenos grupos, além auxiliarem na

leitura do Caderno de Trabalho e sanarem eventuais dúvidas que surgiam nesses momentos.

Sendo os(as) bolsistas em sua grande maioria jovens, houve, ainda, uma maior identificação

dos(as) jovens participantes com eles(as), o que certamente ajudou no fato de permanecerem em

um momento em que o debate seria apenas entre os(as) jovens. A opção inicial por grupos “auto-

facilitados” mostrou-se equivocada, uma vez que a falta de experiência dos(as) jovens nesse tipo

de trabalho e a dificuldade de algumas tarefas (especialmente na parte da tarde) contribuírem para

um impasse na execução de tais tarefas que nem todos(as) conseguiriam resolver sozinhos(as). A

opção pela atuação mais ativa dos(as) bolsistas, tomada após do início dos Grupos de Diálogo,

revelou-se mais acertada.

Outro importante aspecto a ser destacado na aplicação da metodologia é o fato de os(as)

jovens, de uma maneira geral, terem incorporado a idéia do diálogo como uma situação

democrática de escuta e respeito à fala alheia. Nas suas conversas, freqüentemente utilizaram as

expressões: na minha opinião, no meu ponto de vista, bem como desencadearam processos para que todos os membros do grupo se expressassem.

Houve, em algumas regiões, certa variação na adesão dos princípios, participação nos

Grupos de Diálogo e execução das tarefas. Uma delas diz respeito à questão de gênero: algumas

regiões, entre elas Belém, Recife, Salvador, Brasília e Porto Alegre, pontuaram o papel de

destaque de muitas jovens mulheres ao longo dos Dias de Diálogo, seja nos pequenos grupos,

seja nas plenárias. Outra recorrência em várias regiões foi a maior facilidade de trabalho nos GDs

formados por jovens entre 18 e 24 anos, ou seja, os Grupos de Diálogo formados por jovens mais

velhos(as) tendiam, como explicitaram as regiões de Belém, Recife, Salvador e Belo Horizonte, a

entender e executar as tarefas com menos dificuldades. Outro aspecto importante a registrar foi a

atuação dos(as) jovens com experiência participativa. No geral, os grupos formados apenas com

esses(as) jovens não apresentaram grandes diferenças em relação aos demais. Foi apontado, no

entanto, que nos Grupos de Diálogo, em geral, alguns(mas) jovens com experiência anterior

exerciam certa liderança – fosse através do monopólio da palavra, fosse ajudando na condução

dos trabalhos, chamando outros(as) jovens para expressarem seus pontos de vista.

Um ponto a ser também resgatado é o do papel do(a) facilitador(a). Desde o princípio,

houve muitas dúvidas por parte de toda a equipe sobre os limites de conduzir uma dinâmica tão

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complexa, buscando minimizar as influências sobre os(as) jovens, sobretudo na valorização de um

Caminho em detrimento dos demais. Em determinados momentos do Diálogo [encontrar

semelhanças e diferenças e problematizar a escolha dos(as) jovens], a tarefa de facilitação

mostrou-se especialmente delicada, fazendo com que as pessoas à frente desse processo

tivessem que encontrar, na prática, o limite tênue entre facilitar o diálogo entre os(as) jovens

(cuidando para que a tarefa não levasse muito mais tempo do que o previsto) e impor o que

achava mais relevante ou pertinente. Nota-se, no entanto, que apesar de se reconhecer que uma

situação como a aqui descrita nos Dias de Diálogo é por si só indutora (e, no limite, toda situação

de pesquisa significa uma alteração da realidade pesquisada), a preocupação constante observada

em todas das regiões, de não induzir os(as) jovens no processo de Diálogo, pareceu ter tido

sucesso. Prova disso é que, em muitas delas, houve certa resistência ao Caminho 2 (voluntariado)

por partes das equipes e, ainda assim, ele e os valores nele contidos, foram acionados

recorrentemente pelos(as) jovens, apresentando-se muitas vezes como Caminho mais escolhido.

Constata-se a importância do papel do(a) facilitador(a) na construção do Diálogo e também

de sua formação no processo de construção da pesquisa, em que é necessário se chamar a

atenção para sua responsabilidade enquanto pesquisador(a). Como experiência nova para as

equipes regionais [e, nesse sentido, tanto para os(as) professores(as) acadêmicos(as), quanto

para educadores(as) populares], a metodologia parece ter criado para o(a) “pesquisador(a)” uma

possibilidade de apropriação não somente de uma técnica de coleta de dados, mas da metodologia

como parte da construção da própria questão da pesquisa e do processo de sua compreensão,

tornando possível uma reconstrução da relação pesquisador(a)-pesquisado(a). O exercício feito a

partir dos Grupos de Diálogo foi importante também por colocar o(a) adulto(a) na prática da escuta

do(a) jovem, não apenas na dimensão da conscientização do valor da escuta do outro, mas

também na execução da metodologia, que exigiu uma vigilância constante, tarefa ainda mais

desafiadora quando se tratam de facilitadores(as) professores(as) e educadores(as) [caso da

grande maioria dos(as) profissionais envolvidos(as)].

Quanto à adaptação da metodologia dos Grupos de Diálogo à realidade brasileira,

percebemos que, para os(as) jovens, um dia intensivo de conversa e de aprendizado – quando

emitiram opiniões e colocaram-nas em diálogo com as opiniões dos(as) outros(as) – possibilitou a

produção de um deslocamento do eixo da reflexão, do âmbito privado ao público, criando

oportunidade para a expressão de uma análise crítica e para a valorização da ação coletiva,

colocando-se como sujeitos da reflexão e da ação. Outra perspectiva da metodologia que merece

destaque é seus potenciais formativo e informativo. Os encontros foram oportunidades, muitas

vezes únicas, dos(as) participantes obterem informações sobre os temas propostos, de provocar

seu posicionamento e colocar em questão princípios baseados em sensos comuns.

Assim, a pesquisa foi exitosa em ampliar a própria compreensão do que seja política entre

os(as) jovens e, a partir disso, abriu espaço para que eles(as) pudessem reconhecer suas próprias

27

trajetórias de participação. Nesse sentido, o Caderno de Trabalho e o CD-ROM, associados à

facilitação, foram instrumentos eficientes para dar visibilidade às diversas formas de participação

política existentes e, a partir disso, mapear o conhecimento e a experiência prévia dos(as) jovens

nesse âmbito.

Finalmente, um importante mérito dessa experiência com a metodologia foi ter colocado

os(as) jovens em situação de diálogo, ou seja, dar a possibilidade de acesso a um espaço de

discussão, escuta, expressão das diferentes opiniões e troca de experiências. Para grande parte

dos(as) 913 jovens participantes foi, sem dúvida, uma experiência inédita, à qual deram muito

valor. Ter conseguido identificar o desejo de muitos(as) jovens de fazer parte de espaços como os

abertos através do Diálogo foi, sem dúvida, um resultado positivo da pesquisa.

28

Bibliografia

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Democracia: participação, esferas e políticas públicas. Relatório Final da Região

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SALVA, Sueli. Relatório qualitativo – Grupos de Diálogo da Região Metropolitana de Porto

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MACKINNON, Mary Pat; MAXWELL. Judith; ROSELL, Steven; e SAXENA, Nandini. Citizenś

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Relatório final da Região Metropolitana de Belém. Pesquisa Juventude Brasileira e

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29

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relatório global

Juventude Brasileira

e Democracia:

participação, esferas

e políticas públicas

2 Relatório final

january 2006

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Sumário

1. Apresentação ..........................................................................................5

2. Participação e juventude ....................................................................7

3. Considerações metodológicas ...........................................................10

3.1 Pesquisa de opinião ......................................................................... 10

3.2 Grupos de diálogo ............................................................................ 13

4. Perfil dos(as) jovens: quais os sujeitos da pesquisa? ...................15

5. O que preocupa os(as) jovens? ..........................................................18

6. Os eixos orientadores do diálogo:

educação, trabalho e cultura e lazer ................................................21

6.1 Educação ......................................................................................... 21

6.2 Trabalho ........................................................................................... 29

6.3 Cultura e lazer .................................................................................. 34

7. A participação e seus caminhos possíveis .....................................40

7.1. Participação em grupos ................................................................... 40

7.1.1 Participação em movimentos ............................................................... 42

7.1.2 A Escola como espaço-tempo de participação .................................... 44

7.1.2.1 Principais temas debatidos nas escolas

7.1.2.2. Participação em atividades na escola

em finais de semana

7.1.3. Percepções em torno da participação .................................................. 46

7.2. Caminhos participativos: os jovens dialogam

sobre limites e possibilidades .......................................................... 48

7.2.1. Caminho 1: Eu me engajo e tenho uma bandeira de luta .................... 49

7.2.2. Caminho 2: Eu sou voluntário(a) e faço a diferença ............................ 53

7.2.3 Caminho 3: Eu e meu grupo: nós damos o recado .............................. 58

7.2.4 Escolhendo e inventando caminhos, com criatividade ......................... 62

8. Recado dos(as) jovens para os(as) “políticos(as)” .........................65

9. Espaços para o diálogo ........................................................................68

10. Considerações finais .............................................................................72

10.1. Recomendações de políticas públicas .............................................. 83

10.2. Recomendações de novos estudos e investigações ........................ 84

11. Bibliografia ..............................................................................................86

12. Anexos ......................................................................................................89

1Apresentação

O relatório a seguir é o resultado final da pesquisa “Juventude Brasileira e Demo-

cracia – participação, esferas e políticas públicas” , que buscou ouvir e debater

com diferentes jovens brasileiros(as), entre 15 e 24 anos de idade, os limites e pos-

sibilidades da sua participação em atividades políticas, sociais e comunitárias, consi-

derando a importância da inclusão desses sujeitos para a consolidação do processo

de democratização da sociedade brasileira. A investigação foi desenvolvida por uma

rede de instituições parceiras1, que compactuam com a premissa de que a primeira

tarefa a se fazer é aprender a escutar os(as) jovens, entender as condições em que

vivem, as suas semelhanças, diferenças e perspectivas frente aos imensos desafios

que as sociedades atuais impõem.

A investigação, realizada entre julho de 2004 e novembro de 2005, teve como

finalidade subsidiar novas políticas, estratégias e ações públicas voltadas para

os(as) jovens, e realizou-se mediante duas abordagens metodológicas: a primeira,

1. Ibase – Instituto Brasileiro de

um levantamento estatístico, por meio da aplicação de questionário em amostra

Análises Sociais e Econômicas

do universo (8.000 jovens), buscando caracterizar o perfil dos(as) jovens, suas

(coord.); Pólis – Instituto de

Estudos, Formação e Assessoria

diversas formas de participação e percepções sobre o tema; a segunda, um estudo

em Políticas Sociais (coord.);

qualitativo, baseado na metodologia Choice Work Dialogue Methodology – Grupos

Iser Assessoria/Rio de Janeiro,

RJ; Observatório Jovem do Rio

de Diálogo, em que 913 jovens debateram sobre o tema, em sete Regiões Metro-

de Janeiro/Universidade Federal

Fluminense, RJ; Observatório da

politanas (Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador

Juventude da Universidade Federal

e São Paulo) e no Distrito Federal.

de Minas Gerais/Belo Horizonte,

MG; Ação Educativa – Assessoria,

A partir dos dados levantados nessas duas fases, foram produzidos, além do

Pesquisa e Informação/São Paulo,

presente texto, dois relatórios em cada uma das regiões: o primeiro tratando espe-

SP; UFRGS – Universidade Federal

do Rio Grande do Sul/Porto

cificamente da análise dos dados quantitativos regionais (Pesquisa de Opinião) e o

Alegre, RS; Inesc – Instituto

de Estudos Socioeconômicos/

segundo articulando os resultados dos Grupos de Diálogo da região com as análises da

Brasília, DF; Cria – Centro

Pesquisa de Opinião. Os relatórios finais das regiões investigadas e o relatório global

de Referência Integral de

Adolescentes/Salvador, BA;

da Pesquisa de Opinião constituíram, portanto, base para o texto que se segue.

UNIPOP – Instituto Universidade

Trata-se, assim, de uma produção coletiva, que articula diferentes reflexões

Popular/Belém, PA; Equip

– Escola de Formação Quilombo

na compreensão das formas, conteúdos e sentidos da participação dos(as) jovens,

dos Palmares/Recife, PE; IDRC

embora cada um dos relatórios finais das regiões pesquisadas possua uma linha de

– International Development

Research Centre/Canadá; e CPRN

análise autônoma de acordo com as instituições e pesquisadores(as) que estiveram

– Canadian Policy Research

Networks/Canadá.

à frente da investigação nas referidas localidades.

5

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As informações aqui mapeadas se unem às contribuições já existentes da

produção de conhecimento sobre juventude, no âmbito nacional e internacional, parti-

cularmente da América Latina, ampliando o debate, infl uenciando políticas públicas de

juventude (como também políticas de educação, trabalho, cultura e lazer) e estimulando

o fortalecimento de redes de sustentação e de construção de oportunidades para que

as diversas juventudes vislumbrem um outro mundo possível.

Assim sendo, os resultados da pesquisa ganham maior relevância, considerando

o recente movimento de criação de instâncias político-administrativas voltadas para

políticas públicas de juventude nos âmbitos executivos e legislativos, destacando-se

nacionalmente a criação em 2005 da Secretaria Nacional da Juventude e do Conselho

Nacional de Juventude, ambos vinculados à Presidência da República, tendo como

importante atribuição incorporar as manifestações participativas e os interesses dessa

signifi cativa parcela da população.

Embora, de um modo geral, a sociedade tenha um olhar ambíguo de desencanto

e de fascínio para os(as) jovens, os dados e depoimentos que se seguem mostram

sujeitos com profunda crença em suas capacidades, que aspiram a abertura de canais

de participação para que possam ser ouvidos e oportunidades iguais para que vivam

a transformação hoje, e não em um futuro inalcançável.

6

2Participação e Juventude

Articular as temáticas juventude e participação não é tarefa simples e torna-se um

importante desafio, especialmente no contexto atual do Brasil. São 34 milhões de

jovens entre 15 e 24 anos, ainda longe de serem reconhecidos(as) como sujeitos de

direitos e incluídos ativamente no processo democrático. Mas quem são esses(as)

jovens e o que pensam sobre a participação?

A definição do que venha a ser juventude em determinado momento histórico

pelo intermédio do recorte etário é, talvez, a maneira mais simples de tentar circunscre-

ver sujeitos cujas experiências se caracterizam por serem diversas e desiguais. Ainda

que para fins de pesquisa, legislação e definição de políticas públicas seja possível

estabelecer como sendo jovens aqueles(as) que se encontram em torno de determi-

nado corte de idade, deve-se ter em conta a inadequação conceitual de se articular

um só campo de representações que seja unificador dos sentidos do que venha a

ser a “juventude”. Sem dúvida, “juventude é apenas uma palavra” (Bourdieu, 1983)

caso não se busque compreendê-la como categoria em permanente construção social

e histórica, incorporando a complexidade da vida – em suas dimensões biológicas,

sociais, psíquicas, culturais, políticas, econômicas etc. – que organizam as múltiplas

maneiras de viver a condição juvenil.

Cabe refletir sobre o que haveria de comum entre jovens de 15 e 24 anos? Que

vínculos existem entre jovens que possuem garantias familiares para se escolarizarem

no tempo adequado e outros(as) de mesma idade que já se encontram diante dos

desafios do mundo do trabalho ou da constituição da família? O que têm em comum

jovens que vivem em espaços sociais economicamente valorizados da cidade e jo-

vens que moram nas favelas e periferias? Jovens homens e jovens mulheres, ainda

que de classes e idades semelhantes? Certamente, as respostas vão muito além da

agregação etária, mas apontam para a necessidade de refletir sobre as diferentes

condições objetivas e percepções sobre os sentidos de ser jovem. Somente dessa

forma é possível dirigir um olhar sobre a juventude que contemple a sua diversidade,

mais adequado à situação real, ou seja, aquela na qual a agregação arbitrária por

idade não resume as identificações possíveis num conjunto determinado de homens

e mulheres que se reúnem num universo de pesquisa, mas que permite perceber

7

experiências geracionais em comum (Novaes, 1998). Nessa perspectiva, pode-se

dizer que se está diante de uma mesma geração quando os sujeitos, em alguma

medida, vivenciam espaços-tempos comuns de sensibilidades, saberes, memórias,

experiências históricas e culturais.

Assim, passou-se a empregar com certa freqüência a expressão “juventudes”

(Novaes, 1998, Carrano, 2000, Castro & Abramovay, 2002; Abramo, 2005) como forma

de enfatizar que, ao se tratar de jovens, deve-se reconhecer que esses(as) constituem

realidade plural e multifacetada. A expressão aparece em discursos públicos, textos e

documentos variados da esfera governamental, acadêmica e da sociedade civil. Ain-

da que a simples utilização dessa expressão não garanta, por si só, a percepção da

complexidade das realidades vividas pelos(as) jovens, denota certo cuidado contra as

generalizações que simplificam ao unificar o diverso e o desigual. O plural na referência

à juventude é o reconhecimento do peso específico de jovens que se distinguem e se

identificam em suas muitas dimensões, tais como as de gênero, cor da pele, classe,

local de moradia, cotidianos e projetos de futuro.

O agravamento das condições de vida de ampla maioria da população jovem

brasileira – em especial os setores mais vulneráveis: jovens negras e homens jovens

moradores de espaços populares – incide diretamente no aumento da sensação de

insegurança no presente e das incertezas quanto à vida futura. Reguillo (2003) chama

a atenção que, em toda a América Latina, a face mais visível dos(as) jovens, princi-

palmente os(as) pertencentes aos setores populares, foi aquela que os(as) converteu

nos(as) principais operadores(as) de violências nas sociedades. Não é de se estranhar,

assim, que sobre eles(as) tenham recaído as principais ações – não necessariamente

de políticas públicas – de controle social tutelar e repressivo. Em conjunto com esse

processo estigmatizador e generalizável a todos os países da região, se aprofundou

a crise estrutural dos anos 80, que fraturou as macroeconomias dos países e pulveri-

zou a microeconomia de pessoas e famílias. Nesse processo, muitos(as) jovens vêm

pagando o preço de políticas econômicas que os(as) excluem das possibilidades de

incorporar-se de maneira produtiva e cidadã à sociedade.

Um dos grandes desafios democráticos se relaciona com as encruzilhadas

que podem ser percorridas para que a participação social se torne objetivo e meta

realizável numa sociedade em que tantos(as) jovens se encontram em processos de

exclusão econômica e marginalização social. A ampliação de conhecimentos sobre as

diferentes realidades juvenis, necessidades insatisfeitas, motivações e intersubjetivi-

dades em curso, especialmente àquelas relacionadas com os(as) jovens pobres que

mais dificuldades enfrentam para realizar escolhas alternativas e projetos autônomos,

é condição necessária de definição de políticas públicas sintonizadas com os sujeitos

e realidades que se quer transformar.

A participação dos(as) jovens nos assuntos públicos está entre as preocu-

pações do debate sobre a ampliação dos processos democráticos. Muitas vezes há

exagero quando se denuncia a “apatia juvenil” e se deixa de perceber que a “crise de

participação cidadã” é fenômeno social ampliado que atinge todas as faixas etárias da

população (sobre isso, ver Venturi, G. e Bokany, V, 2005). Não é incomum que dados

de pesquisas de opinião pública sejam distorcidos pelas mídias que pintam quadros

8

que apresentam os(as) jovens contemporâneos(as) como conservadores(as) e sem

perspectivas, ou seja, nova geração, porém, politicamente mais velha do que seus

próprios pais, que teriam contestado o “sistema” e empreendido a “boa luta” de ge-

rações contra valores adultos dominantes. Deixa-se de reconhecer que não há mais

valores pertencentes a apenas uma geração, que há desconfiança generalizada da

população na “política” e que em todos os lugares e idades há dificuldades para se

encontrar meios de ação para a resolução dos problemas coletivos.

A crítica mais acentuada sobre os(as) jovens pode estar na “função socioló-

gica” que as sociedades modernas atribuíram à juventude de ser agente de revitaliza-

ção da vida social, força oculta pronta para ser utilizada nos processos de mudança

(Mannheim, 1968). Em grande medida, as generalizações sobre a “apatia juvenil” são

agravadas pela insuficiência de pesquisas que permitam com alguma precisão apre-

ender e interpretar as situações pelas quais os(as) jovens, em diferentes contextos e

condições econômicas e sociais, expressam processos de recusa, impossibilidades ou

mesmo apontam para novas práticas de participação de solidariedade e conflito que

já praticam ou com as quais aceitariam se envolver. Muitas dessas práticas se tornam

invisíveis para os sentidos dominantes, que dizem ser mais legítimos determinados

ideais de participação ou mitos participativos do passado, tais como aqueles que se

associam ao “jovem radical” (Ianni,1969) dos anos 60.

Estudos sobre a participação dos(as) jovens na vida social indicam que, durante

as décadas de 80 e 90 e o início do novo século, a militância política institucionalizada

ocupou um papel secundário nas ações coletivas praticadas e valorizadas pelos(as)

jovens brasileiros(as) (Schmidt, 2001; Abramo e Venturi, 2000, Barquero, 2004). Em

outras regiões do mundo, a “despolitização” das populações juvenis também se tornou

fonte de preocupação, levando à indagação sobre se a crise de participação dos(as)

jovens expressaria processos cíclicos ou mesmo consolidações estruturais nos rela-

cionamentos das jovens gerações com as instituições sociais e políticas (Oesterreich,

2001; Balardini, 2000; Laguna, 2000; Müxel, 1999).

Ao mesmo tempo em que há pouca participação juvenil em espaços políticos

formais, nota-se a presença de jovens em outros tipos de ações coletivas que contri-

buem para a constituição de espaços públicos juvenilizados em torno de diferentes

experiências sociais participativas.

Os(as) jovens brasileiros têm emitido sinais, mais ou menos visíveis, da nega-

ção frente a formas tradicionais de participação, tais como as que se expressam pela

filiação a partidos, sindicatos e organizações estudantis. No entanto, ações coletivas

juvenis deixam de ser notadas ou valorizadas devido ao caráter descontínuo, tópico e

muito freqüentemente desprovido de ideologias facilmente reconhecidas – esquerda

e direita, por exemplo – do qual se revestem. Entretanto, as novas formas e temas

pelos quais os(as) jovens se mobilizam na esfera pública também indicam o quadro

de crise das formas tradicionais de participação e socialização política.

Sem dúvida, pensar os distintos significados da participação política para as

juventudes pode representar um importante aporte para captar não só como repro-

duzem, mas principalmente, como constroem novas respostas a essa questão.

9

3Considerações metodológicas:

Pesquisa de Opinião

e Grupos de Diálogo

3.1. Pesquisa de Opinião

A primeira etapa do trabalho de pesquisa foi o levantamento de dados mediante a

aplicação de 8.000 questionários em amostra de jovens residentes em sete Regiões

Metropolitanas (RMs) e no Distrito Federal. Esse levantamento foi realizado, entre os

meses de setembro e novembro de 2004, por empresa especializada que também se

encarregou do respectivo processamento. O questionário aplicado ( anexo) era formado

por 46 questões que abordavam o perfil dos(as) jovens pesquisados(as): educação,

situação familiar, trabalho, mídia e acesso à cultura, além de suas percepções e práticas

no campo da participação e cultura política. Foram realizadas apurações específicas

para cada região, bem como uma apuração agregada para o conjunto delas. As diver-

sas equipes regionais, que compõem a rede de parceiros, participaram da construção

coletiva da metodologia e dos instrumentos de pesquisa e incumbiram-se da análise

dos dados processados e da elaboração dos respectivos relatórios regionais. A equipe

técnica, sediada no Rio de Janeiro, realizou a análise da apuração agregada e elaborou

relatório global. Os relatórios regionais foram feitos com base em roteiro desenhado

com vistas a harmonizar as análises e tornar possíveis as necessárias comparações,

sempre preservando a manifestação da diversidade regional e as avaliações e con-

clusões realizadas pelas equipes responsáveis pelo trabalho.

A seguir, são apresentados os passos que configuraram os procedimentos

metodológicos da pesquisa de opinião.

Âmbito

Regiões Metropolitanas de Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro,

Salvador e São Paulo, além do Distrito Federal.

Público-alvo para cálculo da amostra

Jovens com idades entre 15 e 24 anos moradores(as) nas regiões acima relacionadas,

cuja população está descrita na tabela a seguir:

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Tabela 1

Regiões Metropolitanas e Distrito Federal – População total

e jovens de 15 a 24 anos (2003)

Região

Metropolitana / DF

população total

População total

15 a 24 anos

Belém

1.880.855

407.276

Belo Horizonte

4.625.670

903.519

Porto Alegre

3.879.464

705.462

Recife

3.392.066

703.337

Rio de Janeiro

11.251.811

1.907.448

Salvador

3.195.513

706.237

São Paulo

18.684.954

3.659.766

Distrito Federal

2.200.238

442.603

Total

49.110.571

9.435.648

Fonte: Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (2004)

Tamanho e composição da amostra

Tabela 2

Número de jovens entrevistados(as) nas Regiões Metropolitanas

e Distrito Federal (2004)

Região Metropolitana / DF

Nº de entrevistados

Belém

600

Belo Horizonte

1.000

Porto Alegre

1.000

Recife

1.000

Rio de Janeiro

1.400

Salvador

1.000

São Paulo

1.400

Distrito Federal

600

Total

8.000

Fonte: IBASE/POLIS. Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas, 2005.

11

Modelo de amostragem

A primeira etapa da pesquisa foi realizada sobre uma amostra independente, definida

com rigor estatístico, em cada região pesquisada. O modelo de amostragem utilizado foi

o de conglomerados, aplicado em duas etapas. A seleção dos conglomerados (setores

censitários do IBGE) na primeira etapa foi realizada com probabilidade proporcional

ao tamanho, em que a medida foi o número de jovens de 15 a 24 anos residentes

nos setores. Na segunda etapa foram selecionados, dentro de cada setor censitário

(selecionado na primeira etapa), dez jovens para serem entrevistados(as). O modelo

de amostragem deu a cada jovem das Regiões Metropolitanas e Distrito Federal igual

probabilidade de ser selecionado(a) para a amostra2.

A pesquisa de opinião, além de traçar perfil dos(as) jovens e subsidiar os Grupos

de Diálogo (GDs), possibilitou a obtenção de cadastro de jovens dispostos(as) a par-

ticipar da continuidade da pesquisa em sua segunda fase – Grupos de Diálogo – que

assumiu perfil predominantemente qualitativo com a realização de 39 GDs3, cada um

deles envolvendo entre nove e 37 jovens. Nesses Grupos, realizados entre março e

maio de 2005, 913 jovens homens e mulheres entre 15 e 24 anos dialogaram sobre

Caminhos Participativos que estariam dispostos(as) a trilhar para conquistar direitos

relacionados à educação, ao trabalho, à cultura e ao lazer4.

3.2. Grupos de Diálogo

A metodologia dos Grupos de Diálogo utilizada na segunda fase da pesquisa era

inédita no país e foi adaptada à realidade brasileira a partir de intensas trocas de ex-

periência entre pesquisadores(as) do Canadian Policy Research Networks (CPRN) e

pesquisadores(as) vinculados às instituições que formaram a rede de parceiros(as).

Os Grupos de Diálogo da pesquisa “Juventude Brasileira e Democracia”

foram adaptados da metodologia Choice Work Dialogue, a partir da experiência

canadense que teve como base estudos de Daniel Yankolovich. O principal pres-

suposto metodológico se encontra na busca de superação da lógica que domina as

pesquisas de opinião no campo das políticas públicas, considerando que elas apenas

constatam o posicionamento dos cidadãos, sem criar oportunidade para que esses

2. Documento sobre

os cálculos da amostra e de erros

exercitem coletivamente diferentes reflexões sobre o tema. O enfoque dos Grupos de

disponível para consulta no Ibase.

Diálogo considera que a opinião não é formada individualmente, mas na interação.

3. Foram realizados cinco Grupos

Seu fundamento está em situar cidadãos em relação de diálogo, provocando reflexões

de Diálogo em cada uma das

regiões estudadas, com exceção

pessoais e coletivas acerca de determinadas questões, bem como sobre as decisões