Lugares incertos: os andarilhos de Samuel Rawet por Leo Agapejev de Andrade - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS ORIENTAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS JUDAICOS E ÁRABES

Lugares incertos: os andarilhos de Samuel Rawet

Leo Agapejev de Andrade

Tese de doutorado apresentada ao

Programa de Pós-Graduação em

Estudo Judaicos e Árabes do

Departamento de Letras Orientais

da Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências

Humanas

da

Universidade de São Paulo, para a

obtenção do grau de doutor em

Letras, Área de Concentração

Estudos Judaicos.

Orientadora: Profa. Dra. Berta Waldman

São Paulo

2013

Agradecimentos

Ao prof. dr. Saul Kirschbaum, pela paciência e minúcia ao co-

orientar este trabalho nas fases iniciais.

À Capes, pela bolsa concedida.

Ao Billy, Jovelina, Michelangelo e Violeta, pela companhia.

ii

It was an illusory place that existed in my head, and

that’s where I was as well. In both places at the same time.

In the apartment and in the story. In the story in the

apartment that I was still writing in my head.

(Paul Auster, Oracle night)

— Estar numa cidade não é a mesma coisa que entrar

nela, Mateo. Por exemplo, você e eu em nosso hotel.

Estamos em Buenos Aires, mas não estamos. No

apartamento da Deán Funes eu estava em Buenos Aires, mas

não estava de todo. Em compensação, na Coronda, sim,

Coronda era enfim Buenos Aires, por dentro da cidade, como

se diz, no coração da cidade. E olhe, não acho que seja uma

metáfora; Caballito está no centro de Buenos Aires e Coronda

deve estar no centro de Caballito. Ou, quem sabe, isso já

seja literatura.

(Laura Restrepo, Herois demais)

iii

Resumo: A escrita de Samuel Rawet é formada por peculiaridades que demandam

um leitor atento e crítico quanto à forma de abordagem e interpretação do texto, de maneira

que suas “linhas de força” (Waldman, 2004) sejam entrevistas como potencialidades de

sentidos. O lugar-comum rawetiano, conceito inevitavelmente impreciso formulado a partir

dos contos analisados, mostra ser uma forma de abordagem frutífera e coerente ao texto

rawetiano em geral, ao privilegiar elementos textuais e se juntar a outras abordagens à obra

de Rawet, trazendo questões como identidade, alteridade, literatura judaica e autoria, dentre

outras. Como pontos de partida problematizantes são tomados a figura de Ahasverus em

“Crônica de um vagabundo”, a estrutura aberta e a metalinguagem em “Kelevim”, o conto

dentro do conto em “Reinvenção de Lázaro”, e o sonho em “Sôbolos rios que vão”.

Algumas dessas questões permeiam mais de um dos contos, como a autoria (“Crônica...”,

“Sobolos...”, “Kelevim”). A estrutura aberta de “Kelevim”, por sua vez, permite análises

comparativas com o ensaio-crônica “Diário de um candango”, sobre o livro de memórias de

Marques da Silva, que leva o mesmo título. Ao final, as linhas de força são seguidas ainda

mais longe, e arrisca-se uma rápida aproximação com as artes plásticas que conclui este

trabalho com uma abertura que atesta a riqueza e validade da obra de Rawet.

Palavras-chave: lugar-comum, “linhas de força”, biografia, identidade, alteridade, literatura

judaica, autoria.

iv

Abstract: The writing of Samuel Rawet consists of peculiarities that demand a

careful and critical reader who could approach to and interpretate his writings, in order to

realize its "lines of force" (Waldman, 2004) as potential paths of meanings. The rawetian

commonplace, inevitably imprecise concept formulated from the short stories analyzed,

shows a fruitful and coherent approach to rawetian text, privileging the textual elements and

joinning to the other approaches to Rawet’s work, bringing up issues like identity, otherness,

Jewish literature and authorship, among others. As controversial themes, I focus on

Ahasverus in "Chronicle of a tramp", the open structure and metalanguage in "Kelevim", the

story within the story on "Reinvention of Lazarus," and dream on "Over the flowing rivers".

Some of these issues goes along more than one story, such as authorship ("Chronicle",

“Over...","Kelevim"). The open structure of "Kelevim", on the other hand, allows

comparative analyzes with the chronicle-essay "Diary of a candango", about the same-titled

memoirs of Marques da Silva. Finally, the “lines of foces” are followed even further, and I

dare a quick approximation to the visual arts that ends this thesis with an aperture that attests

the wealthy and valuable works by Rawet.

Keywords: commonplace, “lines of force”, biography, identity, otherness, Jewish literature,

authorship.

v

SUMÁRIO

1. Introdução....................................................................................................................1

2. Fortuna crítica............................................................................................................9

3. Metodologia................................................................................................................24

4. Lugares-comuns.........................................................................................................25

5. Ensaios e biografia.....................................................................................................37

6. “Crônica de um vagabundo” ....................................................................................47

7. O Judeu Errante........................................................................................................77

8. O candango e o engenheiro.......................................................................................94

9. “Kelevim” ................................................................................................................103

10. “Reinvenção de Lázaro” .......................................................................................115

11. “Sôbolos rios que vão” ..........................................................................................121

12. Conclusão...............................................................................................................130

13. Referências bibliográficas.....................................................................................134

13.1 Corpus analisado...................................................................................................134

13.2 Bibliografia consultada..........................................................................................135

14. Anexos.....................................................................................................................140

14.1 Anexo 1.................................................................................................................140

14.2 Anexo 2 – Subnúcleos de “Crônica de um vagabundo”.......................................143

vi

1. Introdução

O programa de Estudos judaicos da USP está inserido no departamento de Letras

Orientais, junto aos programas de russo, japonês, chinês, coreano e árabe, ao qual se juntou

recentemente. Nessa diversidade cultural enorme estão englobadas literaturas diversas que

não estão apartadas das literaturas ocidentais de línguas modernas, como a alemã. A

incômoda imprecisão da classificação persiste quando se fala, no âmbito literário do

Programa de Estudos judaicos, em literatura judaica: necessariamente hifenizada, híbrida,

sem padrões nem modelos claramente definidos de temas e formas, encontra-se diluída pelos

campos literários “alheios”, estes sim confundidos com identidades territoriais e culturais

conflituosas, é verdade, mas convencionalmente definidas e estabelecidas historicamente

segundo jogos de força políticos. Em suma, advogam-se autonomias para as literaturas

nacionais modernas que a chamada literatura judaica não advoga para si1 – daí a

diferenciação entre literatura hebraica moderna (israelense2) e literatura judaica.

Temas da história e da cultura asquenazita são estabelecidos no Brasil de Moacyr

Scliar; em contrapartida, maneiras diversas de se lidar com a própria origem judaica estão

presentes em Rawet, e posteriormente em outros autores como Bernardo Ajzenberg. Diante

desses rápidos exemplos, percebe-se a complexidade histórica e cultural própria da literatura

abordada nos programas de graduação e pós-graduação em Estudos judaicos desse eclético

Departamento de Letras Orientais3.

Nesse contexto, Samuel Rawet tem um lugar peculiar, híbrido de imigrante judeu

(cujas marcas estão presentes em Contos do imigrante, de 1956, e obras posteriores, em

menor grau) e autor nacional familiarizado com a linguagem popular e o espaço urbano do

Rio de Janeiro, de Os sete sonhos (1967) e O terreno de uma polegada quadrada (1969),

volumes nos quais os contos aqui trabalhados estão inseridos. Rawet será, então, estudado

simplesmente como autor de literatura brasileira, uma vez que o enfoque desta tese não será

problematizar a denominação “literatura judaica”, embora inevitavelmente passe por isso,

posto que não sejam categorias estanques.

1 O estudo de autores de cânones nacionais distintos, como Bruno Schulz e Joseph Roth, agrupados nas

literaturas polonesa e alemã, respectivamente, tende a minimizar o contexto cultural comum, poliglota e

judaico, desses dois galicianos relativamente contemporâneos de cultura germânica habsburga.

2 A literatura israelense comporta, em menor número, obras escritas em árabe, e árabes que escrevem em

hebraico.

3 É claro que Rawet e Ajzenberg caberiam perfeitamente num programa universitário dedicado

unicamente à literatura brasileira.

1

Em Orientalismo, Edward Said, referindo-se a uma citação de Gramsci4, menciona

que “Muito do investimento pessoal neste estudo [o texto é o prefácio à edição de 2003 de

Orientalismo] deriva da minha consciência de ser um ‘oriental’, por ter sido uma criança que

cresceu em duas colônias britânicas [Palestina e Egito, além dos EUA].” Por isso, diz, “o

meu estudo do Orientalismo foi uma tentativa de inventariar em mim o sujeito oriental, os

traços da cultura cuja dominação tem sido um fator tão poderoso na vida de todos os

orientais” (2010, p. 57).

Said coloca-se como um oriental, tomando para si a denominação dada por

europeus a não-europeus natos, com toda a complexidade que isso possa trazer. Pode-se

dizer, então, que o autor toma para si – criticamente – o rótulo que lhe foi imposto no

contexto onde nasceu e cresceu como um “estigma” que o acompanharia a vida toda.

Partindo do olhar do dominador, olha para si mesmo não como um reflexo, isto é, como uma

imagem nítida, mas como o produto do olhar alheio, distante e deformador, construído por

palavras e ideologias: “Eu” (diria Said), o oriental, olho para outros como eu (os orientais)

com os termos e linguagem que usam para nos descrever, não para corroborar estereótipos

ou consensos mascaradores de complexidades, mas de modo a implodir a estrutura

homogeneizante do olhar “deles” sobre “nós”; dobro-me sobre mim mesmo e, como oriental

(i.e, pela linguagem “deles”) descubro-me como sujeito, num inventário que busca a

memória de si e das palavras.

Nos termos de Said, o olhar crítico sobre formas homogeneizantes (imagens,

termos, consensos, senso comum e lugares-comuns) desestabilizaria as estruturas sobre as

quais se erguem e se interligam essas formas5. Mas só assim o sujeito escondido e sufocado

por essa crosta de imagens e conceitos torna à superfície, onde não é necessariamente um

heroi, mas um sujeito comum; ou um anti-heroi, como o andarilho de “Crônicas de um

vagabundo”, conto a ser trabalhado nesta tese. Entretanto, só um leitor crítico pode percorrer

um texto sem concessões como é o de Rawet. Portanto, o leitor deve estar atento para os

questionamentos suscitados por esse movimento textual de dobrar-se sobre si mesmo.

4 A citação de Gramsci, de Cadernos do cárcere, é a seguinte: “O ponto de partida da elaboração crítica é a

consciência do que você é realmente, é o ‘conhece-te a ti mesmo’ como um produto do processo histórico até

aquele momento, o qual depositou em você uma infinidade de traços, sem deixar um inventário [...] portanto, é

imperativo no início compilar esse inventário” (Gramsci apud Said, 2010, p. 56-57).

5 A instalação de Cornelia Parker (cf. anexo) ilustra o processo desse olhar crítico: uma cabana

explodida sempre será uma cabana – despedaçada.

2

Crítica, memória e identidade são palavras recorrentes nas entrelinhas dos contos de Samuel

Rawet, escritor que exige um leitor também participativo.

Diante dessa exigência do texto, vista como imperativa por Said, creio que caiba

nesta Introdução um inventário pessoal do sujeito que escreve este trabalho, despertado pelo

diálogo com o texto rawetiano, por meio da figura do andarilho. Isso posto, inicialmente, à

maneira de Edward Said, busco esclarecer os objetivos e as motivações principais deste

trabalho6.

Meu primeiro contato com a literatura judaica passou por Martin Buber e suas

Histórias do rabi (1965), objeto de minha dissertação de mestrado. A questão da alteridade

ficou atrelada, desde então, à condição judaica, dada a forma com que foi pensada. Mas logo

seria novamente problematizada, dessa vez sem resultados tão apaziguadores como em

Buber. Pesquisando sobre possíveis repercussões do pensamento de Buber no Brasil, fora

das áreas pedagógicas e psicológicas (que são grande maioria), encontrei a menção a Buber

na tese de Saul Kirschbaum (2004b) sobre um certo escritor chamado Samuel Rawet. O

primeiro contato com a ficção de Rawet foi o conto “Diálogo”, do livro de mesmo título.

Nesse conto, tudo acontece ou converge para o âmbito subjetivo: conflitos, tensões contidas

sofridamente, hostilidade e desencontro marcam a relação desarmônica entre um pai, que

desajeitadamente manifesta sua preocupação com o futuro do filho, e o filho que se divide

entre reconhecer e criticar as convicções e cuidados do pai ao mesmo tempo em que insiste

em seguir seu próprio caminho. O leitor está diante, portanto, de uma tensão que não se

resolve e que estrutura o conto na forma de discurso indireto livre e monólogo interior. O

conto desenha um espaço intermediário entre pai e filho: não se dá o diálogo buberiano,

encontro de individualidades autoconscientes e desarmadas, mas o exato contrário disso.

Com essa constatação, pensei num projeto em que se verificassem em Rawet os traços

negativos da filosofia de Buber.

Aconteceu que o confronto inicial com a obra de Rawet mostrou-se muito mais

fecunda e complexa que me pareceu à primeira vista. Sua estrutura intrincada e frágil, porém

elaboradíssima e resistente a enquadramentos filosóficos ou identitários, mostrou-se

suficiente para um tese. Nem mesmo o judaísmo é um traço óbvio em Rawet. Buber ficou de

lado, mas antes, influenciou-me na delimitação do tema: a instabilidade dos sentidos nos

6 Remeto também a Vilém Flusser (2011e) em Bodenlos, sua autobiografia filosófica.

3

lugares-comuns7 rawetianos. Foi selecionado, então, um corpus de seis contos, de forma a

concentrar as análises nos aspectos semânticos e estruturais dos contos. Esse corpus foi

apurado e reduzido aos quatro contos que têm como personagens andarilhos e a cidade,

partindo da hipótese de que esses personagens seriam o eixo em torno do qual os lugares-

comuns se desestabilizam e se desconstroem, levando abaixo a estrutura em que estiveram

consolidadas, mas preservando, inevitavelmente, o material de que são feitos.

Ciente das dificuldades de enquadrar os contos de Rawet em campos semânticos

nomeáveis (apesar de imprecisos) como filosofia e judaísmo, perguntei-me se a relação

hostil com a comunidade judaica do Rio de Janeiro, e posteriormente com o judaísmo

praticado em qualquer lugar, estava presente na obra ficcional do escritor como está presente

em seus ensaios. Talvez a leitura dos ensaios tenha me levado a verificar a possibilidade de

explorar esse caminho, mas o fato é que a alteridade mostrou ser uma questão muito

presente e ligada à ética em Rawet, seja explicitamente como em “Diálogo”, seja de forma

subjacente a toda sua obra, conforme apontado por Kirschbaum (cf. Bibliografia). Os traços

de desenraizamento (estrangeiridade, no sentido identitário), da instabilidade de sentidos do

lugar-comum, ambiguidades e indefinições desses contos protagonizados por andarilhos

angustiados que procuram por algo que vai se formando e se modificando à medida que

avançam, num processo que não tem fim e que paradoxalmente transparece no hermetismo

do texto, delinearam personagens ao mesmo tempo comuns e peculiares que viram o mundo

que vivenciam pelo avesso.

Com isso, pretendo verificar nesta tese o modo pelo qual o andarilho rawetiano

pode ser interpretado como um personagem condenado pela própria lucidez e devido ao

próprio desenraizamento, perceptíveis ao longo de suas errâncias. Os andarilhos têm suas

“epifanias”, mas elas são extremamente fugidias e instáveis, condenando-os a partir do zero

depois de cada momento de lucidez conquistada. Esse grau zero da lucidez é a superfície por

onde se deslocam esses andarilhos durante essas pequenas revelações nada religiosas –

epifanias horizontais, que perpassam o espaço, mas não se desligam da condição humana

daqueles que o vivenciam; momentos fugidios que transcendem algo (alguma

limitação, talvez), mas permanecem na superfície, que é onde as coisas acontecem. O

material de que são feitos os lugares-comuns são distinguidos e o que estava escondido, vem

à luz: valores, preconceitos etc.

7 O termo lugar-comum aparece textualmente em vários contos de Rawet. Seus sentidos, bem como sua

imprecisão constitutiva, serão abordados neste trabalho.

4

***

Serão analisados os seguintes contos: “Kelevim”, “Crônica de um vagabundo”,

“Reinvenção de Lázaro” e “Sôbolos rios que vão”, selecionados segundo os critérios acima

expostos (capítulo II, “Metodologia”). Além das análises, também serão abordadas questões

inevitáveis dados os pressupostos adotados, como autoria, interpretação e identidade, além

de questões mais gerais como utopia e a figura do Judeu Errante, especialmente em “Crônica

de um vagabundo”. O conto “Kelevim” pode ser visto como a súmula das questões mais

específicas e genéricas suscitadas pelas análises. Para isso, mostra-se produtiva a análise

comparada entre o conto e o ensaio “Diário de um candango”.

“Kelevim” foi escrito poucos anos depois do ensaio em que narra o encontro de

Rawet com o autor de Diário de um candango (1963), José Marques da Silva, candango que

tomou parte no processo de construção da face não planejada da capital, a das cidades-

satélites e favelas surgidas durante a construção. A Brasília de Vila Planalto, no início um

acampamento de candangos, surgiu, na verdade, como resíduo da capital e do projeto

político de progresso e desenvolvimento que a originou. Surgiu, portanto, como “efeito

colateral” da Brasília dos prédios institucionais? A “ocupação ficcional” de Brasília8 –

Brasília como cenário de ficção e autoria – é uma necessidade apontada pelo autor, e vem

sinalizada (mas não realizada plenamente) por Diário de um candango, o livro, e por

Marques da Silva, seu escritor, um quase-autor. Como efeito colateral dos planos oficiais

para a nova capital, Vila Planalto, no livro de Marques, sinalizaria (além de um indício de

autoria literária) uma distopia – traço que poderia orientar uma análise de “Kelevim”, o

conto, e de Kelevim, o não-lugar.

O ensaio de Rawet traz elementos que ajudam a pensar as estranhas imprecisões9 de

“Kelevim”, Nesse conto, a estrutura narrativa precária disfarça, expondo, a estrutura

delineada com traços muito vagos e nada acolhedores da cidade, do ponto de vista do

personagem que transita por ela, refém do olhar do narrador e também seu criador, que o

abandona ao final do conto. Kelevim, a cidade, é feita das projeções do leitor para fora do

8 “Quando surgirá um autor de Brasília?”, pergunta-se Rawet (2008, p. 163). Doravante, as citações dos

textos de Rawet serão referidas pelo ano da publicação e pela localização em Contos e novelas reunidos

(2004) e Ensaios reunidos (2008).

9 Afinal, como um conto pode construir-se sobre tantas imprecisões, a começar pela sobreposição –

evidentemente, um recurso narrativo – entre narrador e autor?

5

texto, sempre a partir das lacunas do texto10. Parece-me ser uma “carta de intenções”,

projeto de escrita exposto sob a forma de ficção, “necessidade real de fuga e evasão”

(Rawet, 2004, p. 205). Não é simples escapismo, nem delírio abortado, mas busca: o que

faltaria a Kelevim como cidade, e ao personagem que transita por ela? O que existe entre o

personagem e sua cidade? Lê-se, nesse conto, um mapa feito de imagens e palavras. A

consciência do personagem também é parte desse mapa de Kelevim.

Já Brasília é marco da marcha para o interior: “A marcha para o interior era o fator

capaz de reordenar o sentido da ocupação. A verdadeira história seria escrita por Brasília”

(Oliveira, M. apud Klidzio, N., 2010, p. 154). A história da ocupação do território nacional,

da qual Brasília faz parte, tem seu equivalente na ocupação das cidades e na oposição nem

sempre geográfica (mas social e econômica) entre centro e periferia, temas presentes em

“Crônicas de um vagabundo”, “Sôbolos rios que vão” e “Kelevim”, e indiretamente

(enquanto

dualidades

como

abstrato/concreto,

vida/morte,

margem/centro,

humanidade/animalidade etc.) em “Reinvenção de Lázaro”. As dualidades Brasília/Kelevim

e realidade/ficção, projeções permitidas pelo conto “Kelevim” e traçadas como

prolongamentos de suas linhas de força, trazem consigo a dualidade distopia/utopia,

conforme será exposto.

Como se vê, conto e ensaio convidam a extrapolar, sem desrespeitar, os limites do

texto literário, até porque a estrutura entrelaçada do ensaio com o livro de memórias permite

isso. Migrante e imigrante são colocados lado a lado, resguardando suas especificidades; o

fato é que há um lugar em que ambos estão em pé de igualdade nesse deslocamento

espontâneo do escritor-engenheiro ao escritor-candango, motivado por questões literárias.

Como esse movimento repercute no texto e encontra ecos na figura do andarilho rawetiano,

é o que será visto adiante. Diante de textos densos e herméticos cujo ápice, no corpus

delimitado neste trabalho, é “Kelevim”, levei em consideração não só os caminhos que se

mostraram viáveis, mas também as incertezas que tive como leitor11. Ou seja, incorporei ao

texto, em forma de perguntas e exercícios de imaginação a que o conto tentadoramente

chamava, extrapolações de sentido: com isso, permiti-me seguir algumas “linhas de força”

10 Esses lugares imprecisos são aberturas, preenchidas pelo leitor, que permitem a intertextualidade do

conto em questão com “Diário de um candango” (o ensaio e, através deste, o livro). Só é possível ver

Brasília de “Diário...” em “Kelevim” – e essa não é a única leitura possível – se o leitor responder ao

arriscado apelo do texto para ser seu coautor.

11 O método de incorporar ao texto as desorientações que se tem como leitor de Rawet que tenta ir a fundo

nesse texto de superfícies já foi usado por Lilenbaum (2009) em sua tese.

6

(Waldman, 2004) que apontam para fora do texto, perpassando-o, quando isso se mostrasse

produtivo. Um desses caminhos foi testar a hipótese de que em “Kelevim”, os temas

utopismo e errância se encontram, com consequências para ambos no âmbito do conto: o

personagem esboçado é abandonado e o utopismo é trazido para o plano literário,

desideologizando-se12 e tomando a forma de um desiderato de cidade imaginada. Um

caminho de erros, na leitura de Rawet, parece-me ser outra forma de errância,

acompanhando a polissemia que a palavra “errar” tem na leitura de seus contos. Demonstrar

todo o processo tanto pelo avesso como pelo direito seria análogo a incorporar os andaimes

na estrutura do texto, como faz Rawet em “Kelevim”. A errância como leitor faz do próprio

um co-autor do texto que percorre, atingindo-o em seus juízos, preconceitos e cegueiras. Da

mesma forma com que, na literatura contemporânea em geral, os escritores “interferem na

narrativa de modo a ressaltar a presença daquele que fala” (Dalcastagnè, 2012, p. 94), na

literatura brasileira contemporânea o leitor é envolvido nesse “afã autodenunciador”13:

Hoje – o cada vez mais –, [...] [os escritores pretendem], em seu afã

auto-denunciador, que o leitor tropece em juízos alheios, esbarre nos próprios

preconceitos, que ele estreite os olhos para enxergar melhor, percebendo que

também inventa aquilo que não consegue distinguir (idem , p. 94, grifos

meus).

A liberdade e a perdição permitidas ao escritor estendem-se aos leitores. Ao deixar

clara, e não camuflada, a presença de um narrador como mediador (mesmo obscuramente)

entre o texto e seu leitor, traz-se o leitor para dentro do texto – do qual o narrador já é parte.

Em perspectiva misè-en-abime, realidade e ficção, bem como autoria e leitura, refletem-se e

têm seus limites borrados, ainda que se mantenham.

O início deste trabalho foi, como leitor crítico, tatear nos contos os fios que

poderiam me levar à interpretação dos lugares-comuns pelos andarilhos, e pelo leitor ao lado

deles. Essa estratégia mostrou-se arriscada e trabalhosa, mas adequada a contos em que o

narrador sabe tanto do personagem quanto o leitor, segundo Berta Waldman (2003). Como

se pode deduzir a partir disso, o começo do enfrentamento com os contos foi tateante.

12 Contudo, o traço de ideologia permanece à sombra desse conceito, mantendo-se de forma ambígua e como

questão aberta.

13 A autora trabalha com a literatura produzida dos anos 1960 ao ano de 2004.

7

Definido o viés (errância e andarilhos) e o recorte (desconstrução dos lugares-comuns em

Samuel Rawet), seguiu-se a dissecação (quando isso fosse possível) dos textos em unidades

mínimas, a que chamei de núcleos textuais (e subnúcleos, em “Crônica de um vagabundo”).

Dessa forma, definiu-se a oposição complementar centro/periferia como categoria a ser

utilizada. A estrutura desta tese foi-se definindo aos poucos, em muitas tentativas e erros; as

marcas desse percurso são inevitáveis.

8

2. Fortuna crítica

Neste capítulo, passarei em revista a fortuna crítica de Samuel Rawet, detendo-me

nos textos que tiverem relação direta com este trabalho. Serão verificadas, principalmente,

as formas como a crítica trata de temas como errância e identidade na obra ficcional de

Rawet. Outras obras serão apenas mencionadas.

O conto teria tido seu boom na década de 1960, quando Rawet publicou a maior

parte de sua obra de contos. Doramundo, de Geraldo Ferraz, era apontado como outra

revelação literária, ao lado de Rawet, no romance. Hoje, Guimarães Rosa é um clássico da

literatura brasileira, Ferraz só é lembrado na fortuna crítica dedicada a Rawet, e o próprio

Rawet tem despertado interesse universitário.

Uma pesquisa rápida revela que esse interesse acadêmico pela obra de Rawet,

enfocada nos contos e novelas, cresceu nos anos 1990 e 2000, com artigos, apresentações,

teses e dissertações de pesquisadores de universidades de Minas Gerais, São Paulo, Rio de

Janeiro (onde existem núcleos de estudos judaicos na UFMG, na UFRJ e na USP) e Brasília,

onde Rawet viveu e morreu, tendo criado um círculo de amigos literatos. Atualmente há

professores universitários que estudam ou usam em aula os contos e novelas de Rawet.

Os trabalhos encontrados por mim abordam a condição de imigrante, de judeu e de

outsider, procurando por reflexos desses traços identitários do autor em sua obra de ficção,

como Igel (1997), que classifica Rawet como marginal, nos termos acima14. Sem negar que

haja traços judaicos na literatura de Rawet, Kirschbaum (2011) dá um passo adiante e vê o

escritor como organicamente integrado à literatura brasileira, mas descarta a ideia de

nacional e abre espaço para “culturas literárias periféricas” (p. 93): “Se o conto de Rawet

representa uma ruptura com o conto brasileiro produzido até então, creio ser essa uma

ruptura orgânica, que se insere [...] numa conjuntura mais ampla de renovação da literatura

brasileira, com efeitos também sobre o romance e a poesia”15 (p. 94). Chiarelli (in Santos,

2008, p. 558) também vê em Rawet a problematização de consensos ligados à identidade

literária brasileira: “A ideia de um projeto homogêneo de nação é problematizada inúmeras

vezes em seus escritos, que se revelam capazes de apontar a persistência de desigualdades

14 A autora parece levou em consideração apenas Contos do imigrante, primeiro livro de Rawet.

15 O autor trata da renovação do conto brasileiro nos anos 1950, quando Contos do imigrante (1956) foi

publicado.

9

maquiadas sob o discurso da tolerância e da cordialidade”16, como o mito da miscigenação

racial. Os ensaios de Rawet também foram usados por alguns desses trabalhos como apoios

para a interpretação dos contos e novelas17. Algumas vezes, foram necessárias formas novas

de abordar o texto rawetiano, formulando-se conceitos ou mesmo mimetizando a errância

dos personagens, ao longo do trabalho de interpretação. Existe uma tese sobre clichês e

convenções e o projeto literário de Rawet (Antunes, 2011), mas não sobre o lugar-comum

como um conceito que os englobe.

Rawet viveu durante a juventude no subúrbio do Rio de Janeiro. A cidade existente

para além do confortável centro urbano esteve presente em toda sua obra, muitas vezes

como personagem. Bares, ruas e praças da cidade do Rio frequentemente são citados. Mas

há contos em que a cidade é personagem, mas não tem nome nem marca distintiva: pode-se

supor, apenas, que a cidade portuária em que desembarca de ônibus o andarilho de “Crônica

de um vagabundo” (1967) tenha como referência direta lugares do Rio de Janeiro. É, antes

de tudo, uma cidade estranha percorrida por um estranho – aspectos essenciais nos contos de

andarilhos rawetianos, objetos deste trabalho. A estranheza do andarilho, sempre muito

escassamente definido física e subjetivamente nos contos escolhidos para análises, acentua-

se e chega a ser um traço marcante também do narrador em “Kelevim”, metaescrita que

revela projeções éticas para fora do texto, mas circunscrito por este, como desdobramento

possível da postura de Rawet em relação à “fé de ofício18” do escritor.

A memória da infância na Polônia é trazida no conto “Gringuinho”, de Contos de

imigrante (1956); a origem judaica é trazida nos ensaios e entrevistas, e traçada em alguns

contos, como “Lisboa à noite” ( Que os mortos enterrem seus mortos, 1981), ou

mencionados de passagem, como em “Kelevim” (“cafetinagem histórica que se faz com

Auschwitz”). De certa forma, a pertinência a temas judaicos evidentes é discutida nesta tese,

na figura hipotética do Judeu Errante, que surge na epígrafe a “Crônica de um vagabundo”.

A obra de Samuel Rawet despertou reações opostas quando da publicação de seu

primeiro livro, Contos do imigrante, em 1956, ano em que Grande sertão: veredas e Corpo

de baile, de João Guimarães Rosa, também tiveram suas primeiras edições. Por um lado,

Renato Jobim considerou-o ilegível; por outro lado, Jacó Guinsburg considerou-o inovador

16 A autora trabalha com Contos do imigrante na perspectiva dos Estudos Culturais, em Vidas em trânsito

(2005), abordando a representação do imigrante como representação da alteridade, e não em termos de

nacionalidade.

17 Cf. Antunes, 2011.

18 Título de um conto de Rawet.

10

(cf. Santos, 2008). Parte da crítica seguinte resignou-se a explicar seus contos atribuindo à

estranheza própria da escrita de Rawet sua condição de imigrante, supondo que o autor teria

um olhar totalmente estrangeiro sobre a língua portuguesa. Era o início da discussão sobre a

inserção de Rawet no cânone literário nacional.

Marcado pela estrangeiridade, o Judeu Errante como um tipo rawetiano foi

verificado em “Ahasverus...”, mas também em “Crônica de um vagabundo”:

Figura dominante na obra de Rawet, o judeu errante traveste-se no

homem solitário e angustiado que passa, no Vagabundo que caminha sem

destino, percorrendo contos (“O Profeta”, em Contos do Imigrante; “Crônica

de um vagabundo”, em Os sete sonhos, por exemplo), novelas ( Abama, por

exemplo), até alcançar a forma-síntese em sua última novela, Viagens de

Ahasverus... [...] (Waldman, 2002, p. 89).

Mais recentemente, Santana Jr. (2011) fala em recriação do mito de Ahasverus em

“Crônica de um vagabundo”:

Outra contribuição de Rawet, conquanto não seja o foco deste

trabalho, mas merecedora de alguma reflexão, para sua recriação literária do

mito de Ahasverus decorre, também, da experiência desse escritor como

judeu emigrado da Polônia para os subúrbios cariocas. Recriação germinada,

por exemplo, na narrativa “Crônica de um vagabundo”, do livro Os sete

sonhos, de 1964 [1967], na novela “Abama”, de 1967, e em seus ensaios

filosófico-autobiográficos, como em “Devaneios de um solitário aprendiz da

ironia”, publicado no mesmo ano da novela sobre Ahasverus: 1970.

Críticos apontaram esse juízo excludente de um suposto olhar estrangeiro sobre a

língua portuguesa como uma forma acomodada de se lidar com a ficção daquele autor.

Críticos de hoje consideram-no pioneiro na renovação do conto brasileiro desde Machado de

Assis, e de fato Rawet traz questões sobre a figura do autor semelhantes às apontadas por

Abel Baptista em A formação do nome (2003)19.

19 Se, quanto à forma, Rawet renova o conto brasileiro desde Machado, quanto ao projeto literário ele

seria seu herdeiro involuntário.

11

No capítulo sobre o ensaio “Instinto de nacionalidade” (1873), de Machado de

Assis, Baptista (2003) relaciona lugar-comum e metáfora. A problematização do uso da

metáfora cristalizada (lugar-comum), por Rawet, coloca o autor na corrente das tentativas

históricas de definir a brasilidade da literatura brasileira. O seguinte uso de “lugar-comum”,

abarcado pelo lugar-comum rawetiano, traz a problematização da representação de

brasilidade para o âmbito da linguagem comum20:

Em primeiro lugar, a fundação do projeto nacional impôs uma

retórica estreitamente solidária do romantismo [...]. Na verdade, tratava-se de

um conjunto de proposições que espalharam e impuseram através de uma

rede de lugares-comuns: ‘natureza brasileira’, ‘aura americana, ‘civilizações

aborígenes’, ‘elemento indiano’, ‘gênio brasileiro’, ‘cor local’, tudo isso

corria como metáfora do Brasil enquanto fundamento último do projeto de

nacionalização literária, isto é, metáfora do Brasil, ele mesmo funcionando

como metáfora (Baptista, 2003, p. 49).

Em Rawet, a identidade – brasilidade, talvez – de seus personagens liga-se a termos

menos pretensiosos e mais chãos, mas também muito abrangentes: sólidas convenções

sociais, hábitos vazios de sentido, o senso comum paralisante. O modo como o lugar-comum

é trabalhado enquanto metáfora cristalizada (morta) 21, é que particulariza Rawet, que

desconstrói a normalidade do lugar-comum nos seguintes termos: “O lugar-comum estipula

uma coincidência entre o sentido da metáfora e o sentido do uso da metáfora, remetendo-a

para a unidade de uma intenção original estável” (idem, loc. cit.). Inserido no debate sobre o

projeto literário brasileiro, Rawet é representativo do “esgotamento do conceito de nacional”

(Kirshcbaum in Santos, p. 571) atrelado à identidade na pós-modernidade.

Reis (2009), em sua tese, propõe o nomadismo como leitura dos personagens

errantes (não necessariamente andarilhos), alternativa às leituras que privilegiam o imigrante

ou o judaísmo. O vagabundo de “Crônica...” é visto, pelo autor, como um ser em constante

metamorfose que se entrega ao devir. Para isso, “tem que não reconhecer seu passado e seus

valores para ressurgir”, metamorfoseando-se (p. 68).