Luís Alberto de Abreu: Até a Última Sílaba por Adélia Nicolete - Versão HTML

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Luís Alberto de Abreu

Até a Última Sílaba

1

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Projeto Gráfico

e Editoração

Carlos Cirne

Luís Alberto de Abreu

Até a Última Sílaba

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por Adélia Nicolete

São Paulo, 2004

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado Nicolete, Adélia

Luís Alberto de Abreu: até a última sílaba/por Adélia Nicolete. – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : Cultura - Fundação Padre Anchieta, 2004. --

184p. : il. - (Coleção aplauso. Série teatro Brasil / coordenador geral Rubens Ewald Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (obra completa) (Imprensa Oficial) ISBN 85-7060-274-X (Imprensa Oficial) 1. Dramaturgos brasileiros 2. Escritores brasileiros 3. Teatro – Brasil –

história 4. Teatro – Produtores e diretores 5. Abreu, Luís Alberto de, 1952

- Biografia l. Ewald Filho, Rubens. ll. Título. lll. Série.

CDD 792.0981

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Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

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Introdução

Conheci Luís Alberto de Abreu no final da déca-da de 80, num curso de dramaturgia que ele oferecia nas Oficinas Culturais Três Rios, em São Paulo. Uma série de fatores fez com que eu de-sistisse das aulas e tornasse a encontrá-lo somente em 1996, dessa vez em Santo André. Fui sua aluna por alguns anos e posso dizer que, mais do que elaborar textos de teatro, suas aulas nos tornam pessoas melhores. Estudos de psicologia, mitologia, trajetórias heróicas fazem-nos 5

refletir sobre o mundo, sobre a nossa própria vida, nosso próprio caminho.

Nas conversas que tivemos para este livro me convenci ainda mais da sua extrema coerência.

Abreu é do tipo que age conforme o que pro-clama. Pode parecer meio tolo dizer isso, mas, hoje em dia, quantas pessoas se comportam assim? A maioria de nós fala muitas coisas sábias e profundas, mas, na hora de agir, faz justamente o contrário do que apregoa. Ele traz o conhecimento mítico para a própria vida, para o rela-cionamento familiar, para a compreensão do outro e do mundo.

Pode-se dizer que é uma pessoa muito séria. À

primeira vista parece bravo. Neste depoimento vamos descobrir que talvez isso se deva à sua timidez – ou à descendência de garimpeiros e de um lobisomem! No decorrer do convívio, porém, ele vai se mostrando afável e engraça-do, embora sempre mantenha a fera nas entre-linhas. A mesma fera que o impele a novos trabalhos, a não se deitar sobre os possíveis lou-6

ros, a não dar crédito exagerado aos elogios.

Conforme diz, só ele sabe o quanto penou para escrever um texto e nenhum louvor garante que o próximo trabalho será fácil.

Nas entrevistas não falou, mas Abreu adora cuidar de flores – orquídeas, mais especificamente. E é um ótimo cozinheiro: comida italiana, ára-be e japonesa estão entre as suas especialida-des. Estrutura um prato como estrutura suas peças: separa todos os ingredientes primeiro, coloca em ordem de entrada na panela e só depois é que começa o preparo. Nessa hora ele também não abre mão da invenção, acrescen-tando outros sabores, não se contentando com a mera reprodução de uma receita...

Abreu coloca amor e capricho em tudo o que se mete a fazer. Diz que herdou isso do pai. Da mãe, brava como o quê, herdou o prazer de ouvir e contar histórias – reais ou fantásticas, pouco importa. Talvez venha daí a facilidade pra contar enredos de livros, peças e filmes com tanta riqueza de detalhes que parece estarmos len-7

do ou assistindo junto com ele.

Achei que seria fácil conseguir entrevistá-lo. Não foi. A agenda – sempre lotada de cursos, pales-tras, reuniões, novos textos – direcionou nossas conversas aos intervalos entre as diversas atividades ou ao fim de noite. Os filhos, curiosos, queriam saber por que o pai estava gravando tudo aquilo do seminário dos padres, de ensaios com gente pelada, dos momentos em que pensou em desistir da dramaturgia. Queriam saber sobre o momento em que entrariam no livro. Afinal, são quatro filhos – cada um esperando a sua vez de entrar em cena! E nesses momentos Abreu se emociona, a mesma emo-

ção com que fala do convívio com o pai, da morte da mãe; com que fala dos amigos e das inúmeras experiências agradáveis que o teatro lhe proporcionou ao longo da vida.

Muito me ajudaram outras fontes de informa-

ção, tais como notícias de jornais e revistas, leitura de suas peças e a tese de doutoramento elaborada por Rubens Brito a respeito de sua 8

obra. Amigos e ex-alunos mandaram várias perguntas via internet – Elaine, Ana Régis e Alex, em especial; as reuniões constantes com os amigos ofereciam outras versões de alguns fatos, e os irmãos do entrevistado serviram de fiéis da balança em relação aos acontecimentos anteriores a seu nascimento. Portanto, agradeço a todo mundo que entrou na dança junto conosco pra fazer este livro acontecer.

Que ele seja prazeroso a todos como foi para mim escrevê-lo. Prazeroso como a leitura dos textos de Luís Alberto de Abreu e a convivência diária com ele.

Sim, convivência diária. Ia me esquecendo de dizer! De ex-aluna de dramaturgia me trans-formei em esposa há alguns anos...

Adélia Nicolete

Abril de 2004

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Capítulo I

O Mundo é o Território do Mistério

Na noite de sexta-feira da quaresma, minha mãe contava, tinha homem que virava porco-do-mato.

Em alguns lugares do Brasil virava-se lobisomem. Lá no Vau, lugarejo perdido pra além de Diamantina, virava-se porco, mesmo, daqueles peludos, terríveis. E, embora suínos, eram chamados de lobisomens. Eles se embrenhavam pelo 11

mato, fuçavam o lixo e tinham, como prazer principal, se refestelar com fezes de criança, de preferência as mais novinhas. Na região do Serro Frio tinha desses, minha mãe conhecia um deles. Um não, dois. O primeiro era um tal de Ciríaco, homem casado, com filhos, vida regrada e sem um nada que se dizer dele – a não ser que costumava sumir nas noites de sexta-feira san-ta. Voltava só de manhã, sujo, calado, jeito de poucos amigos. E não havia meio da família saber onde ele tinha ido. Certa feita, a mulher ficou a esperá-lo desde a madrugada na boca do mato, que era de onde ele voltava. Ao perceber a aproximação de alguém, ela se tomou de co-ragem, e foi ao seu encontro. Era o marido que, ao vê-la, tentou se esconder. Em vão. Dera tempo de ela perceber, pendendo de sua boca, fiapos vermelhos, como tiras de tecido que ele cuspia, mas que teimavam em permanecer ali. A mulher não fez nenhuma pergunta, porém decidiu que descobriria tudo antes do domingo de Pás-coa. Saiu pelas redondezas como quem procura algo que não sabe direito o que é. Saberia quando achasse.

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Ao visitar uma conhecida do outro lado da vila, a mulher do Ciríaco encontrou a tal resposta.

Os vizinhos ainda estavam aglomerados na frente do casebre, comentando o fato escabroso da madrugada. Ouvira-se o choro da criança no berço, um choro diferente, de susto e medo. A mãe, sozinha de marido viajante, foi acudir o filho quando se deparou com a cena: um porco enorme enfiara o focinho por entre as grades do berço tosco, tentando comer as fraldas da criança que se debatia assustada.

A mãe, embora com medo de ser atacada também, pegou o trabuco que o marido deixara e começou a atirar, de modo a assustar o bicho que fugiu correndo, arrastando consigo um pe-daço da coberta que conseguira morder. Era um lobisomem, não tinham dúvida. A mulher de Ciríaco quis ver o local do acontecido. Do berço ainda pendia uma parte da coberta, desfalcada de um naco da franja vermelha. Ela não disse nada. Voltou pra casa e rezou pelo marido.

O outro lobisomem que minha mãe conhecia 13

era só de ouvir falar. Nada foi provado. Era o avô paterno dela, o meu bisavô Luís Faduré.

Minhas quaresmas e a de meus filhos e neto sempre foram tranqüilas. Acho que o tempo e a vida na metrópole, de certa forma, foram colocando camadas e mais camadas de civilização sobre a fera. No entanto, acho muito interessante imaginar que descendemos desse bicho, desse mistério. Imaginar que, na verdade, todos nós descendemos; que todos guardamos dentro de nós esse instinto mais primitivo, pronto pra aflorar numa situação em que necessitemos dele. É claro que muita gente transforma isso numa violência indiscriminada – e põe a culpa nesse animal, nessa fera, ou se compara com ela.

Porque, curiosamente, o processo civilizatório, a sociedade de consumo, a exclusão social foram tirando de muitos homens e mulheres o que há de mais humano neles, justamente o que os diferencia da fera.

Então, até como forma de sobrevivência, eles recobram e mantêm vivo isso que é essencial, o animal mesmo... Se a gente, ao contrário, man-14

tém o humano atuante e a fera sob controle, a gente ganha com isso.

Os avós maternos de minha mãe eram da famí-

lia Baracho. Eles vieram de Portugal para o Brasil em 1714, descendentes de Gonçalo de Freitas Baracho, que aqui aportou na comitiva de Dom Brás Baltazar da Silveira, ouvidor do Rio das Mortes. Esse Gonçalo possivelmente seja o chamado Baracho Velho, de quem se conta uma história muito curiosa também.

Dizia-se que ele era comandante de uma tropa de africanos, escravos que chegavam ao litoral e eram enviados para a zona de mineração. Era costume naquela época, quando alguém mor-ria durante o trajeto, quer nas grandes viagens marítimas, quer nas grandes viagens por terra, encerrar o defunto num quinto – espécie de barril – cheio de cachaça, de modo a conservar o corpo até chegar a alguma cidade para lhe dar sepultura cristã.

Aconteceu de, numa dessas viagens, morrer um 15

dos companheiros do Baracho Velho. Como de hábito, mergulharam o finado num tonel de pinga. Tempos depois, quando finalmente che-garam a uma cidade, ao abrirem o tonel para tirar o corpo, espalhou-se fedentina tal que ninguém pôde se aproximar. O corpo estava em adiantado estado de putrefação e o barril seco, vazio de cachaça. Comenta-se que, ou por fal-tar cachaça na viagem ou por achar que era inútil gastar tão precioso líquido com tão reles defunto, o Baracho Velho fez um furinho no tonel e veio sorvendo toda a cachaça do morto durante a viagem. Não se sabe se foi assim que nasceu a fama de bons bebedores dos Baracho, ou se foi essa a explicação para a fama.

Quem me contou essa história foi Pedro Cordeiro Braga, velho morador do Vau, em novem-bro de 1998, quando lá estive em pesquisa para o roteiro do filme Os Narradores de Javé. Aliás, Pedro Cordeiro foi o mote para a criação do protagonista Pedro Bia, interpretado pelo José Dumont.

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Do início do século XVIII saltamos para meados do século XIX, que é quando vamos encontrar os Baracho, fixados no distrito diamantinense do Vau e no lugarejo próximo, Ribeirão do Inferno. O Vau parece ter sido uma corruptela importante nessa época, cortado pelo rio Jequitinhonha e passagem obrigatória para o Serro Frio, outra localidade importante na re-gião diamantífera das Minas Gerais. Ali os Baracho se dedicavam à garimpagem de ouro e diamante, à criação e agricultura de subsistência e ao transporte de cargas em tropas de bur-ro. O diamantinense é conhecido como mineiro bravo. A fama, com certeza, vem da época do garimpo. Os garimpeiros, mesmo na época colonial, eram todos bandidos, eram perseguidos, porque quem podia extrair, oficialmente, eram os contratadores – quem a coroa portuguesa permitia. Os garimpeiros eram independentes, estavam sempre em luta contra os portugueses.

Então os Baracho eram assim. Uma linhagem que não era rica, mas de gente muito brava, gente de briga mesmo.

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Acho que da desconfiança que dizem que o mineiro tem, também vem do garimpeiro. Porque era preciso tomar cuidado com quem chegava, não confiar em ninguém. E eles conservam essa coisa até hoje. Aconteceu uma vez comigo, eu devia ter uns 23 anos. Fazia muito tempo que eu não ia para Diamantina, muito tempo que não visitava a irmã da minha mãe, a tia Nenem.

Aí resolvi ir para lá. Estava indo sozinho. No caminho, por coincidência, encontrei com meu primo Célio, filho do tio Antônio, que morava em São Paulo e também estava indo para lá.

Chegamos. Bom, no portão da casa da tia Nenem, a gente bate palma, Ô de casa!, e quem vem atender a porta é o meu tio Paulo, marido da minha tia. Pois bem, de cara ele reconheceu o Célio, cumprimentou efusivo, etc. Quando eu estiquei a mão, todo animado,Oi, tudo bem?, ele não correspondeu! Olhou para mim de alto a baixo, demorado, e perguntou: Quem é você?

Fiquei assim, com a mão parada no ar. Falei: Ei, tio! Sou Luís, filho de sua cunhada Violeta. Aí ele abriu um sorriso, Como é que vai?, me deu a mão, me abraçou. Mas enquanto não me reco-18

nheceu, ele ficou fechado.

Então, vamos continuar, que eu tenho essa ma-nia de ir e voltar nos assuntos. Por volta de 1850, nasce Jerônimo Baracho que mais tarde viria a se casar com uma tal Antonia, da qual eu nunca soube o sobrenome. Pedro Cordeiro Braga definiu esse Jerônimo como homem muito cruel, conforme as tradições. Possivelmente ele se referia à tradição do lugar que teria sido, em tempos coloniais, terra de gente brava, violenta, dada a crueldades. A coloni-zação portuguesa e, de resto, todas as coloni-zações, foram extremamente violentas e cru-

éis, apesar do esforço da história oficial em en-cobrir tais fatos. Não é difícil imaginar o Vau em tempos coloniais como local de conflito entre mandatários da coroa portuguesa, garimpeiros e negros quilombolas. O garimpeiro era considerado bandido, proscrito, era perseguido pelos dragões reais. Regiões de mineração têm sido conhecidas historicamente em todo o mundo como palco de conflito.

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O Vau não teria sido diferente. Da união entre Jerônimo e Antonia de Tal nasceriam (uns quantos filhos) entre os quais Maria José Baracho, por volta de 1885. Foi essa Maria José que se casou com Egídio, filho do lobisomem, meu bisavô...

De modo que eu provavelmente descenda, em linhagem materna direta, de um lobisomem, de garimpeiros e de um apreciador obstinado de cachaça. Isso não parece muito nobre, mas me confere, ao menos, uma raiz bem brasileira!

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Vau – Distrito mineiro onde morava sua mãe, Violeta Sou o caçula de uma família de 10 filhos – 7 ho-20

mens e 3 mulheres. Uma família tipicamente mineira, do nordeste de Minas: Diamantina.

Affonso, meu pai, era carpinteiro, um artesão dos melhores, de ascendência portuguesa, bem longínqua mesmo. Violeta, minha mãe, já falei, era mais do mato, família de mineradores, lenheiros, esse tipo de coisa. Uma família bastante mais rústica que a família do meu pai.

A vida era muito difícil para eles lá em Diamantina. Era uma cidade pequena, não tinha nem 10 mil habitantes naquele tempo.

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Não era essa cidade turística que é hoje, não. Depois que acabou o período do ouro e dos diamantes, final do século 19 e começo do 20, a cidade entrou em franca decadência! Praticamente não tinha meios de vida lá. Tinha só comerciante, fazen-deiro e garimpeiro – e mesmo esses eram muito pobres. E meu pai sendo carpinteiro, e também pedreiro muitas vezes, ele ia pra onde tivesse trabalho. Só que na região todo o trabalho era muito pouco. Ele construiu uma escola, depois uma igreja e, então, acabou, não teve mais jeito. Até tentou colocar uma oficina de carpintaria, mas as coisas 21

não deram muito certo – se-

gundo minha mãe, era puro

mau-olhado e feitiço que fi-

zeram... Naquela época, final

da década de 1940, a família

já contava com oito filhos, o

mais novo ainda no colo. Foi

aí que minha mãe deu um

ultimato pro meu pai: se ele

não viesse pra São Paulo pro-

curar meio de vida, ela pe-

garia os filhos e viria sozinha.

Seu pai, Affonso

E minha mãe era bem capaz de fazer isso! Só que o meu pai tinha a família, os amigos dele, sabe como é... Tentou negociar, propondo ir pra Belo Horizonte, que era mais pertinho, mais fácil de voltar. Porém, meus irmãos contam, deu-se um fato que fez meu pai aceitar a idéia rapidinho.

Seu Affonso não era uma pessoa lá muito cré-

dula, não. Era católico praticante e isso lhe bastava, não era de dar trela pra superstições, crendices outras. Só que o que aconteceu bem debaixo do nariz dele fez o homem tremer nas 22

bases. Ele ainda estava naquela fase de dúvida entre vir ou não para São Paulo, e minha mãe angustiada porque, além da falta de condições, ela desconfiava de que estavam fazendo feitiço contra eles. Pois bem, um dia minha mãe acorda de manhã e vê, num canto do lado de fora da casa, um montinho de sal. Coisa muito estranha, imagine. Minha mãe ficou encafifada com aquilo, chamou meu pai, mas ele não se assustou.

Ele disse: Isso deve ser coisa de criança.

E não se falou mais no assunto. Passou o dia. Na manhã seguinte, adivinhe. Num outro canto da casa, haviam colocado mais um punhado de sal.

Aí, minha mãe ficou desesperada. Falou: Não, é alguma coisa que estão fazendo. Precisamos tomar cuidado, tomar providências. Meu pai, sossegado, continuava com a idéia de que estavam apenas querendo brincar. Varreram o chão e pronto. Na terceira manhã, aí não deu mais pra tapar o sol com a peneira. Estava lá, novamente, outro monte de sal. À noite, meu pai se armou e ficou esperando, de tocaia, para ver o que aconte-cia – ele não ia deixar que fechassem o cerco da casa. Tudo quieto, lá as pessoas iam dormir muito 23

cedo. E o meu pai lá. Tinha passado da meia-noite, quando ele viu um vulto se aproximando justamente do último canto, fechando o cerco da casa.

Meu pai gritou, disse que iria atirar, e daí saíram correndo. Nunca ficaram sabendo o autor daquilo. Segundo minha mãe, foi aí que meu pai se convenceu de que eles tinham de sair de lá.

Mas a vinda deles pra São Paulo eu conto depois, primeiro eu queria falar de como eles se conheceram.

Os namoros lá no interior de Minas se resolviam muito rapidamente. Naquela época, era olhar, gostar e pedir em namoro pros pais. Se eles deixas-sem, pronto, acabou, estava feito. Se não, muitas vezes, os casaizinhos fugiam. Então, era uma coisa muito rápida – eu estou falando do final da década de 1920. Minha mãe era a oitava de 14 filhos e, adolescente, estava para entrar no colégio de freiras de Diamantina. No dia em que minha avó Maria José estava levando minha mãe para a ma-trícula, elas aproveitaram e foram a uma festa da igreja. E meu pai estava nessa festa. E diz que ele 24

ficou olhando pra ela. Eles se interessaram de alguma forma um pelo outro, só que não deu para conversarem naquele dia, porque era muito difí-

cil, ainda mais com a mãe por perto. Pois bem, passou o tempo e promoveram outra festa. Acontece que, dessa vez, era o meu tio Zé Maria, irmão mais novo do meu pai, que estava. Meu tio e meu pai, eles eram mais ou menos parecidos.

Aí você já imagina... Minha mãe tinha visto meu pai só uma vez, então ela ficou olhando tanto pro meu tio que ele acabou se interessando por ela! Minha mãe contava pra gente que, na cabe-

ça dela, ela pensava: Mas esse rapaz está diferente... Ela olhava e era isso que pensava, mais nada. Então ficaram assim, tirando linha, como se dizia naquela época, paquerando. No final, meu tio também não conseguiu conversar com ela, mas voltou para casa, todo gabola, falando pro meu pai: Affonso, eu conheci uma moça muito bonita hoje, e ela ainda vai namorar comigo. Aí meu tio foi descrevendo a moça pro meu pai que, atônito, respondeu: Não faz isso comigo, não, Zé Maria! Essa moça é minha!

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Começou a discussão porque, afinal, minha mãe também não era namorada dele. Não teve jeito: só restou meu pai bater em todas as portas pra saber onde morava a moça. Não é bonito isso?

Só que minha mãe morava no Vau, a 20 km de Diamantina, de modo que meu pai ficou desilu-dido porque não a encontrava. Nem a conhecia direito, como poderia encontrá-la?

O que aconteceu foi que, um dia, quando ele estava trabalhando, viu a minha mãe passar pela rua.

E que sorte: estava sozinha! Meu pai largou o servi-

ço e foi atrás dela, chamou. Minha mãe não sabia direito quem era, ficou confusa! E aí ele relembrou os fatos, falou que tinha gostado dela, e se ela queria namorar com ele. Minha mãe não podia: estava entrando no colégio, ia ficar um ano lá.

Então meu pai disse que esperava. E esperou! Com certeza ficaram se vendo de alguma forma, se comunicando. Bom, ela saiu. E meu pai, mais do que depressa, foi lá e pediu para namorá-la. Dentro de pouco tempo se casaram. Meu tio Zé Maria? Se deu muito bem também: casou com Margarida, a 26

tia Guida, que é mulher de valor. Tiveram quatro filhos. Três deles ainda vivem em Diamantina.

E Diamantina, toda aquela região, é muito rica em histórias! O colégio em que minha mãe estu-dou, mesmo, já rendeu muitas. Algumas delas se referem ao Passadiço da Glória, que hoje é ponto turístico da cidade. É assim: o colégio de freiras ocupava duas ruas.

Então, para que as freiras ou as noviças, ao passa-rem de um prédio para outro, não tivessem conta-

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to com o mundo, eles construíram um passadiço.

É uma ponte, toda fechada, por cima da rua -

lembra um pouco a Ponte dos Suspiros, lá de Veneza, só que por lá passavam os condenados...

E esse passadiço guardava histórias de fantasmas, 27

era uma coisa muito rica! Dizia-se de um frade penitente que aparecia por lá à noite, a alma dele passava, ia e vinha pelo corredor. E também se dizia que o colégio fora construído por cima de uma antiga prisão de escravos, então se ouviam correntes sendo arrastadas, lamentos, cantigas de muito sofrimento. Ouvia-se até uma cavalaria passando pela rua, por debaixo do passadiço!

Imagine, um galope de cavalos fantasmas no meio da noite! Isso não é uma beleza? Deve dar muito medo, mas deve ser fascinante!

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Eu me lembro da minha mãe contando todas essas histórias, esses “causos”. Ela não contava as coisas de um modo corriqueiro, como uma simples repetição. Quando ela contava, ela recobra-va a emoção do momento, o suspense, os detalhes. Isso é uma característica preciosa do bom narrador. Ele não conta simplesmente o fato, ele revela uma experiência. Toda vez que narra o mesmo acontecimento, ele está eivado de toda a emoção do momento, de toda a clareza imagética, de como se deu o fato. Minha mãe era uma excelente contadora de histórias. Ha-28

via todo um colorido acentu-

ado pela carga de crença e fé

que ela tinha nessas histórias.

Era uma pessoa que reunia na

mesa grande lá de casa todo

mundo. Desde crianças até os

mais velhos, e ficavam todos

olhando pra ela, prestando

atenção. E o que tornava tudo

mais interessante ainda era o

fato de que tudo era possível

na mente aberta dela. As coi-

Com sua mãe, Violeta

sas todas do mundo eram possíveis já que o mundo é o território do mistério.

Ela sempre foi muito católica, nada disso era uma questão de misticismo. Isso faz parte da cultura, não quer dizer que a pessoa é menos ou mais inteligente, que é católico ou não. O

mundo é parte do mistério. Isso dá uma liberdade de imaginação muito grande – onde fal-tam as explicações científicas, há riqueza de outro tipo de explicação. Então eu passei a minha infância num ambiente onde esse tipo de 29

fantasia, de liberdade imaginativa, era coisa comum. Acontecem mistérios no mundo que nós não somos capazes de explicar. Coisas que estão fora do cotidiano. E a gente aceita ou não. Não é questão de crer, de ter como verdade científica. É questão de você aceitar.

Para minha mãe era tudo verdade. Ela era de um lugar atrasado, perdido no mapa. Aliás, seu nome de solteira, Violeta Duval, era um topôni-mo! Eram de uma família do Vau, que virou Duval. O grande ator José Dumont, cearense, conta que o Dumont dele é um refinamento de

“do monte”. Olha que interessante. O Brasil é cheio dessas coisas. Então lá, naquelas condi-

ções, eles tinham muito disso. Dessas crendices que eles aceitavam como verdade. Então, as histórias, para eles, eram muito palpáveis.

Eu tenho certeza de que muito da minha paixão por contar histórias através do teatro, do cinema, da literatura vem daí, dessas histórias ouvidas na infância e juventude e que, recente-mente, eu fui garimpar lá em Minas. E por falar 30

nisso, acho que esse caminho que escolhi pra trilhar tem, também, muito a ver com o garimpo. Essa profissão meio incerta que é trabalhar com cultura e arte, escrever pra teatro. Não saber de fato se uma peça vai fazer sucesso ou não, se vai agradar ou não. Eu sempre imagino que isso tem a ver com o garimpo.

Esse desprezo pela coisa mais certa, esse apego à coisa duvidosa. Poderia ser jogar ou poderia ser escrever – ou as duas coisas são equivalentes, como diz a Lygia Fagundes Telles. É o risco. Não é sorte. Porque no garimpo a sorte não adianta nada.

O garimpeiro é um sujeito que planeja muito, ele tem que conhecer muito bem da geologia, na prática. Ele tem de saber onde se dá a forma-

ção do diamante, onde pode e onde não deve ter diamante; onde já foi lavrado e onde não foi; onde já foi lavrado pelos escravos, ainda no período colonial, e até onde os escravos não lavraram. Quer dizer, tudo isso o garimpeiro da velha tradição, da bateia, sabia. Os meus tios 31

foram garimpeiros e eles sabiam. É um risco, sim, mas muito bem planejado, preparado. Até pra diminuir um pouco o tal do risco! É uma série de rios que tinham, e eram rios de ninguém.

Hoje em dia já tem dragas, contratos. Hoje em dia ninguém mais garimpa. Naquela época eram os rios e pronto.

E onde as companhias de mineração não atua-vam, os garimpeiros exploravam o que havia sobrado da época colonial.

Minha mãe contava que o irmão mais velho dela, meu tio Silvério, ia pra bem longe, lá pro Ribeirão do Inferno, garimpar. Ficava lá um tempo e voltava com diamantes, que ele vendia por um preço irrisório, que eram vendidos por um preço melhor pra Belo Horizonte, depois um preço melhor pra São Paulo, que vendia melhor pro contraban-do. E com o que ele ganhava, podia ficar um tempo sem trabalhar. E ficava bebendo, na far-ra, comprava coisas pra comer e, quando o dinheiro terminava, voltava a procurar diamantes. Essa não é a minha vida, claro. Acho que o 32

meu pai, com a valorização do trabalho que ele tinha, de uma atividade sistemática, me influen-ciou também. Mas o apego ao risco, que vem do garimpo, acho que fiquei com ele.

Então vamos lá, falando em risco, contar da chegada da minha família em São Paulo, em 1947, trazendo a mesma esperança de tantos milhares de migrantes daquela época. Primeiro veio meu pai. Veio pro Bairro da Água Rasa, em São Paulo. Havia dois irmãos da minha mãe que já estavam levando a vida por aqui há algum tempo, mandavam notícia pra Diamantina, essas coisas. Já tinham até chamado meus pais antes, mas eles só se decidiram naquela hora, como eu falei. Meu pai veio procurá-los para começar a vida e ficou sabendo de São Bernardo do Campo, onde havia uma nascente indústria de móveis. Foi para lá, conseguiu um emprego e pôde chamar a família.

Enquanto minha mãe permanecia em Diamantina, foi tentando vender as coisas, vender a casa.

Ofereceu até pro Juscelino Kubitschek, que era 33

conhecido deles, mas acabou vendendo pra outros. Em São Bernardo, eles moraram primeiro numa casa alugada, na Vila Baeta Neves. Lá eles tiveram o filho de número 9, minha irmã Maria Helena – a quem minha mãe deu à luz sozinha, já passados dos 40 anos, tiveram o número 10, eu. Eu nasci em 1952, em outra casa, na Rua Prin-cesa Maria Amélia.

Depois de um tempo compraram um terreno no Bairro de Nova Petrópolis, mais perto do centro.

Centro é modo de dizer... São Bernardo era todo

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ele um arrabalde, um subúrbio bem longínquo de São Paulo! A rua principal, a Marechal Deodoro da minha infância, era de terra – eu acompanhei o calçamento – e as ruas em volta continuavam de chão batido. Eu até que nasci numa época mais tranqüila. Mas antes de eu nascer, eles passaram por maus pedaços – como na época da epidemia de varíola.

Ainda moravam na Vila Baeta, por volta de 1949-50, quando surgiu uma epidemia de varíola na 34

D. Violeta e Seu Affonso com alguns dos filhos em São Bernardo, década de 50

região. Contam que meu pai contraiu a doença que, naquela época, era muito perigosa. A bem dizer não existia médico em São Bernardo, as pessoas iam se tratar era com o farmacêutico mesmo, um tal de doutor Ismael. Morrendo de medo, minha mãe foi conversar com ele, contar o que estava acontecendo com meu pai, como ele estava. O farmacêutico falou: Fique quieta, não conte nada para ninguém! Pronto, minha mãe ficou mais assustada ainda. Nós vamos cuidar dele, mas silêncio absoluto! A saúde pública pode vir, pegar o seu marido e levar para São 35

Paulo, deixar lá. E lá, pode contar que ele defi-nha. Eu não sei até que ponto isso era medo-terror ou era fato mesmo. Mas se a gente lem-brar, as condições sanitárias daquele tempo eram muito precárias. Minha mãe ficou tratando dele com aquele monte de filhos em casa, uma doença altamente contagiosa! E ela costumava contar que no quintal havia um caquizeiro e um chuchuzeiro. Meu pai estava desempregado por causa da doença, e tudo o que a família comia era daquelas duas plantas, porque eles não conheciam ninguém por ali, então eles não podiam pedir nada. O chuchuzeiro deu durante toda a doença do meu pai, e quando ele sarou, a coitada da planta morreu... Minha mãe diz que foi a providência, que foi algum tipo de milagre. Sei lá...

De novo, as histórias da minha mãe.

Na minha infância, o ABC praticamente não existia, né? Ainda não existia nem esse termo: ABC.

A região era constituída de cidades muito pequenas. As mais desenvolvidas eram Santo André e São Caetano do Sul. São Bernardo era praticamente uma vila na década de 1950, e o ramo 36

mais importante do município ainda não era a indústria automobilística. Eu ainda era pequeno, meu pai comprou um terreno num outro bairro, o Nova Petrópolis, e ele e os filhos mais velhos, que eram três, começaram a construir uma casa.

As minhas recordações mais intensas são de lá.

Tenho muito boas lembranças de família grande.

Um dos melhores momentos era no domingo, quando reunia todo mundo pra colocar a conversa em dia. Boas lembranças da casa sempre cheia, dos amigos dos meus irmãos que lotavam aquela casa pequena, apertada. Mas como a gente se divertia – todo mundo falando ao mesmo tempo, criança passando por entre as pernas dos adultos, porque não tinha espaço; aquela bagunça! As rodas de bordado das minhas irmãs com as vizinhas, preparando o enxoval pra um casamento que ainda não tinha nem noivo! E

minha irmã Maria José, a Zezé, cantando o dia inteirinho os sucessos do rádio – Nelson Gon-

çalves, Cauby Peixoto, Cascatinha e Inhana, Dalva de Oliveira, Vilma Bentivegna, Dolores Duran. Aquelas canções ecoam na minha me-37

mória, ainda sei praticamente todas de cor!

Tudo aquilo era muito bom. Por outro lado, ser o irmão caçula tinha também suas desvantagens.

Todo mundo achava que podia mandar em mim, por exemplo. Os irmãos mais velhos impunham, tudo bem, tinham autoridade. Mas até Agostinho e Maria Helena, poucos anos mais velhos?!

A gente brincava junto e eles queriam mandar em mim? Eu ficava doido com isso, estava sempre brigando, sempre às turras.

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Luís e Agostinho

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Lá em casa o valor do estudo era coisa muito importante, principalmente na cabeça do meu pai. Por questões sociais, educacionais, se achava que mulher não precisa estudar muito, ser alfa-betizada já era suficiente. Os homens, porém, deveriam estudar o máximo possível.

Meu pai, por exemplo, foi um homem que aprendeu as primeiras letras e, mais velho, já adulto, foi estudar mais. Como não tinha escola, ele pagava um professor particular. Todos os meus irmãos estudaram de alguma forma, a maioria fez faculdade de Direito, até porque era o curso que tinha em São Bernardo naquela época. Se tivesse uma USP por lá, talvez eles tivessem feito uma série de outras coisas.

Meu pai gostava de ler jornal. Era eu que ia comprar pra ele: tinha 6 anos e descia até a banca da Rua Marechal Deodoro. Era um jornal chamado A Hora. Ele lia revista também. Em casa, quando eu era pequeno, tinha muito Seleções e livros do Clube do Livro, Tesouro da Juventude.

Até os 9 anos, convivi com meu pai diariamente.

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Uma porque eu era o filho mais novo, e outra porque ele tinha um problema sério da perna, e tinha também doença de Chagas, de modo que os três anos finais da vida dele, ele passou em casa e pudemos estar juntos. Os filhos mais velhos já estavam trabalhando, deixavam o salá-

rio inteiro pra família, então ele podia ficar em casa. A lembrança que tenho dele é bastante nítida. Eu era meio que seu ajudante oficial. Em tudo o que ele fazia eu estava perto, conhecia todas as ferramentas com que ele trabalhava –

tinha uma série enorme de ferramentas, que ele mesmo fabricava ou que comprava. Ele ia me pedindo as ferramentas e eu corria a pegar. Meu pai era uma pessoa muito afável, muito alegre.

Uma lembrança que eu tenho é da autoridade dele. Ele tinha uma autoridade bastante grande, sem ser autoritário. Era uma autoridade boa, porque era de respeito, não de violência. Todos o respeitavam muito. Minha mãe podia gritar, falar, xingar, bater e isso era uma coisa. Se o meu pai xingasse, aí já tinha outro peso. A gente não gostava de levar bronca do meu pai, não.

Porque a gente gostava muito dele. A gente 40

gostava da minha mãe também. Mas era aquela coisa de mãe: ela bate, dali a pouco parece que não adiantou nada... Sempre me impressionou a autoridade que ele tinha sobre a família.

Dele eu acho que carrego o valor fundamental do trabalho. Para minha mãe o valor fundamental era a fé, a religião – embora ela trabalhasse muito também. Mas, embora meu pai tivesse a crença dele, o valor fundamental era o trabalho. E aquela coisa que ele sempre insistia: capricho. Era preciso fazer a coisa com cuidado.

Ele sempre falava: Olha o capricho! Então aquilo ficou na minha cabeça, de tanto que era repeti-do. Até como palavra mesmo, eu gostava do som: capricho.

Lá em casa, todos os meus irmãos e eu, acho que herdamos isso do meu pai: o gosto pelo trabalho com madeira. E somos todos, de uma certa maneira, construtores. Serviço de pedreiro, carpinteiro, eletricista. A família inteira tem isso de meter a mão na massa.

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Meus irmãos mais velhos contam que meu pai teve muito problema de adaptação na fábrica de móveis. Ele era carpinteiro de fazer o móvel inteiro, de tirar a madeira no mato, cortar a madeira com o traçador, fazer as tábuas, desbas-tar com o enxó, pra depois fazer o móvel.

Ele era um artesão mesmo. Foi difícil se adaptar na indústria porque aqui era um outro esquema de produção. Cada operário fazia uma parte do móvel, com a madeira disponível, e numa veloci-dade que impossibilitava o tal capricho artesanal que ele tanto prezava. Ele detestava, falava que estava fazendo “serviço matado”, quer dizer, feitos às pressas. E mesmo o serviço apressado dele era mais lento que o dos outros! Ficava frustrado.

Hoje em dia, na nossa fase de revalorização do artesão, meu pai seria devidamente reconhecido, mas naquela época, não. Quando o problema da perna foi ficando mais grave, as dores eram muito fortes. Ele trabalhava o quanto podia e, quando ficava insuportável, contam que ele tinha que se esconder dentro de algum guarda-roupa pra descansar um pouco... Ficava escondido, pra não 42

ser mandado embora... E acabou morrendo aos 54 anos, por causa da doença de Chagas.

Minha mãe era bastante brava, rigorosa, forte –

batia na gente com vara de marmelo. Ela chegava a assustar, mas muito a gente sabia que mere-cia e que, se não fosse assim, ela não ia conseguir dar conta de criar filho com responsabilidade, sem preguiça, trabalhador. Porque pobre tem bastante filho também porque sabe que vai precisar deles pra ajudar no futuro. São mais braços pra labuta...

A única coisa que conseguia conter a minha mãe, nos momentos de braveza dela, era o meu pai. Ele continha na palavra. Quando ela estava batendo demais num filho, ele vinha e dizia: Chega, Violeta, com um tom de voz tranqüilo. Ela continuava querendo bater, mas não batia mais, só xingava, xingava, até se acalmar. Acho que essa braveza toda era uma questão de sobrevivência, porque no lugar em que ela nasceu, com aquelas condi-

ções precárias, gente de pele fina não sobrevive-ria. E isso, aqui em São Paulo, também era necessário. Aquele monte de filhos, como educá-los se-não pelo rigor? E ela tinha aquilo que era da igre-43

ja: educar é corrigir os que erram. E naquele tempo a correção ideal era através do castigo físico.

Então, ela aplicava esse princípio da igreja no cou-ro da gente!

Eu fui dos que menos apanharam. Minha mãe tinha alguns anteparos antes de chegar na sur-ra em si: falava muito, xingava e, quando não tinha jeito, ela sentava a mão. Batia por várias coisas: se não obedecesse, se estivesse batendo no irmão, se não quisesse trabalhar, se chegasse fora de hora. Se marcasse 9 horas, tinha de chegar às 9 horas. Às vezes ela cuspia no chão, e falava: Você vai a tal lugar, se chegar depois do cuspe secar, você apanha. A gente ia correndo!

Uma vez ela fez isso comigo, eu era novinho.

Graças a Deus ela cuspiu num lugar com sombra.

Se cuspisse ao sol eu estava ferrado!

Tinha uma coisa, que é preciso reconhecer: Dona Violeta trabalhava demais. Da madrugada até a noite. Tá certo que minhas irmãs mais velhas ajudavam, mas o mais pesado era pra ela. Levan-tar, limpar a casa, lavar, passar. Fazer comida 44

pra 12 pessoas, em fogão de lenha, almoço e janta, sete dias por semana! Essa foi a vida dela até mais ou menos 60 anos! Trabalhar e rezar, o dia todo e à noite. Rezava ajoelhada, queria que todos rezassem com ela, de rádio perto do ouvido. Ela amansou conforme foi envelhecen-do, se tornou mais alegre até. Porque ela não era carrancuda, mal-humorada, ela também ria muito, sabe? E como gostava de circo!

Um dia me levou a uma sessão que vai ficar guardada pra sempre na minha memória. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e, naquele tempo, os circos apresentavam peças de teatro também, melodramas, em geral. Naquela noite eles estavam contando uma história de paixão: um homem casado tinha uma amante e ela queria que ele abandonasse a esposa. Então ele resolve matar a mulher, olha que coisa. Só que, pra complicar, a mulher estava grávida! E o pessoal do circo usou um recurso tão interessante, que ficou impresso na minha retina e acho que foi o que me fez decidir, mais tarde, pela carreira teatral. Pra mostrar a cena do assassinato, eles 45

usaram sombra chinesa. Então, o marido e a mulher grávida, iluminados por trás do pano branco, lutavam, agigantados pela luz. De repente, ele pega um punhal e começa a golpe-ar a esposa na barriga!

Aquilo foi um choque, eu fiquei com uma vontade enorme de chorar porque foi um impacto emocional. Como o teatro pode impressionar tão fortemente o espectador?... Pois é, minha mãe, aquela mulher brava, que se encantava com o circo, foi amansando na velhice. Mas nunca amansou completamente – nem no leito de morte, aos 90 anos.

Era uma noite de terça-feira, fomos visitá-la, pois estava muito debilitada, num vai e volta do hospital, aquelas coisas. Estava na casa do primogênito, Dirceu, assistida por minha irmã Zezé. Deitada na cama ela rezava, como fazia direto já há alguns dias. A reza contínua era entrecortada por suspi-ros e gemidos de cansaço e arfar de descômodo.

Falei a ela, respondeu algumas palavras, mas não sei se me reconheceu. Nos últimos dias, embora 46

estivesse lúcida, tinha alguma dificuldade de concentração. As longas conversas, as histórias e acontecimentos – que gostava de contar com clareza cristalina – eram decididamente coisas do passado. A memória, com certeza, ela ainda guardava intacta, mas era incapaz de transmiti-la. Os noventa anos de vivência e luta, medos e conquistas, estavam, agora, irremediavelmente presos nela e com ela se perderiam.

Pois bem, eu ia falar da braveza dela até nos momentos finais. Fazia muito calor naquela noite. Sem que ninguém percebesse, ela se molhou toda com a água do copo, para se refrescar. Ao ser aconselhada por minha irmã para trocar a roupa molhada, ela respondeu que não trocaria.

Minha irmã insistiu: A Jacira pegou pneumonia semana passada! Dona Violeta: E daí? Problema dela. Eu não sou a Jacira! Vê se pode! Zezé, que tomava conta dela há anos, quis tentar tirar a camisola de minha mãe à revelia. Essa hora foi demais. Minha mãe perguntou com um resto de autoridade: Quem é que manda aqui? Zezé deve ter lembrado das broncas levadas quando era 47

pequena e se calou. Vocês estão fazendo isso comigo porque eu não posso falar direito. Estou sem dentadura. Se eu estivesse com ela eu mor-dia vocês! Isso num fiapo de voz.

E o que pareceria engraçado em outra circunstância, agora se tornara motivo de profundo respeito. A velha onça sabia que a hora estava chegando. E se tinha levado a vida nos dentes, queria enfrentar a morte da mesma maneira...

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Capítulo II

Cuidado Com o Que Você Quer de Coração Tempos atrás, nas famílias grandes e religiosas, era comum dedicar o filho mais novo a Deus, já que os mais velhos eram dedicados ao trabalho.

Mas acho que não foi por isso que resolvi entrar no seminário. Aconteceu assim: eu estava no quarto ano primário, quando apareceu um frei franciscano no meio da aula dizendo que 49

estava em busca de vocações sacerdotais. Ou seja, ele falou um monte de coisas e, no final, perguntou se alguém ali queria ir pro seminá-

rio. Aquilo bateu em mim, e eu sabia por quê: desde pequeno, quando as pessoas pergunta-vam o que queria ser quando crescesse, eu respondia que queria ser padre! Engraçado, né?

Eu já tinha passado por uma série de etapas na igreja. Quem tem família católica se lembra como era: tinha feito a primeira comunhão, tinha sido coroinha, cruzado, congregado mariano (as mulheres viravam Filhas de Maria).

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Com toda essa base religiosa, quando o padre perguntou, eu levantei a mão, orgulhoso. Eu e mais três colegas. Minha mãe adorou a idéia, óbvio, e aos 11 anos, fui estudar para padre.

Era domingo. Tomamos o ônibus minha mãe, meu irmão Fernando e eu, com a minha malinha de roupas no colo. Me lembro até hoje do dia em que cheguei lá! Fiquei apavorado com o que vi! Eu tinha uma idéia do que seria um seminário, já havia visitado um em São Roque, no interior de São Paulo - lugar afastado, tranqüilo, arbori-51

zado, gostoso. Quando passamos em frente ao lugar, Fernando falou: É aqui. Me deu um aper-to no coração! Era um prédio enorme, de cimento, todo fechado, numa avenida movimentada.

Meu Deus do céu pensei, agora não dá mais para voltar atrás. Isso é uma prisão! Chamava-se Seminário Seráfico. Ficava no Bairro Parque Oratório, em Santo André.

Um padre veio nos receber com uma certa solenidade. Entrei, com medo, o coração na boca.

Sabe quando parece que as pernas travam?

E ele foi levando a gente lá pra dentro, pra conhecer. Aquele silêncio. Pegamos um corredor escu-ro, comprido. Uma luzinha no final que não chegava nunca! Aquilo pra mim era a imagem da morte, né? Mas vá ouvindo. Você não imagina o que tinha no fim daquele corredor! Quando eu vi aquilo, queria que minha mãe fosse embora logo porque eu queria mesmo era ficar ali pra sempre! Aquilo era a vida – um lugar aberto, um pátio enorme, muita luz, e do outro lado, a minha tradução de paraíso: um campo de futebol! O seminário me conquistou pelo futebol!

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A partir dos 11, 12 anos, a gente vive em turma, né? E lá tinha muito moleque, muito mais do que na rua, com a vantagem de não ter briga! Já imaginou? Aquela coisa, de todo mundo ser do meu tamanho, dava uma sensação de conforto muito grande. E o seminário, em alguns aspectos, era bem parecido com uma escola comum. Uma das principais diferenças é que a gente ficava lá em tempo integral. Os familiares só nos visitavam no segundo domingo de cada mês e a gente só ia pra casa nas férias de dezembro. O resto do tempo era bastante dedicado ao estudo, mas tinha diversão também. Era assim: a gente acordava às 6 da manhã e fazia ginástica logo cedo, seguida de banho, nos chuveiros coletivos. Todo dia antes do café da manhã tinha missa, onde eu rezava pra que caísse uma praga que acabasse com todo o leite de soja do planeta. Eu detestava e era obriga-do a tomar! Bem, das oito até o meio-dia eram as aulas. Ao meio-dia almoçávamos, e aí tinha um recreiozinho de mais ou menos uma hora, pra depois a gente estudar de novo até mais ou menos as três. Tudo isso era a obrigação. O melhor 53

vinha depois, quando dividiam-nos em turmas dos pequenos, médios e maiores e cada turma tinha o seu dia de jogar bola. Segunda-feira era o nosso dia. Aí era tomar banho, jantar lá pelas seis e meia, brincar um pouco e ir pra cama às nove. No sába-do, depois da faxina que fazíamos no seminário, passávamos na lavanderia pra pegar nossas roupas lavadas e passadas. Cada um tinha um número, costurado nas peças com etiquetas.

Até mais ou menos os 15 anos, foi essa a minha rotina. A rotina do número 23.

Dentre os professores, eu gostava muito de uma de Latim e História, uma velhinha simpática e boazinha. Todo mundo tirava sarro de mim, dizendo que eu era o namorado da Dona Mariana. Também pudera! A única presença feminina que tínhamos lá tinha de ser prestigiada!

Lembro de vários outros também, frades ou se-culares: o primeiro reitor, frei Jerônimo; o frei Orozimbo, professor de religião, com sua fala engraçada, cantada, de quem não pronunciava direito o português. O frei Francisco, que me chamava de Gigio, e admirava o meu futebol. O

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padre José, que tinha servido como sargento do exército italiano e nos contava histórias da Segunda Guerra. Mais tarde entrou o frei Luís Fava-ron, que era o refresco da molecada porque era mais jovem, mais próximo de nós, contrastando com o autoritarismo do segundo reitor que apareceu por lá. Era muito alegre, brincalhão, difi-cilmente se irritava com alguma bobagem que seminarista fazia.

Um episódio inesquecível aconteceu com o frei Vincenzo, nosso vice-reitor. Pois bem, lá no seminário nós adotávamos o método Yázigi. Estudá-

vamos por um tipo de revistinha, parecida com história em quadrinhos, toda em preto e branco, e cheia de figuras. Acontece que muitas das historinhas se passavam em Miami, ou seja, na praia...

O frei Vincenzo era famoso por jogar futebol de batina, dado o seu acanhamento. Então, imagina quando ele viu todas aquelas mulheres dese-nhadas, de biquíni! Deve ter sido um escândalo na cabeça dele.

Pois não é que teve a pachorra de ir desenhando, 55

com nanquim, revista por revista, a roupa de todas as mulheres? E era muito bem desenhado, tanto que a gente demorou mais ou menos uma semana pra descobrir a arte dele! E quando a gente descobriu, em vez de estudar inglês como se deve, a gente ficava olhava praquilo, num esforço de imaginar as moças todas – sem biquíni...

Eu era tido como bom aluno, comportado, acho que com um perfil ideal pra seguir carreira de padre. A minha saída de lá foi por uma questão hormonal. Cheguei na adolescência, 16 anos, comecei a ver as coisas de outra maneira. O celi-bato, por exemplo, começava a ser questiona-do. De um lado foi isso, e de outro também foi por causa do desencanto com relação àquilo tudo, não estava acreditando mais; via coisas lá dentro com as quais não concordava, achava que muitos padres falavam muito, mas praticavam pouco a sua fé. Em 1968 a direção decidiu que a nossa turma iria fazer os estudos regulares fora do seminário, “no mundo”, como eles diziam.

Fomos estudar no Américo Brasiliense, escola estadual no centro de Santo André. Na mesma 56

classe caímos eu e mais um colega, o Vladimir.

Então, no meio do processo, achei que não valia a pena continuar, resolvi cair fora. Minha mãe não gostou muito da idéia, mas aceitou.

Minha saída do seminário aos 16 anos foi bastante complicada. Primeiro, não tinha mais amigos, já que ficara quatro anos interno. Me sentia completamente sozinho pra enfrentar o mundo porque, além de tudo, eu era uma pessoa muito calada, extremamente tímida, tanto que passei um bom tempo em casa enquanto estudava no Américo. Um ano depois, quando fui pro João Ramalho, comecei, lentamente, a me enturmar. Fiquei lá dois anos, 1969 e 70, fazia o curso chamado Clássico, porque não gostava de Matemática e consegui fugir dela. Comecei a fazer algumas amizades: Cláudio, Alda, Maria Augusta – com quem eu viria a me casar e ter minha primeira filha, Vanessa. Era uma turma que gostava de teatro, de música. Fizemos um showzinho estudantil, até. O Mário César Camargo, hoje ator, tocava e cantava e eu fazia papel de um PM que tentava impedir que as macacas 57

de auditório chegassem até os cantores. Acho que essa foi minha primeira experiência com teatro... Na verdade, alguns dos meus irmãos tinham feito parte do grupo de teatro Regina Pacis, então eu já sabia mais ou menos como era.

E no seminário tinha visto algumas representa-

ções – inclusive uma Paixão de Cristo com o Antonio Petrin! Quando era pequeno queria fazer cinema, filme de caubói. Fazíamos aquelas caixas escuras e ficávamos andando pela rua, tentando ver a imagem projetada ao contrário dentro da caixa, através do furo. Enfim, apesar de muito tímido, comecei a gostar daquele barato de representar.

Terminei o colegial e logo depois me casei, com 19 anos. Tinha de ganhar a vida, né? Como ia sustentar a casa fazendo teatro? Arrumei emprego no faturamento de uma empresa de vidros, a Wheaton. Trabalhava o dia inteiro, às vezes no final de semana. Eu já tinha trabalhado antes, mas era diferente, eu era solteiro, então não tinha todo aquele compromisso. Tinha sido office-boy na Jacuzzi, uma empresa de bombas pra 58

piscina, e no Banco Minas. Depois disso fiquei um tempo parado, quis seguir carreira de hippie, fui pro festival de música de Guarapari – aquela tentativa de Woodstock tropical. Todas essas coisas de moleque ficaram pra trás quando a Vanessa nasceu. Mas de uma coisa eu não queria abrir mão: o teatro. Então a gente ensaiava à noite. Ficava doido da vida porque às vezes ficava lá até as duas da manhã, e tinha de entrar às sete para trabalhar!

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Com Vanessa

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Mas valia a pena porque era um grupo fora de série, pessoas com quem tenho amizade até hoje. Era o grupo do Centro Cultural Guimarães Rosa, em São Bernardo.

Foi assim: alguns ex-alunos mais antigos que eu no João Ramalho, interessados em cultura, haviam fundado o tal centro, num espaço doado pelo poder público. A turma que eu não tivera na escola, eu formei lá, fazendo teatro e fazendo capoeira.

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Desde o tempo do colégio (da esq.): Ednaldo Freire, Primo Gerbelli, Calixto de Inhamuns, Cláudio Louceiro, Abreu, Mário César Camargo, Mário Lércio Duarte e Roberto Barbosa

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Aprendi capoeira com o Paulo Roberto Duarte, o Paulinho, irmão do Mané, com quem eu fazia teatro. O Cláudio Louceiro, a Alda, a Maria Augusta e o Mário César também foram pra lá.

E vem daquela época a amizade com o Roberto Barbosa, que hoje é gerente de unidade do Sesc; com o Calixto de Inhamuns, dramaturgo e diretor, cheio de histórias, e que teve uma importância muito grande pra minha carreira de dramaturgo; com os irmãos Primo e Noemi Gerbelli; com o Ednaldo Freire, parceria que começou nos tempos de teatro amador e que permanece até hoje com a Fraternal Companhia de Arte e Malas-artes. Enfim, gente com quem mantenho la-

ços fraternos, com quem dou risada sempre que lembro daqueles tempos em que o Teatro tinha de suportar um ator medíocre como eu...

O primeiro trabalho que fiz no Centro Cultural foi A Exceção e a Regra, do Brecht, com direção do Mário. Eu consegui ser escalado pro papel do comerciante; tinham também o carregador, o juiz, a estalajadeira, a mulher do carregador.

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E o guia da nossa caravana que estava no deser-to, andando centenas de quilômetros, era um colega chamado Isaías. Só que tinha um detalhe: o Isaías tivera um problema de paralisia infantil, de modo que a tal caravana, que já estava numa situação crítica, tinha como guia um homem que era manco! Devia ser muito engraçado, hoje a gente ri, mas na época a gente achava isso muito sério e cheio de conotações. Pra nós, fazer aquele Brecht era uma forma de ativismo polí-

tico. Porque naquela época estava se iniciando a guerrilha urbana, com algumas ramificações pelo ABC. E eu, recém-saído do seminário, estava sentindo os primeiros ecos do mundo, da grande rebeldia que estava havendo no mundo inteiro e que, agora, repercutia naqueles arrabaldes onde vivíamos. Queríamos fazer parte dessa luta com a nossa caravana, inspirados pelo Teatro de Arena que, naquele período, estava encerrando sua caminhada.

Depois da montagem do Brecht, emendamos A Revolução dos Beatos, do Dias Gomes, com dire-

ção do Sérgio Rossetti.

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Lá eu acho que comecei a encarar com mais seriedade e consciência o trabalho do ator: dic-

ção, concentração, objetivos em cena, relação entre palco e platéia, essas coisas. Antes, apesar de ler e estudar muito, eu era um “emissor de texto” e pronto. Em seguida, Roberto Vignati nos dirigiu na montagem de Tempo dos Inocentes, Tempo dos Culpados, de Sigfried Lenz –

outra peça política, que denunciava claramen-te a repressão e a ditadura. Dessa vez fizemos seminários, estudos, foi uma coisa bem séria.

E também tivemos contato com outro recurso, popular na década de 1970: o laboratório. Quem se lembra daquilo?! Ensaios com todo mundo pelado; investigação das emoções – quem não chorasse é porque tinha sérios problemas emocio-nais – gritos, gente se arrastando pelo chão...

Uma vez, ficamos confinados numa fazenda abandonada no município de Boituva, em São Paulo. A proposta era que vivenciássemos experiências de perseguição, delação e tortura – deveríamos fazer prisioneiros, denunciar esconderi-63

jos, simular situações de violência. Só que sempre tinham aqueles que faziam a coisa pra valer...

Então um deles, o Ailton, se escondeu tão bem que ninguém conseguia encontrá-lo. Horas e horas procurando, chamando e ele não respondia! Fomos ficando temerosos, irritados - aquilo já estava ficando real demais... De repente o Mané grita: Achei! Achei! O bicho estava enca-rapitado no alto de um eucalipto! E quem disse que ele descia? Chamávamos, dizíamos que o laboratório tinha acabado, o próprio diretor deu ordem pra ele descer. Nada.

Aquilo é que era devoção ao papel! Até que o Mané teve a “brilhante idéia”: fazer um archote com jornal e ficar atiçando o colega até ele descer!

Não é que deu certo? E na hora que o Ailton pulou, fizemos questão de retomar nossos personagens e o levamos pra sessão de tortura – agora com um sabor a mais... Engraçado, todos os anos nos reencontramos pra confraternizar, mas não tivemos mais notícia do Ailton. Por que será?

Para a montagem de Tempo dos Inocentes, Tempo dos Culpados mudamos o nome do grupo para 64

Doces e Salgados, numa referência ao Jornal da Tarde que, durante a ditadura, publicava receitas culinárias no lugar das notícias proibidas pela censura. Período muito produtivo aquele. Levamos a peça por dois anos, de 1973 a 1975, e aí eu tive de dar uma parada com teatro. Foi uma fase, diga-mos, intermediária – estava desempregado, o casamento estava por um fio e eu ainda não sabia direito o que queria da minha vida...

Fui para o jornalismo. O Mário César, que era redator no jornal A Gazeta de São Bernardo, tinha

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gostado de um conto meu e convidou pra trabalhar com ele, como redator e revisor. O conto se chamava Plaza Manzon, sei lá onde foi parar...

Foi o primeiro conto que comecei e fui até o fim.

Todo existencialista, falava de um jovem meio perdido numa ditadura e que acabava morrendo fuzilado pela repressão! Bem, logo depois que eu entrei, a Gazeta demitiu todo mundo e lá vou eu mostrar o meu conto, dessa vez pro Celso Lungaretti. Bingo de novo. O jovem fuzilado me abriu as portas pra agência Lemos Brito, onde trabalhei como redator de promoções e assessor 65

de imprensa. Mudei de emprego e me separei.

Sem ter para onde ir e sem querer voltar pra casa da mãe, “acampei” por uns seis meses na quiti-nete do Celso, na Avenida 9 de Julho. Agora podia retomar o teatro.

O Ednaldo me chamou. Ele, a Maria Taboão, a Terezinha e o Roberto queriam fazer uma peça a partir da pesquisa sobre o problema de grila-gem de terras em Itaquaquecetuba, devido à construção da Rodovia dos Imigrantes. Pesquisa-mos e escrevemos o texto, chamava-se Guatá km 38. Foi minha primeira experiência de dramaturgia porque todo mundo colaborou, mas a maior parte do texto fui eu que escrevi. Tinha mui-66

to do engajamento daquele momento, estávamos animados em dar a nossa contribuição! O

Jorge Andrade estava coordenando o Departa-mento de Cultura de São Bernardo naquela épo-ca e o nosso diretor, Sérgio Rossetti, levou o texto pra ele ler. Maniqueísta, foi a sentença.

Eu fiquei muito frustrado, mas ele tinha razão.

O texto acabou indo pra gaveta.

Decidi estudar Jornalismo – poderia ganhar dinheiro escrevendo, que era o que eu gostava.

Então, em 1977, prestei vestibular na Faculdade Metodista de São Bernardo e passei. Escrevi mais alguns contos e uma nova peça, dessa vez sozinho: A Estranha Lógica de Antonio Craveiro, que mesclava diálogos e poemas. Naquela época eu estava morando com o Ednaldo, o Calixto e o Cláudio Campana no Bairro Jardim, em Santo André. A gente chamava o lugar de favelão, porque você imagine quatro marmanjos relaxa-dos dividindo uma casa, com dinheiro que só dava pro aluguel. Comer? De vez em quando.

Uma noite, chegamos em casa mortos de fome e vibramos com a panela de pressão fechadinha em cima do fogão. Preparamos a mesinha, pega-67

mos prato e colher e fizemos fila. Quando abri-mos a panela, o Ednaldo tirou de dentro uma cueca ensopada! O Calixto tinha colocado a cueca na pressão pra lavar! Como pudemos sobreviver a tudo aquilo?...

Eu tinha saído da Lemos Brito e me mantinha com alguns trocados que ganhava dando aulas de xadrez em Mauá, no ABC. Embora jogasse bem, aquilo era uma piada. A Prefeitura me contratara como instrutor, eu deveria preparar os alunos para competirem nos Jogos Regionais.

Muito bem. Primeiro jogo: 4 X 0. Pros adversá-

rios. Não vamos desanimar! Ainda temos mais dois jogos pela frente, o importante é competir!

Segundo jogo: 4 X 0. Terceiro jogo, idem. Defini-tivamente, eu jamais ganharia a vida como instrutor de xadrez. Mas o que fazer? Eu gostava de teatro, mas que caminho tomar?

Tem uma frase do Ralph Waldo Emerson que eu gosto muito e que diz, mais ou menos, assim: Toma muito cuidado com o que quer de cora-

ção, pois você está arriscado a conseguir. Já 68

estava com 25 anos e aquela indefinição chegou no seu ponto máximo. Então eu me dei um ultimato: ou eu assumia a carreira profissional e séria em teatro, conquistando um lugar e um trabalho sistemático, ou eu desistiria de vez. O

prazo: cinco anos.

Capítulo III

Um Dramaturgo de Verdade

Não terminei o curso de Jornalismo. Parei no último semestre, bem na reta final. Sabe aqueles dilemas que de vez em quando a vida coloca na nossa frente? Foi isso o que aconteceu. E, no meu caso, não foi tão difícil decidir.

Depois que eu abandonara a promissora carrei-69

ra de instrutor de xadrez, me empreguei como assessor de imprensa na Prefeitura de Ribeirão Pires – sem nem imaginar que anos depois volta-ria pra lá, como morador. Ednaldo e Calixto, naquela altura, estavam trabalhando no Grupo de Teatro Mambembe, em São Paulo. Nós ainda morávamos juntos e eu cheguei a escrever uma cena pra eles, baseada no tema da inflação. O

projeto não foi pra frente e eles montaram Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, texto do Soffredini, dramaturgo oficial do grupo. Dois anos se passaram e, em 1979, aparece uma nova oportunidade: Soffredini tinha se mudado pra Bahia e o Calixto me chama pra escrever a próxima peça do Mambembe. Dessa vez seria pra valer. Foi um dilema... Eu estava mais uma vez desempregado e voltara pra casa da minha mãe. O diplo-ma de Jornalismo me daria ao menos perspectivas de um trabalho regular. Concluir a faculdade ou aproveitar a oportunidade de escrever para um grupo profissional? O ultimato martelava na minha cabeça. Respirei fundo e decidi: o teatro.

De vez em quando me arrependo de não ter concluído o curso superior, principalmente 70

porque gosto muito de lecionar e isso poderia abrir meu caminho na Universidade. Mas acho que foi uma decisão acertada. Me entre-guei de corpo e alma para aquele projeto e foi graças a ele que iniciei minha carreira profissional de dramaturgo.

A peça se chamou Foi Bom, Meu Bem? e o tema era sexo, ou melhor, a vida sexual do brasileiro.

Todo animado optei por começar com uma cena bem simbólica, séria, tratando do mito do andró-

gino, aquela coisa toda. Fracasso total.

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O grupo não gostou, achou que não era muito teatral. Resolvi mudar de rumo, dar um apanha-do histórico sobre a sexualidade. Acho que eles pensavam: quem trouxe esse cara, hein? Ninguém gostou, era muito teórico. Fiquei balan-

çado mesmo! E o Calixto me apoiando: vai dar certo, continua escrevendo, não se preocupe, eu garanto. Foi aí que tivemos um estalo: por que não trabalhar com base na nossa própria vivência?

Dessa forma, cheguei a uma idéia de trabalhar infância, adolescência e vida adulta. Aí começou a dar certo, eles achavam as cenas engraçadas e eu descobri que sabia fazer comédia.

Aprendi muito escrevendo Foi Bom, Meu Bem?

Percebi, na prática, por exemplo, que uma estrutura prévia é muito importante. Antes eu ia escrevendo conforme as idéias iam surgindo. Isso não é nada produtivo! Então eu fui relacionando os tópicos que queria trabalhar, fui cercando o 72