Livros de Sangue - Volume 2 por Clive Barker - Versão HTML

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TERROR

Não há prazer como o terror. Se fosse possível sentar-se sem ser visto

entre duas pessoas em qualquer trem, sala de espera ou escritório, a conversa

ouvida rondaria uma e outra vez sobre este tema. Poderia parecer que se

tratava de um assunto completamente distinto: a situação do país, um bate-

papo despreocupado sobre as mortes na estrada, o aumento dos preços dos

dentistas, mas pondo a nu a metáfora, a insinuação, ali, encerrada no coração

do discurso, encontra-se o terror. Enquanto aceitamos sem discussão a

natureza de Deus e a possibilidade de vida eterna, ruminamos alegremente as

minúcias da miséria. A síndrome não tem limite, tanto nos banheiros como

nas salas de aula, se repete o mesmo ritual. Com a inexorabilidade de uma

língua que se retorce para explorar um dente dolorido, voltamos uma, duas ou

mil vezes a nossos medos, nos sentando para discutir sobre eles com a

impaciência de um homem faminto ante um prato cheio e fumegante.

Enquanto estava na universidade e tinha medo de falar, Stephen

Grace aprendeu a falar a respeito de seu medo. De fato, não só a falar dele,

mas também a analisar e dissecar cada uma de suas terminações nervosas em

busca de pequenos terrores.

Nesta investigação teve Quaid como professor.

Era uma época de gurus. Nas universidades de toda a Inglaterra

jovens de ambos os sexos procuravam por toda parte pessoas para seguir

como cordeiros, Steve Grace foi simplesmente mais um. Teve a má sorte de

encontrar Quaid como Messias.

Conheceram-se na sala de estudantes.

– O nome é Quaid – disse o homem que estava ao lado do Steve na

barra.

– Oh.

– Você é.. ?

– Steve Grace.

– Sim. está na classe de ética, não é?

– Exato.

– Não o vi em nenhum dos outros seminários ou conferências de

filosofia. – É minha disciplina suplementar deste ano. Faço o curso de literatura

inglesa. Não podia suportar a idéia de um ano na classe de nórdico antigo.

– Assim escolheu ética.

– Sim.

Quaid pediu um conhaque duplo. Não parecia tão rico, e um

conhaque duplo arruinaria as finanças de Steve para a semana seguinte. Quaid

o bebeu rapidamente e pediu outro.

– O que você bebe?

Steve estava acariciando meia caneca de cerveja morna, disposto a

fazê-la durar uma hora.

– Eu nada.

– Sim.

– Estou servido.

– Outro conhaque e uma caneca de cerveja para meu amigo.

Steve não resistiu à generosidade de Quaid. Uma caneca e meia de

cerveja em seu sistema mal nutrido serviria de grande ajuda para animar o

tédio de seus próximos seminários sobre ―Charles Dickens como analista

social‖. Só a idéia o fazia bocejar.

– Alguém deveria escrever uma tese sobre a bebida como atividade

social. Quaid escrutinou um momento seu conhaque e o deixou outra vez

sobre o balcão.

– Ou como forma de esquecer.

Steve olhou para aquele homem. Devia ter uns vinte e cinco anos,

cinco mais que ele. A mescla de roupas que vestia era surpreendente. Sapatos

esporte andrajosos, calças de veludo cotelê, uma camisa entre cinza e branca

que tinha conhecido dias melhores, e sobre tudo isso uma jaqueta de couro

muito cara que se assentava mal em seu corpo alto e magro. Tinha o rosto

largo e anódino, os olhos, de um azul leitoso, e tão pálidos que a cor parecia

diluir-se nas escleróticas, de forma que só se podiam ver, atrás de seus óculos

de lentes grossas, suas íris rasgadas. Lábios gordos, como os de Jagger, mas

pálidos, secos e pouco sensuais. O cabelo, de um loiro sujo.

Steve pensou que Quaid podia passar por um traficante de drogas

holandês.

Não levava livros. Eram a manifestação corrente das obsessões de um

estudante, e Quaid parecia nu sem nada que indicasse como se divertia. Era

homossexual, feminista, defensor das baleias ou um vegetariano fascista? No

que estava metido, por Deus?

– Deveria ter escolhido nórdico antigo – disse Quaid.

– Por que?

– Nessa disciplina nem sequer se preocupam em pontuar os exames.

Steve não tinha ouvido falar disso. Quaid continuou dando detalhes:

– Limitam-se a tirar cara ou coroa. Se sair cara, satisfatório, coroa,

aprovado com louvor.

Ah, era brincadeira. Quaid estava bancando o sabichão. Steve esboçou

uma sorriso, mas a cara de Quaid não se alterou ante seu próprio rasgo de

humor.

– Devia estar em nórdico antigo – repetiu. – Afinal de contas, quem

necessita de Bishop Berkeley, Platão ou A.. ?

– Ou?

– É tudo uma merda.

– Sim.

– Eu o observei na classe de filosofia. .

Steve começou a se intrigar com Quaid.

— Você nunca anota nada?

– Não.

– Pensei que ou tem uma segurança sublime em si mesmo ou,

simplesmente, não se importa.

– Nada disso. Simplesmente estou totalmente perdido.

Quaid grunhiu e tirou um pacote de cigarros baratos. Isso tampouco

era o habitual. Fumavam-se Gauloises ou Camel, senão, nada.

– Não é a verdadeira filosofia o que lhe ensinam aqui – sentenciou

Quaid com manifesto desprezo.

– Não?

– Dão-nos uma colherzinha de Platão ou um pouco do Bentham, mas

sem uma análise real. Com as qualificações pertinentes, é obvio. Parece-se

com a besta: até os não iniciados lhes cheira um pouco a besta.

– Que besta?

– A filosofia. A verdadeira filosofia. É uma besta, Stephen. Não

concorda?

– Não havia. .

– É selvagem. Morde.

Rangeu os dentes, de repente tinha adotado uma expressão ardilosa.

– Sim, morde – repetiu.

Sim, gostou muito disso. Disse de novo como se lhe trouxesse sorte:

―Morde‖.

Stephen assentiu. Escapava-lhe o sentido da metáfora.

– Acredito que o que estudamos deveria nos rasgar. – Quaid estava se

entusiasmando com o tema da educação castradora. – Deveria nos assustar,

falsear as idéias sobre as quais temos que falar.

– Por que?

– Porque se fôssemos filósofos dignos não trocaríamos piadas

acadêmicas. Não falaríamos de semântica, não utilizaríamos enganos

lingüísticos para encobrir os problemas reais.

– O que faríamos?

Steve começava a pensar que se limitava a dar corda a Quaid. Mas este

não estava com humor para brincadeiras. Tinha o rosto rígido: suas íris

rasgadas se reduziram a pontos diminutos.

– Deveríamos nos aproximar da besta, Steve, não concorda? Sair para

aplacá-la, acariciá-la, ordenhá-la...

– Isto. . O que é a besta?

Quaid se exasperou com a pergunta.

– É o tema de qualquer filosofia que valha a pena, Stephen. São as

coisas que tememos porque não as entendemos. É a escuridão que há atrás da

porta. Stephen pensou em uma porta. Pensou na escuridão. Começou a

compreender onde Quaid queria chegar à sua maneira retorcida. A filosofia

era uma forma de falar do medo.

– Deveríamos discutir sobre o que é inerente a nossas psiques – disse

Quaid. – Senão. . nos arriscamos a. .

Subitamente a loquacidade o abandonou.

– O que?

Quaid contemplava sua taça de conhaque vazia como se quisesse vê-la

encher-se de novo.

– Quer outro? – propôs Steve, rogando para que a resposta fosse

negativa.

– A que nos arriscamos? – repetiu a pergunta. – Bom, acredito que se

não sairmos para encontrarmos a besta. .

Steve pressentiu que estava a ponto de lhe pôr a cereja no bolo.

– . . cedo ou tarde a besta virá e nos encontrará. Não há prazer como

o terror. Enquanto ele for de outros.

As semanas seguintes, Steve fez algumas perguntas, sem lhes dar

importância, sobre o misterioso senhor Quaid.

Ninguém sabia seu nome. Ninguém estava seguro de sua idade, mas

uma das secretárias achava que tinha mais de trinta, o que lhe pareceu

surpreendente.

Seus pais, Cheryl tinha ouvido dizer, estavam mortos. Assassinados,

pensava ela.

Isto parecia constituir a soma de todo o conhecimento humano a

respeito de Quaid.

– Devo-lhe uma bebida – disse Steve tocando o ombro de Quaid.

Ele olhou-o como se lhe tivessem mordido.

– Brandy?

– Obrigado.

Steve se encarregou das bebidas.

– Estive pensando.

– Nenhum filósofo deveria precisar dele.

– Do que?

– Do cérebro.

Ficaram conversando. Steve não sabia por que voltou a se aproximar

de Quaid. O homem tinha dez anos mais que ele e pertencia a um clã

intelectual distinto. Para ser honesto, provavelmente o intimidava. Sua

conversa incessante sobre bestas o desconcertava. E, entretanto, queria mais:

mais metáforas, continuar ouvindo aquela voz monótona lhe contar quão

inúteis eram os professores, quão fracos os estudantes.

No mundo de Quaid não havia certezas. Não possuía gurus seculares

e, evidentemente, nenhuma religião. Parecia incapaz de contemplar nenhum

sistema, já fora político ou filosófico, sem cinismo.

Embora poucas vezes ria em voz alta, Steve sabia que em sua visão do

mundo havia um humor amargo. As pessoas eram ovelhas e cordeiros, todos

procuravam pastores. Naturalmente, para Quaid esses pastores eram pura

ficção. Tudo o que existia na escuridão, fora do redil, eram os medos que se

abatiam sobre o cordeiro inocente: esperando, pacientes como pedras, seu

momento.

Devia duvidar de tudo menos do fato de que o terror existia.

A arrogância intelectual de Quaid era estimulante. Steve começou a se

afeiçoar à facilidade iconoclasta com que destruía uma crença atrás da outra.

Às vezes era doloroso quando Quaid formulava uma objeção irrefutável

contra algum dos dogmas de Steve. Mas em poucas semanas o simples ruído

de demolição parecia excitá-lo. Quaid estava limpando a floresta, destruindo

as árvores, destroçando os restolhos. Steve se sentia livre.

Nação, família, Igreja, lei. Tudo reduzido a cinzas. Tudo inútil. Tudo

enganos, cadeias e asfixia.

Só existia o terror.

– Eu temo, você teme, ele teme – gostava de dizer. – Ele, ela, isso

teme. Não há ser consciente sobre a superfície do mundo que não conheça o

terror mais intimamente que seu próprio batimento do coração.

Um dos alvos favoritos dos ataques de Quaid era outra estudante de

filosofia e literatura inglesa, Cheryl Fromm. Espantava-se tanto ante suas

observações mais ultrajantes como um peixe ante a chuva, e enquanto os dois

se atiravam com unhas e dentes sobre os argumentos do outro, Steve se

refastelava em seu assento e contemplava o espetáculo. Cheryl era, segundo a

fórmula de Quaid, uma otimista patológica.

– Você está cheio de merda – dizia ela quando a discussão se animou

um pouco – quem pode se importar que você se assuste com sua própria

sombra? Eu não estou assustada. Sinto-me bem.

Certamente que estava. Cheryl era objeto de sonhos eróticos, mas era

muito brilhante para que alguém ousasse abordá-la.

– Todos sentimos terror de vez em quando – respondia Quaid, e seus

olhos leitosos estudavam cuidadosamente o rosto de Cheryl, espiando sua

reação, tentando, Steve sabia, encontrar uma debilidade em sua convicção.

– Eu não.

– Nenhum medo? Nem pesadelos?

– De maneira nenhuma. Tenho uma boa família, não guardo

esqueletos no porão. Nem sequer como carne, assim não me sinto mal

quando passo junto a um matadouro. Não tenho nenhuma miséria a exibir.

Isso significa que não sou real?

– Significa. . – Os olhos do Quaid tinham a pupila rasgada de uma

serpente. – Significa que sua segurança tem algo importante a ocultar.

– Outra vez com os pesadelos!

– Horríveis pesadelos.

– Especifique: defina os termos que utiliza.

– Não posso te dizer do que você tem medo.

– Então me diga de que você tem medo.

Quaid vacilou.

– No fim das contas, é impossível de analisar.

– Impossível de analisar? Não me faça rir!

Quaid voltou para seu tema predileto.

– O que eu temo é algo pessoal. Não tem sentido em um conjunto

mais amplo. As imagens do meu terror, as imagens que me cérebro utiliza, se

quiser, para ilustrar meu medo, são pouca coisa em comparação com o

autêntico horror que está na raiz de minha personalidade.

– Eu tenho imagens – disse Steve. – Visões de minha infância que me

fazem pensar em. . – deteve-se, lamentando sua confissão.

– O que? – perguntou Cheryl. – Você se refere a coisas relacionadas

com experiências ruins? A uma queda da bicicleta ou algo parecido?

– Talvez – admitiu Steve. – Às vezes me surpreendo pensando nessas

visões. Não faço isso deliberadamente, só ocorre quando perco a

concentração. É como se meu cérebro se dirigisse para elas de forma

automática.

Quaid emitiu um leve grunhido de satisfação.

– Exatamente – disse.

– Freud escreveu sobre o tema – advertiu Cheryl.

– O que?

– Freud – repetiu, desta vez sublinhando as palavras, como se

estivesse falando com um menino. – Sigmund Freud, pode ser que tenha

ouvido falar dele.

O lábio do Quaid se enrugou com um desprezo não dissimulado.

– As fixações da mãe não resolvem meu problema. Os verdadeiros

terrores que existem em mim, em todos nós, são anteriores à personalidade. O

terror está presente antes que tenhamos consciência de nós mesmos como

indivíduos. A unha do polegar, protegida no útero, sente medo.

– Você se recorda disso? – ironizou Cheryl.

– Talvez – replicou Quaid, mortalmente sério.

– O útero?

Quaid sorriu pela metade. Steve pensou que esse sorriso significava:

―Sei que você não‖.

Era um sorriso estranho, desagradável, que Stephen teria gostado de

apagar de seus olhos.

– Você é um mentiroso – acusou Cheryl, levantando-se de seu assento

e olhando por cima do ombro de Quaid.

– Sou o melhor – admitiu, convertido de repente em um perfeito

cavalheiro.

Depois disso acabaram as discussões.

Não se falou de pesadelos, nem se discutiu sobre os terrores noturnos.

Steve viu Quaid de forma irregular no mês seguinte e, quando o via,

encontrava-se sempre em companhia do Cheryl Fromm. Quaid era educado

com ela, até diferente. Já não vestia sua jaqueta de couro porque Cheryl odiava

o aroma da pele dos animais mortos. Esta súbita mudança em suas relações

desconcertou Stephen, mas atribuiu isso a sua escassa compreensão dos

assuntos sexuais. Não era virgem, mas as mulheres continuavam constituindo

um mistério para ele: achava-as contraditórias e enigmáticas.

Também estava com ciúmes, embora não quisesse admitir claramente.

Doía-lhe que o gênio dos sonhos úmidos lhe roubasse tanto tempo de Quaid.

Também tinha outra sensação: o curioso pressentimento de que

Quaid estava cortejando Cheryl por suas próprias e misteriosas razões. O sexo

não era o que atraía Quaid, estava certo disso. Tampouco era seu respeito pela

inteligência de Cheryl o que o fazia mostrar-se tão atento. Não, de algum

modo a estava encurralando, isso era o que lhe dizia seu instinto. Estava

preparando Cheryl Fromm para a morte.

E logo, ao fim de um mês, Quaid deslizou na conversa uma pequena

observação a respeito do Cheryl:

– Ela é vegetariana.

– Cheryl?

– Cheryl, é obvio.

– Já sei. Ela disse faz tempo.

– Sim, mas nela não é um simples capricho. O tema a apaixona. Não

pode olhar sequer o balcão de um açougue. Não toca em carne, não a cheira. .

– Oh.

Steve estava perplexo. Aonde conduziria tudo aquilo?

– Terror, Steve.

– Da carne?

– Os indícios são diferentes em cada pessoa. Ela tem medo da carne.

Diz que é tão sã, tão equilibrada. . Merda! Veremos!

– Ver o que?

– O medo, Steve.

– Você não vai. .?

Steve não sabia como expressar sua ansiedade sem parecer acusador.

– Machucá-la? Não, não vou lhe fazer nenhum mal. Qualquer prejuízo

que lhe cause será estritamente auto-infligido.

Quaid o contemplava quase hipnoticamente.

– Está na hora de começarmos a confiar um no outro – prosseguiu.

Aproximou-se um pouco mais. – Entre nós. .

– Olhe, não acredito que você queira ouvir.

– Temos que tocar à besta, Stephen.

– Ao inferno com a besta! Não quero ouvir!

Steve se levantou para evitar a opressão do olhar de Quaid e dar por

finalizada a conversa.

– Somos amigos, Stephen.

– Sim..

– Então respeite-o.

– O que?

– O silêncio. Nenhuma palavra.

Steve assentiu. Essa não era uma promessa difícil de cumprir. Não

podia contar suas angústias a ninguém sem que rissem dele.

Quaid parecia satisfeito. Saiu correndo, deixando Steve com a

sensação de que tinha entrado sem querer em uma sociedade secreta, cujos

objetivos não tinha a mais remota idéia. Quaid fizera um pacto com ele e isso

era perturbador.

Na semana seguinte não assistiu as aulas nem à maioria dos

seminários. Não tomou notas, não leu livros nem redigiu trabalhos. As duas

vezes que foi ao edifício universitário andava sigilosamente como um

camundongo precavido, desejando não encontrar Quaid.

Não tinha por que sentir medo. A única vez em que viu os ombros

encurvados de Quaid do outro lado do pátio estava distraído trocando

sorrisos com Cheryl Fromm. Esta ria musicalmente, e sua risada era

correspondida pelo eco da parede do departamento de história. Steve já não

sentia ciúmes. Nem por todo o ouro do mundo teria desejado estar tão perto

de Quaid, ser tão intimo dele.

O tempo que passava sozinho, afastado do bulício das classes e dos

corredores lotados, fez que sua mente se tornasse ociosa. E seus pensamentos

retornaram a seus temores, como a língua ao dente, a unha à ferida.

E também a sua infância.

Quando tinha seis anos, um carro o atropelou. As feridas não eram

muito perigosas, mas a comoção cerebral o deixou parcialmente surdo. Foi

uma experiência muito angustiante não compreender por que ficara isolado de

repente do mundo. Era uma tortura inexplicável, e o menino pensou que isso

seria eterno.

Em um momento sua vida tinha sido real, tinha estado cheia de gritos

e risadas. Um momento depois tinha sido posto à margem, o mundo se

transformou em um aquário, cheio de peixes que o olhavam boquiabertos

com grotescos sorrisos. Ainda mais: havia ocasiões em que padecia do que os

médicos chamam zumbido, um ruído estrondoso que lhe soava nos ouvidos.

A cabeça se enchia dos ruídos mais estranhos, gritos e assobios que serviam

de fundo aos movimentos do mundo exterior. Nesses casos o estômago

revolvia, e era como se uma faixa de ferro lhe envolvesse a fronte,

despedaçando seus pensamentos, separando as mãos da cabeça, a intenção da

prática. Era tomado por uma onda de pânico, era absolutamente incapaz de

entender o mundo enquanto o ruído uivava e chocalhava na sua cabeça.

Mas os piores terrores chegavam de noite. Às vezes despertava no que

tinha sido (antes do acidente) o seio protetor de seu dormitório, descobrindo

que os zumbidos tinham voltado enquanto dormia.

Abria os olhos desmesuradamente e o corpo se empapava de suor. A

mente se enchia do ruído mais buliçoso, ruído que o prendia sem esperança

de alívio. Nada podia sossegar sua cabeça e nada, ao que parecia, podia lhe

devolver o mundo, a fala, a risada e o pranto.

Estava sozinho.

Esses foram a colocação, o nó e o desenlace de seu terror. Estava

completamente só com sua cacofonia. Encerrado naquela casa, naquele

quarto, naquele corpo, naquela cabeça, prisioneiro de uma carne surda e cega.

Isso era insuportável. Às vezes gritava de noite, sem saber que estava

emitindo sons, e os peixes que tinham sido seus pais acendiam a luz e

tentavam ajudá-lo, inclinando-se sobre a cama e gesticulando, fazendo feias

caretas com suas bocas mudas ao tentar socorrê-lo. As carícias acabavam por

acalmá-lo, com o tempo, sua mãe aprendeu a mitigar o pânico que se

apoderava dele.

Uma semana antes de seu sétimo aniversário recuperou a audição, não

totalmente, mas o suficiente para que lhe parecesse um milagre. O mundo

recuperou sua nitidez, a sua vida recomeçou.

Ao menino custou vários meses para voltar a confiar em seus

sentidos. Ainda despertava de noite como se previsse os ruídos de sua cabeça.

Mas embora seus ouvidos zumbissem ante o som mais leve, o que lhe impediu

de assistir aos concertos de rock com o resto dos estudantes, agora quase

nunca percebia a sua leve surdez.

Lembrava-se dela, é obvio, e muito bem. Podia evocar o sabor do

pânico, a sensação de ter uma faixa de ferro ao redor da cabeça. E ainda havia

nela um resíduo do medo: à escuridão, de estar sozinho.

Mas todo mundo não tinha medo de estar sozinho? De estar

completamente sozinho?

Steve sentia outro medo, muito mais difícil de superar. Quaid.

Em uma sessão reveladora, bêbado, tinha lhe falado de sua infância,

da surdez, dos terrores noturnos.

Quaid conhecia sua debilidade: o caminho largo que conduzia até o

coração do terror do Steve. Tinha uma arma, um pau com o qual podia

golpeá-lo se fosse necessário. Talvez por isso, decidiu não falar com Cheryl

(avisá-la, se era isso o que queria fazer) e certamente essa era a razão de que

evitasse Quaid.

Este tinha um ar pérfido em certos momentos de mau humor. Nem

mais nem menos. Parecia uma pessoa com a maldade dentro de si, muito

dentro.

O melhor daqueles quatro meses observando às pessoas sem ouvi-las

tinham sensibilizado Steve por causa dos olhares de soslaio, os sorrisos e o

desprezo que revoam em suas caras. Sabia que a vida de Quaid era um

labirinto, tinha gravado no rosto, em mil pequenos gestos, o mapa de suas

complexidades.

A fase seguinte da iniciação de Steve ao mundo secreto de Quaid

aconteceu quase três meses e meio depois. As aulas da universidade foram

interrompidas durante as férias de verão, e os estudantes foram cada um para

seu lado. Steve se dedicou a seu trabalho de verão habitual na gráfica de seu

pai, eram horas longas e exaustivas fisicamente, mas lhe propiciavam um

descanso indubitável. Tantas discussões lhe tinham saturado o cérebro, sentia-

se como se o tivessem enchido de palavras e idéias. O trabalho na gráfica lhe

permitiu aliviar-se de tudo isso pouco tempo, limpando o matagal de sua

mente. Foi uma boa temporada, mas logo voltou a pensar em Quaid.

Voltou para a universidade no fim de setembro. Havia poucos

estudantes no campus. A maioria dos cursos não começavam até a semana

seguinte, e no ambiente flutuava um ar de melancolia, sem a habitual multidão

de jovens se queixando, falando ou discutindo.

Steve estava na biblioteca separando alguns livros importantes antes

que seus companheiros de classe os pegassem. Os livros eram ouro puro no

princípio do curso, com toda a bibliografia por ler, e a biblioteca da

universidade pediria como sempre que se encarregassem dos títulos

necessários. Esses livros vitais chegavam invariavelmente dois dias depois do

seminário em que ia se falar do autor. Naquele ano, o último, Steve estava

decidido a ser o primeiro na fila que se formasse para obter os poucos

exemplares para os trabalhos de seminário que houvesse na biblioteca.

Falou-lhe uma voz familiar.

– Voltou logo ao trabalho.

Steve levantou a vista para encontrar-se com as íris rasgadas de Quaid.

– Estou impressionado, Steve.

– O que?

– Seu entusiasmo pelo trabalho.

– Oh.

Quaid sorriu.

– O que você está procurando?

– Algo sobre Bentham.

– Tenho Princípios de Moral e Legislação. Serve?

Era uma armadilha. Não, isso seria absurdo. Oferecia-lhe um livro.

Como podia interpretar esse simples gesto como uma armadilha?

– Bem pensado. – E o sorriso se tornou ainda mais amplo. – Acredito

que é o exemplar da biblioteca o que tenho. Darei para você.

– Obrigado.

– As férias foram boas?

– Sim, obrigado. E as suas?

– Muito gratificantes.

O sorriso tinha degenerado em uma linha magra entre. .

– Deixou o bigode crescer.

Era uma nova manifestação do caráter doentio daquele espécime.

Fino, espaçado e de um loiro sujo, subia e baixava sob o nariz de Quaid como

se tentasse sair da face. Este pareceu ligeiramente perturbado.

– Fez isso pela Cheryl?

Agora sim que sua confusão foi total.

– Bom. .

– Parece que teve boas férias.

Em sua expressão havia algo, além de confusão.

– Tenho umas fotografias maravilhosas – disse Quaid.

– Do que?

– Fotos de festas.

Steve não podia acreditar nos seus ouvidos. Cheryl teria domado

Quaid? Fotos de festas?

– Algumas o surpreenderão.

Havia um pouco de vendedor de postais no comportamento de

Quaid. Que demônios eram essas fotografias? Fotos feitas com filtro e

desdobradas de Cheryl surpreendida lendo Kant?

– Não imaginei que você fosse fotógrafo.

– A fotografia se converteu em uma paixão para mim.

Fez uma careta ao dizer ―paixão‖. Havia uma excitação contida em

sua atitude. Estava radiante de prazer.

– Tem que vir vê-las.

– Eu..

– Esta noite. E assim, ao mesmo tempo, pega o Bentham.

– Obrigado.

– Na minha casa. Passada a esquina do hospital de maternidade, na

rua Pilgrim. Número sessenta e quatro. Depois das nove?

– De acordo. Obrigado. Cale Pilgrim.

Quaid assentiu.

– Não sabia que havia casas habitáveis na rua Pilgrim.

– Número sessenta e quatro.

A rua Pilgrim era desolada. A maioria das casas não eram mais que

escombros. Algumas estavam em demolição. As paredes interiores expostas

de forma pouco natural: papéis pintados rosa e verde pálido, as chaminés dos

pisos superiores penduradas sobre abismos de tijolos fumegantes. As escadas

não conduziam, nem de ida nem de volta, a nenhuma parte.

O número sessenta e quatro estava solitário. As casas adjacentes

tinham sido demolidas e escavadas, deixando um deserto de pó de tijolos que

algumas ervas, atrevidas e temerárias, tentavam povoar.

Um cão branco de três patas vigiava seu território ao redor daquela

casa, deixando pequenas marcas de urina a intervalos regulares para delimitar

seus domínios.

A casa de Quaid, ainda sem ter nada de palácio, era mais acolhedora

que o ermo que a rodeava.

Beberam juntos um vinho tinto que Steve tinha levado e fumaram um

pouco de erva. Quaid estava muito mais suave do que Steve jamais tinha visto

antes, satisfeito de falar de trivialidades em lugar do terror, rendendo-se de vez

em quando, inclusive contando alguma piada. O interior da casa estava nu.

Não havia quadros na parede nem tipo algum de decoração. Os livros de

Quaid, e tinha centenas, estavam amontoados no chão, e Steve não pôde

descobrir com que critério. A cozinha e o banheiro eram primitivos. Toda a

atmosfera era quase monástica.

Depois de um par de horas aprazíveis, a curiosidade se apoderou de

Steve. – Onde estão as fotos das férias? – perguntou, consciente de que

arrastava um pouco as palavras, embora já não se importasse com isso.

– Ah, sim. Meu experimento.

– Experimento?

– Para ser sincero, Steve, não sei se deveria lhe ensinar isso.

– Por que não?

– Estou metido em algo sério, Steve.

– E eu não estou preparado para nada sério, é isso o que quer dizer?

Steve notava que a técnica de Quaid o envolvia, embora fosse óbvio e

transparente o que estava fazendo.

– Não disse que não estivesse preparado. .

– Que diabos é esse assunto?

– Fotos.

– De?

– Lembra-se da Cheryl?

– Imagens da Cheryl. Sei.

– Como ia esquecê-la?

– Não voltará para o curso.

– Oh.

– Teve uma revelação.

O olhar do Quaid parecia o de um louco.

– O que quer dizer?

– Sempre estava tão tranqüila, não é verdade? – Quaid falava dela

como se tivesse morrido. – Tranqüila, simpática e pensativa.

– Sim, suponho que era tudo isso.

– Pobre puta! Tudo o que queria era um bom pó.

Steve sorriu como um menino ante as palavras obscenas de Quaid.

Era chocante, era como ver um professor com o pênis pendurando para fora

das calças.

– Passou parte de suas férias aqui.

– Aqui?

– Nesta casa.

– Você gostou?

– É uma vaca ignorante. Pretensiosa, fraca e estúpida. Mas não te

daria, não te daria absolutamente nada.

– Refere-se a que não queria foder?

– Oh, não! Baixava as calcinhas fácil. Eram seus medos o que não. .

A velha canção.

– Mas a convenci no seu devido tempo.

Quaid tirou uma caixa de trás de uma pilha de livros de filosofia. Nela

havia um maço de fotos em preto e branco ampliadas ao tamanho de um

postal. Passou a primeira série para Steve.

– Eu a prendi, Steve. – Quaid dizia sem emoção. – Para ver se podia

obrigá-la a dar rédea solta a seus terrores.

– Que quer dizer com prendê-la?

– No piso de cima.

Steve se sentiu estranho. Podia ouvir muito brandamente um zumbido

em seus ouvidos. O vinho sempre fazia a cabeça zumbir.

– Eu a prendi no piso superior – repetiu Quaid, – como experimento.

Por isso aluguei esta casa. Não havia vizinhos que escutassem.

– Nenhum vizinho para escutar o que?

Steve olhou a imagem granulada que tinha na mão.

– Uma câmara oculta – explicou Quaid. – Nunca soube que estava

fotografando.

A foto número um era de um quarto, pequeno e anódino. Alguns

poucos móveis normais.

– Este é o quarto. Em cima daqui. Quente. Inclusive um pouco

cansativo. Sem ruídos.

– Sem ruídos.

Quaid lhe deu a foto número dois.

O mesmo quarto. Agora não tinha quase móveis. Um saco de dormir

estava estendido ao longo de uma parede. Uma mesa. Uma cadeira. Uma

lâmpada nua.

– Foi assim que o preparei para ela.

– Parece uma cela.

Quaid grunhiu.

Terceira foto. O mesmo quarto. Sobre a mesa uma jarra de água. Em

um canto, uma caixa mau coberta por uma toalha.

– Para que é a caixa?

– Ela tinha que fazer as necessidades.

– Sim.

– Com todas as comodidades – assinalou Quaid. – Não pretendia

reduzi-la a um estado animal.

Até em sua bruma etílica, Steve captou a ironia de Quaid. Não

pretendia reduzi-la a um estado animal. Entretanto...

Foto quatro. Sobre a mesa, em um prato, uma fatia de carne. Um osso

sobressaindo.

– Boi – indicou Quaid.

– Mas, ela é vegetariana!

– Certo. Está ligeiramente salgado, bem feito e é de boa qualidade.

Foto cinco. O mesmo. Cheryl está no quarto. A porta está fechada.

Está golpeando-a com os pés e com as mãos, seu rosto reflete uma intensa

fúria.

– Deixei-a no quarto por volta das cinco da manhã. Estava dormindo:

eu mesmo a levei para o leito. Muito romântico. Ela não sabia o que estava

acontecendo.

– Prendeu-a ali?

– Claro. Um experimento.

– Não a avisou?

– Falamos do terror, já me conhece. Sabia o que era o que eu desejava

descobrir. Sabia que eu precisava de cobaias. Entendeu em seguida. Assim que

compreendeu o que eu trazia entre as mãos se tranqüilizou.

Foto seis. Cheryl está sentada em um canto do quarto, pensando.

– Acredito que pensava que poderia ter mais paciência que eu.

Foto sete. Cheryl olha a perna de boi. Lança olhares à mesa.

– Bonita foto, não acha? Olhe sua expressão de nojo. Odiava até o

aroma de carne cozida. Ainda não estava faminta, naturalmente.

Oito: dormindo.

Nove: fazendo as necessidades. Steve se sentiu incomoda ao ver a

garota sentada sobre a caixa, com as calcinhas nos tornozelos. Tinha marcas

de lágrimas no rosto.

Dez: bebe água da jarra.

Onze: volta a dormir, de costas para o quarto, enroscada como um

feto. – Quanto tempo ficou no quarto?

– Esta foto foi tirada quando estava há quatorze horas no quarto.

Perde muito rapidamente a noção do tempo. Não havia mudanças de luz. Seu

relógio corporal se desregulou em seguida.

– Quanto tempo ficou ali?

– Até que confirmou minha tese.

Doze: acordada, passeia ao redor da carne que está sobre a mesa.

– Esta foi tirada na manhã seguinte. Estava acordada. A câmara tirava

fotos a cada quatro horas. Olhe seus olhos. .

Steve escrutinou mais de perto a fotografia. Havia um pouco de

desespero em seu rosto: um olhar extraviado, selvagem. Pela forma com que

contemplava a carne parecia tentar hipnotizá-la.

– Tem aspecto de doente.

– Está cansada, isso é tudo. De fato dormiu muito, mas isso só parecia

deixá-la mais exausta que antes. Nesse momento já não sabe se é dia ou noite.

E tem fome. Se passou um dia e meio. Está mais que um pouco faminta.

Treze: dorme outra vez, enroscada em uma bola ainda menor, como

se quisesse tragar a si mesma.

Quatorze: bebe mais água.

– Troquei a jarra enquanto dormia. Dormia profundamente: poderia

ter cantado e dançado e ela não despertaria. Perdida para o mundo.

Fez uma careta.

―Louco – pensou Steve. – Este cara está louco.‖

– Deus, aquilo fedia! Sabe como cheiram às vezes as mulheres: não é

suor, é outra coisa. Um aroma denso, de carne. Sangrento. Estava assim no

final de sua estadia. Não era o que eu tinha planejado.

Quinze: toca a carne.

– Aqui se vê seu primeiro desfalecimento – disse Quaid com um

júbilo tranqüilo na voz. – Aqui começa o terror.

Steve estudou a foto de perto. O granulado da cópia esfumava os

detalhes, mas a pobre moça estava sofrendo, isso era certo. Tinha o rosto

franzido, dividida entre o desejo e a repulsa, enquanto tocava a carne.

Dezesseis: voltava a estar na porta, lançando-se contra ela, e todo seu

corpo tremia. Sua boca era uma careta negra de angústia, gritava para a porta

inerte. – Sempre que tinha que enfrentar a carne acabava me xingando.

– Há quanto tempo estava aqui?

– Quase três dias. Você está vendo uma mulher faminta.

Não era difícil apreciar. Na foto seguinte estava de pé, tranqüila, com

os olhos longe da tentação da comida, todo seu corpo tenso ante o dilema.

– Você a está matando de fome.

– Pode-se suportar facilmente dez dias sem comer. Os gordos são

freqüentes em qualquer país civilizado, Steve. Seis por cento da população

britânica está obesa do ponto de vista clínico em um momento ou outro. De

qualquer forma, ela estava muito gorda.

Dezoito: a garota gorda está sentada no canto do quarto, chorando.

– Aí começou a ter alucinações. Pequenos tiques mentais. Acreditava

sentir algo no cabelo ou no dorso da mão. Às vezes ficava olhando para o ar

sem ver nada.

Dezenove: lava-se. Está nua até a cintura, tem os peitos cheios, a cara

desprovida de expressão. A carne de boi apresenta um tom mais escuro que

nas fotos anteriores.

– Lavava-se com regularidade. Nunca passavam doze horas sem que

se asseasse da cabeça à ponta dos pés.

– A carne parece. .

– Passada?

– Escura.

– Faz calor no quarto, e há algumas moscas com ela. Encontraram a

carne e depositaram seus ovos. Sim, está maturando perfeitamente.

– Isso fazia parte do plano?

– Claro. Se a carne lhe enojava quando estava fresca, qual não será sua

repugnância ante uma carne podre? Este é o ponto crucial de seu dilema, não?

Quanto mais espera para comer, mais nojo lhe dará o que tem para alimentar-

se. De um lado está presa por seu horror da carne, e de outro, por seu terror

da morte. Qual dos dois cederá primeiro?

Steve estava tão preso como ela.

Por um lado esta brincadeira começava a ficar muito pesada, e o

experimento de Quaid se converteu em um exercício de sadismo. Por outro

lado, queria saber até onde chegaria a história. Havia algo sem dúvida

fascinante em ver uma mulher sofrer.

As sete fotos seguintes – vinte, vinte e um, dois, três, quatro, cinco,

seis – refletiam a mesma rotina. Dormir, lavar-se, fazer as necessidades, olhar

a carne. Dormir, lavar-se. .

E logo veio a vinte e sete.

– Está vendo?

Ela agarra a carne.

Sim, agarrava-a, com a cara cheia de horror. A pata de boi parece mais

que passada, está salpicada de ovos de mosca. Torcida.

Na fotografia seguinte tem a cara afundada na carne. Steve acreditou

sentir o sabor da carne podre na garganta. Sua mente imaginou um fedor

apropriado e criou um molho de podridão para saborear com a língua. Como

Cheryl pôde fazer isso?

Vinte e nove: está vomitando na caixa do canto do quarto.

Trinta: está sentada e olhando a mesa. Está vazia. Atirou a jarra de

água contra a parede. O prato está quebrado. O boi está atirado ao chão em

um atoleiro putrefato.

Trinta e um: dorme. Tem a cabeça escondida entre os braços.

Trinta e dois: está de pé. Olhando outra vez para a carne, desafiando-

a. A fome que sente está aparente no rosto. O nojo, também.

Trinta e três: dorme.

– Quantos dias agora? – perguntou Steve.

– Cinco dias. Não, seis.

Seis dias.

Trinta e quatro: É uma forma imprecisa que aparentemente se

equilibra contra uma parede. Ou melhor a golpeia com a cabeça, Steve não

pôde distinguir. Não tinha nenhuma intenção de perguntar. Algo nele não

queria saber.

Trinta e cinco: dorme de novo, desta vez debaixo da mesa. O saco de

dormir está em pedaços, farrapos de roupa e partes de estopa cobrem o

quarto.

Trinta e seis: fala com a porta, a quem está do outro lado, sabendo que

não obterá resposta.

Trinta e sete: come a carne rançosa.

Senta-se tranqüilamente sob a mesa, como um homem primitivo em

sua cova, e morde a carne com os incisivos. Seu rosto volta a ficar sem

expressão, todas as suas energias se concentram na decisão que tomou.

Comer. Comer até que a fome desapareça, até que a angústia de seu estômago

e o enjôo de sua cabeça desapareçam.

Steve contemplou a foto.

– Ela me surpreendeu – comentou Quaid – o súbito de sua derrota.

Em um momento parecia estar tão resistente como sempre. O monólogo que

recitou em frente a porta era a mesma mescla de ameaças e desculpas que

proferia dia sim dia não. E então veio abaixo. Assim, de repente. Sentou-se

sobre a mesa e comeu a carne até o osso como se fosse um prato fino.

Trinta e oito: dorme. A porta está aberta. Entra luz. Trinta e nove: o

quarto está vazio.

– Para onde foi?

– Desceu as escadas. Entrou na cozinha, bebeu vários copos de água e

se sentou em uma cadeira três ou quatro horas sem dizer uma só palavra.

– Falou com você?

– Como no passado. Quando começou a sair de seu estado amnésico.

O experimento tinha acabado. Não quis lhe fazer mal.

– O que ela disse?

– Nada.

– Nada?

– Absolutamente nada. Durante muito tempo acredito que nem

sequer percebeu que eu estava no quarto. Depois cozinhei umas batatas e ela

as comeu.

– Não tentou chamar à polícia?

– Não.

– Nada de violência?

– Nada. Sabia o que eu tinha feito e por que. Não foi premeditado,

mas tínhamos falado de experimentos parecidos em conversas abstratas. Na

realidade não tinha sofrido nenhum dano. Talvez tenha perdido um pouco de

peso, mas isso foi tudo.

– Onde ela está agora?

– Foi embora no dia seguinte. Não sei para onde.

– E o que tudo isso demonstrou?

– Absolutamente nada, mas me deu um interessante ponto de partida

para minhas investigações.

– Ponto de partida? Foi só um ponto de partida?

Havia um asco manifesto no tom que Steve empregou com Quaid.

– Stephen...

– Podia tê-la matado!

– Não.

– Ela podia ter enlouquecido. Desequilibrada para sempre.

– Possível, mas improvável. Era uma mulher de muito caráter.

– Mas você pôde com ela.

– Sim. Era um passo que estava disposta a dar. Tínhamos falado que

enfrentasse o seu medo. Assim aí estava eu, permitindo que Cheryl fizesse

justamente isso. Nada importante, na realidade.

– Obrigou-a a fazê-lo. Senão, ela não teria passado por isso.

– Certo. Foi instrutivo.

– Ou seja, agora é professor.

Steve teria desejado evitar aquele tom sarcástico, mas não pôde.

Sentia-se invadido pelo sarcasmo e a cólera, e experimentava um pouco de

medo. – Sim, sou professor. – Quaid observou Steve, de soslaio. – Ensino

terror às pessoas.

Steve olhou para o chão.

– Está satisfeito com o que ensinou?

– E com o que aprendi, Steve. Também aprendi. É uma perspectiva

muito emocionante, há um mundo de medos por investigar. Especialmente

com sujeitos inteligentes. Inclusive racionalizando-os...

Steve se levantou.

– Não quero ouvir mais nada!

– Não? De acordo.

– Amanhã cedo tenho aula.

– Não.

– O que?

Um batimento do coração, um hesitação.

– Não. Não vá ainda.

– Por que?

Tinha o coração acelerado. Nunca tinha compreendido quanto temia

Quaid.

– Tenho mais livros para lhe dar.

Steve notou que se ruborizava ligeiramente. O que tinha pensado um

momento antes? Que Quaid ia derrubá-lo com um murro e experimentar com

seus temores?

Não. Isso era uma idiotice.

– Tenho um livro sobre o Kierkegaard que você gostará. Vamos.

Demoro dois minutos.

Quaid abandonou a sala sorrindo.

Steve se virou sobre seus quadris e começou a juntar as fotografias. O

momento em que Cheryl agarrou pela primeira vez a carne podre era o que

mais lhe fascinava. Tinha uma expressão no rosto totalmente distinta da

mulher que ele tinha conhecido. Tinha marcada a dúvida, a confusão e um

profundo..

Terror.

Era a palavra que Quaid usava. Uma palavra asquerosa. Uma palavra

obscena, associada a partir dessa noite à tortura infligida por ele a uma garota

inocente.

Durante um instante Steve pensou que expressão teria seu próprio

rosto enquanto examinava a fotografia. Não havia algo daquela mesma

confusão em seus próprios traços? E talvez também algo daquele terror, à

espera de ser liberado.

Ouviu um ruído a suas costas. Era muito suave, Quaid não podia tê-lo

produzido.

A não ser que andasse sigilosamente.

Oh, Deus! A não ser que..

Colocaram um pano com clorofórmio contra sua boca e suas fossas

nasais. Inalou involuntariamente, e os vapores lhe fizeram cócegas na

pituitária e rompeu a chorar.

Uma mancha negra apareceu em um canto do mundo, fora da vista, e

esse borrão começou a crescer, acompanhando o ritmo de seu coração cada

vez mais acelerado.

No centro de sua cabeça ―via‖ a voz de Quaid como se fosse um véu.

Pronunciava seu nome.

– Stephen.

Outra vez.

– . .ephen.

– . .phen.

– . .hen.

– . .en.

A mancha ocupava todo o mundo. O mundo estava negro, tinha

desaparecido. Da vista, da mente.

Steve caiu sobre as fotografias.

Quando despertou não estava consciente de sua própria consciência.

Havia escuridão por toda parte. Ficou deitado durante uma hora com os olhos

bem abertos antes de perceber que eles estavam abertos.

Como prova, mexeu primeiro os braços e as pernas, depois a cabeça.

Não estava preso, como esperava, exceto pelo tornozelo. Decididamente,

havia uma corrente ou algo similar ao redor de seu tornozelo esquerdo.

Irritava-lhe a pele quando tentava afastar-se muito.

O chão que tinha abaixo era muito incômodo, e quando o investigou

atentamente com a palma da mão percebeu que estava curvado sobre um

grande ralo ou uma espécie de grade. Era de metal e, até onde lhe alcançavam

os braços, tinha uma superfície completamente regular. Quando introduziu o

braço pelos buracos do ralo não tocou nada. Só ar e vazio por baixo dele.

As primeiras fotos infravermelhas que Quaid tirou da prisão de

Stephen mostravam sua exploração. Como tinha imaginado, o sujeito estava

fazendo frente a sua condição muito racionalmente. Nada de histeria. Nada de

blasfêmias. Nenhuma lágrima. Esse era o desafio em expor aquele sujeito em

particular. Sabia com precisão o que estava ocorrendo, e reagiria com lógica

ante seus temores. Certamente se protegeria com uma vontade mais difícil de

dobrar que a de Cheryl.

Mas os resultados seriam muito mais gratificantes quando desabasse.

Não se abriria então sua alma para que Quaid a visse e a tocasse? Aquele

homem tinha dentro de si tantas coisas que ele desejava estudar. .

Os olhos do Steve se acostumaram gradualmente à escuridão.

Estava aprisionado no que parecia uma espécie de conduto. Calculou

que teria uns seis metros de profundidade e que era completamente redondo.

Seria uma espécie de poço de ventilação para um túnel ou uma fábrica

subterrânea? O cérebro de Steve apresentou o mapa da área da rua Pilgrim,

tentando imaginar onde estava. Não lhe ocorria nenhum lugar.

Nenhum lugar.

Estava perdido em um lugar que não podia determinar nem

reconhecer. O conduto não tinha marcas que pudessem servir de referência, e

as paredes não apresentavam gretas nem buracos onde refugiar a consciência.

Pior ainda: estava curvado com os membros estendidos sobre um ralo

suspenso sobre um poço. Seus olhos não podiam discernir nada da escuridão

que tinha abaixo de si, parecia que o poço não tinha fundo. E só a magra rede

do ralo e a frágil crrente que o amarrava a ela impediam a sua queda.

Viu a si mesmo em equilíbrio entre um céu negro vazio e uma

escuridão infinita. O ar estava quente e viciado. Secou as lágrimas que lhe

tinham aparecido nos olhos, deixando-os pegajosos. Quando começou a gritar

pedindo ajuda, coisa que fez depois de chorar, a escuridão tragou as suas

palavras. Depois de gritar até enrouquecer voltou a tombar sobre o ralo. Não

podia evitar de pensar que sob o frágil leito se encontravam as trevas mais

absolutas. Era absurdo, naturalmente. ―Nada é eterno‖, disse em voz alta.

Nada é eterno.

E, entretanto, nunca saberia. Se caísse na escuridão absoluta que tinha

a seus pés, cairia, cairia e cairia sem ver o fundo do poço. Embora se

esforçasse por pensar em imagens mais brilhantes e otimistas, sua mente só

evocava seu corpo precipitando-se pelo horrível poço, com o fundo a meio

metro de seu corpo e sem que seus olhos o vissem ou seu cérebro o previsse.

Até que tocasse o fundo.

Veria luz quando sua cabeça estalasse pelo golpe?

Compreenderia a razão de sua vida e de sua morte no momento em

que seu corpo se reduzisse a pedaços?

E logo pensou que Quaid não se atreveria.

– Não se atreverá! – gritou. – Não se atreverá!

As trevas tragavam com gulodice suas palavras. Por mais que gritasse,

era como se nunca tivesse proferido um grito.

E logo lhe ocorreu outra idéia: uma autêntica perversidade. E se

Quaid tivesse encontrado esse inferno circular para depositá-lo porque nunca

o encontrariam, nunca investigariam? Talvez queria levar seus experimentos

até o extremo.

Até o último extremo. A morte se encontrava no último extremo. E

não seria esse o experimento definitivo de Quaid? Observar a morte de um

homem: observar como crescia seu medo da morte, o filão primitivo do

terror. Sartre escreveu que nenhum homem poderia conhecer jamais sua

própria morte. Mas conhecer intimamente a morte alheia – contemplar as

acrobacias que certamente realizaria a mente para disfarçar a amarga verdade,

– essa era toda uma chave para descobrir sua natureza, não? Até certo ponto,

isso prepararia um homem para sua própria morte. Viver de forma indireta o

terror de outro era a forma mais segura e inteligente de tocar à besta.

―Sim – pensou, – Quaid poderia me matar por causa de seu próprio

terror.‖ Steve encontrou um amargo consolo nessa idéia. Que Quaid, o

experimentador imparcial, o futuro educador, estava obcecado pelos terrores

porque o seu era ainda mais profundo.

Por isso tinha que observar outros a enfrentar seus próprios medos.

Necessitava de uma solução, uma fórmula para fugir de si mesmo.

Pensar em tudo isto levou horas. Na escuridão o cérebro do Steve era

como um azougue, só que incontrolável. Era-lhe difícil seguir o

desenvolvimento de uma idéia por muito tempo. Seus pensamentos eram

como peixes pequenos e rápidos, que lhe escorriam da mão assim que

conseguia capturá-los.

Mas por baixo de cada dobra de pensamento se encontrava a decisão

de deixar Quaid fora do jogo. Isso era certo. Devia conservar a calma,

demonstrar que era um sujeito pouco interessante para seu estudo.

As fotografias correspondentes a essas horas mostravam um Stephen

curvado sobre o ralo com os olhos fechados e o cenho ligeiramente franzido.

Paradoxalmente, de vez em quando um sorriso aparecia por um segundo em

seus lábios. Às vezes era impossível saber se estava dormido ou acordado,

pensando ou sonhando.

Quaid esperava.

De quando em quando, os olhos do Steve se moviam sob suas

pálpebras, um indício inconfundível de que estava sonhando. Quando o

sujeito dormia era o momento de lhe dar a volta à churrasqueira. .

Steve despertou assustado. Pôde ver perto de si uma terrina de água

sobre um prato, e outra terrina cheia de papa de aveia morna e sem sal, ao

lado. Comeu e bebeu agradecido.

Duas coisas ocorreram enquanto comia. Primeiro, o ruído que fazia ao

comer soava muito forte dentro de sua cabeça, e segundo, notava certa

pressão e rigidez nas têmporas.

Nas fotografias se via Stephen agarrando torpemente a cabeça. Tinha

um arnês preso com o ferrolho fechado. Os bornes se afundam nos ouvidos,

evitando que penetrasse qualquer ruído.

As fotos revelavam seu desconcerto. Logo sua ira. Depois seu medo.

Steve estava surdo.

Tudo o que podia ouvir eram os ruídos de sua cabeça. Os estalos de

seus dentes. O ranger e o chapinhar da saliva no paladar. Os ruídos

retumbavam em seus ouvidos como canhonaços.

Os olhos se encheram de lágrimas. Chutou o ralo sem ouvir o choque

de seus saltos contra as barras metálicas. Gritou até que a garganta doeu como

se estivesse sangrando. Não ouviu nenhum de seus gritos.

O pânico começou a fazer morada nele.

As fotos mostravam como surgiu. Tinha a cara avermelhada, os olhos

muito abertos, os dentes e gengivas descobertas em uma careta.

Parecia um macaco assustado.

Invadiram-lhe todas as sensações familiares de sua infância.

Recordava-as como os rostos de velhos inimigos: o tremor dos membros, o

suor, a náusea. Desesperado, agarrou a tigela de água e derrubou na cabeça.

Momentaneamente, a impressão da água fria afastou sua mente da escada para

o pânico que subia. Voltou a tombar sobre o ralo, com o corpo como uma

tabela, e se propôs a respirar devagar e profundamente.

―Relaxe, relaxe, relaxe‖, disse em voz alta.

Em sua cabeça podia ouvir o estalo da língua. Também ouvia sua

mucosa evoluir pelos passadiços do nariz obstruídos pelo pânico, que lhe

tapava os ouvidos. Já podia identificar o suave e ligeiro vaio que se escondia

atrás de outros ruídos. Era o som de seu cérebro. .

Era parecido a esse espaço mudo que há entre as emissoras de rádio,

era o mesmo gemido que se apoderava dele sob a ação da anestesia, o mesmo

som que zumbia em seus ouvidos quando estava a ponto de dormir.

Seus membros ainda se retorciam convulsivamente, e só estava

semiconsciente de como lutava contra os nós que o algemavam, indiferente ao

fato de que as cordas lhe esfolassem as mãos.

As fotografias gravaram com precisão todas estas reações. Sua guerra

contra a histeria: seus patéticos esforços por impedir que seus medos

voltassem a sair. As lágrimas. As mãos ensangüentadas.

Finalmente, como tantas vezes lhe tinha ocorrido quando criança, o

cansaço pôde mais que o pânico. Quantas vezes se deixou adormecer, incapaz

de continuar lutando, com o sabor salgado das lágrimas no nariz e na boca?

O esforço tinha elevado o volume dos ruídos de sua cabeça. Agora,

em vez de entoar uma canção de ninar, o cérebro lhe apitava e gritava para

que dormisse.

Que bom era esquecer!

Quaid se sentia enganado. Certamente, pela velocidade de sua resposta

ficava claro que Stephen Grace ia desmoronar em seguida. Na realidade, com

poucas horas do experimento, já quase ruíra. E Quaid tinha apostado em

Stephen. Depois de meses de preparar o terreno, parecia que seu sujeito ia

enlouquecer sem revelar uma só chave.

Uma palavra, uma miserável palavra era tudo o que necessitava. Um

pequeno sinal a respeito da natureza de sua experiência. Ou, melhor ainda,

algo que sugerisse uma solução, um totem salvador, talvez uma prece.

Certamente quando uma pessoa se vê arrastada para a loucura lhe acode

algum salvador à boca. Deve haver algo.

Quaid esperava como a ave de rapina no cenário de um açougue,

contando os minutos que restavam à alma agonizante, ansiando por um

pedaço.

Steve despertou com a cabeça sobre o ralo. O ar ainda estava mais

viciado, e as barras de metal se cravavam nas bochechas. Tinha calor e estava

incomodado.

Continuou curvado tranqüilamente, deixando que os olhos voltassem

a se acostumar com a sua volta. As linhas do ralo se afastavam em perfeita

perspectiva até a parede do poço. A singela rede de barras em cruz lhe pareceu

bonita. Sim, bonita. Acariciou as linhas para frente e para trás até que se

cansou do jogo. Aborrecido, virou-se para ficar de barriga para cima, sentindo

as vibrações do ralo sob seu corpo. Estava menos estável agora? Parecia

balançar um pouco quando ele se movia.

Quente e suado, Steve desabotoou a camisa. Tinha o queixo molhado

pela baba segregada durante o sonho, mas não se preocupou em secar-se E se

estivesse babado? Quem iria vê-lo?

Tirou pela metade a camisa, e colocou nos pés os sapatos trocados.

Sapato: ralo: queda. Seu cérebro estabeleceu a relação. Sentou-se.

Pobre sapato! Ia cair. Escorregaria entre as barras e o perderia. Mas não.

Estava em perfeito equilíbrio entre os dois lados de um buraco do ralo, ainda

podia recuperá-lo se tentasse.

Estirou-se para seu pobre, miserável sapato, e ao mover-se fez que o

ralo mudasse de posição.

O sapato começou a escorregar.

– Por favor – suplicou, – não caia.

Não queria perder seu belo sapato, seu formoso sapato. Não devia

cair. Não devia.

Ao estirar-se para agarrá-lo, o sapato se desequilibrou do lado do salto

e caiu pela grade na escuridão.

Aquela perda lhe arrancou um grito que não pode ouvir.

Oh, se tivesse podido ouvir como caía seu sapato! Contar os segundos

da queda. Ouvi-lo cair ruidosamente ao fundo do poço. Assim pelo menos

teria sabido quanto teria que cair até morrer.

Não podia suportar mais. Deu a volta sobre o estômago e, de barriga

para baixo, introduzindo os dois braços pelos buracos, gritou:

– Eu também cairei! Eu também cairei!

Não podia suportar ficar esperando cair na escuridão, no silêncio ele

choramingava, só queria ir atrás de seu sapato pelo poço escuro até morrer, e

acabar com o jogo de uma vez por todas.

– Eu vou! Eu vou! Eu vou! – exclamou.

Jurou-o solenemente.

Abaixo dele, o ralo se moveu.

Algo tinha se quebrado. A porca, corrente ou corda que prendia o ralo

se partiu. Já não estava na horizontal, estava escorregando pelas barras que o

inclinavam para o lado da escuridão.

Percebeu surpreso que não tinha mais os membros amarrados.

Ia cair.

O homem queria que caísse. O homem malvado. . Como se chamava?

Quake? Quail? Quarrel?1

Em um gesto automático, agarrou o ralo com as duas mãos ao

inclinar-se esta ainda mais. Afinal, não queria cair atrás do seu sapato. Melhor

viver, um breve instante mais de vida, valia a pena. .

A escuridão na borda do ralo era tão profunda... E quem sabia o que

haveria nela?

Em sua cabeça se multiplicaram os ruídos do pânico. O batimento do

coração, de seu maldito coração, a gagueira da mucosa, o chiado seco do

paladar. As mãos, escorregadias de suor, estavam perdendo o controle. A

gravidade o atraía. Exigia seus direitos sobre a massa daquele corpo, pedia que

caísse. Por um momento, depois de jogar um olhar à boca que se abria a seus

pés, acreditou ver monstros agitando-se no fundo. Criaturas ridículas,

extravagantes, desenhos toscos, negro sobre negro. Infames imagens o

olharam com malícia do fundo de sua infância e abriram suas garras para

apanhá-lo pelas pernas.

– Mamãe! – chamou, quando suas mãos se soltaram e ficou a mercê

do terror.

– Mamãe!

Essa era a palavra. Quaid a ouviu claramente, em toda a extensão de

sua banalidade.

– Mamãe!

1 O autor faz um trocadilho intraduzível, apoiando-se na semelhança fonética do Quaid com quake (tremor), quail (codorna ou covarde) e quarrel (rixa) (N. do T.)

Quando Steve chegou ao fundo do poço era incapaz de julgar quanto

estava cansado. No momento em que suas mãos se soltaram do ralo e soube

que as trevas o tragariam, o cérebro se bloqueou. O instinto animal fez que

seu corpo relaxasse, evitando qualquer ferida grave causada pelo impacto. O

resto de sua vida, exceto as reações mais simples, estava destroçado, e os

pedacinhos se ocultaram nas curvas de sua memória.

Quando por fim a luz apareceu, levantou o olhar para a pessoa que

estava na porta, com uma máscara do camundongo Mickey, e sorriu. Foi um

sorriso de menino, de agradecimento para com seu salvador engraçado.

Deixou que o homem o agarrasse pelos tornozelos e o tirasse de rastros da

grande habitação redonda em que estava curvado. Tinha as calças molhadas e

sabia que se sujara enquanto dormia. Mas por isso mesmo o camundongo

divertido lhe daria um beijo ainda maior.

A cabeça dançava sobre os ombros quando o tirou da câmara de

tortura. No chão, ao lado de sua cabeça, havia um sapato. A uns dois metros e

meio acima dele se encontrava o ralo de que tinha caído.

Aquilo já não significava nada para ele.

Deixou que o camundongo o sentasse em um quarto iluminado.

Deixou que lhe devolvesse a audição, embora na realidade não a queria para

nada. Era divertido contemplar o mundo sem som, o fazia rir.

Bebeu um pouco de água e comeu um pouco de bolo doce.

Estava cansado. Queria dormir. Queria a sua mãe. Mas o camundongo

não parecia compreendê-lo, assim chorou e chutou a mesa e atirou os pratos e

as taças ao chão. Logo correu para o quarto contiguo e atirou para ar todos os

papéis que encontrou. Era bonito vê-los voar para acima e cair revoando.

Alguns caíam para baixo, outros para cima. Alguns estavam escritos. Outros

eram fotos. Fotos horríveis. Fotos que lhe causavam uma sensação muito

estranha.

Absolutamente todas as fotos eram de gente morta. Algumas, de

meninos pequenos, outras, de meninos já crescidos. Estavam caídos ou meio

sentados, e tinham profundos cortes no rosto e no corpo, cortes que

revelavam algo asqueroso, uma espécie de confusão de pedaços brilhantes e

pedaços que supuravam. E ao redor dos mortos havia uma pintura negra. Não

eram manchas definidas, mas salpicados, com impressões digitais e marcas de

mãos e tudo muito caótico.

Em três ou quatro fotos se via o instrumento que tinha realizado os

cortes. Sabia como se chamava.

Machado.

A cara de uma mulher tinha um machado afundado quase até o cabo.

Havia um machado na perna de um homem, e outro atirado no chão de uma

cozinha junto a um bebê morto.

Aquele homem colecionava fotos de mortos e de machados, coisa que

a Steve pareceu estranha.

Essa foi sua última idéia até que o aroma muito familiar do

clorofórmio invadiu sua cabeça e ele perdeu a consciência.

O sórdido corredor cheirava a urina rançosa e a vômito fresco. Era

seu próprio vômito, cobria-lhe todo o peito. Tratou de levantar-se, mas as

pernas tremiam. Fazia muito frio. A garganta doía.

Então ouviu passos. Parecia que o camundongo voltava. Talvez o

levasse para casa.

– Levante-se, filho.

Não era o camundongo. Era um policial.

– O que faz aí embaixo? Já disse para você levantar.

Apoiando-se contra os tijolos desfeitos do corredor, Steve conseguiu

ficar de pé. O policial o iluminou com uma lanterna.

– Jesus Cristo! – exclamou, com nojo pintado na cara. – Você parece

uma autêntica merda. Onde mora?

Steve negou com a cabeça, olhando sua camisa empapada de vômito

como um colegial envergonhado.

– Como se chama?

Não conseguia lembrar.

– Seu nome, garoto.

Estava tentando recordar. Se pelo menos o policial não gritasse tanto!

– Vamos, controle-se.

As palavras não tinham muito sentido. Steve notava que as lágrimas

ardiam no fundo dos olhos.

– Casa.

Agora estava soluçando, sentia-se completamente desamparado.

Queria morrer, deitar-se no chão e morrer.

O policial o agitou.

– Você está drogado? – perguntou-lhe, tirando Steve para a luz e lhe

examinando a cara manchada de lágrimas.

– É melhor se mover.

– Mamãe! – chamou Steve. – Quero a minha mãe.

Essas palavras mudaram por completo o curso da conversa.

De repente, o espetáculo pareceu mais que repugnante ou lamentável

ao policial. Aquele pequeno bastardo com os olhos injetados em sangue e o

jantar na camisa estava deixando-o nervoso. Muito dinheiro, muita sujeira nas

veias e nada de disciplina.

―Mamãe‖ foi a gota que encheu o copo. Socou Steve no estômago,

um direto limpo, seco, funcional. Steve curvou choramingando.

– Cale-se, filho!

Outro murro arrematou a tarefa de nocautear o menino, e então lhe

agarrou por uma mecha de cabelo e aproximou a cara do pequeno drogado à

sua.

– Quer ser um pária, não é?

– Não, não!

Steve não sabia o que era um pária, só queria agradar o policial.

– Por favor – disse, a ponto de começar a chorar outra vez – , me leve

para casa.

O policial pareceu surpreso. O menino não começou a defender-se

nem a invocar seus direitos, como faziam quase todos. Estavam acostumados

a acabar assim, no chão, com o nariz quebrado e chamando um assistente

social. Aquele só chorava. Começou a ter um mau pressentimento.

Possivelmente estava louco ou um algo parecido. E tinha dado uma surra no

pequeno chorão. Bosta! Agora se sentia culpado. Agarrou Steve pelo braço e o

levou para seu carro, do outro lado da rua.

– Entre.

– Me leve..

– Vou levá-lo para casa, filho. Vou levá-lo para casa.

No albergue procuraram entre a roupa do Steve alguma identidade

sem encontrar nenhuma, depois desinfetaram o corpo caso tivesse pulgas e o

cabelo caso estivesse infestado de lêndeas. Então o policial partiu, coisa que

tranqüilizou Steve. Não tinha gostado daquele cara.

Os funcionários do refúgio falavam dele como se não estivesse na

sala. Referiam-se a quão jovem era, discutiam a respeito da sua idade mental,

suas roupas, seu aspecto. Logo lhe deram uma barra de sabão e lhe indicaram

onde estavam os chuveiros. Permaneceu dez minutos sob a água e se secou

com uma toalha suja. Não se barbeou, embora tivessem lhe deixado uma

navalha. Tinha esquecido como se fazia.

Mais tarde lhe deram roupas velhas, que gostou. Não eram pessoas

tão más, embora falassem dele como se não estivesse presente. Um daqueles