Lima Barreto: língua, identidade e cidadania por Lúcia Maria de Assis - Versão HTML

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1

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA

LÚCIA MARIA DE ASSIS

LIMA BARRETO

Língua, Identidade e Cidadania

São Paulo

2008

2

LÚCIA MARIA DE ASSIS

LIMA BARRETO

Língua, Identidade e Cidadania

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Semiótica e Lingüística Geral do

Departamento de Lingüística da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para obtenção do

título de Doutor em Letras.

Área de Concentração: Semiótica e Lingüística

Geral

Orientadora: Profa Dra. Leonor Lopes Fávero

São Paulo

2008

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FOLHA DE APROVAÇÃO

Lúcia Maria de Assis

LIMA BARRETO - Língua, Identidade e Cidadania

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Semiótica e Lingüística Geral do

Departamento de Lingüística da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para obtenção do

título de Doutor em Letras.

Área de concentração: Semiótica e Lingüística.

Geral

Aprovado em:

Banca Examinadora

Prof. Dr. ____________________________________________________________

Instituição: _____________________Assinatura ____________________________

Prof. Dr. ____________________________________________________________

Instituição: _____________________Assinatura ____________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________________________________

Instituição: _____________________Assinatura ____________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________________________________

Instituição: _____________________Assinatura ___________________________

Prof. Dr. _________________________________________________________________________________________

Instituição: _____________________Assinatura ___________________________

4

À memória de Lima Barreto.

5

AGRADECIMENTOS

À Prof a. Dra. Leonor Lopes Fávero, pela oportunidade, que muito contribuiu para meu

crescimento pessoal e profissional; pela paciência nos momentos mais difíceis.

À Prof a. Dra. Márcia Antônia Guedes Molina, pela amizade incondicional; por me ouvir;

pelos empréstimos e sugestões; pelo carinho a mim dedicado.

Ao André, por não se incomodar com minha presença apenas física; por estar do meu lado

sempre dizendo que valeria à pena chegar ao fim.

À família (minha mãe e meus irmãos) que esteve todo o tempo procurando uma maneira

de ajudar: palavras de incentivo, orações e o amor incondicional.

Ao Centro Universitário de Barra Mansa, pelo apoio financeiro.

6

“Possam estas palavras de grande fé; possam elas na sua

imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito

que vos possa ter causado as minhas desenxavidas. É que

eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi; mas

uma cousa garanto-vos: pronunciei-as com toda a

sinceridade e com toda a honestidade de pensar.”

(Lima Barreto)

7

ASSIS, Lúcia Maria de. Lima Barreto – Língua, Identidade e Cidadania . 2008. 166 f.

Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e ciências Humanas, da Universidade de

São Paulo, São Paulo, 2008.

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo geral analisar a manifestação lingüístico-discursiva a

respeito de língua, identidade lingüística e cidadania presente na obra de Lima Barreto,

literato que viveu no Rio de Janeiro entre os anos de 1881 e 1922. De maneira específica,

examina o significado da literatura militante do autor, sua crítica ao purismo lingüístico e

sua manifestação crítica nas crônicas jornalísticas e ficcionais. Para isso, baseamo-nos nos

pressupostos teóricos da História das Idéias Lingüísticas, os quais dizem que o estudo de

uma língua vincula-se a assuntos relevantes da história e da constituição de determinada

sociedade na tentativa de compreender o imaginário social que se constitui ao longo dessa

história, chegando à identificação lingüístico-cultural de um povo. Isso é possível, porque

uma produção literária sempre está associada a um tempo e, portanto, reflete as angústias e

os sonhos a ela contemporâneos, transformando-se em relato de determinado contato

sócio-histórico. Nesse sentido, analisar a obra limana possibilita a aquisição de um

conhecimento sobre a história da língua portuguesa do Brasil.

Palavras-chave: Lima Barreto – Identidade Lingüística – Cidadania – História das Idéias

Lingüísticas – Purismo Lingüístico

8

ASSIS, Lúcia Maria de. Lima Barreto – Language, Identity and Citizenship. 2008.166f.

Thesis (Doctoral) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de

São Paulo, São Paulo, 2008.

ABSTRACT

The aim of this work is to analyze the linguistic-discourse occurrence of the language,

linguistic identity and citizenship presented at Lima Barreto’s work, literate that lived in

Rio de Janeiro by the years 1881 and 1922. Especially it examines the meaning of the

militant literature of the author, his criticism to the linguistic purist and its occurrence in

the journalistic and fiction chronicles.To do it, we based on the theoretical presumption of

the History of the Linguistic Ideas which says that the study of a language is linked to the

relevant subjects of the history and the constitution of a specific society trying to

comprehend the social imaginary that is built along its history, in order to identify the

linguistic-culture of a people. That is possible because a literary production is always

linked to a time and, therefore, it shows its anxieties and dreams, changing into a relate of a

specific social-historical contact. In this sense, the analysis of Lima Barreto’s work helps

to acquire knowledge about the history of the Portuguese language in Brazil.

Key-words: Lima Barreto – Linguistic Identity – Citizenship – History of the Linguistic

Ideas – Linguistic Purist

9

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................11

1 HISTÓRIA DAS IDÉIAS LINGÜÍSTICAS E LITERATURA..................................18

1.1 - O QUE É HISTÓRIA DAS IDÉIAS LINGÜÍSTICAS?.............................................18

1.2 - IDÉIAS LINGÜÍSTICAS NO SÉCULO XIX E A IDENTIDADE BRASILEIRA ..22

2- LITERATURA E MILITÂNCIA NA BELLE ÉPOQUE - O CASO DE LIMA

BARRETO ... .....................................................................................................................29

2.1 - A BELLE ÉPOQUE NO RIO DE JANEIRO .............................................................29

2.2 - O PAPEL SOCIAL DA LITERATURA EM LIMA BARRETO...............................43

2.2.1- Os significados de Literatura Militante em Lima Barreto.........................................47

3 - O PURISMO LINGÜÍSTICO EM LIMA BARRETO ...........................................50

3.1 – PURISMO NOS SÉCULOS XIX E XX – UM CONCEITO DA BELLE

ÉPOQUE .................................................................................................................................

............. 50

3.2– PURISMO LINGÜÍSTICO E IDENTIDADE NACIONAL NO BRASIL DA

VIRADA SÉCULO..............................................................................................................57

3.3 - LIMA BARRETO E A DENÚNCIA CONTRA O PURISMO LINGÜÍSTICO........60

3.3.1 – A obra Recordações do Escrivão Isaías Caminha ...................................................65

3.3.2 – O antipurismo em Isaías Caminha............................................................................74

10

4 – O CRONISTA LIMA BARRETO (IMPRENSA, DENÚNCIAS, LINGUAGEM)

..............................................................................................................................................79

4.1 – O PAPEL DA IMPRENSA ........................................................................................79

4.1.1 – A imprensa e Lima Barreto .....................................................................................85

4.2 – O GÊNERO LITERÁRIO DA IMPRENSA – A CRÔNICA ....................................88

4.2.1– A crônica de Lima Barreto .......................................................................................93

4.3. – OS TEMAS NA CRÔNICA BARRETIANA ..........................................................96

4.3.1 – O que dizer sobre a língua? ....................................................................................97

4.3.2. – A superstição do doutor ........................................................................................103

4.3.3 - Educação Pública ...................................................................................................107

4.4– O LÉXICO NAS CRÔNICAS DE LIMA BARRETO..............................................116

5- A REPÚBLICA DA BRUZUNDANGA E A CRÍTICA BARRETIANA ..............124

5.1 - O PREFÁCIO DA BRUZUNDANGA ...................................................................126

5.2 – OS SAMOIEDAS – CRÍTICA À LÍNGUA E À LITERATURA ...........................127

5.3 – AS CLASSES SOCIAIS E POLÍTICAS NA BRUZUNDANGA ...........................130

5.4 - LIMA BARRETO E O ENSINO NA BRUZUNDANGA .....................................135

5.5 – A CONSTITUIÇÃO DA CONSTITUIÇÃO NA BRUZUNDANGA – O PAPEL DO

MANDACHUVA E SEUS MINISTROS .......................................................................138

5.6 – COSTUMES NA BRUZUNDANGA ........................ .............................................143

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................................

149

REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 156

FONTES ...........................................................................................................................166

11

INTRODUÇÃO

A segunda metade do século XIX e o início do XX constituíram uma época de

grandes questionamentos sobre a cidadania brasileira e a língua portuguesa do Brasil. Em

literatura, o início do século XX foi denominado período Pré-Modernista, termo que se

refere a uma nova tendência temática e formal que começava a se firmar. Como se

encontrava justamente na transição entre Parnasianismo e Modernismo, características

ainda conservadoras ainda reverberavam em vários escritores. Entretanto, já existia um

ascendente elemento renovador que se levantava contra o conservadorismo nos costumes e,

em especial, nas letras.

Parafraseando o que diz Bosi (1973), Penteado (2000:2e3) ressalta que o termo pré-

modernista deve ser considerado em 2 sentidos contrastantes:

No primeiro, o prefixo pré assume conotação de mera anterioridade

temporal e o período literário assim designado caracteriza-se como

extremamente conservador, aglutinando escritores neoparnasianos

tradicionalistas que, sob o critério estético, podem ser considerados anti-

modernistas. Nesse sentido, o pré-modernismo acaba sendo o

prosseguimento das tendências realistas, naturalistas e parnasianas. No

segundo, o prefixo conota forte sentido de precedência temática e formal

em relação aos valores da literatura modernistas, notadamente do período

de 30, devendo ser visto como movimento renovador, oposto ao

conservadorismo entranhado no sentido citado anteriormente, uma vez

que os escritores representativos desse modo de entender o período

passam a interessar-se pela realidade brasileira, propondo uma revisão

crítica dos valores nacionais, muitas vezes, confundida com pessimismo

ou ressentimento.

Lima Barreto, assim como Monteiro Lobato e Euclides da Cunha são exemplos de

literatos que inauguraram esse pensamento a respeito da realidade brasileira, tema que

passou a caracterizar, logo em seguida, o Período Modernista. Dessa forma, inauguraram,

também, uma literatura que se preocupava com os problemas sociais e morais do país. Sob

o ponto de vista do conteúdo, essa literatura abordava situações históricas só então

consideradas: a miséria do caboclo nas zonas de decadência econômica, o sertanejo

12

nordestino e as alterações na paisagem e na vida social da Capital. A última tendo como

principal representante o escritor Lima Barreto.

Como já se disse, o Parnasianismo sobrevivia ao novo ideal pré-modernista. Sendo

assim, ao lado de Lima Barreto, que defendia literatura militante e língua que refletissem a

real identidade do povo brasileiro, existiam aqueles que empregavam e defendiam

o estilo das camadas dirigentes, da burocracia culta e semiculta, das

profissões liberais habituadas a conceber a poesia como linguagem

ornada, segundo padrões já consagrados que garantem o bom gosto da

imitação (Bosi, 1994:19).

Era, ainda, a manifestação clara de uma cultura provinciana e infectada pelo

europocentrismo.

Entre os romancistas da era pré-moderna, Lima Barreto destaca-se por se situar

mais próximo da renovação. Nele, a própria vida explica o caráter ideológico de sua obra:

origem humilde, mulato, levava vida penosa de jornalista pobre e de pobre amanuense.

Tudo isso estava aliado à viva consciência da própria situação social, o que motivou seu

socialismo tão emotivo e penetrante. É exatamente esse estímulo que o levou a uma

representação literária crítica, o que também se refletiu no seu estilo e na sua linguagem.

Autor de uma vasta obra, só divulgada e reconhecida postumamente, é possível

notar que esse literato lutou, muitas vezes sozinho, pelo reconhecimento do povo brasileiro

e de sua cidadania, em detrimento de sua origem social, racial ou quaisquer outros

preconceitos que, na transição do regime monárquico para o republicano, ou na transição

do século XIX para o XX, pudessem vigorar.

Como pregava em favor da igualdade social e acreditava que isso teria início no uso

da língua , a obra de Lima Barreto é permeada por críticas ao modelo purista da linguagem,

às transformações socialmente excludentes ocorridas no Rio de Janeiro e aos valores

bellepoqueanos, cópia de tudo que se vivia na Europa, em especial na França. Crítico e

13

defensor de um emprego lingüístico diferente daquele aprovado pela elite aristocrática,

Lima Barreto viu-se desprezado, tanto pessoal como artisticamente.

Neste trabalho, entretanto, não é a vida do indivíduo Lima Barreto que mais

importa. Ao contrário, interessa-nos analisar a manifestação lingüístico-discursiva de

questões sobre língua, identidade e cidadania.

O trabalho será iluminado pela História das Idéias Lingüísticas, teoria difundida no

Brasil por Orlandi, Guimarães, Fávero, entre outros. De acordo com a referida teoria, não

se pode observar um objeto (neste caso, uma obra literária), sem levar em consideração o

contexto e o autor, uma vez que as idéias não se fazem sem sujeitos que vivenciam

determinadas situações, em algum lugar e em determinada época. Ou, nas palavras de

Orlandi (1996: 17): “o estudo da linguagem não pode estar apartado da sociedade que a

produz, pois os processos que entram em jogo na constituição da linguagem são processos

histórico-sociais”.

Isso justifica o fato de, durante todo o tempo em que examinamos a obra barretiana

e o que ela fala sobre língua, realizarmos também uma análise do Rio de Janeiro e suas

transformações como Capital da República e, aliada a isso, uma descrição do literato e de

suas condições de vida, bem como dos preconceitos que enfrentou. De outro modo, pode-

se dizer que se pretende mostrar como Lima Barreto dizia a língua. Em Mendonça

(2006:14), observamos que

dizer a língua não significa simplesmente falar sobre a língua, como

qualquer falante faz, mas lançar seu discurso sobre a língua em meio aos

outros com poder de dizer. Ou seja, dizer a língua pressupõe

reconhecimento social para fazê-lo, significa entrar na luta em que o

discurso é publicizado e ganha poder.

Lima Barreto, entretanto, tinha o status social de ‘um qualquer falante’ ou, melhor

dizendo, de ‘um falante qualquer’, pois possuía todos os atributos que a elite dominante

desvalorizava. Seu discurso sobre a língua, portanto, não seria ouvido. Mesmo assim,

14

busca um espaço (seu espaço) na imprensa e no meio literário e, principalmente por meio

de suas crônicas, consegue que seu discurso seja publicizado.

Diante disso, pode-se afirmar que analisar sua obra permite-nos descrever como se

configura a língua portuguesa naquela época, revelando a luta de Lima Barreto por uma

sociedade igualitária. Para tal, observamos sua abordagem ao purismo lingüístico, à

educação elitista, ao mandarinato literário, ao poderio do doutor. Tudo isso criticando o

modelo lingüístico que privilegia a elite dominante. Este trabalho, então, é uma pesquisa

histórico-lingüística que procura mostrar, por meio do estudo da língua, os sentimentos, as

sensibilidades e as paixões dos sujeitos, tendo como centro das preocupações as relações

de poder que se podem fazer por meio de jogos políticos e lingüísticos.

Em relação ao jogo político, é importante observar sua presença nas relações

travadas pelo Estado e nos diferentes âmbitos da vivência social, uma vez que não constitui

um setor separado mas, para Silveira (2006:117), “uma modalidade da prática social que se

concretiza no cotidiano e é reelaborada de acordo com as expectativas e experiências

pessoais”.

Se nossa pretensão é trabalhar com a constituição do ideário de língua, identidade e

cidadania no período de transição Império/República, devemos refletir sobre o que nos

leva a lançar mão da literatura e, especificamente, de Lima Barreto. Em relação ao texto

literário como objeto de análise, sua utilização justifica-se pelo fato de uma produção

literária estar sempre associada a um tempo e a um sujeito inserido numa sociedade e,

portanto, refletir as angústias e sonhos de agentes sociais a ele contemporâneos. Para isso,

mescla elementos da ficção e das possíveis realidades existentes no momento da criação.

A obra literária como parte do mundo e das criações humanas transforma-se em

relato de um determinado contato sócio-histórico. Portanto, como afirma Silveira

15

(2006:119), “qualquer obra literária é evidência histórica objetivamente determinada, isto

é, situada no processo histórico”.

A outra parte da reflexão diz respeito à escolha de Lima Barreto. Ao pretender

trabalhar com o discurso literário no período aqui apresentado, encetamos uma busca do

autor (ou dos autores) que nos serviriam especificamente como objeto, uma vez que não

seria viável uma análise que se detivesse em todos os literatos do referido período.

Deparamo-nos, então, com dois representantes que nos interessavam: João do Rio e Lima

Barreto.

Aparentemente, os dois poderiam ter sido marginalizados, os dois tinham vivido no

e falavam do Rio de Janeiro (nossa intenção, de antemão, já era trabalhar com o discurso

do marginalizado na sociedade carioca, uma vez que não era o ideal da elite que

pretendíamos analisar, nem era a esta classe que pretendíamos dar voz). Diante disso,

iniciamos nossas leituras a respeito dos dois literatos. Em pouco tempo, a intimidade com

Lima Barreto estabeleceu-se e decidimos que seria este e apenas este o literato analisado.

Toda a obra e história barretianas aproximavam-nos mais dele, pois consideramos

de extrema importância trabalhar com um nome que, à sua época, ocupava um não-lugar

na sociedade brasileira aristocrática, devido a preconceitos que, ainda hoje, têm corpo e

espaço na sociedade brasileira.

Para atingir tal intento, pretendemos alcançar os seguintes objetivos específicos:

1- examinar o significado de literatura militante e o papel social da mesma, uma vez que

ser social e militante são as principais características da obra limana;

2- examinar os conceitos de purismo lingüístico e a crítica de Lima Barreto contra tal

fenômeno, em especial no romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha;

3- analisar a manifestação crítica em relação à língua, educação e preconceitos nas crônicas

jornalísticas e/ou ficcionais do referido literato.

16

Em busca do alcance desses objetivos, no capítulo 1 deste trabalho, aborda-se o que

é realizar um estudo amparado pela História das Idéias Lingüísticas, demonstrando que,

para se discutir uma idéia lingüística, é necessário considerar os instrumentos tecnológicos

a ela ligados e a história do povo que fala a língua sob análise.

No capítulo 2, procura-se mostrar a época a que se reporta a pesquisa e a cidade

onde os fatos narrados se desenvolveram. Nossa intenção é construir o contexto em que se

inseria o literato Lima Barreto, pois melhor entenderemos sua crítica se soubermos sua

origem. Ainda nessa parte, abordam-se o significado de literatura militante e o papel da

literatura no Brasil, uma vez que o “escritor maldito”, um militante, defendia uma literatura

que tratasse questões relativas aos problemas da nação.

No capítulo 3, examinam-se alguns conceitos de purismo e se observa a crítica

limana em relação a esse fenômeno. Para isso, analisa-se o romance Recordações do

Escrivão Isaías Caminha, que inaugura a carreira literária de Lima Barreto, em 1909. É

principalmente em Isaías Caminha que procuramos evidenciar a denúncia antipurista que

perpassa praticamente toda a obra barretiana.

No capítulo 4, trata-se da imprensa na belle époque e o gênero literário nela mais

recorrente – a crônica. Procura-se evidenciar como funcionava o sistema jornalístico e o

papel exercido por essa instituição como agente disseminador de idéias bem como do

modelo de língua que deveria ser empregado e valorizado. Em relação à crônica,

estabelece-se uma discussão sobre a configuração desse gênero, mostrando que nele há um

misto de jornalismo e literatura, que possibilita o emprego de características das

modalidades escrita e oral da língua. Importa-nos trabalhar com o referido gênero porque a

obra de Lima Barreto, de acordo com Bosi (1994), tem muito de crônica, mesmo nos textos

que se pretendem crítica, sátira ou romance.

17

Em seguida, são analisadas as crônicas jornalísticas do autor, descrevendo de que

maneira, nelas, ele critica a língua elitizante e discriminadora, a educação e os preconceitos

advindos da extraordinária importância atribuída a quem possuísse o título de doutor. Por

último, faz-se um levantamento lexicográfico nas crônicas barretianas. Nossa intenção é

demonstrar que a seleção lexical realizada pelo literato reforça sua idéia de despojamento

da língua nacional (brasileira), que mais se aproxima do povo.

No capítulo 5, realiza-se o exame da obra satírica Os Bruzundangas, que, como

mostra Vasconcellos (2001), são crônicas ficcionais (mas também críticas). Nela, há um

narrador brasileiro, que morou por algum tempo na Bruzundanga, um país muito distante

do Brasil e completamente diferente daqui. No prefácio, Lima Barreto explica que a

importância de se ler sobre a Bruzundanga é de nos livrar dos males lá existentes, de forma

que eles não assolem o Brasil. Obviamente, trata-se de uma visão debochada do Brasil do

início do século XX, como o próprio nome Bruzundanga já diz, um país de palavrório que

não leva a nada.

Com Os Bruzundangas, publicado em 1919, o literato suburbano critica a língua

preciosista, a literatura empolada e fútil, as instituições de ensino que só servem para dar

títulos à aristocracia, o ensino público, destinado a formar as pessoas da elite, a reforma

urbana que desabriga as pessoas em nome de um retrato afrancesado do país, a República

que deseja mostrar um Rio de Janeiro sem negros e sem pobres.

18

1- HISTÓRIA DAS IDÉIAS LINGÜÍSTICAS

(...) a linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos

que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de

pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação e um modo de

produção social; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar

privilegiado de manifestações da ideologia. (Brandão, Helena. N.

Introdução à Análise do Discurso)

1.1-

O QUE É HISTÓRIA DAS IDÉIAS LINGÜÍSTICAS?

De acordo com Guimarães e Orlandi (1996:9), “tratar as idéias lingüísticas é tratar a

questão da língua, dos instrumentos tecnológicos a ela ligados e sua relação com a história

do povo que a fala”. Assim, pode-se afirmar que não é possível tratar de idéias sem tratar

de história e, de certa forma, sem tratar da língua, pois é ela que (representa) significa essa

história.

A esse respeito, Cyrino e Joanilho (2006:58) afirmam que a língua é e tem história,

por isso “encontramos na base da constituição do saber lingüístico um caráter empírico e

técnico, desenvolvido de um ponto de vista histórico”. Desse modo, quando se pretende

estudar a história das idéias lingüísticas no Brasil, deve-se trabalhar com a contribuição de

um saber metalingüístico, pois é esse saber que constituirá a história ou a gramatização da

língua do povo brasileiro.

Por gramatização, de acordo com Auroux (1992:65), “deve-se entender o processo

que conduz a descrever e a instrumentar uma língua”. Em princípio, essa descrição utiliza

como instrumentos tecnológicos o dicionário e a gramática. Entretanto, observa-se que

outras tecnologias também podem ser destinadas a esse fim, como as instituições onde os

saberes foram adquiridos, discutidos e consolidados, conforme afirmam Fávero e Molina

(2006:25), quando dizem:

19

História das Idéias Lingüísticas contempla o estudo das Instituições onde,

por exemplo, no século XIX, tais saberes eram discutidos, alargados,

disseminados, os veículos por onde circulavam e as polêmicas que

suscitavam, pois o historiador deve projetar os fatos num hiper-espaço

que comporta essencialmente três tipos de dimensão: uma cronologia,

uma geografia e um conjunto de temas.

O valor das instituições como instrumentos que veiculam idéias lingüísticas está

alicerçado no fato de que não há produção de idéias (lingüísticas) sem história e sem

sociedade e, por isso, como afirmam Nunes e Petter (2002), o saber lingüístico não pode

ser considerado de maneira separada das formações sociais e das instituições com as quais

se relaciona.

Para Guimarães e Orlandi (1996:9):

a produção de tecnologias é parte do modo como qualquer sociedade se

constitui historicamente. E a produção tecnológica relacionada como

linguagem é, não há dúvida, lugar privilegiado de observação do modo

como uma sociedade produz seu conhecimento relativamente à sua

realidade.

A necessidade de conhecimento de sua realidade lingüística ascende no Brasil,

nos séculos XIX e XX. Nesse período surge o questionamento a respeito de uma língua

que fosse brasileira. Nesse momento era reivindicada

uma língua e sua escrita, uma literatura e sua escritura, instituições

capazes de assegurar a legitimidade e a unidade desses objetos

simbólicos, sócio-históricos que constituem a materialidade de uma

prática que significa a cidadania. (Orlandi, 2001:8)

Em outras palavras, é exatamente nessa época que floresce a necessidade de uma

identidade nacional, algo que diferenciasse a terra colonizada de seu colonizador. Essa

necessidade, conforme afirmam Fávero e Molina (2004), propiciou questionamentos sobre

a Língua Portuguesa, que fornecem subsídios para a compreensão de nosso saber

lingüístico.

Como a imprensa escrita e as obras literárias devem ser consideradas

objetos/espaços que colaboram para o estudo da constituição da identidade de um povo,

20

uma vez que veiculam ideologias e representam o uso lingüístico vigente à época estudada,

a observação de textos literários do Brasil pode nos levar ao exame de como se constituiu

parte desse país.

São tarefas como essa que nos levam a conhecer a língua e o saber que se constrói

sobre ela ao mesmo tempo em que pensamos a formação da sociedade e dos sujeitos que

nela existem. Nesse sentido, História das Idéias Lingüísticas significa um olhar diferente

sobre a história ou ainda, como afirmam Fávero e Molina (2006:24),

todo saber construído em torno de uma língua, num dado momento,

como produto quer de uma reflexão metalingüística, quer de uma

atividade metalingüística não explícita (...). A História das Idéias

Lingüísticas permite, então, estudarem-se não somente as antigas

gramáticas [de determinada língua] (...), como as primeiras escritas por

brasileiros (...) e também qualquer outro saber fundado na ciência

lingüística.

Fazer História das Idéias Lingüísticas, em relação ao Brasil, por exemplo, é mostrar

que um estudo sobre a história da língua portuguesa no Brasil e de seu conhecimento pode

nos levar ao estudo da formação da sociedade brasileira. Isso se deve ao fato de que é no

processo de construção da história da língua que surgem as idéias, a história do povo e da

nação.

Sobre isso, Orlandi (2002:15-16) diz:

pensando o trabalho do historiador, creio que a diferença de um trabalho

como o que proponho está em uma inversão: ao invés de fazer a história

da sociedade brasileira aí incluindo a língua, procuro mostrar como o

estudo sobre a história da língua e de seu conhecimento pode nos ‘falar’

da sociedade e da história política da época, assim como do que resulta

como idéias que se constituem e que nos acompanham ao longo dessa

história.

Parafraseando Auroux (1992:11), realiza-se um trabalho que, mesmo falando do

passado, possa justificar uma prática do presente, uma vez que “todo conhecimento é uma

realidade histórica” e que “o ato de saber possui, por definição, uma espessura temporal,

um horizonte de retrospecção, assim como um horizonte de projeção”. Para compreender a

21

constituição lingüística de um país, portanto, é necessário trabalhar essa espessura do

saber lingüístico, organizando e reconstruindo o passado, uma vez que sem memória não

há saber.

O texto literário deve ser considerado um espaço/objeto que permite trabalhar esse

viés, já que constitui um espaço de reflexão, compreensão e interpretação dos sentidos

sobre a língua e possibilita o exame desse espaço no passado de um povo.

Segundo Corrêa (2006), a literatura brasileira configura um discurso a respeito de

outros discursos, a partir do qual se pode observar a identidade lingüística do brasileiro, ou

seja, a observação dos usos lexicais de determinada época mostra-nos as unidades

memorizadas e cristalizadas que fazem parte da memória social do povo.

Sendo assim, diversamente do pensamento saussureano, que prega ser a língua um

sistema homogêneo, abstrato e autônomo, ao se observar sua configuração no Brasil, nos

séculos XIX e XX, deve-se pensar a língua como uma forma material básica para o

funcionamento do discurso que, no momento em que rompe com os modelos vigentes, vai

demonstrando a formação da identidade nacional. Isso pode ser melhor observado no

discurso literário.

Entretanto, óbvio é que, ao defender a mudança no uso lingüístico, ou melhor, um

uso lingüístico que realmente represente o brasileiro, os literatos ainda conservam relações

com o passado, uma vez que, conforme mostra Corrêa (2006:8),

o indivíduo é um ser que transforma e que, ao mesmo tempo, cultiva ou

conserva, no fluxo dessa transformação; as formas de agir e interagir

na/pela linguagem são sustentadas por mudanças que implicam

permanências, [por isso] as transformações, no campo da linguagem,

arrastam consigo as matrizes do passado.

Sendo assim, uma análise da linguagem expressa em Lima Barreto na passagem do

século XIX para o XX, pode explicar o passado lingüístico e, de certa forma, relacioná-lo

ao presente. Ou seja, a memória constante na literatura desse período colabora para a

22

construção do saber atual sobre a língua. Portanto, analisar como esse escritor significa as

discussões em relação ao uso da língua, é considerar a história das idéias e das

mentalidades do próprio Brasil.

1.2 –IDÉIAS LINGÜÍSTICAS NO SÉCULO XIX E A IDENTIDADE BRASILEIRA

De acordo com Bisinoto (2006:82), “a associação da identidade lingüística à

noção de nacionalidade não foi historicamente pacífica”, já que a relação entre língua e

nação/nacionalidade é mais complexa do que simplesmente ser falante nativo. Na verdade,

essa consideração envolve questões políticas, econômicas, administrativas e até

tecnológicas.

No Brasil, apesar da construção da identidade nacional sofrer influências da

ideologia européia, a constituição da língua impunha diferenças. Como aqui não havia

tradição cultural, um dos problemas na formação da identidade era a necessidade de

eliminar a idéia de que a língua do Brasil não passava de um dialeto da língua de Portugal,

uma vez que a nacionalidade passava pela construção de uma língua nacional1. Sendo

assim, pode-se afirmar que a constituição de uma língua brasileira estava diretamente

relacionada à formação do Estado brasileiro.

Nessa tentativa de reconhecimento, o século XIX, no Brasil, foi marcado por uma

intensa produção intelectual que visava a demonstrar que a língua, falada e escrita aqui,

1(...) língua da nação, que pretensamente une a todos sob uma mesma cultura. MARIUZZO, Patrícia. Uma

língua, múltiplos falares. In Patrimônio Revista Eletrônica do IPHAN. Disponível em www.revista.

iphan.gov.br.

Língua nacional: é a língua de um povo, enquanto língua que o caracteriza, que dá a seus falantes uma

relação de pertencimento a este povo. GUIMARÃES, Eduardo. O multilingüismo e o funcionamento das

línguas. In Patrimônio Revista Eletrônica do IPHAN. Disponível em www.revista.iphan.gov.br.

23

era diferente daquela de Portugal, apesar de ainda não ser considerada a língua nacional, ou

seja, de uso oficial e da administração pública – a institucionalizada.

Para Mariani (2004:10), a não institucionalização da língua do Brasil é

conseqüência da constituição do sujeito (brasileiro) em relação com a própria língua. Esse

sujeito esbarra no eurocentrismo do colonizador que se impõe “pela força e pela escrita, ou

melhor, impõe-se com a força institucionalizadora de uma língua escrita gramatizada que

já traz consigo a memória do colonizador sobre sua própria história e sobre sua própria

língua”. Ocorre, assim, uma tentativa de aprisionamento do português brasileiro nas

grades modelizantes da língua imaginária, vinculada a uma memória de língua de

conquistas e de correção gramatical.

Se seguirmos os estudos de Faraco (2002:23), veremos que o problema ainda é

mais extenso. Segundo o autor, a constituição da língua portuguesa do Brasil deu-se sobre

uma enorme distância entre a modalidade culta e a cultuada, ou “entre o que os letrados

usam em sua fala formal e o que se codificou como correto na escrita”. Por isso, mesmo no

século XIX, quando o Brasil se torna independente, a língua caminha em direção a um

padrão lusitano em vez de ir em direção à construção de uma identidade nacional que

privilegie as características diferenciadoras da nação.

De acordo com Pagotto (1998), essa aproximação com Portugal faz parte do

projeto político da elite brasileira da época, que pretendia construir uma nação branca e

europeizada. Na verdade, pregava-se que, apesar de independente, o Brasil não deveria

deixar de ser europeu, por isso a necessidade de cultuar e manter o que representava a

superioridade cultural e o índice de civilização, em resumo, a língua do colonizador. Para

os puristas, representantes da elite conservadora, deveria ser preservada a pureza da língua

dada pelos portugueses.

24

Note-se, então, que a grande discussão girava em torno da norma culta. Para

Pagotto (1998:50 e 51), uma norma “impressa de sentidos que se ligam tanto à

ancestralidade de uma cultura superior quanto à inscrição social do sujeito no domínio

simbólico das diferenças”. Dessa forma, a constituição de uma norma culta no/do Brasil

seria fruto de um trabalho discursivo executado por gramáticos, jornalistas e escritores

que construiriam os significados que hoje atribuímos às formas escritas. Em outras

palavras, tratava-se de um processo histórico de modelação de uma sociedade em que a

elite implantaria e procuraria manter sua estrutura de dominação.

Na constituição desse novo modelo, embora tenha havido a substituição de muitas

formas estranhas ao modo de falar brasileiro, as normas também não representavam a

oralidade aqui encontrada. Por isso, Biderman (2002), diz que, em princípio, o literato José

de Alencar pleiteava o direito dos literatos brasileiros escreverem conforme a norma

brasileira, adotando o uso comum desta nação, como se observa no Poscrito de Diva

( Perfil de Mulher), de 1865:

(...) sendo a língua instrumento do espírito, não pode ficar estacionária

quando este se desenvolve. (...)

A língua é a nacionalidade do pensamento como a pátria é a

nacionalidade do povo. Da mesma forma que instituições justas e

racionais revelam um povo grande e livre, uma língua pura, nobre e rica,

anuncia a raça inteligente e ilustrada.

Não é obrigando-a a estacionar que hão de manter e polir as qualidades

que porventura ornem uma língua qualquer: mas sim fazendo que

acompanhe o progresso das idéias e se molde às novas tendências do

espírito, sem contudo perverter a sua índole e abastardar-se. (...)

Quanto à frase ou estilo, também se não pode imobilizar quando o

espírito, de que é ela a expressão, varia com os séculos de aspirações e de

hábitos. Sem o arremedo vil da locução alheia e a imitação torpe dos

idiotismos estrangeiros, devem as línguas aceitar algumas novas

maneiras de dizer, graciosas e elegantes, que não repugnem ao seu gênio

e organismo.2

Isso nos leva à suposição de que uma tentativa de aproximação do texto literário do

Brasil com a língua do povo brasileiro ocorreu no século XIX , quando o referido escritor

2ALENCAR, José de. POSCRITO (1865). Diva (Perfil de mulher),. 4a.ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1891. pp.

193-215. In PIMENTEL PINTO, Edith. O Português do Brasil – Textos Críticos e Teóricos. São Paulo:

EDUSP, 1978. p. 55-67.

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tentou dar uma feição própria à gramática no seu texto, com elementos dos falares

brasileiros, buscando, inclusive, a inserção de uma estruturação textual típica da oralidade,

a qual, segundo Lajolo (1996), está relacionada com a formação do leitor que precisava

ser conquistado.

Por outro lado, entretanto, Nunes e Petter (2002) afirmam que o referido literato

pretendia muito mais alcançar a liberdade do artista do que uma real independência da

variante brasileira. É necessário ressaltar que essa posição, a mais adotada entre os críticos

literários em relação a José de Alencar, encontra-se embasada na continuidade do mesmo

texto do literato:

A linguagem literária, escolhida, limada e grave, não é por certo a

linguagem se diça e comum que se fala diariamente e basta para a rápida

permuta das idéias: a primeira é uma arte, a segunda é simples mister.

Mas essa diferença se dá unicamente na forma e expressão; na substância

a linguagem há de ser a mesma, para que o escritor possa exprimir as

idéias de seu tempo, e o público possa compreender o livro que se lhe

oferece. (...)

O erro grave da escola clássica está em exagerar a influência dos

escritores sobre o público. Entende ela que os bons livros são capazes de

conter o espírito público e sujeitá-lo pelo exemplo às sãs lições dos

clássicos. É um engano: os bons livros corrigem os defeitos da língua,

realçam suas belezas e dão curso a muitos vocábulos e frases ou

esquecidos, ou ainda não usados. (...)

Não há contestar: é o direito da inspiração e do gosto, exerça-se ele sobre

a idéia ou sobre a palavra. Ao público cabe a sanção: ele desprezará o

autor que abuse da língua e a trucide, como despreza aquele que é

arrastado às monstruosidades e aleijões do pensamento. Da mesma forma

aplaudirá as ousadias felizes da linguagem, como aplaude as harmonias e

aos arrojos do pincel inspirado. (...)

Concluindo, chamo sua atenção para a nota junta, em que eu justifico

algumas inovações de que me tornei réu, nos dois volumes referidos. Não

quero que me sejam elas reveladas a pretexto de erros ortográficos:

cometi-as muito intencionalmente.3

Apesar das inovações, ainda tínhamos uma norma culta distante do português

brasileiro e, extremamente próxima do português europeu. Isso ocorria porque, para uma

grande mudança, era necessário romper politicamente com a Europa e constituir uma elite

à imagem e semelhança da nação brasileira. Entretanto não era esse o desejo. O próprio

3 ( ibidem)

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Alencar valia-se de dicionários que retratavam o português europeu e das gramáticas

tradicionais a fim de defender-se de incorreções em sua obra:

Quem quer que percorra ligeiramente o dicionário português mais

castiço, o de Morais, achará nele cópia de palavras de origem francesa,

que se aclimataram bem em nossa língua e passaram à categoria de

clássicas, somente pela razão de as reconhecerem necessárias e bonitas os

autores quinhentistas. Pois nós os modernos escritores, como eles artistas

da palavra e do discurso, não teremos o mesmo direito?4

Pagotto (1998:55), entretanto, argumenta que, “num país em que se estrutura o

Estado, uma dada nação começa a ser construída a partir da busca de identidades. Nessa

busca, a literatura desempenha um papel fundamental, pois é o que pode materializar uma

identidade cultural que as elites almejam”. Sendo assim, a afirmação de uma literatura

brasileira independente, no século XIX, seria fundamental para a constituição do Brasil

como nação, pois seria a afirmação da autonomia e uma conseqüente identidade cultural

própria.

Contrariamente, conforme expõe Pagotto (2001), admitir a existência de uma

língua literária brasileira significava admitir, como língua, o que era a fala de ignorantes,

uma vez que aqui não havia tradição cultural, mas um baixo índice de pessoas

alfabetizadas e cultas.

Diante dessas questões, o século termina ainda com uma grande corrente purista5,

que considerava afirmar o português do Brasil o mesmo que nivelar por baixo. Desse

modo, perdurou a norma culta portuguesa, ensinada apenas a quem tinha rigorosa

educação, garantindo o processo de exclusão, que não se deu somente a partir de uma

relação subjetiva e natural das formas lingüísticas com determinados grupos dominantes,

nem só pela promoção de determinadas formas pelo aparelho ideológico do estado. No

dizer de Pagotto (1998:67), “a exclusão contou com um laborioso trabalho discursivo em

que uma identidade com o português de Portugal foi cuidadosamente construída”.

4 ( id.ibidem)

5 O conceito de purismo será estudado no capítulo 3.