Livro das Donas e Donzelas por Júlia Lopes de Almeida - Versão HTML

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Livro das Donas e Donzelas

de Júlia Lopes de Almeida

MINHAS AMIGAS

Mês das cigarras e das flores de flamboyant, como diria Fradique Mendes se tivesse de datar em Dezembro uma carta no Rio de Janeiro. Prescindo, como ele, da enumeração do dia. Datas são algarismos sem forças para fazer sentir o violento azul do nosso céu, nem os ramalhões purpurinos das nossas árvores, nem este chiar incessante das cigarras entontecidas de luz, anunciando o calor.

Este lindo mês, em que o ano morre engalanado de cores e de sons, obriga-nos a volver o olhar para o passado, numa inquirição pensativa e saudosa... e logo a querer sondar o futuro impenetrável com a frouxa luz de uma esperança. Nada se descortina bem, visto de longe; e é melhor assim...

O que torna a vida encantadora é o imprevisto; e a prova é que ninguém desejaria recomeçá-la da mesma forma porque a já viveu; nem creio mesmo que, se tal milagre se pudesse cumprir, houvesse alguém, por mais venturosa que lhe houvesse corrido a curta vida, que tivesse coragem de a recomeçar!

Cerre alguém os olhos, pense, siga o curso da sua existência, e ficará convencido de que só alguns dias lhe mereceram o desejo de serem revividos.

Dias? Nada mais que momentos, de inolvidável doçura...

Para a gente moça o maior encanto da vida está no que há de vir, no que se ignora; para que transpõe o cabo dos quarenta, está no presente, que passa ligeiro, ligeiro, como a corrente de um rio caudaloso...

Minhas boas amigas, donas e donzelas, velhas e meninas, perdi o endereço de algumas de vós; outras... rezemos-lhes por alma, estão mortas; de sorte que esta carta, de incerta direção, pretende ir até as portas do céu, na ondulação do acaso e da saudade.

Nós, as mulheres, não temos sempre facilidade de bem exprimir os sentimentos por palavras; eles parecem-nos por demais sutis e complexos; elas insuficientes e fraquíssimas. Dizem que há para todas as coisas expressões precisas, de inquestionável exatidão; a língua modula no som, e inalterada, a essência da mais rara alegria ou do mais terrível desespero. Mas essa é a interpretação dos fortes; a nossa dilui-se, numa gota incolor e inodora, que é como um chuvisqueiro em uma rosa, se nasce da alegria; ou, se vem da dor, como um floco de neve em uma brasa, que apaga a luz e deixa a nu o carvão.

Lembranças de amizade não são como lembranças de amor, que pungem e deliciam; têm outra suavidade, um perfume indistinto, e por isso são mais difíceis de descriminar nas meias tintas do passado; todavia, quanta comoção elas nos trazem na sua nevoenta aparição!

Minhas amigas de outros tempos, supondo que eu enfeixo as graças e virtudes de vós todas em uma só figura, que podereis chamar de Mocidade, ou de Primavera, como vos aprouver.

Para ser suprema a sua formosura ela terá os teus doces olhos azuis, tão cedo fechados, Elvira; e o teu riso alegre, Maria Laura; e a tua voz, Janan; e a tua bondade adorável, Marie; e as linhas do teu corpo, Alice; e a doçura da tua tez, Carlota! Terá da negra Josefa, tão triste por não ser branca, a branca inocência; e de vós todas, com que topei na minha infância, a garrula alegria e a trêfega imaginação.

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Não sacudo a uma esfinge o meu lenço saudoso, mas a uma figura tangível, feita de perfeições e que permanece, imutável e risonha, no horizonte que me foge.

De algumas de vós não sei, amigas da meninice; outras vieram depois, na idade das confidências, e ainda hoje eu sinto o calor de simpatias moças que vem vindo como aves anunciadoras do bom tempo, para me dizerem que floresce ainda na Terra a sagrada planta da amizade.

Entre todas, não sois vós, amigas desconhecidas e minhas leitoras, cujo influxo tantas vezes me alento, a quem menos se lança o meu pensamento de mulher, num desejo de felicidade perfeita...

Nesta noite, uma das últimas do fim do ano, que de lembranças suaves me esvoaçam pelo espírito!

Crede, esta carta é um desabafo. Não só vós, minhas queridas, voltejais na minha memória, como nas rondas do colégio; há outros amigos adorados, invisíveis, de poderosa influência, a que me lanço com significativa gratidão: — os autores. O

primeiro livro lido; as páginas mais vezes relidas; as músicas que melhor interpretei; os versos que me fizeram estremecer ou sonhar; singulares sensibilidades, acordadas por estranhos que amei como amo o sol que me aquece, ou a flor que me inebria, — tudo renasce e passa pelo meu pensamento, numa irradiação puríssima, de devaneio...

Nestas horas vertiginosas e perturbadoras reconheço todos os meus sonhos e desejos antigos, roçando por mim as suas asas, com tanto arrojo abertas e tão cedo enfraquecidas...

Mas isso que vos importa?

Valerá pena pensar no tempo que passou, bem ou mal?

O ano em que parte da nossa vida discorreu, acaba? Deixa-a acabar! O

outro que vier terá as mesmas quatro estações; o sol inflamará a terra no verão, o vento fará cair as folhas no outono, as neves caracterizarão o inverno, e as boninas esmaltarão os campos na primavera...

Assim como o tempo, fosco ou luminoso, os homens serão maus ou serão bons e a vida fará o seu giro imperturbável, desfazendo e criando entre declínios e triunfos.

Para o mundo será assim, mas para nós, queridas?

NATAL BRASILEIRO

Neste esfacelar de usos e tradições, poucas pessoas encontram ainda encanto em seguir costumes de avós que se foram há muito tempo, e de quem as caveiras, lá no fundo das covas, já não guardam nem resquícios de pele!

A nossa vida agitada precisa de um esforço para relembrar os divertimentos antigos, e não é senão por condescendência que muita gente faz horas para ir à missa do galo ou que deixa o espetáculo pela ceia caseira, obrigada a certos pratos que o desuso tornou para muitos paladares simplesmente abomináveis.

Noites quentes, maravilhosas noites de verão, banhadas de luar, impregnadas do aroma da magnólia e do jasmim-manga, convidando por certo muito mais aos passeios pelos arredores da cidade, ouvindo cigarras e violas de serenatas, do que a fecharmo-nos em uma sala, em frente a um prato de canja fumegante, entre os globos de gás a toda a luz e uma toalha branca onde a louçaria brilhe com o seu luzimento de esmalte.

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Estas festas são doces às mamães, porque chamam para o seu redil as ovelhas soltas por diversos pontos da cidade. Nestes dias, como que se ouvem badaladas de sinos de ouro que, a cada repique, dizem assim:

— Vinde para casa! Vinde para casa! É aqui que vos amam!

E as ovelhas param, escutam, torcem caminho e voltam para o aprisco de onde tinham partido.

A amante que espere, pensam os rapazes; que se estorça de raiva vendo-se preferida. É preciso também contentar a mamãe, que sorri acudindo a tudo e a todos com a mesma paciência de há trinta anos, quando os filhos eram pequenos e não sabiam de nada na vida que igualasse à sua companhia!

"Boa mamãe! dizem-lhe eles agora, perdoai os nossos desvarios de rapazes! Nós cá estamos no teu regaço, olhando para o teu rosto, beijando as nossas irmãs."

E a mamãe vai e vem, com os lábios risonhos e os olhos brilhantes. E o sino de ouro da casa, cujas badaladas se ouvem ao longe, mal ela o sabe! é o seu coração angustiado, pisado de sofrimentos, de dúvidas, de saudades, mas que todo se enflora ainda de esperanças, porque é de mãe!

Festas familiares, sois peregrinamente bondosas e dementes para os velhos!

Sim, é por condescendência que muita gente deixa a noitada ao relento pela ceia caseira, em que se comem coisas suculentas, se ouvem valsas marteladas ao piano, ou se conversam assuntos repisados.

Na roça é que estas festas do Natal e do Ano-Bom têm uma cor mais brasileira. Aqui na cidade fazemo-las seguindo os costumes portugueses. O frio do Natal europeu impele as famílias para o interior das suas casas, para o calor dos fogões e das ceias fumegantes. O nosso Natal é tão diverso! Em vez da neve temos o sol; em vez da ventania áspera, que obriga as pobres criaturas a irem para à igreja envoltas em capotes, salpicadas de lama e de chuva, temos noites estreladas, cheirosas, em que moças e rapazes vão à meia-noite ouvir a missa do galo, com trajes alegres, sem recear bronquites, podendo folgar pelos caminhos à luz das estrelas palpitantes e coloridas. Na roça é assim. A criançada come ao ar livre pinhões cozidos e faz a algazarra que apraz. As moças dançam no terreiro com os namorados, e os velhos, sentados sob o alpendre, contam anedotas, rememoram visitas a presépios antigos, até que o sino os chame e eles partam todos, aos magotes, para a capela tão sua conhecida, tão sua amada!

Se fosse possível deveríamos inventar festas adequadas ao nosso clima, estabelecê-las, fixá-las, torná-las nossas.

Os costumes europeus não podem, em absoluto, ser reproduzidos aqui. Há no Brasil climas mais frios do que em alguns países da Europa; no alto Paraná o gelo quebra os galhos das árvores e o aldeão tirita lavrando terra. Mas de que vale isso, se as estações são trocadas e o nosso Natal desabrocha em pleno verão! O

nosso Natal! Bem que ele precisa de outro emblema. O velho de longas barbas brancas, nariz cor de morango maduro, capote espesso lanzudo e gorro de peles, é filho das terras nevadas, cortadas pelos uivos do vento, tão cruel para os pobres. O

nosso Natal é moço, é risonho, é caritativo; abriga os sem vintém, e as criancinhas nuas não o temem, porque ele afaga-as o seu bafo cheiroso e veste-as com a sua luz quente e doirada!

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CONVENTOS

A tarde agonizava em reflexos brancos de prata polida, que davam à superfície do mar um tom de aço, espelhento. Num banco do convés da barca, uma senhora afogada em lãs pretas, de luto, sussurrava queixas das filhas que a queriam trocar por um convento. Era um desabafo, entre as amigas, que todas se debruçavam para aquela angústia...

Pelos farrapos dos comentários percebi que as donzelas não levariam ao claustro contingente que o exalçasse... Uma delas faria versos místicos, a outra rezaria ladainhas, sem que das suas genuflexões ou dos seus arroubos viesse benefício ao mundo.

A mãe não sabia explicar aquele fervor súbito. Supunha que a mais velha, poetisa, procurasse na religião os ideais que não via realizados na terra; mas a outra? Debatia-se ante o enigma da outra.

Optaram as amigas por uma paixão. Algum amor mal correspondido...

Pobre criança, pensava eu de mim para mim, o véu de freira não tem por certo a magia que ela espera... Se o mal de que ela sofre é esse que dizem, levá-lo-a consigo, que para a fatalidade do amor não há amuletos nem cilícios que valham.

O convento excitará no principio a sua fantasia, vinculará a sua saudade, sem lhe trazer a pacificação, a vida saborosa, que é o preparo do Paraíso.

Houve tempo em que o convento tinha, com todos os rigores, certos atrativos, como tudo que é forte e que domina. Tempos houve também em que ele era menos um lugar de reclusão que de galanteio; então bilhetes amorosos e versos dos torneios perpassavam por entre aquelas paredes severas, como revoadas das mariposas tontas; e havia freiras, como a freira Serafina, que, escrevendo a respeito da abadessa de Santo André, deixava transparecer a convicção de que não é o amor divino, mas o humano, a melhor e a maior preocupação de toda a gente, tanto de lá de dentro como de cá de fora. Dizem mesmo crônicas velhas e cronistas modernos que nem sempre os conventos foram santuários de castidade. Fossem lá o que fossem, a verdade é que tinham vida própria e o enorme prestígio que facilita e sugere os grandes devotamentos. Depois, a mulher não tinha outros destinos; ou ele ou o casamento. Hoje não é assim; o pulso paterno já não tem o poder de aferrolhar filhas insubmissas, e a poesia, que naqueles tempos o hábito pudesse ter, foi substituída no nosso tempo — por uma fúnebre idéia de mortalha. Hoje os conventos parecem túmulos.

Imagino a melancolia desses casarões enormes. Que silêncio de corredores, onde as sandálias já não batem de minuto a minuto; que ar de mofo nas celas sem dono, fechadas há anos e em que as aranhas tecem irreverentes a rede da sua prole; que abandono nos palcos, onde as fontes choram, sem o consolo de ver as suas lágrimas suspensas pelas mãos macias de umas freiras bonitas; que aspecto frio o do refeitório, onde na imensa mesa conventual meia dúzia de freiras sorumbáticas trocam receitas de pasteis e benzem distraidamente o pão, e o comem depois sem alegria, a bela alegria, que a tão citada Santa Tereza de Jesus aconselhava às freiras da sua comunidade, a par de trabalho ativo, vassouradas, costuras, roupas limpas e polimento de metais! Essa feição salutar da santa modificou a imundice do convento, mas não lhe tirou a grandeza austera e a soturnidade doentia.

Dirão: os nossos conventos têm uma feição mais modesta e mais acanhada; estão pintadinhos de fresco e assoalhados de novo.

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Tanto pior. Não haverá ao menos espaço para uma evocação. Do lagedo largo e quebrado de um claustro, de onde surja um tufo de verdura; de um nicho abandonado, ou de um pergaminho sujo pelo manusear de mil dedos desconhecidos, pode nascer uma reflexão, uma curiosidade, um estudo ou um devaneio. Mas uma parede caiada e um pátio semeado de fresco, para as necessidades práticas da vida, que podem sugerir à freira moça?

Talvez saudades da graça, do riso travesso e das confidências das amigas abandonadas; seu quarto, em que a sua imagem se reproduzia faceira e linda; das fitas, do vestido profano; de uma volta de valsa; de um aperto de mão fugitivo; de um olhar, de um pensamento de amor com ou sem pecado, em todo o caso sem medo de excomunhão; de coisas pueris e de coisas divinas, que enfeitam a vida a intervalos, como as papoulas nos campos de trigo.

A verdade, sempre repetida, é que quem tem fé melhor serve a Deus nos lugares onde por ele se vive ou por ele se morre, que atrás dos grossos ferrolhos de uma portaria. Esses lugares, a que a mulher com proveito levara a doçura da sua crença e o ardor do seu sacrifício, são as cidades empestadas, as ruas cheias de mendigos e de crianças; as prisões, as ambulâncias, todo o sítio onde há dor, fome ou rancores; são a escola onde ensina; a própria família, que a sua influência alegra e pacifica; hospital, onde consola; o pedaço de terra, onde planta a árvore, que dará sombra a quem vier mais tarde e ramos para as ninhadas entoarem hinos ao Criador.

Podemos ser úteis e ser religiosas sem fugir da sociedade; podemos amar o Senhor, sem desprezar os irmãos, que mais ou menos carecem do nosso amparo, ou da nossa presença.

Este egoísmo de esconder as feridas da paixão em lugar imperscrutável ao olhar humano não é digno deste tempo, em que as almas se desnudam para o combate, porque hoje não há santos, há heróis; não há milagres, há virtudes.

Os eleitos de Deus são os eleitos da humanidade, somos nós, as mães, que criamos os filhos para a glorificação do mundo; são os homens, que cultivam a terra em paz abençoada, ou morrem por uma idéia generosa.

A religião tem com certeza melhores serviços nos hospitais, nos púlpitos, nas missões, em todas as suas formas de expansão, que nos conventos mudos, abafados pelo rumor que os cerca...

A irmã de caridade tem ao menos a sublimidade, a abnegação de viver para os outros. Essa é a sua doutrina. A freira para quem vive?

A barca atracou à ponte, e a senhora de luto, puxando para o queixo o véu do toucado, saiu, levando consigo o mistério daquele romance apenas entrevisto...

O VESTUÁRIO FEMININO

É uma esquisitice muito comum entre senhoras intelectuais, envergarem paletó, colete e colarinho de homem, ao apresentarem-se em público, procurando confundir-se, no aspecto físico, com os homens, como se lhes não bastassem as aproximações igualitárias do espírito.

Esse desdém da mulher pela mulher faz pensar que: ou as doutoras julgam, como os homens, que a mentalidade da mulher é inferior, e que, sendo elas exceção da grande regra, pertencem mais ao sexo forte, do que do nosso, fragílimo; ou que isso revela apenas pretensão de despretensão.

Seja o que for, nem a moral nem a estética ganham nada com isso. Ao contrário; se uma mulher triunfa da má vontade dos homens e das leis, dos 6

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preconceitos do meio e da raça, todas as vezes que for chamada ao seu posto de trabalho, com tanta dor, tanta esperança, e tanto susto adquirido, deve ufanar-se em apresentar-se como mulher. Seria isso um desafio?

Não; naturalíssimo pareceria a toda a gente que uma mulher se apresentasse em público como todas as outras.

Basta ver um jornal feminista para toparmos logo com muitos retratos de mulheres célebres, cujos paletós, coletes e colarinhos de homem, parece quererem mostrar ao mundo que esta ali dentro um caráter viril e um espírito de atrevidos impulsos. Cabelos sacrificados à tesoura, lapelas (sem flor!) de casacos escuros, saias esguias e murchas, afeiam corpos que a natureza talhou para os altos destinos da graça e da beleza.

Os colarinhos engomados, as camisas de peito chato, dão às mulheres uma linha pouco sinuosa, e contrafeita, porque é disfarçada.

Médicas, engenheiras, advogadas, farmacêuticas, escritoras, pintoras, etc.

por amarem e se devotarem às ciências e às artes, porque hão de desdenhar em absoluto a elegância feminina e procurar nos figurinos dos homens a expressão da sua individualidade?

Há certas mulheres, precisamos convir, que têm desculpa na adoção dos murchos trajes masculinos, porque para elas isso não representa uma questão de estética, mas de incontestável necessidade — as exploradoras, por exemplo.

A essas, as saias impediriam as passadas e os saltos, no labirinto enredado dos cipoais, entre todos os obstáculos das florestas eriçadas de espinhos e cortadas de valos a transpor.

As calças grossas e as altas polainas são para elas, portanto, não objeto de fantasia, mas de comodidade e salvamento. O pano flutuante do vestido prendê-las-ia de instante a instante aos troncos e às arestas do caminho, e, quando molhado, pesar-lhes-ia no corpo como chumbo.

Por exigências de comodidade no trabalho, também escultoras e pintoras se sujeitam muitas vezes a vestirem-se assim e só quando executam obras de grandes dimensões. As calças facilitam então as subidas e as descidas de andaimes e de escadas.

Rosa Bonheur, conta-nos um seu biógrafo, surpreendida no atelier pela notícia de que a imperatriz Eugênia entrava em sua casa para oferecer-lhe a Legião de Honra, — viu-se atrapalhada para enfiar às pressas os trajes do seu sexo e poder receber respeitosamente a soberana.

Só de portas a dentro ela abusava dessas entradas por seara alheia, para usar com liberdade de todos os seus movimentos; mas desde que a artista era procurada por estranhos, ela aparecia como mulher.

Nas cidades, sobre o asfalto das ruas ou o saibro das alamedas, não sabe a gente verdadeiramente para que razão apelar, quando vê, cingidas a corpos femininos, essas toilettes híbridas, compostas de saias de mulher, coletes e paletós de homem... Nem tampouco é fácil de perceber o motivo por que, em vez da fita macia, preferem essas senhoras especar o pescoço num colarinho lustrado a ferro, e duro como um papelão!

A ARTE DE ENVELHECER

Não somos só nós, minhas amigas, que vemos com terror brilhar por entre as nossas madeixas castanhas, louras ou pretas, o primeiro fio de cabelo branco. As 7

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dolorosas apreensões desse momento eram-nos só atribuídas a nós, como se não nascêramos senão para a mocidade e o amor.

O homem envergonhado, e com receio de se confessar vaidoso, sem perceber talvez que a primeira denúncia da velhice tem para nós amarguras mais sutis que a do simples medo de ficarmos mais feias, teve sempre para a nossa decepção um sorriso de inclemente ironia...

Poetas e contistas, valham-nos eles, e que Deus lhes prolongue a raça!

engrinaldaram de rimas e períodos suaves a dor desse momento sagrado, em que as nossas esperanças fecham as asas, repentinamente murchas, e a luz dos nossos sonhos esmorece...

Mas se eles adivinharam a delicadeza do nosso sentimento, não nos contaram a espécie do seu, ao ver a luz pálida e fina de um fio prateado coleando por entre as ondas negras da cabeleira, ou as pontas castanhas do bigode.

Pensávamos que os primeiros sinais outoniços, que são para as mulheres os mais terríveis, não os alarmassem a eles, sempre embebidos em tão grandes ideais, que nem tivessem vagar para perceber a ruína do próprio corpo. Enganamo-nos; o homem é também sensível como nós às apreensões que a vista primeiro cabelo branco sugere.

Um fio de cabelo, nada há mais frágil, nem mais quebradiço nem mais leve, e entretanto vê-se que mundo de sensações ele prende e arrasta! Até aqui, eram só as nossas, supúnhamos, mas agora sabemos que são as de toda a gente!

Tenho diante dos olhos uma página de homem — A arte de envelhecer —

que se me afigura ter sido escrita diante de um espelho pérfido. Essa página suave e bem feita analisa essa hora delicada e de difícil interpretação, em que há em todos o mesmo estremecimento de susto, e o mesmo estender de mãos para agarrar o que passou e que não voltará jamais — a mocidade.

A mocidade! aos quarenta anos ainda a sentimos perto, aspiramo-lhes o aroma, como que lhe sentimos o hálito quente; já ela nos deixou, já ela se foi embora, e todavia recrudesce em nós, mulheres, toda a alacridade vivaz da sua exuberância; há mais calor no nosso peito, mais ardor na nossa paixão, mais firmeza na nossa vontade. É nesse instante de supremo gáudio que um insignificante fio de cabelo branco nos vem lembrar que o bem que gozamos, tão conscientemente como o gozáramos até então com indiferença... há de acabar!

Supus, não sei porque, à força de ouvir dizer, talvez, que essa hora para os homens chegasse mais tarde. Vejo que não. Sempre é consolador ter bons companheiros na desgraça...

Na arte de envelhecer, tema delicioso e que o autor poderia desenvolver em um volume grosso, há uma pincelada jeitosa e leve na referência à maneira por que sabemos disfarçar os estragos impiedosos do tempo... O que as palavras não dizem, mas a insinuação aponta, é que esse meio é a maquilagem, o artifício, o auxílio das cores sabiamente combinadas, a discrição dos véus e o efeito artístico do penteado...

Saber compor a fisionomia, dar-lhe aparência agradável, torná-la bonita quanto possível, é a mais comum das preocupações femininas, para que não a confessemos.

Todavia, há uma revelação a fazer: é que raramente se põe aqui ao serviço desse cuidado o uso das tintas, das pomadas e dos vernizes.

A não ser a inglesa, protegida por um clima que lhe aveluda a tez, não conheço mulher que menos recorra aos embustes do toucador que a brasileira.

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O pó de arroz, contra o qual antigamente alguns pais de família se insurgiam, é o único auxílio de que lançamos mão, mais ainda como um complemento de toilette, que o uso torna indispensável, que mesmo como um elemento de garridice.

O pó de arroz não só atenua o luzidio da pele, afogueada por uma temperatura quase sempre alta, como também suaviza, refresca e aromatiza.

Positivamente, ele foi adotado por isto: não só embeleza como sabe bem.

De tal maneira isto é certo, que ninguém o oculta, como a um fator misterioso de formosura, que se quisesse guardar incógnito; ao contrário, damo-lhes caixas vistosas de cristal lapidado onde a luz incide em refrações irisadas.

A velhice material, grosseira, ainda não mereceu da maior e melhor parte das mulheres brasileiras o sacrifício inútil da máscara confeccionada em sessões longas, com pincelinhos, camurças, óleos, tintas e esmaltes.

Mas A arte de envelhecer não teve por objetivo a arte de não parecer velho; mas sim de padecer com resignada calma as gradações da mudança. Isso depende, além da vontade, das circunstâncias de cada um...

A felicidade está em envelhecer sem arte, com outras preocupações mais elevadas e menos egoístas...

Desde os primeiros anos de escola que os mestres se esforçam por fazer compreender às crianças que a beleza, sendo transitória, menos vale do que a bondade, e que

On ne saít plus que devenir

Lorsque l'on n'a su qu'être belle

O esforço para a perfeição material é sempre improfícuo, e o para o aperfeiçoamento moral sempre bem coroado.

A arte de envelhecer é a de exercitar a alma nas doces práticas do benefício e saber derramar em torno a si até à última hora de consciência, a sombra que alivia ou o calor que reanima...

A MULHER BRASILEIRA

O europeu tem a respeito da mulher brasileira uma noção falsíssima. Para ele nós só nascemos para o amor e a idolatria dos homens, sendo para tudo mais o protótipo da nulidade.

Dir-se-ia que a existência para nós desliza como um rio de rosas sem espinhos e que recebemos do céu o dom escultural da formosura, que impõe a adoração... Nem uma nem outra coisa. Nem a mulher brasileira é bonita, se não nos curtos anos da primeira mocidade, nem tão pouco a sociedade lhe alcatifa a vida de facilidades. Ela é exatamente digna de observação elogiosa pelo seu caráter independente, pela presteza com que se submete aos sacrifícios, a bem dos seus, e pela sua virtude. A brasileira não se contenta com o ser amada: ama; não se resigna a ser inútil: age, vibrando à felicidade ou à dor, sem ofender os tristes com a sua alegria e sabendo subjugar o sofrimento. Parecerá por isso indiferente ou sossegada, a quem não a conhecer senão pelas exterioridades. Mas não tivesse ela capacidade para a luta e ainda as portas das academias não se lhe teriam aberto, nem teria conseguido lecionar em colégios superiores. A esses lugares de responsabilidade ninguém vai por fantasia nem chega sem sacrifícios e coragem.

Apesar da antipatia do homem pela mulher intelectual, que ele agride e ridiculariza, a brasileira de hoje procura enriquecer a sua inteligência freqüentando cursos que 9

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lhe ilustrem o espírito e lhe proporcionem um escudo para a vida, tão sujeita a mutabilidades....

Se o seu temperamento é cálido e voluptuoso, a sua índole é honesta e ativa e o seu pensamento despido de preconceitos.

Se uma mulher brasileira, (se há excepções? há-as de certo!) cai de uma posição ornamental em outra humilde, é de rosto descoberto que dia procura trabalho então vai ser costureira, mestra, tipógrafa, telegrafista, aia, qualquer coisa, conforme a educação recebida, ou o ambiente em que vive...

Nessas ações, não há simplicidade, — há estoicismo e uma compreensão perfeita da vida moderna: que é a guerra das competências. A brasileira vive ociosa; é uma frase injusta e que anda a correr mundo, infelizmente sem protesto. Porque?

Toda a gente sabe que no Brasil só não amamenta os filhos a mulher doente, aquela que não tem leite ou que o sabe prejudicial em vez de benéfico!

Ricas ou pobres, as mães só tem uma aspiração: — aleitar, criar os seus filhos! Este exemplo devia ser citado, porque, à proporção que esta virtude se acentua entre nós, parece que nos países mais civilizados vai se tornando escassa!

A mulher brasileira ama com mais intensidade, talvez; dedica-se toda, sem medo de estragar a sua beleza, às comoções da vida. Aí vemos as pobres mulheres dos soldados, seguindo-os à guerra, acompanhando-os nas batalhas, matando quem os fere, ferindo quem os ameaça, erguendo-lhes das mãos moribundas a espingarda com que os vingam!

Estas energias não são filhas do acaso, vêm-nos da mistura de sangues com que fomos geradas, vêm-nos desta natureza portentosa e que por toda a parte nos ensina que a vida é uma grande fonte que não deve secar inutilmente!

Nos países tropicais a precocidade é tamanha que a existência da menina passa como um sopro e começam bem cedo as responsabilidades da mulher. Por vezes o assalto é tão repentino que não há tempo de preparar na criança o espírito da donzela. Namorada de si mesma, no deslumbramento da mocidade, ela afigurasse-nos então frívola e perigosa. Receia a gente pelo futuro da pobre criança, estonteada pela vida como uma mariposa pela luz. Quanto mais melindrosa é essa quadra, quanto mais vagares tem a imaginação, alvoroçada pelos sentidos, de arquitetar castelos mentirosos! Felizes as donzelas pobres, obrigadas pelas circunstâncias apertadas da vida a empregar a sua inteligência e a sua atividade no trabalho e no estudo! São as mocinhas que, para irem às aulas que freqüentam, engomam as suas saias ou cosem as suas blusas, as mais habilitadas para a resistência das paixões ruins. Decididamente, o trabalho é o melhor saneador de almas! E nós precisamos da nossa muito sã, porque só a virtude da mulher pode salvar os homens, seus filhos e seus irmãos, no descalabro das sociedades arruinadas ou em deliqüescência... A nossa força está na nossa bondade e no nosso critério, coisas que, quando não são naturais, fazem-se pela vontade.

Nós, as brasileiras, perdemo-nos pelo excesso de sentimento. Ainda não aprendemos a dominar o nosso coração, que se dá em demasia, sem colher por isso grandes resultados...

O europeu, tratado com rigor pela mãe, não tem por ela menos respeito (talvez tenha mais!) nem menos carinhos que os nossos filhos têm por nós... que nos desfazemos por eles em sacrifícios e ternuras! Parece que a blandície perene enfraquece a alma do indivíduo, tornando-o um pouco indiferente...

Há muito quem afirme que no Brasil a mulher domina como soberana; e já um escritor português disse dela, relatando as suas observações em um livro de viagem:

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"... A mulher deve ser, entre esta raça, superior a todas as coisas. Vê-la passar na rua e compreender a comoção que ela causa é ter reconhecido todo o alcance do seu prestígio. Inspira devoção, tem um culto. Não é mulher companheira do homem, sua irmã de trabalhos e de penas; é a mulher ídolo, a mulher sacrário.

Mãe, filha, esposa ou cortesã, ela será neste país e para este povo a suprema instigadora, e a sua vontade, como o seu capricho, terão o cunho autêntico de leis, assim no lar como nas alcovas. Será ela quem predomine e da sua boa ou má influência dependerá, talvez, o destino histórico desta nacionalidade."

É possível que assim seja de futuro, visto que a brasileira de hoje tem mais ampla noção da vida; a lição passada, porém, desgraçadamente, é outra.

A verdade, que deve aparecer aqui, é que nos acontecimentos culminantes da nossa história, aqueles que nos fatos da nacionalidade brasileira iniciam períodos de renovação e de progresso — a independência, a abolição, a república — a intervenção da mulher, direta ou indiretamente considerada, quando não foi nula foi hostil.

Entretanto, estes fatos, para só falar dos príncipes, tiveram todos longa, persistente, tenacíssima propaganda, e realizaram-se sem a mulher ou... apesar da mulher!

A sinceridade deste livro, exige este desabafo doloroso.

CARTA

"Minha querida.

Escrevo-te à noite, com a minha vaidade de dona de casa completamente satisfeita. Vou dizer-te por quê.

Há tempos, entre as minhas fantasias de menagère figurou a de mandar fazer um chemin de table de arame, que eu cobriria de flores naturais para a minha mesa de jantar. Ideada a história, fez-se o desenho, e no dia seguinte atirei-me para a Casa Flora, a indagar se aquilo seria coisa de fácil execução.

Não era; o dono da loja mesmo louvou a idéia, mas duvidou do êxito. Lá deixei o meu desenho e voltei desconsolada. Passadas algumas semanas, quando eu já nem me lembrava de ter pensado um dia num chemin de table de arame, eis que ele me entrou pela porta a dentro. Era tal e qual um esqueleto, bem descarnado e extravagante. Franziu-me a boca o clássico muxoxo da decepção. Senhor! como é fácil à gente imaginar coisas bonitas, mas como é difícil executá-las! Não valerá muito mais deixá-las para sempre em sonho? Sim, mais valeria; mas, já agora, seria preciso cobrir aquela nudez fria, cinzenta e desenxabida do arame, todo contorcido em voltas e reviravoltas, e disfarçá-la sob um delicado manto de avencas e de jasmins.

Pois nem jasmins nem avencas. Sé encontrei nessa tarde hastes de hera e de silvina, cujo verde sombrio alegrei a espaços com rosas e margaridas. O efeito não era positivamente encantador; registrei mais uma desilusão na vida, e no dia seguinte mandei atirar com a causa dela para o fundo do quarto das malas e badulaques.

Pendurado rente à parede, mais o desgraçado me fazia lembrar, de novo despido da folhagem, a ossada de um peixe enorme e esquisitíssimo.

C'est de l'art nouveau! Tinha-me dito o dono da Casa Flora, ao observar o desenho que eu lhe levara, com um ar de lisonjeiro agrado. Pois sim! estava fresco o novo estilo! Naquele eriçamento das duras folhas de hera ficara tão bem disfarçado 11

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que ninguém o percebera, e um amigo mesmo zombara, com a sua fina graça, do meu amor às novidades e do meu gosto pelas invenções...

Pois, minha adorada, fiquei com pena de que oito dias depois esse senhor não tivesse voltado a jantar comigo, não já só pelo prazer que a sua companhia me proporcionaria, como porque, dessa vez, o meu invento não fez triste figura, antes pelo contrário...

E por ter dado à minha mesa modesta um encanto singular, determinei revelar-te a maneira porque, querendo, te poderás servir com segurança dessa espécie de adorno.

Por ser teimosa, e não desistir, logo à primeira dificuldade, das intenções que tenho, mandei arriar da parede o tal aparelho de arame (que deve ser feito segundo o gosto da dona da casa e o tamanho da mesa) e com paciência (que é de todas as obrigações que me imponho a mais terrível de cumprir) comecei a cobrir o arame do chemin de table com uma flor delicada, cujas pétalas de seda e de arminho parece terem-se reunido por um sopro de brisa. Esta florinha tem o nome harmonioso de — Rodanthe.

Umas são brancas, de uma brancura pálida de edelweiss, e outras de um róseo desmaiado e doce.

Vitória! vestido por elas, o desengraçadíssimo chemin de table, desenhou sobre a toalha, em finas hastes ondeadas, uma renda de flores delicadíssima.

Para dar-lhe mais vida e quebrar-lhe a uniformidade, coloquei, em uma volta da moldura, à cabeceira, um ramo leve de orquídeas sulferinas e de, à falta de crisântemos, margaridas cor de ouro. Flores sem aroma, como convém para a mesa.

O efeito dessa ornamentação pareceu-me lindo e é por isso que t'o comunico; encantador, e foi por isso que o aproveitei para assunto desta página.... doméstica.

O egoísmo tem a sua razão de ser em outra ordem de sentimentos; nestas pequeninas vaidades de menagère parece-me, além de mau, soberanamente tolo.

O meu interesse, por exemplo, não é tornar a minha pobre casa melhor que a do meu vizinho, que é rico e que tem bom gosto; mas sim torná-la tão boa quanto está nas minhas posses fazê-lo. Assim, quando nesse esforço consigo alguma coisa que corresponda ou ultrapasse a minha expectativa, apresso-me em comunicá-la às amigas, para seu regalo e seu uso.

"Não é o temor do inferno o que me há de levar ao céu" — disse o padre Antônio Vieira em uma das suas cartas, não me lembra agora a quem.

Eu afirmo o mesmo, deixando à tua perspicácia adivinhar em que se funda a minha esperança de gozo eterno.

Outra que bem merecem a bem-aventurança, és tu, pelas receitinhas de bolos que me mandaste...

Um observador maligno disse-me um dia que quem prestar o ouvido ao cochichar de duas brasileiras ouvirá falar de amor ou de receitas culinárias.

O dito não me incomodou, e fiz-lhe mesmo notar que, ainda é por amor que tamanha atenção prestamos à mesa.

Não me lembro quem disse que um homem tudo perdoa, menos um mau jantar!

E repara que os homens são muito mais exigentes do que nós. Fico tonta...

Variar! variar é bom de dizer. Há cerca de uns três dias apeteceu-me comer perdiz. A minha cozinheira sacudiu a sua moleza por essas ruas e voltou para casa como saíra: com as mãos a abanar. Nenhuma perdizinha para a minha salvação.

Disse-lhe eu então que me enganasse com uma galinhola, o que ela fez assaz 12

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regularmente, mas que eu mastiguei com tão pouca convicção, que me não soube ao que pretendia!

Por estar enfronhada nestes embaraços domésticos é que me rejubilo sempre que topo com uma novidade útil, e logo me expando em descrevê-la às outras. Há ainda um motivo para esta tagarelice: é ter um pretexto de te falar em flores.

Estas tais rodanthes, pequeninas e sedosas, são tão leves e de tão bom auxílio para qualquer espécie de ornamento, que devemos saudar o seu aparecimento no Rio com algumas palavras de simpatia. Não saudamos também a crysanthème e o muguet? Esta agora, pela sonoridade do nome, parece ressuscitada dos famosos tempos da cavalaria. Deveria ser de rodanthes o ramo oferecido por D. Quixote à sua Dulcinéa.

Exatamente no momento em que escrevo, sorri na minha mesa de trabalho um galho vermelho de umas flores do mato, cujo nome ainda ignoro. É tal qual uma haste de coral, onde uma legião de avezinhas minúsculas, de um vermelho ainda mais intenso, tivessem pousado com as azinhas de veludo suspensas para o vôo.

Que divinas surpresas nos reservam as nossas florestas, tão pouco exploradas na curiosidade da flor. Entretanto, nossas ou estrangeiras (filha, flor não tem pátria!) aclimemo-las aqui com o maior carinho. Olha, um dia destes, um amigo do Pará afirmou-nos ter obtido no seu jardim, em Belém, camélias perfeitas, de uma alvura azulada. Não será mais milagrosa essa maravilha, uma flor do frio desabrochando, impassível, numa atmosfera de fogo?

Adeus, querida!

Tua, Julietta.

A ÁGUA

Sem pêlo, sem escamas e sem penas, somos os animais mais bem fadados para a volúpia da água. Ela, que no batismo nos lava do pecado original, é a primeira condição da vida. Fria ou quente, enrijando-nos a carne ou quebrantando-nos os nervos, é sempre a ela que devemos o melhor dos regalos — a limpeza.

Diz-nos a história que os povos da idade média fugiam da água como o diabo da cruz, e que, entretanto, outros mais recuados tinham banheiras de porphyro e termas deslumbrantes, onde iam deleitar o corpo cansado do pó e do ar.

As belas rumas de Pompéia assim o atestam.

Já tive a ventura de errar os meus leves passos de mulher distraída pelos templos de Ísis, de Júpiter e de Vênus, de calcar as grandes pedras desiguais das estreitíssimas ruas da cidade morta, desolada, triste, eloqüente na sua mudez de túmulo! E a cada caminhada por entre casas de oradores, poetas e filósofos, cujos nomes retinem ainda hoje como campânulas de ouro nos carunchosos e carcomidos monumentos da história; cada passada sobre os mosaicos ou por entre as colunas de mármore do Fórum, da Basílica, do teatro e dos templos, que de misteriosos segredos de extintas grandezas e sereníssima fé meus olhos descortinavam! Dentro daquele cemitério, que mais parece uma legenda viva, ao dobrar uma esquina ou ao penetrar no atrium de uma casa luxuosa, eu esperava, de instante a instante, ver estendida para mim, cavalheirosamente, a mão patrícia de um pompeiano ilustre: riso nos lábios, túnica roçagante, falas amáveis com ritmos de versos, em que oferecesse ao meu corpo, cansado de percorrer toda cidade, desde a sua Porta Marina e Fonte da Abundância até aos seus últimos limites, o doce repouso num triclínio dourado, o sabor das suas frutas mais finas e dos seus mais esquisitos 13

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licores! Mas... ai de mim! No meio daquelas estreitíssimas ruas e daquelas paredes derrocadas nem viva alma, a não ser, de longe em longe, quebrando o poético respeito do local, a de algum guarda de boné e galões nas mangas do casaco...

No meio das coisas máximas, comovem muitas vezes as mínimas. Eu sabia que Pompéia tinha a sua pintura característica, e alegrei os olhos vendo sobre o estuque vermelho-escuro, ou mesmo preto, as suas grinaldinhas de flores, os finos arabescos serpeando ao redor de taças mimosas e de figuras gentis, essa pintura de estilo tão original e delicado, que seduziu o próprio Rafael — o mais delicado artista de todos os tempos — que a imitou — na forma e na cor, em uma das galerias do Vaticano em Roma; ouvira falar e lera notícias, mosaicos esplendidos de Pompéia e das suas incomparáveis termas, mas não imaginei nunca que o amor à água tivesse sido tamanho; e essa particularidade tão simples, tão da obrigação de toda a gente, tornou logo simpático aos meus olhos esse grande povo, extinto tantos anos antes de ter nascido Cristo! Foi, portanto, um pedaço de chumbo torcido, miserável resto de um cano velho, uma das coisas que mais assombro me fizeram! Pompéia gastava água em abundância: a canalização estendia-se por todas as ruas e todas as casas, com torneiras iguais às de hoje, e havia termas luxuosas, com largos tanques, piscinas claras, salas bem decoradas. Não lhes bastando isso, todas as habitações tinham o seu atrium, sala sem teto, aberta sol e às águas puras do céu, que encontravam no solo um reservatório de mármore — o impluvium.

Roma, na sua parte antiga, mostra-nos também termas e mais termas; desde as mais soturnas, como as de Tito, que se não vêem sem auxílio de luzes, até às Caracala, onde no seu tempo de brilhantismo viviam estátuas célebres, Hércules Farnese, Vênus Calipígia, Flora e outras! Mas... ruínas, como as termas, só vistas por artistas ou por filósofos, historiadores ou poetas, para que o saber ou a imaginação reconstrua o que o tempo e os homens perversamente destruíram.

Dizia eu que os povos da idade média não imitaram seus antepassados, e fugiam da água como o diabo cruz !... Felizmente, porém, houve grandes coquettes todos os tempos e essas tiveram sempre a fantasia extravagante... do banho!

Por desgraça, não lhes bastava a água nem o sabonete aromático e espumoso. Umas lavavam-se em leite de jumenta, como a mulher de Nero; outras em sumo de morangos esmagados, que amacia a pele e que alegra a vista; outras em água (finalmente!) da chuva, como Diana de Poitiers; outras com água destilada de mel de rosas, ou com pasta de amêndoas bem dissolvida, ou com o sumo leitoso de plantas verdes, ou em vinho de Málaga, como a amante de Alexandre I, da Rússia; ou em infusões de junquilhos, nardos e jacintos, as flores de aroma capitoso e embriagador! Maria Antonieta, que fez inventar uma banheira para o seu banho da noite, mergulhava-se todas as manhãs num cozimento de folhagem de timo e de serpol.

Neste nosso Brasil, quente e ubérrimo, sobejam plantas, cuja decocção daria banhos cheirosos. Mas para que, se os perfumistas ingleses e franceses nos mandam já prontas, transparentes e deliciantes, as mais finas essências, que, derramadas n'água ou pulverizadas depois na pele, nos dão o mesmo gozo com muito menor trabalho? Além de que, os cozimentos, desde que não sejam prescritos pelo médico, podem ser perigosos!

Para fazer a toilette à pele, isto é, vesti-la de uma cor suave e brandamente veludosa, julgo bastante... a água pura e um sabonete delicado. Enfim, para não ser avara, concedo que se deite no banho um pouco de água de Colônia.

Eu aconselharia a todas as moças ricas luxo de mármores e de metais nos seus quartos de banho. Uma mulher moça e formosa (qual é delas que não se julga 14

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assim?) ao escorregar na água quente, que todo o corpo enlaça, lambe e amolenta, que doces sonhos teceria, vendo por entre as pestanas cerradas as cores eternamente fugitivas dos mármores e os reflexos dos vidros e dos metais! Para a burguesa apressada ou fraca o caso é outro — o quarto de banho deverá ser simples, amplo e risonho. Um oleado rodeará aí a banheira, para que a água não apodreça o assoalho, se não houver ladrilho; bastará mais um tapete para os pés, uma larga cadeira de encosto, cabides, um porta-toalhas, e, fixadas na parede, perto da banheira, e ao alcance da mão, a cesta da esponja e a concha do sabonete.

Além disso, uma sólida cantoneira de mármore, as escovas e o pulverizador, o porta-grampos, etc.

A água é um elemento essencial da vida e o principal fator da saúde humana. Uma casa em que a talha filtro seja bem tratada, e o quarto de banho diariamente freqüentado, atravessará largos períodos de serenidade e de alegria!

EM GUARDA

Quando, ao cair da noite, a mãe senta nos joelhos o filho amado e o interroga sobre os feitos do seu dia, para censurá-lo ou aplaudi-lo, como é feliz quando tem, para fortalecer a sua consciência, a contar-lhe um fato heróico ou um sentimento sublime, documentados por uma simples notícia de jornal ou uma audição de acaso! A sua alma profética adivinha que coisa alguma comoverá mais profunda e utilmente o seu rapazinho do que o saber que no seu tempo, na sua cidade mesmo, à hora em que ele brincava com o seu pião, ou escrevia os seus temas, ou dormia regaladamente o seu sono, havia um homem da mesma raça, da mesma língua, seu semelhante em tudo, que arriscava a sua vida para salvar a vida de um estranho, escalando janelas incendiadas, atirando-se às ondas impetuosas, atrevendo-se, enfim, aos perigos de uma morte horrível e quase inevitável!

São as melhores páginas para a alma, estas páginas vivas, ainda quentes do calor do sangue, ou empapadas pela inundação das lágrimas. Percebendo isso, não há mãe que se não comova, quando, relatando-as ao filho, vê nas transparentes pupilas dele despontar e dilatar-se a flor dourada da generosidade e do entusiasmo precoce.

Sei que, ao contrário de tudo que é regido pelas leis naturais, os heróis do passado, vistos através a distância dos tempos, em vez de diminuírem crescem de estatura; mas a verdade também é que essa lente mágica, agiganta-os até ao ponto de os tornar como deuses, mais fáceis de admirar que de imitar.

O conhecimento dos grandes homens da antiguidade serve para a cultura do espírito, mas não sei se terá o mesmo proveito para a do sentimento.

Eles permanecem imóveis no seu tempo, em um meio que foge à nossa perspicácia e em que se destacam como entes sobre-humanos para o culto das gerações sucessivas. As crianças, lendo ou ouvindo as suas façanhas, têm uma certa desconfiança da sua autenticidade, ou o pressentimento de que nos tempos modernos elas seriam absolutamente impossíveis.

De resto, o que está nas crônicas e nos livros pode ser ficção. Quem viu?

Quem relatou? homens que talvez tivessem mentido ou simplesmente exagerado, e que dormem há muito o frio sono em túmulos dispersos e ignorados.

Agora o que não é mentira, o que parece feito da carne quente e não das cinzas frias, é um caso de altruísmo que o nosso jornal nos contou esta manhã, com um comentário banal, na frivolidade apressada de quem vê tudo do alto e quer seguir para diante, em desempenho de outras atribuições. Este caso, passado entre 15

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nós, atestado por pessoas nossas conhecidas, ainda tem uma palpitação de vida e pode reproduzir-se nesta mesma hora, daqui a pouco, ou amanhã....

Que belo partido tiram as mães inteligentes dessas lições do acaso! As vezes o fato parece tão insignificante que se some em um canto do periódico, sem atrair a atenção de ninguém, tal qual como uma mulher desconhecida e feia se some numa esquina. Passou, viram-na, mas não houve quem lhe tirasse o chapéu ou sequer a acompanhasse com a vista.

Por mais que bramem contra o egoísmo e a maldade destes tempos, olhem que há por aí muitos exemplos de abnegação e de bondade dignos de toda a nossa reverência. Lendo-os, na maior parte das vezes, levantamos os ombros, não fazemos caso.

É que a notícia, feita sobre o joelho, vinha mal enroupada, com falta do estilo que seduz e obriga à comoção. Refletindo, porém, um bocadinho, a educadora perspicaz pesca, no lodo que as seções policiais revolvem, pérolas de inapreciável valor! O resto depende da habilidade dos seus dedos, quando as mostrem à clara luz para fazê-las admirar.

Há quem proíba a meninas e rapazinhos a leitura dos jornais. Por mim não me parece que haja nisso bom senso. O jornal é toda a alma da cidade, com os seus vícios, as suas misérias e as suas glórias, que fazem tremer de horror ou de entusiasmo, e que, melhor que todos os livros de filosofia, ensina a conhecer o coração de um povo.

Que descortinará o jornal mais indiscretamente do que descortina a rua, onde a mocinha, incitada à faceirice por elogios sem termos, entrevê os graves amigos do papai conversando com as cocottes, sentindo nas faces puras o bafejo de todas as tentações, desde as do luxo das vitrines até as do jogo, em bilhetes de loteria que flutuam diante dos seus olhos, sacudidos por mãos teimosas e impertinentes?

Ah, o jogo! Por toda a parte se alastra a mania das rifas e das loterias; algumas casas mesmo do comércio especulam com a sua sedução. Há já sapatarias, alfaiatarias, casas de papel ou de jóias, que oferecem coupons sujeitos a uma fortuna de acaso, que habilita uma pessoa a alcançar, de graça, um terno novo, um par de botinas, ou meia dúzia de lápis. Ora, estes coupons e bilhetinhos de azar entram pelas portas e pelas janelas, como que trazidos pelo vento, e são sempre as mãos curiosas dos rapazinhos que primeiro os agarram, os reviram e os estudam!

Parece nada? pois nessa insinuação manhosa de economia caseira está uma terrível ameaça de ruína.

Sei que há algumas mulheres que, sem cogitar em que o germe de uma grande chaga é quase sempre um átomo invisível, acoroçoam os filhos a espalhar entre os colegas de escola cartões em que flutuam promessas, que, quando se cumprem pervertem, e quando se não cumprem desesperam.