Línguas e linguagens nos candomblés de nação Angola por Elizabete Umbelino de Barros - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS

HUMANAS

LÍNGUAS E LINGUAGENS NOS CANDOMBLÉS DE NAÇÃO

ANGOLA

Tese apresentada ao Programa de

Pós Graduação em Lingüística e

Semiótica da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São

Paulo para obtenção do título de

doutora em Letras.

Orientadora:

Profª Drª Margarida Maria Taddoni Petter

Elizabete Umbelino de Barros

São Paulo/2007

index-2_1.jpg

Homenagem póstuma

A mameto Loabá, mulher de força e sabedoria, que tive o prazer de

conhecer e sentir todo o seu encanto...

Ouça no vento

o soluço do arbusto:

é o sopro dos antepassados ...

Nossos mortos não partiram.

Estão na densa sombra.

Os mortos não estão sob a terra.

Estão na árvore que se agita,

na madeira que geme,

estão na água que flui,

na água que dorme,

estão na cabana, na multidão;

os mortos não morreram ...

Nossos mortos não partiram:

estão no ventre da mulher

no vagido do bebê

e no tronco que queima.

Os mortos não estão sob a terra:

estão no fogo que se apaga,

nas plantas que choram,

na rocha que geme,

estão na floresta,

estão na casa,

nossos mortos não morreram.

(Birago Diop)

ii

Agradecimentos

Agradeço, primeiramente, às forças divinas, à minha força interior e

ao meu Orixá Oxum.

Ora iê iê Oxum ibuana mefé mil ogun afiderioman. Ora iê iê ô!

Agradecimento especial ao povo-de-santo das duas comunidades de

Candomblé Angola: Inzó Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi

Quiamaze, na pessoa do tateto Roxitalamim e Centro Religioso e

Cultural das Tradições Bantu Ilê Azongá Oni Xangô, na pessoa da

mameto Indandalacata e ao povo-de-santo das outras comunidades que

me receberam com cordialidade e atenção.

Agradeço à CAPES pela bolsa concedida em 2005 para o meu estágio

no CNRS/LLACAN/Paris, no âmbito do projeto CAPES/COFECUB, n°

511/05: “A participação das línguas africanas na constituição do

português brasileiro”.

Há muitas pessoas que me ajudaram em todo esse caminho no Brasil e

na França.

Do lado brasileiro, agradeço:

à minha família que sempre me apoiou;

à minha querida orientadora e amiga Profª Drª.Margarida M T

PETTER pelo incentivo e apoio em todos os momentos;

a todos os meu colegas do GELA (Grupo de Estudos de Línguas

Africanas);

a todos os meus colegas da EMEF Danylo José Fernandes,

especialmente, à diretora da escola Professora Angela Cristina SCHIESS.

A Mara Bertalha, amiga do coração, tirou as fotos nas duas

comunidades e realizou a arte final no capítulo 5.

iii

Agradecimento especial à Profª Drª Tânia Maria ALKMIN pela

amizade e inestimável ajuda em Paris.

E agradeço a todos os amigos que sempre me incentivaram.

Do lado francês, agradeço:

ao Profº Dr. Emilio BONVINI, meu co-orientador, pelo apoio em

todos os mo mentos, amizade e incentivo ao trabalho.

a todos os colegas do LLACAN.

Agradecimento especial a Paulette ROULON-DOKO e a Nicolas

QUINT pela amizade e incentivo ao trabalho.

E agradeço a todos os amigos que fiz durante o tempo em que morei

em Paris, sobretudo, a Tuan-Phong KIM, amigo do coração.

iv

RESUMO

Este trabalho apresenta as línguas e as linguagens utilizadas nos

Candomblés de Nação Angola, por meio do estudo de textos orais

registrados em duas comunidades particulares e específicas: o Inzó

Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi Quiamaze ( Inzó Dandaluna) e o

Centro Religioso e Cultural das Tradições Bantu Ilê Azongá Oni Xangô

( Terreiro Loabá).

O estudo visa a estabelecer ligações entre a linguagem e a vivência

das práticas rituais. Nesse sentido, os textos coletados são situados no

contexto de sua enunciação e analisados em sua expressão e conteúdo.

Nesses textos foi possível identificar apenas um léxico de origem negro-

africana.

Palavras-chave: Candomblé Angola; cultos afro-brasileiros; línguas

negro-africanas; léxico; línguas do grupo banto.

v

ABSTRACT

This work presents languages used in the Candomblés of “Angola

nation” by a study of oral texts recorded in two particular and specified

communities: Inzó Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi Quiamaze and

Centro Religioso e Cultural das Tradições Bantu Ilê Azongá Oni Xangô.

This study aims to establish a link between the language and the

factual experience in the practice of these rituals. The collected texts are

situated in the context of their statement and are analysed in their

expression and their content.

Finally, it was possible to identify only a vocabulary of Negro-

African origin.

Keywords: Angola Candomblé; Afro-Brazilian worships; Negro-

African languages; lexicon; bantu languages.

vi

RÉSUMÉ

Ce travail présente les langues et les langages utilisés dans les

Candomblés de la “nation” Angola au moyen d’une étude de textes oraux

enregistrés dans deux communautés particulières et spécifiques: l’ Inzó

Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi Quiamaze et.le Centro Religioso

e Cultural das Tradições Bantu Ilê Azongá Oni Xangô.

Cette étude a pour but d’établir un rapport entre le langage et le

vécu dans la pratique de ces rituels. Dans ce sens, les textes recueillis se

situent dans le contexte de leur énonciation et sont analysés dans leur

expression et dans leur contenu.

Ainsi, dans ces textes, il n’a été possible d’identifier qu’un

lexique d’origine négro-africaine.

Mots-clés: Candomblé Angola; cultes afro-brésiliens; langues négro-

africaines; lexique; langues bantoues.

vii

ÍNDICE

INTRODUÇÃO .....................................................................................................................1

1. OS CANDOMBLÉS NOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS.............................................8

1.1 Da África para o Brasil: processos de aculturação .........................................................8

1.2 O culto às divindades no Brasil ...................................................................................10

1.3 Os candomblés no Brasil.............................................................................................11

1.3.1 Nações de candomblé...........................................................................................13

1.3.2 Características gerais das nações de candomblé....................................................17

a) O aprendizado.......................................................................................................19

b) Os rituais públicos ................................................................................................19

c) Iniciação ...............................................................................................................20

d) Obrigação .............................................................................................................21

e) O sagrado e o profano: tênue fio divisório .............................................................22

1.4 Candomblés Angola e Queto: uma história de co-relação ............................................23

1.4.1 Origens ................................................................................................................24

1.4.2 Candomblé de Nação Angola ...............................................................................28

a) Complexo banto....................................................................................................28

b) Nkongolo: O mito do herói civilizador..................................................................31

c) Angorô: a divindade do arco-íris no Brasil ............................................................33

d) Divindades cultuadas no Brasil .............................................................................34

e) O culto ao caboclo ................................................................................................34

1.4.3 Candomblé de Nação Queto .................................................................................36

a) Complexo ioruba...................................................................................................36

b) Divindades iorubas cultuadas no Brasil.................................................................38

1.5 Nações de candomblé: formas de resistência contra a intolerância...............................39

1.5.1 Perseguições e intolerâncias .................................................................................39

1.5.2 Resistência ...........................................................................................................40

a) Comunidades no Maranhão...................................................................................41

b) Comunidades na Bahia .........................................................................................42

c) Comunidades em São Paulo ..................................................................................43

1.5.3 O espaço do terreiro, a religiosidade e o compromisso político-social...................44

1.5.4 Nomes iniciáticos: marca de identidade e de resistência .......................................46

Considerações finais .........................................................................................................48

2. DUAS COMUNIDADES DE CANDOMBLÉ DE NAÇÃO ANGOLA EM SÃO PAULO

.............................................................................................................................................49

2.1 Inzó Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi Quiamaze ...............................................49

2.1.1 Histórico da casa ..................................................................................................49

a) O espaço físico......................................................................................................50

b) A organização.......................................................................................................52

c) A família-de-santo ................................................................................................52

d) As divindades .......................................................................................................55

2.1.2 Os rituais : estrutura e funcionamento..................................................................56

a) A festa de Ogum ...................................................................................................58

Plano do humano...................................................................................................58

Plano do sagrado ...................................................................................................63

b) A iniciação............................................................................................................83

c) Gongá: rito de renovação ......................................................................................90

d) Congoluandê: rito simbólico da colheita ...............................................................97

2.2 Centro Religioso e Cultural das Tradições Banto Ilê Azongá Oni Xangô...................100

2.2.1 Histórico da casa ................................................................................................100

a) Espaço físico.......................................................................................................101

b) A organização.....................................................................................................102

c) A família-de-santo ..............................................................................................104

d) As divindades .....................................................................................................106

2.2.2 Os rituais: estrutura e funcionamento .................................................................107

a) A festa de Angorô ...............................................................................................108

Plano do humano – 1° momento..........................................................................108

Plano do sagrado – 2° momento ..........................................................................109

Plano do humano – 3° momento..........................................................................111

Plano do Sagrado – 4° momento..........................................................................111

Retorno ao plano do humano – 5° momento ........................................................121

b) A iniciação..........................................................................................................122

c) Renovação: o rito simbólico da colheita ..............................................................130

2.3 Comparação entre as duas comunidades....................................................................131

3. A TEXTUALIDADE NOS CANDOMBLÉS DE NAÇÃO ANGOLA............................133

3.1 Inzó Dandaluna.........................................................................................................134

3.1.1 Discursos ...........................................................................................................134

a) Discursos no ritual ..............................................................................................135

Discursos de abertura ..........................................................................................135

Discursos de encerramento..................................................................................138

b) Discursos fora do ritual.......................................................................................141

3.1.2 Preces ................................................................................................................147

3.1.3 Diálogos.............................................................................................................150

3.1.4 Saudações às divindades ....................................................................................152

3.1.5 Cantigas .............................................................................................................154

a) Cantigas referentes à defumação .....................................................................155

b) Cantigas de louvação à pemba.........................................................................157

c) Cantigas de louvação à Bandeira da Nação Angola .........................................158

d) Cantigas para a divindade Aluvaiá/Exu ...........................................................159

e) Cantigas para a divindade Incosse/Ogum.........................................................162

3.1.6 Lenda .................................................................................................................164

3.1.7 Expressões utilizadas no cotidiano .....................................................................169

3.2 Terreiro Loabá ..........................................................................................................171

3.2.1 Discursos ...........................................................................................................171

a) Discurso 1: festa referente aos ritos de renovação............................................171

b)Discurso 2: Dia do Indumbe............................................................................173

3.2.2 Saudações às divindades ....................................................................................176

3.2.3 Cantigas .............................................................................................................179

a) Cantigas para a divindade Inzila ......................................................................179

b) Cantigas para a divindade Mutacalombo .........................................................181

c) Cantigas para a divindade Zaze .......................................................................183

d) Cantigas para a divindade Angorô...................................................................185

3.2.4 Expressões utilizadas no cotidiano .....................................................................186

3.3 Comparação entre os textos das duas comunidades ...................................................189

Considerações finais .......................................................................................................204

4. O LÉXICO NOS TEXTOS DOS CANDOMBLÉS DE NAÇÃO ANGOLA...................206

4.1 Inzó Dandaluna.........................................................................................................207

2

4.2 Terreiro Loabá ..........................................................................................................236

4.3 Comparação entre as duas comunidades....................................................................261

Considerações finais .......................................................................................................261

5. AS LINGUAGENS NOS CANDOMBLÉS DE NAÇÃO ANGOLA ..............................263

5.1 Gestualidade .............................................................................................................263

5.1.1 Entrada...............................................................................................................264

5.1.2 Atividades propiciatórias....................................................................................264

5.1.3 Bênçãos e cumprimentos....................................................................................265

5.2 Dança .......................................................................................................................266

5.2.1 A dança para as divindades ................................................................................267

5.2.2 A dança das divindades ......................................................................................268

5.3 Música ......................................................................................................................272

5.4 Cores ........................................................................................................................273

Considerações finais .......................................................................................................276

CONCLUSÃO ...................................................................................................................277

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................280

3

INTRODUÇÃO

Os cando mblés, no Brasil, são espaços privilegiados de manutenção dos

valores de povos africanos oriundos dos ant igos reino s localizados nas

regiões onde ho je se situam os países de Ango la, Congo, Moçambique, Benim

e Nigéria.

Dessas regiõ es foram trazidas pessoas de diferentes etnias, cujo modo de

ser e exist ir fo i capaz de criar so brevivências culturais, sociais e lingüíst icas

em co ndições abso lutamente adversas devido ao processo escravista.

Podem-se observar as manifestações culturais de inspiração africana em

todo o território brasile iro. Mas é nas co munidades re ligio sas de matriz

africana que se encontra o centro dos cult os prestados às d ivindades trazidas,

majoritariamente, pelo s povos ambundos, bacongos, fo ns e iorubas.

No Brasil, o culto às divindades fo i (re)interpretado de tal maneira que os

ritos foram reorganizados, adquirindo aspectos diferenciados e, embora,

mantenha a mito logia de origem dessas divindades, não é uma religião

africana, mas afro-brasile ira, em que as característ icas se reestruturaram,

dando vida a uma re ligio sidade brasile ira de matriz africana.

A invest igação sobre as diversas manifestações de culto às divindades

africanas possibilita não so mente co mpreendê-las enquanto manifestações

religiosas, mas é o ponto de partida para se estudar as co munidades de

cando mblé enquanto locais de res istência e sobrevivência das línguas negro-

africanas, po is elas const ituem um dos elementos estruturadores dessas

co munidades.

Este trabalho abordará aspectos lingüísticos, históricos e culturais do

universo afro-brasileiro, através do estudo de duas co munidades relig iosas de

Cando mblé de Nação Ango la: Inzó Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi

4

Quiamaze e Centro Religioso e Cultural das Tradições Bantu Ilê Azongá Oni

Xangô.

O objet ivo é analisar os textos orais dessas duas co munidades e ident ificar

termos de línguas negro-africanas que aparecem nesses textos, buscando

co mpreender esse universo afro-brasileiro através da palavra co munit ária,

aquela que veio, aquela que ficou e aquela que fo i reno vada pelo s mais

variados processos dentro das co munidades.

Corpu s e metodo logi a

Os dados obt idos para esse trabalho foram reco lhidos em duas

co munidades part iculares e específicas de Cando mblé de Nação Ango la: Inzó

Inquice Mameto Dandaluna Quissimbi Quiamaze e Centro Religioso e

Cultural das Tradições Bantu Ilê Azongá Oni Xangô, a primeira na cidade de

São Paulo e a segunda na cidade de Osasco.

Essas duas co munidades foram a base deste trabalho, no entanto, visit e i

outras co munidades em São Paulo, em Salvador/BA e em São Lu is/MA que

ofereceram dados importantes para comple mentação de alguns po ntos

relevantes.

Realizei filmagens e gravações em fita K-7 co m os diversos informantes;

presenciei rituais e conversei informalme nte co m adeptos, fiéis e estudiosos

do assunto; filmei várias cerimô nias.

As filmagens so mam 24 fitas, num total de 48 horas. Gravei em fita K-7 as

entrevistas e registro de cant igas, num total de 20 horas. Alé m dos filmes e

gravações em fita K-7, há também cerca de 60 fotos.

Há 120 laudas referentes às transcrições. A sistemat ização e organização

dos dados em planilhas EXCEL possui 151 textos de cant igas e, em relação ao

léxico, 416 termos extraídos dos textos co letados, dos quais fo i possíve l

analisar uma pequena parte.

O trabalho está divid ido em cinco capítulos. No primeiro cap ítulo, abordo

a formação dos cando mblés no Brasil e sua importância enquanto espaços de

resistência e co nservação dos valores dos povos africanos oriundos das

regiões da África Austral e Ocidental, buscando ident ificar as etnias e as

línguas transplantadas. No segundo capítulo, sob o ponto de vist a

antropológico, descrevo a estrutura organizacio nal e ritualíst ica de duas

co munidades part iculares e específicas do Cando mblé de Nação Ango la. No

5

terceiro, analiso os textos orais das duas comunidades, em relação à forma, ao

conteúdo e ao contexto, buscando levantar a sua t ipo logia. No quarto, analiso

termos extraídos desses textos, buscando ident ificar a língua negro-africana à

qual pertencem, co m base na bibliografia de referência. No quinto capítulo,

descrevo as linguagens dos gestos, da dança, da música e das cores nos

cando mblés.

As transcrições foram organizadas, para cada co munidade, em vários

arquivos, de acordo com o tipo textual: cant igas, diá logos, discursos,

entrevistas e léxico.

A análise dos dados orientou a consult a da biblio grafia especializada:

dicio nário s, gramát icas, teses, epopéias, livros sobre mito logia africana.

A organização do texto se dará da seguint e forma:

- Palavras que designam as divindades, as co munidades, os cargos

hierárquicos e no mes iniciát icos dos membros das co munidades serão

destacadas em it álico;

- As co munidades poderão ser designadas co mo casa, terreiro, barracão,

co munidade dependendo do caso e do contexto;

- Todas as palavras de origem quimbundo, quicongo, ioruba, eve-fo m que

constem ou não nos dicio nários de referência da língua portuguesa aparecerão

em itá lico, como por exemplo: maionga/ maiongas, inquice/ inquices,

orixá/ orixás, axé/ axés etc., escritas de acordo com a grafia o fic ial segundo a

norma gramat ical do português.

- Palavras ou expressões co nsideradas importantes dentro da ritualíst ica

serão também destacadas em it álico, como por exemplo, arrebate, toque,

fundamento etc.

- Os ele mentos de palavras consideradas co mpostas estarão ligadas por

hífen, co mo por exemplo: mãe-pequena, quarto-de-santo etc.

- Palavras das línguas negro-africanas: quimbundo, quicongo, umbundo,

ioruba, eve-fo m terão a grafia de acordo com os dicio nários de referência

dessas línguas;

- As c itações feitas sobre as línguas quimbundo, quico ngo, ioruba ou eve-

fo m que forem ident ificadas/analisadas nos textos das co munidades serão

registradas de acordo com o registro dos autores citados.

Abreviações ut ilizadas por mim e pelos autores:

6

Adj.

adjet ivo

Adv.

advérbio

Cf.

conforme

Cap.

capítulo

Conj.

conjunção

Contr.

contração

Corresp.

correspondente

F.

formação

F.p.

formação provável

Ior.

ioruba

LP.

linguage m popular

Pl.

plural

Prep.

Preposição

Pron.pess.

Pronome pessoal

Pron.poss.

prono me possessivo

PS.

povo-de-santo

Sg. ou sing. singular

Sub. Ou S.

substant ivo

7

1. OS CANDOMBLÉS NOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS

Bem perti nho da entra da do g uetho

U m terrei ro de angol a e keto

Mãe mai amba q ue coma nda o c entro

Dona Oxum da nçan do Oxóssi no tempo

Lá em ci ma no ta mari nei ro

Mari i nha dá pi po ca ajoel ha

E m janei ro no di a pri mei ro

Desce o dono do terrei ro

Dandal u nda, mai mban da, coquê

Seu Zumbi é sa nto si m que e u sei

Caxi xi , agdavi , capoei ra

Casa de batu que, toq ue na mesa

Li nda santa, I ansã da p urez a

Vi ra fogo, atraca, atra ca, se c hegue

Vi Nanã dentro da mata do gêge

Brasa acesa na pi sada do frevo

Arrepi a o corpo i ntei ro

( C a r l i n h o s B r o w n / E d . M u s i c a i s T a p a j ó s – E M I )

Este capítulo visa apresentar, sob o ponto de vista antropológico, os

cando mblés, no Brasil, buscando ident ificar os elementos históricos,

lingüíst icos, sociais e po lít icos para a base da sua formação.

Essa apresentação buscará também mostrar os cando mblés co mo uma das

formas de resistência, do século XVI aos dias atuais; prime iramente, contra a

escravidão, e contra outras formas de opressão, de acordo com as estruturas

polít icas e sociais brasile iras.

1.1 Da África para o Brasil: processos de aculturação

Os povos africanos trazidos ao Brasil através do processo escravista, das

regiões de ant igos reinos que, ho je, correspondem aos países: Ango la, Congo,

8

Moçambique, Benim e Nigéria, de modo geral, t inham suas prát icas rituais

ligadas à família, à a ldeia, ao clã ou ao reino e diz iam respeito, sobretudo, à

co let ividade.

Essas prát icas, entretanto, sofrera m transformações significat ivas, ainda

em so lo africano, devido a alguns fatores externos, so bretudo, as guerras

int erétnicas e o sistema escravocrata. Os povos ambundos, por exemplo,

tiveram seus do mínio s invad idos pelos portugueses e foram transformados e m

escravos e m seu próprio território.

Segundo Coelho (1987:27-53), os ambundos passaram por um processo de

aculturação, na região de Calu mbo, no antigo reino de Ndongo, antes de sere m

trazidos para o Brasil. As populações desse reino const ituem-se, ho je, após

uma co lo nização e um processo de escravidão seculares, em um sub-grupo de

um conjunto étnico ambundo que vive ao lo ngo do rio Cuanza. A ma ior parte

das aldeias dos ambundos ocupa as provínc ias de Luanda, Bengo, Cuanza-

Norte e Malanje.

O tráfico de escravos nessa região fo i intenso. Em Calumbo, no rio

Cuanza, havia um porto onde embarcavam e desembarcavam pequenos navio s

repletos de escravos, trazidos das mais diferentes lo calidades, sobretudo do

int erior do continente.

Coelho aborda também a imposição ao catolicis mo aos escravos, numa

tentativa de fazê-los abando nar seus hábit os, seus costumes e suas crenças. A

participação dos escravos, ainda no continente africano e depo is no Brasil,

nas missas rezadas em lat im, nos bat izados das crianças pelo s padres da igreja

católica, na realização de casamentos e na enco menda da alma dos mortos ao

deus cristão, não os afastará de suas crenças primit ivas, ocorrendo adaptações

e reestruturações dos ritos ancestrais.

Assim, esse processo de do minação tanto física quanto psico lógica

provocará a perda de muitas de suas práticas rituais, po is o processo

escravista e co lonizador, na África, destrói os seus locais de culto e as

estruturas familiares, clânicas, aldeãs. No Brasil, o escravo passará por um

outro processo de destruição de seus valo res sociais, familiares e lingüíst ico s

e, ao longo do tempo, a perda de sua ident idade étnica.

Esses povos, trazidos de diferentes regiões do continente africano,

encontraram um sistema po lít ico, econô mico e social baseado no modelo

patriarcal e escravocrata. A escravidão era um sistema perverso, não sendo

9

permit ido ao escravo ter ident idade; ele era considerado co mo co isa, não

co mo pessoa e recebia tratamento de mercadoria, sendo-lhe negado todo e

qualquer valor humano.

Apesar dessa desvalorização co mo ser humano e das imposições

sistemát icas quanto ao uso da língua portuguesa e à prát ica da re ligião

católica, os escravos encontraram meios para cultuar as suas divindades.

1.2 O culto às divindades no Brasil

No Brasil, algumas divindades não enco ntraram mot ivação para culto, tais

co mo as da agricultura, porque as pessoas não se encontravam mais em suas

aldeias; o processo escravista destruiu-lhes a co munidade aldeã, sua

organização po lít ica e seu modo de vida familiar, impedindo a subsistência de

estruturas sociais próprias.

Co mo pedir prosperidade às divindades agríco las para o senhor de escravos

dentro de um sistema patriarcal e escravista, o nde o escravo era uma

mercadoria co mprada nos mercados e praças públicas? O senhor de escravos

era um senhor feudal que t inha sob seu olhar o capelão, a capela, o sistema

econô mico, os escravos, os parentes, a família etc.; dentro desse sistema, tudo

a ele pertencia.

Assim co mo o senhor de escravos exist ia aos mo ldes medievais, também o

catolicis mo português era parte integrante de um sistema que t inha uma

estrutura social baseada em valores ainda da Idade Média. Exist ia, nesse

catolicis mo, todo um arrebatamento em relação ao sagrado e a religião

const ituía-se em uma experiência corporal, cujo s elementos eram: a crença

nos santos, as medalhinhas, as fitas, a água benta, as procissões, a música, as

ladainhas, a defumação, os santos óleos, a figura do padre. As fest ividades e a

missa cantada em lat im envo lvia m toda a comunidade numa mágica, cujo s

mo vimentos de levantar, sentar, ajoelhar, caminhar em procissão pro movia m

uma dança sagrada. Os escravos vão assimilar esses valores, incorporando-os

ao culto de suas divindades.

Nesse sent ido, é possível buscar um entendimento sobre um "diá logo

abstrato mágico-sagrado" estabelecido entre as religiõ es africanas e a

católica, co mpreendendo que a elas se juntam as religiõ es ind ígenas e

levando-se em conta também o jugo dos senhores de escravos e a do minação

psico lógica exercida pelo s padres da igreja católica.

10

Os índio s brasile iros haviam observado os valores católicos do século XVI.

Os elementos estruturais indígenas são similares às festas co m música e

dança; a int ercessão do pajé; o culto e a devoção às almas; o transe, em que

se va i para o mundo dos espíritos, além do fumo, ervas, instrumentos

musicais.

Então, pode-se atestar que as três matrizes das religiões cató lica, africana

e indígena possuíam elementos que se encaixavam, tornando possível um

"diálo go" entre elas. E será, nesse contexto, que a religio sidade afro-

brasileira desenvo lverá as característ icas próprias dessa realidade.

1.3 Os candomblés no Brasil

Designa-se pelo no me de cando mblé algumas religiões de origem africana,

estruturadas dentro de uma infra-estrutura social brasileira, que se

caracterizam, principalmente, pelo transe de possessão em seus adeptos e

pelos processos iniciát icos.

Os cando mblés, ao sere m criados, no Brasil, co mo sistemas religio sos,

entram em confronto com outros sistemas, tanto relig iosos quanto polít icos e

sociais; isso porque as suas prát icas cultuais são invest idas de uma dinâmica e

de uma funcio nalidade, capazes de exprimir formas culturais vindas de lo nge

no tempo.

Os primeiros ritos foram duramente pro ibidos pelos senhores de escravos e

pelos padres da igreja católica. Mais tarde, entretanto, os escravos conseguem

burlar as pro ibições, mudando a configuração dos rituais, assentando os

objetos sagrados de suas divindades emba ixo da terra, colocando por cima os

santos católicos, cujas característ icas a elas fossem similares.

Os escravos cultuavam suas divindades junto com os santos católicos, a

fim de camuflar seus cultos e conseguirem a sua so brevivência; o que,

possivelmente, tenha dado origem ao processo de sincret ismo.

Os padr es pr efer iam acr editar n a justificativa d os n egr os qu e diziam ser

os “batuques” h omen agen s aos san tos católicos feitas em sua lín gua n atal

e com dan ças de sua terr a.

(Gon çalves Sil va, 1994:34)

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Grupos étnicos, línguas africanas e prát icas rituais são elementos a serem

considerados na formação das co munidades re ligio sas de cando mblé que, na

época do Brasil co lô nia, ainda não tinham essa designação.

Os calundus antecederam as Casas de Candomblé do século XIX e as atuais.

Inicia lmente, até o iníc io do sécu lo XVIII chamo u-se, indist intamente, de

calundu as manifestações religiosas afric anas no Brasil (cf.Go nçalves Silva,

1994:43).

As prime iras manifestações do calundu, no Brasil, deram-se em co ndições

bastante adversas, po is as divindades só podiam ser cultuadas na escuridão,

nas matas e roças, espaços co nt íguos à senzala.

Alé m disso, o culto a inquice1 estabelecia muit as int erdições que deviam

ser respeit adas e as divindades era m cultuadas em recipientes especiais,

contendo elementos naturais que as representavam: água, terra, vegetais,

pedra, ferro. Era necessário que esses o bjetos recebessem, em lo cal

consagrado, oferendas de alimentos e sacrifício s de animais, co m a finalidade

de renovar tanto a força das divindades quanto a de seus cultores.

Soma-se a essa dificuldade para a realização dos ritos, também o culto ao

ancestral: um dos aspectos mais significat ivos dos cultos bantos. Segundo

Bast ide (1985), "havia uma so lidariedade étnica entre os ind ivíduos e uma

co munhão co m a relig ião ancestral". Isso porque o culto ao ancestral era (e

ainda é) prat icado, na África, pela ma ioria dos po vos e possuía estreita

ligação co m as famílias, co m os clãs, co m as linhagens.

Co mo no Brasil, os senhores t inham o escravo por "co isa" e não pessoa,

não era necessário dar-lhe um enterro cristão. Na maioria das vezes, ele não

tinha uma fa mília, devido à destruição do regime familiar e muitos haviam