Laços de Sangue - Darke Academy - Livro 2 por Gabriella Poole - Versão HTML

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1

Ela estreitou os olhos, respirou bem devagar. Por trás do vento uivante e do barulho

da chuva, ela pede ouvir algo. Vozes. Movimentos. O cavar de uma pá no solo. Risos

baixos.

Uma luz explodiu diretamente sobre elas, deixando tudo branco. Numa fração de

segundo antes de o trovão chacoalhar a terra, Cassie viu o que acontecia: viu as pessoas e

o que elas estavam fazendo, congeladas na luz como um quadro.

O raio foi seguido de imediato por um segundo flash. Cassie estava ciente da enorme

criatura, cruel e distorcida, que se erguia diante dela. Recuando instintivamente,

tropeçou para trás.

Então, estava bem diante dela um rosto horrendo, gritando bem na cara dela, com os

olhos vermelhos de ódio e força.

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2

O ESPÍRITO ESTÁ

ACORDADO E FAMINTO

Neste semestre, a misteriosa Academia Darke se mudou para

Nova York, e Cassie Bell não é mais a aluna nova e inocente. Agora

ela é forte, determinada e esconde seus próprios segredos.

Cassie foi apresentada ao mundo dos Escolhidos e, com seus

poderes surpreendentes, ela está lutando para se ajustar a um

romance perigoso e a um espírito malevolente, que exige ser

alimentado.

Quando um antigo inimigo retorna com sede de vingança,

Cassie é testada ao máximo. Será que ela conseguirá impedir que

seus amigos tenham um terrível destino? Ou acabará destruindo-os

para salvar a si própria?

Onde quer que a Academia Darke vá, a morte nunca está muito

distante...

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3

Prólogo

— E aí, garota. Firme e forte?

A voz parecia familiar, apesar de um pouco abafada e distante, como se

estivesse vindo do fundo de um poço. Com dificuldade, Cassie Bell forçou os

olhos para que estes abrissem e piscou embriagada para a visão diante dela. A

mesa estava posta para treze lugares. No centro, estava um peru gorduroso —

que obviamente serviria apenas oito pessoas —, biscoitos baratos de marca

própria de supermercado e — em uma toalha de mesa de papel — linguiças

gorduchas e couve-de-bruxelas esturricada.

Natal ao estilo Cranlake Crescent. Será mesmo que há apenas três semanas

ela se deliciava com a requintada culinária francesa — em fina louça e copos de

cristais — na elegante sala de jantar da Academia Darke? Parecia ter passado

uma vida.

— Qual é o problema?

Cassie focou novamente a pessoa de cabelos claros do outro lado da mesa.

Ah, sim, Patrick, seu conselheiro. A única razão suportável da volta ao seu

antigo abrigo. Ela conseguiu sorrir.

— Não está com fome, Cassie? — disparou Jilly Beaton gentilmente da

cabeceira da mesa. — Nem parece você. Tem comido tudo o que há na casa nos

últimos quinze dias.

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Cassie fincou as unhas nas palmas de suas mãos. Os comentários imbecis

de Jilly tinham se acentuado desde que ela retornara de Paris. Normalmente,

Cassie não entraria na dela, mas seu pavio parecia estar ficando cada dia mais

curto.

— Bem, acabei de perder meu apetite — ela retrucou, afastando sua cadeira

e se levantando. — Com licença.

— Cassie Bell, você não tem licença — começou Jilly, mas Cassie já estava

fora da sala. Patrick a alcançou na beira da escada com o rosto cheio de

preocupação.

— Cassie, o que está acontecendo? — ele perguntou. — Você tem agido de

modo estranho desde que voltou de Paris.

Cassie parou por um momento. Por onde começar? Contando a verdade

sobre a Academia? Sobre o misterioso grupo de alunos denominados Os

Escolhidos e seu segredo sombrio? Sobre os espíritos anciãos que

compartilhavam seus corpos, dando-lhes força e beleza gradativamente, mas

exigindo que eles sugassem força vital dos seus colegas de quarto? Poderia

contar a ele o que aconteceu naquele lugar escuro em baixo do Arco do Triunfo

— o ritual interrompido que tinha deixado parte do espírito que havia vivido

no corpo de Estelle Azzedine alojado em sua mente? Poderia contar sobre a

estranha e propulsora fome que vinha crescendo dentro dela desde então e,

como sabia que o peru e as linguiças não seriam suficientes para saciá-la?

Impossível.

— É que estou com saudade dos meus amigos — ela resmungou. — Sabe?

Uma expressão de alívio cobriu o rosto de Patrick.

— Claro que está. Falou com algum deles hoje?

— Li um e-mail de Isabella ontem à noite. E um de, hum... Ranjit.

— Quem é Ranjit?

— Apenas um... Um garoto que faz algumas matérias comigo — respondeu

Cassie, envergonhada. — Por quê?

O sorriso de Patrick ficou mais largo e seus olhos azuis cintilaram.

— Porque você ficou vermelha quando disse o nome dele.

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— Ah, para com isso! — Cassie o empurrou de brincadeira.

— Ele não é seu namorado, então.

— Não, não é — ela respondeu apressadamente.

— Hum, hum.

— Não é mesmo — Cassie enrolou os dedos no suéter de cashmere que

Isabella tinha enviado como presente de Natal. — É complicado.

Ah! Isso era o mínimo que se poderia dizer. Os breves momentos

apreensivos que ela teve com Ranjit no fim do semestre não tinham sido

suficientes para que eles definissem a relação. Tudo o que ela sabia era que seu

estômago se contorcia de ansiedade toda vez que pensava nele e, que ele tinha

voltado para a Índia, a de quilômetros de distância. Ela teria que suportar a

saudade que sentia dele — saudade que parecia poder matá-la.

Absorta em suas lembranças, ela pulou quando seu celular tocou. Puxando

o aparelho do bolso da calça jeans, Cassie quase o deixou cair quando viu o

nome no display. Ela sentiu o sangue subir pelo seu rosto outra vez.

— Falando do diabo... — Patrick deu risadinhas enquanto voltava para a

sala de jantar.

Cassie ficou introspectiva devido à escolha das palavras de Patrick. Ela

ainda não entendia o que Os Escolhidos eram de fato. Deuses e monstros, Ranjit

tinha brincado cruelmente uma vez. E, qual das duas coisas ele era? Cassie não

sabia. Ela não estava certa de que ele mesmo soubesse. Afastando suas

preocupações, ela pressionou o celular em seu ouvido como se isso fosse salvar

sua vida.

— Ranjit!

Acho que ele conseguia distinguir o sorrisinho idiota no rosto dela mesmo a

meio mundo de distância.

— Cassandra — a suavidade aconchegante da voz dele fez com que ela se

esquecesse da neve congelante e da fome extrema. — Feliz Natal.

— Para você também.

Sem respirar, ela se sentou nos degraus. Era quase um crime o modo como

ela sentia falta dele. Criminoso e absurdamente inconveniente.

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— Oh, que bom te ouvir.

— Você está bem? — ele pareceu preocupado.

— Estou bem. Bem, apenas um pouco...

— A fome está aumentando, não é?

Cassie ficou quieta por um instante. Era um alívio falar com alguém que

sabia pelo que ela estava passando. Ranjit já tinha passado por isso.

— Sim — ela disse por fim e riu vacilante. — Acertou!

— Não falta muito, Cassandra. Uma semana e meia. Você ficará bem?

— Estou bem. Sério! É que... — ela hesitou, então pensou: tome coragem,

garota. — Sinto saudades. Muitas.

— Nossa, eu também.

A veemência na voz dele foi chocante, vindo de alguém normalmente

pacato e reservado como Ranjit Singh. Ele quase parecia aliviado.

— Estou com saudades e estou preocupado com você. Ouviu Estelle outra

vez?

Cassie engoliu seco. Ranjit era o único que sabia que o espírito ancião

conversava às vezes com Cassie dentro da cabeça dela — algo inédito entre Os

Escolhidos.

— Uma ou duas vezes. Mas a bruxa velha tem estado quieta ultimamente.

Espero que ela tenha morrido de fome.

— Isso não vai rolar, Cassie.

— É, eu sei.

— Se cuida. Promete?

Ela sorriu, não pôde evitar.

— Claro que sim. E te vejo logo.

— Quanto antes melhor — ele riu baixinho. — Ouça, tenho que ir. Ligo de

novo quando puder.

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Lágrimas vieram aos olhos dela e seu estômago revirou outra vez.

— Tchau, Ranjit. Feliz Natal.

— Para você também. De novo.

Cassie fechou o celular antes que caísse em prantos. Ela cobriu o rosto com

as mãos. Oh, isso era ridículo. Ela devia ser durona. Ela suportaria isso. Fome de

comida, fome de Ranjit... Pare. Pare.

O problema era que estava faminta. Dominada por uma fome

desesperadora e intangível por muito mais do que mera comida. Mas não havia

nada que ela pudesse fazer além de esperar que o novo semestre começasse.

Então, ela talvez conseguisse algumas respostas. E, talvez, a espera ajudasse.

Afinal, quando se fica muito tempo sem comer chocolate, você para de sentir

vontade. Se aguenta ficar sem cigarros por algumas semanas, não volta a fumar.

Sim e se você parar de respirar um pouco, vai perder a necessidade de oxigênio.

Cassie ficou imóvel.

Ora ora, minha querida. Você me diverte!

Ignore-a, Cassie disse a si mesma. Ignore-a. Mas... Fácil falar. O simples som

da voz de Estelle em sua cabeça era suficiente para espalhar a fome dentro dela

com mais força ainda, fazendo com que ela quase perdesse o equilíbrio,

tropeçando para frente. Ela ouviu a porta abrir e fechar. Passos. Uma voz...

— Cassie? Você está bem? — Patrick soou preocupado.

Ela se levantou num pulo, com os punhos cerrados. Bem? Por que ele ficava

perguntando isso? Claro que ela estava bem! O modo como ele sempre a cercava

estava começando a irritar. Ele devia ficar fora disso, sabia o que era melhor

para ele. Não! O que a fez pensar isso? Patrick só estava tentando ser atencioso;

ele tinha feito tanto por ela.

O sussurro de Estelle era como o carinho de uma serpente.

E ele poderia fazer muito mais, minha querida.

Patrick parecia nervoso por causa do olhar fixo e frenético dela. Sim. Estelle

estava certa. Um bom amigo como Patrick estaria sempre à disposição. Podia

contar com ele. Ele era forte, jovem, seguro. Cheio de vida. Perfeito.

— Cassie?

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Ela estava com muita fome. Esticou os lábios em um sorriso.

— Estou bem.

Não fale. Deixe que ele se aproxime. Posso sentir o cheiro dele...

Patrick deu um passo para trás e ela pensou poder vê-lo tremendo.

— Pare de enrolar, Cassie. Seu jantar esta ficando frio.

Você parece quente o bastante para mim.

— Ok, sinto muito. Vou deixá-la em paz — ele estava dando meia-volta. —

Venha quando estiver pronta.

— PARE!

Ela se lançou da escada, quase voou para alcançá-lo. Agarrando-o pelo

colarinho, ela o puxou de volta, girando-o. Os dedos dela encontraram o

maxilar dele, segurando-o e girando-o. Ele tentou se soltar, mas não tinha

chance. Nenhuma chance. Desde o ritual, ela estava mais forte do que nunca.

Muito mais forte do que o necessário para dominar esse... Mortal. Cassie riu

bem alto.

Os olhos dele estavam tomados pelo terror e ela sentia seu hálito de pânico.

Ela podia sentir o cheiro dele novamente: oh, da vida dele! Os lábios dela

retrocederam quando viu uma silhueta atrás do painel de vidro da porta da

frente. Por um instante, seu coração pareceu parar — ficou imóvel e rosnou. Um

rosto rosnou de volta para ela, feroz e alucinado como um animal raivoso. E

então, sentindo náusea, ela sabia. Não era um monstro tentando invadir a casa.

Era seu próprio reflexo.

— Oh, meu Deus! — ela soltou Patrick tão rápido que ele caiu no chão.

Andou para trás e para longe dele. Os olhos aterrorizados dele estavam presos

nela, tão dilatados que de azuis estavam quase totalmente pretos. Ela esperava

por isso. Mas não esperava pelas palavras que sairiam da boca dele.

— Por Deus, Cassie. Você não. Você não!

O quê?

Por uma fração de segundo ela se levantou, cobrindo a boca com a mão,

encarando Patrick. Então deu meia-volta e saiu correndo. Ela não diminuiu o

ritmo enquanto subia os degraus de dois em dois, entrou bruscamente em seu

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quarto, pegou uma cadeira furiosamente e a prendeu debaixo da maçaneta.

Pronto. Isso era o mais seguro possível. Seguro para ele.

Cassie se jogou no chão, exausta. Poderia ter sido pior, ela disse a si mesma,

enquanto suas batidas cardíacas voltavam ao normal. Muito pior. Quem ela

estava tentando enganar? Havia perdido o controle. Ela podia ter machucado

Patrick. Talvez até o matado. Pressionando os punhos contra sua boca, Cassie

os mordeu até arrancar sangue. Só uns dias a mais, era tudo. Mais alguns dias e

estaria de volta à Academia. De volta ao seu misterioso diretor Sir Alric Darke.

Ele deve poder ajudá-la a lutar contra isso. Ela não veria ninguém até lá.

Mas Cassandra, querida, eu preciso ME ALIMENTAR!

A voz queixosa e zangada ecoava e quicava em todo seu crânio, que parecia

muito leve e vazio. Estava tonta de fome, mas iria controlá-la. Eram apenas

alguns dias. Apenas uma questão de tempo...

Isso mesmo! Dentro da cabeça dela — no aposento do eco — Estelle parecia

vingativa e voraz, mas triunfante. Ah sim, Cassandra, minha adorada menina!

Apenas uma questão de tempo...

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Capitulo 1

A esteira tomou vida enquanto bagagens eram jogadas sobre ela. Cassie

estava parada — espremida na multidão, confusa com o barulho pungente e

com o tumulto do JFK1 — desesperada para avistar sua mala esfarrapada para

que pudesse se mandar dali. Um homem de negócios alto e todo suado de um

lado, uma senhora que não fechava a matraca do outro, ambos empurrando e se

contorcendo, como abutres sobrevoando a esteira de malas. Nenhum deles

parecia um bom candidato para que ela pudesse se alimentar, mas nem sempre

se pode escolher...

Ah, não. Para com isso! Cassie queria chorar, mas não tinha energia para

fazê-lo. Enfiada em seu assento perto da janela — evitando olhar para o

passageiro ao seu lado — tinha visto o amanhecer atrás da Estátua da

Liberdade quando o avião fez a volta, mas ela nem ligou. Nem tinha ligado

para o simbolismo por trás disso — o amanhecer de um Novo Mundo para ela.

Não tinha se importado com a linda simetria e silhueta da cidade.

1 JFK é a abreviação de John F. Kennedy, nome de um dos aeroportos internacionais de Nova York (N.T.).

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Havia apenas desejado que o avião pousasse para que pudesse respirar um

pouco de ar puro — ar que não tivesse passado pelo pulmão de todas aquelas

pessoas e que, portanto, tinha o gosto delas. Ela apenas queria sair daquele

aglomerado de humanidade comprimido naquela aeronave como um

desorganizado bufê de força vital. Bem, pelo menos tinha conseguido controlar

seu apetite. Sete horas. Era algo para se orgulhar, não? Era uma conquista.

Claro que sim, querida! E, você estava muito certa. Estou feliz que tenhamos nos

reprimido. Comida de avião. Tão seca e sem sabor.

Cassie deixou escapar uma gargalhada contra sua vontade.

— Ei, mocinha, quer me dar licença? — o homem de negócios a empurrou

para alcançar sua mala.

Se ela não tivesse esbarrado na senhora resmungona ao lado teria caído.

Agora ela se sentia tonta, sua reserva de energia esgotada. O cheiro forte de

suor do homem era extasiante. O cheiro salgado e azedo fez suas narinas

dilatarem. Era apenas suor, mas estava infundido com a vitalidade dele. Ele era

quente e seu coração sobrecarregado batia com força: ela podia ouvi-lo, senti-lo.

O cheiro que esvaía pelos poros dele se prendia as narinas dela como... Um

prato de batatas fritas. Sim, tão bom quanto. Cassie lambeu os lábios, mirando

os lábios dele, assistindo a respiração dele entrar e sair...

Xingando, ele a empurrou para passar — batendo a mala na canela dela —

e foi embora. Ela perdeu a chance. Lágrimas escorreram de seus olhos e Cassie

não sabia se eram lágrimas de alívio ou fúria.

Perdemos! Não! Nós o perdemos! Estelle soou um pouco histérica. Encontre

alguém. Encontre alguém AGORA!

Vagamente, Cassie se deu conta de que sua própria mala tinha acabado de

passar, presa a um reconhecível elástico velho de Patrick, mas ela nem prestou

atenção. Estava faminta agora, analisando a multidão e, não se preocupava com

nada mais. Nada exceto...

Aquela! Aquela, rápido!

Atordoada, deu meia-volta e olhou fixamente para a figura que Estelle tinha

mencionado. Era jovem, forte, uma mulher. Magra, torneada e chamava atenção

pelo jeito misterioso e mediterrâneo. A figura segurava uma criança, mas a

criança foi passada para os braços do pai com um beijo, uma palavra e um

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sorriso e, agora, a figura jovem e forte ia em direção ao toalete, fazendo clack-

clack-clack com o saltinho dos sapatos.

Figura, não, pessoa! — gritou Cassie em pensamento. Pessoa! Ela é um ser

humano...

Sim, sim. Que seja. Ela! Rápido! VAMOS PERDÊ-LA!

Afastando-se rapidamente, com a fome pungente misturando-se a excitação

da caçada que pulsava em suas veias, Cassie se atirou no meio da multidão e

seguiu o clack-clack-clack.

Engraçado que ela conseguisse ouvi-los tão bem no meio do barulho, da

multidão e dos infinitos e distorcidos anúncios públicos. Era como se todo seu

ser estivesse focado no som daqueles saltos, cada nervo do seu corpo tinha

grudado naquela mulher. Um pouco a frente, a figura — pessoa — abriu a porta

do toalete. Clack-clack-clack. Cassie apressou os passos, silenciosos por estar

usando um tênis surrado. Quase lá. Quase lá!

RÁPIDO!

Sim, Estelle, nós vamos nos alimentar. Vamos nos ALIMENTAR.

— Cassie!

O cumprimento agudo perfurou sua concentração. Assim. Seus passos

decididos vacilaram.

— Cassie Bell! Queriiiida!

Um mosquito. Zumbindo, perturbando. Ela queria espantá-lo, matá-lo.

Deixe-me em paz, ela queria gritar. Eu preciso... Algo se moveu rápido em sua

direção, tirando seu equilíbrio e envolvendo-a em um aconchegante abraço que

cheirava a perfume caro.

— CASSIEEEE!

Por uma fração de segundo, Cassie lutou contra o abraço, lançando um

olhar faminto para a porta do banheiro que fechava suavemente atrás da

mulher e sua força vital. Foi então que ela caiu em si com um sobressalto quase

doloroso. O que ela havia feito? O que ela quase havia feito!

— Isabella? — quase chorando, Cassie devolveu o abraço apertado,

apoiando-se em sua melhor amiga como se ela fosse tudo o que a mantinha sã.

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Sim, essa daí, então! Essa serve! Essa serve, estou te dizendo!

NÃO! Seu rosnado interior estava feroz o bastante para calar a boca de

Estelle. Por enquanto.

— Ah, Isabella. Estou feliz em vê-la.

— E eu a você! Você saiu do voo de Londres? Ele aterrissou cinco minutos

antes do que o de Buenos Aires! Sinal de boa sorte! Maravilhoso!

A garota ainda estava falando em constantes exclamações, pensou Cassie com

carinho enquanto Isabella jogava seu longo e brilhante cabelo castanho.

— E Jake está esperando por nós! Eu mandei uma mensagem de texto para

ele. Ele esta lá fora, no terminal.

— E você parou para me dar um oi? — Cassie ergueu as sobrancelhas sem

muita força. — Estou lisonjeada que não tenha me atropelado para chegar até

ele.

Isabella tinha se apaixonado pelo belo nova-iorquino desde que ele entrou

para a Academia. Depois de finalmente terem ficado juntos no fim do semestre

passado, o casal mal tinha tido uma semana juntos antes que Isabella voltasse

para sua casa na Argentina (de primeira classe, claro). Que ela estivesse

impaciente para pôr as mãos em Jake não era nada surpreendente.

— Oh, Cassie! — Isabella sorriu, mas seus olhos escureceram um pouco

quando ela segurou os ombros de Cassie e examinou seu rosto. — Você está tão

bonita. Magra demais, né? Mas muito, muito bonita.

— Nossa, obrigada. Não vai ganhar nada com tantos elogios — ela deu um

sorrisinho fraco. A cabeça dela estava realmente inundada agora. Era o

entusiasmo, ela disse a si mesma. E o fuso horário. Que seja. Ela só precisava se

acalmar por um instante. Mas Isabella estava sorrindo novamente, ainda

borbulhando de entusiasmo.

— Mal posso esperar para estarmos todos juntos de novo! Você, eu e Jake!

Não é? Vamos, venha! — ela soltou Cassie bruscamente.

— Claro. Va... Mos...

No entanto, era mais fácil falar do que fazer — sem Isabella segurando em

seu braço. Cambaleando, Cassie sentiu seus joelhos tremerem. Ela teria caído se

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Isabella não tivesse segurado o cotovelo dela com seu braço forte de jogadora

de pólo.

— Cassie. Cassie?

Cassie franziu a testa. A voz de Isabella parecia ter ficado muito engraçada

depois do Natal. Estranha. Distante. Cada vez mais fraca. Ou talvez fosse ela

mesma. No escuro agora. Em um frio e escuro vazio. E desaparecendo...

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Capitulo 2

— Cassandra? Cassandra!

Outra voz familiar. Ela não conseguia identificá-la, mas era forte,

reconfortante. Estaria bem agora, sabia disso. Talvez porque estivesse morta.

Devia estar morta mesmo, porque o rebuliço do aeroporto tinha desaparecido e

ela estava flutuando em uma serena bolha de tranquilidade.

— Cassandra! — o tom sério era mais insistente agora. A mão deu uma

tapinha em sua bochecha e depois outro. — Cassandra, volte.

Contra sua própria vontade, ela fez força para abrir as pálpebras, gemendo.

O rosto embaçado era tão familiar quanto a voz. Ascético, impetuosamente

lindo e com a testa franzida de preocupação.

— Sir Alric...

— Isso mesmo. Acorde.

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Piscando rápido por causa da luz brilhante, Cassie fez bastante força para se

levantar, apoiando-se em almofadas. Um sofá. Um sofá de couro enorme. Por

um instante, ela pensou que realmente estivesse morta e, em uma vida pós-

morte bem agradável — porque ela não conseguia ver nada além de um infinito

céu azul. Então ela notou as paredes de vidro que a cercavam, arranha-céus

refletindo o sol da manhã e as invernosas copas de árvores do... Central Park!

Sobre as árvores, o céu era azul como um diamante, listrado pela fumaça

branca do rastro dos aviões. Ela piscou embriagada pelo que via de Nova York

com seus próprios olhos. Mais precisamente com os olhos de Sir Alric Darke.

Ela recobrou os sentidos com um pequeno sobressalto. Tentou se levantar,

mas caiu. Escutou um pequeno “ufa” de alívio e Isabella estava novamente ao

seu lado, jogando-se no sofá e abraçando-a. Cassie contemplou sem expressão o

escritório felpudo e elegante.

— Que susto você me deu! Ah, Cassie!

Pelo menos ela estava conseguindo focar melhor seus companheiros.

Isabella, obviamente — e Jake, em pé logo ao lado, parecia bem aliviado e um

pouco cauteloso com o que estava a sua volta. Quando o olhar dela cruzou com

seus carinhosos olhos castanhos, ele sorriu singelamente para ela.

— Ei, Cassie. Que bom te ver.

— Jake. Que bom te ver também.

Isso não era bem verdade. Cassie estava mais do que meramente feliz em

vê-lo — ela estava absolutamente aliviada. Semestre passado, Jake tinha

descoberto mais segredos dos Escolhidos do que era seguro alguém de fora do

grupo saber. Cassie não tinha certeza se algum dia ele voltaria para a Academia

— depois de descobrir que sua colega de classe e, antiga paixão, Katerina

Svensson, tinha assassinado sua irmã, Jéssica. A tentação de desmascarar a

instituição — que havia acobertado o crime e deixado a garota Escolhida escapar

com uma mera expulsão — deve ter sido angustiante. Ainda assim, ali estava

ele, em pé na sala do diretor.

O que o teria trazido de volta? Estar gostando de Isabella? Uma estranha

sensação de ter transferido sua lealdade fraternal para Cassie, a garota que

todos diziam parecer com sua falecida irmã? Ou ele tinha voltado para resolver

os “assuntos pendentes” que havia mencionado no fim do semestre passado?

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O sorriso debilitado que dava para Jake desapareceu quando ela se voltou

— um pouco relutante — para Sir Alric. Ele não tinha mudado — suas lindas

feições eram impressionantes como sempre. Havia uma tensão em seus olhos

acinzentados e ele não sorria, tampouco parecia zangado.

— Espera aí, como eu...? — Cassie esfregou a testa com força.

A última coisa de que se lembrava era o cheiro de suor humano, a multidão

e o calor. E de precisar tanto de algo que havia abandonado...

— Minha mala! Esqueci minha mala. Eu não...

— Está tudo bem — Isabella fez sinal com a mão. — Eu peguei para você.

— Mas como você...

— Peguei a mala certa, não se preocupe — Isabella deu uma risadinha. —

Eu reconheceria aquela coisa velha e estropiada em qualquer lugar.

Cassie sacudiu a cabeça, perplexa apenas por um instante.

— Detonada, Isabella. Minha mala velha e detonada. Mas e a segurança?

Imigração? Como você...

— Quando você desmaiou, Isabella me ligou imediatamente — explicou Sir

Alric. — Eu tenho conhecidos no Departamento de Segurança Nacional que

resolveram a questão — ele olhou cuidadosamente para Jake, como se estivesse

com medo de falar demais. — Agora, tenho certeza de que gostaria de ficar com

seus amigos, mas primeiro temos assuntos a resolver, você e eu. Isabella e Jake,

por favor. Preciso conversar com Cassandra. Em particular.

Isabella e Jake olharam incrédulos um para o outro. Cassie tentou chamar a

atenção deles com o olhar e fazer um “sim” com a cabeça, mas a simples visão

de seus amigos era suficiente para trazer de novo a fome que a perfurava como

uma lança — tirando seu fôlego pela ferocidade. Cambaleando, ela andou com

dificuldade em direção à Sir Alric. Ele pôs a mão sobre o ombro dela — no que

parecia ser um gesto carinhoso de apoio; exceto pelo fato de que os dedos dele

estavam apertando-a tão forte que a machucavam. No entanto, Cassie mal

sentia a dor — ela podia sentir a tensão de seus próprios músculos, contorcidos

por seu desespero para se alimentar e, ela sabia que Sir Alric estava, na

verdade, impedindo-a.

— Agora, Isabella, Jake. Por favor, deixem-nos a sós.

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Jake estranhou o tom grave da voz do diretor.

— Não tenho certeza... — ele começou.

— Está tudo certo, gente — Cassie esticou o braço e pegou a mão de

Isabella, apertando-a um pouco forte demais. — Ficarei bem. Vejo vocês daqui a

pouco. Prometo.

— De certeza? — perguntou Jake, encarando Sir Alric com declarada

hostilidade.

— Claro.

Na verdade, ela queria desesperadamente que eles saíssem. Ela não tinha

certeza de quanto mais tempo aguentaria sem saltar sobre um deles.

— Serio, Jake. Por favor, saia. Está tudo bem.

Respirando fundo, o jovem americano pegou a mão de Isabella.

— Estaremos do lado de fora. Até mais, Cassie.

— Tá — ela disse baixinho, apertando os dentes para forçar um sorriso. —

Oh, por favor, por favor, VÁ!

Ela olhou pela última vez as feições preocupadas de Isabella quando a porta

se fechou atrás deles e, então, fechou os olhos, tonta de fome. Cassie sentiu a

mão de Sir Alric deitando-a no sofá e ela conseguiu abrir os olhos com força a

tempo de ver Marat — o porteiro feio e sinistro — vindo em sua direção com

uma pequena maleta de couro na mão. De onde ele tinha saído tão

sorrateiramente? Ainda tonta, ela tentava se apoiar para frente.

— Você precisa se alimentar, Cassandra.

A voz de Sir Alric parecia ecoar pela sala, enquanto Marat dispunha a

maleta cuidadosamente sobre a mesinha do café feita de mogno, ao lado dela.

— Não posso.

— Você passou muitas semanas sem alimento. Está morrendo. Eu jamais

deveria ter permitido que saísse no fim do semestre, mas não esperava por isso.

Eu não entendo porque a fome cresceu tão rapidamente em você, mas cresceu.

E você deve satisfazê-la.

Sem forças para chorar, gemendo, ela colocou as mãos sobre o rosto.

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— Não posso.

— Você deve — respondeu Sir Alric veementemente. — Você acha que está

sendo altruísta, mas na verdade, está sendo autoindulgente. Sinto muito pelo

que aconteceu a você, Cassandra. Sinto muito que tenha sido trapaceada. Mas

eu tenho uma responsabilidade sobre o espírito dos Escolhidos e sobre você —

ele fez sinal com a cabeça para Marat, que passou discretamente uma chave

prata pela frente da maleta.

Sentindo-se instável, Cassie acompanhou os movimentos do porteiro. O

fecho da maleta levava um símbolo que ela reconheceu imediatamente: um

padrão de linhas entrelaçadas de pouco mais de cinco centímetros de diâmetro,

que ela já havia visto antes, marcado na pele de uns seletos alunos da Academia

Darke — além disso, estava borrado e interrompido em sua própria escápula.

Ela não sabia o que isso significava, mas sabia o que indicava. Era o símbolo dos

Escolhidos.

Marat abriu o fecho e Sir Alric se aproximou da maleta, admirando

respeitosamente os frascos de cristais dentro dela. Cada um deles estava

marcado com o símbolo dos Escolhidos e tinha sua beleza particular — mas os

conteúdos translúcidos dos frascos brilhavam como pérola líquida, refletindo

feixes de luz pelo cristal delicado. Por um instante, Cassie ficou tão fascinada

que quase esqueceu a fome voraz.

Sir Alric fez, novamente, sinal com a cabeça para o porteiro. O pequeno

frasco que Marat retirou do bolso não poderia ser mais diferente daqueles da

maleta: uma caixa branca de plástico com tampa hermética. Depois de colocar

uma luva de látex, ele abriu a tampa sem cerimônia e retirou um pacote de

plástico selado. Rasgou o pacote, retirando uma seringa descartável.

Cassie arregalou os olhos.

— O que é isso?

Sir Alric também estava vestindo luvas e, ele parecia frio e pragmático.

— Chame isso de uma medida provisória, Cassandra.

Com delicadeza, Sir Alric inseriu a seringa em um dos frascos e retirou uma

pequena quantidade do líquido perolado.

— Você deve aprender a se alimentar. Mas isso — ele disse levantando a

seringa — vai nos dar alguns dias de trégua.

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— O que é isso? — ela espiava a seringa com terror. — O que é isso? Não

vou deixar você colocar isso em mim!

Quando tentou se esquivar, Cassie sentiu mãos poderosas segurarem seus

ombros, pressionando-a contra o sofá e prendendo-a em seu lugar. Marat. Ele

tinha se posicionado por trás dela e ela não conseguia escapar. Deus, ele era

forte! Ele a segurava forte demais para escapar, mas ela ainda lutava

violentamente enquanto Sir Alric se aproximava. Por um momento, Cassie viu

remorso e compaixão no rosto dele, depois ele ficou sério.

— Fique parada. Este é o único jeito. É para seu próprio bem, Cassandra.

A voz de Sir Alric era totalmente fria enquanto ele se inclinava sobre ela,

que o chutava e se contorcia.

— E para o bem dos outros, também.

Ela sentiu o dedão dele esfregar um ponto em seu braço e, em seguida, a

picada quente da agulha.

Cassie chegou a temer que fosse ser eletrocutada. Deve ser assim que se

sente, não é? Uma corrente selvagem correndo por dentro dela, trazendo-a tão

intensamente a vida que não conseguia pensar com clareza. O frio corria em

suas veias, seguido rapidamente pelo calor — e força. Escapando das mãos de

Marat, ela se levantou com o corpo rígido, os punhos cerrados. A fome terrível

e dilacerante tinha desaparecido, como se ela tivesse sido libertada da mordida

feroz de um animal, mas sua visão estava totalmente embaçada — pontos

dançavam em frente a seus olhos quando ela perdeu o equilíbrio e, mais uma

vez, caiu sobre o estofamento de couro, apertando os olhos para tentar limpar a

visão. Quando ela tornou a abrir os olhos, Sir Alric se sentou em uma poltrona,

de frente para ela, com os cotovelos apoiados e as mãos juntas sob o queixo.

Marat e a maleta haviam desaparecido.

— E então, Cassandra. Como se sente?

A lembrança explodiu em sua cabeça. Ela se sentou, irritada.

— O que era aquela coisa? Diga-me o que era!

Ele não reagiu à fúria da menina.

— É uma solução destilada. Feita com lágrimas dos Escolhidos, há mais de

mil anos. Você acha que a ofereço a todos? Considere-se sortuda. É

extremamente poderosa.

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Cassie respirou um pouco, absorvendo as novidades. Não eram drogas,

então. Nem veneno. Talvez algo que a ajudasse...

— Então essa é uma alternativa? Injetar essa coisa o suficiente ao invés de

me alimentar de outras pessoas? — os olhos dela se acenderam enquanto o

alívio percorria seu corpo.

— Não — Sir Alric respondeu abruptamente. — Isso foi uma exceção. O

que viu na maleta é tudo o que existe. Não há meios de ter tudo. Você vai

aprender a se alimentar. Como o resto de nós — o desespero voltou em dobro,

sua breve esperança desmoronou. Tirando vantagem do silêncio devido ao

choque, Sir Alric se levantou. — Não pode matar de fome o espírito que está

dentro de você, Cassandra. Sem as Lágrimas, teria atingido um estado crítico

em breve. Quando o desejo de se alimentar ficasse forte demais, você perderia o

controle e atacaria alguém. Essa pessoa poderia se machucar, ou até morrer. E

poderia ser qualquer um — ele parou para fazer suspense. — Inclusive Isabella

e Jake.

— Eu não sabia — ela disse com dificuldade. — Não tinha me dado conta.

— Claro que não — respondeu Sir Alric, com a voz um pouco mais branda.

— É para isso que a Academia existe, Cassandra. É meu dever ensinar novos

membros dos Escolhidos a se alimentarem de forma segura, de modo que não

haja perigo para eles ou para os que estão ao seu redor. Quando chegar a hora,

farei o mesmo com você. Mas, por enquanto, a injeção te deu um pouco de

tempo. Acho que você precisava disso. Então vou perguntar novamente: como

se sente?

— Melhor — Cassie admitiu. — Muito melhor. Posso ir agora?

— Claro. Seus amigos devem estar preocupados com você.

— Eles estão bem ali fora. Disseram que iam esperar.

Sir Alric sorriu ironicamente.

— Receio que tenha dormido a maior parte da manhã, Cassandra. Seus

amigos saíram há mais de duas horas. Eu expliquei a eles que você precisava

descansar, embora tenha precisado ser bem persuasivo com o Sr. Johnson.

Suponho que estejam em seus quartos agora. Você tem muito a discutir com

eles, especialmente com a Srta. Caruso.

— O que quer dizer? — disse Cassie, com a voz embargada.

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— Cassandra, sua energia me impressiona. Você lutou contra a fome por

muito mais tempo do que eu esperava. Mas agora acabou o luxo de escolher.

Exceto, talvez, por um aspecto.

— Hã? — Cassie ergueu a cabeça.

— Para aprender a se alimentar da forma correta, você precisará de um

parceiro — uma fonte de vida, como preferir. É por isso que alunos comuns são

designados a ser colegas de quarto dos Escolhidos. Então, tem uma decisão a

fazer, Cassandra. Você pode mudar de quarto e ter uma nova colega, alguém

com quem tenha menos... Vínculo emocional — Sir Alric ergueu os ombros

delicadamente e fez sinal com a mão —, Ou...

— Não diga isso — ela disse sem pensar.

— Eu tenho que dizer, Cassandra, sinto muito. Você deve aprender a se

alimentar de Isabella.

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Capitulo 3

O saguão era espetacular. Não podia ser mais diferente da Academia em

Paris, mas esse edifício de tirar o fôlego no Upper East Side2 tinha seu próprio

encanto arquitetônico — todo elegante em vidro e mármore. O prédio era de

uma altura vertiginosa, parecia até balançar enquanto Cassie admirava o teto de

vidro bem lá no alto. O céu ainda era de um azul tão reluzente que a fez sentir-

se ligeiramente tonta. O estilo clean e moderno das paredes eram apenas

suavizados pela fonte e pela folhagem no centro do saguão.

Cassie suspirou, parando para molhar seus dedos na água gelada e

contemplar a figura no centro da fonte.

— Olá, amiga — ela suspirou para a escultura de bronze. — Ainda não nos

livramos desse maldito cisne, não é?

2 O Upper East Side é um bairro do condado de Manhattan, em Nova York, entre o Central Park e o Rio

East. Ficou conhecido nos últimos anos por ser uma das áreas mais ricas de Nova York, tendo hoje um

dos mais altos custos habitacionais dos Estados Unidos (N.T.).

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Leda — como era de se esperar — não respondeu, ainda tentando

languidamente alcançar o cisne-deus sobre ela. Sob os pés de bronze da estátua,

água escorria da pedra. Plantas cresciam com rapidez, entrelaçando-se com as

pedras e transbordando sobre o lustroso mármore. E, no meio delas, claro,

estavam as orquídeas. Cassie tocou uma das pétalas pretas com a ponta de um

dedo. Os bichinhos de estimação de Sir Alric — como dizia Ranjit. Era apropriado.

Sir Alric gosta do que é bonito, raro e sombrio...

Cassie ficou surpresa ao perceber que estava contente em ver todas as

outras estátuas familiares. Sob a luz do inverno que inundava a Quinta

Avenida, as estátuas brilhavam em branco pálido de onde estavam, ao redor do

vasto saguão central: Aquiles e Heitor; Narciso; Diana e Acteão. E, aquela que

sempre lhe deu arrepio na espinha: Cassandra e Clitemnestra. Cassandra, a

garota em quem ninguém acreditava. Cassandra, que entrou em uma casa que

cheirava a sangue...

Cassie se arrepiou ao lembrar-se de quando se escondeu sob a estátua,

esperando para sentir a pontada do punhal de Keiko. Ainda assim, ali estava

ela agora: de muitas formas, parecida com a garota homicida que tinha ajudado

Katerina a assassinar a irmã de Jake. Agora ela também era uma aberração —

talvez, até mesmo um monstro como Keiko. Ela não era mais a frágil Cassandra,

a vítima indefesa. Ela estava mais próxima da sanguinária Clitemnestra.

Membro dos Escolhidos.

E, o que isso significava, ser membro dos Escolhidos? Cassie olhava para seu

reflexo na água. Lá no aeroporto, Isabella sugeriu que ela tinha ficado mais

bonita. Cassie não tinha notado nenhuma mudança, mas agora que estava

olhando mais atentamente, talvez o contorno de seu rosto estivesse mais

definido, seus olhos verde-amarelados mais brilhantes.

Mas ela sabia que tinha muito mais por trás dos Escolhidos do que rostinhos

bonitos. Ela tinha presenciado sua força super-humana e habilidades com lutas

em primeira mão. E, agora que o constante ímpeto de se alimentar não estava se

sobrepondo a todas as outras sensações, ela podia sentir um pouco dessa força

em seus próprios músculos, fazendo com que ficasse relaxada e confiante como

nunca. Beleza, força e confiança — uma combinação extasiante. Mas tudo

dependia de se alimentar. De sugar a força vital de outra pessoa inocente.

Esturricada... Era o que Isabella tinha dito quanto contou a Cassie sobre a

morte de Jéssica. O corpo dela estava danificado. Havia alguma chance de Cassie

fazer isso com Isabella sucessivamente? Não. Ela não faria — não poderia

permitir que isso acontecesse. Mas Sir Alric tinha deixado claro que Cassie tinha

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de aprender a se alimentar. Então, ela não poderia continuar a ser colega de

quarto de Isabella.

Mas ela não conseguia suportar isso. Isabella era sua melhor amiga. Sendo

assim, ela teria que aprender a se alimentar de Isabella com segurança. Mas e se

algo desse errado... Era impossível: a mente de Cassie ficava girando sem

chegar a lugar algum. Em volta dela, outros alunos estavam apressados para

começar o novo semestre — fofocando, falando mal dos outros, rindo, deixando

rastros com seus chauffeurs3 e bagagens caras. Será que ela conseguiria dividir o