Levada ao Entardecer por C.C. Hunter - Versão HTML

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Neste terceiro livro da saga Acampamento Shadow Falls, Kylie quer

saber a verdade por pior que ela seja! A verdade sobre quem é a sua verdadeira

família, a verdade sobre os seus poderes sobrenaturais e a verdade sobre o que

ela sente com relação a Lucas e Derek. E pra completar, um fantasma vive atrás

dela com um aviso terrível: “Alguém vive e alguém morre”. Enquanto Kylie

tenta desvendar o mistério e proteger aqueles a quem ama, finalmente descobre

o segredo da sua identidade sobrenatural. E a verdade é bem diferente e muito

mais inesperada do que ela jamais imaginou!

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Capítulo Um

Eles estavam ali. Bem ali no acampamento.

Kylie Galen saiu do refeitório lotado, rumo à claridade da luz do Sol,

e olhou para o escritório do acampamento Shadow Falls, mais à frente. Não

ouvia mais as vozes dos outros campistas. Passarinhos cantavam a distância,

uma rajada de vento agitou as árvores, mas ela só ouvia o som do próprio

coração martelando no peito.

Tum. Tum. Tum.

Os avós estavam ali para vê-la.

Seu pulso acelerou ao pensar que encontraria os Brightens, o casal

que tinha adotado e criado seu pai biológico. Um pai que ela nunca

conhecera em vida, mas tinha aprendido a amar com as breves visitas que

ele lhe fizera da vida após a morte.

Ela andou em direção ao escritório, insegura com o torvelinho

emocional que se agitava dentro dela.

Empolgação.

Curiosidade.

Medo. Sim, muito medo.

Mas do quê?

Uma gota de suor, mais de nervosismo do que do clima quente de

final de verão no Texas, rolou pela sua testa.

Vá e descubra o seu passado, para que possa descobrir o seu destino. As

palavras misteriosas dos anjos da morte se repetiam na sua cabeça. Ela deu

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um passo à frente e depois parou. Embora não visse a hora de solucionar o

mistério sobre quem era o seu pai, quem ela era e, com sorte, a que espécie

pertencia, seus instintos gritavam para que desse meia-volta e fugisse dali.

Era disso que ela sentia tanto medo? De saber a verdade?

Antes de vir para Shadow Falls, alguns meses antes, Kylie tinha

certeza de que era só uma adolescente confusa, cuja sensação de ser

diferente era uma coisa normal. Agora entendia por quê.

Ela não era normal.

Não era nem humana! Pelo menos não totalmente.

E descobrir seu lado não humano era como tentar solucionar um

enigma.

Um enigma que os Brightens podiam ajudar a resolver.

Kylie deu outro passo. O vento, como se estivesse ansioso para fugir

assim como ela, soprou e levou com ele algumas mechas rebeldes dos seus

cabelos loiros, cobrindo seu rosto.

Ela piscou e, quando abriu os olhos, o brilho do Sol tinha

desaparecido. Ao olhar para cima, viu uma imensa nuvem carregada bem

acima dela, provocando uma grande sombra ao seu redor e sobre o

arvoredo. Incerta se aquilo era um mau presságio ou uma simples

tempestade de verão, ela congelou, o coração acelerando ainda mais.

Inspirando o ar com aroma de chuva, Kylie ia dar mais um passo, quando

sentiu uma mão segurando seu braço. A lembrança de outra mão agarrando-

a fez o pânico disparar em suas veias.

Ela se virou, sobressaltada.

— Calma! Está tudo bem? — Lucas afrouxou os dedos em torno do

braço dela.

Kylie prendeu a respiração e fitou os olhos azuis do lobisomem.

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— Tudo bem. Você só... me assustou. Você sempre me assusta!

Precisa assobiar quando estiver se aproximando de mim. — Ela expulsou as

lembranças de Mario e do neto vampiro, Ruivo.

— Desculpe. — Ele sorriu, enquanto desenhava pequenos círculos

com o polegar no braço dela. De algum modo aquela leve carícia com o dedo

pareceu... íntima. Como ele conseguia fazer um toque tão simples parecer

um doce pecado?

Outra rajada de vento, está prenunciando tempestade, agitou o

cabelo preto de Lucas e jogou-o sobre a testa. Ele continuou olhando para

ela, os olhos azuis aquecendo-a e afastando seus piores medos.

— Você não parece bem. Alguma coisa errada? — Ele estendeu o

braço e tirou do rosto dela um fio de cabelo, recolocando-o atrás da orelha.

Ela desviou os olhos e fitou a cabana onde ficava o escritório do

acampamento.

— Meus avós... Os pais adotivos do meu pai biológico estão aqui.

Ele devia ter percebido a relutância dela em estar ali.

— Achei que você queria vê-los. Por isso pediu que viessem, não foi?

— É... Eu só...

— Está com medo. — ele terminou a frase por ela.

Kylie não queria admitir, mas, como os lobisomens podiam farejar o

medo, mentiras eram inúteis.

— É. — Ela olhou novamente para ele e viu um toque de

divertimento em seus olhos.

— O que é tão engraçado?

— Você. Ainda estou tentando entendê-la. Quando foi raptada por

um vampiro delinquente não parecia tão assustada. Na verdade, você foi...

incrível!

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Kylie sorriu. Não, Lucas é que tinha sido incrível. Ele tinha arriscado

a própria vida para salvá-la das garras de Mario e de Ruivo, e ela nunca se

esqueceria disso.

— Sério, Kylie, se esse é o mesmo casal que eu vi entrando há alguns

minutos, então são só dois idosos simplesmente humanos. Acho que você

pode dar conta deles com as duas mãos amarradas nas costas.

— Não estou assustada desse jeito. Só estou... — Ela fechou os olhos,

sem saber ao certo como explicar algo que nem ela entendia direito, mas

então as palavras brotaram da sua boca. — O que vou dizer a eles? “Eu sei

que vocês nunca disseram ao meu pai que ele era adotado, mas ele

descobriu depois de morto. E veio me ver. Ah, sim, e ele não era humano.

Então, podem, por favor, me dizer quem são os pais verdadeiros dele? Para

que assim eu possa descobrir também o que sou?”

Lucas certamente percebeu a angústia na voz dela porque seu sorriso

se desvaneceu.

— Você vai encontrar um jeito.

— É. — Mas Kylie não estava tão confiante. Ela recomeçou a andar,

sentindo a presença dele, o calor do seu corpo, enquanto subia com ela os

degraus da cabana. O trajeto tinha sido mais fácil com ele ao seu lado.

Lucas parou ao lado da porta e acariciou o braço dela.

— Quer que eu entre com você?

Ela quase disse sim, mas isso era algo que precisava fazer sozinha.

Ela pensou ter ouvido vozes e olhou para trás, em direção à porta.

Bem, no final das contas não estaria completamente sozinha. Sem dúvida

Holiday, a líder do acampamento, esperava por ela lá dentro, preparada

para oferecer apoio moral e também para acalmá-la com seu toque

tranquilizador. Normalmente Kylie não gostava que suas emoções fossem

manipuladas, mas esse momento poderia ser uma exceção.

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— Obrigada, mas tenho certeza de que Holiday está aí dentro.

Ele assentiu. Seu olhar desceu para sua boca e seus lábios chegaram

perigosamente perto. Mas, antes que sua boca exigisse a dela, aquele calafrio

que sempre acompanhava os mortos envolveu o corpo de Kylie. Ela

pressionou dois dedos sobre os lábios dele. Beijar era algo que ela preferia

fazer sem uma plateia, mesmo que fosse do outro mundo.

Ou talvez não fosse simplesmente a plateia. Ela estaria realmente

pronta para se entregar aos beijos dele? Era uma boa pergunta, e ela

precisava de uma resposta, mas tinha que pensar num problema de cada

vez. No momento ela tinha os Brightens com que se preocupar.

— Tenho que ir — ela disse, apontando para a porta. O frio se fez

sentir novamente. Corrigindo: ela tinha os Brightens e um fantasma com que

se preocupar.

A decepção brilhou nos olhos de Lucas. Então ele mudou de posição,

parecendo desconfortável, e olhou em volta como se percebesse que não

estavam sozinhos.

— Boa sorte. — Ele hesitou um pouco e depois começou a se afastar.

Kylie o observou indo embora e, então, olhou ao redor, procurando

pelo espírito. Arrepios percorreram sua espinha. Sua capacidade de ver

fantasmas tinha sido a primeira pista de que ela não era normal.

— Isso não pode esperar até mais tarde? — ela sussurrou.

Uma nuvem de fumaça apareceu ao lado das cadeiras de balanço

brancas, na varanda da cabana. O espírito obviamente não tinha poder ou

conhecimento suficientes para completar a manifestação. Mas o que tinha

bastou para fazer as cadeiras balançarem. O rangido da madeira no assoalho

parecia fantasmagórico... o que de fato era.

Ela esperou, supondo se tratar do espírito da mulher que tinha

aparecido naquele mesmo dia dentro do carro da mãe dela, quando

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passavam na frente do Cemitério de Fallen, a caminho do acampamento.

Quem era ela? O que queria de Kylie? Nunca havia respostas fáceis quando

se tratava de fantasmas.

— Agora não é uma boa hora — ela insistiu, mesmo sabendo que

seria inútil. Os espíritos acreditavam na política de portas abertas.

A nuvem de fumaça começou a tomar forma e o peito de Kylie inflou

de emoção.

Não era a mulher que ela vira antes.

— Daniel? — Kylie estendeu a mão e as pontas dos seus dedos

penetraram na névoa gelada enquanto ela tomava uma forma mais familiar.

Um sentimento cálido — uma mistura de amor e remorso — subiu pelo

braço dela. Ela puxou a mão para trás, mas lágrimas inundaram seus olhos.

— Daniel? — Ela quase o chamou de pai. Mas aquilo ainda parecia esquisito.

Ela assistiu enquanto ele se esforçava para se manifestar. Daniel

explicara uma vez que o seu tempo de permanência na Terra era limitado.

Mais lágrimas encheram seus olhos quando ela percebeu o quanto era

limitado. Seu sentimento de perda triplicou quando pensou em como isso

devia ser difícil para ele. Seu pai queria estar ali quando ela conhecesse os

avós. E ela também precisava dele ali — queria muito que ele tivesse lhe

contado um pouco mais sobre os Brightens — e desejou mais do que tudo

que ele não tivesse morrido.

— Não! — A única palavra de Daniel, pronunciada rapidamente,

soou urgente.

— Não, o quê? — Ele não queria (ou não podia) responder. — Eu

não devo perguntar a eles sobre os seus pais verdadeiros? Mas eu tenho que

fazer isso, Daniel, esse é o único jeito de eu descobrir a verdade.

Não é... — Sua voz falhou.

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— Não é o quê? Não é importante? — Ela esperou pela resposta, mas

a fraca aparição empalideceu e o frio espiritual que a rodeava começou a se

dissipar. As cadeiras brancas diminuíram seu balanço e um silêncio caiu

sobre ela. — É importante para mim — disse Kylie. — Eu preciso...

O calor do Texas afugentou o frio persistente. Ele tinha ido embora.

De repente ocorreu a Kylie que ele poderia nunca mais voltar.

— Não é justo!

Ela secou com um gesto brusco as lágrimas que escorriam pelo seu

rosto. A necessidade de correr e se esconder se tornou quase irreprimível.

Mas ela resistiu até que passasse. Segurou a maçaneta da porta, ainda

sentindo frio por causa do espírito de Daniel, e se preparou para enfrentar os

Brightens.

No interior da cabana, Kylie ouviu leves murmúrios vindos de uma

das salas de reuniões, nos fundos. Ela tentou discernir as palavras. Nada.

Nas últimas semanas, tinha se surpreendido ao perceber que sua

audição estava ultrassensível. Mas esse novo dom se revelou passageiro.

Que bem poderia fazer um talento como esse se ela não sabia como usá-lo?

Só contribuía para aumentar a sensação de que tudo em sua vida estava fora

de controle.

Mordendo o lábio, ela cruzou silenciosamente o corredor e tentou se

concentrar no seu objetivo principal: obter respostas. Quem eram os

verdadeiros pais de Daniel? De que espécie ela era? Kylie ouviu Holiday

dizer:

— Tenho certeza, vocês vão amar Kylie!

Os passos dela ficaram mais lentos. Amar?

Não era um pouco demais? Eles poderiam simplesmente gostar dela.

Isso já estava de bom tamanho. Amar alguém era... complicado. Mesmo

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gostar muito de alguém tinha suas desvantagens, como ela comprovou

quando um certo meio FAE supergato decidiu que ficar perto dela era difícil

demais... e deu no pé.

É isso aí, Derek era definitivamente um exemplo da desvantagem de

se gostar muito de alguém. E ele provavelmente era a razão de ela hesitar

em aceitar os beijos de Lucas.

Um problema de cada vez. Ela afastou o pensamento ao entrar pela

porta aberta da sala de reunião.

O homem idoso sentado à mesa estava com as mãos cruzadas sobre

a grande escrivaninha de carvalho.

— Em que tipo de problema ela se meteu?

— Como assim? — Holiday voltou os olhos verdes para a porta e

jogou os longos cabelos ruivos por sobre os ombros.

O velho continuou:

— Nós pesquisamos sobre Shadow Falls na Internet e descobrimos

que é um acampamento para adolescentes problemáticos.

Que maravilha! Os pais de Daniel achavam que ela era uma

delinquente juvenil.

— Vocês não devem acreditar em tudo o que leem na Internet. —

Uma ponta de contrariedade transpareceu na voz da líder do acampamento.

— Na verdade, somos uma escola para adolescentes muito talentosos que

estão tentando conhecer a si mesmos.

— Por favor, não me diga que são drogas! — exclamou a senhora de

cabelos grisalhos, sentada ao lado do homem. — Não sei se eu conseguiria

lidar com isso.

— Não sou uma drogada! — disse Kylie em voz alta, sentindo na

pele o que Della, sua colega de quarto vampira, tinha de suportar com essa

suspeita dos pais.

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Todas as cabeças se voltaram para Kylie que, sentindo-se o centro

das atenções, prendeu a respiração.

— Ah, querida! — lamentou a mulher. — Eu não quis ofendê-la.

Kylie entrou na sala.

— Não estou ofendida. Só queria deixar isso bem claro. — Ela fitou

os olhos de um cinza desbotado da mulher e depois se voltou para o velho,

em busca... do quê? De uma semelhança, talvez. Por quê? Ela sabia que eles

não eram os pais verdadeiros de Daniel. Mas eles o haviam criado,

provavelmente tinham transmitido a ele seu jeito de ser e suas qualidades.

Kylie pensou em Tom Galen, seu padrasto, o homem que a criara e

que até pouco tempo antes ela acreditava ser seu verdadeiro pai. Embora

Kylie ainda não tivesse aceitado bem o fato de ele ter abandonado sua mãe,

depois de dezessete anos de casamento, ela não podia negar que tinha

alguns trejeitos dele. Não que não visse mais de Daniel em si mesma; ela

herdara do pai desde o DNA sobrenatural até suas características físicas.

— Nós lemos num site que este era um abrigo para adolescentes

problemáticos. — Kylie percebeu um pedido de desculpas na voz do velho.

Ela se lembrou de Daniel dizendo a ela que seus pais adotivos o

amavam e que a amariam também se a conhecessem.

Amor. A emoção se acumulava em seu peito. Tentando decifrar a

sensação, Kylie se lembrou de Nana, a mãe de sua mãe, e do quanto a

adorava, o quanto tinha sofrido quando ela morrera. Será que era a

constatação de que os Brightens já tinham bastante idade — e que seu tempo

na Terra era breve — que a fizera se lembrar da avó falecida?

Como se o pensamento na morte de algum modo o tivesse evocado,

um frio fantasmagórico se instalou na sala . Daniel? Ela o chamou

mentalmente, mas o frio que pinicava sua pele era diferente.

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Quando o ar frio entrou nos pulmões de Kylie, o espírito se

materializou atrás da senhora Britghten. Embora a aparição parecesse

feminina, sua cabeça raspada refletia a luz acima. Pontos cirúrgicos de

aparência recente eram visíveis no couro cabeludo raspado, fazendo Kylie se

encolher de aflição.

— Só estamos preocupados — explicou o senhor Brighten. — Não

sabíamos que você existia.

— Eu... entendo — Kylie respondeu, incapaz de desviar o olhar do

espírito que olhava para o casal idoso com perplexidade.

Ao ver o rosto do espírito novamente, Kylie percebeu que era a

mesma mulher daquela manhã. Obviamente, a cabeça raspada e os pontos

cirúrgicos eram uma pista. Mas uma pista do quê?

O espírito olhou para Kylie.

— Estou tão confusa!

Eu também, Kylie pensou, sem ter certeza se o espírito podia ler seus

pensamentos como os outros podiam.

— Tantos querem que eu diga uma coisa a você!

— Quem? — Percebendo que ela tinha sussurrado a palavra em voz

alta, Kylie mordeu o lábio. Daniel? Nana? O que eles querem que você me diga?

O espírito encontrou os olhos de Kylie como se entendesse.

— Alguém vive. Alguém morre.

Mais enigmas, Kylie pensou, e desviou os olhos do fantasma.

Ela viu Holiday olhar ao redor, sentindo o espírito. A senhora

Brighten olhou para o teto como se procurasse um ar-condicionado para

culpar pelo ar gelado da sala. Felizmente o espírito desapareceu, levando

com ele o frio.

Tentando afastar o fantasma de sua mente, Kylie voltou a olhar para

os Brightens. Seu olhar foi atraído para o tufo de cabelos grisalhos e grossos

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do ancião. Sua tez pálida indicava que ele tinha sido ruivo quando mais

novo.

Por alguma razão, Kylie se sentiu compelida a arquear as

sobrancelhas e verificar os padrões cerebrais do casal. Esse era um pequeno

truque sobrenatural que ela tinha aprendido só bem recentemente e que na

maioria das vezes os seres sobrenaturais usavam para reconhecer uns aos

outros e os seres humanos. O senhor e a senhora Brighten eram humanos.

Pessoas normais e provavelmente decentes. Então, por que Kylie estava tão

nervosa?

Ela observou o casal enquanto eles também a observavam. Esperava

que fizessem algum comentário sobre o quanto ela se parecia com Daniel.

Mas não fizeram. Em vez disso, a senhora Brighten disse:

— Estamos de fato muito felizes em conhecê-la.

— Eu também — disse Kylie. Mas também apavorada! Ela se sentou na

cadeira ao lado de Holiday, em frente aos avós. Estendendo o braço sobre a

mesa, buscou a mão de Holiday e a apertou. Uma calma muito bem-vinda

fluiu do toque da amiga.

— Vocês podem me contar alguma coisa sobre o meu pai? — Kylie

perguntou.

— Claro! — A expressão do senhor Brighten se suavizou. — Ele era

um garoto muito carismático. Popular. Esperto. Extrovertido.

Kylie pousou a mão livre sobre a mesa.

— Não era como eu, então. — Ela mordeu o lábio, arrependendo-se

de dizer aquilo em voz alta.

A senhora Brighten franziu a testa.

— Eu não diria isso. A sua líder do acampamento estava nos dizendo

o quanto você é encantadora. — A senhora estendeu o braço sobre a mesa e

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descansou a mão quente sobre a de Kylie. — Mal posso acreditar que temos

uma neta!

Algo no toque da mulher mexeu com os sentimentos de Kylie. Não

apenas o calor da sua pele, mas o ligeiro tremor, os dedos finos e nodosos

que o tempo e a artrite haviam deformado. Kylie lembrou-se de Nana, de

como o toque suave da avó tinha se tornado frágil um pouco antes de ela

morrer. Sem aviso, a dor aumentou no peito de Kylie. Tristeza por Nana e

talvez até mesmo um prenúncio do que ela sentiria pelos pais de Daniel,

quando a hora deles chegasse. Considerando-se a idade do casal, essa hora

não tardaria.

— Quando você soube que Daniel era seu pai? — A mão da senhora

Brighten ainda repousava sobre o pulso de Kylie. E o toque era

estranhamente reconfortante.

— Só recentemente — disse ela, com a emoção provocando um bolo

em sua garganta. — Meus pais estão se divorciando e a verdade de repente

veio à tona. — Aquilo não era uma completa mentira.

— Divorciando-se? Pobrezinha...

O velho balançou a cabeça em concordância, e Kylie notou que seus

olhos eram azuis — como os do pai e os dela.

— Estamos felizes que você tenha resolvido nos procurar.

— Muito felizes. — A voz da senhora Brighten tremeu. — Nós nunca

deixamos de sentir falta do nosso filho. Ele morreu tão jovem... — Uma

sensação silenciosa de perda, de dor compartilhada, envolveu a sala.

Kylie mordeu a língua para não dizer que ela também passara a

amar Daniel. Para não assegurar a eles que o pai os amava. Tantas coisas ela

desejava perguntar, lhes dizer, mas não poderia.

— Trouxemos fotos! — anunciou a senhora Brighten.

— Do meu pai? — Kylie se inclinou para a frente, entusiasmada.

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A senhora Brighten assentiu e mudou de posição na cadeira. Com a

lentidão típica da idade, ela puxou um envelope pardo da sua grande bolsa

branca de senhora. O coração de Kylie acelerou com a expectativa de ver as

fotos de Daniel. Será que ele se parecia com ela quando jovem?

A mulher passou o envelope para Kylie e ela o abriu o mais rápido

que pôde.

Sua garganta apertou quando viu a primeira imagem: Daniel na

infância, talvez com uns 6 anos de idade, sem os dentes da frente. Ela se

lembrou das suas próprias fotos de escola, banguela, e podia jurar que a

semelhança era incrível.

As fotos a levaram ao longo da vida de Daniel — desde que ele era

um adolescente com cabelos longos e jeans rasgados até a idade adulta.

Na foto na idade adulta, ele estava com um grupo de pessoas. A

garganta de Kylie apertou ainda mais quando ela percebeu quem estava de

pé ao lado dele.

A mãe dela.

Seu olhar se desviou da foto.

— Esta é a minha mãe.

A senhora Brighten assentiu.

— Sim, nós sabemos.

— Sabem? — perguntou Kylie, confusa. — Eu achei que vocês não a

conheciam.

— Nós suspeitávamos — o senhor Brighten explicou. — Depois que

soubemos de você, suspeitamos que ela poderia ser a garota da foto.

— Ah... — Kylie olhou para as imagens e se perguntou como eles

poderiam ter feito aquela dedução a partir de uma foto. Não que isso

importasse.

— Posso ficar com elas?

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— Claro! — concordou a senhora Brighten. — Eu fiz cópias. Daniel

ia gostar que você ficasse com elas.

Sim, ele ia. Kylie se lembrou dele tentando se materializar como se

tivesse algo importante a dizer.

— Minha mãe o amava — Kylie acrescentou, lembrando-se da

preocupação da mãe de que os Brightens ficassem ressentidos com ela por

não tentar encontrá-los antes. Mas eles não pareciam cultivar nenhum

sentimento negativo.

— Tenho certeza disso. — A senhora Brighten se inclinou e tocou a

mão de Kylie novamente. Calor e emoção genuínos irradiaram do toque. Era

quase... mágico!

Um bipe súbito do telefone de Kylie quebrou o frágil silêncio. Ela

ignorou a mensagem de texto, sentindo-se quase hipnotizada pelos olhos da

senhora Brighten. Então, por razões que Kylie não entendia, seu coração se

abriu.

Talvez ela de fato quisesse que eles a amassem. Talvez quisesse amá-

los também. Não importava o pouco tempo que lhes restasse. Ou o fato de

não serem seus avós biológicos. Eles tinham amado seu pai e depois o

perdido. Assim como ela. Simplesmente parecia certo que eles se amassem.

Seria isso que Daniel queria dizer a ela? Kylie olhou para as

fotografias mais uma vez e então as recolocou no envelope, sabendo que iria

passar horas contemplando-as mais tarde.

O telefone de Kylie tocou. Ela ia desligar, mas viu o nome de Derek

na tela. Seu coração deu um salto. Ele estaria ligando para se desculpar por

ir embora? Ela queria que ele se desculpasse?

Outro telefone tocou. Dessa vez era o celular de Holiday.

— Com licença. — Holiday se levantou e começou a sair da sala

enquanto atendia à chamada. Ela deu uma parada abrupta na porta.

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— Fale mais devagar — disse ao telefone. A tensão na voz da líder

do acampamento mudou o clima da sala. Holiday deu meia-volta e se

aproximou de Kylie.

— O que foi? — Kylie murmurou.

Holiday apertou o ombro de Kylie, em seguida fechou o celular e

olhou para os Brightens.

— É uma emergência. Vamos ter que remarcar esta reunião.

— Algo errado? — Kylie perguntou.

Holiday não respondeu. Kylie viu os rostos decepcionados dos

Brightens e sentiu a mesma emoção se infiltrando em seu peito.

—Não podemos...?

— Não! — disse Holiday com firmeza. — Vou ter que lhes pedir

para partirem. Agora.

O tom de voz da líder foi pontuado pelo barulho alto da porta da

frente da cabana se abrindo violentamente e batendo contra a parede. Tanto

a líder quanto os Brightens se sobressaltaram e olharam para a porta ao

ouvir os passos ruidosos de alguém entrando apressadamente na sala de

reunião.

Capítulo Dois

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Três minutos depois, Kylie estava no estacionamento observando o

Cadillac prata dos Brightens sumir a distância. Ela se virou para encarar

Della e Lucas, que tinham invadido o escritório de Holiday e interrompido

seu encontro com os avós. Perry havia entrado com eles, mas agora tinha

desaparecido. Holiday, que os seguira para fora da cabana, estava ao

telefone novamente.

— Alguém pode me dizer, por favor, o que está acontecendo? —

Kylie perguntou, sentindo como se a sua chance de descobrir mais sobre o

pai estivesse indo embora junto com o Cadillac. De repente, percebeu que

ainda segurava o envelope pardo com as fotos de Daniel e o comprimia

contra o peito.

— Não esquenta. É só por precaução.

As pontas dos caninos de Della apareciam nos cantos dos seus

lábios. Seus olhos castanhos-escuros, ligeiramente amendoados, e seu cabelo

preto e liso denunciavam sua ascendência asiática.

— Precaução por quê?

— Derek ligou. — Holiday fechou o telefone e se juntou a eles. —

Estava preocupado. — Seu telefone tocou novamente e, depois de olhar para

o número na tela, ela levantou um dedo. — Desculpe. Só um minuto.

Com a paciência se esgotando, Kylie olhou para Della e Lucas.

— O que está acontecendo?

Lucas se aproximou.

— Burnett ligou para nós e pediu que a gente não tirasse os olhos

dos visitantes. — Seu olhar se encontrou com o dela e, como antes, a

preocupação cintilou nas pupilas azuis.

Burnett, um vampiro em torno dos 30 anos, trabalhava para a UPF

— Unidade de Pesquisa de Fallen —, um departamento do FBI cujo trabalho

era supervisionar os sobrenaturais. Burnett também era um dos sócios de

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Shadow Falls. Quando dava uma ordem, ele esperava que as pessoas a

cumprissem. E elas normalmente não o decepcionavam.

— Por que Burnett disse isso? — Kylie perguntou. — Eu preciso

fazer umas perguntas a ele.

Inesperadamente, a lembrança da mão da senhora Brighten sobre a

dela surgiu em sua mente — suave, frágil. Emoções convergiram para Kylie

de todas as direções.

— Burnett nunca dá explicações — disse Della. — Ele dá ordens.

Kylie olhou para Holiday, que ainda estava ao telefone. Ela parecia

preocupada, e Kylie sentiu as emoções da líder se somando a outras que já

lhe provocavam um frio na barriga.

— Eu não entendo. — Ela lutou contra o aperto na garganta.

Lucas chegou mais perto. Tão perto que ela podia sentir seu cheiro,

semelhante a um bosque coberto de orvalho, nas primeiras horas da manhã.

Ele levantou o braço e ela pensou que fosse para pegar a mão dela,

mas ele o baixou novamente. Kylie lutou contra a decepção.

Holiday desligou o telefone.

— Era Burnett. — Ela deu um passo à frente e apoiou a mão no

ombro de Kylie.

Ela não queria ser tranquilizada, queria respostas. Então afastou a

mão da amiga.

— Apenas me diga o que aconteceu. Por favor.

— Derek ligou — explicou Holiday. — Ele foi ver o investigador

particular que ajudou você a encontrar os seus avós e o encontrou

inconsciente em seu escritório. Então Derek achou o telefone do homem

caído no chão, do lado de fora da sala, todo ensanguentado. Resumindo,

Derek não acha que foi o investigador que lhe enviou a mensagem de texto

falando sobre os seus avós. Ele ligou para Burnett, que está lá agora.

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Kylie tentou entender o que Holiday estava dizendo.

— Mas, se não foi o investigador que mandou a mensagem, quem

foi?

Holiday encolheu os ombros.

— Não sabemos.

— Derek pode estar errado — disse Lucas, sua falta de afeição

pelo fae aprofundava o tom da sua voz.

Kylie ignorou Lucas e seu tom de voz e tentou digerir o que Holiday

estava querendo dizer.

— Então... Derek e Burnett acham que o senhor e a senhora Brighten

são impostores?

Holiday assentiu.

— Se Derek estiver certo e a mensagem foi enviada pela pessoa que

feriu o investigador, então faz sentido pensar que esses dois foram enviados

aqui por outras razões.

— Mas eles são humanos — disse Kylie. — Eu verifiquei.

— Definitivamente humanos — concordou Della.

— Eu sei — Holiday explicou. — Foi por isso que não os segurei aqui

nem os interroguei. A última coisa que preciso é atrair mais suspeitas sobre

Shadow Falls. As pessoas da região já nos olham com desconfiança. Mas só

porque são humanos isso não significa que não estejam trabalhando para

outra pessoa. Alguém sobrenatural.

Kylie sabia que Holiday estava se referindo a Mario Esparza, avô do

vampiro assassino que a raptara.

Por uma fração de segundo, Kylie reviu mentalmente as duas

adolescentes que encontraram na cidade e que tinham morrido nas mãos de

Ruivo, o neto de Mario Esparza. Mais frustração e raiva se acumularam

dentro dela.

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— Mas eles me trouxeram fotos — disse ela, erguendo o envelope.

Holiday pegou o envelope e deu uma olhada rápida na pilha de

fotos. Por alguma estranha razão, Kylie queria pegá-las de volta, como se a

atitude de Holiday demonstrasse certa irreverência.

— Não tem nenhuma foto de família aqui. Devia haver uma ou duas

deles com o filho.

Kylie tirou as fotos da mão de Holiday e colocou-as de volta no

envelope, tentando refletir sobre o que estavam insinuando. Então seus

pensamentos divagaram.

— Mas e se eles realmente forem meus avós e a pessoa que agrediu o

investigador tentar pegá-los?

Lembrou-se da fragilidade da mão da mulher idosa sobre a dela. O

pouco de vida que a idosa tinha pela frente poderia lhe ser facilmente

arrancado.

O peito de Kylie doeu. Será que ela tinha colocado os pais de Daniel

em perigo ao encontrá-los? Teria sido isso que Daniel queria dizer a ela? Ela

sentiu o olhar de Lucas sobre ela, como se lhe oferecendo uma pequena dose

de conforto.

Holiday falou novamente.

— Eu não vejo nenhuma razão para alguém querer envolvê-los. Mas

Perry está seguindo o casal. Se alguém tentar fazer algum mal a eles, ele vai

cuidar disso.

— Perry é mesmo capaz de chutar um traseiro se tiver que fazer isso

— disse Della.

— E eu tenho certeza de que o investigador está trabalhando numa

centena de casos diferentes — disse Lucas. — Se ele foi atacado, isso não

significa que o ataque tenha alguma ligação com a Kylie. Poderia ser algo

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relacionado a um dos outros casos. Os detetives particulares vivem irritando

as pessoas.

— É verdade — concordou Holiday. — Mas Burnett está preocupado

o bastante para querer os Brightens longe do acampamento. Precisamos ter

cautela.

A mente de Kylie deu um giro de 180 graus e se fixou no fato de que

era Perry, um dos campistas metamorfos, que estava seguindo os Brightens.

— Que forma Perry assumiu quando foi atrás deles?

Da última vez que ela viu Perry numa forma alternativa, ele era um

tipo de pterodátilo que parecia saído diretamente do período jurássico.

Claro que para Kylie isso era melhor do que o leão do tamanho de uma van

ou do unicórnio em que ele tinha se transformado antes disso. Ai, droga! Se

não fosse cuidadoso, o metamorfo podia acabar provocando um ataque

cardíaco no casal de velhos.

— Não se preocupe — Holiday disse. — Perry não vai fazer nada

ridículo.

Miranda escolheu aquele momento para se juntar ao grupo.

— Ah, fala sério! Perry e todas as coisas ridículas andam juntos como

sapos e verrugas — disse a ela, afastando os cabelos tricolores do ombro

como que para pontuar suas palavras.

Miranda era uma das sete bruxas de Shadow Falls e a outra colega

de dormitório de Kylie. Pelo tom da garota, estava claro que ela não estava

pronta para perdoar Perry por ter sido cruel com ela ao encontrá-la beijando

outro metamorfo... especialmente depois que ela se desculpara. O olhar da

bruxa percorreu o grupo.

— O que foi? — Miranda perguntou. — Algo errado? — perguntou,

apertando os olhos e provando que, embora ainda estivesse furiosa, não era

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indiferente ao metamorfo. — Está tudo bem com Perry? É com ele que estão

preocupados?

Ela estendeu a mão e pegou um fio de cabelo rosa, enrolando-o no

dedo.

— Perry está bem — Holiday e Kylie disseram ao mesmo tempo.

Então a mente de Kylie voltou a se concentrar na sua preocupação com os

Brightens... se é que eles realmente eram os Brightens.

Ela olhou para Holiday.

— O que iriam ganhar fingindo ser meus avós?

— Acesso a você — Holiday respondeu.

— Mas eles pareciam tão sinceros! — E então, Kylie se lembrou. —

Não. Não poderiam ser impostores. Eu... vi os anjos da morte. Eles me

enviaram uma mensagem.

— Ah, merda... — murmurou Della, e ela e Miranda recuaram um

passo.

Embora Lucas não tivesse saído do lugar, seus olhos se arregalaram.

Segundo a lenda, os anjos da morte eram aqueles que definiam as punições

para manter as espécies não humanas na linha. Quase todo sobrenatural

conhecia um amigo de um amigo que tinha se comportado mal e depois

virado uma tocha humana pelas mãos de um anjo da morte vingativo.

Embora Kylie sentisse o poder desses anjos, ela não estava

convencida de que a péssima reputação deles não era um exagero. Não que

estivesse ansiosa para comprovar sua teoria. No entanto, considerando que

já tinha cometido o seu quinhão de erros e não tinha sido queimada ou

transformada numa pilha de cinzas, questionava os boatos sobre aqueles

que tinham.

— Qual foi a mensagem? — Holiday perguntou, o tom de voz

despreocupado.

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A líder do acampamento, que também via fantasmas, era uma das

poucas pessoas ali que não temiam os anjos da morte.

— Sombras... na parede do refeitório, e então...

— Quando estávamos lá dentro? — Della perguntou. — E você não

nos disse nada?

Kylie ignorou Della.

— Ouvi uma voz na minha cabeça dizendo para ir encontrar o meu

destino. Por que eu teria recebido essa mensagem se eles não fossem os

meus avós?

— Boa pergunta — disse Holiday. — Mas talvez os anjos só

quisessem dizer que essa situação é o que levará você à verdade.

— Ela devia ter nos contado... — murmurou Della para Miranda.

Kylie lembrou-se de Daniel aparecendo, a urgência que sentiu em

sua voz nas poucas palavras que tinha dito. Será que ela tinha entendido

totalmente errado o que ele queria lhe dizer? Será que tinha vindo para

avisá-la que o casal não era seus pais adotivos? Cheia de dúvidas, ela já não

sabia mais em que acreditar.

Kylie respirou fundo e outra preocupação dominou os seus

pensamentos.

— O investigador vai ficar bem?

— Eu não sei. — Holiday franziu a testa. — Burnett disse que Derek

está no hospital com ele agora. Burnett ainda está investigando a cena do

crime.

Preocupada com Derek, Kylie sentiu o peito oprimido. Ela tirou o

telefone do bolso e discou o número dele.

Ao ver que ele não atendia, não soube se era porque ele não podia ou

se ainda não queria falar com ela. Será que ainda estava disposto a mantê-la

longe da vida dele?

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Homens!

Por que os garotos reclamavam que as garotas eram tão difíceis de

entender, se ela não havia conhecido um que não a deixasse confusa a ponto

de ter vontade de gritar?

* * *

Quando todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, Kylie

aproveitou a chance para escapulir dali e ir dar uma volta, acabando por se

sentar sob a sua árvore favorita. Ela abriu o envelope e analisou

demoradamente cada uma das fotos, observando todos os pequenos

detalhes sobre Daniel.

O jeito como seus olhos azuis brilhavam quando ele sorria, a forma

como seu cabelo enrolava um pouco nas pontas quando ele o usava mais

comprido. Ela viu tanto de si mesma no pai que seu coração se apertou com

a dor de não poder tê-lo ao seu lado.

Quando se deparou com o retrato da mãe ao lado dele, Kylie se

pegou sorrindo ao ver o jeito como o casal se entreolhava. Amor. Uma parte

de Kylie queria ligar para a mãe no mesmo instante e lhe contar sobre a foto,

mas, considerando o que Holiday e os outros pensavam, ela achou melhor

não falar nada. Só esperava que não por muito tempo.

— Oi.

A voz de Lucas atraiu a sua atenção e ela sorriu.

— Oi.

— Se importa de ter companhia? — perguntou ele.

— Não, divido a minha árvore com você. — Ela lhe deu espaço para

se sentar.

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Ele se sentou ao lado dela e estudou seu rosto. Seu ombro, quente,

encostou-se no de Kylie e ela saboreou a proximidade.

— Você parece feliz e triste, e confusa. — Ele tirou alguns fios de

cabelo do rosto dela.

— Estou confusa — disse ela. — Eles eram tão agradáveis e... Eu não

sei em que acreditar agora. Como podiam ter essas fotos se não eram

realmente os Brightens?

— Podem ter roubado — arriscou ele.

As palavras dele doeram, mas ela sabia que ele podia estar certo.

Mas por que alguém iria tão longe para convencê-la de que eram os pais de

Daniel? O que poderiam ganhar fazendo isso?

Ele olhou para as fotos que ela tinha na mão.

— Posso ver?

Ela assentiu e lhe passou as fotos. Lucas analisou lentamente cada

uma delas.

— Deve ser estranho olhar o rosto de alguém que se parece tanto

com você, e não conhecer essa pessoa.

Ela levantou os olhos para Lucas.

— Mas eu o conheço.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Eu quis dizer... em pessoa.

Ela assentiu, entendendo a incapacidade dele para compreender

aquela coisa toda de ver fantasmas, mas desejando que não fosse tão difícil

para ele.

— Burnett vai investigar isso a fundo. — Seu olhar baixou até os

lábios dela. Por um segundo, Kylie pensou que Lucas ia beijá-la, mas ele

ficou tenso de repente e olhou na direção do bosque.

Fredericka, fazendo cara feia para os dois, saiu de trás dos arbustos.

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— A alcateia está procurando você.

Lucas franziu o cenho.

— Eu já vou.

Ela não se mexeu. Simplesmente continuou encarando o casal.

— Eles não deveriam ter que esperar pelo seu líder.

— Eu disse que já vou — rosnou Lucas.

Fredericka se afastou e Lucas olhou para Kylie.

— Desculpe. Tenho que ir.

— Algum problema? — Kylie perguntou, notando a preocupação

nos olhos dele.

— Nada que eu não possa resolver. — Ele deu um rápido beijo nos

lábios dela e colocou as fotos de volta em suas mãos.

— Você vai ficar bem? — Holiday perguntou, quando Kylie voltou

para a varanda do escritório.

Kylie sentou-se numa das grandes cadeiras de balanço brancas. O

calor pegajoso parecia agarrar-se à sua pele.

— Vou sobreviver. — Ela colocou o envelope sobre a mesinha entre

as cadeiras e puxou o cabelo para trás, segurando-o longe do pescoço. —

Você acha mesmo que eles eram impostores?

Holiday se sentou na outra cadeira de balanço. O cabelo ruivo solto

em volta dos ombros.

— Eu não sei. Mas Burnett não vai descansar enquanto não

investigar isso a fundo. Ele se sente culpado por não ter descoberto tudo

antes e impedido Mario de raptá-la. Imagino que, depois disso, não vai

querer tirar os olhos de você.

— Ele não tinha como saber do que aquele maluco era capaz — disse

Kylie.

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— Eu sei disso. Você sabe disso. Mas Burnett tem o hábito de ser

meio duro consigo mesmo.

— E não são assim todos os vampiros? — Kylie pensou em Della e

na bagagem emocional que ela carregava.

— Na verdade, não — Holiday disse. — Você ficaria surpresa se

soubesse quantos vampiros se recusam a assumir responsabilidade pelas

suas ações. Para eles, a culpa é sempre dos outros.

Kylie quase perguntou se Holiday estava se referindo a um certo

vampiro que tinha ferido seu coração no passado. Mas seus pensamentos se

voltaram para os Brightens.

— Você estava lá. Não leu as emoções deles? Não foram sinceros? Eu

me senti de algum modo... ligada a eles.

Holiday inclinou a cabeça como se pensasse.

— Eles foram muito cautelosos, quase até demais, mas... sim,

pareciam sinceros. Especialmente a senhora Brighten.

— Então, como poderiam...?

— A leitura das emoções nunca é cem por cento exata — Holiday

explicou. — As emoções podem ser disfarçadas, escondidas, até mesmo

falsificadas.

— Por seres humanos?— Kylie perguntou.

— Os seres humanos são mestres nisso. Muito mais do que os

sobrenaturais. Eu imagino que, como a espécie carece de superpoderes para

controlar o seu mundo, eles se esforçam para conseguir controlar suas

emoções.

Kylie ouvia, enquanto seu coração se contraía de preocupação pelos

Brightens.

— Narcisismo, desapego, personalidade esquizoide, sociopatia, essas

coisas são muito frequentes na raça humana em graus variados. E ainda

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existem os atores, que podem criar uma emoção dentro de si simplesmente

evocando uma experiência do passado. Eu já assisti a peças e espetáculos em

que as emoções dos atores eram tão reais quanto as que eu mesma sinto.

Kylie se recostou na cadeira.

— Eu sou metade humana e não consigo controlar coisa nenhuma.

Holiday olhou para ela com ar de compreensão.

— Eu lamento ter sido obrigada a mandá-los embora. Sei que você

estava esperando descobrir alguma coisa. Mas não podia correr o risco de

que Derek estivesse certo.

— Eu entendo. — E ela de fato entendia. Só não tinha gostado. — A

senhora Brighten, se de fato era a senhora Brighten, me lembrou a minha

avó.

— Nana — Holiday disse, e Kylie se lembrou de que o espírito da

avó tinha feito uma visita à líder do acampamento.

— É.

Holiday suspirou.

— Eu sei que isso é difícil pra você.

O telefone da líder do acampamento tocou e Kylie prendeu a

respiração, esperando que fossem notícias dos Brightens, de Derek ou do

investigador.

Holiday olhou para o identificador de chamadas.

— É só a minha mãe. Vou ligar para ela mais tarde.

Kylie encostou um joelho no peito e envolveu a perna com a mão. O

silêncio que se seguiu gritava pela verdade.

— Eu me sinto como se nada na minha vida fizesse mais sentido.

Tudo está mudando.

Holiday torceu com as duas mãos os longos cabelos.

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— A mudança não é a pior coisa, Kylie. É quando as coisas não estão

mudando que você tem que se preocupar.

— Eu discordo. — Kylie descansou o queixo sobre o joelho. — Quer

dizer, sei que a mudança é necessária para o crescimento e tudo o mais. Mas

eu gostaria de ter uma coisa na minha vida que fizesse eu me sentir... com os

pés no chão. Eu preciso de uma base onde possa me apoiar. Algo que pareça

real.

Holiday ergueu as sobrancelhas.

— Shadow Falls é real, Kylie. Ele é a sua base.

— Eu sei. Sei que pertenço a este lugar, é só que eu ainda não sei a

que espécie eu pertenço. E, por favor, não me diga que eu deveria fazer disso

a minha busca. Porque essa tem sido a minha busca desde que cheguei aqui

e não me sinto mais perto de descobrir agora do que estava antes.

— Isso não é verdade. — Holiday levantou os joelhos e, na enorme

cadeira de balanço, sua figura pequena parecia ainda menor. — Veja como já

progrediu. Como acabou de dizer, você sabe que pertence a este lugar. Já é

um grande passo. E seus dons estão se revelando a todo instante.

— Dons que eu não sei como controlar ou quando vão aparecer

novamente. Não que eu esteja reclamando... — Kylie encostou a testa no

joelho e deu um suspiro exagerado.

Holiday riu.

Kylie olhou para cima.

— Eu pareço patética, não é?

Holiday franziu a testa.

— Não. Você parece frustrada. E para ser sincera, depois do que

aconteceu com você neste fim de semana, tem o direito de ficar frustrada.

Tem o direito até de ser um pouco patética.

— Ninguém tem o direito de ser patético — retrucou Kylie.

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