Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade por BYLAARDT, Cid Ottoni - Versão HTML

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des problemas da crítica literária e da fi lo-

Como Cid Bylaardt muito bem res-

sofi a contemporâneas.

saltou na lúcida introdução que escreve

Já se usou a metáfora do enxame

a este seu livro, um dos propósitos ao

(aves, abelhas voando em conjunto) para

colocar em diálogo a fi cção de António

exprimir a noção de uma espécie de man-

Ao longo de toda sua existência, a Universidade Federal do

Lobo Antunes e a obra de Maurice Blan-

cha de multiplicidades, de proliferação.

Ceará (UFC) vem contribuindo de modo decisivo para a educação

Cid Ottoni Bylaardt

chot foi pensá-las segundo a lógica do

Eis uma boa imagem do tratamento que

em nosso país. Grandes passos foram dados para sua consolidação

paradoxo e da impossibilidade. Na estei-

Cid dá à fi cção de António Lobo Antu-

como instituição de ensino superior, hoje inserida entre as grandes

ra dessa proposição, outras ganharão, no

nes. Pode-se também recorrer à ideia dos

decorrer do texto, relevo e importância.

universidades brasileiras. Como um de seus avanços, merece des-

círculos concêntricos, capazes de impul-

É o caso das formulações de Michel Fou-

taque o crescimento expressivo de seus cursos de pós--graduação,

sionar o exame e o pensamento críticos.

cault e Roland Barthes acerca da morte

Os círculos concêntricos podem também

que abrangem, praticamente, todas as áreas de conhecimento e de-

do autor e das de Jacques Rancière sobre

remeter a escrita e a análise crítica ao pro-

sempenham papel fundamental na sociedade ao formar recursos

as sempre complexas e nada apaguizado-

cesso infi nito, que é o infi nito do próprio

ras relações entre arte e sociedade.

humanos que atuarão na preparação acadêmica e profi ssional de

sujeito que escreve. Esses círculos con-

Assim, o projeto levado a cabo neste

parcela signifi cativa da população.

cêntricos da escrita de Lobo Antunes e da

livro evoca o que numa conversa ocorre:

escrita de Cid sobre a escrita desse autor

para além de uma troca de pensamentos

Cid Ottoni Bylaardt

português submetem-se, ao fi m, a uma

e de informações que pertencem à di-

A pós-graduação brasileira tem sido avaliada de forma sistemá-

espécie de ondulação da linguagem, enca-

mensão do chamado “ajustamento ima-

rada na sua condição de indecidibilidade,

tica nas últimas décadas graças à introdução e ao aperfeiçoamento

ginário entre dois saberes” tem lugar

hesitação, mistura heterotópica, em um

contínuo do sistema nacional de avaliação. Nesse processo, o livro

toda uma rede de apelos e modulações,

espaço no qual se inscreverá a passion du

passou a ser incluído como parte importante da produção intelec-

constituindo aquilo que Roland Barthes

dehors que em Maurice Blanchot encon-

apropriadamente nomeia como “um cor-

tual acadêmica, divulgando os esforços dos pesquisadores que vei-

trará a sua mais aguda formulação.

po que procura outro corpo”. No caso em

culam parte de sua produção no formato livro, com destaque para

É claro que a relação do ensaísta com

pauta, a fi cção de Lobo Antunes procura

L

as coisas é muitas vezes oblíqua, indireta

aqueles das áreas de Ciências Sociais e Humanas. Em consonância

obo Antunes e B

o pensamento de Blanchot e, no mesmo

ou alegórica. É por isso que no diálogo

com esse fato, a Coleção de Estudos da Pós-Graduação foi criada

movimento, a obra de Blanchot é poten-

que aqui se trava entre António Lobo An-

cializada, revigora-se por meio da pala-

visando, sobretudo, apoiar os programas de pós-graduação stricto

tunes e Maurice Blanchot, pela mão de

vra do romance. Dito de outro modo, a

sensu da UFC. Os objetivos da coleção compreendem:

Cid, a linguagem está permanentemente

linguagem da fi cção assume não a fun-

exposta à erosão que emerge de seu pró-

prio interior e que vai tornar frequente-

− Implantar uma política acadêmico-científi ca mais efetiva

lanchot: o diálogo da impossibilidade

Lobo Antunes e Blanchot: ção de informar, mas a de evocar, como

preconizam inúmeras concepções postas

mente fl uidas e indecisas as fronteiras

em circulação graças ao pensamento de

para viabilizar a publicação da produção intelectual em for-

entre literatura e fi losofi a. Como bem des-

matriz estruturalista.

ma de livro;

tacou Eduardo Prado Coelho: “a fi losofi a

É a partir da concepção de que a

que abandonou a ideia do sistema entre-

obra é “impossível”, por nada preten-

ga-se agora a uma vocação irônica que

− Oferecer um veículo alternativo para publicação, de modo

o diálogo da impossibilidade der comunicar, é no interior dessa dupla

incessantemente a descentra de si própria.

inscrição possível-impossível da escrita

a permitir maior divulgação do conhecimento, resultante

É o retorno do caos, na sua plenitude eu-

que Cid constrói essa espécie de álbum

de refl exões e das atividades de pesquisa nos programas de

fórica, como impossibilidade do sistema,

escritural que adequadamente batiza

a vitória do enxame sobre o exame”.

pós-graduação da UFC, considerando, principalmente, o

Figurações da escritura na

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da

Lembrando o poeta que disse que

impacto positivo desse tipo de produção intelectual para a

impossibilidade. Uma das resultantes,

“todo o resto é literatura”, pode-se pen-

sociedade.

talvez a fundamental, deste diálogo é o

sar que o verdadeiro resto que resiste (e

estabelecimento, sob o signo da veloci-

insiste) é o texto na sua singularidade e ir-

fi cção de António Lobo Antunes

dade e no turbilhão de um saber hetero-

redutibilidade, e a escrita na sua condição

Em 2012, ano de sua criação, a Coleção de Estudos da Pós-Gra-

gêneo, de novas relações signifi cantes,

de algo que só existe como feroz sobre-

duação apoiou a edição de 21 livros, envolvendo diversos cursos de

inéditas e criativas. Diz-se álbum por-

vivência (de novo, Eduardo Prado Coe-

mestrado e doutorado.

que se pode pensar este livro como um

lho). Enfi m, pode-se dizer que a fi cção de

objeto construído em módulos, cujos

António Lobo Antunes, o pensamento e a

onze capítulos, cada um dos quais dedi-

obra de Maurice Blanchot e o ensaio de

cados à análise textual de um romance

Cid Bylaardt dão-se as mãos segundo as

de Lobo Antunes, existem como unida-

leis de uma translação possível, sob a for-

des autônomas.

ma da dupla inscrição, de um meio-dizer

Há, então, uma unidade que ressal-

(possível-impossível) entre literatura e fi -

ta e que tem a sua origem em reiteradas

losofi a, entre texto e ensaio crítico, entre

intervenções críticas e analíticas sobre o

o enxame e o exame. Eis o jogo ao qual

mesmo objeto. Trata-se de um livro de

estamos todos convidados.

índole predominantemente ensaística,

DE ESTUDOS DA

que não apenas refl ete sobre o vasto con-

Silvana Maria Pessoa de Oliveira

junto da fi cção de António Lobo Antunes,

Professora associada da UFMG

como se confronta com alguns dos gran-

LOBO ANTUNES E BLANCHOT:

O DIÁLOGO DA

IMPOSSIBILIDADE

(Figurações da Escritura na Ficção

de António Lobo Antunes)

Presidente da República

Dilma Vanna Rousseff

Ministro da Educação

Henrique Paim

Universidade Federal do Ceará – UFC

Reitor

Prof. Jesualdo Pereira Farias

Vice-Reitor

Prof. Henry de Holanda Campos

Editora UFC

Diretor e Editor

Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães

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Presidente

Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães

Conselheiros

Profa. Adelaide Maria Gonçalves Pereira

Profa. Angela Maria R. Mota de Gutiérrez

Prof. Gil de Aquino Farias

Prof. Italo Gurgel

Prof. José Edmar da Silva Ribeiro

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Cid Ottoni Bylaardt

LOBO ANTUNES E BLANCHOT:

O DIÁLOGO DA

IMPOSSIBILIDADE

(Figurações da Escritura na Ficção

de António Lobo Antunes)

Fortaleza

2014

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Lobo Antunes e Blanchot: o Diálogo da Impossibilidade

© 2014 Copyright by Cid Ottoni Bylaardt

Impresso no Brasil / Printed In Brazil

Todos os Direitos Reservados

Editora da Universidade Federal do Ceará – UFC

Av. da Universidade, 2932 – Benfi ca – Fortaleza – Ceará

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Coordenação Editorial

Moacir Ribeiro da Silva

Revisão

Leonora Vale de Albuquerque

Normalização Bibliográfica

Luciane Silva das Selvas

Programação Visual e Diagramação

Carlos Raoni Kachille Cidrão

Capa

Valdianio Araújo Macedo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

Bibliotecária Luciane Silva das Selvas CRB 3/1022

B997l

Bylaardt, Cid Ottoni

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade (figurações da escritura na ficção de

António Lobo Antunes) / Cid Ottoni Bylaardt - Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014.

427 p. ; 21 cm. (Estudos da Pós-Graduação)

ISBN: 978-85-7485-176-1

1. Antunes, Antônio Lobo, 1942 - ensaios. 2. Blanchot, Maurice, 1907-2003 - ficção. 3. Literatura portuguesa - ficção. I. Título.

CDD 808.3

dedicatória

à existência

agradecimentos

à CAPES

à Editora UFC

não respondas, afunda-te no colchão para não esbarrares

com o futuro, não o teu futuro, o de outro, o teu futuro

acabou.3

(Lobo Antunes, Que farei quando tudo arde?)

Mais elle répond. Toute parole commençante commence par

répondre, réponse à ce qui n’est pas encore entendu, répon-

se elle-même attentive où s’affi

rme l’attente impatiente de

l’inconnu et l’espoir désirant de la présence. 4

(Maurice Blanchot, L’entretien infi ni)

3 ANTUNES, 2001. p. 392.

4 BLANCHOT, 1969. p. 69.

Sumário

Apresentação

Dos possíveis e impossíveis da linguagem

por Silvana Maria Pessôa de Oliveira ......................11

Feitio

Os trajetos da Literatura e da Filosofia ................15

1 Para que tanto sofrimento, Santo Deus?

(O caminho da impossibilidade em A ordem

natural das coisas) ..........................................................35

2 Anjos, pássaros, sapatos e outros objetos

inanimados: (Autoria e morte em O manual

dos inquisidores) ..............................................................61

3 Os acordeões desastrados da escrita

(A desordem das vozes e dos corpos em

Tratado das paixões da alma) .......................................93

4 Plumas, lantejoulas e uma cabeleira postiça

(A história de um contínuo infortúnio em

Que farei quando tudo arde?) ....................................125

5 Um olho peludo, um chifre, uma cauda

(A potência silenciosa da palavra em Boa

tarde às coisas aqui em baixo) ....................................163

6 Um chapéu de palha com cerejas de feltro

(A escrita do neutro em Eu hei-de amar uma

pedra) ................................................................................207

7 A noite escura de Maria Clara

(Escrita, morte e noite em Não entres tão

depressa nessa noite escura) ......................................257

8 Não te vi em tempo nenhum em nenhum

lugar: (O espaço da escritura em Ontem não

te vi em Babilônia) .........................................................295

9 Ecos de silêncio

(A escrita fragmentária de O meu nome

é Legião) .............................................................................327

10 Na lagoa entre os discursos das rãs

(A dissolução das categorias narrativas em

o arquipélago da insónia) ............................................339

11 A quem pertencem as luvas?

(Reflexões sobre o relato Que cavalos são

aqueles que fazem sombra no mar?) .........................359

12 Sôbolos rios que vão: escritura e memória

sobre as águas ................................................................381

Remate

Um empreendimento de risco .....................................401

Índice Onomástico .........................................................413

Bibliografia .....................................................................417

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

11

Apresentação

dos possíveis e impossíveis da linguagem

Silvana Maria Pessôa de Oliveira

Doutora em Estudos Literários pela UFMG

Professora Associada da UFMG

“Mais pourquoi deux? Pourquoi deux paroles pour

dire une même chose?”

– “C’est que celui que la dit, c’est toujours l’autre.”

Maurice Blanchot – Léntretien infi ni

Como Cid Bylaardt muito bem ressaltou na lúcida intro-

dução que escreve a este seu livro, um dos propósitos ao colocar

em diálogo a fi cção de António Lobo Antunes e a obra de Mau-

rice Blanchot foi pensá-las segundo a lógica do paradoxo e da

impossibilidade. Na esteira desta proposição, outras ganharão,

no decorrer do texto, relevo e importância. É o caso das formu-

lações de Michel Foucault e Roland Barthes acerca da morte do

autor e das de Jacques Ranciére sobre as sempre complexas e

nada apaguizadoras relações entre arte e sociedade.

Assim, o projeto levado a cabo neste livro evoca o que

numa conversa ocorre: para além de uma troca de pensamen-

tos e de informações que pertencem à dimensão do chamado

“ajustamento imaginário entre dois saberes” tem lugar toda

uma rede de apelos e modulações, constituindo aquilo que

Roland Barthes apropriadamente nomeia como “um corpo

que procura outro corpo”. No caso em pauta, a fi cção de Lobo

Antunes procura o pensamento de Blanchot e, no mesmo

movimento, a obra de Blanchot é potencializada, revigora-se

12

Cid Ottoni Bylaardt

por meio da palavra do romance. Dito de outro modo, a lin-

guagem da fi cção assume não a função de informar, mas a

de evocar, como preconizam inúmeras concepções postas em

circulação graças ao pensamento de matriz estruturalista.

É a partir da concepção de que a obra é “impossível”, por

nada pretender comunicar; é no interior dessa dupla inscrição

possível-impossível da escrita que Cid constrói essa espécie de

álbum escritural que adequadamente batiza Lobo Antunes e

Blanchot: o diálogo da impossibilidade. Uma das resultantes,

talvez a fundamental, deste diálogo é o estabelecimento, sob o

signo da velocidade, e no turbilhão de um saber heterogêneo,

de novas relações signifi cantes, inéditas e criativas. Diz-se ál-

bum porque se pode pensar este livro como um objeto cons-

truído em módulos, cujos onze capítulos, cada um dos quais

dedicados à análise textual de um romance de Lobo Antunes,

existem como unidades autônomas.

Há, então, uma unidade que ressalta, e que tem a sua

origem em reiteradas intervenções críticas e analíticas sobre o

mesmo objeto. Trata-se de um livro de índole predominante-

mente ensaística, que não apenas refl ete sobre o vasto conjunto

da fi cção de António Lobo Antunes, como se confronta com

alguns dos grandes problemas da crítica literária e da fi losofi a

contemporâneas.

Já se usou a metáfora do enxame (aves, abelhas voando

em conjunto) para exprimir a noção de uma espécie de man-

cha de multiplicidades, de proliferação. Eis uma boa imagem

do tratamento que Cid dá à fi cção de António Lobo Antunes.

Pode-se também recorrer à ideia dos círculos concêntricos,

capazes de impulsionar o exame e o pensamento críticos. Os

círculos concêntricos podem também remeter a escrita e a

análise crítica ao processo infi nito, que é o infi nito do próprio

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

13

sujeito que escreve. Estes círculos concêntricos da escrita de

Lobo Antunes e da escrita de Cid sobre a escrita deste autor

português submetem-se, ao fi m, a uma espécie de ondulação

da linguagem, encarada na sua condição de indecidibilidade,

hesitação, mistura heterotópica, em um espaço onde se inscre-

verá a passion du dehors que em Maurice Blanchot encontrará

a sua mais aguda formulação.

É claro que a relação do ensaísta com as coisas é muitas

vezes oblíqua, indireta ou alegórica. É por isso que no diálo-

go que aqui se trava entre António Lobo Antunes e Maurice

Blanchot, pela mão de Cid, a linguagem está permanentemente

exposta à erosão que emerge de seu próprio interior e que vai

tornar frequentemente fl uidas e indecisas as fronteiras entre li-

teratura e fi losofi a. Como bem destacou Eduardo Prado Coelho

“a fi losofi a que abandonou a ideia do sistema entrega-se agora

a uma vocação irônica que incessantemente a descentra de si

própria. É o retorno do caos, na sua plenitude eufórica, como

impossibilidade do sistema, a vitória do enxame sobre o exame”.

Lembrando o poeta que disse que “todo o resto é literatu-

ra”, pode-se pensar que o verdadeiro resto que resiste (e insiste)

é o texto na sua singularidade e irredutibilidade, e a escrita na

sua condição de algo que só existe como feroz sobrevivência

(de novo, Eduardo Prado Coelho). Enfi m, pode-se dizer que

a fi cção de António Lobo Antunes, o pensamento e a obra de

Maurice Blanchot e o ensaio de Cid Bylaardt dão-se as mãos se-

gundo as leis de uma translação possível, sob a forma da dupla

inscrição, de um meio-dizer (possível-impossível) entre litera-

tura e fi losofi a, entre texto e ensaio crítico, entre o enxame e o

exame. Eis o jogo ao qual estamos todos convidados.

15

Feitio

os trajetos da literatura e da filosofia

REMISSÃO

Tua memória, pasto de poesia,

tua poesia, pasto dos vulgares,

vão se engastando numa coisa fria

a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,

se esse travo de angústia nos cantares,

se o que dorme na base da elegia

vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves

e te forçou ao exílio das palavras,

senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, e suas formas breves

ou longas, que sutil interpretavas,

se evapora no fundo de teu ser?

(Carlos Drummond de Andrade)3

3 ANDRADE, 1995. p. 17.

16

Cid Ottoni Bylaardt

Este livro empreende uma leitura de onze dos últimos

romances do escritor português António Lobo Antunes, sob a

perspectiva das concepções de literatura de Maurice Blanchot.

Os romances estudados são Tratado das Paixões da Alma; A

Ordem Natural das Coisas; O Manual dos Inquisidores; Não En-

tres Tão Depressa Nessa Noite Escura; Que Farei Quando Tudo

Arde?; Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo; Eu Hei-de Amar

uma Pedra; Ontem Não Te Vi em Babilónia; O Meu Nome é

Legião; Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?

e Sôbolos Rios Que Vão.

As obras de Maurice Blanchot mais citadas são La Part

du Feu, L’entretien Infi ni, L’espace Littéraire, Le Livre à Venir,

L’écriture du Désastre, La Bête de Lascaux e La Folie du Jour,

embora muitos outros escritos do fi lósofo francês tenham

comparecido quando necessário.

Quanto ao material escrito dos romances de Lobo An-

tunes, preocupamo-nos em nos ater aos textos originais das

edições portuguesas, visto que as “traduções” brasileiras da

editora Rocco (no caso de A Ordem Natural das Coisas e O

Manual dos Inquisidores) alteram de maneira inconveniente,

em algumas passagens, os textos originais, em suas adaptações

de palavras e expressões próprias do português europeu para

a língua do Brasil. Além disso, constatamos que as primeiras

edições dos romances anteriores a Boa tarde às coisas aqui em

baixo, publicadas em Portugal, apresentam uma revisão des-

cuidada. Procuramos então utilizar as edições “ne varietur”,

que se iniciaram com Boa tarde... e atualmente se encontram

em todos os romances anteriores, que tiveram seus textos de-

fi nitivamente fi rmados, com a aquiescência do próprio autor.

No caso de Maurice Blanchot, utilizamos preferencial-

mente as edições originais francesas, visto que há poucas obras

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

17

do escritor francês traduzidas para o português, e em alguns

casos as traduções apresentam inadequações que chegam a al-

terar as ideias do autor. Embora as traduções em português

tenham sido consultadas, optamos por fazer nossa própria tra-

dução dos trechos citados, para manter a uniformidade e a co-

erência das fontes de consulta. Algumas das obras de Blanchot

foram consultadas também em edições norte-americanas, em

inglês. Todos os livros utilizados neste trabalho estão relacio-

nados na bibliografi a.

Com relação a António Lobo Antunes, o fi ccionista pu-

blicou em 1979 seu primeiro romance: Memória de Elefante,

que obteve boa vendagem e mereceu elogios da crítica. Até o

início de 2009, ele havia publicado um total de vinte romances,

além de livros de crônicas e, em novembro de 2005, um livro

curioso, D’este viver aqui neste papel descripto, contendo os tex-

tos das cartas que escrevera aos 28 anos a sua esposa, quando

servia em Angola como ofi cial médico na época da guerra co-

lonial. São textos bastante apaixonados, que tratam de amor e

guerra, organizados por suas fi lhas. Este livro, entretanto, não

apresenta interesse para o presente estudo. Embora ainda pou-

co conhecido no Brasil, Lobo Antunes é indiscutivelmente um

best-seller na Europa, e tem sido objeto de críticas controversas.

Quanto a Maurice Blanchot, a preocupação é seme-

lhante, embora aqui as referências sejam em maior núme-

ro, e muitas delas não podem ser desconsideradas. Autores

como Rancière, Barthes e Foucault, principalmente, cujo

trabalho mantém um diálogo com o pensamento blancho-

tiano, foram convocados sempre que necessário, e presta-

ram importante contribuição. Outros autores também com-

pareceram, com frequência menor, e são mencionados nas

citações e referências.

18

Cid Ottoni Bylaardt

Entretanto, de maneira semelhante ao tratamento que

demos aos textos do romancista, procuramos também não nos

afastar dos textos do autor francês para procedermos às nossas

investigações que conduziram às descobertas aqui descritas.

Os textos do próprio Blanchot, e sempre em seu original fran-

cês, constituem a grande base ensaística desta pesquisa.

Quando se fala de Maurice Blanchot, é difícil estabelecer

uma metodologia, já que a própria escrita ensaística do fi lóso-

fo francês foge à estrutura comumente estabelecida para esse

tipo de texto, ou seja, apresentação-desenvolvimento-conclu-

são. Não se pode também falar em uma “teoria blanchotiana”

da literatura; talvez seja mais pertinente falar em uma maneira

tipicamente blanchotiana de entender a literatura, e particu-

larmente a literatura que ele considera literatura. Não obstante,

existe um pensamento literário blanchotiano coerente, consis-

tente, profundo. Esse pensamento é o que procuramos captar

na leitura de sua obra, tanto na ensaística quanto na fi ccional,

e ainda na ensaístico-fi ccional. Assim, chegamos à nossa me-

todologia, que consistiu em estudar comparativamente os dois

escritores, convocando a um e outro sempre que necessário,

mas tendo normalmente como ponto de partida a fi cção de

Lobo Antunes.

Não se pode, todavia, falar em “aplicação” de uma teoria

blanchotiana ao romancista português. Há, sim, uma preocu-

pação em se proceder a uma leitura cuidadosa do romancista,

nos nove textos escolhidos (após a leitura dos dezenove ro-

mances), e comparar esse universo fi ccional às formulações do

fi lósofo francês, estabelecendo um diálogo às vezes surpreen-

dente, e, na maioria das vezes, fecundo entre eles.

Cumpre comentar ainda a presença de Jacques Ranciè-

re, particularmente no terceiro capítulo, ao lado de Blanchot.

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

19

Rancière não é propriamente um fi lósofo cujo pensamento

seja dedicado à literatura, mas à política e à sociedade. Em seu

livro Políticas da escrita, entretanto, ele faz considerações so-

bre a literatura, situando-a em relação à sociedade, que vão

ao encontro das ideias de Blanchot, tornando extremamente

oportuna sua presença no capítulo como complementação e

suporte ao pensamento blanchotiano. O peso da presença de

Rancière neste texto reside no fato de propiciarmos o encon-

tro de dois fi lósofos alinhados em um pensamento semelhante

sobre a relação entre a arte e a sociedade, sendo que ambos

partem de referências distintas, um pelo viés da literatura e

outro pela perspectiva social.

Rancière ilustra sua concepção de literatura referindo

um fato ocorrido com Victor Hugo, que recebeu para aprecia-

ção textos de um operário-poeta e respondeu com um elogio

que o fi lósofo considera ambíguo:

Há, em seus versos, mais que belos versos. Há uma

alma forte, um coração elevado, um espírito nobre e

robusto. Em seu livro, há um futuro. Continue: seja

sempre o que é, poeta e operário, quer dizer, poeta e

trabalhador.

Em seguida, Rancière comenta as palavras de Victor

Hugo:

O que Hugo quer é separar os versos que são “somen-

te” belos versos — que são literatura — dos que são

“mais”, quer dizer, menos que literatura: a expressão

das propriedades de um espírito, do modo de ser que

convém a uma ocupação social. 4

4 RANCIÈRE, 1995. p. 16.

20

Cid Ottoni Bylaardt

Ser mais do que belos versos é, na interpretação que

Rancière dá às palavras de Victor Hugo, ser menos do que

poesia, do que literatura, é dar ao poema um caráter humanista,

em que a vivência de uma ocupação social avulta sobre a

linguagem literária. Para Blanchot, igualmente, a insufi ciência

da escritura, o désœuvrement impedem a partilha do texto

literário com os modos de fazer e de dizer da sociedade.

O título do trabalho – Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo

da impossibilidade – relaciona-se a uma das mais importantes

ideias desenvolvidas por Maurice Blanchot: a de que a literatu-

ra só é possível no domínio da impossibilidade. Tal afi rmação,

obviamente paradoxal dentro de uma lógica binária, liga-se a

uma busca não explicitada da escrita literária, que independe

da pessoa do escritor, uma demanda sem plano nem objetivo,

conduzida pela força da própria escrita àquilo que Blanchot

chamou le vertige de l’espacement.

Procuramos, com essa denominação, confi rmar a cons-

tatação de que em Lobo Antunes a fabulação romanesca esca-

pa ao curso normal das coisas para afundar-se nesse domínio

órfi co irrecusável. Daí o diálogo entre os dois — que nunca se

conheceram nem se leram — desenvolver-se no reino da im-

possibilidade. Blanchot, falecido em fevereiro de 2003, jamais

citou Lobo Antunes em nenhum de seus textos. Lobo Antunes

garantiu-me pessoalmente que apenas já ouviu falar de Mauri-

ce Blanchot, mas não conhece sua obra.

O subtítulo, evidentemente — Figurações da escrita na

fi cção de António Lobo Antunes — , focaliza o texto literário

que serviu de base para a investigação ligada ao pensamento

de Blanchot. Utilizamos o termo fi guração como oposição a

representação, a partir de uma distinção efetuada por Roland

Barthes em Le plaisir du texte, e que é comentada na nota 77,

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

21

p. 132. Consideramos esse termo mais apropriado à ideia blan-

chotiana de símbolo literário, que é desenvolvida no corpo

deste trabalho.

Cada um dos nove capítulos refere-se especifi camente

a um romance de Lobo Antunes. Consideramos que a abor-

dagem de aspectos do pensamento de Blanchot centrada num

único texto de cada vez tornaria a pesquisa mais segura e con-

sistente, minimizando-se assim os riscos de uma fragmenta-

ção teórica indesejável. É evidente que as ideias se repetem

muitas vezes, mas procuramos fazer com que essas repetições,

ao invés de reiterações inócuas, se tornassem fortes elementos

de confi rmação do diálogo estabelecido.

A referência aos romances nas denominações dos capí-

tulos ultrapassa o texto antuniano para se entrelaçar ao texto

blanchotiano. Assim, por exemplo, “Os acordeões desastrados

da escrita”, sobre Tratado das Paixões da Alma, menciona uma

expressão do próprio romance que está ligado à dissonância

dos valores artísticos proporcionada pelo instrumento trans-

gressor da bela música. Os demais títulos de capítulos seguem

essa linha, e a fi guração é comentada no interior do texto.

Em seguida aparece um subtítulo que remete ao aspecto

do pensamento de Blanchot predominante no texto. “A desor-

dem das vozes e dos corpos”, por exemplo, refere-se à ideia de

fragmentação da escrita e dispersão das vozes, apresentando a

ideia de literatura defendida por Blanchot e Rancière e relacio-

nando-a ao texto fi ccional antuniano.

Em Tratado das Paixões da Alma, a narrativa se desen-

volve em torno do interrogatório, por um Juiz de Instrução, de

um homem acusado de pertencer a uma rede terrorista. O diá-

logo é acompanhado e registrado por um datilógrafo. Em dado

momento, irrompe no texto a voz do escrevente a queixar-se

22

Cid Ottoni Bylaardt

da desordem dos depoimentos e das perguntas. O registro do

diálogo entre um juiz e um acusado pressupõe uma escrita sé-

ria, utilitária, com um objetivo bem defi nido: restabelecer a

ordem social. A situação narrativa, entretanto, caracteriza-se

pela desordem: a voz do datilógrafo alterna-se com os comen-

tários do “cavalheiro” a quem ele se dirige, e com as alterca-

ções do interrogante e do interrogado, que parecem saídas da

escrita do primeiro. Há ainda uma outra voz que se superpõe a

essas quatro, a do narrador anônimo, identifi cada pela ausên-

cia de travessão. O desarranjo estabelecido pelo interrogatório

refl ete-se no registro do datilógrafo, galgando níveis majoran-

tes até reproduzir a escrita do próprio livro, um amontoado de

textos sem nenhuma relação hierárquica ou função utilitária,

compondo o que Maria Alzira Seixo chamou “escrita roma-

nesca disposta em fatias alternadas e múltiplas”5 , que difi culta

a identifi cação das vozes dispersas pela narrativa.

Do meio das múltiplas vozes, emerge em determina-

do momento o próprio autor, de maneira desajeitada, “numa

confi dência envergonhada”6, quando o Homem, cujo sobreno-

me é Antunes, confessa timidamente que seu primeiro nome

é António. Os Antónios, os Antunes, os Zés e outros que aí

aparecem compõem uma espécie de epopeia anódina, em que

sobressaem o comum, o canhestro, o inglório, o que não pode

ser tomado como exemplo. Essa escrita da tolice, do todo-dito,

ligada à história de todo mundo e de ninguém, perpassa todos

os romances de Lobo Antunes que aqui serão analisados.

Os demais capítulos seguem a mesma orientação, e os

signifi cados dos títulos e dos subtítulos emergem na análise.

5 SEIXO, 2002. p. 202

6 ANTUNES, 1990. p. 160.

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

23

Assim, o título do segundo capítulo, “Anjos, pássaros,

sapatos e outros objetos inanimados”, contém imagens de ele-

mentos das frases que aparecem à guisa de epígrafe antes dos

relatos de O manual dos inquisidores. Esses elementos são reto-

mados na análise do capítulo como índices da ausência de um

sentido estabelecido no romance, conduzindo à refl exão sobre

as questões de autoria e morte conforme Maurice Blanchot as

desenvolve, e que são analisadas na escrita da obra.

A propósito do aniquilamento do autor na literatura,

normalmente buscam-se em Roland Barthes (“La mort de

l’auteur”, 1968) e em Michel Foucault (“Qu’est-ce qu’un au-

teur?”, 1969) os textos fundadores da polêmica questão da

“disparition élocutoire du poète” reivindicada por Mallarmé.

O próprio Compagnon, em seu O Demônio da Teoria, credi-

ta a esses dois fi lósofos a responsabilidade de tornar polêmica

essa questão, atribuindo-lhes inclusive motivos ideológicos: se

o autor é o burguês, morte ao autor! Em geral, não se mencio-

nam os escritos do homem que, aproximadamente vinte anos

antes de Barthes e Foucault, já havia formulado sua versão da

morte do autor, sem se importar se o escritor é burguês ou

marxista, no belo ensaio “La Littérature et le Droit a la Mort”,

publicado em janeiro de 1948, no jornal Critique, de Georges

Bataille, e posteriormente incluído no volume La part du feu.

Blanchot diz, com a ênfase que lhe é própria:

Le mot agit, non pas comme une force idéale, mais

comme une puissance obscure, comme une incanta-

tion qui contraint les choses, les rend réellement pré-

sentes hors d’elles-mêmes. Il est un élément, une part

à peines détachée du milieu souterrain: non plus un

nom, mais un moment de l’anonymat universel, une

affi

rmation brute, la stupeur du face à face au fond

24

Cid Ottoni Bylaardt

de l’obscurité. Et, par là, le langage exige de jouer son

jeu sans l’homme qui l’a formé. La littérature se passe

maintenant de l’écrivain: elle n’est plus cette inspiration

qui travaille, cette négation qui s’affi rme, cet idéal qui

s’inscrit dans le monde comme la perspective absolue

de la totalité du monde.7

É notável o fato de que essa questão não foi apenas le-

vantada num parágrafo perdido num ensaio de 1948, que jus-

tifi casse seu “esquecimento” pelos estudiosos da literatura. Ela

foi retomada em inúmeros textos posteriores, e constituiu-se

numa das grandes sustentações do pensamento blanchotiano.

Em L’éspace littéraire (1955), no ensaio “Les Caractéristiques

de L’œuvre d’Art”, Blanchot volta a afi rmar a necessidade de se

ignorar o produtor da obra para que ela seja ela mesma.8

Em “La Mort du Dernier Écrivain”, de Le Livre à Venir,

Maurice Blanchot ironiza as glórias editoriais do escritor, e re-

afi rma a ideia de que quanto maior a obra, menos se mostra

aquele que a fez. A ideia reaparece ainda em quase todas as

obras seguintes, marcadamente em L’entrétien infi ni, La bête

de Lascaux, L’écriture du désastre, L’après coup... Há, portanto,

motivos para se acreditar que tanto Barthes quanto Foucault

tenham dialogado criticamente com os textos de Blanchot, em

seus escritos que tantas polêmicas provocaram.

7 BLANCHOT, 2003A. p. 317. Negritos nossos. Tradução A palavra age, não como

uma força ideal, mas como uma potência obscura, como um encantamento que

submete as coisas, tornando-as realmente presentes fora delas mesmas. É um ele-

mento, uma parte recém-destacada do meio subterrâneo: não mais um nome,

mas um momento do anonimato universal, uma afi rmação bruta, o estupor do

face-a-face no fundo da obscuridade. E com isso a linguagem exige jogar seu

jogo sem o homem que a formou. Agora a literatura dispensa o escritor: ela não

é mais essa inspiração que trabalha, essa negação que se afi rma, esse ideal que se

inscreve no mundo como a perspectiva absoluta da totalidade do mundo.

8 BLANCHOT, 1999A. p. 293.

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

25

A situação de Barthes em relação a Blanchot é singular:

embora aquele tivesse afi rmado, em uma entrevista de 1971,

que, na época em que escreveu Le Degré Zéro de L’écriture

(seu primeiro livro de ensaios, publicado em 1953), não co-

nhecia Blanchot, ele cita o autor de L’espace littéraire pelo

menos quatro vezes em seu livro. A esse respeito, Jonathan

Culler observa:

Numa entrevista publicada em 1971 (“Réponses”, p.

92-3), Barthes diz que estava tentando, em Le degré

zero, “marxizar o compromisso sartreano”. Infelizmen-

te, não podemos confi ar completamente em suas lem-

branças, pois ele também afi rma que, na época, jamais

tinha ouvido falar de Maurice Blanchot que, na reali-

dade, aparece de forma proeminente em Le degré zero:

uma afi rmação dele a respeito de Kafk a é citada ali, o

mesmo ocorrendo com seu trabalho sobre Mallarmé

— sendo esta última considerada a origem das pró-

prias ideias de Barthes.9

Relevando-se a inadequação da tradução do texto de

Culler (onde se lê “... sendo esta última considerada a ori-

gem...”, leia-se “... sendo este último considerado a origem...”),

percebe-se que o crítico inglês também afi rma o infl uxo dos

textos de Blanchot sobre a escrita de Roland Barthes. Quando

Barthes publicou seu primeiro livro de ensaios, justamente Le

degré zéro de l’écriture, em 1953, Blanchot já havia publicado

onze livros, sendo sete de fi cção e quatro de ensaios críticos

sobre literatura, incluindo os importantes Faux pas (de 1943,

contendo as principais ideias que Blanchot desenvolveria nas

décadas seguintes) e La Part du Feu (de 1949), em que sua con-

9 CULLER, 1988. p. 30.

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Cid Ottoni Bylaardt

cepção de literatura se consolida em vários textos, e particular-

mente no artigo “La Littérature e le Droit a la Mort”, já citado.

Voltando ao subtítulo do segundo capítulo, “Autoria e

morte em O manual dos inquisidores”, além da ideia de eli-

minação do autor, desenvolvemos também as noções de im-

possibilidade da morte e de morte da palavra útil na literatura,

ligadas evidentemente ao texto do romance. O manual dos in-

quisidores encena a tormenta da escrita de um livro. Um es-

critor peregrina com uma pastinha debaixo do braço, munido

de papéis, gravador, rolos de fi tas e dossiês, em busca de seus

personagens, detentores das vozes que vão compor o texto.

Nesse romance, o narrador convencional é substi tuído

por dezenove “relatores” e “comentadores” ouvidos pelo escri-

tor, que tenta compor seu livro. O escriba condena seus per-

sonagens a declarações e comentários sem fi m, renunciando

ao papel de pai da narrativa, entregando-a à conversação in-

cessante de seres guindados à condição equivocada de nar-

radores, abdicando de seu papel convencional de condutor

diegético, desfazendo “a bela lenda do relato em espelho e da

biblioteca infi nita onde a literatura gostaria de se refl etir”10, em

nome da insensatez da narrativa, em função da qual existe a

literatura, defeito de sentido do mundo do discurso em relação

a um suposto “mundo das condições”. Quando o velho minis-

tro, protagonista do romance, declara-se incendiado em An-

gola, desistindo, portanto, de ser salvo para a cidade de Lisboa,

pedindo e negando a autoridade de o escritor desfazer o que

estava feito, ele dá ao discurso o toque de insensatez próprio

da literatura. Não satisfeito, ele ainda pede ao escritor que dê o

seu recado, de personagem, ao fi lho, seu conselho derradeiro

10 RANCIÈRE, 1995. p. 94.

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade

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para a existência do personagem fi lho, assumindo a paternida-

de do romance, que, desconcertado, cessa de existir na dimen-

são do pai para reviver nos outros fi lhos do aglomerado social.

Várias são as reações das personagens à presença do

escritor: medo, indignação, revolta, conformismo. Ocorre até

o assédio sexual explícito de uma personagem feminina ao es-

critor, que não reage.

As relações de Francisco com a escrita são mais ator-

mentadas, talvez pelo peso de ser ele o protagonista do ro-

mance, de a ele caber a parcela maior de responsabilidade na

fabulação. Em seu primeiro relato, ele parece dirigir-se a uma

plateia: “como se eu fosse beijá-la senhores”11. No segundo, já

há referências ao interlocutor: “peço desculpa, corrija”12 e “en-

ganei-me, corrija”13. No último, revela-se o momento fabuloso

do tudo é possível, tudo pode acontecer. O personagem quer

ter o poder do escritor, e tenta restaurar sua antiga vida, com

uma pequena ajuda do interlocutor, se ele pudesse parar de

ouvi-lo e transformar-se em afi lhado ou emigrante, qualquer

coisa que não escritor. Ele, o ex-ministro, decaído, doente,

com o cérebro afetado pela trombose, ele, que não consegue

falar e não pode compreender, é ele que faz o seu relato e tenta

convencer o escritor de que as coisas podem ser diferentes, de

que ele ainda poderia salvar a pátria.

O escritor, entretanto, não se deixa infl uenciar pela

tentativa do personagem de assumir a história, e mantém suas

perdas. Não há mais saída, não há solução, o ex-ministro mor-

re duas mortes e continua falando, até que o escritor suspende

momentaneamente essa conversação sem fi m da literatura.

11 ANTUNES, 1998. p. 331.

12 _______. p. 352.

13 _______. p. 355.

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Cid Ottoni Bylaardt

No primeiro capítulo, “Para que tanto sofrimento, Santo