Macário por Álvares de Azevedo - Versão HTML

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Universidade da Amazônia

Macário

de Álvares de Azevedo

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... e o gênio traz sempre um sinal que se reconhece em toda a parte (e em qualquer tempo)—uma auréola na fronte que brilha sob todos os firmamentos, uma senha e um ataque Iramita que se traduz em todas as línguas.

Álvares de Azevedo

No ceticismo do Candide voltaireano, depois do ultimo soluço há o abafamento bochorral do nada, a treva do não-ser.

Álvares de Azevedo

Macário

de Álvares de Azevedo

Puff

Criei para mim algumas idéias teóricas sobre o drama. Algum dia, se houver tempo e vagar, talvez as escreva e de a lume.

O meu protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego — a forca das paixões ardentes de Shakespeare, de Marlowe e Otway, a imaginação de Calderon de la Barca e Lope de Vega, e a simplicidade de Esquilo e Eurípedes — alguma coisa como Goethe sonhou, e cujos elementos eu iria estudar numa parte dos dramas dele — em Goetz de Berlichingen, Clavijo, Egmont, no episódio da Margarida de Faust — e a outra na simplicidade ática de sua Ifigênia. Estudá-lo-ia talvez em Schiller, nos dois dramas do Wallenstein, nos Salteadores, no D. Carlos: estudá-lo-ia ainda na Noiva de Messina com seus coros, com sua tendência à regularidade.

É um tipo talvez novo, que não se parece com o misticismo do teatro de Werner, ou as tragédias teogônicas de OEhlenschläger e ainda menos com o de Kotzebue ou o de Victor Hugo e Dumas.

Não se pareceria com o de Ducis, nem com aquela tradução bastarda, verdadeira castração do Otelo de Shakespeare, feita pelo poeta sublime do Chatterton, o conde Vigny.— Quando não se tem alma adejante para emparelhar com o gênio vagabundo do autor de Hamlet, haja ao menos modéstia bastante para não querer emendá-la. Por isso o Otelo de Vigny é morto. É uma obra de talento, mas devia ser um rasgo de gênio.

Emendá-lo? pobres pigmeus que querem limar as monstruosidades do Colosso! Raça de Liliput que queria aperfeiçoar os membros do gigante — disforme para eles — de Gulliver!

E digam-me: que é o disforme? há ai um anão ou um gigante? Não é assim que eu o entendo. Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir-se ardente — mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações-cadáveres, como a pilha galvânica as fibras nervosas do morto!

Não: o que eu penso é diverso. É uma grande idéia que talvez nunca realize.

É difícil encerrar a torrente de fogo dos anjos decaídos de Milton ou o pântano de sangue e lágrimas do Alighieri dentro do pentâmetro de mármore da tragédia antiga.

Contam que a primeira idéia de Milton foi fazer do Paraíso Perdido uma tragédia —

um mistério — não sei o quê: não o pôde; o assunto transbordava, crescia; a 2

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torrente se tornava num oceano. É difícil marcar o lugar onde pára o homem e começa o animal, onde cessa a alma e começa o instinto — onde a paixão se torna ferocidade. É difícil marcar onde deve parar o galope do sangue nas artérias, e a violência da dor no crânio.— Contudo, deve haver e o há — um limite às expansões do ator, para que não haja exageração, nem degenere num papel de fera o papel de homem. O Pobre Idiota tem esse defeito entre mil outros. A cena do subterrâneo é interessante, mas é de um interesse semelhante àquele que excitava o Jocko ou o homem das matas — aquele macaco representado por Morietti que fazia chorar a platéia.

O Pobre Idiota representa o idiotismo do homem caído na animalidade. O ator fez o papel que devia — não exagerou — representou a fera na sua fúria, — uma fera, onde por um enxerto caprichoso do imitador de Hauser havia um amor poético por uma flor — e uma estampa!

A vida e só a vida! mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sanguenta — eis o drama. Se eu escrevesse, se minha pena se desvairasse na paixão, eu a deixaria correr assim. Iago enganaria o Mouro, trairia Cássio, perderia Desdêmona e desfrutaria a bolsa de Rodrigo. Cássio seria apunhalado na cena.

Otelo sufocaria sua Veneziana com o travesseiro, escondê-la-ia com o cortinado quando entrasse Emília: chamaria sua esposa — a whore — e gabar-se-ia de seu feito. O honest, most honest Iago viria ver a sua vítima, Emília soluçando a mostraria ao demônio; o Africano delirante, doido de amor, doido de a ter morto, morreria beijando os lábios pálidos da Veneziana. Hamlet no cemitério conversaria com os coveiros, ergueria do chão a caveira de Yorick, o truão; Ofélia coroada de flores cantaria insana as balatas obscenas do povo: Laertes apertaria nos braços o cadáver da pobre louca. Orlando no What you will penduraria suas rimas de Rosalinda nos arvoredos dos Cevennes. Isto seria tudo assim.

Se eu imaginasse o Otelo, seria com todo o seu esgar, seu desvario selvagem, com aquela forma irregular que revela a paixão do sangue. É que as nódoas de sangue quando caem no chão não têm forma geométrica. As agonias da paixão, do desespero e do ciúme ardente quando coam num sangue tropical não se derretem em alexandrinos, não se modulam nas falas banais dessa poesia de convenção que se chama — conveniências dramáticas.

Mas se eu imaginasse primeiro a minha idéia, se a não escrevesse como um sonâmbulo, ou como falava a Pitonisa convulsa agitando-se na trípode, se pudesse, antes de fazer meu quadro, traçar as linhas no painel, falo-ia regular como um templo grego ou como a Atália, arquétipa de Racine.

São duas palavras estas, mas estas duas palavras têm um fim: é declarar que o meu tipo, a minha teoria, a minha utopia dramática, não é esse drama que aí vai.

Esse é apenas como tudo que até hoje tenho esboçado, como um romance que escrevi numa noite de insônia — como um poema que cismei numa semana de febre — uma aberração dos princípios da ciência, uma exceção às minhas regras mais íntimas e sistemáticas. Esse drama é apenas uma inspiração confusa — rápida

— que realizei à pressa como um pintor febril e trêmulo.

Vago como uma aspiração espontânea, incerto como um sonho; como isso o dou, tenham-no por isso. Quanto ao nome, chamem-no drama, comédia, dialogismo:

— não importa. Não o fiz para o teatro: é um filho pálido dessas fantasias que se apoderam do crânio e inspiram a Tempestade a Shakespeare, Beppo e o IX Canto de D. Juan a Byron; que fazem escrever Anunciata e O Conto de Antônia a quem é Hoffmann ou Fantasio ao poeta de Namouna.

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PRIMEIRO EPISÓDIO

Numa estalagem da estrada

Macário (falando para fora)

Olá, mulher da venda! Ponham-me na sala uma garrafa de vinho, façam-me a cama e mandem-me ceia: palavra de honra que estou com fome! Dêem alguma ponta de charuto ao burro que está suado como um frade bêbado! Sobretudo não esqueçam o vinho!

Uma Voz — Há aguardente unicamente, mas boa.

Macário — Aguardente! Pensas que sou algum jornaleiro?... Andar seis léguas e sentir-se com a goela seca. Ó mulher maldita! aposto que também não tens água?

A Mulher — E pura, senhor! Corre ali embaixo uma fonte que limpa como o vidro e fria como uma noite de geada. (Saí) .

Macário — Eis ai o resultado das viagens. Um burro frouxo. uma garrafa vazia. (Tira uma garrafa do bolso). Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de luar, ergue-se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais fortes!

E eis-te aí vazia, minha garrafa! vazia como mulher bela que morreu! Hei de fazer-te uma nênia. E não ter nem um gole de vinho! Quando não há o amor, há o vinho; quando não há o vinho, há o fumo; e quando não há amor, nem vinho, nem fumo, há o spleen. O spleen encarnado na sua forma mais lúgubre naquela velha taverneira repassada de aguardente que tresanda!

(Entra a mulher com uma bandeja).

A Mulher — Eis aqui a ceia.

Macário — Ceia! que diabo de comida verde é essa? Será algum feixe de capim?

Leva para o burro.

A Mulher — São couves.

Macário — Leva para o burro.

A Mulher — É fritado em toicinho

Macário — Leva para o burro com todos os diabos!

(Atira-lhe o prato na cabeça. A mulher sai. Macário come).

O Desconhecido (entrando) — Boa-noite, companheiro.

Macário (comendo) — Boa-noite

O Desconhecido — Tendes um apetite!

Macário — Entendo-vos. Quereis comer? sentai-vos. Quereis conversar? esperai um pouco.

O Desconhecido — Esperarei. (Senta-se).

Macário (comendo) — Parece-me que não é a primeira vez que vos encontro.

Quando a noite caía, ao subir da garganta da serra O Desconhecido — Um vulto com um ponche vermelho e preto roçou a bota por vossa perna...

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Macário — Tal e qual — por sinal que era fria como o focinho de um cão.

O Desconhecido — Era eu.

Macário — Há um lugar em que estende-se um vale cheio de grama. À direita corre uma torrente que corta a estrada pela frente... Há uma ladeira mal calçada que se perde pelo mato...

O Desconhecido — Aí encontrei-vos outra vez... A propósito, não bebeis ?

Macário — Pois não sabeis? Essa maldita mulher só tem aguardente; e eu que sou capaz de amar a mulher do povo como a filha da aristocracia, não posso beber o vinho do sertanejo...

O Desconhecido — (Tira uma garrafa do bolso e derrama vinho no copo de Macário). Ah!

Macário — Vinho! (Bebe). À fé que é vinho de Madeira! À vossa saúde, cavalheiro!

O Desconhecido — À vossa. (Tocam os copos) .

Macário — Tendes as mãos tão frias!

O Desconhecido — É da chuva. (Sacode o ponche). Vede: estou molhado até os ossos!

Macário — Agora acabei: conversemos ..

O Desconhecido — Vistes-me duas vezes. Eu vos vi ainda outra vez. Era na serra, no alto da serra. A tarde caía, os vapores azulados do horizonte se escureciam. Um vento frio sacudia as folhas da montanha e vós contempláveis a tarde que caía.

Além, nesse horizonte, o mar como uma linha azul orlada de escuma e de areia—e no vale, como bando de gaivotas brancas sentadas num paul, a cidade que algumas horas antes tínheis deixado. Daí vossos olhares se recolhiam aos arvoredos que vos rodeavam, ao precipício cheio das flores azuladas e vermelhas das trepadeiras, às torrentes que mugiam no fundo do abismo, e defronte víeis aquela cachoeira imensa que espedaça suas águas amareladas, numa chuva de escuma, nos rochedos negros do seu leito. E olháveis tudo isso com um ar perfeitamente romântico. Sois poeta?

Macário — Enganai-vos. Minha mula estava cansada. Sentei-me ali para descansá-la. Esperei que o fresco da neblina a reforçasse. Nesse tempo divertia-me em atirar pedras no despenhadeiro e contar os saltos que davam.

O Desconhecido — É um divertimento agradável.

Macário — Nem mais nem menos que cuspir num poço, matar moscas, ou olhar para a fumaça de um cachimbo A minha mala (Chega à janela). Ó mulher da casa!

olá! o de casa!

A Voz (de fora) — Senhor!

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Macário — Desate a mala de meu burro e traga-m'a aqui .

A Voz — O burro?

Macário — A mala, burro!

A Voz — A mala com o burro?

Macário — Amarra a mala nas tuas costas e amarra o burro na cerca.

A Voz — O senhor é o moço que chegou primeiro?

Macário — Sim. Mas vai ver o burro.

A Voz — Um moço que parece estudante?

Macário — Sim. Mas anda com a mala.

A Voz — Mas como hei-de ir buscar a mala? Quer que vá a pé?

Macário — Esse diabo é doido! Vai a pé, ou monta numa vassoura como tua mãe!

A Voz — Descanse, moço. O burro há-de aparecer. Quando madrugar iremos procurar.

Outra Voz — Havia de ir pelo caminho do Nhô Quito. Eu conheço o burro…

Macário — E minha mala?

A Voz — Não vê? Está chovendo a potes!...

Macário (fecha a janela) — Malditos! (Atira com ama cadeira no chão).

O Desconhecido — Que tendes, companheiro?

Macário — Não vedes? O burro fugiu...

O Desconhecido — Não será quebrando cadeiras que o chamareis..

Macário — Porém a raiva...

O Desconhecido — Bebei mais um copo de Madeira. (Bebem). Levais de certo alguma preciosidade na mala? (Sorri-se).

Macário — Sim ...

O Desconhecido — Dinheiro?

Macário — Não, mas...

O Desconhecido — A coleção completa de vossas cartas de namoro, algum poema em borrão, alguma carta de recomendação?

Macário — Nem isso, nem aquilo... Levo...

O Desconhecido — A mala não pareceu-me muito cheia. Senti alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de vinho?

Macário — Não! não! mil vezes não! Não concebeis, uma perda imensa, irreparável... era o meu cachimbo ..

O Desconhecido — Fumais?

Macário — Perguntai de que serve o tinteiro sem tinta, a viola sem cordas, o: copo sem vinho, a noite sem mulher — não me pergunteis se fumo!

O Desconhecido (Dá-lhe um cachimbo) — Eis aí um cachimbo primoroso. É de pura escuma do mar. O tubo é de pau de cereja. O bocal é de âmbar.

Macário — Bofé! Uma Sultana o fumaria! E fumo?

O Desconhecido — É uma invenção nova. Dispensa-o. Acendei-o na vela. (Macário acende).

Macário — E vós?

O Desconhecido — Não vos importeis comigo. (Tira outro cachimbo e fuma) Macário — Sois um perfeito companheiro de viagem. Vosso nome?

O Desconhecido — Perguntei-vos o vosso?

Macário — O caso é que é preciso que eu pergunte primeiro. Pois eu sou um estudante. Vadio ou estudioso, talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só: amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o romantismo.

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O Desconhecido — Tocai! Sois um digno rapaz. (Apertam a mão).

Macário — Gosto mais de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhos, ao luar sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma cantiga. O luar é sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono.

O Desconhecido — E a poesia?

Macário — Enquanto era a moeda de oiro que corria só pela mão do rico, ia muito bem. Hoje trocou-se em moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de taverna que não tenha esse vintem azinhavrado. Entendeis-me?

O Desconhecido — Entendo. A poesia, de popular tornou-se vulgar e comum.

Antigamente faziam-na para o povo; hoje o povo a faz para ninguém .

Macário (bebe) — Eu vos dizia pois Onde tínhamos ficado?

O Desconhecido — Não sei. Parece-me que falávamos sobre o Papa.

Macário — Não sei: creio que o vosso vinho subiu-me à cabeça. Puah! vosso cachimbo tem sarro que tresanda!

O Desconhecido — Sois triste, moço... Palavra que eu desejaria ver essa poesia vossa.

Macário — Por quê?

O Desconhecido — Porque havia ser alegre como Arlequim assistindo a seu enterro...

Macário — Poesias a quê?

O Desconhecido — À luz, ao céu, ao mar...

Macário — O mar é uma coisa soberanamente insípida... O enjôo é tudo quanto há mais prosaico. Sou daqueles de quem fala o corsário de Byron "whose soul would sicken o'er the heaving wave".

O Desconhecido — E enjoais a bordo?

Macário — É a única semelhança que tenho com D. Juan.

O Desconhecido — Modéstia!

Macário — Pergunta à taverneira se apertei-lhe o cotovelo, pisquei-lhe o olho, ou pus-lhe a mão nas tetas

O Desconhecido — Um dragão!

Macário — Uma mulher! Todas elas são assim. As que não são assim por fora o são por dentro. Algumas em falta de cabelos na cabeça os têm no coração. As mulheres são como as espadas, às vezes a bainha é de oiro e de esmalte e a folha é ferrugenta.

O Desconhecido — Falas como um descrido, como um saciado! E contudo ainda tens os beiços de criança! Quantos seios de mulher beijaste além do seio de tua ama de leite? Quantos lábios além dos de tua irmã?

Macário — A vagabunda que dorme nas ruas, a mulher que se vende corpo e alma, porque sua alma é tão desbotada como seu corpo, te digam minhas noites. Talvez muita virgem tenha suspirado por mim! Talvez agora mesmo alguma donzela se ajoelhe na cama e reze por mim!

O Desconhecido — Na verdade és belo. Que idade tens?

Macário — Vinte anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro homem em quarenta.

O Desconhecido — E amaste muito?

Macário — Sim e não. Sempre e nunca.

O Desconhecido — Fala claro.

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Macário — Mais claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas que tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito e sempre! Se chamas o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa, que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é mais doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais divina que a dela—eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um charuto e uma chávena de café lembro-me às vezes de alguma forma divina, morena, branca, loira, de cabelos castanhos ou negros. Tenho-as visto que fazem empalidecer — e meu peito parece sufocar meus lábios se gelam, minha mão se esfria... Parece-me então que se aquela mulher que me faz estremecer assim soltasse sua roupa de veludo e me deixasse por os lábios sobre seu seio um momento, eu morreria num desmaio de prazer! Mas depois desta vem outra — mais outra — e o amor se desfaz numa saudade que se desfaz no esquecimento. Como eu te disse, nunca amei.

O Desconhecido — Ter vinte anos e nunca ter amado! E para quando esperas o amor?

Macário — Não sei. Talvez eu ame quando estiver impotente!

O Desconhecido — E o que exigirias para a mulher de teus amores?

Macário — Pouca coisa. Beleza, virgindade, inocência, amor O Desconhecido (irônico) — Mais nada?

Macário — Notai que por beleza indico um corpo bem feito, arredondado, setinoso, uma pele macia e rosada, um cabelo de seda-froixa e uns pés mimosos O Desconhecido — Quanto à virgindade?

Macário — Eu a quereria virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão Que Deus a tivesse criado adormecida na alma até ver-me como aquelas princesas encantadas dos contos — que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá-la santa! Quereria que ela viesse criança transformar-se em mulher nos meus beijos.

O Desconhecido — Muito bem, mancebo! E esperas essa mulher?

Macário — Quem sabe!

O Desconhecido — E é no lodo da prostituição que hás-de encontrá-la?

Macário — Talvez! É no lodo do oceano que se encontram as pérolas O Desconhecido — Em mau lugar procuras a virgindade! É mais fácil achar uma pérola na casa de um joalheiro que no meio das areias do fundo do mar.

Macário — Quem sabe!..

O Desconhecido — Duvidas pois?

Macário — Duvido sempre. Descreio às vezes. Parece-me que este mundo é um logro. O amor, a glória, a virgindade, tudo é uma ilusão.

O Desconhecido — Tens razão: a virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?

Macário — Tens razão: a virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo.— Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.

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O Desconhecido — E contudo bebes o amor nos lábios de argila da mulher corrupta!

Macário — O amor? Que te disse que era o amor? É uma fome impura que se sacia. O corpo faminto é como o conde Ugolino na sua torre — morderia até num cadáver.

O Desconhecido — Tua comparação é exata. A meretriz é um cadáver.

Macário — Vale-nos ao menos que sobre seu peito não se morre de frio!

O Desconhecido — Admira-me uma coisa. Tens vinte anos: deverias ser puro como um anjo e és devasso como um cônego!

Macário — Não é que eu não voltasse meus sonhos para o céu. A cisterna também abre seus lábios para Deus, e pede-lhe uma água pura — e o mais das vezes só tem lodo. Palavra de honra—que às vezes quero fazer-me frade.

O Desconhecido — Frade! Para quê?

Macário — É uma loucura. Enche esse copo. (Bebe) Pela Virgem Maria! Tenho sono. Vou dormir.

O Desconhecido — E eu também Boa-noite.

Macário — Ainda uma vez, antes de dormir, o teu nome?

O Desconhecido — Insistes nisso?

Macário — De todo o meu coração. Sou filho de mulher.

O Desconhecido — Aperta minha mão. Quero ver se tremes nesse aperto ouvindo meu nome.

Macário — Juro-te que não, ainda que fosses O Desconhecido — Aperta minha mão. Até sempre: na vida e na morte!

Macário — Até sempre, na vida e na morte!

O Desconhecido — E o teu nome?

Macário — Se não fosse enjeitado, dir-te-ia o nome de meu pai e o de minha mãe.

Era de certo alguma libertina. Meu pai, pelo que penso, era padre ou fidalgo.

O Desconhecido — Eu sou o diabo. Boa-noite, Macário.

Macário — Boa-noite, Satan. (Deita-se. O desconhecido sai). O diabo! uma boa fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda! A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles — Olá, Satan!

Satan — Macário

Macário — Quando partimos?

Satan — Tens sono?

Macário — Não

Satan Então já.

Macário — E o meu burro?

Satan — Irás na minha garupa. Num caminho. Satan montado num barro preto; Macário na garupa.

Macário — Pára um pouco teu burro.

Satan — Não queres chega.

Macário — É que ele tem um trote inglês de desesperar os intestinos.

Satan — E contudo este burro descende em linha reta do burro em que fez a sua entrada em Jerusalém o filho do velho carpinteiro José. Vês pois que é fidalgo como um cavalo árabe.

Macário — Tudo isso não prova que ele não trota danadamente. Falta-nos muito para chegar?

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Satan — Não. Daqui a cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma essa de enterro.

Macário — Tenho ânsia de lá chegar. É bonita?

Satan (boceja) — Ah! é divertida.

Macário — Por acaso também há mulheres ali?

Satan — Mulheres, padres, soldados e estudantes. As mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isto salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante, tu.

Macário — Esta cidade deveria ter o teu nome.

Satan — Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge.

Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calcadas!

Macário — Que têm?

Satan — São intransitáveis. Parecem encastoadas as tais pedras. As calçadas do inferno são mil vezes melhores.Mas o pior da história é que as beatas e os cônegos cada vez que saem, a cada topada, blasfemam tanto com o rosário na mão que já estou enjoado. Admiras-te? por que abres essa boca espantada? Antigamente o diabo corria atrás dos homens, hoje são eles que rezam pelo diabo. Acredita que faço-te um favor muito grande em preferir-te à moça de um frade que me trocaria pelo seu Menino Jesus, e a um cento de padres que dariam a alma, que já não tem, por uma candidatura.

Macário — Mas, como dizias, as mulheres Satan — Debaixo do pano luzidio da mantilha, entre a renda do véu, com suas faces cor-de-rosa, olhos e cabelos pretos (e que olhos e que longos cabelos!) são bonitas.

Demais, são beatas como uma bisavó; e sabem a arte moderna de entremear uma Ave-Maria com um namoro; e soltando uma conta do rosário lançar uma olhadela.

Macário Oh! a mantilha acetinada! os olhares de Andaluza! e a tez fresca como uma rosa! os olhos negros, muito negros, entre o véu de seda dos cílios. Apertá-las ao seio com seus ais, seus suspiros, suas orações entrecortadas de soluços!

Beijar-lhes o seio palpitante e a cruz que se agita no seu colo! Apertar-lhes a cintura, e sufocar-lhes nos lábios uma oração! Deve ser delicioso!

Satan — Tá! tát! tá— Que ladainha! parece que já estás enamorado, meu Dom Quixote, antes de ver as Dulcinéias!

Macário — Que boa terra! E o Paraíso de Mafoma!

Satan — Mas as moças poucas vezes têm bons dentes. A cidade colocada na montanha, envolta de várzeas relvosas, tem ladeiras íngremes e ruas péssimas. É

raro o minuto em que não se esbarra a gente com um burro ou com um padre. Um médico que ali viveu e morreu deixou escrito numa obra inédita, que para sua desgraça o mundo não há-de ler, que a virgindade era uma ilusão. E contudo, não há em parte algumas mulheres que tenham sido mais vezes virgens que ali.

Macário — Tem-se-me contado muito bonitas histórias. Dizem na minha terra que aí, à noite, as moças procuram os mancebos, que lhes batem à porta, e na rua os puxam pelo capote Deve ser delicioso! Quanto a mim, quadra-me essa vida excelentemente, nem mais nem menos que um Sultão escolherei entre essas belezas vagabundas a mais bela. Aplicarei contudo o ecletismo ao amor. Hoje uma, 10

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amanhã outra: experimentarei todas as taças. A mais doce embriaguez é a que resulta da mistura dos vinhos.

Satan — A única que tu ganharás será nojenta. Aquelas mulheres são repulsivas. O

rosto é macio, os olhos lânguidos, o seio moreno Mas o corpo é imundo. Tem uma lepra que ocultam num sorriso. Bofarinheiras de infâmia dão em troca do gozo o veneno da sífilis. Antes amar uma lazarenta!

Macário — És o diabo em pessoa. Para ti nada há bom. Pelo que vejo, na criação só há uma perfeição, a tua. Tudo c mais nada vale para ti. Substância da soberba, ris de tudo o mais embuçado no teu desdém. Há uma tradição, que quando Deus fez o homem, veio Satan; achou a criatura adormecida, apalpou-lhe o corpo: achou-o perfeito, e deitou aí as paixões.

Satan — Essa história é uma mentira. O que Satan pôs ai foi o orgulho. E o que são vossas virtudes humanas senão a encarnação do orgulho?

Macário — Oh! Ali vejo luzes ao longe. Uma montanha oculta no horizonte.

Disséreis em pântano escuro, cheio de fogos errantes. Porque paras o teu animal?

Satan — Tenho uma casa aqui na entrada da cidade. Entrando à direita, defronte do cemitério. Sturn, meu pajem, lá está preparando a ceia. Levanta-te sobre meus ombros: não vês naquele palácio uma luz correr uma por uma as janelas? Sentiram a minha chegada.

Macário — Que ruínas são estas? É uma igreja esquecida? A lua se levanta ao longe nas montanhas. Sua luz horizontal banha o vale, e branqueia os pardieiros escuros do convento. Não mora ali ninguém? Eu tinha desejo de correr aquela solidão.

Satan — É uma propensão singular a do homem pelas ruínas. Devia ser um frade bem sombrio, ébrio de sua crença profunda, o Jesuíta que aí lançou nas montanhas a semente dessa cidade. Seria o acaso quem lhe pôs no caminho, à entrada mesmo, um cemitério à esquerda e umas ruínas à direita?

Macário — Se quisesses, Satan, podíamos descer pelo despenhadeiro, e ir ter lá embaixo, enquanto Sturn prepara ceia.

Satan — Não, Macário. Minha barriga está seca como a de um eremita: deves também ter fome. Molhar os pés no orvalho não deve ser bom para quem vem de viagem. Vamos cear. Daqui a pouco o luar estará claro e poderemos vir.

Macário Fiat voluntas tua.

Satan — Amam! Ao luar. Junto de uma janela está uma mesa.

Satan — Então, não bebes, Macário? Que tens, que estás pensativo e sombrio?

Olha, desgraçado, é verdadeiro vinho do Reno que desdenhas!

Macário — E tu és mesmo Satan?

Satan — É nisso que pensavas? És uma criança. De certo que querias ver-me nu e ébrio como Caliban, envolto no tradicional cheiro de enxofre! Sangue de Baco! Sou o diabo em pessoa! Nem mais nem menos: porque tenha luvas de pelica, e ande de calças à inglesa, e tenha os olhos tão azuis como uma alemã! Queres que te jure pela Virgem Maria?

Macário (bebe) — Este vinho é bom. Quando se tem três garrafas de Johannisberg na cabeça, sente-se a gente capaz de escrever um poema. O poeta árabe bem o disse—o vinho faz do poeta um príncipe e do príncipe um poeta. Sabes quem inventou o vinho?

Satan — É uma bela coisa o vapor de um charuto! E demais, o que é tudo no mundo senão vapor? A adoração é incenso e o incenso o que é? O amor é o vapor do coração que embebeda os sentidos. Tu o sabes — a glória é fumaça.

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Macário — Sim. É belo fumar! O fumo, o vinho e as mulheres! Sabes há ocasião em que dão-me venetas de viver no Oriente.

Satan — Sim... o Oriente! mas que achas de tão belo naqueles homens que fumam sem falar, que amam sem suspirar? É pelo fumo? Fuma aqui... vê, o luar está belo: as nuvens do céu parecem a fumaça do cachimbo do Onipotente que resfolga dormindo. Pelas mulheres? Faze-te vigário de freguesia...

Macário — É uma coisa singular esta vida. Sabes que às vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa Comédia que se chama o Universo?

essa Comédia onde tudo que há mais estúpido é o homem que se crê um espertalhão? Vês aquele boi que rumina ali deitado sonolento na relva? Talvez seja um filósofo profundo que se ri de nós. A filosofia humana é uma vaidade. Eis aí, nós vivemos lado a lado, o homem dorme noite a noite com uma mulher: bebe, come, ama com ela, conhece todos os sinais de seu corpo, todos os contornos de suas formas, sabe todos os ais que ela murmura nas agonias do amor, todos os sonhos de pureza que ela sonha de noite e todas as palavras obscenas que lhe escapam de dia... Pois bem—a esse homem que deitou-se mancebo com essa mulher ainda virgem, que a viu em todas as fases, em todos os seus crepúsculos, e acordou um dia com ela ambos velhos e impotentes, a esse homem, perguntai-lhe o que é essa mulher, ele não saberá dizê-lo! Ter volvido e revolvido um livro a ponto de manchar-lhe e romper-lhe as folhas, e não entendê-lo! Eis o que é a filosofia do homem! Há cinco mil anos que ele se abisma em si, e pergunta-se quem é, donde veio, onde vai, e o que tem mais juízo é aquele que moribundo crê que ignora!

Satan — Eis o que é profundamente verdade! Perguntai ao libertino que venceu o orgulho de cem virgens e que passou outras tantas noites no leito de cem devassas, perguntai a D. Juan, Hamlet ou ao Faust o que é a mulher, e . nenhum o saberá dizer. E isso que te digo não é romantismo. Amanhã numa taverna poderás achar Romeu com a criada da estalagem, verás D. Juan com Julietas, Hamlet ou Faust sob a casaca de um dandy. É que esses tipos são velhos e eternos como o sol. E a humanidade que os estuda desde os primeiros tempos ainda não entende esses míseros, cuja desgraça é não entender e o sábio que os vê a seu lado deixa esse estudo para pensar nas estrelas; o médico, que talvez foi moço de coração e amou e creu, e desesperou e descreu, ri-se das doenças da alma e só vê a nostalgia na ruptura de um vaso, o amor concentrado quando se materializa numa tísica. Se Antony ainda vive e deu-se à medicina é capaz de receitar uma dose de jalapa para uma dor íntima; um cautério para uma dor de coração!

Macário — Falas como um livro, como dizem as velhas. Só Deus ou tu sabes se o Ramée ou D. Cesar de Basan, Santa Teresa ou Marion Delorme, o sábio ou o ignorante, Creso ou Iro, Goethe ou o mendigo ébrio que canta, entenderam a vida.

Quem sabe onde está a verdade? nos sonhos do poeta, nas visões do monge, nas canções obscenas do marinheiro, na cabeça do doido, na palidez do cadáver, ou no vinho ardente da orgia? Quem sabe?

Satan — És triste como um sino que dobra. Não falemos nisto. Fala-me antes na beleza de alguma virgem nua, na languidez de uns olhos negros, na convulsão que te abala nalguma hora de deleite. A minha guitarra está ali: queres que te cante alguma modinha? Pela lua! estás distraído como um fumador de ópio!

Macário — No que penso? Hás de rir se contar-t'o. É uma história fatal.

Satan — Deixa-me acender outro charuto. Muito bem. Conta agora. É algum romance?

Macário — Não: lembrei-me agora de uma mulher. Uma noite encontrei na rua uma vagabunda. A noite era escura. Eu ia pelas ruas à toa Segui-a. Ela levou-me à sua 12

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casa. Era um casebre. A cama era um catre: havia um colchão em cima, mas tão velho, tão batido, que parecia estar desfeito ao peso dos que aí haviam-se revolvido.

Deitei-me com ela. Estive algumas horas. Essa mulher não era bela: era magra e lívida. Essa alcova era imunda. Eu estava aí frio: o contato daquele corpo amolecido não me excitava sensações: e contudo eu mentia à minha alma, dando-lhe beijos.

Eu saí dali. No outro dia de manhã voltei. A casa estava fechada. Bati. Não me responderam. Entrei:— uma mulher saiu-me ao encontro. Perguntei-lhe pela outra.

Silencio! me disse a velha.— Está deitada ali no chão Morreu esta noite E com um ar cínico

—"Quereis vê-la? está nua vão amortalhá-la".

Satan — Na verdade, é singular. E o nome dessa mulher?

Macário — Esqueci-o. Talvez amanhã eu t'o diga: amanhã ou depois, que importa um nome? E contudo essa misérrima com quem deitei-me uma noite, que pretendia ter o segredo da virgindade eterna de Marion Delorme, que me falava de amanhã com tanta certeza, que mercadejava sua noite de amanhã como vendera segunda vez a de seu hoje, e que de certo morreu pensando nos meios de excitar mais deleite, na receita da virgindade eterna que ela sabia como a antiga Marion Delorme, essa mulher que esqueci como se esquecem os que são mortos, me fez ainda agora estremecer.

Satan — E quem sabe se aquela mulher, a cujo lado estiveste não era a ventura?

Macário — Não te entendo.

Satan — Quem sabe se naquele pântano não encontrarias talvez a chave de ouro dos prazeres que deliram?

Macário — Quem sabe! Talvez.

Satan — É tarde. Agora é uma caveira a face que beijaste — uma caveira sem lábios, sem olhos e sem cabelos. O seio se desfez. A vulva onde a sede imunda do soldado se enfurnava — como um cão se sacia de lodo — foi consumida na terra.

Tudo isso é comum. É uma idéia velha não? E quem sabe se sobre aquele cadáver não correram lágrimas de alguma esperança que se desvaneceu? se com ela não se enterrou teu futuro de amor? Não gozaste aquela mulher?

Macário — Não.

Satan — Se ali ficasse mais alguma hora, talvez ela te morresse nos braços. Aquela agonia, o beijo daquela moribunda talvez regenerasse. Da morte nasce muitas vezes a vida. Dizem que se a rabeca de Paganini dava sons tão humanos, tão melodiosos, é que ele fizera passar a alma de sua mãe, de sua velha mãe moribunda, pelas cordas e pela caverna de seu instrumento. Sentes frio, que te embuges assim no teu capote?

Macário Satan, fecha aquela janela. O ar da noite me faz mal. O luar me gela.

Demais, senti nas folhagens ao longe um estremecer. Que som abafado é aquele ao longe? Dir-se-ia o arranco de um velho que estrebucha.

Satan — É a meia-noite. Não ouves?

Macário — Sim. É a meia-noite. A hora amaldiçoada, a hora que faz medo às bestas, e que acorda o ceticismo. Dizem que a essa hora vagam espíritos, que os cadáveres abrem os lábios inchados e murmuram mistérios É verdade, Satan?

Satan — Se não tivesse tanto frio, eu te levaria comigo ao campo. Eu te adormeceria no cemitério e havias ter sonhos como ninguém os tem, e como os que os têm não querem crê-los.

Macário — Bem, muito bem. Irei contigo.

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Satan — Vamos pois. Dá-me tua mão. Está fria como a de um defunto! Dentro em alguns momentos estaremos longe daqui. Dormirás esta noite um sono bem profundo.

Macário — O da morte?

Satan — Fundo como o do morto: mas acordarás, e amanhã lembrarás sonhos como um ébrio nunca vislumbrou.

Macário — Vamos — estou pronto.

Satan — Deixa-me beber um trago de curaçau.—Vamos. A lua parou no céu. Tudo dorme. É a hora dos mistérios. Deus dorme no seio da criação como Loth no regaço incestuoso de sua filha. Só vela Satan. Satan, com a mão sobre o estômago de Macário, que está deitado sobre um túmulo.

Satan — Acorda!

Macário (estremece) — Ah! pensei nunca mais acordar! Que sono profundo!

Satan — Divertiste muito à noite, não?

Macário — É horrível! horrível!

Satan — Fala.

Macário — Meu peito se exauriu. Meus lábios não podem transbordar estes mistérios.

Satan — Era pois muito medonho o que vias? Levanta-te daí.

Macário — Não posso: quebrou-se meu corpo entre os braços do pesadelo. Não posso.

Satan — Liba esse licor: uma gota bastaria para reanimar um cadáver.

Macário (toca-o nos lábios) — Que fogo! meu peito arde. Ah! ah! que dor!

Satan — Não sabes que para o metal bruto se derreter e cristalizar é míster um fogo ardente, ou a centelha magnética ?

Macário — Que sonho! Era um ar abafado — sem nuvens e sem estrelas! — Que escuridão! Ouvia-se apenas de espaço a espaço um baque como o de um peso que cai no mar e afunda-se . Às vezes vinha uma luz, como uma estrela ardente, cair e apagar-se naquela lagoa negra Depois eu vi uma forma de mulher pensativa. Era nua e seu corpo e perfeito como o de um anjo — mas era lívido como o mármore.

Seus olhos eram vidrados, os lábios brancos, e as unhas roxeadas. Seu cabelo era loiro, mas tinha uns reflexos de branco. — Que dor desconhecida a gelara assim e lhe embranquecera os cabelos? não sei. Ela se erguia às vezes, cambaleando, estremecendo suas pernas indecisas, como uma criança que tirita;— e se perdia nas trevas. Eu a segui. Caminhamos longo tempo num chão pantanoso Satan — E tu a viste parar numa torrente que transbordava de cadáveres—tomá-los um por um nos braços sem sangue, apertar se gelada naqueles seios de gelo—, revolver-se, tremer, arquejar — e erguer-se depois sempre com um sorriso amargo.

Macário — Quem era essa mulher?