Livro de Isaac de Nínive por Isaac de Nínive - Versão HTML

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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

LIVRO DE ISAAC DE NÍNIVE

[fº1] Aqui se começa a tauoada dos capitollos de ysaac.

Começãsse os capitollos deste liuro.

Daquel que sse quer spaçar e deleitar nas cousas de deus de todo

em todo se quer com elle atar. C primeiro.

Em quaes cousas depende e sta a cobijça da cousa C.ij. -5

Em que maneira deue os justos e boos auer misericor

dia e da obra e da mente do spiritu. C.iij.

Em que maneira se ha de dar a a lima aa obra da ora

çom e da esmolla e da obra. C.iiij.

Como home deue enpuxar de ssy a causa do pecado. C.v. -10

Como sse home deue anebrar da sua fraqueza. C.vj.

Dos tres modos com os quaes a allma do home se po

de chegar a deus. C.vij.

Da omjldade uerdadeira. Cxiij.

Das moradas celestias do nosso Senhor. C.ix. -15

Quanto he boa cousa ensinar e doutrinar e tirar

os homees do error e tragelhos a uerdade. C.x.

Dos pensamentos boos e maaos e donde decende

e naçem. C.xj.

Da uirtude sem trabalho do corpo e hy de desuay -20

radas obras. C.xij.

Do sermõ per preguntas e per respostas e hy nota do jaiuu e das

lagrimas e qual he a causa da uisom

e reuelaçom. C.xiij.

[fº 1 vº]

Da maneira da cõuersaçom e uida do monge e

da perseuerança e diferençia e como as uirtudes nace. C.xiiij.

Da maneira de batalhar contra aquelles que andã pella carrey

ra streita a qual soprepoia e uence o mundo. C.xv.

Do segundo modo de batalhar cõtra os uirtuosos

e fortes. C.xvj. - 30

Do terceiro modo de batalha cõtra os ualentes. C.xvij.

Do quarto modo de batalha do diaboo. C.xviij.

Daquellas cousas que aproueitã ao home p era sse achegar

a de us eno seu coraçõ e da causa da ajuda. C.xviiij.

De como nos nõ auemos a alongar a faz er pecados - 35

so sperança de perdom. Cxx.

Em que se g ua rda a fremosura da conuersaçom e uida

do uerdadeiro monge. C.xxj.

Do alçamento e cou er timento daq ue lles que andam per

a carreira de deus. C.xxij. - 40

Dos ap ar tados q ua ndo começã a receber depois que chegã

enas suas obras e do mar enfijndo do hermo e q ua ndo

pode g ua rdar per ssy aq ue llo que os t ra balhos do seu frutto. C.xxiij.

De tres stados s. nouicos e meãos e sãctos. C.xxiiij.

Das formas e maneiras da sperãça e daquel - 45

que spera bem. C.xxv.

Do renunciamento do mundo e da austinencia e

[fº 2]

da dulcidoom acerca dos homees. C.xxvj.

Quanto he p ro ueitosa cousa aos solitarius e apar

tados a folgança do ermo. C.xxvij. - 50

Do uigiar de noucte o q ua l he carreira que faz o ho

mem chegar a deus. C.xxviij.

Da potencia e poderio do effeito e obra das malda

des de q ua es ham o sser e de q ua es desfalece do seu seer. C.xxix.

Da g ua rda da oraçõ e contenplaçõ mais sotil e q ue mais - 55

fortes som as u ir tudes que os uicios e pecados. C.xxx.

Dos sinaaes do esfriameto da caridade. C.xxxj.

Dos modos e maneiras das ui rtudes e dos uiçios e

conronpimentos delles. C.xxxij.

Do silencio e por que sse deue de fazer e da u erda deira - 60

entençõ. C.xxxiij.

Do moto e mouimento corporar. C.xxxiiij.

Das maneiras e specias de desuairadas tentações

e como contee dulcidõ aq ue llas cousas q ue polla uerdade

e por o bem sam feitas. E dos graaos e das ordees - 65

em as q ua es o home sisudo deue a andar. Cxxxv.

Das tentações dos omildosos e amjgos de d eus. C.xxxvj.

Das tentações dos soberuosos e quaes cousas

ueem da soberua. C.xxxvij. - 70

Da paciemcia. C.xxxiij.

[fº 2 vº]

Da fraqueza do coraçom. C.xxxix.

Dos modos e maneyras das u ir tudes e da fortele

za e da diferencia e departimeto dellas. C.xxxx.

Da limpeza do corpo e da alma. C.xlj.

Da ffe e dos seus olhos. C.xlij. - 75

Da penitencia e do lenho da vida e da caridade. C.xliij.

Da mensura e q ua ntidade da çiençia e da creença

e hy que a çiençia natural he discriçom do bem e

do mal. C.liiij.

Da entençom que nõ uem ne he da graça de deus. C.xlv. - 80

Da solitidõo e cujdado. C.xlvj.

Da esperança e como os homees por graues pe

cados e mujtos q ue aiam fectos nõ deuem de desaspe

rar e da luxuria e do que se segue della. C.xlvij.

Da ensinança e castigo dos nouiços e dos - 85

uelhos. Graças a de us ame. C.xlviij.

[fº 3]

E o titolo do primeiro capitulo desta obra que se

segue o q ual nõ achey se deue seer intitulado

per nome de alguu auctor. E q ual he o nome do auctor

desta obra. E qual outrossy deue seer o titulo do primei - 90

ro capitulo como quer que o nom achasse.

Certamente huu screueo a huu seu

amigo hua letera na q ua l afirmou e

disse que, o autor desta obra foy huu

ysaac q ue auia cura de Reger monges - 95

que faziam penitencia muyto ap er tada

e aspera e huu logar ap ar tado dos q uae s

leemos que fala sam Joham Clímaco. Mas pore per

jntitulamento do seu autor ne dout ro por que o nõ achey

intitulado de todo e todo me aguardarey de o affirmar - 100

por seer seguro da falsidade e por nõ cayr en u er gonça.

Ca peruentura alguu q ue saberia a u er dade leeria aquesto

e comp re hendiria me por scri puam de falsidade e de meti

ra Rijndo sse do q ue assy affirmasse p er titulo o que nõ sabia.

Mayormente que deuemos creer segundo parece nas - 105

suas palau ras que esta obra nõ seria p re notada p e lo nom e

do seu autor por las razoões adeante dictas. Pero

hora seia assy ou nõ p er ent er pretaçõ mais sotil nõ

temerey de chamar e nomear ysaac o autor desta - 110

obra

[fº 3 vº]

Ca certamente da uerdade da obra que foy nos esina

a scri ptura a enterpretar que ysaac quer dizer sac ri ficado

ou ofèrecido em na alteza do monte. E certamen

te aqueste monte he aquel do q ua l he dicto pelo p ro pheta

mons coagulatus mons pinguis. Em este mõte - 115

sen duuida nenhua mostra esta obra p re sente que o seu

autor sobre sentido corporar en auondança de sp iri tu foy

oferecido a deus en odor de conforto assy como o outro

ysaac filho de abraã. Pois por este uerdadeyro ysaac

e filho de abraã. foy este offericido a deus sobre huu mõte - 120

E como q ue r que os montes seiam muytos sobre huu tã

soomente conhocemos que foy offericido. Ca sen duui

da nenhua nõ nos podera este taaes palau ra s dizer

saluo se el offericido no alto esguardasse a p ro fundeza

da mente. Poys que assy he e lhe conue sen u er gonça - 125

seia chamado ysaac. Enpero a obra por agora nõ

seja jnfitulada per seu nome poys que o seu autor a nõ

entitulou por fugir aa persiguidor da uãagloria.

Mas se aplaz da sentença do p ri meiro cap itu lo ponha

mos per tal maneira o titulo. En nome do Senhor - 130

ame. Daquel q ue se q uer deleitar e spaaçar nas cousas

de deus e se quer legar de todo en todo cõ d eu s. Aquy se

acaba o falamento sob re o liuro de ysaac e breue.

[fº 4]

Comecãsse os capi tollos deste meesmo liuro.

Daq uel que sse q uer spaçar e deleitar nas cousas de d eus. - 135

e de todo e todo se q uer com elle atar. C. primeiro.

A alma que ama a deus em deus he seu

repouso e folgança esforçate de tirar

de ti meesmo toda obligaçõ de fora

e estonce cõ o teu coracom te poderas - 140

cõ deus atar. Ho home que se q ue r delei

tar e as cousas deuinaaes p ri meiro

se deue do mundo aapartar. assy como ho minjno das te

tas. A obra corporal deue de andar deante a obra da al

ma. assy como ena c riaçom de adam foy primeiro o ljmo - 145

da terra q ue a espiraçõ da alma. ca esta nace daq uel a assy

como a espiga nace do graao desnuu e desuestido.e os

dõos esp iri tuaes mjnguã aq ue lles que nõ ham a obra da alma.

E os trabalhos deste mundo nõ som comparados aos

deleitos que stã aparelhados aq ue lles que por d eu s leuã affricõoes - 150

e seus bees. assy como aq ue lles que semeã as lag ri mas.alcã

çam galardom de grande aleg ri a. Eso meesmo a affli

com que he f ec ta por amor alcança aleg ri a s pir itual porq ue he

gaanhado por suor.mujto he doce ao lau ra dor.e as obras

que som f ec tas por justiça.essinã ao coraçõ que creença de - 155

deus ha alcançada. Sofre sugeiçõ e omjldade e cõ boa

[fº 4 vº]

uontade e cõ d eu s aueras seguridade. Toda palaura dura

que o home sofre sem malicia que nõ diga out ro por ella ao

que lha diz seia bem c er to que coroa despinhos poera aa sua

cabeça e seera bem auenturado.ca e tempo que el nõ cuy - 160

dar seera coroado. Aquel q ue fuge aa gl or ia do mundo

sente ia enna sua alma o mundo que ha de ujr. Aq ue l q ue

diz ou cujda que a ia leixado o mundo e contende cõ os

outros por huso de alguãs cousas que lhe nõ he muy

to necesaria ne mynguameto de sua folgança. este - 165

he de todo seco. e o corpo daquel de todo en to do letiga semp re

e puna por huu nenbro dei meesmo.

Aquel que fuge aa folgança desta p re sente uida.ho pen

samento deste ia sente o segre que a de ujr. Mays aq ue l q ue

he atado por cobiça he ser ujdor de pecados. nõ cujdes - 170

que he soomente cobiça de ouro.ou de prata mas e

toda cousa que se encrine a tua uontade.

Em quaes cousas depende e sta a cobij

ça da cousa. C.ij.

Non queyras louuar aq ue l que corporalmete faz - 175

g ra ndes affriicones e tormentos se o nas out ra s

cousas uires dessoluto e desonesto.cõuem a saber

e os sisos e em ouujr e e falar e e os olhos nõ cas

tos. Em que maneyra deue os justo e boos aauer

[fº 5]

misericordia e da obra e da mente do sp iritu . C.iij. - 180

Se algua uegada ouueres det er minado e tua

alma que por m isericordi a edifiqujs a ty meesmo.g uar da

te que nõ busq ues a tua justiça e os custumes e

cousas do outros.mays e as tuas e em os teus custu

mes. Esto he que Nõ seias uisto obrar cõ hua mãao - 185

e cõ out ra derramar qua ally he mester solitudy e assy

meesmo deleitaçõ de coracõ. Sabe que a obra de mj sericordia

e de justiça he leixar home as diuidas aaq ue lles que lhas

deue e entõ aueras cõ o teu coracõ paz e mansidoom

e ty meesmo cõ resp ra ndor e folgança de todas p ar tes - 190

q ua ndo sobrepoiares a uja da justiça tu te acostaras

e todalas cousas aa liberdade. Alguus dos sanctos

ham falado desto dizendo que sse o mi se ricordoso nõ he justo

este tal h e cego esto h e que de aq ue llas cousas que ha guã

hado por seu trabalho p ro prio de aos out ro s. nõ digo que - 195

os aia guanhados por meest ri as ou cõ mentiras e

cõ eganos. Aquelle meesmo diz e outro logar.

se tu q ue res semear enos pobres .das cousas prop ri as

semea e receberas u er dadero galardom ca se semeares

das alheaas nõ te ap ro ueita nada e assy como cijnza - 200

se tornaram. E eu digo q ue sse nõ he mis er icordoso

sobre a justiça.que nõ he mis er icordoso. esto he que nom

[fº 5 vº]

tam solamente aya meercee de cousas p ro prias aos outr os.

mays ajnda alegremente sofra enjurias dos outros.

e ajnda que os ame e lhe aia piadade. E q ua ndo cobrar es a - 205

justiça por esmola seeras coroado. nõ tam solamente

das coroas que som ena ley dos justos. mays das coroas

que som eno euangelho dos p er feitos acabados. Ca q ua ndo

o home da aos pobres das cousas p ro prias e ueste os nuus

e ama seu prouximo assy como sy meesmo e nõ en - 210

juria a outro nenhuu ia esto eno velho testameto se

contem. Mays a p er feicom ordenada eno euangelho

manda assy. Nom q uey ras contender cõ aq ue l que toma

o teu. mays de boa uontade lho leyxa.e atodos aq ue lles

que te demandõ algua cousa tu da. Assy que nõ tã solame - 215

te as enjurias das cousas e os outros noyos de fora

soffrer com paciencia mais ajnda poer alma por seu

irmãao.e este c er tamente he misericordoso. E todo

home que ujr ou ouujr algua cousa que der tristeza a seu

irmãao e elle por ello ujr en seu coracõ forte door e des - 220

praz er. este he uerdadeiramente mi ser icordeoso. E esso

meesmo aq ue l que for ferido de seu jgual jrmãao e se

nõ mouer cont ra el ne lhe diser cousa que lhe der t ri steza

em seu coracõ. este he u er dadeiro mi ser icordeoso. Obra

de vigilias aue senp re por teu praz er e folguança. - 225

[fº 6]

por esto que aches cõsolacõ ena tua alma. Perseuera

senp re leendo em ap ar tado. por tal que teu penssamento se

ia todos tenpos tragido ennas maraujlhas de d eu s.

Ama cõ grande paciencia pobreza. por tal que de toda

maa cobiça e de deramento o teu coraçõm seia liurado. - 230

Fugy e esquiua mujtas falas. porq ue sen turbacom

possas manter tuas boas cujdacones. Fuge a muy

tos e a ira de tua alma por tal que a possas liurar de todo

mal e poer em a paz p er durauel. ama castidade. por

esto que nõ aias cõfusom eno tenpo da tua oracõ.e em - 235

na memoria da tua mente se accenda eno teu coracõ

alegria. Guardate do mal das poucas cousas por tal

que nõ cayas e no peor das muytas. Nom seias p ri gico

so e a tua obra. por tal que nõ aias cõfusom stando e - 240

meo de teus emjgos.e seias achado sem ujandas e

e meo da uja todos soo te leixem. Acendidamete e u er

dadeiramente confessa todas tuas obras. por esto que

possas seer liure da morte e tempestade. En todo teu

fecto e cõu er sacõ ser senp re liberal e benyno a todos. Nom

leixes a tua liberdade e as cousas deleitauees. por tal - 245

que nõ seias fecto s er uo do pecado. Ama vijs uestiduras

por sto que lançes fora de ti as cuydacones de alçameto

de uãa gloria ca aq ue ll que q ue r auer nobres vestiduras.

[fº 6 vº]

nõ pode auer homildosas cuydacones.ca o coracõ se con

firma ao regimeto de fora. Quem he aquelle que ama des - 250

onestos e feos falamentos e pode encalçar pureza de

boo e onesto pensamento. E q ue m he aquel que se esforça

de auer a gl or ia dos homees e pode auer homildosas

cuydacones. Que he aquelle que he luxurioso e disoluto

e seus menbros que possa seer limpo de coracõ e de pen - 255

sameto. Quando o penssamento pellos ssisos de fora he

tirado estonce come cõ elles mangares bestia is. mais

q ua ndo os ssisos som tirados e regidos per o uerdadeiro pe

sameto e cousas sanctas de ligeiro come com elles co

meres e manjares ãgelicaes. Ast in ença de uiandas - 260

e restrangimento dos prazeres de fora. encalçã humil

dade. Certamente vãa gloria he obra de soberua

e mester de fornicacõ.e homjldade pelo fugimeto das

cousas de fora contjnamente encalça conteplacõ

e g ua rnece alma e castidade. Daa gl or ia pola contjnuada - 265

turbacõ e uagamento de suas cuydacones que uee polas

cousas de fora de que cura tesouros esta encalça escomu

gametos e encuja o coracõ e nas naturas das cousas

guarda couronpido atameto e e as cousas das imagi

nacõs faz o pensamento estudar. Mais ha homjlda - 270

de pela contenplacõ s piri tual he tragida a glorificar

[fº 7]

nosso Senhor de us.a qual enderença a aq ue lle que.ha encalça

da. Nom queiras igualar aq ue lles que en no mundo faze

milagres e u ir tudes e grandes marauilhas cõ aq ue lles

que estudosamete estam e ap ar tado. Ama folgança em - 275

ap ar tado mais que fartar os famyntos do mundo.e cou er

ter muytas jentes a conhecença alta e ao s er viço de

deus.ca milhor cousa he a ty desatar a ty meesmo dos

atametos dos peccados que liur ar aos out ros de os nõ fazere

Milhor cousa he a ty seer em paz da tua alma e cõ - 280

a omjldade da t ri ndade que he en ty. esto he do corpo e da al

ma e do sp iri tu que nõ liurar cõ a tua dout ri na a outros ne

pacificar descordias. Gregorio de nazareno diz c er ta

mete boa cousa he aprender toolisia por amor de d eu s

mais muyto mjlhor cousa he que o home alinpe a ssy - 285

meesmo deante d eu s. Muyto melhor cousa he a ty bre

ue falamento se bem es sabedor e leterado. que deitar de ty

a ciencia e a dout ri na. assy como o regato deita agua.

Melhor he a ty que seias cujdadoso de enderençar enas

cousas deujnaaes o que da tua alma he tomado e peccado - 290

por moujmento de tuas cujdacones que nõ he resucit ar

os mortos. ca muytos som achados que am sãctas u ir tu

des e resucitados mortos e se am esforçados a cõu er ter

os errantes e fazerõ grandes maraujlhas e mujtos

[fº 7 vº]

por sua dout ri na som ujndos ha alta conhecença de

deus. depois elles meesmos e feos pecados cairam - 295

e se matarõ e som f ec tos escandolo a mujtos q ua ndo as

suas obras eram manifestas qua elles era efermos

e ssy meesmos e da sua p ro pria saude nõ ouuerõ cura.

mais derramarõ e destruyrõ a ssy meesmos eno mar - 300

deste mundo. por guarecer as almas dos outros. aju

da que elles e ssy meesmos erã efermos. por peccados.

e por sto perderõ a ssy meesmos por que nõ ouuerõ de ssy

cura. assy como auemos de suso d ic to. qua pola sua em

firmjdade nõ poderõ contradiz er aas cousas que dam ao - 305

home ho [para] pecar por seu sujugameto seendo

mujto ameude ãtre as cousas pungintes e afogã

tes p ar a pecar. ca por c er to ajnda mingua auia pola

sua nõ iperfeicõ que nõ uissem molheres ne dessem

folgança a seus corpos. ne cousas tenporiaaes nõ

ouessem. ne dinheiro nõ possuissem ne fossem postos e - 310

regimento doficios ne destado sobre os out ro s por tal que

nõ ensoberuecessem ne p res umissem dessy mais que dos

outros. Melhor cousa he a ty que seias auido por nõ sa

bedor e tua desputaço que seeres achado e p reç ado por g ran - 315

de sabedor pola tua p re suncõ. Responde aaq ue lles que te cõ

tradissere a tua ffe segundo teu poder e tua u ir tude.

[fº 8]

e nõ cõ grades argujmentos de palau ras mais a p re sunçõ

e falameto cõ manseza de tuas palau ras os faze calar.

Repende os luxuriosos por nobreza da tua ujda e por re -320

timento dos teus olhos das cousas cont ra yras aa castida

de. Em todo logar onde steueres te sentas peleg ri no

e todo tenpo de tua ujda por esto que posas escapar ao g ra n

de digno que ue ao home q ua ndo cujda seer firme e seguro.

Em todo tempo te aue por nõ sabedor e que nõ sabes nada. -325

por tal que posas fugir aos p e cados que uee de sospeita dos

outros. Todo tenpo dize bem cõ a tua boca e nõ seias

maldizente. ca bençõ jeera beeçõ e maldiçõ jeera

maldiçõ. Em todas cousas peensa au er mjngua de sa

bedoria. e s er as achado sabedor e todolos dias de tua vi -330

da. Nom q ue iras a nenhuu mostr a r o que tu nõ as en ty mees

mo. por esto. que nõ aias u er gonça por apareameto de tua

ujda ser achada en cõtrayro do que tu mostras. e q ua ndo a al

guu a taes cousas falares nõ cõ presuncõ ne com senho

rio, mais ordenadamete assy como se q ui seses dele ap re n - 335

der e menos p reça a ty meesmo mostrando que es mais

peq ue no que elles. por tal que lhes mostres ordem de omjl

dade e aq ue lles ouujndo as tuas palaur as e que as dizes cõ

boo deseio e a cõprir per obras os faças u er gonçosos por tal

que seias fecto onrrado eno acabameto daq ue lles -340

[fº 8 vº]

e esto dize con lagrimas por tal que a ty meesmo e aq ue lles

que te ouujrem ap ro ueites e seera cõtigo a g raça de deus. Se

ouueres encalçada a graça do Senhore deus e a cõtenplaçõ

das c ri aturas do d i cto Senhor ujsiuijs e ouueses mere

cido deleitarte e ellas. a q ua l cousa he a p ri meira ordem -345

de sabedoria. Cõt ra o sp iri tu da brasfemja. arma e apa

relha a ty meesmo e nõ estes sem armas e toda esta

ujda p re sente. por esto que nõ seias uencido ne morto.

Por aq ue lles que te citam e te querem desfazer e enganar.

lagrimas sejam a ti e logar de armas e g ra ndes jeiuus. -350

gurda te que nehua dout ri na de ereges nõ leas. ca por

esto se sforçara o sp iri tu da brasfemea cõt ra ty mais forte

mete. Quando ouuires farto o teu uent re e nõ pode

res pensar enas cousas de d eu s nõ te anoies ca ao ue

tre cheo nõ se demost ra o segredo ne a sabedoria de deus -355

Entende bem esto que te digo. Iee continuadamete

enos liuros dos doutores que ensinã a ley e a provjdencia

de d eu s. ca elles ensinã e ederençã ho pensameto que possa

ueer e esg ua rdar as c ri aturas de deus e as suas obras ho

confortam e ellas e ho chamã a cõq ue rer t re inos alomca -360

dos. pola claridade deles, e o pensameto das c ri aturas

de deus cõ pureza os faz aproveitar e crecer. Lee enos

auãielhos ordenados p er deus p ar a aconhocer as cousas

[fº 9]

altas por misericordja sua e todo o mudo. por sto que acalces per

u ir tude uiada de sua p ro uidença que ha ordenada pera ca -365

da huã jeeraçõ. O teu pensameto seia e nas mara

ujlhas de deus. fundado e ent ra ra p er tal manejra de tra

balho da tua licõ en toda manejra de paz. Ser liur e

de curas corporaaes e das cousas que dam ao home tur

bacõ. por esto que proues e tornes ena tua alma com er -370

deleitaujl. por doce pensameto que sobrepora todo siso.

e que a tua alma senta per seuerando e elle. Nom seiam e

ty palaur as daq ue lles que cujdã seer forte sabedores. esto

he dos falsos enganadores que deujnaaes palavras uãa

uendendo. por sto que nõ fiques en t re uas ata tua fim -375

de tua ujda e sofras mjngua do p ro ueito dellas. e asy

como aq ue le que nõ he seguro ne dout ri nado ajas spanto

e temor eno tenpo da tua batalha, por que nõ cayas

ena coua p ro funda por ocãia daquelles onde cuidauas

alcançar g ra nde p ro ueito. Esto seia a ty por sinal das -380

cousas que qu ey ras a ty meesmo sogugar e daquel regi

meto nõ sayas. Quando a graça de deus começar a a abrir

os teus olhos a entender cõtenplacõ das cousas segu

do u er dade. estonce os teus olhos omeçarõ de deitar

lagrimas assy como o rio agua assy q ue por g ra nde auõ -385

dameto ameude serã lauadas as tuas faces.

[fº 9 vº]

Estonce cesara a batalha dos teus sisos corporaaes

e he de dentro toruada e mouida. e se te alguu ensinar

o cont ra yro destas cousas nõ o uças. Out ro sinal do corpo

nõ demandes senõ lag ri mas ca como o pensameto he -390

leuantado p er soberua sobre as c ri aturas. estonce se p ar te

o corpo das lag ri mas e de todo boo mouimento. Quã

do ouures achado o mel come tenperadamete por esto

que se comeres sobeio cõue que o tornes todo. ca alma he

ligeira cousa e sotil e alguas vezes deseia de sobrepoiar - 395

a sua natura. mujtas uezes ena licõ das esc ri pturas

e cõtenplacõ das cousas algua cousa comp re nde quando cõ

para assy meesma aaq ui lo que a conp re ndido semelha e pa

rece a ella que he mujto mays bayxa e mais desfalcada

segundo sua condicom e sua natura a respeito daq ue llas - 400

cousas honde he a etrada por sabedoria da conteplacõ.

A sy que em nas suas cujdaçones he uestida de temor

e espanto. por sto se ap re sa a g uar dar e pensar sua fraq ue

za e suas mjnguas polo temor que e ela he. por esto

e nas cousas deujnaaes que som sobre sy ha ousado - 405

buscar. E polo spanto daquesto lhe ue alguu temor

e pore guarnece de desc riçom o entendimeto da sua alma.

esto he que estey em silencio e que se nõ moua por tal que

pareça. Nom q ue iras saber as cousas que som sobre ty

[fº 10]

ne as mais altas nõ uaas buscando. Mais q ua ndo - 410

te deus der poder que penses estonce as cousas pensadei

ras pensa e nõ te mouas cõtra os seg re dos de deus. mais

adora e glorifica e cala e da mente faze g raças a d eu s. Ca assy

como nõ he conujnhaujl cousa mujto mel comer. asy

nõ he cõujnhaujl cousa os diujnaaes talamentos demã - 415

dar. E por que aq ue lles que nõ sabem no conprendem as moo

res cousas pola aspereza de sua uida sejam feitos e

fermos pola uisom da u ir tude e seiã deribados. q ue alguas

uezes e logar de uerdade e de u ir tudes alguas fantasias

som uistas. E q ua ndo o pensamento pola enqu ir siçõ he - 420

conprendido por aucidia. elle squece sua dereita eten

co. e por esto diz salamõ. q ue o home sem paciencia he

assy como a cidade sem c er ca. O home pois alimpa e

monda a tua alma deita de ty os cujdados das cousas

que som cont ra natura e toma os ornametos da castida - 425

de e da omildade cont ra os moujmetos e acendimentos

teus. e por esto acharas o que he de dentro de ty. ca aos

omildosos som os dõoes de deus demostrados. Em que

maneira se ha de dar a alma aa oraçõ e da esmola

e da obra. Capitolo. iiij. - 430

Se quis eres dar a tua alma aa oracom a q ua l alin

pa e purga o pensameto. husa a ty mesmo.

[fº 10 vº]

a longas e perseuerantes vigilias de nocte e fugi

ao conhecimeto do mundo e tira de ty grandes falame

tos. e nõ queiras acustumadamete teus amigos rece - 435

ber e tua cela. ne ajuda so semelhança de bem. senõ

Nota bem aq ue lles que tã somete a ty som semelhantes e tas custu

mes e em seus desejos e que som contigo de hua mees

ma conpanha. e hey ajnda temor de turbaçõ polo

falamento da alma que so soe m ou er eno pensamento. - 440

E depois que ouueres tirado de ty o falamento husa

do ajunta aa tua oracõ mi ser icordia e stonce a tua

alma veera luz de uerdade. Que q ua nto o coraçõ he mays

partido das cousas husadas. a tanto mais ho pensa

meto pode cõp re nder o que ha de ujr por conhecimento - 445

dos entendimetos. Este he o custume da alma mu

dar se de falameto e falamento e esto he senõ toma

remos huu pouco de cujdado que nos g ua rdemos. Studa

e a licõ das s cri pturas que demost ra m a careira mais alta

da conteplaçõ en nas ujdas do sãctos padres. se eno - 450

começo delles nõ achares dulçura e praz er. esto he po

la escuridade das cousas que estam ac er ca de ty. por sto

que mudes o falameto em falameto. E quando te aleuã

tares. a oracõ pola regra dos pensametos e

no que ouueres ujsto e ouujdo sejas achado en no - 455

[fº 11]

pensameto das scrituras que ouueres leudas. pola rene

brãça das q ua es oluidaras as cousas mundanaes. e

por esta tal maneira o pensameto se achegara e em

clinara a pureza. e esto he o que he s cri pto que a alma he

ajudada por a liçõ como he em oracõ. E ajnda diz - 460

que pola oraçõ he alumea na liçom e aq ue lla meesma diz

ajnda que en aquel lugar da sua oraçõ acha o home o tur

bamento que ue polas cousas de fora e que home ouu er

pensado uaamente. Fea cousa he que os homees ama

dores da sua carne e do mundo husem buscar e pen - 465

sar as cousas deujnas. O corpo muyto enfermo nõ

come mãiares e ujandas asperas ant es epuxa e lan

ça fora de sy. e o pensameto que he enas cousas mun

danaaes ebargado nõ se pode achegar a buscar as

cousas deujnaas. O fogo nõ se pode acender en na - 470

lenha humjda e a quentura deujnal nõ he acendida

e no coraçõ de aq ue l que ama o corpo e p re giça. A alma q ue

he atada a mujtas cousas nõ sta enos emsinarme

tos deuinaaes. Assy como aq ue lle que nõ uee cõ os seus ol

hos p ro prios o sol senõ por ouujr diz qual he o conhece. põr que - 475

nõ pode nenhuu contar a sua claridade. ne o seu lu

me nõ sente. eso meesmo a alma daq ue lle q ue nõ ha pro

uadas as obras sp irit uaas nõ pode entender ne dizer

[fº 11 vº]

a dulçura ne a u ir tude dellas. Se as algua cousa de

mais de tua necesidade da o a pobres. e stonce podes - 480

oferecer as tuas oraçones. a deus e fala cõ el asy como

filho cõ padre. Nom he cousa que tanto faça ao hom em

alcançar paz como pobreza de grado e cõ boa uon

tade sofrida por amor de d eu s. A melhor cousa he a ty

que seias jdiota p er muitos chamado por tua sinp re za. - 485

que por tua gloria g ra nde sabedor acabado. Se alguu

he sobido em seu caualo e estende a ty a maao que lhe

faças esmola nõ o despreces. que sey certo que aaq ue l tenpo

he asy como cada huu dos pobres mjnguados.

Q ua ndo deres da cõ g ra m largeza de coraçõ. e cõ boa

uontade e aleg ri a de cara. e da lhe mais que o que te demã - 490

dar, da e enuja o teu pam deant e a cara do pobre e

ac er ca de pouco tenpo veeras uijr a ty o gualardom.

Nom dep ar tas o rico do pobre ne queiras saber qual he

digno e nõ digno. mais seiã a ty todos jguaes e - 495

boas obras. e per tal maneira poderas os p e ccador es

enderencar e trager a bem. qua asinha tira o home out ro

a be por corporaaes beneficios. E o noso Senhor

Jesu Cristo. cõ os pobres e cõ os poblicanos comja en

hua mesa e nõ q ue ria dep ar tir os dignos dos nõ dig - 500

nos, por esto que per tal maneira os tirase todos jeeral

[fº 12]

mente a temor de d eu s. E polas cousas tenporaas se

achega o home aas sp iri tuaaes e per esta razom e bem

e e onrra todolos homees faz jguaaes aynda que seia

judeu ou enfiel. ou homecida. e auedo nebrança que he - 505

teu jrmãao. e de tua natura. e sem sabedoria he say

do e desuiado da uerdade. Quando fezeres bem alguu

nõ speres delle gualardom. ca segundo fezeres aueras

galardom. Se ouueres posto t er mos de pobreza aa tua

alma e p er g raça de d eu s es liurado dos cujdados do mundo - 510

e en tua pobreza seeras sobido sobre o mundo. gu ar da que

por amor dos pobres nõ queiras demandar. ne aju

tantar pera faz er esmolla a out ro s e que ponhas a tua alma

e turbacõ. esto he tomando de huus e dando a outros.

e que destruas a tua onrra souigando e sometendote de - 515

demandar e buscar as cousas por nome dos out ro s e q ue

cayas da nobreza da tua entencõ. ca o teu g ra o he mays

alto que o dos mis er icordiosos. Rogote que te nõ q ue iras suju

gar a esto po r que a esmola he sem e lhante ao c ri amento

dos mocos e o apartamento he cabeça de toda perfeicom. - 520

Se ouueres cousas temporaaes ajuntadamete as da

e tira de ty. e se nõ as has nõ as queiras auer. abonda a tua

cella de cousas deleitosas e das que nõ som necesarias. ca

esto te trazera e austinencia per forçar e contra teu talete.

[fº 12 vº]

As poucas cousas ensinã ao home faz er austinecia e - 525

das mujtas cousas nõ nos podemos absteer que dellas

nõ busquemos e aq ue lles que an bencido a batalha de fora. som

seguros do temor de dentro. e estã como deue e en ne

hua maneira nõ podem ser dirribadas ne uencidos na

batalha. e a batalha que vem dos sentimetos cont ra alma. - 530

e por neg ri gencia se moue. assy como he dar e tomar e

da lingua e do ouujr. que fazem a alma cair e cegidade.

q ua ndo uee sobre ella e a t ri bulacõ e turbacõ que lhe ue de

fora nõ pode a sy meesma enteder ne as batalhas as

condidas que se moue e uee e nõ pode cõ paciencia vencer - 535

as batalhas de dentro. Quando alguu ouu er çaradas

as portas da cidade dos seus sisos. stonces a batalha de

dentro e as g ua rdas de fora da cidade nõ teme nada.

Bem auenturado he aq ue ll que nõ sabe estas cousas. e

esta e paz en ap ar tado e nõ corre ne trabalha e mujtas - 540

cousas. mais todalas suas obras corporaaes ha tor

nadas e t ra balho de oracõ. e c re r firmemente e deus e seus sãtos

e pensametos som e el. postos de dia e de nocte e nehua

das cousas que lhe som necesarias. asy como el nõ leixa

de obrar por amor delle. E se alguu nõ poder sofrer - 545

estas cousas. nõ ste sem obra e apartado e obre de obra

que seia aiudadeira. nõ por cobiça de guanhar algo.

[fº 13]

esto he dado aos enfermos. q ua aos p er f e ctos turbacõ lhes

he. mais aos pobres e aos p ri giçosos hã os santos pa

dres ordinado que obre. mais nõ obra que seja necesaria - 550

Em o tenpo que deus punge o teu coracõ de dentro da te

tu meesmo a continoados estendimetos e quebrantos

do teu corpo ent er ra os geolhos e se os demonjos te te

tare que entedas en out ra s cousas nõ queiras ne sofras que o

teu corpo aia cura d ou tra cousa. senõ de bem fazer e estõ - 555

ce te g ua rda e maraujlha que deue desto deuijr e nacer. Nem

hua out ra cousa nõ he mayor que deitarse e q ue brant ar se an

te a cruz de nosso Senhor Jesu cristo. de dia e de nocte tee

do detras as maaos atadas. Queres que a q ua entura

no sse esfrij en ty e mjnguameto de lagrimas nõ aias -560

esperta a ty meesmo. esforçate em estas cousas e seeras

bem auenturado. O home se de dia e de nocte tu estu

dares e estas cousas que som ditas out ra s cousas nõ q ue iras

cõ ellas e estonce nacera aty luz de dentro e a tua Jus

tiça dara aginha resp la ndore te fara assy como fonte de -565

augua nõ desfalecente ne mynguante. assy como

parayso nobre e frorido vee q ua es bees uee ao home

de seu t ra balho e da sua batalha. Muytas uezes he

o home achado abaixado ou enc ri nado e sua oracõ sobre

seus geolhos e cõ as maaos alçadas cont ra o ceeo g ua rdando -570

[fº 13 vº]

a cara de nosso Senhor Jesu cristo e todas suas cujdacõ

es ha tornadas e sua oracõ e enujadas a deus e en metre

que assy ora cõ lag ri mas e gimidos e cõ contricom de cora

cõ logo em aq ue la ora ue en seu coracõ fonte de g ra nde

deleito e aleg ri a e os seus menbros se desatam e vee lhe - 575

cobrimeto de seus olhos e lançase en te rr a e caae sobre

suas faces e suas cujdacões som abaixadas e tr as muda

das en tanto que nõ pode fazer ec ri nacões de geolhos. pollo

g ra nde p ra zer que he em seu coracõ. Ho home esg ua rda e en

tende bem estas cousas que lees. qua sey certo que se nõ trabalhas - 580

nõ as acharas. e se nõ chamares a porta cõ g ra nde feruor

e cõ g ra ndes vigilias continoadamente nõ seeras entedi

do ne ouujdo. Que pode s er aquel que ouue estas cou

sas e deseia a Justiça husada de fora. este he aq ue l que estas

cousas nõ pode sofrer. Mais enpero se alguu nõ po - 585

der etender esto. por que so a graça de d eu s he que os homees

seiã çarados e apartados e sua cella. e reger assy mees

mo. Nom leixes a out ra uja por esto que nõ sejas lan

çado e deitado fora e seias fecto est ra nho de cada hua das

uias da ujda. ataa q ue husadamete o home seia morto - 590

dos deseios e cousas deste mundo. nõ solamete a p e cca

dos mais ajnda a todas obras corporaaes. E esso

meeso seia o home morto a todalas maas cujdacões

[fº 14]

e que seia desfalcado o mouimento do corpo natural esto

he que eno corpo nõ se moua nenhua dulceça de p e cca - 595

do ca se nõ mouera eno home dulcidõe do spiritu de d eu s

e os seus nenbros nõ seram purgados e sua uida. ne

linpos etendimentos deujnaes e sua uida nõ pare

cerã ataa que destrua e p ar ta do seu coracõ todalas curas

e cujdados de todas as cousas saguaes saluo e aq ue llas que - 600

lhe som necesarias ao corpo. E ainda que leixe ao nosso

Senhor curar de ssy. do que lhe faz mester sp iri tual beue

dice nõ se mouera ne uerra e elle. ne sentira aq ue la cõ

solacõ da q ua l era consolado. o apostolo q ua ndo dizia q ue m

nos mouera ne nos ap ar tara da caridade de deus. En - 605

pero estas cousas hey dictas. nõ p ar a dar a nehuu desas

peracõ. Esto he que se alguus nõ podem alcançar

a alteza da perfeicõ nõ se desapere de auer a g raça de deus

ne que nõ posã achar consolacõ cõujnhaujl a elles.

Quando alguu u er dadeiramete manifestar suas - 610

minguas. he lhe prouguer que sejam uistas e cõhe

cidas e ap ar tar sy meesmo dellas de todo en todo. e se

achegar fortemete a boas obras. em breue tenpo

lhe ujnra consolacõ e ajuda e se huu pouco mais sobre

poia e se eforçar achara consolacõ e na sua alma e - 615

alcançara remisom de seus pecados e recebera

[fº 14 vº]

auondança de todos bees. enpero pouco he segundo

p er feicõ en conparacõ daq ue le que a p ar tido sy meesmo de

todo mundo e ha achado e sua alma o segredo da

bem auenturança de deus que a de uijr e ha achada aq ue la - 620

cousa pola q ua l o nosso Senhor Jesu Cristo ueeo e este mundo.

Como home deus enpuxar de ssy a cau